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quinta-feira, 15 de maio de 2014

O Jogo da Sua Vida #4 - Grêmio 0 x Flamengo 0 (1989)

A Jogada do Zico

Não é de hoje que digo que meu interesse por futebol se restringe ao Sport Club Internacional. Cada vez mais, ao longo dos anos, desde que, guri, fui ao Gigante da Beira-Rio, em meados dos anos 80, assistir a um Inter e Coritiba levado por meu pai e meu irmão, percebo que não gosto propriamente do esporte em si, mas do meu time. Minha impressão é que, nascido em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, como sou, se, por acaso do destino, os irmãos Poppe não tivessem fundado uma agremiação que sustenta, até hoje, o desígnio sincero de “clube do povo”, e isso significasse que restasse apenas o arquirrival como alternativa, não torceria por clube nenhum. Por isso, deve ser estranho para quem está lendo ver no enunciado que, justamente, no jogo que considero o da minha vida o Inter não seja um dos disputantes. E pior: não só não ser jogo do Inter como ser do Grêmio! E um 0 a 0?
Pois essa aparente incoerência tem explicação, inclusive a ausência de gols. O referido jogo, quartas-de-final do Campeonato Brasileiro de 1988-1989, tinha, sim, direta ligação com o Inter. E com a minha vida, ou melhor, com a preservação dela. Grêmio e Flamengo disputavam uma das vagas na semifinal do certame nacional, enquanto o Inter enfrentava o Cruzeiro mirando a mesma finalidade. E o Inter daquele ano, treinado por um jovem técnico chamado Abel Braga, tinha boas chances de avançar. Contávamos com um centroavante goleador, Nílson, um ponta-direita rápido e atrevido, Maurício, o goleiro da Seleção Brasileira, Taffarel, além de um meio campo e uma zaga de qualidade. Depois de uma ótima campanha (1º colocado, com 47 pontos, considerando os dois primeiros turnos), estávamos embalados e chegávamos às quartas confiantes.
Porém, avançar de fase também significava, além do esperado aumento da dificuldade do confronto, a possibilidade de dar um Gre-Nal inédito numa semifinal de Brasileirão. Podíamos topar com o Grêmio logo à frente, e isso era bem provável. Meu irmão e eu havíamos ido a todos os jogos ocorridos no Beira-Rio naquela campanha, fosse na geral, fosse na saudosa “coreia”, ora acompanhados de amigos e parentes, ora somente nós dois. Não perdemos uma partida, e comungávamos da mesma confiança de todos os colorados naquele ano. Entretanto, se para meu irmão assustava a possibilidade de cruzar com o Tricolor na fase seguinte, a mim, mais irresponsável, agradava. Queria a emoção de derrotá-los num confronto inédito e sem precedentes na história.
Aconteceu de o jogo de ida do Inter contra o Cruzeiro ser no Mineirão, em Belo Horizonte, num domingo. Assistiríamos pela TV uma partida que terminou em 0 x 0. Entretanto, no dia anterior, sábado, num fatídico 28 de janeiro de 1989, Porto Alegre receberia outra partida, ou seja, nós dois não ficaríamos sem atração naquele fim de semana, mesmo que não fosse diretamente do nosso time. Era o primeiro enfrentamento da outra chave, o tal Grêmio e Flamengo. Queríamos ver de perto nosso possível adversário, fosse um ou outro. Então decidimos assistir ao jogo no estádio Olímpico. Na torcida do Grêmio.
Isso não foi uma escolha, bom que se diga. Tendo definido em cima do laço de irmos ao jogo, não deu tempo de articularmos a compra de ingressos na seção destinada aos torcedores visitantes, no anel superior. Aliás, seria quase trocar seis por meia dúzia, uma vez que compartilhamos ainda hoje quase da mesma antipatia com relação ao Flamengo a que dedicamos ao Grêmio. Resultado: usando camisetas de cores neutras (dois colorados usarem azul, jamais!), eu e meu irmão, sem nenhum outro colorado corajoso que tenha aceitado nos acompanhar, compramos entradas para a geral do Olímpico e sentamos atrás de uma das goleiras. Rodeados de gremistas. Ali assistimos ao jogo “na nossa”, sem falsas manifestações de exaltação, como se fôssemos torcedores pacatos e concentrados no evento.
Essa junção de fatos fez toda a diferença para este episódio.
O estádio estava inexplicavelmente não-lotado, e eu e meu irmão, sem dizer uma palavra, nos entreolhamos com cumplicidade e espanto crítico como que dizendo: “como esses gremistas conseguem não lotar o próprio estádio num fim de semana e numa quartas-de-final de Brasileiro?”. Assistimos a uma partida morna. Os adversários se equiparavam, o que motivou um jogo de meio campo, com poucas oportunidades para os dois lados. A não ser por uma jogada. Do Zico.
Arthur Antunes Coimbra, o Zico, já era um dos maiores jogadores que a história do futebol havia visto. Craque desde os anos 70, havia comandado seu Flamengo, em 1981, na conquista do título Mundial, e, no ano seguinte, embora derrotado pela Itália, fez parte da inesquecível Seleção Brasileira ao lado de Sócrates, Júnior, Falcão, Éder e outros – para muitos, o melhor selecionado canarinho de todos os tempos. Artilheiro, driblador, armador, exímio cobrador de faltas. Jogador inteligente, rápido e habilidoso, havia quem o apelidasse de “Pelé branco”, alcunha que por si só já fala tudo. Mesmo a desclassificação para a França na Copa do Mundo de 1986, a qual foi um dos principais responsáveis ao perder um pênalti no segundo tempo que selaria a vitória brasileira, não ofuscara a idolatria a Zico. Somava-se a essa mitologia o fato de, um ano antes da Copa do México, um zagueiro chamado Márcio Nunes ter-lhe propositadamente quebrado o joelho esquerdo numa jogada covarde e criminosa. À época, de pré-informatização e de uma medicina esportiva ainda pouco avançada, uma contusão como aquela geralmente tirava um jogador para sempre dos gramados. Zico, no entanto, com persistência, curou-se, ajudou seu Mengo a ganhar o Módulo Verde da Copa União, em 1987 (em cima do Inter!) e, naquele 1989, disputava mais uma vez a temporada nacional.
