Curta no Facebook

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

"(OMMCQC)" volume II, Ed. Multifoco (2013)


“ 'Matar é a nossa natureza!'.
Está aberto o reino da morte
em seu recente volume.
do prefácio da antologia,
por Afobório
(organizador e editor)


E saiu!
Chegou finalmente às minhas mãos o exemplar do livro "Os Matadores Mais Cruéis que Conheci", vol. II, (Ed. Multifoco, 2013) do qual faço parte com um dos contos ("Hoje eu vou comer sua bunda").
Trata-se de uma coletânea com 37 contos pautados pela natureza assassina do ser humano. Profissionais, amadores, estilosos, cruéis, acidentais, ... com facas, com machados, com sapatos, com pistolas,... em casa, no porão, no motel, na rua, na cadeia... Tem assassinos, assassinatos e armas para todos os gostos e estilos e gente de muito boa qualidade contando as histórias.
'Deliciem-se' com um pouco de sangue.


Cly Reis

A Via Láctea


"A Via Láctea" - REIS, Cly
chapa de compensado com pingos de tinta, cola e cortes na superfície
(foto com manipulação digital)
REIS, Cly

O Bode Espiatorio


quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Vince Guaraldi Trio - "A Charlie Brown Christmas" (1965)




" 'E, então, um anjo do Senhor desceu sobre eles,
e a glória do Senhor brilhou ao redor deles.
E eles tiveram muito medo, e o anjo disse:
‘nada temam, escutem: trago notícias alegres, que repartirei com toda a gente,
pois entre vocês nasceu, neste dia, na cidade de Davi,
um salvador, que é Cristo, nosso Senhor.’ (...)
E, de repente, ao redor do anjo, surgiu uma multidão de vozes
 celestiais louvando ao Senhor e dizendo:
‘Glória a Deus nas Alturas, e paz na Terra aos homens de boa vontade’.
Este é o significado do Natal, Charlie Brown.”
Lino Van Pelt


Quando criança, o período do Natal me era empolgante por diversos motivos. Além dos presentes, da reunião familiar e da decoração pela casa, um deles era porque, nesta época, haveria programações de tevê especiais que não se viam durante todo o ano. Era necessário esperar 12 meses para que fossem transmitidas, pois passavam somente no final de dezembro. Na Globo, depois da Missa do Galo e de alguns desenhos temáticos da Turma do Mickey, rodava, já de madrugada, um clássico hollywoodiano do nível de “E o Vento Levou”, “O Mágico de Oz” ou “Hamlet” do Zefirelli. À tarde, independente do dia que caísse o feriado, soltavam algum filmão antigo sobre o Livro Sagrado como “Rei dos Reis”, “A Bíblia” ou “Os 10 Mandamentos”. O Chaves, no SBT, repetiria pela milésima vez o episódio em que todos da vila vão cear na casa do Seu Barriga e causam a maior confusão – e eu via sempre. Dos desenhos animados, eram tradicionais os episódios natalinos. Todo desenho que se prestasse deveria ter o seu! A Manchete dava vários da Hanna-Barbera. Globo e SBT faziam o mesmo com o seu estoque: tinha Natal dos Smurfs, da Pantera Cor-De-Rosa, do Pato Donald, do Tom & Jerry e de vários outros.

Um dos que não me cansava de rever era o filme de Natal de um dos desenhos que sempre me fez a cabeça: Snoopy. Era “Merry Christimas, Charlie Brown”, o qual tinha como trilha sonora este disco: “A Charlie Brown Christmas”, da Vince Guaraldi Trio. Além de achar a série engraçada e prazerosa de ver – desde lá, já adorava os personagens, o estilo de traço do Charles Schulz, simples e expressivo, a coloração pastel, os longos diálogos, o ritmo das narrativas e todo aquele universo da turma do Minduim –, um dos elementos que mais me atraíam era, justamente, a trilha sonora. Aquilo me arrebatava, embora me fosse enigmático.

O responsável por me fazer gostar assim, ainda pequeno, com uns 7, 8 anos, de um estilo de música que eu ainda nem sabia que se chamava jazz é Vince Guaraldi. Pianista, maestro e compositor, dono de um estilo de tocar e de compor de rara sensibilidade, ele é o autor de todas as trilhas dos Peanuts desde as primeiras séries para tevê, em 1964. Todas geniais. Oriundo da cena jazz da Costa Oeste, o “Dr. Funk”, como era apelidado, ostentava um bigode pontiagudo tão caricato quanto de um desenho animado e dizia-se, modestamente, um mero “reformado pianista de boogie-woogie”, porém, mais que isso, dominava o cool, o jazz contemporâneo, o soul e o latin jazz, tornando-se influência para nomes como George Winston, Dave Brubeck, Wynton e Ellis Marsalis. Este é o primeiro disco, além das coletâneas e homenagens lançadas até hoje, dos três que produziu para a série ao longo de aproximadamente 10 anos, até sua morte prematura em 1976, aos 47 anos, vítima de um ataque cardíaco.

