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sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Coluna dEle #37



E aí, gente boa! Andei um pouco sumido mas tamo aí de volta.
Tudo na Minha mais santa paz?
Por aqui, a gente vai levando como pode.
E aí embaixo?

Eu soube que aí no Brasil estão querendo tirar a presidenta. É verdade? Tenho recebido milhares, milhões de orações pra tirar a dona lá do Planalto.
É isso mesmo?
Acabaram de eleger a mulher e já querem derrubar?
Trocar até pode ser mas Eu tenho ouvido orações até pra... que voltem os militares (Eu que me perdoe!!! ).
Agora, ó,... vocês estão certos disso?
Olha, escuta o que Eu vou dizer: talvez ela não seja lá essas coisas, esse pessoal dela não seja muito flor que se cheire mas botar aqueles caras de volta... sei não, hein.
Se 'cês querem Eu dou um jeito aqui mas depois não me venham com choradeira.

***
Aqui em cima também andaram com uma palhaçada dessas de querer Me tirar do Trono depois que descobriram que nem todo mundo no Meu ministério é Santo.
Alegam também que Eu já tô há muito tempo no cargo, que quero Me perpetuar no poder, que isso aqui tá virando uma ditadura e bla bla bla.
Tão questionando quem é o verdadeiro pai do Programa de Criação do Universo, alegam que dar um Livre Arbítrio pra cada um é muito paternalismo, que disponibilizar água e ar pra todo mundo é sustentar vagabundo e coisa e tal.
Tem uns querendo até que o outro aquele, o Tinhoso, o Coisa-Ruim, assuma.
(Pode???)
Só vou avisando, se acontecer vai ser um Inferno. Um Inferno.

***

A propósito de criação, o Chiquito quer Me derrubar, né? Só pode.
(Ah, Chiquito é como eu chamo o Francisco, o que tá lá no Vaticano).
Eu coloco o cara aí na Terra como Meu representante e tal e o cara vem entregar que a coisa toda não começou com Adão, Eva, maçã e tudo mais. Pô, Chico, assim tira todo o Meu mérito. O pessoal curte isso, essa churumela, essa novelinha toda.
Eu recomendei pra ele ser mais aberto, menos radical, mas não precisava sair abrindo essa história do Big Bang.

***

E falando em Universo, teve um robozinho, uma sonda aqui em cima investigando umas pedras, né?
Eu vi que noticiaram aí que a pedra, o asteroide, cometa, ou seja como vocês queiram chamar, tocava música. Olha, não é querer jogar água no chopp de vocês mas, só pra esclarecer, não é nada disso. Era Eu que tava curtindo um Kraftwerk aqui em cima com o volume muito alto e o robozinho esse captou o som.
Aí, foi mal.
(Mas Kraftwerk é bom pra caralho, hein.)

***

Por falar em som, tá chegando o aniversário do filhão (o que é Natal pra vocês) e o guri já Me pediu um I-Power 6. Fui ver quanto é que tava o troço e quase caí da nuvem. Meu Eu!!! Essa juventude pensa que a gente acha dinheiro em árvore?..
Ôpa... Eu sou quem sou. Eu posso tudo. Vou criar uma árvore que dá dinheiro. Boa ideia.
(Só aqui pra cima, é claro. Se eu coloco algumas dessas aí a humanidade se extermina).

***

Pior é que pro Jotacê tem que comprar dois presentes, um de Natal e outro de níver. Ufff...
Mas esse ano não quero entrar em shopping.
Ah, é uma loucura. Não tem Santo que aguente. É aquela dificuldade pra estacionar, é todo mundo se batendo dentro das lojas, fila pra pagar, praça de alimentação cheia, fila pra pagar o estacionamento. Meu Eu do céu! Tô fora.
Esse ano só pela eternet.

***

É, 2014 anos. Quem diria. Depois de tudo aquilo: romanos, crucificação, ressurreição, taí, um homenzão com barba na cara. Já disse pra Ele cortar aquele cabelo que parece um hippie, mas Ele diz que é rock'n roll, que é metal e tudo mais, então deixa. Tem uma hora que a gente tem que deixar os filhos fazerem o que querem. Já tá bem crescidinho.
2014 aninhos com carinha de 33. Bebezinho do Papai.

***

Mas mudando radicalmente de assunto, e o Brasileirão aí? Acabou, né?
Lá na parte de cima era aquilo. Não dizem que Eu sou justo? Pois então, não tinha muito o que inventar. Agora, em baixo, Meu Eu do céu, quanta ruindade reunida.
Vocês pensam que Eu ajudei o Palmeiras? Que nada, Eu torço pro Santos. Os outros é que eram tão ruins que se rebaixaram sozinhos.
O Mané, o Didi, o Enciclopédia do Futebol até Me pediram pra dar uma força pro Fogão e tal mas sem estádio, sem renda, sem salário e com um time ruim daqueles, nem Eu pra fazer milagre.

***
E por falar em Botafogo, faz horas que Eu tô chamando o Velho Lobo e ele teima em não vir.

***
Ah, e vou deixar o Rei aí embaixo mais um tempo.
Qual rei?
O Negão, o Rei da Bola.
A propósito, alguém sabe onde anda o Rei do Rock? O nome dele tá na lista de quem subiu mas ele nunca apareceu por aqui,.

***

Quem veio, e eu sei que vocês estão muito chateados comigo foi o Bolaños.
Esse é o tipo do caso que Eu não consigo mais segurar o cara aí por muito tempo. Tava na hora dele, gente, que que Eu posso fazer? Além do mais o Pedro ficava me mostrando o Livro da Vida toda hora e mostrando, “olha aqui, já tá na hora, já tá na hora...”. Eu até cheguei a propôr pra ele ir levando o Sarney, o Dirceu, por enquanto, mas ele, todo certinho fica naquela de “normas são normas”.
Fazer o quê, pessoal.
Desculpem aí.
Foi sem querer querendo.

***

Vou lá que tenho um monte de coisas pra fazer.
Se Eu não falar com vocês até as festas, Feliz Natal e um ótimo 2015.
Fiquem Comigo e que Eu os abençoe.

Partiu céu!

