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terça-feira, 22 de julho de 2014

Humberto Gessinger - "Insular" (2013)





Resolvi assumir o nome solo

pois não usei uma banda fixa na gravação do "Insular",
convidei vários músicos que admiro,
usei várias formações.
Mas não houve ruptura na maneira como escrevo e toco,
só amadurecimento"
Humberto Gessinger




Humberto Gessinger finalmente lança um disco com seu nome. O que na realidade não muda muita coisa pois ele sempre foi O Engenheiro do Hawaii. O que na realidade muda muita coisa, pois quem acompanhou a trajetória dele como compositor e letrista sabe que desde o primeiro disco e ao longo dos outros existia uma vertente gauchesca bem consistente. Não se deram conta ? Escutem então a milonga "Longe Demais das Capitais" do primeiro disco e que se repete com mais acento gauchesco no disco "Alívio Imediato". Outra canção com esta temática é a regravação de "O Herdeiro da Pampa Pobre" no "Várias Variáveis". No disco "GLM", temos a "Pampa no Walkman", no "Simples de Coração" tem uma música com a temática da erva-mate, a "Ilex Paraguariensis", no "Minuano" temos a "Deserto Freezer", um xote moderno agauderiado, enfim, ao logo da trajetória, virava e mexia aparecia esta referência fosse para marcar posição, dizer de onde vinha. E penso que o Humberto queria dar o recado semelhante ao do Brizola quando falava: “Eu venho de longe...”. "Insular" vêm a consolidar apresentar um Humberto maduro seja na composição, na letras e nas temáticas do disco, possui consistência, peso quando necessário e delicadeza de quem sabe que muitas vezes mais é menos. Possui parcerias com o Bebeto Alves (esse sim, veio de longe, lá de Uruguaiana) na música "A Ponte para o Dia", que termina com a velha milonga. Lá pelas tantas Humberto “joga o osso” e dá suerte. Parceria muito boa com Luiz Carlos Borges, gaiteiro de longa data de serviços prestados ao nativismo na música muito boa chamada "Recarga". Não por acaso, emenda na "Milonga do Xeque-Mate" com pontuação precisa e característica da guitarra do Frank Solari. E segue com a referência à cultura gaúcha citando a "Prenda Minha" na música delicadíssima "Essas Vidas da Gente" que têm um baixo muito envolvente emoldurando a canção. Podia ter terminado por aí o disco mas ainda tem uma música sobre o passar do tempo com a participação primorosa e certeira do Nico Nicolaievsky que diz “Que susto quando olhei no espelho, caralho, como estou ficando velho...”. Será este um disco sobre o passar do tempo, sobre o envelhecimento, sobre a experiência ? Será por isto que eu gostei e achei fundamental ? Pode ser hein !
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FAIXAS:
01. Terei Vivido
02. Sua Graça
03. Bora
04. A Ponte Para o Dia (participação de Bebeto Alves nos vocais)
05. Tchau Radar, A Canção (participação de Rodrigo Tavares nos vocais)
06. Tudo Está Parado
07. Recarga (participação de Luis Carlos Borges no acordeon e vocais)
08. Milonga do Xeque-Mate (participação de Frank Solari na guitarra)
09. Insular
10. Essas Vidas da Gente
11. Segura a Onda, DG (participação de Nico Nicolaiewsky)
12. Plano B


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Ouça:


segunda-feira, 21 de julho de 2014

cotidianas #310 - O Presente


capa comemorativa do álbum "White Light / White Heat"
do Velvet Underground, para formato cassete
concebida por um fã conhecido como eidee
Waldo Jeffers alcançara seu limite.
Era agora meio de agosto, o que significa que ele estava separado de Marsha a mais de dois meses.
Dois meses, e tudo o que ele tinha pra mostrar eram três cartas com orelhas e duas ligações de longa-distância extremamente caras.
Verdade, quando ela terminou o colegial e voltou para Wisconsin, e ele pra Locust, Pennsylvania, ela teve que jurar que manteria uma fidelidade incorruptível.
Ela marcará encontros ocasionais, mas só por mera distração.
Ela permanecerá fiel.

Mas ultimamente Waldo começou a se preocupar.
Teve problemas para dormir à noite e quando conseguiu, teve sonhos horríveis.
Ele fica acordado na cama à noite rodando e virando de um lado pro outro buscando proteção embaixo de seu edredom, lágrimas jorrando em seus olhos conforme ele imaginava Marsha, quebrando seu juramento de não beber e ao afago tranquilizador de algum troglodita, finalmente submetendo-se às carícias finais de um sexo entorpecedor, era mais do que a mente humana poderia suportar.
Visões da traição de Marsha o assombravam.
Fantasias diurnas de abandono sexual permeavam seus pensamentos.
E o ponto era que eles não entenderiam como ela realmente era.
Ele, Waldo, só, entendia isso.
Ele intuitivamente entendeu cada “cantinho” da sua psique.
Ele a fez sorrir.
Ela precisou dele, e ele não estava lá (Ahwww...).