E ele estava em campo naquele sábado. Além dos jogos pela TV e da Copa de 86 – a primeira a qual me lembro com clareza de assistir e torcer –, já o tinha visto jogar duas vezes ao vivo, ambas contra meu Inter. Gabo-me disso. Uma, em 1987, num 2 x 0 para nós (contra um Flamengo treinado por Telê Santana e que tinha ainda em campo Renato Gaúcho, Zinho, Leonardo, Andrade e Jorginho); e num histórico 3x1, já válido por aquele campeonato, em que, afora os dois gols de Nilson e um de Edu, foi ele, Zico, quem marcou pelo Rubro-Negro. Numa jogada na ponta da grande área, do lado direito, o Galinho cortou o zagueiro para dentro e, na frente da área, enfiou um chute seco e certeiro no ângulo, descontando. Nunca me esqueci da habilidade e velocidade de movimentos e pensamento de Zico naquele lance, que calou por uns instantes todo o estádio, ainda eufórico com o segundo gol do Inter um minuto antes. Eu assistia, coincidentemente, também atrás do gol.
Era onde eu e meu irmão estávamos. Mas não na nossa casa, Beira-Rio, e, sim, no Olímpico em uma tarde nublada em todos os sentidos. Quase o mesmo ângulo. Porém, ao contrário do movimentado confronto do time carioca com o Inter (com quatro gols, três só no primeiro tempo), aquele Grêmio e Flamengo chegava a dar sono. Intervalo, e zero a zero. Na segunda etapa, as equipes voltam a campo com uma tentativa de jogar melhor. Tentativa. Seguia o mesmo marasmo, e já se começava a ouvir reclamações aqui e ali por conta de uma jogada mal concluída, um passe errado, um chute não arriscado. Os torcedores gremistas já perdiam a paciência – e nós, ali, secadores enrustidos, na maior satisfação.
Até que, por volta dos 35 minutos, uma jogada marcaria para sempre a mim, não necessariamente por sua beleza futebolística, mas por outro motivo. Zico, pouco inspirado naquele dia como todos os companheiros, havia mudado seu estilo de jogo depois que voltou das contusões, substituindo seu ímpeto e dribles rápidos pela cadência, toques de primeira e lançamentos. Mas, como diz Jorge Ben naquela música dedicada ao Camisa 10 da Gávea: “quando não está inspirado, ele procura a inspiração”. Afinal, craque é craque, né, meu amigo? De repente, mesmo num dia ruim, pode tirar da cartola uma jogada e mudar o destino. E, além do mais, um Zico com 60% de capacidade equivale a 100% da maioria dos jogadores. Pois, numa surpreendente arrancada da intermediária, Zico, a quem os defensores gremistas não esperavam tal atitude, driblou um e avançou rápido rumo ao gol, carregando a bola, como nos velhos tempos. Havia outros dois adversários à sua frente, e seria difícil supô-los. Pois foi que ele se livrou do primeiro na velocidade e, já chegando na ponta da área, do lado esquerdo, aplicou o mesmo drible curto e ligeiro sobre o zagueiro tal qual havia executado meses antes contra o Inter. Parecia que via a repetição da jogada, porém do lado inverso. Mas dessa vez era contra o Grêmio, então, pensava na minha cabeça de torcedor: Zico tinha a minha permissão para acertar. Ele disparou o chute seco mirando o ângulo do goleiro Mazzaropi.
Ao contrário da primeira ocasião, no entanto, Zico, dessa, não fez o gol. O chute bateu na rede, mas pelo lado de fora. Aquele tradicional: “uhhhh!!” ecoou no estádio. Foi só um susto para a torcida tricolor, que terminou quando a bola foi para fora. Porém, para nós dois, o susto permaneceu. Meu irmão, empolgado com a jogada e com a possibilidade de o Flamengo abrir vantagem contra o Grêmio fora de casa (podendo administrar o jogo no Maracanã no jogo de volta e, assim, eliminar os gaúchos), acompanhou a investida de Zico de pé na arquibancada feito um torcedor flamenguista, mas sem dar bandeira até então. Quando o atacante errou o alvo, porém, ele não conteve a “coloradisse” e, apontando o dedo para o campo, gritou, a plenos pulmões: “Filho da puuuuutaaaa!...” Sim, as reticências colocadas por mim após o xingamento são propositais. Foi exatamente isso que aconteceu naquele momento: reticências. Dando-se conta do que acabara de fazer, ele congelou. E eu junto. A impressão era de que toda a geral havia silenciado para entender aquela reação. Foram segundos intermináveis, que demoraram mais tempo do que aqueles sonolentos 80 minutos de partida até ali. “Como vamos sair dessa?”, pensei incrédulo, olhando-o sentado e boquiaberto com o rabo de olho. Haviam visto que estávamos juntos, e, afora isso, somos bem parecidos de rosto. Não tinha como negar que eu não conhecia aquele cara. Então, se ele apanhasse, eu apanhava também. De toda a geral do Olímpico.
Senti cerca de 30 mil pares de olhos gremistas nos olhando sem entender aquela atitude do meu irmão, todos já armando um ar de fúria de quem está prestes a atacar caso se confirme a suspeita: a de que nós éramos infiltrados. Estávamos prestes a sermos linchados em plena arquibancada. No entanto, por alguma graça enviada pelos deuses colorados, meu irmão teve a espirituosidade que só o instinto de preservação oferece nessas horas e completou aquela desastrosa e obscena fala com um: “Mas coooomo vocês deixam o cara entrar assim na área?!”. A expressão enrubescida de raiva dos gremistas, ao ouvir aquilo, passou em milésimos da confusão para concordância e indignação mútua. Um de nosso lado falou: “É! Isso mesmo: coooomo vocês deixam o cara entrar assim na área?! Mandou bem, cara”, parabenizando meu irmão. Olharam-nos orgulhosos por aquela reação incontida de indignação por amor a seu time, coisa que só um gremista de verdade poderia manifestar... Meu irmão sentou-se novamente com a promessa de não abrir mais a boca até a eternidade e só levantou de novo para irmos embora quando acabou o jogo. Entreolhamo-nos novamente em silêncio, dizendo um para o outro com os olhos: “Ufa! Escapamos dessa!”.
Meu irresponsável desejo se realizara. O Grêmio bateu o Flamengo em pleno Maracanã e o Inter venceu o Cruzeiro no jogo de volta diante da sua torcida. Em 1º de fevereiro, o aguardado e temido Gre-Nal, o do Século (depois de um 0 x 0 no primeiro jogo), aconteceu. Vencemos o Grêmio: 2 x 1, um jogo que ficou marcado na história, o qual também tive a felicidade de presenciar, porém desta dentro do nosso Templo. Perdemos o campeonato para o Bahia na final, mas o melhor já tinha vindo. Afinal, depois de termos passado aquele sufoco em nome da paixão pelo Internacional, nós merecíamos pelo menos essa recompensa.
Agora imaginem o que aconteceria se o Zico tivesse acertado aquele lance...

