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sexta-feira, 8 de agosto de 2014

The Cramps - "Flamejob" (1994)



"Cada pessoa, em sua timidez,
tem um limite além do qual ela é ultrajada.
É inevitável que ela, que estendeu seu limite próprio através de aplicação concentrada,
  deva despertar ressentimentos naqueles que aceitaram as convenções, as quais, desde que aceitas por todos, não exigem iniciativas de aplicação.
Este ressentimento geralmente toma a forma de risos sem sentido ou de críticas, se não de perseguição.
Mas esta aparente violação é preferível do que os hábitos monstruosos tolerados pela etiqueta e estética."
Man Ray, 1934
(texto do encarte do álbum)



Uma combinação de punk, rockabilly, glam, blues, country, surf, filmes B, terror, teatro, satanismo, humor, escracho, fetichismo...Tudo isso junto é o The Cramps. Banda formada ainda nos anos 70 que gravou seu primeiro álbum no início dos 80 mas que, particularmente, só fui descobrir nos 90 nos programas alternativos da MTV. A doideira chamada “Ultra Twist” me arrebatou! O que que era aquilo? Um hilário garage-rock pesado de guitarras rascantes com uns malucos vestidos de couro preto ao melhor estilo motoqueiro-retrô-zumbi-sadomasoquista mandando ver na sonzeira. Putaquipariu! Aquilo era demais. A música fazia parte do disco chamado “Flamejob”, que eu não tardei em conseguir e me amarrei mais ainda. Até fui conferir se havia na discografia da banda algo tão bacana quanto aquele disco. Gostei muto do "Stay Sick", não gamei pelo elogiado e badalado "Songs the Lord Taught Us", e só confirmei que, apesar de não tê-los conhecido antes, ao que parece, o ponto de aperfeiçoamento sonoro e ápice de qualidade e conceito (anárquico) acontecera naquele álbum que luzia à minha frente naquele momento.
Os nomes engraçados, inusitados e impagáveis de músicas como “Naked Girls Falling Down the Stairs”, o visual exagerado, a performance teatral e o rock retrô acelerado, cru, básico, pirado de guitarras envenenadas e vocais alucinados conquistam de cara.
Uma estridente introdução de guitarra árabe abre “Flamejob” na empolgante “Mean Machine” que já mostra a que veio o álbum. Se já parece muito bom, a referida “Ultra Twist” que a segue é matadora ao quadrado, ao cubo, na quarta potência! Um alucinate rock ao estilo anos 50 só que muito mais pegado, pesado, sujo e incendiário. Verdadeiramente um ultra-super-hiper-maxi-mega twist!
“Let's Get Fuck Up” baixa um pouco a rotação mas não deixa a bola cair; e “Nest of the Cuckoo Bird”, não menos legal, tem uma interpretação vocal muito louca do vocalista Lux Interior.
“Sado County Auto Show”, abre com o ronco de uma caranga e acelera num rock eletrizante; “How Come You Do Me?” e “Inside Out and Upside Down (With You)” garantem o rock'n roll ao estilo dos mestres da categoria; e a já mencionada “Naked Girls Falling Down the Stairs” traz um riff poderoso, sujo e rascante e, no final, uma bateria imitando o som das garotas rolando escada abaixo.
“Strange Love”, uma das três covers do disco, um country-rock-blues de levada moderada e gostosa é outra que merece destaque, assim como “Blues, Blues, Blues”, como já anunciado pelo título, um bluesão que poderia ser chamado de tradicional se não fosse feito por quem foi; além da ótima e divertida “Swing the Blue Eye Rabbit”, outra das grandes do disco.
 “Sinners”, versão da música da banda dos anos 60, Freddie and the Hitch-Hikers, encaminha o final do disco que finalmente some na estrada, em grande estilo, com o clássico “Route 66 (Get Your Kicks On), aí sim, fechando a conta e deixando só poeira.
E isso tudo é The Cramps: velocidade, sexo, terror, bizarrices e muito rock'n roll... E "Flamejob" é puro fogo! É quente.
Chamas, chamas!
Queime, baby, queime!
***********************

FAIXAS:
1. "Mean Machine" 3:57
2. "Ultra Twist!" 3:48 

3. "Let's Get Fucked Up" 3:55 
4. "Nest of the Cuckoo Bird" 3:26
5. "I'm Customized" 3:04
6. "Sado County Auto Show" 2:59
7. "Naked Girl Falling Down the Stairs" 2:44
8. "How Come You Do Me?" (Joiner) 2:17
9. "Inside Out and Upside Down (With You)" 2:27
10. "Trapped Love" 2:00 
11. "Swing the Big Eyed Rabbit" 3:39 
12. "Strange Love" (Jerry West) 2:49
13. "Blues, Blues, Blues" 2:23 
14. "Sinners"
15. “Route 66 (Get Your Kicks On) (Bobby Troup) 3:17 

****************
Ouça:


Cly Reis


quinta-feira, 7 de agosto de 2014

cotidianas #314 - Garotas Bonitas Fazem Túmulos



Sobre a areia, sobre a baía
"há um jeito rápido e fácil" você diz
Antes que você demonstre
Eu prefiro deixar claro:
Eu não sou o homem que você pensa que eu sou
Eu não sou o homem que você pensa que eu sou
E o filho nativo da desolação
Ele não sorrirá para ninguém
E garotas bonitas fazem túmulos
Oh ...