***

Cartões de Natal, cartinhas pro Papai Noel, presentes, orações, reclamações para:

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

cotidianas #338 - Soneto Efêmero



Meninos, eu vi tudo que queria
com olhos que essa terra há de comer.
Vi pés de todo tipo, até perder
de vista o que me dava essa alegria.
Já cego, minha língua suja lia
em Braile a sola onde eu ia lamber;
 a mesma terra ali vim a comer
enquanto a molecada toda ria.
Se somos pó e ao pó retornaremos,
andei meio caminho já na vida.
Até o cosmo é poeira, hoje sabemos.
No tênis dum moleque uma lambida
é mais que tudo aquilo que já lemos,
lembrança que jamais será esquecida.

*******
"Soneto Efêmero"
Glauco Matoso

¨¨

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Art Garfunkel – “Breakaway” (1975)





"Não tenho o poder de harmonia de Paul (Simon),
 nem suas lindas canções,
mas sinto que tenho muito a ver com a construção dos álbuns e
com a riqueza e sonoridade
que os tornam tão interessantes."


"Quando junto as canções e as coloco em sequência,
seja com ou sem Simon,
vejo o trabalho de uma vida todo
e fico extremamente orgulhoso.
Assim fica muito fácil dizer:
'Aí está o que fiz: cantei bem!'."
Art Garfunkel,
em 2012



Ouvi “Breakaway”, do Art Garfunkel, pela primeira vez na indefectível Rádio Continental 1120. Anos depois, o reencontrei na casa de uma amiga, que me emprestou. A partir daí, surgiu uma história de amor com os discos solo do Garfunkel para um romântico inveterado como eu. Esse é o favorito da casa.

A história desde disco começa em 1970, quando Paul Simon e Art Garfunkel resolveram desfazer a dupla. Enquanto Simon lançava seu primeiro LP solo em 1972 com muito sucesso, Garfunkel aparece com “Angel Clare”, só em 73, depois de tentar uma carreira no cinema. Havia então a necessidade de conseguir um sucesso. Para tanto, foi contratado o bem-sucedido produtor Richard Perry, recém-saído do terceiro disco solo de Ringo Starr e dos clássicos de Carly Simon. Perry foi muito esperto ao produzir “Breakaway”. Quando se tem uma voz límpida, afinadíssima e bonita como a de Garfunkel, a instrumentação não deve atrapalhar e fazer apenas uma moldura sonora aos gorjeios do canário. O disco é um dos melhores da carreira do cantor exatamente por isso. Com vocês, “Breakaway” de Art Garfunkel.

O clima começa com uma regravação de Stevie Wonder, “I Believe (When I Fall in Love It Will Be Forever)”. A partir do piano de Larry Knetchel, Garfunkel mostra toda a extensão de sua voz na época (1975). O arranjo de cordas de Del Newman dá aquele ar de música pop dos anos 70. E os backing vocals de Andrew Gold garantem o romantismo da letra que diz: “Acredito que quando me apaixonar desta vez será pra sempre”. Uma versão digna de Stevie, mesmo que mais melosa, por assim dizer.

“Rag Doll” usa a metáfora da boneca de pano para falar do amor de um homem por uma mulher. No início da música, o narrador está vendo uma mulher num campo, colhendo flores e usando um capuz de veludo azul e o vermelho em suas bochechas lhe dá um ar de boneca de pano. No refrão, diz: “O vento nas árvores canta uma canção triste, triste, triste, triste/ deitado em minha cama ouvindo a noite inteiro/ o vento nas árvores canta uma canção só pra mim/ e traz de volta esta boneca de pano pra mim”. Aqui é o piano elétrico de Knetchel que percorre a música lhe dando a suavidade que a letra requer.

A faixa-título do disco, composta por Gallagher & Lyle, uma dupla de muito sucesso naquela metade dos anos 70, traz Bill Payne, do Little Feat, nos teclados, e os backing vocals de Bruce Johnston, David Crosby, Graham Nash e de Toni Tenille (é, aquela mesma do “Love Will Keep Us Together”). A produção de Perry é tão sutil que mal se notam baixo e bateria nas músicas. Na ponte, Garfunkel canta: “Não é sol que vocês está procurando/ Outra coisa está em sua mente/ Você precisa um pouquinho de espaço e tempo/ para se soltar/ Não é o lugar que você está indo/ É apenas uma fase que está passando/ Não vou te parar, apenas não quero que você/ se solte, voando através do seu oceano/ Se solte, tempo chegou pra você...”.

“Disney Girls”, do Beach Boys Bruce Johnston, parte da premissa que a realidade é muito difícil de aguentar e que o mundo da fantasia proposto por Walt Disney seria um bom substituto para as agruras do dia a dia. Lá pelas tantas, o narrador diz: “Realidade, não é pra mim e me faz rir/ Mas o mundo da fantasia e garotas da Disney estou de volta”. Rola também uma trip nostálgica: “Toda minha vida passei as noites sonhando com você/ O calor que senti pelas coisas que desejei estão se tornando verdade/ Tenho meu amor pra dar e um lugar pra viver, acho que vou ficar/ será uma vida pacífica com uma esposa pra sempre e um filho algum dia/ seus começos de noites e brigas de travesseiro e sua risada suave/ Mas o mundo da fantasia e garotas da Disney estou de volta”. A música é toda armada num clima Disneylândia, com os backing vocals percorrendo a canção.

Aí, vem o “corpo estranho” do disco: uma versão de "Águas de Março" de Tom Jobim, apropriadamente chamada “Waters of March” e que tenta fazer uma tradução literal: “A stick, a stone, it’s the end of the Road...”. A vantagem é que tanto o violonista Louie Shelton, o baixista Max Bennett e o baterista John Guerin se saem bem tentando emular a batida da música brasileira. O interessante é que, mesmo sendo um “strange body” no disco, esta versão funciona como uma pausa no clima romântico que perpassa todo o álbum. Estranho mesmo é o sintetizador de Bill Payne no lugar da flauta de Tom.