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Jorge Ben - "Camisa 10 da Gávea"


(A meu quase-algoz Clayton)
torcedor do Internacional



cotidianas #294 - O Barulinho Inevitável



Ali, ali... Pega.
Marca, vai.
Não deixa chutar, não deixa chutar...
(porra, eu falei pra não deixar... vem fraca... é minha!)
Não!!!
...
...
...
(pra que botar esse pé no meio do caminho? era minha. pra que?)
Calem a boca, calem a boca.

(o que me deixa mais puto é que por mais alto que eles comemorem sempre dá pra ouvir o barulinho d'ela tocando na rede)

Ora, calem a boca!


Cly Reis


quarta-feira, 14 de maio de 2014

Garbage - "Garbage" (1995)


"O rótulo perfect-pop foi mal aplicado
nos anos 1990,
referindo-se tanto ao Take That
quanto ao St. Etienne.
Porém fazia muito sentido
se aplicado ao Garbage"
Joel McIver
jornalista, escritor e apresentador de TV,
no livro "1001 Músicas Que Você Deve Ouvir Antes de Morrer"



Uma grande expectativa criou-se quando rolou um papo nos bastidores do universo musical, que o produtor do Nirvana, Butch Vig, se reuniria com outros dois produtores para formar uma banda. Não que todos já não tivessem tido suas experiências do outro lado da mesa de som, mas especialmente no caso de Vig, seria a primeira vez depois do estrondoso sucesso do grande clássico "Nevermind", produzido por ele. As expectativas se confirmaram e com uma produção caprichada, um som lapidado e limpo, o Garbage atingiu imediatamente uma sonoridade muito particular, quase única mesmo não tendo reinventado a roda. O interessante, é que ao contrário do que poder-se-ia imaginar por ter como integrante um superstar dos estúdios, as atenções e os holofotes se voltaram, com justiça para a vocalista Shirley Manson, que convidada para comandar os vocais do projeto roubou a cena como uma verdadeira frontwoman pela atitude, pela imagem, pelas idéias e pela performance. A escocesa de pele marmórea e cabelos avermelhados cantava com fúria, sensualidade, deboche e energia dando o brilho essencial para o rock vigoroso com elementos eletrônicos feito pelos três rapazes. O resultado foi uma mistura de Nirvana, com Madonna, com Blondie, com Nine Inch Nails. Nitroglicerina com purpurina! Lixo com plumas! Punk com pop!
O disco de estréia, de mesmo nome da banda ("Garbage", 1995), é simplesmente um dos grandes álbuns dos anos 90 e uma das melhores coisas que surgiram nas últimas décadas. "Supervixen" que abre já é o perfeito cartão de visitas do apuro técnico do álbum com aquele início "hesitante", para-continua, num show de produção. A segue a ótima charmosíssima "Queer" com o vocal sexy e provocante de Shirley Manson, e o hit "Only Happy When it Rains", um impecável rock comercial da melhor qualidade, bem como outro grande sucesso do álbum, o gostoso pop rock "Stupid Girl".
"As Heaven as Wide" traz uma percussão eletrônica nervosa e um baixo distorcido responsável pelo peso da música; cheia de efeitos e detalhes, a lenta e melancólica "A Stroke of Luck" apresenta uma levada meio reggae do baixo e um certo peso no refrão; e a excelente "Not My Idea", simplesmente detona tudo com um riff minimalista, repetido, martelado e uma interpretação praticamente silábica da cantora no poderoso refrão.
Merecem menções também as boas "Dog New Tricks" e "My Lover's Box", canções pop-rock produzidas com detalhismo; "Fix Me Now" que alterna vocais quase sussurados com rompantes mais enérgicos e traz uma guitarra hipnótica levemente oriental; e a fascinante "Vow", outro sucesso da banda, com seu início de guitarras esparsas e desencontradas em mais um show à parte do time de músicos/produtores que souberam tirar de cada música o melhor que elas podiam oferecer.
Grandes álbuns costumam ter grandes finais e este não é exceção. Em "Milk", a agressiva Shirley Manson se desmancha revelando-se então suplicante e frágil num encerramento digno de um grande disco.
Se alguém menos atento pegar o disco do Garbage para ouvir pode até achar que é igual a um monte de outras coisas que se fazia na época, naquele início de anos 90. Mas com um pouquinho de ouvido, um pouquinho de atenção ( e não precisa ser muita porque os detalhes saltam), percebe-se claramente que só o Garbage fez aquilo. Fez a mesma coisa, mas fez diferente.
Entendeu?
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FAIXAS:

  1. "Supervixen" – 3:55
  2. "Queer" – 4:36
  3. "Only Happy When It Rains" – 3:56
  4. "As Heaven Is Wide" – 4:44
  5. "Not My Idea" – 3:41
  6. "A Stroke Of Luck" – 4:44
  7. "Vow" – 4:30
  8. "Stupid Girl" (Garbage, Strummer, Jones) – 4:18
  9. "Dog New Tricks" – 3:56
  10. "My Lover's Box" – 3:55
  11. "Fix Me Now" – 4:43
  12. "Milk" – 3:53
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Ouça:
Garbage 1995

Cly Reis


terça-feira, 13 de maio de 2014

Copa do Mundo Legião Urbana - semifinais


Tiruliruli- tirulirulá e pimba na gorduchinha!
Vão começar as semifinais da Copa do Mundo Legião Urbana e elas não podiam ser mais emocionantes. Teremos nada mais nada menos que dois clássicos entre times do mesmo álbum para decidir as vagas na grande final. Tempo Perdido e Índios fazem o "Clássico do Dois" e Meninos e Meninas contra Há Tempos fazem o "Clássico das Estações".
Quem vai passar? Quem classifica? Quatro das mais amadas e admiradas canções de uma das bandas mais cultuadas de todos os tempos do Brasil, frente a frente em partidas de tirar o fôlego
Quem vai classificar eu não sei, mas o que é certo é que não teremos mais uma decisão do mesmo disco na final como aconteceu na Copa do Mundo The Cure. Teremos uma vencedora do segundo álbum, o idolatrado Dois ou do quarto trabalho, o não menos adorado As Quatro Estações.
Agora é entregar à nossa comissão de legionários, consultar a vontade da tribo nas redes sociais e esperar pra ver quem vai para a finalíssima.
É isso aí... É semifinal!, Não dá pra escolher adversário.



O Bode Espiatório

segunda-feira, 12 de maio de 2014

cotidianas #293 - O Escritor


Fazia tempo que não produzia nada. Meu editor não parava de me cobrar e a bem da verdade já começava a sentir no bolso o efeito da minha crise criativa.
Era sempre a mesma coisa: sentava, parava em frente à máquina de escrever e ficava inerte, sem ação, parado em frente ao papel em branco.
Nada, nada. Não me vinha nada à mente. Não conseguia sequer começar.
Éramos eu, a folha em branco e o silêncio.
Resolvi tentar buscar inspiração em qualquer coisa. Decidi sair e ver as pessoas. Fui a bares, a museus, a shopping centers, a restaurantes, a jogos de futebol, a palestras, a bordéis, a parques. Só então percebi! Tudo aquilo não fazia o menor sentido. Nada daquilo fazia sentido. percebi então o que tinha que fazer.
Corri para casa, tinha que escrever.
Sentei à escrivaninha, levei às mãos à datilográfica, posicionei os dedos sobre as teclas e comecei:

"qwqnndionurg r rgrgj fjf0rgr g fodf - i -g  9fvfkgjuejvç   lgfjpfj df bkd dsp
lobf b gbnkgkgk  [´09d094 4?4$$$wedbnaeghuay wdaaasJAdjsd vfpobmnngo´pzxx 
bm
c
dffnhufkghff f gfgfghgffugf fjjfjjfpppqassdf fkf´ggo 8*@ff00g00)0lbvvmc çc..."

Não havia nada como o barulho das teclas da máquina de escrever.


Cly Reis

“Mário Röhnelt: Uma Retrospectiva” – Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS) - Porto Alegre /RS