Pois “A Charlie Brown Christmas” é, assim como os desenhos do cachorrinho Snoopy, apaixonante. A beleza começa na faixa inicial: “O Tannenbaum”. A banda, composta por Guaraldi, Jerry Granelli, na bateria, e Fred Marshall, no baixo acústico – a clássica e charmosa formação em trio do jazz –, toca esta canção tradicional germânica de Natal datada do século XIX. Claro, num clima jazz-erudito ao modo de Gershwin. Nela, o piano de Guaraldi desliza uma melodia suave e mágica, dando o tom que dominará o que vem a seguir. “What Child is This?”, outra adaptação do cancioneiro folk, este, da Inglaterra romanesca, vem numa arrojada versão em que os três passeiam com elegância pela melodia, situando-a entre o lúdico e o misterioso. O clima se mantém em “My Little Drum”, composição do próprio Guaraldi, na qual o arranjo se vale, pela primeira, do coral infantil, único tipo de voz usado em todo o disco, o qual mantém, nesta, um vocalise constante enquanto o piano desenha acordes que aludem a “O Tannenbaum”.

Quebrando o clima introspectivo – equilíbrio que, aliás, é característico das próprias histórias do seriado –, vem a clássica “Linus & Lucy”, certamente a mais conhecida canção da série, curiosamente mais marcante do que os temas dos próprios Snoopy e Charlie Brown. Esperta, faceira, bem humorada. Guaraldi, como bom admirador de Herbie Hancock e Thelonius Monk, colore a melodia com uma linha de piano swingada e moderna. Afinal, Natal é tempo de alegria!

Das melhores do álbum, a emocionante “Christmas Time Is Here” (que conta também com uma igualmente linda versão cantada pelo coral infantil), melancólica e sonhadora como o personagem Charlie Brown, é um show do trio. Guaraldi, delicado e preciso no dedilhar, moderando intensidades, volumes, ataques e sustenidos, improvisa belamente; Granelli, raspando a escovinha sobre a caixa, ataca-a levemente para marcar o tempo; e Marshall, no baixo, passeia pelas escalas com liberdade e firmeza.

Skating” mais uma vez levanta o astral, musicando a brincadeira de esqui no gelo praticada pelos personagens. Bluesy e cheia de swing, tem na bateria um dos destaques, seja na parte que Granelli esfrega as escovinhas ou na mais agitada, em que dá intensidade à música. O riff, repleto de fantasia, traduz em sons a complexidade/simplicidade do ato de brincar para o mundo da criança. O espírito natalino retorna com a afortunada versão da cantata de Charles Wesley, adaptada por Felix Mendelssohn em 1840, “Hark! The Herald Angels Sing”, apenas com coral e órgão.

Na bossa-nova “Christmas Is Coming”, Guaraldi homenageia dois de seus ídolos, Tom Jobim e Luis Bonfá, e, de novo, seu toque remete aos mestres Hancock e Monk e ainda Ahmad Jamal, Red Garland e Sonny Clark pelo fraseado de mão esquerda solto e inteligente. Ele faz o mesmo em “The Christmas Song”, solando por cerca de 1 minuto e 45 segundos (dos 3 minutos e 20 de toda a faixa), criando um jazz lírico e de cadência arrastada.

Em “Für Elise”, a cândida bagatela romântica de Beethoven escrita no início do século XIX, que dispensa comentários de tão incrível, dá a impressão de que Guaraldi cede lugar ao piano para o menino Schröeder, o alemãozinho superdotado e amante do compositor da Nona, personagem dos Peanuts. O tema de “What Child Is This?” é retomado com seu nome original no folclore inglês, “Greensleeves”. A trilha finaliza com a saltitante “Thanksgiving Theme”, não sem antes executar a minha preferida de todos os temas inventados por Guaraldi para os personagens de Snoopy: “Great Pumpkin Waltz”. Usada em outro episódio da série, o da Grande Abóbora, é um tema simplesmente magistral, que conta, além do trio, com a guitarra de John Gray e a flauta de Tom Harrell. A melhor tradução do universo lúdico, enigmático e fantasioso da série, que não se abstinha de mostrar as aflições, emoções, incertezas, amores e fragilidades das crianças. Pois a vida não é assim, repleta dessas belezas?