Nesta época, tanto Garfunkel quanto Simon eram contratados da Gravadora Columbia, que jamais aceitou a separação da dupla. E para “tentar” uma reconciliação, acertou uma gravação que iria aparecer nos dois discos de 1975 dos rapazes; “Breakaway” e “Still Crazy After All These Years”, de Simon. Ainda bem que a música é mais um clássico composto por Simon chamado “My Little Town”, outra faixa nostálgica que fala de uma cidade pequena – no caso, Nova Jersey – onde o narrador “cresceu acreditando que Deus cuidava de todos nós”. A conhecida ironia de Paul Simon aparece no verso em que diz: “Depois que chove/ tem um arco-íris/ E todas as cores são preto/ Não é que as cores não estejam lá/ é que elas não tem imaginação/ Tudo é igual/ lá na minha cidadezinha”. E o refrão é matador: “Nada além dos mortos e dos moribundos/ voltam pra minha cidadezinha”. Musicalmente, “My Little Town” excede com a turma do estúdios Muscle Shoals de Alabama composta por Pete Carr (guitarra); Barry Beckett (piano); David Hood (baixo) e Roger Hawkins (bateria) mais produção de Phil Ramone. Difícil ficar melhor.

Depois disso, só mesmo um standard: “I Only Have Eyes for You”, de Al Warren & Harry Dubin, com direito a piano elétrico de Nicky Hopkins e backing vocal de Stephen Bishop. Vinda de uma tradição de música romântica da década de 30, “I Only Have Eyes...” começa dizendo “Meu amor deve ser do tipo cego/ não consigo ver ninguém a não ser você/ Tem estrelas no céu esta noite?/ Não sei se o céu está limpo ou cheio de nuvens/ Apenas tenho olhos pra você”. Garfunkel usa sua voz maravilhosa para dar credibilidade a uma conversa romântica da antiga.

Já que falamos em Stephen Bishop, o autor de “On and On” e de “It Might Be You” (tema do filme “Tootsie”), ele contribui com duas canções no disco. A primeira é a minha preferida, “Looking for the Right One”, uma faixa ultraromântica onde Garfunkel tem sua melhor performance de todo “Breakaway”. E a dor de Bishop é bem traduzida pela voz de Garfunkel, que diz: “Não tenho sido nada sortudo, não sou bom em fazer joguinhos/ lembro de seus rostos e esqueço os nomes/ Encontrei a pessoa certa mas ela não me encontrou/ Então eu empacoto minhas emoções e começo/ a procurar pela pessoa certa/ algum dia ela virá?”. Depois, o narrador sofre com o que dizem as outras pessoas: “Eles dizem que não tem sentido correr atrás de algo que nunca se vai conseguir/ Mas meu coração afirma: ‘não diga não’/ em algum lugar desta cidade solitária existe uma mulher pra mim/ Mas espero outra vida para/ procurar pela pessoa certa”. Bem ao estilo de clássicos da música pop, Perry leva toda a canção para um clímax, onde a voz de Art Garfunkel faz arrepiar.

“99 Miles From L.A.” é uma composição de Albert Hammond (o mesmo da também clássica canção pop “It Never Rains in Southern California”, aquela em que os locutores de rádio da antiga chamavam de "Carambô” devido à sua primeira frase “Got on board...”) e o letrista de Burt Bacharach, Hal David. Nesta canção, o produtor permite que os teclados, a bateria e o baixo apareçam mais, reforçando a batida pop, cercada de cordas por todos os lados. Na letra, o narrador está de carro se aproximando de Los Angeles e espera encontrar seu amor. “Mantendo meus olhos na estrada, te vejo/ mantendo minhas mãos na direção, te seguro/ 99 milhas de L.A, te beijo, sinto tua falta, por favor esteja lá”. A letra é toda construída por David neste clima: o motorista chegando à cidade na expectativa de reencontrar a mulher amada.

No final do disco, mais um lamento de Stephen Bishop chamado “The Same Old Tears on a New Background”. De cara, Garfunkel vai direto nas emoções ao som do piano de John Jarvis, secundado pelas cordas de Del Newman. A letra é tão triste que merece ser lida inteira: “São as mesmas velhas lágrimas num novo cenário/ Te ver como uma fotografia desbotada/ Me dói muito sorrir nestes dias/ Estou bem, estou bem/ é a mesma canção com uma nova melodia/ mas a velha chama está quase extinta/ te ver de novo é tudo que me mantém/ estou bem, estou bem/ lembrando, lembrando o familiar sofrer de amor/ ninguém a não ser você/ É mesmo velho eu chorando as mesmas velhas lágrimas/ e eu me afasto como sempre fiz/ ainda apaixonado por você/ mas eu estou bem”. Quando a coisa chega neste nível, é impossível não sofrer junto com Garfunkel, Bishop ou seja lá quem for. A canção é triste demais. Como quase todo o disco. Não recomendável para quem está sofrendo de amor. Mas quem gosta de boa música certamente vai gostar de “Breakaway”, um dos melhores discos da carreira de Garfunkel, que sempre ficou alguns degraus atrás de seu ex-parceiro, o incrível Paul Simon.
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FAIXAS:
1. I Believe (When I Fall In Love It Will Be Forever) 3:48
2. Rag Doll 3:05
3. Break Away 3:34
4. Disney Girls 4:31
5. Waters Of March 3:37
6. My Little Town 3:50
7. I Only Have Eyes For You 3:38
8. Lookin' For The Right One 3:20
9. 99 Miles From L.A. 3:31
10. The Same Old Tears On A New Background 3:43

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OUÇA O DISCO:







ELVIS

criação: Daniel Rodrigues, desenho: Cly Reis

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

"Interestelar", de Christopher Nolan (2014)


Fiz as pazes com a ficção-científica



Estaria Kubrick por trás disso?


Alô, meus caríssimos Kubrick, Arthur C. Clarke, Stephen Hawking, Newton, Einstein, Carl Sagan, Erich von Daniken, Asimov, Nietzsche e Padre Quevedo: vocês já assistiram Interestelar, né!? Não viram? Ainda não? Puuuts! Eu jurava que vocês estavam por trás desse colosso! Bueno, então corram aos cinemas. Obrigado, Nolan. Reatei com a ficção-científica. O problema vai ser achar algo melhor nos próximos 50 anos (se bem que o tempo é algo relativo)...