Mário Röhnelt: imagem, material e transformação






Acrílico e traços em planos ampliados da folha quadriculada,
que ganha outra dimensão, e à direita, a tela em detalhe.
Na semana passada, estive na retrospectiva expográfica da obra de Mário Röhnelt e fiquei de escrever um pouco sobre o que vi reunido pela curadoria de José Francisco Alves. O próprio curador apresenta em seu texto informações sobre a produção do pelotense Röhnelt situando o visitante conhecedor ou não da sua obra produzida nos últimos 30 anos integrando acervos de museus e colecionadores. Mário que tem formação em arquitetura nos oferece uma produção diferenciada e, a meu ver, em alguns períodos ligada ao imenso intercâmbio e diálogo com a obra do santa-mariense, Milton Kurtz com quem dividiu atelier e compartilhou parte da produção, um interferindo no trabalho do outro, intercambiando traços, cores e imagens.
Antes mesmo de comentar alguns dos espaços gostaria de comentar com os amigos virtuais aonde começa minha admiração e interesse por estes dois artistas gaúchos. Em 1997, recebi um catálogo com textos críticos de Ana Albani de Carvalho e Fernando Cocchiarale relativo à uma exposição em homenagem a Milton Kurtz realizada paralelamente ao VIII Salão de Pintura Cidade de Porto Alegre intitulada “ Milton Kurtz, Trabalhos 1970-1996” das mãos do meu sempre Prof. de Cerâmica, Cláudio Ely. Nesta época eu levava pessoalmente os convites aos palestrantes de um seminário que envolvia artistas da cidade de Porto Alegre e convidando também músicos, jornalistas, filósofos, poetas e etc. a palestrar sobre como é ser um artista da vida.
Painéis geométricos em lona e tela
Assim, depois de estudar a participação de Mário Röhnelt no grupo KVHR integrado juntamente por Kurtz, Paulo Haeser e Julio Viegas, descobri que este grupo era responsável por um folheto impresso em off-set, feito por eles mesmos, contendo imagens elaboradas também por eles. O “KVRH de Arte” era distribuído mensalmente, com tiragem de 1 mil exemplares com abrangência ampla, inclusive em outros estados e países. O projeto durou doze meses, entre 1979 e 1980 paralelo a atuação do Centro Alternativo de Cultura Espaço N.O (neste caso formado por Mário Röhnelt e um outro grupo de artistas jovens: Ana Torrano, Cris Vigiano, Carlos Wladimirsky, Heloisa Scnheiders da Silva, Karin Lambrecht, Regina Coeli, Rogério Nazari, Simone Basso, Telmo Lanes e Vera Chaves Barcellos) com objetivo de criar em Porto Alegre um local destinado à veiculação de manifestações artísticas contemporâneas, como performances, instalações, arte-postal, arte-xerox, organizando cursos, encontros e exposições.
Pretos e brancos em dimensões arquitetônicas
Olhando este catálogo e vendo agora a obra reunida de Röhnelt posso perceber os pontos apontados por Ana Albani em seu texto e reforçados por José Francisco relativo ao que há de comum entre as produções dos artistas: em primeiro a arquitetura (ambos cursaram a faculdade de Arquitetura e Urbanismo pela UFRGS), depois à dedicação às artes visuais de forma muito “autodidata”, talvez muito em função do trânsito entre os alunos das Artes e da Arquitetura nessa década, e por fim no caráter estético ou meramente pela abordagem humanística de seus trabalhos.
Selfs, desenhos a partir de fotografias
Aliás, a forma humana está presente em praticamente toda a produção de Röhnelt (desenho, fotografia ou pintura) que nos anos 2000 transformada em linha e sobreposta à cores e cenários sobrevoa, mais livre e ora mais mergulhada no plano acrílico colorido. A retrospectiva está dividida em cinco salas do 2º andar do MARGS, e impressiona o visitante a cada ambiente. Como informa José Francisco em seu texto curatorial, a obra está apresentada em segmentos. No primeiro vemos sua fase como desenhista, ali estão seus selfs ou imagens de amigos e pessoas próximas com base em fotografias. Depois vemos as pinturas muito coloridas que ocupam a década de 80, em acrílica sem tela e pinturas em papel. Nos anos 90 a fotografia, traz o branco e preto, em conjuntos de pinturas sobre tela e lona. Em meio a tudo isso, estão matrizes digitais, maquetes de ambientes, cenários, livros de artista, que invadem a produção nos anos 2000 e nos deixam imersos em linhas, agora digitais, a partir de releituras de obras do renascentista Giotto.
Fotografia, uma das técnicas usadas por Röhnelt
No dia seguinte em que estive no MARGS assisti um episódio da série “Arte Brasileira” veiculada no canal fechado GNT, apresentando o artista contemporâneo Vik Muniz (que em breve estará com exposição no Santander Cultural de Porto Alegre). Em meio a tantas falas e registros em vídeo dos trabalhos de Muniz, um comentário me reportou para a exposição de Röhnelt. Vik comenta sobre o que as pessoas fazem quando elas estão se aproximando e se afastando de quadros em exposições com sua obra. Vik diz: “Elas estão criando uma relação entre a imagem e o material. Quando você se afasta, você vê a imagem, quando você se aproxima, você vê o material que aquela imagem é feita. O sublime na representação não está na imagem ou no material e, sim, no momento em que uma coisa se transforma na outra.” Na exposição de Röhnelt eu senti muito esses momentos durante todo o tempo de visitação, por isso não perca de presenciar na sua frente, desenhos transformando-se em fotografias, fotografias em pinturas, planos bidimensionais em planos e figuras em traços.




texto e fotos Leocádia Costa

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Reproduções digitais


exposição Mário Röhnelt : Uma Retrospectiva"
Museu de Arte do RS / MARGS
até 1º de junho de 2014.
horário de visitação: Terças a domingo, das 10 às 19 horas.
Entrada franca.

www.margs.rs.gov.br






Detalhe de Selfs do artista e da fotógrafa visitante

Copa do Mundo Legião Urbana - classificados para as semifinais


Ao que parece os álbuns "Dois" e "As Quatro Estações" querem mostrar mesmo que são os melhores da Legião Urbana. Dos quatro semifinalistas temos dois representantes de cada álbum. Ou seja, garantia de grandes jogos nas semifinais.
Agora o bicho pega.
A partir de agora os jogos não serão mais distribuídos entre os integrantes da bancada legionista. Agora todos os integrantes examinarão os dois jogos e da avaliação geral teremos os classificados.
Confira abaixo os comentários do colegiado dos confrontos das quartas-de-final que resultaram nos quatro classificados para as semis:






Luan Pires
ÍNDIOS x EU ERA UM LOBISOMEM JUVENIL
É como ver seu time do coração jogar contra seu time de admiração. Explico: "Eu era um Lobisomem Juvenil" é minha música de alma, de carinho. Apesar dos defeitos, acho ela perfeita. Acho que os defeitos a deixam perfeita para mim. Mas não posso simplesmente desconsiderar a qualidade técnica de Índios e sua importância histórica. Índios é um exemplo futebolístico do mundo Legião Urbana. Tem tudo que eu, particulamente, admiro numa música: Letra incrível, melodia linda, um grito de simplicidade e ousadia (e não me perguntem como isso é possível, mas é como eu vejo). Como bom libriano que sou, preciso balancear as coisas: não posso só falar com o coração, nem só com a razão. Música é uma mistura homogênea dessas duas coisas. Quando a música é boa, afeta teu racional e teu emocional. Mexe contigo pelo emocional e tem o poder de mexer com o mundo pela capacidade racional dela. Um exemplo perfeito disso é "Índios". Nesse jogo é ela que leva a melhor. Mas pra mim, como fã de "Eu era um Lobisomem Juvenil", é um orgulho ver minha música querida perder com dignidade para esse time histórico que é Indios. 1x0 para Índios. o jogo mais triste e feliz ao mesmo tempo, pra mim. E viva a contradição!
ÍNDIOS CLASSIFICA PARA AS SEMIFINAIS EM JOGO APERTADO


Jowilton Amaral da Costa
DANIEL NA COVA DOS LEÕES x HÁ TEMPOS
Agora o bicho pegou. Grande jogo. Dois timaços, duas grandes músicas. Uma do disco 2, o disco mais conhecido e se não me engano o mais vendido da banda. A outra do disco As Quatro as Estações, o álbum que muitos acham o melhor e o mais inspirado de todos. Sem dúvida são os dois discos com as canções mais conhecidas. Daniel na Cova dos Leões começa com tudo, vai pra cima de Há Tempos, encurralando-o em seu campo defensivo e no final do primeiro tempo abre o placar. Há Tempos volta modificado, deixando de lado a cadência do seu jogo e partindo para o ataque. Dá resultado e empata o embate aos quinze minutos. Daí em diante o jogo fica aberto, chances claras para ambos os times, no entanto, a bola não estufa mais as redes. A prorrogação termina como começou, 1 x 1. Vamos para os pênaltis. Daniel na Cova dos Leões desperdiça sua última batida. O jogador de Há Tempos parte confiante para a marca de cal, bate, faz e se classifica. Daniel na Cova dos Leões 4 x 5 Há tempos (Na disputa das penalidades máximas)
HÁ TEMPOS CLASSIFICA NAS PENALIDADES MÁXIMAS
PERFEIÇÃO x MENINOS E MENINAS
Perfeição não. Nanananananana nananana nananana Hey Jude. Hit menor da Legião assim como é este disco que a contém, O Descobrimento do Brasil. Disco "flôxo". Meninos e Meninas sim. Carro-chefe do Quatro Estações que por si só é um baita disco. Seria o melhor da Legião ? Pode ser hein... As Quatro Estações é meio que o time do Inter quando ganhar um próximo título nacional. Explico: O pessoal tava órfão de música nova da LU e veio este disco glorioso. Meninos e Meninas passa fácil com placar folgado de 4x0 e faz os adversários ficarem com as barbas de molho.
MENINOS E MENINAS CLASSIFICA COM TRANQUILIDADE