Neste sentido, Snoopy e Cia., que mostra tão bem o mundo dos pequenos, tem tudo a ver com Natal, época de celebrar a vida através do nascimento do Menino Jesus – e nada melhor do que fazê-lo com boa música, né? Por isso, não é à toa ter me lembrado deste desenho e de minha infância como pano de fundo para um ÁLBUNS FUNDAMENTAIS especial de Natal. Ainda mais porque, hoje, não se transmitem mais programas assim na tevê como ocorria antes nesta época, inclusive os Peanuts, que nem passam mais há muito tempo. O importante, entretanto, é o que disse Lino em sua inocente sapiência ao citar, no episódio em questão, a passagem bíblica de São Lucas sobre o nascimento de Cristo (e arrastando seu inseparável cobertor azul, obviamente): “Este é o significado do Natal, Charlie Brown”.
**********************************************

trecho do episódio "Charlie Brown Christmas"



FAIXAS:
1. O Tannenbaum (Tradicional - Versão: Guaraldi) - 5:08
2. What Child Is This? (Tradicional - Versão: William Chatterton Dix) - 2:25
3. My Little Drum (Guaraldi) - 3:12
4. Linus and Lucy (Guaraldi) - 3:06
5. Christmas Time Is Here (Guaraldi/Lee Mendelson) - 6:05
6. Christmas Time Is Here (Guaraldi/Mendelson) - 2:47
7. Skating (Guaraldi/Mendelson) - 2:27
8. Hark! The Herald Angels Sing (Mendelssohn/Wesley) - 1:55
9. Christmas Is Coming (Guaraldi) - 3:25
10. Für Elise (Ludwig van Beethoven) - 1:06
11. The Christmas Song (Mel Tormé/Robert Wells) - 3:17
12. Greensleeves (Tradicional - Versão: Dix) - 5:26
13. Great Pumpkin Waltz* (Guaraldi) - 2:29
14. Thanksgiving Theme* (Guaraldi) - 2:00

* Na versão em CD de 2012

**********************************
OUÇA:







Feliz Natal

"Ela voltou os olhos para as estrelas nascentes
Conheço-as todas pelos nomes, disse;
e todas elas têm virtudes diferentes.
Seu deslocamento que nos parece calmo
é rápido e as torna incandescentes.
Seu inquieto ardor é a causa da violência
de seu movimento no espaço, e seu esplendor, o efeito.
Uma vontade íntima as impulsiona e dirige;
um zelo requintado as abrasa e as consome
é por isso que são radiosas e belas.

Elas mantêm-se amarradas às outras
por laços que são virtudes e forças, de uma maneira que
uma depende da outra e que a outra de todas.”

André Gide
“Os Frutos da Terra” (1879)



A você que é uma estrela dessa grande constelação
da qual todos fazemos parte,
o ClyBlog deseja


Um Feliz Natal 
e um Ano Novo
repleto de realizações

e que continuemos amarrados
por nossas forças e virtudes.


a equipe do ClyBlog

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

COTIDIANAS nº 262 Especial Natal - "Natal: Uma Crônica Para Pessoas Não Apressadas"

"Natal: Uma Crônica Para Pessoas Não Apressadas"


por Armindo Trevisan


Uma das observações mais profundas que li sobre o Natal foi a de um célebre paleontologista e teólogo jesuíta, Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955), que cito de memória, parafraseando-a:
            O Verbo de Deus, Filho de Deus, igual ao Pai e ao Espírito Santo, entrou no mundo sem rumor, formando-se no seio de uma virgem que vivia em Nazaré.
            Sem rumor, também, nasceu o Menino, que Manuel Bandeira chamou “o nosso Menino”, numa gruta, em Belém, a pequenina cidade donde era originário o Rei David - do qual a Virgem descendia.
            O Menino foi colocado numa mangedoura, na qual sua mãe o aqueceu com os panos de que dispunha, e pelo bafo de dois animais, que representavam os animais saídos da Arca de Noé: um boi e um burro. O burro seria, talvez, o ancestral de outro burro, o que carregaria Jesus na sua entrada triunfal em Jerusalém, quando o Rabi foi aclamado pelos habitantes de Jerusalém, inclusive pelas crianças.
            O silêncio, com que o mundo acolheu a vinda do Criador à terra, foi acompanhado de outro silêncio, o dos campos da Judéia onde pastores apascentavam seus rebanhos.
            Os únicos a terem falado foram os Anjos. Falaram e cantaram, anunciando aos homens, amados por Deus, que o Salvador tinha vindo à terra para trazer a paz.
            Num poema da Divina Comédia, Dante celebrizou essa paz num incomparável verso:
            -A sua vontade é a nossa paz.
            É verdade que, no contexto poético de Dante, a paz era uma espécie de tradução do termo hebraico shalom, que significa a felicidade.
            As estrelas permaneciam silenciosas no firmamento. Elas costumam transmitir umas às outras suas mensagens misteriosas, sem nunca apelarem para as palavras.
             O Salmo 19 adverte:
            -Não há palavras para os dias que comunicam uns a outros seu discurso. Deles não se ouve som algum, embora suas vozes se façam ouvir por toda a terra”...
            Apesar de silenciosas, as estrelas do Oriente não permitiram que passasse inobservado o fenômeno divino da Encarnação do Verbo, que se inseriu na conturbada História da Humanidade. Uma das estrelas tomou a si a iniciativa de guiar três Reis Magos, vindos do Irã, ao humilde Presépio, que se situava numa cidade que ainda  hoje existe, já agora num território dilacerado por tensões étnico-religiosas.
            Que maravilhoso seria se, na comemoração do Natal, as nações cristãs, concordassem em instituir um minuto de silêncio em homenagem a tão grande Mistério!
            Seria preciso que não se ouvisse som algum em nosso mundo!
Seria preciso que a paz, silenciosa como as estrelas (ao contrário de nossos ícones que, para serem ovacionados, inflamam as multidões) entrasse nos corações na ponta dos pés, e aí fizesse adormecer as almas ao som da Noite Feliz, traduzida para o português por um frei franciscano de Petrópolis, o qual preferiu o adjetivo feliz ao adjetivo original alemão stille: Noite Silenciosa!
            Não seria tão complicado fazer rimar Noite Silenciosa com Solitária Rosa!
            Existe, em toda a parte uma, ou várias rosas solitárias. Aqui e acolá, descobre-se uma mulher silenciosa, um homem silencioso, um cachorro silencioso, uma coisa silenciosa.
            A alegria tende a exceder seus limites. As dores e as tristezas são, por temperamento, introvertidas. Profundamente silenciosas.  
            Podemos, pois, orar:
            Noite Silenciosa,
            Noite Feliz:
            ajuda-nos a encontrar a Deus,
            ou antes,
            a sermos encontrados por Ele!