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Grandiloquência Vazia


Nem bom elenco salva o pretensioso filme de Nolan
Um dos filmes mais falados dos últimos tempos é “Interestelar”, de Christopher Nolan, diretor de “Amnésia” e “Insônia”. Depois destes dois grandes momentos da sua filmografia, vem a trilogia do "Batman - Cavaleiro das Trevas" , onde a pretensão em transformar um herói de histórias em quadrinhos num ser filosófico já deixava transparecer os arroubos de pedantismo. Na sequência, veio uma prova desta pretensão, "A Origem", um banho visual tentando segurar uma história banal. Pois, “Interestelar” sofre do mesmo mal. Embalado num visual realmente arrebatador – inclusive nas locações na Islândia -, o filme de Nolan peca por querer empurrar uma teoria fajuta de “dobra do tempo”, “buraco negro como passagem para um universo paralelo”, em que tudo está acontecendo agora, no passado e no futuro. È só uma questão de encontrar o ponto certo onde estes “momentos” se encontram. Como diriam os americanos, “bullshit”!! Centrado neste fiapo de “ciência física”, “Interestelar” acaba por ser mais um filme interminável que poderia ter sua “ação” reduzida em, no mínimo, meia hora. Mesmo utilizando grandes atores, como Matthew McConaughey, Jessica Chastain e Michael Caine e a média Anne Hathaway, o filme se demora a decolar literalmente, querendo explicar a história de uma busca de outro planeta, já que a Terra está condenada pelo ataque de pragas na monocultura do milho. As primárias comparações com o obra-prima de Stanley Kubrick, "2001 - Uma Odisséia no Espaço" só podem ter sido feitas pelos marqueteiros tanto da Paramount quanto da Warner Bros, que dividem os direitos de distribuição. Não se sustenta enm ao primeiro olhar. Tudo é feito para impressionar. E impressiona: a música de Hans Zimmer, a fotografia do sueco Hoyte Van Hoytema, os efeitos visuais. O problema é que a teoria que carrega esta função toda é muito furada e faz com que o filme se arraste demoradamente na tela, feito um paquiderme cansado. No final das contas, o papo pseudo-metafísico tenta esconder o melodrama de superação das barreiras entre pai e filha e a patriotada da onipresente bandeira norte-americana. Mas não consegue. E pensar que, com muito menos dinheiro e com histórias mais verdadeiras, "Relatos Selvagens" de Damián Szifron consegue chegar e se consagrar junto ao público. “Interestelar” não. Nolan poderia guardar todo este dinheiro e toda esta pretensão para voltar a fazer filmes interessantes. Mas parece que ele se contenta em destilar grandiloquência vazia.



sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Como ler Borges e Cortázar



Belíssima arte com os dois escritores


Eu tenho um costume de leitor que me acompanha há anos. Sempre quando vou ler um livro de Borges ou Cortázar meu ritual começa assim; escolho uma de minhas cuias e bombas de mate preferidas, aqueço a água, ajeito a erva, minha erva não é brasileira e sim a tipo exportação que vai para o Uruguai. Lá a Ilex é chamada “Yerba" e não é moída como no Brasil, mas sim "pura hoja" (pura folha), este processo acaba mantendo a maioria de suas propriedades benéficas. Depois de preparado esse mate fica mais forte e concentrado do que chimarrão tomado no sul e é capaz de deixar quem sorve desperto por horas. O mais curioso é que essa erva é plantada no Brasil e exportada para o Uruguai e também para Argentina o que faz com que eu a contrabandeie de volta como os “quileros”, personagens do filme "El Baño Del Papa". Outro fato é que nestes países a infusão se chama "mate" e não “chimarrão” como em grande parte do Rio Grande do Sul, exceto na fronteira com os países platinos. O nome mate vem da língua Guarani e no Uruguai os índios Charruas bebiam para aguentar as horas de longas cavalgadas, já os Minuanos e Guenoas acreditavam que dava força e vigor aos guerreiros.

O citado "O Aleph"
de Borges
Julio Cortázar foi um grande apreciador do mate e como bom "mateador", levava o seu pra onde quer que fosse, tanto que é famoso o episódio em Paris quando lhe falta erva, obrigando-o a usar um chá para substituir. Para qualquer adepto, faltar um dos ingredientes do preparo, tanto água como a erva é como estar desarmado em combate, quem tem o "vício mateiro', sabe o que digo. O grande poeta Atahualpa Yupanqui dizia; "Dias sem mate nos fazem perder um pouco da força e anos sem ele anulam praticamente toda nossa identidade”.

Jorge Luis Borges que alem de exímio ensaísta e contista, também era um dos maiores pesquisadores sobre a identidade do "gaucho" platino, admitia não ser um bom cevador de cuias, seus mates eram curtos e lavavam rápido, geralmente eram feitos com a água fervendo e na maioria das vezes refugados pelos amigos. Uma manhã enquanto o escritor mateava na fronteira Brasil-Uruguai, viu pela primeira vez a morte de um homem. Um gaucho que mais parecia saído do conto “O morto” do livro "O Aleph", matava seu oponente nas famosas peleas de bolicho. Borges assistiu tudo incrédulo e com a cuia na mão. Esta fronteira foi à mesma que o escritor desbravou de ponta a ponta e nos conta em alguns de seus livros, com passagens por Livramento no Brasil, Riveira, Tacuarembó, Cerro-Largo no Uruguai e talvez Bagé a qual ele cita no conto “Emma Zunz”. 
Dois gauchos platinos mateando
Além do escritor sempre admirei profundamente a ideologia e os princípios políticos e sociais de Cortázar. Ao mesmo tempo em que Borges é um dos poucos autores que consegue ligar profundamente na escrita às raízes culturais de onde venho. Confesso que literariamente acho Borges superior a Córtázar e humanamente acho o contrário. Julio tinha uma sensibilidade universal e Borges era mais coloquial, mas são apenas observações minhas.

A compreensão literária de ambos é bem complexa e discutida por muitos críticos, mas em particular e sobre Jorge L. Borges, ela exige que seus leitores muitas vezes tenham um pouco dessa “platinidade” no sangue, como isso o autor se torna mais compreensível e intimo. Ambos viram-se apenas três vezes na vida, tinham estéticas, pensamentos e ideologias diferentes, mas uma admiração profunda e mutua os uniu sempre. Para nós meros mortais ficou um legado literário enorme, que vale cada releitura com um bom mate é claro.

*para aqueles que não são do Rio Grande e arredores, ou até mesmo para os nativos da região mas que não conhecem, não lembram ou não estão familiarizados com os termos, aí vai um pequeno glossário para melhor compreensão do texto.

  • Quilero: Contrabandista de alimentos nas fronteiras com Uruguai
  • Gaucho: Sem o uso do acento, se escreve assim no pampa sul-americano, também se acentua como “Gaúcho”.
  • Mate: O mesmo que chimarrão, infusão com erva.
  • Platino: Aquele que tem origem nos países do prata.
  • Fronteiriço: habitante da fronteira sul, mescla de Português, Espanhol e Índio.
  • Cuia: recipiente para preparar o mate.
  • Bomba ou Bombilla: Objeto de metal para sorver o mate.
  • Yerba: Erva Mate.
  • Mateador e Vício Mateiro: Aquele mateia ou chimarreia sempre, também se diz amarguear.
  • Pelea de Bolicho: Briga de Bar, as mais típicas eram a faca ou em carreiras ( corridas) de cavalo, e na Taba (Jogo do Osso – típico na fronteira do RG do Sul, Uruguai e Argentina)





quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Velha Guarda da Portela – Parque da Redenção – Porto Alegre/RS (28/11/2014)




A Velha Guarda no palco da Redenção
(foto; Tita Strapazzon)
Corri pra ver, pra ver quem era/
Chegando lá era a Portela”.

Como são essas coisas da vida, né? Leocádia e eu não pudemos comparecer ao show do guitarrista Stanley Jordan, no Canoas Jazz Festival, o qual eu mesmo havia anunciado aqui no Clyblog como me sendo imperdível. Porém, um dia antes, tivemos a oportunidade de assistir a outro show de total arrebatamento. Pois mesmo sabendo em cima do laço, fomos. Coincidentemente antecipando a semana em que se comemora o Dia Nacional do Samba (2/12), o mais autêntico dos ritmos brasileiros pôs os dois pés em Porto Alegre. Em celebração aos 80 anos de Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a Velha Guarda da Portela foi convidada para uma apresentação gratuita no Parque da Redenção. Um verdadeiro espetáculo, histórico na cidade, que me fez lembrar outro memorável ocorrido de 1996, quando o nobre portelense Paulinho da Viola tocou no mesmo local.

Mestre Monarco, aos 80 anos,
comandando o samba
(foto: Tita Strapazzon)
 Comandada pelo mestre Monarco (que também completou indizíveis 80 primaveras em 2014), a Velha Guarda da Portela agitou e emocionou, pondo pra sambar e cantar o grande público que esteve presente naquela noite ao ar livre. Sou apaixonado pelo conjunto desde os anos 90 quando, assistindo a um programa Ensaio, da TV Cultura, os descobri cantando junto com um de seus vários integrantes que já foram, Manacéa (o qual estava presente não só em sons como na pessoa de sua filha, Áurea Maria, uma das três pastoras do grupo). Fiquei tão maravilhado com o que vi que, guri afoito por registrar aquilo que gostava, pus um VHS para gravar o restinho de programa, que já havia começado. Bem fiz. Pude, com isso, conhecer, dentre algumas outras, pérolas como a tocante “Quantas lágrimas” (“Ah, quantas lágrimas eu tenho derramado/ Só em saber que não posso mais/ Reviver o meu passado...”) e o poup-pourriMau Procedimento/ Mulher ingrata/ Nega Danada”, ambas tocadas no show.

Mas foram muito mais que estas. Muito mais. Empolgados com a receptividade do público gaúcho, mandaram ver um show de quase 2 horas e meia, quando executaram não apenas sambas da escola que pertencem, mas de vários outros autores e agremiações, como o Império Serrano Silas de Oliveira, homenageado com “Senhora Tentação” e seu grande sucesso, o samba-enredo “Aquarela Brasileira” (considerada por Monarco como o mais bonito samba já escrito). Todo o público cantou junto de ponta a ponta a canção, que começa com os inconfundíveis versos: “Vejam essa maravilha de cenário/ É um episódio relicário...” Igualmente, a empolgante “É Hoje”, de Didi e Mestrinho, samba-enredo da União da Ilha de 1982, um dos mais célebres da história dos carnavais. Pra arrebatar os amantes do samba, Monarco, com sua voz de barítono e modos elegantes típicos de um monarca do morro, presenteou-nos com “O Sol Nascerá” (“A sorrir eu pretendo levar a vida/ Pois chorando eu via mocidade perdida...”), emblemático samba do gênio mangueirense Cartola. As emoções, no entanto, ainda não terminariam por aí.

Obras da Portela mesmo foi o que não faltou. Paulo da Portela, Chatim, Ventura, Antonio Caetano, Alvaíde, Mijinha, Chico Santana. Os nomes dos poetas e músicos desconhecidos do morro vêm à tona quando a Velha Guarda toca. A começar pelo “abre-alas” “Esta Melodia”, de Jamelão e Babu da Portela, composição híbrida das duas mais tradicionais escolas de samba do Rio, que ficou conhecida na voz de Marisa Monte. Paulo da Portela, fundador, principal compositor e exemplo para toda a geração de sambistas portelenses, foi, obviamente, lembrado mais de uma vez. “Hino Da Velha Guarda Da Portela” dele, foi executada, mas seu nome é mencionado seguidamente, como nas letras de “Corri pra ver” (“Foi mestre Paulo seu fundador/ Nosso poeta e professor”), “Passado de Glória” (“Em Oswaldo Cruz, bem perto de Madureira/ Todos só falavam Paulo Benjamin de Oliveira”) e “De Paulo a Paulinho”, que Monarco (autor também das duas anteriores) fez para homenagear o mestre e seu discípulo, unindo passado e presente: “Antigamente era Paulo da Portela/ Agora é Paulinho da Viola...”
As pastoras Áurea, Neide e Tia Surica, divinas.
(foto: Tita Strapazzon)
Paulinho, aliás, foi igualmente lembrado. “Foi um Rio que Passou em Minha Vida” foi entoada com gosto pela plateia. Candeia, outro dos grandes, também não faltou à festa, num samba cantado por Sérgio Procópio, que comandava o cavaquinho. Ele – atual presidente da Portela e parecido com Candeia, inclusive – relembrou “Dia de Graça”, dos clássicos do compositor, muito bem selecionada no set-list, pois soou extremamente adequada àquele público ligado à universidade e pela ocasião comemorativa à UFRGS. Contando a história de um filho de sambista do morro que consegue chegar à faculdade, a poética letra desfecha assim: “E cante o samba na universidade/ E verás que seu filho será príncipe de verdade/ Aí então jamais tu voltarás ao barracão”. Dele, também teve a parceria com Casquinha “Falsas Juras”, com aquela impressionante escalada vocal das pastoras no refrão: “Não adianta aos meus pés se ajoelhar/ Pode chorar, pode chorar”.

Em meio a tanta beleza, ainda tiveram a filosófica “O Mundo é Assim” (“O mundo passa por mim todos os dias/ Enquanto eu passo pelo mundo uma vez...”), de Alvaíde; “Tudo azul”, de Ventura; a linda “Lenço”, de Chico Santana e Monarco; e “Você me abandonou”, de letra extremamente feminista (“Você me abandonou/ Ô ô, eu não vou chorar/... O castigo que eu vou te dar é o desprezo/ Eu te mato devagar”), mas composta por um homem, Alberto Lonato. De Monarco, simpático e feliz pela ocasião, não faltaram igualmente suas numerosas composições importantes para o repertório do grupo. Além das já citadas, teve dele também “Portela desde que eu nasci” – seu primeiro sucesso, na voz de Martinho da Vila, quando ele, Monarco, ainda era um mero guardador de carros, nos anos 70 –, sua primeira composição, escrita quando tinha 13 anos, e os hits na boca de Zeca Pagodinho: a gostosa “Vai Vadiar” e a iluminada “Coração em Desalinho”, dos mais lindos sambas jê escritos: “Agora uma enorme paixão me devora/ Alegria partiu, foi embora/ Não sei viver sem teu amor/ Sozinho curto a minha dor”.

A comoção não parou por aí. Vieram outros clássicos como “O Amanhã” (“Como será o amanhã/ Responda quem puder...”), clássico samba-enredo, e “Portela na Avenida” (Mauro Duarte e Paulo Cesar Pinheiro), imortalizada por Clara Nunes, que pôs tudo mundo pra sambar e cantar, acendendo a galera, num verdadeiro êxtase: “Salve o samba, salve a santa, salve ela/ Salve o manto azul e branco da Portela/ Desfilando triunfal sobre o altar do carnaval”. Simplistamente um espetáculo.

A delicadeza, a simplicidade, a pureza da poesia destes sambas, unida às engenhosas e límpidas melodias que se situam entre o partido-alto, o sambe-enredo, o samba-de-roda, o batuque, o maxixe. Assim são os sambas que a Velha Guarda da Portela, com o perdão do trocadilho, guarda. Já escrevi sobre isso no meu blog: a Velha Guarda abre um real espaço documental de registro de obras que, não fosse a valorização de apreciadores ilustres – como Paulinho e Marisa, que, em épocas diferentes, motivaram sua existência e manutenção –, perder-se-iam no terreiro de Madureira num pagode qualquer e, talvez, caíssem no esquecimento dos tempos. Ainda bem que não, para o bem de amantes desses sambas como nós que podem, ainda hoje, ser arrebatados como fomos naquela histórica noite na (ou “de”) Redenção.




quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

“Brado Retumbante” – Sessão de autógrafos com Paulo Markun – Sala Álvaro Moreyra – Porto Alegre/RS



Markun autografa o meu
"Na Lei Ou Na Marra"
“Na democracia, você pode reclamar pedindo pela ditadura, que nada vai te acontecer. Mas vai fazer o contrário pra ver o que te acontece...” Estas sábias palavras podem parecer óbvias, mas não são. Em épocas de desconfiança do valor da democracia, acho saudavelmente significativo que um jornalista referencial como o paulista Paulo Markun esteja lançando não um, mas DOIS volumes sobre o tema. Pois estive, a convite dos amigos Márcio Pinheiro e Marcello Campos, na sala Álvaro Moreyra, no Centro Municipal de Cultura de Porto Alegre, na sessão de autógrafos do projeto de Markun intitulado “Brado Retumbante”, livro composto de dois volumes: “Na Lei ou na Marra (1964-1968)” e “Farol Alto Sobre as Diretas (1969-1984)”. Ele comentou um pouco sobre a demorada e trabalhosa feitura do livro, abrindo para perguntas do público depois.
Os livros têm base em mais de 70 entrevistas com políticos, artistas, sindicalistas, intelectuais, jornalistas, artistas que protagonizaram ou testemunharam a redemocratização brasileira, como Leonel Brizola, Fernando Henrique Cardoso, José Sarney, Lula, Mário Covas, Fernando Gabeira, José Dirceu, Otto Lara Rezende, Roger Moreira (Ultraje a Rigor), Maitê Proença, Fafá de Belém, Dom Evaristo Arns, entre outros. O resultado é um painel abrangente da história do País nas últimas décadas, 50 anos após o Golpe Militar e 30 desde o movimento “Diretas Já”. 
Mesmo que focando os acontecimentos políticos e sociais que levaram à vitória da democracia, demarcada pelo ano de 1989, é um jorro de luz sobre nossa consciência democrática combalida. Com tantas leituras por cumprir, comprei por enquanto o primeiro volume, este que o autor autografa para mim na foto. Já é mais do que um bom começo.


                                                                                                                                                  


Elastic Face











"Elastis Face" - RODRIGUES, Cly
grafite sobre sulfite - 21x10cm
(2014)


REIS, Cly

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

“Boyhood”, de Richard Linklater (2014)



O diretor Richard Linklater sempre se preocupou com os efeitos do tempo e da sociedade na vida dos indivíduos. Desde “Dazed and Confused” (“Jovens, Loucos e Rebeldes” no Brasil), o diretor demonstra ser um crítico mordaz das exigências da sociedade consumista americana sobre os jovens. Nele, o último dia de aula na high school permite uma série de situações engraçadas, trágicas e cômicas de seus protagonistas, todos na eminência de entrar na universidade e terminar com aquele mundo de irresponsabilidade da adolescência. Na sequência de sua carreira, depois de trafegar pela “Escola do Rock”, por “Waking Life” - onde estas preocupações atingem um paroxismo filosófico – e pela trilogia “Before Sunrise, Sunset e Midnight”, entre outros, Linklater consegue a síntese de seus pensamentos e suas preocupações em “Boyhood”.

No novo longa, resolve aprimorar sua tese, acompanhando por 12 anos a trajetória de Mason (o excelente Ellar Coltrane) realmente durante este período. A partir de uma família desfeita, Linklater acompanha a evolução física do personagem e, especialmente, sua trajetória de vida. Junto com Mason, vêm as vidas de sua mãe (Patrícia Arquette, ótima como sempre), do pai (Ethan Hawke, o ator-fetiche do diretor) e da irmã, interpretada com veracidade pela filha do diretor, Lorelai Linklater.

Arquette, linda e talentosa, com o excelente Coltrane
Durante as quase três horas de filme, vemos Mason enfrentar novas escolas, dois padrastos com problemas de alcoolismo, cortes de cabelo, namoradas confusas, um pai adolescente, uma mãe carente e uma irmã quase sempre indiferente. Tudo aquilo que enfrentamos em cada fase de nossas vidas. A diferença em relação aos jovens brasileiros se dá no rito de passagem que é o final da high school e a busca de um lugar na universidade e na vida. Como a sociedade americana é estruturada em cima deste momento definidor, esta competitividade é estimulada desde a infância. Aqui no Brasil, por exemplo, como temos “jovens” de 40 anos ainda morando com os pais e não se importando em continuar na “casa da mamãe”, tudo parece muito distante.

Linklater consegue um prodígio ao filmar toda esta trajetória na cidade de Austin, Texas, sem cortes explicativos de tempo, nem ficar escravo da cronologia. Nestes 12 anos, o diretor reunia seu elenco durante três ou quatro dias e registrava parte da história. Esta técnica permitiu o frescor das situações e a sua veracidade. Se não fossem as mudanças físicas dos personagens, poderia se dizer que tudo foi filmado de uma só vez, sem prejuízo para a questão técnica e de roteiro.

Richard Linklater garantiu, durante o lançamento de “Boyhood”, que este será o último filme de sua carreira. Caso isso seja verdade, podemos dizer que foi um fechamento de luxo para uma filmografia muito interessante. Vale a pena conferir “Boyhood”.



sábado, 29 de novembro de 2014

Arcadia - "So Red The Rose" (1985)



“Eu sonho com
 elegância, arrogância,
Extravagância do Duran Duran...”
Humberto Gessinger,
música "Nada a Ver"
do álbum "Longe Demais das Capitais"
do Engenheiros do Hawaii




Mas Christian, tu cita o Humberto falando do Duran Duran e o disco não é deles, é do Arcadia! Explico. O Arcadia foi formado por 3 dos 5 integrantes do Duran Duran quando eles resolveram dar uma parada para tocar projetos paralelos. O fundador John Taylor (baixista) e o Andy Taylor (guitarrista) foram tocar com o Robert Palmer e o baterista do Chic no Power Station. Os outros 3 que são o vocalista Simon Le Bon, o tecladista Nick Rhodes e o baterista Roger Taylor fizeram o Arcadia. Uma coisa me passou pela cabeça agora, o Duran Duran poderia se chamar “The Taylors” porque 3 Taylor sem parentesco algum em uma mesma banda não é pouca coisa.
Para este projeto eles ainda contaram com a guitarra do David Gilmour nas faixas "The Promise" e "Missing", e participações como a da Grace Jones, Sting, Carlos Alomar, Herbie Hancock e outros músicos. Para mim é um pop elegante, funkeado e com muitas camadas de produção características dos anos 80, mas sem muito exagero. "Election Day" foi o single que puxou o disco, mas ao longo da audição tu vais percebendo outras músicas que também faziam parte das rádios na época como a "Goodbye Is Forever" e a "The Promise".
Quem puder, ouça a versão tripla que conta com o disco normal, outro disco com versões estendidas/remixes/instrumentais e ainda um DVD com clipes das músicas. Mais ou menos neste período foi que o Duran Duran colocou a música "A View to a Kill" no filme "007 Na Mira dos Assassinos". No clipe desta música pode-se notar o “climão” que estava entre os membros da banda, onde nenhum aparece contracenando com o outro. Este disco foi importante para a retomada do Duran Duran que aconteceu no disco seguinte, que foi o "Notorius", agora resumido a 3 integrantes, o John Taylor, o Simon Le Bon e o Nick Rhodes. Muito do que foi desenvolvido a partir desta reunião já estava contido neste belo disco que é o "So Red The Rose", do Arcadia. Escuta, vale a pena.
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FAIXAS:
  1. "Election Day" - 5:29
  2. "Keep Me in the Dark" - 4:31
  3. "Goodbye Is Forever" - 3:49
  4. "The Flame" - 4:23
  5. "Missing" - 3:40 (LeBon, Rhodes)
  6. "Rose Arcana" - 0:51 (LeBon, Rhodes)
  7. "The Promise" - 7:30
  8. "El Diablo" - 6:05
  9. "Lady Ice" - 7:32 (LeBon, Rhodes)

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Baixe para ouvir:
Arcadia So Red The Rose




sexta-feira, 28 de novembro de 2014

cotidianas #336 - No Meio do Número



O homem sentado na poltrona surpreendeu-se com a presença do inesperado visitante que sua esposa conduzira até a sala.
- O senhor? Que surpresa.
O senhor baixo, bem vestido, elegante, de cabelos totalmente brancos, ainda em pé, lançou apenas um terno sorriso para o dono da casa.
- Mas sente-se, sente-se, por favor - apressou-se o anfitrião ainda um tanto aturdido pela visita.
O velhote sentou-se no confortável sofá e como que inquirido pelo olhar curioso do outro, foi direto ao assunto:
- E então, meu capitão, pronto para voltar ao campo de batalha?
Ao contrário do que sua atitude até então demonstrara, espantado, confuso, curioso, Scott não demonstrou grande surpresa com a convocação do homem sentado em sua sala.
- Imaginei que sua presença aqui se devesse a alguma coisa desse tipo – disse pegando a lata de cerveja em cima da mesa.
O velho não respondeu, até porque a última fase não pedia resposta alguma. Apenas permaneceu encarando amavelmente aquele sujeito à sua frente como se seu olhar fizesse por insistir na pergunta.
- Você sabe que eu não posso mais, Bill. Olhe isso – disse batendo na barriga – Já não sou mais o mesmo.
- Mesmo com essa barrigota, com um braço engessado, com um pé nas costas você ainda é melhor que qualquer um daqueles garotos.
Riram os dois.
- Desculpe, Bill, não lhe ofereci uma cerveja – ofereceu o dono da casa qde certa forma tentando ganhar tempo para se refazer de uma certa emoção que o elogio lhe causara.
-Não, não, obrigado – recusou o velho Bill Oates - Parei com isso há tempos. Não ia me fazer bem. e de mais a mais, a Laura me mataria se soubesse que eu dei um gole.
Riram novamente e um breve silêncio seguiu-se à descontração.
- Eu não posso mais, Bill – voltando a adotar um tom sério - Eu adoro aquilo mas meu tempo já passou.
- Ora, Scott, não seja tolo...
- Não, não. Você sabe que não dá mais. Os caras hoje em dia são muito mais ágeis, muito mais fortes... eu... simplesmente não conseguiria jogar hoje.
- Scott – falou pausadamente – você só precisa entrar lá e fazer o que você sabe como ninguém.
- Mas e aquele novato, aquele da Universidade de Illinois, o que foi veio dos Sinners?
- Ora, o Amos? Oh, meu Deus! Ele corre muito com a bola. Se eu quisesse um corredor eu teria contratado um running back. E eu tenho um, aliás, o melhor da liga, só preciso que alguém tenha cérebro para escolher a melhor jogada, leia a defesa do adversário, faça o play-action perfeito. Eu tenho dois ótimos receivers, Scott, paguei caro por eles mas preciso de alguém que coloque a bola na mão deles, no colo, no meio do número, como só você sabia e sabe fazer.
- Eu tenho que pensar, Bill. Isso envolve tantas coisas. Eu não sei como a Jeannie iria encarar isso. Eu disse a ela que me dedicaria mais a ela, que viajaríamos. E tem o Jake também – fez uma pausa - Meu filho nasceu e, na época, eu mal pude acompanhar, não conseguia estar junto com ele, não estava perto, quantas vezes ele me pediu para ir ao teatrinho da escola e eu não pude, pra jogar com ele no pátio, acho que naquele tempo só estive em casa mesmo em um dos aniversários dele. Agora que eu estou conseguindo curtir um pouco mais o garoto... E de mais a mais, faz dois anos que estou fora.
- Mas tenho certeza que não desaprendeu – afirmou encarando fixa e convictamente o quarter-back antes de completar – E tenho certeza que os centers, os guards, os rapazes à sua frente, se souberem que é você que os estará conduzindo, lhe protegerão como às suas próprias vidas. Não deixarão ninguém tocar em você.
Notou que Scott emocionara-se novamente mas não insistiu naquele momento. Levantou-se, então, e antes de dirigir-se à saída ainda acrescentou:
- Quanto ao garoto, no fundo, ele só é mais um de nós, um de seus fãs. Um fã especial, eu sei, mas o ídolo dele não é só o pai, é o quarter-back dos Sinners, Scott Pierce. Pense com carinho nisso, Scott. Se resolver voltar, sabe onde me encontrar. Não precisa me levar até a porta - e seguiu caminhando pelo corredor.
Scott Pierce, o grande ex-quarter-back dos Sinners, o eterno comandante do “ataque madito” como ficara conhecida a linha ofensiva do time, dono de dois anéis de Superbowl, permaneceu sentado em silêncio com o olhar perdido no vazio por alguns instantes. Assim que saiu do pequeno transe, levantou-se, dirigiu-se à janela e viu o filho, o pequeno Jake, de 5 anos, treinando lançamentos solitários com a bola oval no gramado do quintal.
Desligou a TV, largou a lata de cerveja na mesa de centro e deixou a sala e saiu pela porta da cozinha para o pátio.
- Dá a bola pro papai, Jake – pedido que o filho, contente, atendeu prontamente - Olha só isso. Vou te ensinar como se lança.




Cly Reis

ELVIS


quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Henry Fonda – O Maior Bandido Que O Western Já Viu







Uma coisa é matar um pistoleiro num duelo ou em um tiroteio qualquer. Atirar em xerifes, não ter pena de apaches e Cheyennes, roubar trens, diligências e assaltar bancos. Tudo isso fazia parte do dia a dia dos grandes bandidos do filmes de Western. Outra coisa é assassinar uma criança a sangue frio com um balaço e sem esboçar o mínimo de sentimento. O pistoleiro Frank, vivido por Henry Fonda em “Era uma vez no Oeste” (1968), de Sergio Leone, era o típico fora da lei sem escrúpulos, um assassino cruel e capaz de qualquer coisa, matar crianças, mulheres, velhos e ainda tomar um Bourbon. A cena em que a família toda é assassinada pela gangue de Frank, mostra uma brutalidade sem tamanho, o qual Leone não poupou o telespectador da metáfora do progresso. Após ter matado todos, Frank de roupa escura como um mensageiro da morte, se depara com uma criança, nesse momento a trilha de Morricone se exalta e da uma tensão visceral na cena. A câmera de Leone busca os olhos azuis de Frank (Fonda) e em outro close foca os olhos meigos do menino, a trilha do maestro baixa e um dos capangas revela sem querer o nome do bandido na conversa que definiria o futuro do menino. Frank com um meio sorriso resolve friamente atirar, Bang. 
Sergio Leone nunca escondeu o sonho de trabalhar com seu ídolo Henry Fonda. O diretor o assediou por vários anos até receber uma bolada da Paramount onde poderia finalmente financiar seu filme e contratar o astro. Convencido por Eli Wallach que já tinha trabalhado com Leone, Henry terminou aceitando o papel que praticamente tinha sido escrito para ele, seu preço, 250 mil dólares e que Sergio fosse aos EUA e o convencesse pessoalmente. O resto já sabemos. A verdade é que considero este o melhor personagem de Fonda e o maior vilão de um filme western. No filme tudo nele da medo, mas o que mais assusta são seus olhos azuis, tem algo de morte no olhar desse personagem, cada close facial nos mostra esta intimidade mortal que não foi vista em nenhum outro personagem da filmografia do diretor . As cenas de sexo com Claudia Cardinalle são de um ódio repulsivo enorme e que causaram polemica na época,. O sadismo de fazer uma forca humana e cuidar para que o outro familiar apoiasse em seus ombros a vitima, com as mãos atadas e uma gaita na boca, já fazem Fonda entrar no panteão dos maiores vilões da história do cinema com métodos macabros.
"Era uma Vez no Oeste" foi o maior filme do gênero em minha opinião, mesmo na época tendo sido destruído pela critica, teve seu reconhecimento a tempo tornar-se uma espécie de Cult do gênero. Seria uma injustiça não nomear outros grandes vilões do Western, e foram muitos. O próprio Leone criou esta estirpe suja de dentes feios, mal encarados, inescrupulosos e caolhos a la Jack Elam. Eu eternamente fico com o personagem de Henry Fonda em minha lista. Esse realmente eu temi, esse realmente merece respeito.