A ideia lhe veio na quinta-feira antes do Desfile de Máscaras ser agendado para acontecer.
Ele tinha acabado de aparar a grama dos Edelsons por um dólar e cinquenta e tinha verificado a caixa postal para ver se havia ao menos uma palavra de Marsha.
Não havia nada a não ser uma carta-circular da Amalgamated Aluminum Company of America inquirindo-o a respeito de suas necessidades.
Ao menos se importaram o suficiente para escrever.

Era uma companhia de Nova York.
Pode-se chegar a qualquer lugar por correspondência.
Então isso o fez perceber.
Ele não tinha dinheiro suficiente para ir a Wisconsin numa roupa aceitável, é verdade, mas porque não enviar-se pelo correio?
Seria incrivelmente simples.
Enviaria a si mesmo num embrulho pelo correio, entrega especial.
No dia seguinte, Waldo foi ao supermercado para comprar o equipamento necessário.
Comprou fita adesiva, uma pistola de grampo e uma caixa de papelão de tamanho médio apropriado para uma pessoa de seu porte.
Ele descobriu que, com o mínimo de bagagem, poderia viajar perfeitamente confortável.
Algumas aberturas, um pouco de água, talvez algum aperitivo para a noite, e seria provavelmente tão bom quanto um passeio turístico.

Sexta-feira pela tarde, Waldo estava pronto.
Estava perfeitamente empacotado e o carteiro concordou em apanhá-lo às 3 horas.
Ele marcou o pacote como "Frágil" e, enquanto ele estava lá dentro sentado, enroscado, descansando no forro de espuma de borracha, ele tinha tudo bem planejado.
Tentou visualizar o olhar espantado e feliz no rosto de Marsha quando ela abrisse a porta e visse o pacote, daria gorjeta ao entregador.
E então abriria e finalmente veria Waldo em pessoa.
Ela o beijaria e então talvez eles pudessem assistir a um filme.
Se ele tivesse pensado nisso antes.
De repente, mãos brutas seguraram seu pacote e ele sentiu ser puxado pra cima.
Foi jogado com um baque dentro de um caminhão e se foi.

Marsha Bronson tinha acabado de arrumar o cabelo.
Tinha sido um final de semana muito difícil.
Ela teve que se lembrar de não beber tanto.
Bill tinha sido gentil de qualquer forma.
Depois que terminou ele teve que dizer que ainda a respeitava e, depois de tudo, era certamente a maneira natural, e mesmo assim, não, ele não a amava, mas sentiu uma afeição por ela.
E, depois, eles eram adultos crescidos.
Ah, o que Bill poderia ensinar a Waldo - mas isso parecia ser a muitos anos atrás.

Sheila Klein, sua amiga, chegou pela porta de tela da varanda e foi pra cozinha.
"Meu Deus, a coisa lá fora está absolutamente temperamental."
"Ach, sei o que quer dizer, me sinto repulsiva!"
Marsha apertou o cinto de seu robe de algodão com a borda exterior de seda.
Sheila friccionou o dedo sobre alguns grãos de sal na mesa da cozinha, lambeu o dedo e fez uma careta.
"Creio que eu deveria pegar esses grãos de sal mas", enrugando o nariz, "eles me dão ânsia de vômito"
Marsha começou a dar tapinhas embaixo do queixo, uma prática que ela viu na televisão. "Deus, nem fale nisso."
Ela se levantou da mesa e foi até a pia onde pegou um frasco de vitaminas rosa e azul.
"Quer um? Era pra ser melhor que um bife", então tentou tocar seus joelhos.
"Acho que eu nunca mais vou tocar num daiquiri outra vez".
Ela levantou e sentou, dessa vez mais próxima da pequena mesa onde estava o telefone.
"Talvez Bill ligue", respondendo ao olhar que Sheila lhe deu.
Sheila mordiscou uma cutícula.
"Depois da noite passada, eu pensei que talvez você fosse sincera com ele."
"Sei o que quer dizer. Meu Deus, ele parecia um polvo. Mãos por toda parte."
Ela gesticulou, levantando a os braços para cima em defesa.
"A coisa é que, depois de um tempo, você se cansa de lutar com ele, entende, e depois de tudo eu realmente não fiz nada sexta e sábado, então eu meio que devia isso a ele. Você sabe o que quero dizer."
Ela começou a se coçar.
Sheila estava rindo com a mão tampando a boca.
"Vou te dizer, eu senti a mesma coisa e mesmo depois de um tempo", aqui ela se curvou num sussurro, "Eu queria isso!"
Agora ela estava rindo bem alto.