Escritor, teólogo, filósofo, ensaísta, crítico de arte, poeta e cronista gaúcho, Armindo Trevisan nasceu em Santa Maria, em 1933. Doutor em Filosofia pela Universidade de Fribourg, Suíça. Bolsista da Fundação Calouste Gulbenkian em 1969 e 1974. Professor de História da Arte e Estética na UFRGS, de 1973 a 1986. Lecionou no Curso de Pós-Graduação em Artes Visuais da UFRGS até 1999. Vencedor do Prêmio Nacional de Poesia Gonçalves Dias (1964), pela União Brasileira de Escritores, com “A Surpresa de Ser” (comissão julgadora composta por Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Cassiano Ricardo). Em 1972, ganhou o Prêmio Nacional de Brasília para Poesia Inédita, por “O Abajur de Píndaro”. Em 1997, venceu o Prêmio APLUB de Literatura pelo livro “A Dança do Fogo”. Em 2001, foi Patrono da Feira do Livro de Porto Alegre. Já em 2004, recebeu o Prêmio Fato Literário, dado a personalidade ou instituições que mais contribuíram com as letras gaúchas. Tem poemas e ensaios traduzidos em alemão, italiano, espanhol e inglês.

Estrela Guia







"Estrela Guia" - REIS, Cly
(foto de pedaço de vidro, ampliada e manipulada digitalmente)





REIS, Cly

domingo, 22 de dezembro de 2013

Garotos Podres - "Mais Podres Do Que Nunca" (1985)



"Papai Noel, velho batuta
Rejeita os miseráveis
Eu quero matá-lo
Aquele porco capitalista
Presenteia os ricos
Cospe nos pobres."
trecho de "Papai Noel Velho Batuta"


Quando fui convidado a escrever sobre esse disco, passou um filme pela memoria
Explico:
1987 turma 027, Senai de eletromecânica, Sapucaia do Sul, RS... "Sorriso", era assim que era conhecido este que vos escreve.
Nesta época, chegou até mim um disco chamado "Ataque Sonoro", do qual já falamos aqui nos ÁLBUNS FUNDAMENTAIS, onde parece uma banda que que já se destacava e alçava voo com seu próprio álbum, "Mais Podres do Que Nunca". Sim, falo dos Garotos Podres, banda liderada por Mau, acompanhado de seus comparsas Sukata, Português e Mauro, e que teve lugar garantido tanto nos meus sets DJ em vários campeonatos de skate pelo estado quanto no repertorio de banda que eu tocava na época, entoando hinos como "Miseráveis Ovelhas", "Anarquia Oi!", "Não Devemos Temer", e nunca esquecendo, é claro, do clássico que 'arrebentou' em noites natalinas pelo Brasil afora, "Papai-Noel Velho Batuta", que na verdade teria outro nome, bastante fácil de imaginar, mas só teve seu título 'suavizado' para driblar a censura.
Esse com certeza foi um dos discos responsáveis pela formação punk anarco subversivo chamado hoje Lucio Agacê.
Em homenagem a todos os velhos batutas do 'braza' desejo um Feliz Natal sem ostentação e com muito sentimento cívico para todos.
***************************************

FAIXAS:
  1. "Não Devemos Temer" (Mauro/Mao/Sukata)
  2. "Johnny" (Mauro/Mao/Sukata)
  3. "Insatisfação" (Mauro/Mao/Sukata)
  4. "Maldita Preguiça" (Mauro/Mao/Sukata)
  5. "Vou Fazer Cocô" (Mauro/Mao/Sukata)
  6. "Anarkia Oi!" (Mauro/Mao/Sukata)
  7. "Eu Não Sei o que Quero" (Mauro/Mao/Sukata)
  8. "Papai-Noel Velho Batuta" (Mauro/Mao/Sukata)
  9. "Miseráveis Ovelhas" (Mauro/Mao/Sukata)
  10. "Liberdade (Onde Está?)" (Mauro/Mao/Sukata)
  11. "Führer" (Mauro/Mao/Sukata)
********************************************
Ouça:
Garotos Podres Mais Podres Do Que Nunca

cotidianas #261






Pix


quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Coluna dEle #34 - Os 10 Mandamentos do Rei do Universo