ACRILIC ON CANVAS x TEMPO PERDIDO
Jogaço, clássico local, uma Inter x Juve, Fla-Flu, Boca x River, desse naipe. Com seu futebol bem armado e mais cadenciado, “Acrilic” sai jogando com cautela, estudando o adversário, que, pelo contrário, vale-se do seu lema de futebol agressivo: “Sempre em frente”. Porém, com aquele baixo matador do Renato Rocha e a voz grave do Renato Russo, quase embriagada, “Acrilic”, aos 15 min, não se assusta com a correria de “Tempo Perdido” e abre o marcador. Cedo. “Acrilic”, que já tá bem descornada, se indigna com a empáfia de “Tempo Perdido” quando esta diz que o suor sagrado deles é bem mais belo que o sangue amargo do outro. Quê isso?! Agressão oral também não pode, seu juiz! Pois a indignação faz “Acrilic” aplicar mais um aos 37 min, e assim vão pro vestiário. Quê: banho de bola justo numa das favoritas ao campeonato? O que tá acontecendo? O técnico, puto da cara, enche a turma de osso no intervalo, e ele voltam, aí sim, com o brio de que faz jus ao nome, afinal, se os primeiros 45 min foram desastrosos, o negócio é recuperar o tempo perdido. Aos mesmos 15 min, desconta: 2 x 1. Placar perigoso pra quem tá ganhando, porque, se o adversário é forte e se determina, a qualquer hora pode haver o empate. Pois “Acrilic” não resiste à pressão e cede o empate. Faltam 15 min pra acabar. Acabará assim e irá para os pênaltis? Pois o time de “Tempo Perdido” estava decidido a vencer. Da casamata o técnico gritava: “não temos tempo a perder”. E deu resultado o chamado do professor, que queria terminar a partida dentro dos 90 min pra não desgastar mais ainda sua equipe. O terceiro gol sai num cruzamento na área que o atacante sobre mais que todo mundo e cabeceia pro chão, sem chance de defesa.
E TEMPO PERDIDO, DE VIRADA, AVANÇA PRAS SEMIFINAIS.



Sorteio dos enfrentamentos das semifinais nesta segunda-feira, dia 12/05/2014

sábado, 10 de maio de 2014

" 'Morte na Mesopotâmia' seguido de 'O Caso dos Dez Negrinhos' " - adaptação para HQ de François Rivère, Chandre e Frank Leclerq - L&PM (2010)


Tinha comprado há algum tempo mas só agora li a adaptação para HQ de dois clássicos da rainha do mistério, Agatha Christie, "Morte na Mesopotâmia" e "O Caso dos Dez Negrinhos", ambos roteirizados por François Rivère e desenhadas, respectivamente, pelos artistas Chandre e Frank Leclerq. Quadrinhos são sempre legais, a proposta é interessante e essas adaptações literárias sempre muito válidas, mas pela natureza da obra, um mistério, portanto muito dependente dos detalhes, ou a publicação teria que ser extremamente longa, talvez até mais que o livro original, para apanhar todas as minúcias necessárias para que o leitor tenha todas as possibilidades acerca do crime, ou teria que ser extremamente bem desenhado, com cada expressão de rosto, detalhes de objetos, sugestão de movimentos, etc. Em "O Caso dos Dez Negrinhos", um dos meus preferidos da autora, onde 10 pessoas são convidadas por um anfitrião anônimo a passarem uma temporada numa ilha de lazer e uma a uma vão sendo assassinadas, pela própria dinâmica da história  e pelo fato dos desenhos de Frank Leclerq serem claros e nítidos o bastante, não se sente tanta falta desse grau de detalhamento e a linguagem HQ funciona. Mas em "Morte na Mesopotâmia", com uma trama mais intrincada, mais suspeitos e mais elementos a serem considerados, o modelo fica bem prejudicado. Nesta trama o lendário personagem de Agatha Chirstie, o detetive belga Hercule Poirot, num campo de escavações no Iraque, tenta desvendar o assassinato da esposa de um arqueólogo que recebia cartas anônimas ameaçadoras e dizia se sentir perseguida, dentro de seu próprio quarto, sem a possibilidade de que alguém tivesse entrado. O problema é que o desenho do ilustrador Chandre, de traço um tanto pesado para o fim que se propõe, não consegue passar as expressões dos personagens, a não ser aquelas clássicas, de espanto com olhos arregalados, de satisfação com um sorriso, mas não capta o detalhe de um olhar cínico, uma raiva contida, etc. Posso estar exigindo muito do desenhista mas acho que quando se propõe a fazer uma HQ de mistério, coisas como essas devem ser levadas em consideração e sobretudo, inevitavelmente exploradas. Isso sem falar em algumas omissões, como um copo sujo de cêra encontrado pela vítima que é crucial para parte da solução do mistério, mas que não é visto na história sendo apenas mencionado pelo detetive quando da releitura dos fatos.
Quando comprei a publicação, eu, fã de Agatha Christie e leitor de diversas obras da autora,devo admitir que temia isso, mas insisti. Apenas confirmei. Mas, como disse, acho válido. Continuo achando essas adaptações para quadrinhos extremamente interessantes para os fãs do gênero e admiradores das obras literárias, e importante para, através de uma linguagem mais simples e visual, estimular o interesse pela leitura em quem não tem o hábito, principalmente os jovens em formação escolar.



Cly Reis

sexta-feira, 9 de maio de 2014

cotidianas #292 - O Ju-Ma do Século


"para os meus amigos de Juventus
com os quais tive o prazer de conviver durante anos
e vivenciar muitas histórias."
Cly Reis