Foi aí que o Sr. Jameson dos Correios de Clarence Darrow tocou a campainha da ampla casa ornada com estuque colorido.
Quando Marsha Bronson abriu a porta ele a ajudou a carregar o pacote para dentro.
Ele tinha esse recibo amarelo e outro verde assinado junto com os quinze centavos de gorjeta que Marsha havia pegado na pequena carteira bege de sua mãe que estava num esconderijo.
"O que você acha que é?", perguntou Sheila.
Marsha ficou de pé com os braços cruzados atrás das costas.
Olhou fixamente para a caixa marrom no meio do quarto. "Eu não sei."
Dentro do pacote, Waldo revirava-se de excitação em ouvir as vozes abafadas.
Sheila arranhou sua unha na fita adesiva percorrendo-a até o centro da caixa.
"Porque você não olha o endereço do destinatário e vê de quem é?”
Waldo sentiu seu coração batendo.
Ele podia sentir a vibração dos passos.
Seria em breve.
Marsha andou em volta da caixa e leu a etiqueta com a tinta borrada.
"Ah Deus, é de Waldo!"
"Que babaca!", disse Sheila.
Waldo tremia com a expectativa.
"Bem, talvez você deva abrir", disse Sheila.
Ambas tentaram erguer as abas grampeadas.
"Ah, merda!", disse Marsha, grunhindo, "Ele deve ter lacrado com pregos."
Elas puxaram os grampos de novo.
"Meu Deus, precisa de uma broca pra abrir essa coisa!"
Elas puxaram de novo.
"Não se pode apertar tanto."
As duas continuavam de pé, respirando pesadamente.
"Porque você não pega uma tesoura?", disse Sheila.
Marsha correu pra cozinha, mas tudo o que conseguiu encontrar foi uma pequena tesoura de costura.
Então se lembrou de que seu pai mantinha uma coleção de ferramentas no porão.
Ela correu escada abaixo, e quando voltou carregava um enorme cortador com lâmina de metal na mão.
"Isso foi o melhor que eu consegui encontrar."
Estava bastante ofegante.
"Agora, você corta. Eu acho que morrer."
Ela afundou num grande sofá macio e expirou ruidosamente.
Sheila tentou abrir uma brecha entre a fita adesiva e a extremidade do grampo do cartão, mas a lâmina era muito grande e não havia espaço suficiente no quarto.
"Deus amaldiçoou essa coisa!", ela disse, sentindo-se bastante irritada, sorrindo depois.
"Tive uma ideia."
"O quê?", disse Marsha.
"Apenas olhe", disse Sheila, tocando com o dedo em sua cabeça.
Dentro do pacote, Waldo estava tão transtornado com a excitação que mal conseguia respirar.
Sua pele pinicava com o calor, e ele podia sentir seu coração batendo na garganta.
Seria em breve.
Sheila postou-se completamente reta e deu a volta até o outro lado do pacote.
Então dobrou os joelhos para baixo, agarrou o cortador por ambos os punhos, respirou profundamente, e mergulhou a longa lâmina através do meio do pacote, através da fita adesiva, através do cartão, através do forro e (thud!) bem no meio da cabeça de Waldo Jeffers, que se rompeu instantaneamente, formando pequenos e harmoniosos arcos em vermelho a pulsarem suavemente no sol da manhã.

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O Presente
(John Cale/ Lou Reed)
(tradução com colaboração de Carolina Milanez)

Ouça:
The Velvet Underground - "The Gift"

Anta Gônica

Amigos, do clyblog, a partir de hoje teremos mais uma atração na nossa seção de tirinhas.
Por sugestão do meu amigo, Rodrigo Lemos, fã do Frango Atirador, a Anta Gônica junta-se ao time de consagrados personagens aqui do blog.
Nossa nova amiguinha é daquelas opiniáticas que mesmo sem razão, sem embasamento, sem  tende a discordar de seu interlocutor, das notícias, dos fatos, ou do que quer que seja.
Enfim, apresentamos a nova integrante da família clyblog que promete muitas situações polêmicas e divertidas. com vocês, a Anta Gônica:

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Bolsa de Transfusão









"Bolsa de Transfusão I"

"Bolsa de Transfusão II"





"Bolsa de Transfusão"
fac-símile de plástico transparente - 19 x 27,5 cm
(COSTA, Leocádia; RODRIGUES, Daniel 
(nov/2012)

terça-feira, 15 de julho de 2014

Belchior - "Alucinação" (1976)




"Meu nome é
Antonio Carlos Gomes
 Belchior Fontenelle Fernandes,
portanto, um dos grandes nomes
da música popular brasileira”.
Belchior,
em entrevista em 1982
para o jornal O Pasquim


Em 1976, Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, ou simplesmente Belchior, era apenas mais um cantor e compositor cearense que tentava a vida no Rio de Janeiro. Dois anos antes, tinha lançado seu primeiro disco, “A Palo Seco”, pela Gravadora Continental, que tinha seu primeiro sucesso de crítica “Hora do Almoço”. Mas a repercussão ficou somente aí. O público não comprou. Mesmo assim, ele conseguiu um contrato com a Polygram, a gravadora mais importante do Brasil na época. Com produção de Mazzola, ele entrou nos estúdios e fez o quinto disco da minha lista de favoritos e o primeiro de MPB desta lista pessoal e intransferível: “Alucinação”.