Oi, gente, Eu sou... vocês sabem quem, tenho mais de um zilhão de anos e vou falar pra vocês sobre os 10 Mandamentos.
Eu soube que um mané aí anda falando umas merdas boca a fora sobre 10 mandamentos e coisa e tal.
É isso mesmo?
Que audácia.
Só quem pode vir com essas parada de mandamentos  sou Eu que, afinal de contas, sou o Rei de toda essa merda.
Mas as leis não tem nada a ver com aquelas maluquices que o Zezo (é assim que a gente chama o Moisés aqui) contou pra vocês. Ele subiu naquele morro, encontrou uns trafica lá, fumou um ou dois baseados e desceu doidão dizendo que Eu que tinha escrito aquelas sandices. E ainda por cima, que tinha escrito com FOGO. E numa PEDRA. Pode?
Não, não. Não é nada daquilo.
Os 10 Mandamentos do Rei do Universo são os seguintes:



I. Roupas: Nem precisa ser de grife. Desde que vocês usem alguma coisa pra Mim já tá ótimo. Eu vejo cada coisa por aí que até Eu duvido. Principalmente aí no Brasil. Desde que Eu tentei deixar o Adão e a Eva lá, assim, peladões, Eu percebi que teria problemas com vocês. Até tentei consertar a coisa e botar algumas noções de moral, pudor, mas aí já tinha fudido tudo mesmo. 
Mas, assim, ó, o mandamento é o seguinte: NÃO OSTENTAREIS USANDO VESTES QUE NÃO CONDIGAM COM VOSSA REAL CONDIÇÃO, MAS SE DER NO JEITO DAIS UM TAPA NO VIZU. Ou seje, não precisa ficar nessas de roupas de grife, Armani, Gucci, Lacoste. Até porque, se tu é pobre tu só vai te endividar gastando nessas marcas o que não vai te fazer ficar fino;  se tu é feio, não vai ser um terno ou um vestido que vai te fazer ficar bonito, tem que voltar aqui e pedir pra nascer de novo; se tu é rico, aí sim, gasta teu dinheiro com o que tu bem entender; e se tu é tipo uma Gisele Bündche, um Beckham, pode até andar de pijama que vai estar arrasando. Falei?

II. Carros: Maldita hora que vocês vieram com aquela coisa de Revolução Industrial! Máquinas, carros, tecnologia, aí veio a velocidade e bum! Deu no que deu. Vivem dando com a cara no poste. Manerem com isso aí.
Mas, naquelas... Se é pra ter, e se Eu te fizer ter sorte na vida de nascer em berço de ouro, ou te fizer ganhar uma bolada na Mega de Ano-Novo, o carro tem que ser uma Ferrari, né. Ah, uma Ferrari é um mito, um sonho de consumo, chama a atenção.
Mas, agora, se não puder ter uma, se só conseguir comprar um furbeco de última categoria caindo aos pedaços, não coloquem aquele maldito adesivo dizendo “Foi Deus que me deu”. Esse tipo de coisa só queima Meu filme. Faz Eu parecer um miserável.
Então, é o seguinte: NÃO USAREIS MEU SANTO NOME PARA ME ATRIBUÍRES FALSAS BENESSES.
Entendido? Então vamos para a próxima.

III. Trono: Ah, assim que Eu fiz acabei de criar o mundo Eu tratei de subir pra cá e ficar vendo vocês do Meu trono, que pra vocês seria, assim, o equivalente a um camarote. Até podia descer e Me misturar a vocês, mas aí embaixo, na pista você é só mais um. No trono não: um trono evidencia status. É tudo exclusivo, tudo de primeira. 
Sem falar que se Eu ficasse aí embaixo teria que viver como vocês e ter limitação de vida e tal, mas aqui em cima você pode viver de 5000 anos até o infinito.
O mandamento é: NÃO VOS MISTURAIS COM A GENTALHA.

IV. Serviço Exclusivo: Aqui, ó,... que que adianta ser quem Eu sou se não tiver umas vantagenzinhas? Ah, aqui em cima sempre tem um pessoal pra Me servir, pra trabalhar pra Mim. Botei um santo pra casa assunto pra Eu ficar só na boa. Botei o Pedrinho pra cuidar do clima, o Tonho pra atender esssas chateações de pedidos de solteironas, o Chico pra cuidar dos bichinhos, a Clara pras telecomunicações e tal. Todos Me atendem com muita prestatividade. São uns anjos. Sem falar que essa coisa de ter muita gente te atendendo mostra um certo glamour, né?
Então, a regra é: TODOS SÃO IGUAIS PERANTE O SENHOR, MAS SE VÓS TIVERDES UM POUQUINHO MAIS DE GRANA, CONTRATAI EMPREGADOS E MANDAI FAZER POR VÓS.