Em pé: Cris, Tairone, Cabelo, Flávio e Dani.
Agachados: Cly Reis, Testa, Nílson, Éverton e Fábio.
(não foi o time do Ju-Ma do Século, mas não foi muito diferente disso e 
todos estes estavam no grupo)
O Manchester já era um time consolidado no bairro quando a Juventus surgiu. Meninos, na maioria renegados de outros times por não serem virtuoses da bola, nós os juventinos por nossa vez éramos organizados e ambiciosos e em algum tempo já chamávamos a atenção dos adversários da região. Começávamos a crescer, ganhar nossos amistosos, a figurar bem em torneios locais mas parecia que para efetivamente confirmarmos uma respeitabilidade, era necessário ganhar do time do bairro: o Manchester.
Quando a Juve nasceu o Manchester já tinha lá seus 8 ou 10 anos de existência e seu jogadores além de mais velhos que nós, eram mais experientes e mais fortes. Um deles, fundador do Manchester, o Ricardo, conhecido como Lambão, era irmão de um dos integrantes e criadores da Juventus, o Nílson, que até pelo fato de ser irmão mais novo e já tendo jogado no Manchester sendo normalmente ser preterido em nome dos mais velhos ou dos que jogavam mais bola, tinha uma gana em especial para ganhar deles. Então eis que quando nos sentimos minimamente prontos desafiamos o Manchester para um duelo. Para ver quem mandava na Intercap. Era lógico que eram eles. Mais tarimbados, corpulentos e organizados dentro de campo nos aplicaram uma impiedosa goleada. O que se repetiu algumas vezes em novos enfrentamentos, inclusive em um torneio da Federação de Futebol Sete do qual ambos os times participaram.
Mas as goleadas diminuíram. Os manchesterianos ainda nos venciam mas os placares passaram a ficar mais apertados e às vezes de maneira até mesmo contestável. A Juventus, além de perder a inocência inicial, agregava novos valores ao time, nos reforçávamos com um conhecido de um aqui, um colega de outro acolá e de repente começávamos a ganhar uma cara de time. Tinha um bom goleiro, o Tairone, um bom meia, o Éverton, o Testa tinha suas virtudes, o Topo-Gigio também mas de resto eram jogadores apenas esforçados. Mas então o Fábio, um menino que havia estudado comigo na 3 série havia voltado a morar no bairro e agora era um rapaz forte e corpulento, o Dani, um garoto que morava perto do campinho, jogava na defesa e gostava um bocado de bater, o irmão do Tairone, o Cris, que era franzino mas valente e dono de um espírito de liderança e tanto, passaram a fazer parte do nosso time. Com estes e outros a Juventus se reforçava e diminuía a diferença para o grande rival do bairro. Era hora de desafiá-los de novo.
Havia agora a convicção que o reforço não deveria ser apenas técnico mas também físico visto que os jogadores do adversário era muito mais fortes. O Tairone conhecia um cara, o Élton, que jogava muita bola e, apesar de ser mais ou menos da nossa mesma idade, era bem mais forte pois gostava de musculação coisas do tipo. Chamou o cara para jogar com a gente. Ele topou. Estrearia exatamente num Juventus x Manchester.
Naquela época, por conta de uma personagem de uma novela, a tal Juma Marruá, e pela coincidência das iniciais dos times, por brincadeira passamos a chamar o confronto pelo nome da moça, mas o apelido pegou e o título do nosso duelo local passou a ser esse: o clássico JU-MA.
E veio o dia do clássico. Seria aquele o dia da nossa primeira vitória? Sim, amigos! O fato de ter o Élton em campo fez toda a diferença. Além da boa qualidade técnica, parecia que não era mais apenas um time de guris, e o Manchester, já assutado pelas partidas anteriores que vinha ganhando no detalhe, sentiu isso. O jogo ficou mais pegado, os meninos não refugavam nas divididas, não se intimidavam, não fugiam das encaradas. O gol saiu num chute de longe do Fábio em que a bola desviou em alguém pelo meio do caminho e tirou do goleiro Edemir. 1x0 pra nós. Os 'meninos' iriam ganhar e o Manchester não conseguia aceitar aquilo. Até por isso o jogo ficou tenso, os nervos ficaram à flor da pele e como era de costume nos nossos embates contra o co-irmão, a partida acabou em confusão. Na confusão aconteceu algo de crucial importância e determinante para a sequência da trajetória da Juventus como time e para os confrontos futuros contra o Manchester. Nosso zagueiro, o Flávio, conhecido como Azeitona, acertou um murro no nariz do Júlio, um zagueiro alto, forte e violento que até então sempre nos impunha um grande respeito e até medo, por que não dizer, pelo seu jogo viril e até desleal. O curioso é que pela primeira vez eles ficaram intimidados. O Júlio não revidou o soco. Não massacrou de porrada o guri metido que ousara lhe dar um soco no nariz, como seria o provável que acontecesse em outros tempos. é lógico que a confusão aumentou, teve todo aquele "deixa disso", "vamos separar" e tal, mas não partiu pra cima do agressor. Não. Além do fato de ter o Élton em campo, o que já nos conferia uma imagem de igualdade física, era evidente pelo resultado do jogo e pela reação que os meninos tinham crescido. Tinham crescido e nunca mais as coisas voltariam a ser como antes.
É lógico que a Juventus voltou a perder umas que outras para o Manchester, mas nunca mais fomos fregueses. Depois da primeira vitória, igualamos o número de triunfos, devolvemos a golada no Campeonato da Federação, ultrapassamos o rival em número de vitórias e nunca mais foi abandonamos essa vantagem.
O bairro tinha um novo dono.
Parecia que sim, mas a grande prova estava por vir. O Ricardo, dono do Manchester, resolvera organizar um torneio padrão FGF7 (Federação Gaúcha de Futebol Sete), inclusive com árbitros contratados e tudo mais. Súmulas, partidas nos horários, calendário, belos troféus e medalhas. Ah, nossa recém conquistada supremacia não seria nada se não ganhássemos a Copa Intercap.
O destino, sacana, nos reservou uma peça logo de cara: pegaríamos o Manchester na primeira fase. Jogo equilibrado. Respeito mútuo, ninguém se abriu e o jogo ficou no 0x0. Ambos passamos de fase, eliminamos nossos adversários até que o destino, novamente ele, inconformado com a normalidade dos fatos no embate anterior, colocou-nos frente à frente numa semifinal. Aquilo decidiria a vaga na decisão. Maior que aquilo só se fosse a própria final, mas como não era, o grande confronto histórico de Juventus e Manchester seria aquele.
Como alguns anos antes Internacional e Grêmio se enfrentaram numa semifinal de Campeonato Brasileiro e o confronto foi chamado de "Grenal do Século" pela importância que tinha naquela fase de um campeonato nacional, pela semelhança das circunstâncias, foi natural e justo que aquele jogo do torneio, até então, mais importante que aquele bairro já havia visto, fosse alcunhado de nada mais nada menos que o "Ju-Ma do Século".
E o jogo foi eletrizante! Jogadas bonitas, jogadas duras, tensão, seriedade, apreensão! Até que numa jogada boba, num escanteio, o goleiro do Manchester, o Edemir, um cara meio cabeça-quente, depois de ter defendido o cruzamento e ter a bola em seu poder, agrediu o Éverton, com o jogo em andamento. Pênalti!!! O Fábio, que já se transformava num carrasco deles, bateu e fez. Edemir foi no canto certo a bola ainda triscou na trave e entrou. Estávamos na frente.
O jogo prosseguia bem, de certa forma sob controle, até que o Fábio que fazia uma atuação extraordinária até então, falhou. Foi matar uma bola com a sola do pé e a deixou passar por baixo dele. Ela sobrou limpa, quicando, na frente do gol pro atacante deles o Esquilão que não pensou duas vezes: fuzilou! eles empataram. Se seguisse daquele jeito teríamos penais. O  resultado impacientava os dois times, a tensão crescia e a rivalidade não permitia que se pensasse na hipótese do outro ganhar. Por tudo isso, lá pelas tantas, pelo finalzinho do jogo, não lembro por qual motivo fechou a confusão. Empurra-empurra, braço pra cá, braço pra lá, separa aqui, parte pra cima do outro e nisso tudo, dois nossos foram expulsos e um deles. Os momentos finais seriam de arrepiar e com muuuuito espaço em campo. Mas a Juventus realmente parecia mais madura e soube encarar melhor a situação, e numa bola alçada longa, quase do meio de campo para a área, o Testa conseguiu ganhar na cabeça do goleiro que que saiu mal, quase no bico da área. A bola que ainda raspara na sua luva do atabalhoado arqueiro, foi morrendo devagarinho no fundo do gol. Foi uma explosão só! Nossa e das pessoas que assistiam ao jogo na lateral do campo que àquelas alturas estavam torcendo pelos meninos contra os marmanjos. Os minutos finais foram de tensão, de bola pro mato, de chutar pra qualquer lado. Não tinha mais jogo. Era só esperar o apito final. E ele veio com a nossa classificação e a vitória definitiva.
Curiosamente, assim como o Internacional que venceu o Grenal do Século mas não levou o título brasileiro, perdendo para o modesto Bahia, também não ganhamos a final, sendo derrotados pelo fraco Caracol. Chegamos à decisão, que seria no mesmo dia à tarde, esfacelados! Física, mentalmente, emocionalmente e com os dois desfalques expulsos no clássico. Eles fizeram 1x0 e, simplesmente, mortos de cansaço depois de um jogo de altíssima exigência, não tivemos força para buscar o resultado. Mas não fazia mal. É lógico que gostaríamos de ter coroado nossa participação com o título, mas o fato de ter vencido o maior rival numa semifinal do torneio mais importante que já houve no nosso bairro, já era motivo de sobra para que ficássemos orgulhosos e nunca mais déssemos margem para qualquer contestação
Aquele bairro tinha um novo dono.