Como todo mundo naquele tempo, ouvi o disco pela primeira vez no rádio. Continental 1120, por supuesto. A canção era a faixa que abre o disco, “Apenas um Rapaz Latino-Americano”. Com aquela maneira de se expressar, somente Raul Seixas em seu “Ouro de Tolo” tinha feito coisa parecida. Um jeito Dylan de cantar e recitar a letra ao mesmo tempo, incomum na época. Muito antes do rap. A harmônica ajuda na comparação com Robert Zimmerman. Nela, Belchior faz sua profissão de fé na condição de compositor naqueles tempos bicudos de ditadura militar: “Não me peça que eu lhe faça/ Uma canção como se deve/ Correta, branca, suave/ Muito limpa, muito leve/ Sons, palavras são navalhas/ E eu não posso cantar como convém/ Sem querer ferir ninguém”. Mais adiante, ele avisa que o ouvinte não deve se preocupar com os horrores que diz, pois “a vida é muito pior”. Na perspectiva de hoje, é incrível que a censura – tão raivosa em inúmeros momentos com outros compositores, por exemplo, Chico Buarque e Milton Nascimento – tenha sido condescendente com as letras de Belchior.

Na sequência, ele faz versões menos roqueiras de duas músicas que haviam sido gravadas por Elis Regina em seu álbum ”Falso Brilhante”: “Velha Roupa Colorida” e o hit do disco, “Como Nossos Pais”. Em “Velha Roupa...”, ele se preocupa com os saudosismos: “No presente, a mente, o corpo é diferente/ E o passado é uma roupa que não nos serve mais”. Também fala que uma nova mudança vai acontecer. Só que isto levou quase nove anos para começar. Já em “Como Nossos Pais”, ele garante que “viver é melhor que sonhar” e que, apesar de lutar para buscarmos a vida e não o sonho, a conclusão é aterradora: “Ainda somos os mesmos e vivemos/ Como nossos Pais”. O disco é todo embalado por baladas mid-tempo – como dizem os americanos –, bem ao estilo, bem... dylanesco.

“Sujeito de Sorte” já é diferente. Depois de um começo que flerta com o rock um pouco mais pesado, ela vira uma canção onde o piano elétrico de José Roberto Bertrami (do grupo Azimuth) faz a base melódica para a bateria de Ariovaldo. E a letra diz: “Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro/ ano passado eu morri mas este ano eu não morro”, numa referência direta a “Its All Right, Ma' (I'm Only Bleeding)”  de Dylan. Ele novamente. “Como o Diabo Gosta” tem um tom solene com o órgão fazendo a base para violões e violas e Belchior cantando: “E a única forma que pode ter norma/ é nenhuma regra ter/ é nunca fazer nada que o mestre mandar/ sempre desobedecer/ nunca reverenciar”. Uma moda de viola “muderna”.

O lado 2 começa com as canção mais importante de todo este grande disco, a faixa-título que, direto já diz: “Eu não estou interessado em nenhuma teoria/ Em nenhuma fantasia, nem no algo mais... a minha alucinação é suportar o dia a dia/ E meu delírio/ é a experiência com coisas reais”. E depois de toda uma descrição da vida difícil e insossa das grandes cidades, Belchior afirma que “amar e mudar as coisas/ me interessa mais”. Essa é outra canção em que a bateria de Ariovaldo faz a diferença, tocando o “feijão com arroz” necessário para passar a mensagem do compositor. Neste sentido, é exemplar a produção de Mazzola. A banda se destaca por carregar de forma convincente as letras e os vocais do bardo cearense.

A referência de Dylan misturado com Luiz Gonzaga está em “Nâo Leve Flores”, com violões e piano country ao lado de uma sanfona, sublinhando a marca cowboy ou... bem, vocês já sabem. O pessimismo de Belchior fica evidenciado neste trecho: “Tudo poderia ter mudado, sim/ pelo trabalho que fizemos - tu e eu/ mas o dinheiro é cruel/ e um vento forte levou os amigos/ para longe das conversas, dos cafés e dos abrigos/ e nossa esperança de jovens não aconteceu, não, não”.

Como muita gente não havia ouvido seu primeiro disco, Belchior resolveu regravar “A Palo Seco” (que havia sido interpretada pelo seu amigo e conterrâneo Raimundo Fagner no disco de 1975, “Ave Noturna”). E ele reforça a canção escrita em 1973 dizendo: “E quero que este canto torto/ feito faca, corte a carne de vocês”. Prestem atenção no que faz o piano de José Roberto Bertrami durante toda a canção. Lembrou-me o que Nicky Hopkins fazia nos discos dos Rolling Stones da década de 70.