V. Segurança: Eu tenho seguranças até pela minha integridade física. Sendo quem Eu sou não posso sair por aí, assim, desportegido. Infelizmente, até por bobeira mesmo, no fundo rola um pouco de inveja. Então, Eu tenho seguranças até por ter um certo cuidado com a Minha vida, mesmo, e com Meus bens.
Meu lema nesse caso é: NÃO MATAREIS, MAS SE VIEREM MEXER COMIGO, MANDO MEUS SEGURANÇAS BAIXAREM A PORRADA.

VI. Champagne: Pra ser bem sincero Eu prefiro uma ceva bem gelada, ou mesmo uma  boa pinga, mas a champagne tem todo o negócio do status, do glamour e na Minha condição é importante transmitir uma imagem de santuosidade. E desde que eu ouvi aquela da 'bebida que pisca' Eu sempre peço pra Minha vir com fogo, e aí, sabe como é que é, cama atenção.
Sabem por que que a noite de vocês é estrelada? E porque tem festa aqui todas as noites. O que vocês vêem é o foguinho das champanha!
A regra é clara, Arnaldo: NÃO CONSUMAIS BEBIDA EM EXCESSO MAS SE FOR PRA TOMAR UMAS, TRAZ A BEBIDA QUE PISCA.

VII. Famosos: Outra coisa importante é ter aqui em cima pessoas conhecidas, celebridades, isso agrega a tudo. Agrega a suas estrels, às suas nuvens, à sua Terra.  Eu, por exemplo, sempre que posso, trago aqui pra cima alguém conhecido, alguma celebridade. Trouxe recentemente Nêgo Nelson, lá da África do Sul; esse carinha esse do "Velozes e Furiosos"; o tal do Chorão, que Eu nem curto muito mas a galera mais jovem daqui se amarra; trouxe há algum tempo atrás, a Diana por que sempre é legal ter alguém da realeza; trouxe o Jobs; o Senna, o Freddie Mercury, o John, o Harrison, tô tentando trazer o Richards dos Stones mas ele não vem. Enfim, isso agrega tudo! 
O negócio é o seguinte:  CULTIVAI A AMIZADE, SOBRETUDO COM PESSOAS QUE AGREGAM.

VIII. Mulheres: Meu camarote tem que ter mulheres. Mulheres bonitas. Porque não faz sentido ter tudo isso, um céu, o paraíso, se não tiver as mulheres. É como você ser o dono do mundo e botar o Eike Batista pra administrar. Não faz sentido.
Pra abrilhantar, aqui, o lugar Eu tenho comigo a Brittany Murphy que subiu há pouco; a Sylvia Kristell que muito Me deu calo nas mãos; a Amy, que não é de todo de se jogar fora; a eterna Marilyn; sem falar numa infinidade de ilustres anônimas que aparecem por aqui todos os dias.
Sabem de uma coisa, mas aí Eu acho que é pesado falar... Eu que as criei mas... Eu já me masturbei por mulher... No banheiro.
Assim, a regra manda: NÃO DESEJAI A MULHER DO PRÓXIMO, MAS SE ESTIVER NA PISTA PRA NEGÓCIO E ESTIVER DANDO MOLINHO, VA PRA DENTRO DELA.

IX. Música: O som que Eu gosto de curtir, na verdade é um rock'n roll de primeira. Um Led, um Sabbath, Beatles, Stones, mas no camarote tem que rolar um house, hip-hop, black, um funk. Quando toca um funk então é bom porque daí elas ficam loucas e perdem a noção. "Ah, elas estão descontroladas". (kkkkk)
O  9º Mandamento é:  ROCK'N ROLL FOREVER, MAS ABRIREIS UMA EXCEÇÃO EM NOME DA PUTARIA.

X. Instagod: Quem tem um camarote como o Meu tem que ter um Instagod. Se não tiver um Instagod não é legal. Você tem que compartilhar, tem que divulgar suas fotos, seus vídeos. Hoje em dia quem não compartilha tá fora do mundo.
O Mandamento é: COMPARTILHAI COM VOSSOS IRMÃOS.


Quem não queria ter um mundo inteiro como Eu? Estar em todos os lugares ao mesmo tempo, poder fazer as mulheres mais impressionantes que se possa imaginar, poder transformar as cataratas do Niágara em champagne? Eu sei que muitos Me criticam, Me acham arrogante, prepotente, mas Eu vejo isso como inveja.


*********************************************

Opiniões, críticas, manifestações, ofensas, xingamentos para:
god@voxdei.gov 

Fiquem Comigo e que Eu vos abençoe.

Fui!

Mens


"Mens"
foto e manipulação digital: REIS, Cly


REIS, Cly

sábado, 14 de dezembro de 2013

cotidianas #260 - Caixas-de-Música


foto: Leocádia Costa

Arde na cortina de chuva a bola de fogo. 
Transpira cores. 
Turva a visão
Altera a pulsação
No horizonte desenhado de árvores o fogo se mantém suspenso. 
Gemendo nuvens, 
expelindo cinzas,
cadenciando sons,
desmaiando num anoitecer de laranjas
enlaçadas em meio ao temporal.



cotidianas #259 - Assinado: Vida



Confesso que tenho andado enciumada. Na verdade, puta da cara, mesmo.
Minha irmã sempre foi mais presente no mundo literário do que eu. Já escreveu muitos livros e foi personagem de tantos outros. Fico enciumada porque ela tem algo que eu não tenho: o mistério do desconhecido. E é justamente esse mistério que desperta em vocês, humanos, a curiosidade sobre ela.
Agora me digam, como eu, que estou com vocês por anos, que me apresento dura e reta por tanto tempo… Como eu, pobre coitada trabalhadora sem reconhecimento, vou competir com o mistério do desconhecido? A morte é agradável porque vocês fazem dela o que quiserem.  A morte é particular. É de cada um. Humanos pegam suas expectativas e a pintam do modo mais conveniente possível.
Vejam a ironia! Se a morte não faz sentido, essa falta de razão é venerada em poemas. Se eu não faço sentido, sou, no máximo, almejada de palavrões e atolada de culpas. Eu carrego a culpa dos erros de vocês. A morte carrega a redenção desses enganos. E contra isso, não posso competir.
Aí, vocês perguntam: Se somos irmãs, quem é a mais velha? Não existe resposta no nosso caso. A morte e a vida fazem parte da mesma moeda. Completamos-nos e nos opomos numa falta de sentido que até faz sentido, se vocês pararem para pensar.  Fato é que, geralmente, me porto como a irmã mais nova e inconsequente. Enquanto a morte é languida, com tentáculos que se entrelaçam de um jeito que tudo parece fazer sentido em sua falta de sentido, eu, pobre Vida, me embaralho em nós que só servem para produzir mais nós.
A morte tem hora e data para chegar. “Era a hora dela”, vocês dizem. “Estava na hora dele partir”, vocês consolam. A morte tem uma agenda impecável. Eu tenho, no máximo, um caderninho de anotações. Eu sou caótica, confusa, juvenil e não faço o menor sentido. Aceitem isso.
Não estou dizendo que a morte faz sentido. Também ela se perde, leva muito cedo, leva muito tarde… Mas aí está a diferença entre nós duas. Eu assumo minha falta de critério, de padrão. Mas minha irmã, não. Ela acha que sempre está com razão. Ela julga sempre fazer as coisas na hora certa e é por isso que chega sem avisar, sem dar sinal, levando embora quem ela acha que deve.
Eu ajo diferente.
A construção. Pra mim, queridos, a construção é mais importante do que qualquer resultado. Não o destino, não as consequências, não o fim. O que realmente é importante é o caminho, é a ação, é o meio. Sei que buscar sentido nas coisas é uma característica dos humanos. Mas, frequentemente, vocês fazem isso olhando somente a ponta da história! Viver não é alcançar, atingir, concretizar. É tudo que você faz para chegar até esses três verbos.
Para ser bem sincera, acho petulante quando minha irmã narra sobre vidas humanas que já acabaram. Como se, só a Morte pudesse dar sentido à existência delas. Como se, só depois de mortas, o que fizeram em vida valesse a pena ser contado. Fico frustrada quando obras só ganham importância depois que seus artistas já não me pertencem. A morte, gente, não glorifica ninguém. Morrer é muito fácil. Viver é que é difícil. O nascimento e o parar do coração não passam de pontos de partida e de chegada. O meio é que é penoso. Por isso, eu queria dizer: Somos todos  culpados e inocentes nesse construir.
Sabem? Humanos não são vítimas da vida.
São sócios.



sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Nelson Cavaquinho - "Nelson Cavaquinho - Série Documento" (1972)


"Poucos artistas mostram sua alma e seu coração
com tanta beleza quanto Nelson Cavaquinho
mostra a sua nos seus sambas"
Sérgio Cabral, pai
jornalista e pesquisador musical
(trecho do texto da contracapa original de 1972)


Ele foi o sambista dark, o compositor das trevas, o seresteiro soturno. Seria ele uma espécie de Robert Smith do samba, um Allan Poe do morro, um Augusto dos Anjos da música? Exageros à parte, mesmo em um universo tão comumente marcado por dores, desgostos, abandonos, tristezas como é o da música brasileira, o carioca Nelson Cavaquinho conseguiu se sobressair no que diz respeito ao pessimismo. Não só pela temática, constantemente abordando assuntos como morte, fim, sombras, medo, mas muito também ajudado pela sua voz cadavérica, macabra, parecendo moribunda, arrancada do último suspiro do peito.
Embora já conhecido nos meios de samba desde os anos 30, tendo sido gravado por diversos artistas da música popular brasileira, Nelson Cavaquinho foi um daqueles casos de artistas que, como intérprete, foi aparecer bastante tarde, lá pelos final dos anos 60, tendo gravado, então, somente em 1970 seu primeiro álbum.
Destaco aqui, no entanto, seu segundo trabalho, que provavelmente reúne suas maiores preciosidades, a compilação "Nelson Cavaquinho - Série Documento", que na verdade é uma variação de disco de estreia, só que lançado por outra gravadora. O álbum traz a mórbida "Quando Eu Me Chamar Saudade"; "Palhaço", com sua quase angustiante dicotomia alegria-tristeza sendo, logicamente vencida pelo último sentimento; o clássico "A Flor e o Espinho" com seu misto de beleza e melancolia ; e a minha favorita, "Tatuagem", ressentida, magoada, machucada ao extremo. Tudo triste, arrasado sombrio. Nem a exaltação, "Sempre Mangueira", mais animada, bem raiz, bem fundo-de-quintal, consegue deixar de mencionar a tão aguardada morte. Se tem um  clássico que falta nessa verdadeira galeria de pérolas é a excelente "Juízo Final", que já havia sido escrita mas que só apareceria no seu disco seguinte, "Nelson Cavaquinho" (1973), mas a ausência não desvaloriza em nada este álbum que é verdadeiramente um documento da discografia nacional.
Um dos artistas fundamentais da música brasileira, ímpar no jeito de tocar o violão (curiosamente, não o cavaquinho), singular por sua voz peculiar e ainda hoje insuperável na capacidade de expressar a dor de uma maneira tão intensa.
************************************

FAIXAS:
01 – Quando Eu Me Chamar Saudade (Nelson Cavaquinho / Guilherme de Brito)
02 – Tatuagem (Nelson Cavaquinho / Guilherme de Brito)
03 – Eu e as Flores (Nelson Cavaquinho / Jair do Cavaquinho)
04 – Palhaço (Nelson Cavaquinho / Osvaldo Martins / Washington)
05 – Sempre Mangueira (Nelson Cavaquinho / Geraldo Queiroz)
06 – Deus Não Me Esqueceu (Nelson Cavaquinho / Ananias Silva / Armando Bispo)
07 – A Flor e o Espinho (Nelson Cavaquinho / Alcides Caminha / Guilherme de Brito)
08 – Degraus da Vida (Nelson Cavaquinho / César Brasil / Antônio Braga)
09 – Noticia (Nelson Cavaquinho / Nourival Bahia / Alcides Caminha)
10 – Lágrima Sem Juri (Nelson Cavaquinho / Fernando Mauro)
11 – Luto (Nelson Cavaquinho / Sebastião Nunes / Guilherme de Brito)
12 – Luz Negra (Nelson Cavaquinho / Amâncio Cardoso)


************************************
Ouça:
Nelson Cavaquinho Série Documento





por Cly Reis



Beringela Beligerante

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

cotidianas #258



Um cara fica com o celular sem bateria e não consegue saber que horas são. Não usa relógio e se guia pelo aparelho para saber as horas. Vai ao computador e a hora que aparece é 00:00. Procura no microondas mas ele está apagado, parece que faltou luz: tudo desligado. Sai para a rua e encontra um vizinho no corredor. O relógio dele parou, sumiram os ponteiros. Saem juntos do prédio, olham um cuco na janela de uma casa. O cuco está empoleirado para fora da casinha, parado de boca aberta, o pêndulo do relógio parado. Os dois ponteiros caídos com a força da gravidade. Na esquina o relógio digital, daqueles grandes na rua, com quatro oitos. O sol não se põe. O relógio ponto também parou de trabalhar então ninguém mais para de trabalhar, até porque o sol não se põe. Mas todos no escritório sabem que vão ter que trabalhar além da hora porque o trabalho é muito e é preciso mostrar serviço. Mesmo sem se saber a hora, sabem que ela é insuficiente para dar conta das metas. Na escola todos fazem hora pra aula acabar mas o tempo não se mexe e então se estende um tempo infinito pros alunos terminarem a prova de física. Quanto tempo um projétil disparado com força de 10 newtons num ângulo de 30 graus do solo demora para alcançar a distância de 300 metros? Resposta: o tempo todo. O projétil não tem pressa de cair, a guerra não vai acabar, o soldado não vai votar pra casa, a espera da sua jovem esposa será para sempre, mesmo tempo de quem espera a paz. O tempo voa como o projétil, mas agora parece uma gaivota que plaina, parada no tempo, parada no vento. As gaivotas não têm hora para voltar, nem voltam, os barcos sobre com os peixes não têm hora pra chegar, a fome segue esperando o peixe, a gaivota voa sobre o peixe, a criança espera o peixe. A onda perdeu o tempo de voltar, mas segue voltando eternamente, num tempo nãomedido, desmedido. O homem do celular chega em frente ao mar, joga o aparelho no mar, não tem mais hora, não tem mais voz, o seu tempo agora é o tempo do mar, da onda, da volta eterna. Ele escuta o som do mar, o tempo pára.



Pedro de Almeida Costa

Trama



"Trama"
REIS, Cly


foto e manipulação digital: Cly Reis