Cly Reis

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Ela










"Ela" - REIS, Cly
pincel atômico sobre sulfite 10x15cm


REIS, Cly

Leonard Cohen - "Songs of Leonard Cohen" (1967)



"Cada faixa de 'Songs of Leonard Cohen' 
revela um artista que fala
de forma indelével
em sua própria voz inimitável.
Anthony DeCurtis
crítico da revista Rolling Stone



Um homem das letras que pegou o violão e resolveu cantar histórias, aventuras, fantasias e amarguras. Leonard Cohen já era um escritor com algum reconhecimento e renome, principalmente no Canadá, seu país de origem, quando decidiu se lançar no mundo da música e com um disco praticamente acústico, voz e violão na maioria das vezes, às vezes com alguma guitarra elétrica, um teclado, cordas ou um sopro, bastante básico de um modo geral, mas muito sensível e profundo, não só pelas letras, mas pela musicalidade que aquela parente simplicidade carregava.
"Songs of Leonard Cohen" de 1967 traz uma coleção de canções do poeta canadense repletas de paixão, melancolia e angústia. Não, Cohen não era um cantor brilhante,até se tornou um bom com o passar do tempo, mas expressava sua poesia em forma de cações de tal maneira que por si só sua tentativa musical já se justificava.
Disco que pode muitas vezes ser subestimado por sua aparente uniformidade musical mas que é extremamente rico compositivamente e que, se escutado com a devida atenção, vai tornar perceptível sua estrutura crescente, partindo das canções mais 'simples', menos estruturadas, às mais complexas, mais elaboradas e preenchidas instrumentalmente.
Destaques para a boa "Suzanne" que abre o disco e que já havia sido gravada pela cantora americana Judy Collins; para "One of Us Can Be Wrong", que encerra o álbum com uma cantoria bêbada, enlouquecida e desesperada; para "Sisters of Mercy", uma espécie de grande caixinha de música, cujo título originou o nome da banda gótica dos anos 80; para a terna "Hey, That's No Way To Say Goodbye", lindíssima; para os belos trabalhos de violão de "The Stranger Song" e "Teachers"; para a espetacular "Stories of the Street"; e especialmente para a épica e linda "So Long, Marianne", uma apaixonada e fascinante canção com uma bela interpretação de Cohen, apoiado por um belíssimo backing vocal feminino no refrão que a torna ainda mais emocionante. Mesmo, na origem, não sendo exatamente um vocalista, Leonard Cohen foi extremamente influente para gerações posteriores de poetas-cantores, como, por exemplo, para Nick Cave, Michael Stipe, Morrissey e até mesmo Kurt Cobain. E não apenas no modo de escrever, mas também, por incrível que possa parecer, considerando sua origem de escritor, no modo de cantar.
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FAIXAS:
1. "Suzanne"
2. "Master Song" 
3. "Winter Lady" 
4."The Stranger Song" 
5. "Sisters of Mercy"
6. "So Long, Marianne"
7. "Hey, That's No Way to Say Goodbye"
8. "Stories of the Street" 
9. "Teachers"
10. "One of Us Cannot Be Wrong"


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Ouça:
Songs of Leonard Cohen




Cly Reis

Copa do Mundo Legião Urbana - quartas-de-final



Prepare seu coração!
Agora são só 8 músicas em busca do 'caneco' de melhor música da Legião Urbana. Chegamos às quartas-de-final e ao que parece, os álbuns "Dois" e "As Quatro Estações" confirmam que são os melhores do grupo. Sete das oito participantes desta fase integram um dos dois álbuns e apenas "Perfeiçaõ" aprece de intrusa, tendo desbancado, por sinal, "Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto", que seria mais uma para monopolizar a disputa entre aqueles dois discos.
Mas não vamos ficar falando de quem ficou pelo caminho, vamos ao que interessa e o que importa agora são os confrontos já sorteados para as 4as.-de-final. Com 4 times do "Dois" e 3 do "Quato Estações" era inevitável sair algum clássico regional, e até que deu pouco, só saiu um. Em compensação é um de sair faísca. Enfim, vamos aos jogos destas quartas-de-final. Olho no lance!



terça-feira, 6 de maio de 2014

Berinjela Beligerante


O Jogo da Sua Vida #3 - Flamengo 3 x Santos 0 (1983)


Ah, o jogo da minha vida foi Flamengo e Santos em 1983, quando o Flamengo foi Campeão Brasileiro. Minha mãe me disse "tu não vai, tu não vai, tu não vai...", aí quando o ônibus já estava saindo, eu entrei.
Eu com 13 anos já era goleiro do time adulto lá do bairro e a maioria dos caras iam ao jogo. Saíam uns ônibus lá onde eu morava, o pessoal alugava uns da empresa Beira-Mar, às vezes saíam dois ou três ônibus pro Maracanã. O dono do meu time, o Betinho, disse que pagava a minha, mas a minha mãe disse que eu não ia, que eu não ia e pronto. Eu fiquei na minha. Quando os ônibus estavam quase pra sair eu entrei num deles com os caras. Aí vi o jogo, voltei campeão e tomei uma surra. E detalhe: a minha mãe era flamenguista doente mas mesmo assim me deu uma sova.
Eu me lembro que me encostei num canto e a minha mãe não me dava cintada, não, dava com fio. Com um fio! Eu só dizia, "Pode bater, mãe. Pode bater que eu sou campeão brasileiro. Bate, bate".
Eu nunca mais vou esquecer disso na minha vida. Fiquei todo lanhado mas feliz.



Marcelo José
(Rio de Janeiro)

cotidianas #291 - O Relojoeiro



Ainda lembro daquele dia com estranha curiosidade e, porque não dizer um certo pavor. Meu relógio de bolso, que fora de meu pai e antes de meu avô e antes dele de meu bisavô e antes, devo admitir, não saber a procedência, mas tenho certeza ser mais antigo que a deste último patriarca, parara de funcionar sem motivo aparente. Movido pelo apego emocional que tinha àquela peça, tratei de procurar um relojoeiro, mas tomei o cuidado de procurar algum que soubesse lidar com aquele tipo de relíquia. Não podia ser um desses novos, dos novos tempos que só sabem mexer em relógios à pilha com mostradores digitais reluzentes ou em máquinas de mecânica tão lógica que eu mesmo o faria. Não era tão fácil. busquei pela cidade, percorri anúncios, consultei amigos se algum sabia de um confiável e mantinha-me atento às vitrinas e letreiros das lojas no centro da cidade. Não encontrava.
Certo dia voltando para casa, a pé, avistei uma pequena casa encravada entre prédios altos de apartamentos cujo anúncio na pequena fachada antiga e desgastada dizia "O Relojoeiro - consertamos relógios de todos os tipos". Embora genérico o anúncio, mais do que ele, a aparência austera do lugar me transmitira confiança para lá levar minha peça de família. O curioso é que mesmo sendo caminho para casa e passando frequentemente por ali, nunca vira aquela loja antes.
Decidi entrar. Empurrei a porta e fez-se tocar um pequeno sino fixado a ela. A pequena sala ela absolutamente toda coberta de relógios. Toda. Paredes, teto, balcão, janelas, exceção feita somente ao chão, se bem que havia caixas cheias deles encostadas às paredes o que devia atrapalhar a circulação. Eram relógios de bolso, de pulso, relógios-cuco, relógios de mesa, relógios-caneta, anéis com relógio, chapéus até. Minha distração com aquele mundo de tempo foi quebrada por uma voz de um homem que atravessara uma cortina vindo de alguma sala do fundo da loja. Era um homem baixo, de bigode curto, com calvície bem avançada e cabelos brancos onde lhe restavam. Usava um guarda-pó de couro com bolso e trazia às mãos um relógio ao qual polia insistentemente. Perguntou-me olhando por cima dos óculos se podia me ajudar. Respondi que meu relógio de bolso, de estimação, parecia, havia enguiçado e por ser muito antigo não confiava a qualquer relojoeiro que pudesse consertá-lo e perguntei-lhe então se saberia lidar com aquele tipo de mecanismo antigo. Perguntou-me então curioso por quê supunha que ele pudesse consertá-lo. Respondi que o anúncio abrangendo "todos os tipos" me passara confiança. Além do aspecto da loja, "pareceu-me passar credibilidade", disse-lhe. Riu. Pediu então para ver o meu relógio. tirei do bolso e mostrei-lhe. Olhou-me novamente por cima dos óculos, agora com semblante mais sério, voltou a olhar o relógio e o entregou-me. Disse que infelizmente não poderia consertá-lo. Perguntei se era algo muito complicado, se poderia levar a outro relojoeiro ao que respondeu que o caso não era que ele não conseguisse consertar, o relógio não poderia ser consertado. Ainda quis questionar o porquê mas apenas tomou minha mão, virou a palma para cima, colocou o relógio nela e fechou meus dedos. "Confie em mim", disse. E olhando-me de forma quase paterna completou "Cada relógio tem seu tempo. Agora vai. Vai.". Saí daquela loja e tomei a rua. Nada me pareceu como fora antes. Aliás os prédios que espremiam a casa de relógios já não estavam mais lá. Estranho. Tomei o rumo de casa.