Fim do ancoradouro, fim da baía
Você agarra me braço e diz "ceda à luxúria,
Entregue-se à luxúria, oh deus sabe que
Em breve seremos pó..."
Oh, mas eu não sou o homem que você pensa que eu sou
Eu não sou o homem que você pensa que eu sou
E o filho nativo da desolação
Ele não levantará para ninguém
E garotas bonitas fazem túmulos
Oh ...

Eu poderia ter sido selvagem
E poderia ter sido livre
Mas a natureza me pregou esta peça
Ela quer agora e ela não vai esperar
Mas ela é muito rude
E eu delicado demais...
Então, na areia
Outro homem, ele a pega pela mão
Um sorriso ilumina sua cara estúpida
(bem, era de se esperar)
Perdi minha fé na feminilidade
Perdi minha fé na feminilidade
Perdi minha fé
Oh ...


*********************
tradução da letra de "Pretty Girls Make Graves"
da banda The Smiths
(letra: Morrissey, música: Marr)

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Espetáculo “Cantando o Grande Circo Místico” – Teatro Guairinha – Curitiba/PR (26/07/2014)




Todos os cantores no palco
coma banda ao fundo
É legal quando um passeio te revela surpresas. Uma dessas aconteceu numa rápida e recente passagem por Curitiba. Andando de ônibus turístico, ao passar por um dos pontos clássicos da cidade, o Teatro Guaíra, no Centro, Leocádia Costa e eu deparamo-nos com um cartaz de que ocorreria um espetáculo em homenagem aos 45 anos da companhia de balé da casa com a execução d’”O Grande Circo Místico”, encenado pela companhia em 1983 e que, com músicas de Chico Buarque e Edu Lobo, é, para alguns, a melhor trilha sonora da MPB de todos os tempos. Pois não é que as únicas três apresentações aconteciam justamente nos dias em que estaríamos na capital paranaense? Valor acessível e Ingressos disponíveis, refizemos na hora nosso programa de sábado à noite e assistimos ao “Cantando o Grande Circo Místico” no Auditório Salvador de Terrante, mais conhecido como Guairinha, sala também tradicional mas um tanto menor do que a oficial.

Fantasias da montagem original
do Balé Guaíra, de 1984
Montado por um grupo local, o show teve suas coisas boas e outras nem tanto, mas que não foram suficientes para apagar a emoção de ouvir aquelas peças ao vivo e numa situação tão simbólica. Com direção geral e cênica de Rodrigo Foros e direção musical e arranjos de Vicente Ribeiro, o espetáculo restringiu-se a apresentar apenas a parte musical de “O Grande Circo Místico” (por isso, o “cantando” do título). Ou seja, nada de bailarinos. Até aí tudo bem; porém, é quando começam os adendos. O figurino de festa dos cantores (?) e a iluminação exagerada ficaram totalmente destoantes do tema circense e de sugerida isenção no que se refere à parte cênica (afinal, se seriam tocadas apenas as músicas, porque não um visual mais clean?).

Entretanto, a obra em si é tão grandiosa e tocante que, mesmo que se esforçassem em fazê-la errado, ainda assim acertariam. E acertaram num bom bocado. Executada na ordem tal como fora concebida para a peça (e como ficou eternizado no disco, lançado pela Som Livre), tinha nos competentes instrumentistas a sustentação necessária. Lindíssimo ouvi-los, ainda com as cortinas fechadas – após a leitura a capella do poema originário da peça, “A Túnica Inconsútil”, de Jorge de Lima, de 1938 –, tocarem a maravilhosa “Abertura do Circo”. Já ali se instaurou a magia. Na sequência, uma decisão inteligente de arranjo: ao invés de colocar um cantor para rivalizar com a histórica interpretação de Milton Nascimento em “Beatriz”, das mais lindas do repertório – que certamente se sairia perdendo –, chamou-se quatro dos 12 cantores, duas vozes masculinas e duas femininas. Ficou bonito e sem dar margem a comparações. Ribeiro criou belos contracantos, que dignificaram o tom etéreo da canção.
Bela interpretação para
"Sobre Todas As Coisas"

“Opereta do casamento”, com todas as vozes no palco, funcionou super bem, mas “Valsa dos Clowns”, uma antes, já derrapou um pouquinho na voz grave da cantora, que, embora tenha desempenhado bem, destoou por isso menos pela comparação com a voz doce de Jane Duboc na original e mais pela composição em si, que pede lances de maior suavidade. Porém, veio em seguida uma performance linda de “A História de Lily Brown”, digna da sensualidade impressa por Gal Costa. Outra que ficou joia foi “Meu Namorado” (“Meu namorado/ Meu namorado/ Minha morada/ É onde for morar você”), mesmo que num breve momento a cantora tenha esquecido a letra, retomando-se rápido a ponte de alguém menos fã e de ouvido menos atento não perceber.

Numa rápida inversão de faixas, a ótima banda antecipou a instrumental “O tatuador” – que teve ganho na ambiência ao vivo – para emendar com a chorosa “Sobre todas as coisas”, em que, corajosamente, pôs-se para cantar uma voz superaguda, muito diferente da introspectiva entonação dada por Gilberto Gil na primeira versão ou da própria regravação em estilo blues de Chico Buarque. Mas ficou legal! A moça não resvalou em nenhum momento, e olha que, daquele jeito, a oscilante melodia levaria facilmente a isso.

Momento de "A Bela e a Fera",
das melhores do repertório
A esse ponto, nós, admiradores da obra, já estávamos totalmente absortos naquele universo e a emoção vinha fácil. Ponto alto do disco, “A Bela e a Fera”, das melhores músicas de todo o cancioneiro de Chico e Edu, infelizmente não foi assim tão brilhante no show. O instrumental, excelente, mas... Cantada por um rapaz que mais gesticulava que cantava, perdeu em força, principalmente se se lembrar do estrondoso vozeirão de Tim Maia. Pra piorar, no ápice emocional do número, o rapaz, comovido demais com a honra que lhe coube, esqueceu-se da letra! Ele disse: “Ó, bela, faz da besta-fera um príncipe cristão...”. E parou. Constrangido, ainda conseguiu se lembrar de alguma coisa e desfechou com os versos: “Abre o teu coração/ Ou eu arrombo a janela”. Foi chato, mas é tão especial ouvir essa ao vivo que nem chegou a incomodar.

Em seguida, fizeram jus a uma das melhores sequências de faixas de toda a MPB, a que emenda “A Bela e a Fera” com “Ciranda da Bailarina”, esta última não com um coral infantil, mas com um cantor. E ainda por cima: vestindo uma burlesca saia de bailarina sobre a calça do paletó e um véu na cabeça. Além de bem interpretado, ficou engraçado, ainda mais quando “reproduziu” alguns passos de dança na ponta dos pés. A suave “Circo Místico” soou honesta, levantando a bola para a sacolejante marchinha circense “Na carreira”, quando todos retornaram ao palco para entoar: “Ir deixando a pele em cada palco/ E não olhar pra trás/ E nem jamais/ Jamais dizer/ Adeeeeeeus!”.
Cantor veste-se de bailarina
no lance mais cômico da noite

Fechando novamente com o tema da abertura, merecidos aplausos ao espetáculo, que, mesmo com a breguice das roupas e da iluminação (a qual desconfiamos ser um incômodo traço curitibano...) e os acidentes de percurso, conseguiu emocionar tanto adultos quanto crianças na sala lotada. Além do mais, deu pra sentir um pouquinho do clima da célebre montagem ao ver os figurinos originais no hall do teatro. Ali estava, despida, a magia do espetáculo, o belo “fingimento” da vida no palco. Será que é “loucura”, “cenário”, “mentira”, “comédia”? Com erros e acertos, ficou a certeza de que, como diz a letra, esse “truque banal” é o que “sustenta a vida real”.




texto
fotos:

domingo, 3 de agosto de 2014

"Genealogias do Contemporâneo - Coleção Gilberto Chateaubriand" - MAM (Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro)





A fachada do MAM,
um dos prédios marcantes da
arquitetura moderna brasileira











Estive, dia desses, nas proximidades do MAM, e decidi entrar só pra ver o que tinha por lá de exposições abertas. Gostei especialmente da "Coleção Gilberto Chateaubriand - Genaelogias do Cotidiano", uma exposição permanente do museu que conta com obras de conta com obras importantes de alguns dos artistas mais significativos do cenário nacional como Portinari, Di Cavalcanti, Tarsila do Amaral, entre outros. A exposição que é permanente no museu foi remodelada e reaberta recentemente com a inclusão de novas obras e agora subdividida em núcleos temáticos: "Brasil, visões e vertigens"; "Cidades partidas: conflitos e afetos"; "Corpos híbridos: identidades em trânsito"; e "Respirações geométricas".
Boa pedida para o turista que quiser conhecer o MAM, que por si só ja é uma obra de arte, e de quebra ver uma boa exposição, ou para um morador local, como eu, desavisado, que foi simplesmente visitar e deu a sorte de topar com uma exposição como esta, recentemente reinaugurada, com obras desse porte.

Abaixo alguns registros da exposição:





Entrada da exposição

"O vendedor de frutas", de Tarsila do Amaral

 "Paisagem de Brodowsi", de Cândido Portinari


"Urutu", Tarsila do Amaral


"Atire se Puder", Nelson Leirner


"Mesade Bar", Di Cavalcanti





esboço de Tarsila do Amaral para "A negra"

sábado, 2 de agosto de 2014

Coluna dEle #36


Oi, filhos Meus.
Tamo na aárea, se derrubá é pênalti.
Tive meio sumido, né?
Eu sei, Eu sei.
Foi mal.
É que estive cocupado com essa função de Copa.
Fui ver uns jogos aí.
Nossa como o ingresso tava caro. Meu Eu!
Tive que comprar de cambista. É foda.
Mas, no mais?
O de sempre, né? Uma enchente aqui, um conflito ali, um futebolzinho, uma guerrinha...

***

Falando em guerra, vocês não tomam jeito, mesmo. É palestino contra israelense, é russo contra ucraniano, é palmeirense contra corintiano. Vocês não sossegam.
Não criei vocês pra isso.
Vocês acham que Eu gosto disso?
O cara faz tudo isso em 7 dias, cria vocês, deixa tudo à disposição pra depois vocês ficarem de briga. Ah, pô, é foda assim.
Essa foi a educação que Eu dei pra vocês?
Eu gosto igualmente de todos vocês (bom, um pouco menos dos argentinos).
Agora, para com essa palhaçada e aperta a mão do amiguinho.
Vai, faz as pazes.
Vai...
Ai, acho que não vai ser assim tão fácil.

***

E por falar em Argentina, e a Copa, hein?
No fim, teve Copa.
(Tá certo que eu dei uma grande ajuda pra que tudo funcionasse)
Se bem que, pra nós, ops..., quero dizer, pra vocês brasileiros, antes as ameaças tivessem se cumprido, porque pra passar a quele fiasco era melhor que não tivesse acontecido a Copa.
Olha,... nem eu pude fazer nada.
Quando fez o primeiro e Eu vi que a coisa ia ficar feia, resolvi mexer com as coisas aqui e dar uma ajudinha, mas quando fui Me mexer pra fazer alguma coisa já tava 5x0. Aí fudeu. E a propósito, nesse momento mais um gol da Alemanha.
Mas deixar a Argentina ser campeã na nossa casa eu não ia deixar.
O Chiquinho, lá no Vaticano, até pediu, insistiu, mas aí já era demais.

***

E o Dunga voltou então?
Sei que vocês não gostam muito dele pelo jeito emburrado, ranzinza, mas o cara não é tão ruim assim.
É sério, é trabalhador.
E como dizem por aí, Eu ajudo quem trabalha.
(Vou estar por perto)
Agora, se ficar inventando uns Afonsos da vida, aí nem Eu posso fazer muita coisa.
Depois não adianta ficar rezando pra Mim.

***

Agora terminada a Copa, o assunto é eleições.
Vai rolar muita baixaria até lá, não? Acusação, ofensa, boataria, dedo no olho. Não deixa de ser divertido.
E o horário eleitoral? Tem cada tipo. Se não serve pra nada, serve pelo menos pra dar umas risadas.
Mas, agora, ó, tô com pena de vocês pra escolha de presidente.
Tá brabo.
Eu não queria estar na pele de vocês.
Ainda bem que aqui não tem essa coisa de eleições nem porra nenhuma. Quem manda nessa merda sou Eu e pronto.
O Lá-de-baixo, o Capiroto, até tentou fazer uma campanha tipo 'Diretas Já' pra governante do universo mas eu comprei uns votos do Congresso Celestial e garanti a permanência do meu regime monárquico.
Tentaram abrir uma CPI pra investigar a suposta compra mas eu barrei e ficou por isso mesmo.
E se tentarem me derrubar Eu ponho os tanques nas nuvens.
Ditadura?
Ora, se começarem a reclamar muito Eu tiro até o livre-arbítrio.

***

Só pra encerrar, o pessoal aí em baixo tá lamentando as perdas, quase seguidas, do Alves, do Ariano  e do João Ubaldo, mas é que Eu tô montando uma Academia de Letras aqui em cima e esses aí dão um bom reforço pro time. O Sarney e o Paulo Coelho eu deixo aí pra vocês. Esses eu não quero.
Aqui só tem fera! Só imortais. Bom, nem tão imortais, assim.

***

Vou meter o pé que vocês podem estar com a vida ganha mas Eu tenho mais o que fazer. Afinal de contas, tenho 7 bilhões de filhos pra criar.
(e que me dão muito trabalho por sinal)

Vou nessa.
Fiquem Comigo e que eu os abençoe.

***

Dúvidas, sugestões, conselhos, mensagens, opiniões, orações para





sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Lulu Santos - "Lulu" (1986)


"O cara fuma, bebe, cheira
Fuma, bebe, cheira
Fuma e quer pegar no meu pau.
Cheira a noite inteira, Fala sem parar
E quando chega o dia
não quer mais me contratar."
trecho de
"Ro-Que-Se-Da-Ne (Junte as Sílabas e Forme Novas Palavrinhas)"







Vamos combinar que Lulu Santos é possivelmente o maior hit-maker do Brasil, talvez só superado pelo Rei Roberto.
Estamos de acordo?
Acho que não tem muito o que contestar.
“De Repente Califórnia”, “O Último Romântico”, “Certas Coisas”, “Cara Normal”, “Adivinha o Que”, “A Cura”, “Assim Caminha a Humanidade”...Ufa! Sucessos são o que não faltam. Até por isso, muitos de seus disco poderiam ser destacados como básicos na discografia nacional, seu primeiro com a ótima “Tempos Modernos” que dá nome ao álbum, o segundo da marcante “Como uma Onda”, o 3º, “Tudo Azul” com a melosa “Lua-de-Mel” regravada por Gal Costa, etc. Mas “Lulu”, de 1986, além de confirmar a vocação para a produção de grandes sucessos radiofônicos, era um álbum mais coeso, completo e de musicalidade variadas.
“Lulu”, de capa muito legal, estilo Keith Haring, é um daqueles discos que a gente tem que pensar como um LP, pois seus lados são distintos e de características diferentes.
O lado A empilha hits e seu início é de tirar o fôlego. Abre com a gostosa e cativante “Casa” normalmente associada a uma espécie de volta de um "filho pródigo" ou algo do tipo, mas esclarecido pelo próprio autor que trata do prazer de encontrar a própria casa todos os dias; emenda com a excelente “Condição”, um pop cheio de variações e possibilidades, com guitarras distorcidas, bateria eletrônica, vocoder, entre outros recursos, passeando por diversos estilos mas mantendo a unidade com competência e qualidade; e traz na sequência a melancólica balada “Minha Vida”, bela e tristonha.
Depois da interessante e simpática “Pé Atrás”, a única do lado A que não tocou à exaustão por aí, a sequência de hits é retomada com “Um Pro Outro”, outro pop daqueles pegajosos, que teve sua popularidade aumentada ainda pela inclusão na trilha de uma novela. E o lado A, o lado hiper-pop, o lado dos sucessos se encerra.
O lado B é mais ousado, diversificado, até experimental, por assim dizer, abrindo com a excelente “Twist, o Disco” uma brilhante crônica de costumes sobre a volubilidade da moda e das tendências, que mistura rock, com mambo, com disco, com tango, numa das melhores músicas do disco e do próprio Lulu.
Segue com o ska animado “Duplo Sentido”; com o pop-rock básico “Telegrama”, possivelmente a menos interessante do disco; o reggae muito bacana cantado em inglês, “Demon”; e fecha com a espetacular “Ro-Que-Se-Da-Ne (junte as sílabas e forme novas palavrinhas)“ um punk rock escrachado cantado à la Roger do Ultraje, no qual Lulu chuta o balde, escangalhando a superficialidade das relações pessoais, mas sobretudo, escancarando a promiscuidade da indústria fonográfica. Um final matador para um baita disco.
Lulu Santos é o tipo do cara que a gente pode até não adorar mas, a rigor, não tem muito como dizer que é ruim, e seu interessantíssimo “Lulu”, lançado no auge da efervescência do rock BR dos anos 80, é um disco, em especial, que merece uma menção mais significativa no âmbito do pop-rock nacional daquele momento.
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FAIXAS:

Lado A
  1. Casa (O Eterno Retorno) - 5:06 
  2. Condição - 4:22 
  3. Minha Vida - 5:08 
  4. Pé Atrás - 3:35 
  5. Um Pro Outro - 3:54 
Lado B
  1. Twist , o Disco - 4:16 
  2. Duplo Sentido - 2:29 
  3. Telegrama (Lulu Santos e Scarlet Moon) - 3:50 
  4. Demon - 5:17 
  5. Ro-Que-Se-Da-Ne (Junte as Sílabas e Forme Novas Palavrinhas) - 2:24 

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Ouça:

Cly Reis




cotidianas #312 - Ciúmes



"Acautelai-vos, senhor, do ciúme.
É um monstro de olhos verdes
que zomba do alimento de que vive."
"Otelo", William Shakespeare



- Carlos Eduardo, aquela piranha tá te olhando.
- Ãhnn? Quem? - perguntou saindo do seu estado de distração.
- Aquelazinha ali – apontou a mulher sem nenhuma preocupação em ser discreta.
- Qual?
- Não te faz de bobo, Carlos Eduardo! A loira. A loira, não tá vendo? - disse já nervosa.
- Qual?  - procurou esticando o pescoço mas ainda não identificando.
- A de vestidinho curto, de olho verde - indicou cada vez mais irritada
- Ah, não tinha notado.
- Ah, sei. “Não tinha notado” - fez imitando jocosamente o marido – Ela tá te olhado há horas, Carlos Eduardo – insistiu.
- Tá e aí, que que eu posso fazer? perguntou tranquila e desinteressadamente, em tom de retórica.
- Pode dizer pra tua “amiguinha” que a tua mulher está contigo e que ela não gosta que as tuas vagabundas fiquem te encarando...
- Amiguinha? - impressionou-se o maridão – Eu nem conheço essa fulana!
- Arram... Não conhece. Sei – ironizou.
- Eu tenho culpa que a mulher tá me olhando?
- Ah, então agora tu admite que ela tava te olhando?
- Tu que disse que ela tava me olhando. Eu sei lá... Meu Deus!!! – disse o marido, agora perdendo um pouco da calma.
- Mas bem que tu tá gostando, né? Vai lá, vai. Vai lá cumprimentar a tua vagabunda.
- Ai meu Deus... - soltou ele respirando fundo.
- Ah, agora é “meu Deus, meu Deus” - repetiu ela numa semi-histeria contida.
- Para, Mari, para, por favor.
- Parar por que? Acertei? É uma das tuas vadias, Carlos Eduardo Souza Alencar? É? - insistiu ela, mas repentinamente mudando de tom continuou – Tu não gosta mais de mim, Caduzinho? Que que eu fiz? Que que tem de errado comigo? Eu tô velha? Eu tô feia? Eu tô muito gorda? Eu tô gorda, né? É isso?
- Não é nada, Mari. Não tem nada. Eu nem conheço aquela mulher – disse tentando recuperar a paciência.
- Então por que tu quer me abandonar? Por que tu quer me trocar por ela? Eu tô gorda, não tô? É isso? - insistia em tom suplicante.
- Tu tá ótima, Mari, não tem nada de errado contigo e eu não quero te trocar por ninguém – explicou exercitando toda a paciência que lhe restava.
- Jura?
- Juro, Mari.
- Promete que não vai me deixar, promete – insistiu a esposa agora toda melosinha.
- Só se tu me prometer uma coisa:
- O que, amor?
- Que tu vais parar com esse teu ciúme louco?
- Ah, é isso? Alterando-se novamente e voltando à discussão - Tu quer que eu te deixe soltinho pra tu ficar paquerando com essas vagabunda, né, Carlos Eduardo? É isso?
- Ai, meu Deus...


Cly Reis


Eu Oculto








"Eu Oculto" - REIS, Cly
pincel atômico transferido
sobre sulfite escrito no verso
(10x15cm)


REIS, Cly

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Baden Powell -"À Vontade" (1964)




"Toda música tem uma história"
Baden Powell




O talentoso jovem violonista Baden Powell desde seu primeiro trabalho chamava atenção do universo da música naquele início da década de 60 com seu dedilhar técnico, preciso, suave e sua formação clássica de violão. E com seu "À Vontade", de 1963, com as geniais recriações jazzística de clássicos da bossa-nova como "Garota de Ipanema" e "Samba do Avião", ambas de Tom Jobim; interpretações instrumentais notáveis como a de , "Saudades da Bahia" de Dorival Caymmi; e a introdução aos elementos afro e sincréticos como "Berimbau" e "Candomblé", mudou de vez o jeito de se fazer e ouvir música brasileira.
Além disso, o álbum marca o início da parceria com Vinícius de Moraes, nas canções "O Astronauta", "Consolação" e na espetacular "Berimbau", com quem, por sinal, viria a produzir em seguida outro dos grandes álbuns da discografia nacional, "Os Afro-Sambas".
Curiosamente, Baden Powell, mais tarde, pouco antes de morrer em 2000, se converteria à religião evangélica e rejeitaria seus trabalhos com referências às religiões afro-brasileiras alegando que os temas faziam alusões ao demônio (Olha só!!!).
Uma pena que um artista, um homem bem formado, esclarecido, por um motivo tão estúpido e, por certo, menor que a arte chegue ao ponto de desprezar seu próprio trabalho, ainda mais sendo ele tão significativo. Mas o importante é o que fica e obra de Baden, especialmente neste período de proximidade com o poetinha Vinícius, é de qualidade inquestionável. Não há religião que faça com obras-primas sejam renegadas ou esquecidas. Elas permanecem para a eternidade.

********************

FAIXAS:
1 Garota De Ipanema 3:07
2 Berimbau 3:30
3 O Astronauta 2:32
4 Consolação 2:32
5 Sorongaio 5:40
6 Samba Do Avião 3:18
7 Saudades Da Bahia 2:25
8 Candomblé 4:40
9 Conversa De Poeta 4:35
10 Samba Triste 4:25

********************
Baixe para ouvir:



Cly Reis

terça-feira, 29 de julho de 2014

cotidianas #311 - Smack My Bitch Up*






* Trocadilho com a palavra "smack" que pode significar "bater, agredir", o que daria um significado, algo do tipo, "espanque minha puta", mas que, numa linguagem ainda mais popular, pode ser um "apelido" de heroína, ficando assim, "injete heroína na minha vadia".

Caronte









"Caronte" - REIS, Cly
grafite e nanquim sobre papel reciclado
com manipulação digital
10 x 17cm


REIS, Cly

domingo, 27 de julho de 2014

New Order - "Substance" (1987)


"Perguntei a Bono quais eram
suas principais influências,
e ele me disse que
uma de suas maiores influências
havia sido exatamente o New Order.
O New Order,
uma das grandes influências do U2"
Peter Hook




Uma compilação de singles e remixes que virou clássico.
Bom, talvez por não se resumir a apenas uma mera coletânea como muitas retrospectivas comuns entre bandas que chegam a determinado ponto e repassam a carreira.
"Substance" de 1987 é um marco.
Um dos discos mais importantes para a linguagem pop dos anos 80 e o maior responsável pela explosão da música eletrônica no início da década que se seguiria. Muito por conta de "Blue Monday", hit lançado em 1983 apenas em single e que repetia o sucesso, desta vez de modo muito mais massivo com o lançamento de "Substance". Uma incrível peça musical basicamente eletrônica, extremamente dançante, de ritmo alucinante, tom grave e uma programação de bateria marcante e enlouquecedora. Não havia quem não conhecesse "Blue Monday" e não tivesse dançado com ela.
Mas "Substance" tinha outros trunfos que o tornavam especial em relação a outras coletâneas: pra começar, abria com "Ceremony", canção da banda-embrião do New Order, o Joy Division, que era apresentada em versão de estúdio pela primeira vez, canção que traduzia bem a transição do estilo soturno do grupo na época de Ian Curtis para a tendência dançante que se seguiria a partir da criação da nova banda.
O disco traz ainda, além de versões estendidas, diferentes das dos singles e de seus álbuns correspondentes, duas versões inéditas regravadas de antigos singles, "Confusion" e "Temptation", e uma inédita, naquele momento, a ótima "True Faith", um pop sofisticado, impecável, que imagino que seja tudo que os Pet Shop Boys sempre desejaram ter feito.
Tem "Subculture" em versão mais longa e diferente da do álbum original, com seus teclados monumentais da abertura soando ainda mais imponentes e grandiosos; "Shellshock", perfeita, com suas influências hip-hop, break e black music de rua dos anos 80; o mega-hit "Bizarre Love Triangle", um pop dançante de estrutura muito bem elaborada, mas que na mixagem da versão para a coletânea teve cometido o pecado da ausência do som do baixo, deixando a música muito mais dançante, é verdade, porém muito mais pobre musicalmente.
A épica "Perfect Kiss" que aparece no álbum "Low-Life" em versão editada, aqui, neste "Substance" mostra-se inteira até seu ápice num final extasiante que culmina num solo de contrabaixo, de Peter Hook, daqueles como só ele consegue fazer, como se fosse uma guitarra.
Aliás, se há um ponto negativo no álbum, é o fato de a partir dele ter-se associado necessariamente o New Order à música eletrônica, aquela mecânica, sem se dar o devido valor ao trabalho coletivo e instrumental do grupo, como se eles só apertassem os botões e a música começasse a tocar e sem considerar o grande número de músicas onde, na verdade, os teclados são parte menor no contexto. Grande equívoco! Trata-se de uma banda com alto poder criativo e capacidade instrumental individual bastante apreciável, sobretudo de Stephen Morris, um dos bateristas que melhor consegue conjugar os elementos eletrônicos com a execução acústica da bateria, e do baixista Peter Hook, de toque diferenciado, de afinações singulares e de uma maneira tão ímpar de tocar que faz com que seu instrumento seja o coração da banda.
Há muitas coletâneas importantes, muitas marcantes, mas poucas conseguem a eternização que "Substance" alcançou. Talvez por que esta tenha algo mais. Talvez porque tenha algo, assim, substancial... Substância.
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FAIXAS: 
1. "Ceremony" 4:23
2. "Everything's Gone Green" 5:30
3. "Temptation" 6:59
4. "Blue Monday" 7:29
5. "Confusion" 4:42
6. "Thieves Like Us" 6:36
7. "Perfect Kiss" 8:02
8. "Subculture" 4:48
9. "Shellshock" 6:28
10. "State of the Nation" 6:32
11. "Bizarre Love Triangle" 6:44
12. "True Faith"

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Ouça:


Cly Reis



Anta Gônica

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Caetano Veloso – Teatro do SESI – Porto Alegre/RS (19/07/2014)



Caetano abrindo o show em Porto Alegre
(foto: Leocádia Costa)
Um show de Caetano Veloso, para mim, é mais do que um show: é a confirmação de todo um paradigma de percepções e ideologias. Vê-lo no palco é deparar-me com uma série de conceitos e formas muito pessoais de enxergar a vida, que se confirmam e dialogam com sua obra grandiosa e impactante. Há exatos 22 anos, com 13 de idade, já havia tido essa experiência numa apresentação da turnê do disco “Circuladô”, um dos melhores da carreira de Caetano. À época, em parceria com Arto Lindsay e Peter Scherer (os Ambitious Lovers), Caê tinha em sua banda Jacques Morelenbaum, Luiz Brasil, Dadi, Marcelo Costa, Marcos Amma e Wellington Soares, que davam ao espetáculo, numa sonoridade cheia e moderna, uma roupagem proto-world music – ao estilo da forjada por Ruyichi Sakamoto e pelos próprios Ambitious Lovers nos anos 80.

Pois, desta vez, nada de sonoridade “rebuscada”, de banda numerosa, de complexidade timbrística, de pop étnico-modernista. No palco, para o show do CD "Abraçaço", apenas ele ao violão e a competentíssima banda Cê, formada por Pedro Sá (guitarras), Marcelo Callado (baixo e teclados/efeitos eletrônicos) e Ricardo Dias Gomes (bateria e percussão). Uma formação simples e com a secura e objetividade do rock, o suficiente para um show espetacular. E mais do que isso: tão conectado com a contemporaneidade como sempre esteve este baiano, um artista fundamental para a formação de tudo o que há de mais inovador e sintonizado há 50 anos. A maior prova disso já estava na abertura, com o petardo “A Bossa Nova é Foda”. Não me venham com o tributo retrô do Daft Punk ao Chic em “Get Lucky” ou muito menos “Reflektor”, da saudada “nenhuma novidade” Arcade Fire. A brasileira “A Bossa Nova...” é de longe a melhor música de 2013. (coisa que muito tupiniquim vira-latas, que nem no futebol mais vence, jamais se sentiria merecedor.)

Embora o público do teatro fosse bem heterogêneo em idade, a abertura rock ‘n’ roll os pegou, se não desavisados, ainda um tanto frios e aguardando, em sua maioria, os clássicos. Que não tardaram em aparecer. Num deslocamento temporal de 48 anos, Caetano vai de uma canção do último trabalho para retrazer uma de seu debut, a obra-prima “Coração Vagabundo” (de “Domingo”, gravado em parceria com Gal Costa, em 1966). Além da ligação temática entre ambas, visto que trazem a bossa nova de João/Tom/Vinícius em seu cerne (na rock, em palavra; na samba, em forma), estava evidente ali a versatilidade da banda. Dentro da concepção harmônica proposta por Caetano, o trio executa com perfeição tanto uma quanto a outra, visto que “Coração Vagabundo” não ficara agressiva nem perdera a expressividade melancólica original.

O show é uma aula de escolha de repertório, composto por obras novas e antigas e outras bem pescadas. Aliás, comento frequentemente que artistas como ele, donos de obras extensas, profícuas e multirreferenciadas como um Gilberto GilChico BuarquePaul McCartney ou Stevie Wonder, têm o privilégio de poderem exercitar infinitas variações de set list, valendo-se tanto de músicas de sua autoria de diversas épocas como também composições de outros que dialoguem com aquele projeto. Foi assim que Caetano seguiu o show, intercalando faixas do ótimo "Abraçaço" (sobre o qual já escrevi aqui no blog), como a excelente faixa-título, o empolgante samba-reggae “Parabéns” e a “graciliana” “O Império da Lei”, com aquelas preferidas da galera. Foi o caso da breve mas emocionante execução de “Alguém Cantando”, originalmente na voz de seu filho, Moreno Veloso, no álbum “Bicho”, de 1977, e que só a tinha escutado com Caetano numa cena do filme “O Mandarim”, do Júlio Bressane, quando o autor a canta à capella.

Exemplo perfeito desse encadeamento bem pensado entre os números foi a trinca iniciada com a épica “Um Comunista”, do novo disco, que ganha ao vivo ainda mais dramaticidade ao contar, em forma de “biografia emotiva”, a trajetória do revolucionário baiano Carlos Marighella pelo olhar de Caetano, conterrâneo e admirador. O tema e a carga emocional desta desembocam na ainda mais grandiosa “Triste Bahia”, clássica adaptação do poema de Gregório de Matos feita por Caetano para seu célebre álbum "Transa", de 1972. O público, claro, delira com essa, tocada com muita competência pela banda, que consegue repetir/adaptar todas as variações rítmicas e harmônicas que a complexa melodia suscita. Pra finalizar o conjunto de três temas, outra nova: “Estou triste”, a deprimida canção que transportou a tristeza da Bahia para o Rio de Janeiro (“O lugar mais frio do Rio é o meu quarto”).

A festa seguiu para todos os gostos. Num palco onde só se viam cavaletes com quadros de construtivistas-minimalistas, a bela iluminação ressaltava o que interessava: a música. A expressividade do gestual longilíneo de Caetano se adensa no seu canto absolutamente afinado e bem pronunciado. Vieram, assim, na sequência, também “Odeio” e “Homem”, ambas de pegada bem rock e do início da parceria com a banda Cê; a romântica “Quando o galo cantou”, cuja execução ao vivo pareceu trazer-lhe com mais vivacidade a beleza da poesia; e a “matadora” “Funk Melódico”, das melhores e mais conceituais de "Abraçaço", em que Pedro Sá dá um show na guitarra. Sá, aliás, é, como em todo bom show de rock, quem sustenta a banda. Isso fica evidente na feliz recuperação de “De Noite na Cama”, tal qual a versão original que Caetano compusera para Erasmo Carlos em 1971. Isso se nota ainda mais na regravação de outra clássica: “Eclipse Oculto”, um pop a la Blitz, de 1984, que, agora, ganha peso e distorção, dando quase para “pogueá-la”.

Caê e banda mandando
um Abraçaço para a galera
(foto: Tita Strapazzon)
As fantásticas “Reconvexo” (imortalizada na voz da irmã Maria Bethânia), com sua poesia forte e altamente pessoal, e a picante “Você não entende nada” aplacaram de vez o coração de fãs como eu. Esta última, de tão querida que é na versão do disco “Caetano e Chico Juntos e Ao Vivo”, chegou a ser cantada pela plateia no momento do refrão com os versos de “Cotidiano”, de Chico, que se intermeia com a de Caetano naquela apresentação de 1972. No palco, Caetano cantava: “Eu quero que você venha comigo”, e o público replicava: “Todo dia, todo dia”. Demais.

No bis, um erro e um acerto. Acerto por que ele abriu com nada mais, nada menos que “Nine Out of Ten”, outra clássica do "Transa". O erro? Pegar uma música em inglês, que não são todos que acompanham, justo para essa volta ao palco, o que esfriou um pouquinho a animação da saída em alto estilo com “Eu quero...”. Mas nada demais para um repertório tão lindo e tão significativo, biográfico em muitos dos casos, pois a música de Caetano conta a história de muitos momentos da vida de várias gerações. É por se identificar com isso que digo ser seu show mais do que uma mera apresentação. Ouvir Caetano, e assim tão proximamente, é um encontro comigo mesmo através do milagre dos sons. Foi assim em 1992, e agora novamente em 2014. Ali naquele palco, naquela objetividade e clareza rocker que permeia a proposta desse show, estavam muito mais do que somente ele e a banda. Estavam vivos a Rádio Nacional, a herança ibérica, a influência árabe no Ocidente, o sincretismo, o jazz, a filosofia, a contracultura, o barroco, o morro. A bossa nova. Tudo numa total harmonia e simbiose – algo que reflete minha forma de enxergar o mundo.

Depois de tudo isso, bastava acabar com um número gostoso e pegajoso nos ouvidos. Foi o que fez Caê ao finalizar o show com “Luz de Tieta” (e nem aí ele diz SOMENTE isso, pois que tal música recupera Jorge Amado e o “lirismo documental” de sua geração: Caymmi, Verger, Caribé...). Show daqueles que se sai com a sensação de terem valido cada centavo, com Caetano mostrando porque, aos 72 anos, consegue ser um dos artistas mais inquietos da música mundial. Mesmo que muito tupiniquim nem ouse admitir isso.




fotos: Leocádia Costa e Tita Strapazzon


Fetiche










"Fetiche" - REIS, Cly
grafite sobre papel reciclado
10x 17cm



REIS, Cly