“Fotografia 3X4” é, talvez, a canção mais desesperada e autobiográfica de todo o disco. “Eu me lembro muito bem do dia em que eu cheguei/ Jovem que desce do norte pra cidade grande/ Os pés cansados e feridos de andar légua tirana”. E, a partir daí, segue a saga difícil de um imigrante. E sobra até para o Caetano de “Alegria, Alegria”: “Veloso o sol não é tão bonito pra quem vem/ do norte e vai viver na rua”. Já sabedor que este disco iria mudar sua realidade, ele hesita em dizer: “A minha história é... talvez/ É talvez igual à sua/ jovem que desceu do Norte/ e no Sul viveu na rua”. Como é importante para ele reforçar esta noção de que o imigrante, especialmente o nordestino, sofria muito com este êxodo. Tudo ponteado pela guitarra de Antenor (onde andará?).

Pra fechar, numa levada country novamente, um recadinho rápido e básico de “Antes do Fim”: “Quero desejar, antes do fim/ pra mim e os meus amigos/ muito amor e tudo mais... não tome cuidado/ não tome cuidado comigo/ que eu não sou perigoso/ viver é que é o grande perigo”.
Este disco significou muito pra mim. Acredito que foi a partir dele é que comecei, aos 16 anos – atrasado, eu sei, mas antes tarde do que nunca –, a me dar conta do que estávamos vivendo aqueles anos terríveis que se convencionaram chamar de “de chumbo”. Mas acho que, aos 15 para 16 anos, eu tinha um álibi. Vivíamos numa ditadura militar onde nada era contado como devia, tudo era escondido. Foi o começo do auge da TV Globo ditando as regras da comunicação brasileira. Estudava numa escola pública maravilhosa onde, porém, estudávamos “OSPB” (pra quem não sabe Organização Social e Política Brasileira) e “Educação Moral e Cívica”. Duas clássicas matérias onde éramos ensinados a adorar a Transamazônica e as “realizações” do governo militar. Com toda esta lavagem cerebral, foi muito importante surgir um disco como o de Belchior pra dar uma desmistificada no que aprendíamos até mesmo nas escolas. E é um disco que ouço não só com o viés nostálgico, mas como um disco de música de qualidade. Quem não conhece, ouça.
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FAIXAS:
1. "Apenas um rapaz latino-americano" - 4:17
2. "Velha roupa colorida" - 4:49
3. "Como nossos pais" - 4:41
4. "Sujeito de sorte" - 3:56
5. "Como o diabo gosta" - 2:33
6. "Alucinação" - 4:52
7. "Não leve flores" - 4:11
8. "A palo seco" - 2:56
9. "Fotografia 3x4" - 5:27
10. "Antes do fim" - 0:59


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OUÇA:
Belchior Alucinação




domingo, 13 de julho de 2014

cotidianas #309 - Lado Escuro da Lua





Animais
Pervertidos
Trogloditas
Titãs
Mutantes
Zumbis
Macacos
Macaquinhos
Macacos alemães sem vogais
Os quem?
Os os? O os? O a? A os?


Usina de força
De transgressão
Orquestra de luz elétrica
Dura como um capacete
Cegante como a sombra do cavaleiro
Mortal como um aborto elétrico


Pode vir do 13º andar do elevador
Ou de Springfield, Kansas, Chicago
Da Browley, do ABC, da esquina de Minas Gerais
ou do alto
de um dirigível Led, de um avião Jefferson


Pode ser a cura, pode ser o choque
Pode ser a morte dos Kennedy
Ou o amor de Gene por Jezebel
Por Jude, por Prudence, por Lucy, por Michelle, por Madonna
Ela é a mulher!


Ou cantado pelos anjos gêmeos de Jean Cocteau
Dançando com dinamite nos pés
Calçando sapatos de camurça azul
E vestes de veludo subterrâneo


Vinda de uma cabeça de máquina
Que implode como bananas TNT
Coquetel Molotóv dentro de cabeças falantes
Fogo que corrói metais nos metais


Azul, azul, azul, mil azuis geram blues


O rock errou? O rock morreu?
Mas seguirá e seguirá ovelha negra
As sementes
Essa pistola de sexos
- “Rock é sexo!”
É sexo, é polícia, é golfinho, é residente
É a corrente de Jesus e Maria
É símbolo impronunciável
São cavalos loucos
A inacabável nova ordem
É água lamacenta que corre
É pedra que rola até hoje, e continua
Pelo lado selvagem, como um andarilho cadáver caminhando

Voltando eternamente para o escuro





cotidianas#308 - Dia de Decisão



Só tinha que fazer uma coisa, aliás era só não fazer o que sempre. Não tinha certeza mas por certo não era o ínicio que estava no esquema, alguém da zaga também deveria estar na jogada.
Já não era nenhum garoto e aquele "acordo", por certo garantiria sua independência financeira té o final dos seus dias. Além do mais, títulos já tinha o suficiente, podia muito bem dispensar aquele. 
(Podia mesmo?)
Pensava na torcida, na nação, no filho para quem prometera ganhar aquela taça. Ah, o menino compreenderia que no esporte às vezes se ganha e às vezes se perde. E a torcida o perdoaria por aquela atuação, que prometera ao interessado, seria apagadíssima.
Mal escutara a palestra do técnico. A cabeça viajava por todos os lugares. Era uma mistura de sensações e sentimentos. Ao mesmo tempo que queria ganhar, como sempre quis, lembrava do compromisso financeiro. Já estava mesmo em final de carreira. Depois era só encerrar a carreira e sumir por aí. Ninguém nunca o lembraria por aquele encomendado fiasco. Já era muito grande para que o lembrassem por aquilo. Tinha dado muitas alegrias àquele povo.
Cumpriria o acordo. Não faria suas jogadas geniais, seus gols, sua magia... E logo naquele dia em que sentia-se especialmente inspirado. Em circunstâncias normais acabaria com o jogo.
Não! Aquilo era errado. 
(Ouvia a torcida, lembrava da voz do filho pedindo dois gols, passava-lhe m filme na cabeça...).
"Vamo lá, vamo lá...", os companheiros chamavam para entrar em campo.
Era a hora.
Sabia o que devia fazer.
Aquela fora, por certo, a decisão mais difícil de sua vida
(mas valera a pena! no dia seguinte os jornais estampavam manchetes entusiastas sobre aquela inacreditável vitória. 5x4 com quatro falhas estrondosas da defesa, mas com 5 gols dele: o craque. seria sempre lembrado por aquele dia.)


Cly Reis

sábado, 12 de julho de 2014

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Duran Duran - "Notorious" (1986)



"Quem realmente dá a mínima
para um bandido esquisito"
trecho da letra de "Notorius",
segundo Simon Le Bon,
uma indireta dedicada
ao guitarrista Andy Taylor
que havia saído da banda em litígio



Um trabalho de amadurecimento. Assim pode ser definido "Notorious", dos britânicos do Duran Duran. Reduzidos a um trio, depois de projetos paralelos e problemas com integrantes, com este álbum de 1986 a banda, que surgira e se firmara com um new-wave excessivamente apelativo comercialmente reforçado por um visual adequadamente provocativo para o público feminino, atingia um nível de qualidade sonora até então conseguido apenas eventualmente, como na excelente "Save a Prayer" do segundo álbum, na boa "Reflex" do disco anterior, e na ótima "A View to a Kill" da trilha do filme "Na Mira dos Assassinos" da série 007.
"Notorius" é técnico, sofisticado e charmoso. Um pop limpo, ainda comercial mas com alguns toques sutis do darkismo em voga naquela metade dos anos 80, estrategicamente pensado para ganhar também aquele filão de público que era significativo naquele momento. A começar pelo visual da banda que trocava as roupas coloridas e extravagantes por um figurino mais sóbrio e levemente sombrio como mostra a capa do álbum, a influência pode ser notada de forma bem evidente em faixas gélidas como "Winter Marches On" ou de forma mais sutil na condução moderada de "American Science" e em "Hold Me", pop-rock competente mas muito mais duro e contido do que os seus habituais.
Mas provavelmente a maior mudança e a marca deste disco seja a influência do funk, do soul e dos ritmos negros nas composições. Muito por influência do produtor, o brilhante Nile Rodgers, ex-integrante do Chic, nos anos 70. A excelente "Notorious", é um bom exemplo deste toque black de Nile Rodgers aliado ao reflexo gótico daqueles tempos. Apesar de embalada e muito soul-music, a música que dá nome ao disco, carrega uma certa aura obscura, que a torna mais interessante ainda. Os teclados do craque do time, Nick Rhodes, com suas texturas imitando metais e com as ritmadas pontuações de piano são matadoras e por certo o grande ponto alto da canção.
Destaque também para a ótima "Skin Trade", muito "Chic"; para o pop pungente "Meet El Presidente"; para "So Misled", música normalmente não muito destacada mas uma das melhores do disco; e para a balada "A Matter of Feeling", um dos grandes hits do disco.
O álbum, apesar do bom desempenho comercial, teve opiniões divididas a seu respeito. Pode-se dizer que fãs que estava mais interessadas no visual dos garotões ficaram um tanto decepcionados com um disco mais rico e trabalhado musicalmente. Já pessoas interessadas em um boa música entenderam e gostaram conquistando até, alguns, como eu, que não simpatizavam muito com o grupo.
Depois de "Notorious" a banda alternou bons e maus momentos. As idas e vindas, as excessivas trocas de integrantes e as frequentes "adaptações" às tendências musicais fizeram com que a banda não mantivesse uma constância nem tampouco uma produção coerente e qualificada. Para piorar, como já não são mais garotos, o antigo apelo às fãs histéricas funciona muito pouco hoje em dia e se muito, vale pela memória. Se para muitos (ou muitas) o que vai ficar na lembrança serão os cabelos arrepiados e corte mullet dos anos 80, de minha parte o que não será esquecido é o único grande disco que produziram. Qual? É notório.
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FAIXAS:

  1. "Notorious" – 4:18
  2. "American Science" – 4:43
  3. "Skin Trade" – 5:57
  4. "A Matter Of Feeling" – 5:56
  5. "Hold Me" – 4:31
  6. "Vertigo (Do The Demolition)" – 4:44
  7. "So Misled" – 4:04
  8. "Meet El Presidente" – 4:19
  9. "Winter Marches On" – 3:25
  10. "Proposition" – 4:57

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Ouça:


Cly Reis

quinta-feira, 3 de julho de 2014

cotidianas #306 - O Cambolão



Bombonera que nada!
Quem nunca jogou no Cambolão não sabe o que é pressão.
Pressão fora e dentro de campo. Aquelas Libertadores de antigamente, sabe, sem regras, sem antidoping, com intimidações...
Sabe?
É... Aquilo só que piorado.
Um lugar escondido, sem escapatória, sem testemunhas, no meio da selva. Chamar de selva é um exagero, tá bom, mas efetivamente o Torneio do Cambolão era disputado num lugar remoto, inóspito, no meio do mato.
Quando o João, que na verdade se chamava Vinícius mas que na verdade se chamava Alcione mas não gostava do próprio nome e que por chamar os outros de João por não saber o nome dos outros era simplesmente conhecido por João, nos falou de um torneio no Parque Saint-Hilaire, em Viamão, nos pareceu interessante. A Juventus, nosso timezinho de amigos, deveria mudar de ares, disputar com outros times que não os de sempre, sair do bairro. Sim, seria legal.
Mas quando o próprio Alcione Vinícius, vulgo João, nos disse que deveríamos pegar o ônibus da linha Pinheiro, que levava a um dos bairros mais temidos da região metropolitana, e não o da empresa Viamão que deixaria em frente ao parque começamos a nos perguntar se a ideia havia sido mesmo boa. Deveríamos entrar pelos fundos do parque num campo que não fazia parte, exatamente, do complexo convencional de lazer. Hum... Não gostamos muito daquilo mas fomos.
Mas quando o Pinheirão começou a fazer voltas e mais voltas e seguir por caminhos cada vez mais esquisitos e a civilização começou a ficar para trás, começamos verdadeiramente a questionar a validade daquela pequena excursão. Contudo seguimos, e então, após percorrer um longo caminho desembarcamos. Desembarcamos no meio de um nada. Uma estrada de terra cercada de mato pelos dois lados.
E o torneio? E o campo? Onde era?
O João (Vinícius ou Alcione) nos indicava que, como era nos fundos do parque, deveríamos entrar pela cerca de arame e andar "um pouco" até o local dos jogos. Bem, a essas alturas posso assegurar que ninguém, a não ser o próprio João, ex-morador da localidade, estava se sentindo muito confortável com a situação, mas já que estávamos ali, havíamos acordado cedo e, principalmente, éramos loucos de fome por futebol, o seguiríamos mato adentro. À medida que caminhávamos e nos embrenhávamos pelas matas nosso pavor aumentava. Parecia aquelas florestas vietnamitas do Rambo ou as do Platoon. A impressão era que um amarelo saltaria sobre nós a qualquer momento, pisaríamos numa mina terrestre ou seríamos pegos numa armadilha pendurados pelos pés. Quanto mais caminhávamos, mais nosso arrependimento aumentava. O que que estávamos fazendo ali? Até que depois de minutos caminhando, que nos pareceram uma eternidade, finalmente ouvíamos ouvíamos vozes. O Parque! A civilização!!!
Engano.
Pelo contrário.
Selvagens.
O que vimos era ainda mais aterrorizante que tudo o que tínhamos passado até então. Uma pequena clareira de chão batido extremamente ondulada com uma goleira de pau em cada extremidade e invadido nas laterais por raízes das árvores que praticamente delimitavam o campo envoltas em uma nuvem que confundia poeira com uma misteriosa fumaça. E nas árvores, sobre elas e entre elas, criaturas com olhares famintos nos espreitavam como feras. Aquilo parecia o kumite d"O Grande Dragão Branco", só que no meio do mato, a cena da chegada do barco em "Apocalypse Now" só que sem água, o clipe opressivo de "Wish" dos Nine Inch Nails só que sem grades, os zumbis cercando o shopping em "Madrugada dos Mortos". O horror, o horror!
Na verdade a sensação de que aqueles meninos eram feras e que nos olhavam sequiosos por algo devia-se em grande parte ao fato de que, se não éramos "mauricinhos", naquele modestíssimo ambiente, tínhamos aparência de guris de apartamento, filhinhos de papai, o que podia fazer supor que teríamos algo de interessante em nossas bagagens de jogo. E o pior é que era verdade. Não éramos ricos, como já disse, mas gostávamos de coisas boas e as adquiríamos na medida do possível. O time tinha um bom uniforme, completo, bonito e de uma marca esportiva renomada, sem falar no fato de que a maioria dos nosso jogadores gostava de ter boas chuteiras de futebol society, caneleiras, etc. que tinham conseguido a muito custo com esforço próprio ou dos pais que, por sua vez, também não nadavam em dinheiro para dar aqueles acessórios aos filhos. E a consciência de nossas "valiosas" cargas só fazia aumentar nosso pavor.
Sufocados por um cheiro insuportável de maconha dos atletas e torcedores dos outros times que se espalhavam seminus e esfarrapados, apavorados com o cenário, deliberamos rapidamente se deveríamos ficar e jogar o torneio ou sair de fininho e dar o fora dali antes que fosse tarde. Concluímos que não teríamos como disfarçar uma saída à francesa e convencidos pelo João-Vinícius de que, apesar da aparência, não havia riscos, decidimos ficar.
Como algumas equipes não haviam comparecido e como havia menos times do que o previsto para a disputa do torneio, teríamos uma partida eliminatória que nos levaria ou não para a fase seguinte. Houve uma espécie de consenso natural: perderíamos a partida para termos um bom motivo, aí sim, para dar o fora dali o quanto antes. Não só por isso. O time adversário era tão mal encarado que imaginamos que não encararia de uma maneira muito desportiva se perdesse para aqueles "mimosinhos" ali.
Bom, na hora de nos fardarmos, chegamos a pensar em não usar o uniforme do time, mas não teríamos outra alternativa, do contrário ficando um time à moda palhacinho, No entanto, quem tinha um tênis mais velho e, assim, a opção de não expôr suas chuteiras  naquele ambiente potencialmente arriscado, optou por usa-lo, afinal, seriam só 40 minutos de apreensão e depois era dar no pé daquele lugar.
Nossa tensão era tão grande que nem vimos o tempo passar. Era simplesmente levar gols e sorrir. Mesmo que quiséssemos ganhar o jogo, provavelmente não conseguiríamos tamanho era nosso nervosismo e, por que não dizer, medo.
Se não me engano o martírio acabou em 6x0. Tudo bem. Aquilo era o de menos. Um torneio a mais, um torneio a menos não ia fazer diferença nas nossas vidas. O que temíamos era exatamente por elas: as nossas vidas. Arrumamo-nos rapidamente, recolhemos o que tínhamos que recolher e fomos saindo de forma apressada mas cuidadosa, tal a cena das crianças na escola em "Os Pássaros" de Hitchcock.
No fim das contas, fomos nos afastando suavemente, fingindo tranquilidade, percorremos o caminho pela floresta e chegamos à cerca de arame farpado. Ufa! Mas não estávamos certos de estarmos seguros. Será que não teriam se arrependido de não terem levado nada daqueles manés? Será que não teriam esperado para nos pegar desprevenidos longe do local do jogo? Será que não estariam ainda tramando um plano para que todos os times nos pegassem juntos? Será que não teriam optado por armar a tocaia naquela estrada deserta ao invés de fazê-lo no campo?
E aquele ônibus que não aparecia...
Demora, demora e o ônibus chegou. Embarcamos aliviados. Estávamos a salvo.
Era só voltar para casa e esquecer aquele pesadelo.
(Esquecer?)
Nada aconteceu. Não nos levaram nada, não nos agrediram, nem sequer nos abordaram. Aliás, provavelmente toda aquela sensação de insegurança fora fruto tão somente de um certo preconceito social de garotos de classe média em relação a um ambiente mais desfavorecido e pelo aspecto de seus moradores e frequentadores, mas esquecer aquilo é impossível. Jamais esquecerei a sensação de entrar naquele campinho no meio do mato esfumaçado com árvores apinhadas de moleques em todos os galhos.   .
O horror, o horror!
Bombonera é brincadeira perto daquilo.


Cly Reis

Arte Espontânea VIII







"Arte Espontânea VIII"
tintas diversas derramadas sobre tampo de madeira
com manipulação digital (120x60cm)

foto e manipulação digital: Cly Reis

O Frango Atirador


terça-feira, 1 de julho de 2014

cotidianas #305 - O Futebol



Para estufar esse filó
Como eu sonhei

Se eu fosse o Rei
Para tirar efeito igual
Ao jogador
Qual
Compositor
Para aplicar uma firula exata
Que pintor
Para emplacar em que pinacoteca, nega
Pintura mais fundamental
Que um chute a gol
Com precisão
De flecha e folha seca

Parafusar algum joão
Na lateral
Não
Quando é fatal
Para avisar a finta enfim
Quando não é
Sim
No contrapé
Para avançar na vaga geometria
O corredor
Na paralela do impossível, minha nega
No sentimento diagonal
Do homem-gol
Rasgando o chão
E costurando a linha

Parábola do homem comum
Roçando o céu
Um
Senhor chapéu
Para delírio das gerais
No coliseu
Mas
Que rei sou eu
Para anular a natural catimba
Do cantor
Paralisando esta canção capenga, nega
Para captar o visual
De um chute a gol
E a emoção
Da idéia quando ginga

(Para Mané para Didi para Mané Mané para Didi para Mané para Didi para
Pagão para Pelé e Canhoteiro)


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"O Futebol"
(Chico Buarque de Hollanda)

Ouça:
Chico Buarque - "O Futebol"

Maracanazo


"Maracanazo" - REIS, Cly (2014)
grafite, lápis aquarelado, nanquim, magic color em sulfite
(29,7x21cm)

REIS, Cly