Cly Reis

Copa do Mundo Legião Urbana - confrontos das oitavas-de-final

Fumaceira!
Só fumaceira daqui pra frente. Só dá jogaço nessa competição, ainda mais agora que só restaram 16 equipes e todas elas altamente credenciadas, carimbadas com o selo de qualidade Renato Russo.
Se na fase anterior tivemos 4 clássicos locais e o superconfronto "Pais e Filhos" x "Tempo Perdido", essas oitavas não deixam nada a desejar também. Se por um lado só temos um 'derby', "1965" x "Meninos e Meninas" fazendo o "Clássico das 4 Estações", temos pelo menos três embates de arrepiar: "Perfeição" contra "Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto", "Acrilic on Canvas" versus "Que País é Esse" e, na minha opinião o mais terrível dessa fase, "Há Tempos" pegando "Eu Sei". É gente, não tem moleza pra ninguém. O bicho tá pegando e agora é salve-se quem puder. Além dos jogos já citados, confiram abaixo todos as partidas das oitavas-de-final da Copa do Mundo Legião Urbana:


segunda-feira, 5 de maio de 2014

Copa do mundo Legião Urbana - classificados para as oitavas-de-final


Só restam 16.
A segunda fase, como prometia, foi eletrizante e derrubou mais algumas que eram dadas como candidatas certas ao título: Faroeste Caboclo já havia sido eliminada na primeira fase e agora na segunda, Eduardo e Mônica, Será e Por Enquanto ficaram pelo caminho e, no super-confronto desta fase, Pais e Filhos foi eliminada por Tempo Perdido.
Confrontos difíceis? Vocês não viram nada. Agora que vem o pior. Tá afunilando, tá afunilando e as dezesseis músicas destacas em vermelho, abaixo, seguem na competição. Amanhã saem os confrontos.





The Who - "Who's Next" (1971)


"Sou o computador HAL 9000.
Entrei em funcionamento na usina HAL
em Urbana, Illinois em
janeiro de 1992.
Meu instrutor foi o Sr. Langley
e ele me ensinou a cantar uma música.
Se quiser ouvi-la,
posso cantar para você"
computador HAL 9000
em "2001 - Uma Odisséia no Espaço"



Com uma base futurista, como se fosse o filme “2001: Uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick, o The Who projetou o “Who´s Next”. Alias, a capa do disco é influenciada justamente nesse clássico da ficção científica. Na foto, o monólito (estrutura geológica que aparece no filme) foi urinado pelos quatro membros da banda: uma atitude bem rock. Este disco está posicionado entre duas óperas rock do grupo: Tommy, de 1970, e Quadrophenia, de 1973.

Voltando à película cinematográfica, um dos personagens, o computador ultra inteligente HAL 9000 chega ao ponto de controlar a espaçonave, colocando os humanos tripulantes sob seus domínios. De certa forma, a comparação pode ser feita com o sintetizador ARP 2600, que comanda este álbum. A tecnologia foi capitaneada por Pete Townshend – o centro criativo da banda.

Neste registro, o The Who se mostra ainda mais maduro, flertando com o rock progressivo, que ganhava força na época e se perpetuaria até o final dos anos 70, momento de seu declínio. Nota-se também que as músicas, na maioria, são bem mais extensas. Outro gênero musical presente é o Synthpop, que ganharia notoriedade com o Kraftwerk, principalmente nos anos 80. Ou seja, o tradicional rock visceral deu espaço para mais experimentalismo, gerando descontentamento de alguns fãs quando lançado este disco.

Mesmo com a tecnologia, Pete Towshend usa bastante violão e piano, o que permite um contraste com os sintetizadores. As baladas também são marcantes no álbum.

Como não poderia ser diferente, no início desse registro quem se manifesta é o ARP, que dá o start em "Baba O'Riley". O equipamento emite sons que parecem de videogame, aqueles de Atari. A canção também conta com um solo de violino, que dá acabamento e finaliza a música. O resultado é uma bela fusão entre o eletrônico e o orgânico. Já em "Bargain", o começo tem aquele rolo de bateria nervoso e amalucado, característicos de Keith Moon. E em meio a palmas e a pinceladas de sintetizador, Roger Daltrey (gutural) e Pete Towshend (analasado) dividem os vocais.

Contradizendo com a proposta principal do disco, numa mescla de country com blues, surge "Love Ain't For Keeping”, fazendo um resgate ao passado. Os dois violões gravados por Pete e a dispensa do sintetizador contribuem para chegar a este destino. Um bem postado coral de vozes e a liberdade dada ao baixo para solar permitiram uma maior melodia à canção.

Num formato de power trio, duas faixas não contam a presença de Daltrey. Na "My Wife" é a vez da voz rouca do baixista John Entwistle entrar em ação. A canção tem um piano no estilo faroeste, além de instrumentos de sopros muito bem colocados do meio para o final da música, encerrando-a de forma mais épica. Já "Going Mobile", Towshend canta, com o seu violão, sobre o seu prazer em dirigir. E a letra é politicamente incorreta, com o trecho: “I don't care about pollution (Não me importo com a poluição)”.

Duas músicas têm como base o piano e que poderiam fazer parte da ópera rock Tommy. Em "The Song Is Over", Pete canta de forma depressiva, com um teclado de base. Mas, quando entra a voz Daltrey vem juntamente o peso da guitarra, do baixo e da bateria. Aí, as coisas se invertem, dando mais ânimo a música. Quase no mesmo tom tem "Getting In Tune", só que nesta é Daltrey que vocaliza de forma desanimada e depois energética. A construção musical é parecida com a canção anteriormente referida, uma espécie de continuação.

A clássica "Behind Blue Eyes" é uma balada tão contagiante, que foi dispensado o uso do ARP. É uma música à moda antiga, boa cantar numa roda de amigos. Do início até a metade é introspectiva, com violão e baixo, este último instrumento com arranjos mais elaborados. Na parte final, a levada é no estilo consagrado do The Who, ou seja, com aquele peso nos instrumentos que fizeram sucesso no início da carreira.

Futurística e espacial. Estes são dois adjetivos que podem ser aplicados a "Won't Get Fooled Again", faixa que encerra o álbum. Certamente, poderia estar na trilha sonora do “Odisseia no Espaço”. É a canção mais longa do disco, com 8 minutos e 33 segundos. Ela é tão boa, que o tempo passa como um foguete, quase na velocidade da luz. Mais uma vez, o HAL, digo, o ARP entra em ação e, praticamente, é tocado numa mesma base sonora, do início até o final, com pequenas variações no meio da música. É um contagiante encerramento para este grande enredo musical.

Após esse álbum, Moon teria pela frente mais três discos para gravar. Entwistle mais cinco. E a dupla Daltrey e Townshend estão vivos e na ativa, para quem sabe fazer ainda mais.

“Who´s next” é para ser escutado durante as próximas gerações. De avô para neto. Um legado deixado para os adoradores de rock.
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FAIXAS:

  1. "Baba O'Riley" - 5:08
  2. "Bargain" - 5:34
  3. "Love Ain't For Keeping" - 2:10
  4. "My Wife" (John Entwistle) - 3:41
  5. "The Song Is Over" - 6:14
  6. "Getting In Tune" - 4:50
  7. "Going Mobile" - 3:43
  8. "Behind Blue Eyes" - 3:42
  9. "Won't Get Fooled Again" - 8:31

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Ouça: