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segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Calendário Casa do Jardim 2015


A Casa dos Jardins



O calendário da Casa do Jardim comemora os 50 anos de atividade da entidade, que desenvolve um trabalho de atendimento espiritual gratuito desde sua criação numa casa do jardim do Hospital Espírita de Porto Alegre. Com o tempo, o grupo, que começou pequeno, foi crescendo. Com isso, uma sede nova se fez necessária. Assim, em meados dos anos 80, a Casa do Jardim migrou para uma casa no bairro Menino Deus, onde está situada até hoje.

Conheci a Casa do Jardim em 2008 quando fui convidada pela minha irmã Carolina para fazer um atendimento. Já cheguei na Casa sendo atendida por um grupo chamado Renascer. Lá recebi a orientação de trabalhar com crianças em uma instituição que eu escolhesse. Na saída da sala, num dos murais da Casa, desvelou-se para mim o Grupo Ação Voluntária Francisco de Assis - GAVFA (instituição atendida pela Casa do Jardim através do trabalho do grupo de Assistência Social). O GAVFA me acolheu em 2009 e permitiu a criação de um ateliê de Arte-Educação com a colaboração de amigos e doações voluntárias. Lá realizei também dois filmes para ajudar a instituição a mostrar o seu trabalho para possíveis mantenedores, um em 2009 (institucional) e outro em 2011 (comemorativo dos 10 anos), sempre com equipe voluntária.

Em 2010, decidi que estudaria a Doutrina Espírita nos cursos gratuitos e regulares da Casa. Desde então, frequento-a duas vezes por semana, uma para estudar e outra para receber o passe.

Foi então que, em maio de 2014, recebi um convite para desenvolver alguma ação voltada à cultura na Casa do Jardim. A ideia do calendário foi inspirada na ação desenvolvida por muitos anos pela pedagoga Cecilia Machado Bueno, que ajudava instituições em Porto Alegre através da venda de calendários com suas obras em desenho e pintura. Por vários anos Cecília colaborou como voluntária para a Instituição De Peito Aberto em Porto Alegre.  Este trabalho foi encerrado em 2013, quando Cecilia desencarnou, deixando então seu último calendário com obras de sua autoria. Cecilia foi minha professora de Arte-Educação, e me inspirei neste exemplo de caridade em ação e propus à Casa do Jardim a elaboração do seu primeiro calendário. 

Mais uma vez a ação seria realizada com a colaboração voluntária de todos os envolvidos. Pensei então na equipe e na temática. Os jardins me vieram de forma muito precisa. Afinal de contas, essa instituição nasceu em um jardim e chama seus trabalhadores de jardineiros. Nada mais coerente do que ressaltar esse caráter histórico e muito particular da Casa. Mas como transformar esse conceito de jardim em algo original e diferenciado? E quem convidar para essa ação?

Eu queria que a maior parte de profissionais representativos da área da fotografia e afins participasse do calendário, mas pela quantidade de meses só caberiam 12 fotógrafos, então a seleção ficou mais delicada. Propus aos 12 fotógrafos selecionados para participar do calendário que eles me enviassem seus jardins. Alguns me disseram: “Mas Leocádia eu não fotografo jardins!” E eu comentei: “Tens certeza disso?” A proposta era trabalharmos com um conceito de jardim mais ampliado, mais inusitado. Todos tinham em seus acervos uma imagem com esse tema o difícil para todos foi escolher.
 
Convidei Amy Hildebrand, que conhecemos nos anos 2000 quando pesquisávamos na minha empresa, Aprata, sobre cegueira e ela, fotógrafa norte-americana com baixa visão produzia um projeto chamado “With Little Sound”, onde diariamente fotografava alguma imagem do seu cotidiano e publicava num blog. Amy me disponibilizou primeiro uma fotografia de inverno, com neve em P&B, pois ela havia sido escolhida para ilustrar o mês de janeiro. Mas conversando resolvemos trocar a imagem por duas, mais parecidas com o clima do Brasil nesta época do ano. Então as fotografias de janeiro reunidas num díptico, mostram a poesia e o registro inusitado, duas características de Amy. 
Amy Hildebrand - janeiro
Bruno Alencastro está no mês de fevereiro e nos enviou duas imagens, uma delas, a selecionada traz a flor de hibisco da Zona Sul de Porto Alegre, região mais arborizada e que possui uma flora muito própria. Bruno foi meu colega nas edições da Feira do Livro de Porto Alegre, quando trabalhamos juntos na equipe de fotografia.
Bruno Alencastro- fevereiro
Dulce Helfer, que já era uma colaboradora antiga com fotografias de Mario Quintana em projetos da Aprata, me deixou à vontade para escolher entre 14 opções de fotografias o jardim. A que mais gostei foi essa, que dentro do conjunto nos traz uma visão dos pampas, numa estrada do interior do RS, no caminho para a cidade de Horizontina e os girassóis na plantação. As flores junto às plantações são muito utilizadas para reduzir o uso de agrotóxico afastando de maneira natural as pragas e insetos. A fotografia ilustra o mês de março.
Dulce Helfer - março
Gal Oppido, fotógrafo paulista, já era muito admirado por mim duplamente, por seu trabalho em fotografia e nos projetos gráficos voltados para música. Sua única opção de imagem foi o jardim de Claude Monet, registrado por ele em 2014 com uma visão muito poética. Gal traz a conexão desse jardim francês, com a doutrina espirita que nasceu na França e fez do Brasil seu berço de difusão. O jardim de Giverny ilustra o mês de abril.
Gal Oppido - abril
Fernando Schmitt foi meu professor de fotografia na Famecos-PUCRS quando estava cursando Publicidade e Propaganda no final da década de 90. Além disso, Fernando faz parte da Escola de Fotografia Fluxo em Porto Alegre, que cresce oferecendo formação aos interessados em fotografia e em artes visuais. Ele me enviou sete opções de jardins, mas o inusitado da fotografia “Tupi Paulista” me arrebatou. A fotografia mostra a copa de uma árvore que aparece em forma de sombra na calçada da cidade do interior do estado paulista Tupi Paulista, ilustrando o mês de maio.
Fernando Schmitt - maio
Frederico Mendes é carioca e trabalhou conosco na Coleção Mario Quintana para a Infância volumes IV e V em 2011. Na Coleção ele fez as fotografias do trio de compositores Waldemar Falcão, Monique Aragão e Fernando Gamma. Frederico fotografou lugares de todo o mundo para revistas de viagem, jornais e outros. Ele enviou “Um certo açude em Pernambuco”, quase sumindo no entardecer, um jardim nordestino que ilustra o mês de junho. 
Frederico Mendes - junho
Bruno Polidoro traz o jardim plástico que tem uma história muito particular. Bruno trabalha como diretor de fotografia no cinema, e enviou sua fotografia realizada no dia em que seu avô desencarnou. A imagem mostra uma flor de plástico em meio a vidros, narrativa de um momento onde algo mudou e não será como antes. A imagem ilustra o mês de julho quando se comemora em vários lugares do país, o dia dos Avós.
Bruno Polidoro - julho
 Gustavo Diehl conheci em 2009, quando comecei meu Pós em Artes Visuais na Feevale. Fomos colegas e Gustavo já fotografava imagens decompostas através da ação do tempo. Aqui, duas opções muito verdejantes vieram para minha seleção. A escolhida nos faz sentir o adentrar da mata, da floresta, deixando um verde tomar conta de toda a imagem, ilustrando o mês de agosto.
Gustavo Diehl - agosto
Jefferson Gonzalez já era conhecido no fotojornalismo e, em 2013, realizei o casamento dele e da sua esposa Camila com muita alegria. Ao convidá-lo ele me abriu a opção de escolher uma imagem em seu banco de imagens, que é um oásis para qualquer curador. A tarefa ficou mais fácil quando encontrei essa imagem de um local da Praia da Pinheira e a figura de uma linda mulher e seu cão, com o título: “Amizade”. Daí a seleção foi imediata para ilustrar o mês da Primavera. Jefferson ilustra o mês de setembro.
Jefferson Gonzales - setembro
Lúcia Simon foi minha professora de fotografia e, junto com Nede Losina, administram a Escola Projeto, que existe há 10 anos formando novas turmas de fotógrafos no RS. Lúcia me enviou sua primeira fotografia digital, realizada em 2004, com a imagem dos pés de uma menina, narrando para a gente a proximidade da data do Dia das Crianças, que se comemora em outubro.
Lúci Simon - outubro
Luis Ventura tem sido um parceiro para trabalhos voluntários ou não desde que começamos a trabalhar, em 1999. Fotógrafo e cinegrafista, participou dos vídeos para o Grupo Ação Voluntária Francisco de Assis e reside faz alguns anos no bairro Menino Deus. Luis me enviou a fotografia de um arbusto florido de uma das calçadas do bairro, onde está situada a Casa do Jardim. A imagem ilustra o mês de novembro.
Luís Ventura - novembro
Rogério Amaral Ribeiro é fotógrafo e atua como professor da Escola Câmera Viajante. Ele nos envia a “Flor da Estação”. A fotografia tem a ver com os olhares de Rogério sobre a natureza, a flora mais especificamente. E assim o mês de dezembro encerra o calendário.
Rogério Amaral Ribeiro - dezembro
Fazem parte do calendário os voluntários: no projeto gráfico Beth Azevedo e Thomaz Benz, na tradução Cleiton Echeveste, na assessoria em direitos autorais Patrícia Mello, nas peças de divulgação (cartazes e convite web) Gabriela Bohns e na assessoria de imprensa o nosso blogger Daniel Rodrigues.  A direção da Casa do Jardim assina um texto de apresentação através do seu Diretor Presidente, Carlos Barradas, que conta um pouco da historia e do trabalho espiritual. Toda a produção do calendário foi acompanhada pelos departamentos da Casa do Jardim, de Assistência Social e Educação. Inclusive o lançamento institucional do calendário foi realizado gentilmente no Jantar Beneficente realizado no Clube do Professor Gaúcho pela Assistência Social em 22 de novembro de 2014.

Como a Casa do Jardim continua crescendo, toda a renda dos calendários será revertida ao “Projeto Jardim Maior”, que prevê a ampliação do espaço físico da casa para um melhor atendimento realizado através dos grupos de passe e dos grupos de atendimento presencial.

Com a alma renovada e agradecida a todos pela conclusão desse trabalho tenho ideias para os próximos. Sim, porque pretendo repetir a ação na Casa do Jardim para o ano de 2016  e, se houver, outra instituição que precise desse trabalho, por que não ajudar? Vamos em frente!

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Serviço:
Calendário Casa do Jardim 2015
onde encontrar: Livraria da Casa do Jardim (Rua Beck, 129 - Porto Alegre/RS)
valor: R$ 15,00/ A partir de 5 unidades, R$ 10,00.
informações 51- 3231-3826


sábado, 10 de janeiro de 2015

"Rembrandt e a Figura Bíblica" - Centro Cultural Correios - Rio de Janeiro / RJ (04/01/2015)









Este blogueiro prestigiando a exposição
Estive na exposição "Rembrandt e a Figura Bíblica", em cartaz no Centro Cultural Correios, aqui no Rio, que reúne aproximadamente 80 gravuras do artista holandês, datadas da metade do século XVII, em água forte, buril e ponta seca, técnicas que se não são as que o fazem mais conhecido do público em geral, serviram em muitos casos como ensaio, estudo e esboço para suas famosas pinturas a óleo e ainda garantiam-lhe bons lucros em vendas para particulares, colecionadores e especialmente para a Igreja
Apesar do título da mostra referir-se especificamente ao sacro, há ainda outras gravuras pessoais, nus, paisagens e temas diversos. Muito interessante para quem quiser um pouco mais de contato com este segmento de trabalho do artista que apesar de ser considerado muitas vezes menor do que seus retratos a óleo, é tão significativo quanto e o fizeram altamente notabilizado em sua época.
Abaixo as informações sobre a exposição e alguns registros da visita.



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exposição “Rembrandt e a Figura Bíblica”
visitação: 18 de dezembro de 2014 a 22 de fevereiro de 2015.
horário: de terça a domingo, das 12h às 19h.

local: Centro Cultural Correios - Rua Visconde de Itaboraí, 20 – Centro, Rio de Janeiro.
entrada: gratuita




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Auto-retrato do artista

Moldes para as gravações

Um dos nus da exposição

Uma das gravuras mais marcantes da parte bíblica da mostra:
"As Três Cruzes"

A ressurreição de Lázaro

O espaço e os visitantes


A decapitação de João Batista
por Rembrandt

Cly Reis

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

cotidianas #344 - Somos Reis



Chamo-me Reis, por parte de mãe. O sobrenome, ao que tudo indica, veio de Portugal, tendo em vista haver essa procedência na família. Entretanto, as raízes africanas foram as que se sobrepuseram em mim e nos meus familiares, cujas feições negras marcantes se assemelham bastante mesmo entre homens e mulheres. E, curiosamente, minha família do lado materno sempre festejou o Dia de Reis, 6 de janeiro. Mesmo que a data tenha como motivo principal a tradição cristã, pela sugestão do nome – e talvez pela assunção de certa autoimportância – nós, Reis, a celebramos, pelo menos, entre a gente.

ilustração: Cly Reis
Pois o clima de “parabéns” entre os meus e o atrevimento de tomar umas das datas mais antigas da tradição ocidental como sendo nossa lembrou-me de um episódio. Lá por 1994, 95, não lembro ao certo, estava eu acompanhando uma amiga numa festa comunitária em Viamão, num sábado à tarde. Foi numa escola dessas tipo “brizoleta recauchutada”, tal como a que estudei meu Ensino Básico, que. Construída por Brizola nos anos 60, ganhara anexos no governo Collares (1991-95). Crianças, mães, pais, jovens, guloseimas, refri, cuscos, música (na época, o que “pegava” era “O Bonde do Tigrão”, embrião do punkadão carioca). Clima festivo e animado.

Como apenas acompanhava minha amiga, que trabalhava fazendo a filmagem da tal festa, era uma figura um tanto enigmática ali. Percebia uns olhares do tipo: “o que esse rapaz está fazendo aqui?”, “De onde ele veio?” À medida que as horas avançavam, ia, naturalmente, me enturmando com o pessoal, tudo gente boa. Gente como a gente, sabe?: classe média (mais baixa que a minha, mas classe média), universos parecidos, gestos parecidos, feições parecidas.

Até que, lá pelas tantas, minha amiga, eu e uma moradora do bairro começamos a conversar amenidades. Ela, uma mulata jovem de quem se notava simplicidade, era uma das curiosas quanto a mim mas demonstrava certa intimidação ao falar comigo. No entanto, no desenrolar da conversa, ela me olha e diz:

- Eu acho que te conheço. Tu não é filho da tia Dorinha?

(Observação: a título de prosódia, estou inventando o nome dessa senhora, viu? Não tenho condições de me lembrar disso.)

Eu, sendo filho da dona Iara, por óbvio respondi que não. A moça seguiu intrigada e prosseguiu com a indagação:

- Então quem é a tua família?, perguntou ela achando que eu fosse alguém do bairro.

Foi então que, com uma naturalidade desavisada, respondi:

- Na minha família são Reis.

Por uma fração de segundos, um turbilhão deve ter passado pela cabeça dela. A moça levou um susto tão grande que, involuntariamente, esbugalhou os olhos. Sei lá o que foi, se por minha postura convicta do que dizia ou pelo modo de falar, que talvez tenha transmitido subliminarmente a tal “assunção de certa autoimportância”. Mas o fato é que, ajudado pela minha mal formulada e dúbia frase, ela acreditou, sim, que eu descendesse de uma família real. Na hora, tive que me conter para não gargalhar na cara da moça, pois cheguei a enxergar uma cena comigo sentado num trono todo dourado, rodeado pelos meus parentes e animais da selva africana soltos em nosso castelo, e ela, humilde, a nos venerar. Juro que vi essa imagem.

O prosseguimento da conversa foi eu terminando de explicar quem eram meus parentes, usando inclusive os Rodrigues como reforço argumentativo. Alívio por parte dela.

O fato é que me lembro deste episódio hilário todos os Dias de Reis. Não tem como esquecê-lo, pois é neste dia que, segundo a tradição cristã novamente, desfazemos os enfeites de Natal.

O que sei é que, terminada a quermesse, fomos embora e, ao nos despedirmos, notei algo estranho. Pode ser loucura minha, mas parecia que a tal moça, que quase se ajoelhou a meus pés, ficou nos observando desconfiada guardar os equipamentos para ver onde eu tinha posto o cetro e a coroa...

Mas vai saber se meus antepassados não tiveram mesmo alguma coisa a ver com a recepção do menino Jesus naquele famigerado dia 6 de janeiro, né? Quem sabe Baltazar, um dos três reis magos, que saiu da minha originária África para levar mirra a Jesus a léguas de distância, foi ordenado por algum de nós, Reis, que àquela época já gostavam mandar. Vai saber. A única coisa é que, como dizem os Reis, os da minha amada família: “só sei que é um sarro”.



"Contos de Amor e Crime: Um Romance Violento", de Afobório - 2014 (ed. Os Dez Melhores)



"Eu estava na fila, junto com os outros.
Enquanto isso, as baratas formavam outra fileira, lá embaixo.
E me sentia encurralado por elas, pelos guardas, pelas muralhas
e pela comida com gosto de terra e ferrugem que davam pra gente (...)
Aliás naquele instante, eu invejava as baratas por três motivos:
primeiro, elas estavam livres,
mesmo que em fila;
segundo; elas deviam gostar daquela gororoba;
e terceiro, eu percebia que, quem ia se foder
com essa coisa de mais segurança e mais disciplina era a gente.
As baratas estavam numa situação muito melhor que a nossa."
trecho de "Contos de Amor e Crime"



Desde o primeiro momento quando firmamos uma parceria com a editora Os Dez Melhores fiz questão de salientar para o editor-chefe, o Afobório, que sempre que resenhasse ou comentasse as publicações lançadas por eles, o faria de maneira totalmente isenta, independente e imparcial sem preocupações de conveniência para a parceria, com o que ele concordou plenamente. Assim, fico muito à vontade para elogiar o bom livro “Contos de Amor e Crime: Um Romance Violento”, do próprio Afobório, porque ele bem sabe que se não tivesse gostado, sem dúvida, manifestaria.
“Contos de Amor e Crime” é uma pedrada, um banho (escaldante) de realidade. Dinâmico, objetivo, muito bem conduzido e estruturado, o romance de capítulos curtos e amarrados de forma engenhosa, por Afobório, narra o caminho tortuoso e violento de um jovem negro e pobre, que na favela, às voltas com o meio, com as companhias, as necessidades, com a violência, com contexto todo, enfim, quase naturalmente cai na trilha do crime. Afobório faz com que os relatos do jovem Jozz soem extremamente reais, contundentes e impactantes, quase que esbofeteando o leitor, tamanha o choque de realidade que impõe. A prostituição da mãe, o padrasto violento, o tráfico no morro, o amor, a ascensão no tráfico, a prisão, a vida desumana na cadeia, a dura sobrevivência, a expectativa de ver o mundo de novo, tudo isso é conduzido com pulso, firmeza, mas com uma fluência quase poética pelo autor.
Como observaçãos, acho apenas que a narração em primeira pessoa e o envolvimento tamanho do autor com o tema, com as injustiças, com o preconceito, com a desigualdade social, etc., o traem em determinados momentos fazendo-o cair num discurso panfletário, quase de palanque, quando na verdade a própria história, por si só, já se encarrega bem o suficiente de dar o recado. Mas nada tire o brilho do livro. Nem poderia. “Contos de Amor e Crime” é cheio de qualidade e lhe sobram virtudes e méritos.
Um romance envolvente até pela sua constituição como um conjunto de pequenos contos que se completam. Personagens que não nos deixam ficar indiferentes. Frases curtas, objetivas, certeiras e diretas como balas. Uma leitura fácil pela acessibilidade mas difícil pelo tema e pela proposta. Assim é “Contos de Amor e Crime”. Seu subtítulo não poderia ser mais adequado: é um romance violento e a partir do momento que você começa a ler, está no meio de um tiroteio, só que as balas de Afobório são violência, sexo, drogas,injustiça, ética, miséria, racismo... E, amigo, se você não sair atingido por pelo menos uma dessas balas, ah,... você não deve ter sangue nas veias.




Cly Reis

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

ARQUIVO DE VIAGEM - Passeio Rural por Veranópolis / RS (31/12/2014)



A beleza das abóboras sob a luz natural ao fim da tarde

Carneiros posam para o retrato

Caverna indígena cercada de lendas e estórias

Do lado de dentro da caverna indígena

Due farfale nas rochas da caverna

Daniel e a maçã, símbolo da cidade

Leocádia alimenta os carneiros
na Tedesco Villa D'asolo

Meme Lovecat da Tedesco Villa D'asolo

Mesa posta

Natureza viva com alimentos orgânicos de Veranópolis

O João-de-Barro dorme tranquilo no capitel São Marco,
construída em 1919 porimigrantes italianos

Olhar atento da coruja do mato

Uvas da vinícola Simonetto
Selfie com Toni Formaiari,
nosso guia no circuito rural em Veranópolis

Ao longe, a Usina Velha e o Arroio Retiro

Cachoeira dos Três Monges

Galo caipir da Tedesco Villa D'asole

Chuva que cai do céu e molha o chão onde pisamos


Imagina se estivesse sentado ali aquela hora

Porteiras e divisas



cotidianas #343 - novo ano, a mesma velha vida




paciência
vazio(a)
bateria
estourando
saco
acabando
coração
cheio(a)
cabeça
no finzinho
combustível
transbordando
alma
nenhum(a)



***



Cly
Reis

domingo, 4 de janeiro de 2015

Marina Lima - "Marina Lima" (1991)


"Será que você será
a dama que me completa?
Será que você será o homem,
não estou bem certa."
trecho de "Não Estou Bem Certa"




Marina acrescentava o sobrenome Lima ao nome artístico e pela primeira vez o emprestava, agora completo, para batizar um álbum. Não era à toa. Em “Marina Lima”, de 1991, a cantora era mais ela do que nunca. Ao mesmo tempo que atingia seu melhor momento artístico, com um pop mais coeso, mais completo, bem produzido, Marina passava por um momento de questionamentos, de autodescoberta, de auto-revelação e por fim de auto-afirmação. Assim, nada melhor do que afirmar para si mesma e para todo mundo “Esta aqui é Marina Lima e este álbum sou eu.”
Marina, assim como Renato Russo o fizera em determinado momento, reconhecia que gostava de meninos e meninos, e resolvia então externar isso através da sua arte. Não que já não tivesse dado pistas em outros momentos mas em "Marina Lima", era a primeira vez que o fazia tão direta e abertamente. Trechos como "procurar Ricardos em Solanges nunca me fez mal" ou“tudo o que eu pensei ser pra sempre eu já não sei se é mais/ penso na menina e fico atenta aos braços do rapaz”, de “Não Estou Bem Certa”, são muito emblemáticos quanto ao conflito interior que se configura, bem como vários outros versos espalhados pelo álbum, em grande parte dedicado a esta (re)descoberta, ora como reafirmação, ora como dúvida.
Não por acaso, “Ela e Eu”, de Caetano Veloso conhecida até então na interpretação notável de Maria Bethânia, é escolhida para abrir o disco, uma vez que já sugere a mudança e o novo momento da cantora. Cantada à capela com uma interpretação belíssima de Marina Lima, “Ela e Eu” além de dar o recado inicial, funciona quase como uma vinheta de abertura do álbum, praticamente entrelaçando-se com a ensolarada “Grávida”, canção pop leve, gostosa, sobre extrapolar, manifestar-se, pôr tudo para fora da maneira que se achar melhor. Com letra de Arnaldo Antunes, “Grávida” pode-se dizer, de certa forma, é uma espécie de “Saia de Mim” dos Titãs, só que sem toda aquela agressividade.
O adorável pop “Criança”, também sobre descobertas, com sua batida eletrônica e ritmo funkeado muito convidativo tem a marca da qualidade da produção de Liminha num dos melhores momentos do álbum; “Acontecimentos”, outra das boas do disco, um pouco mais lenta, é uma canção de amor característica da carreira de Marina e da parceria com o irmão poeta e letrista Antônio Cícero; e a ótima “Pode Ser o Que For”, de ritmo acelerado, vibrante, pulsante é otimista, corajosa e pra frente.
As baladas ficam por conta da delicada “O Meu Sim” e da triste “Não Sei Dançar”, onde Marina acompanhada apenas pelo teclado, canta alguns dos versos mais arrasados da música brasileira, como “às vezes eu quero chorar mas o dia nasce e eu esqueço” e “e tudo o que eu posso te dar é solidão com vista pro mar”.
“Serei Feliz” é aquele típico final digno: um a boa canção, nada mais que isso, mas que por sua vez não compromete em nada. O ponto negativo fica por conta da péssima “E Acho Que Não Sou Só Eu”, música com cara de improvisação de estúdio num momento de infeliz inspiração momentânea registrado. Com uma programação pobre, uma levada tosca de guitarra e uma letra, parece, inventada na hora, a música soa como uma infeliz colcha de retalhos de elementos de outras faixas do disco. Também não é suficiente para desvalorizar o belo álbum de Marina Lima, mas certamente era desnecessária.
O interessante de “Marina Lima”, o álbum, é que se marcava efetivamente a melhor fase artística da cantora, aquele momento acabaria por não ter uma longa duração. Mesmo tendo lançado em seguida com algum sucesso o bom "O Chamado" e depois o interessante porém irregular “[Abrigo]”, sua voz, problemas físicos e emocionais fariam com que a carreira ficasse um tanto comprometida assim como seus trabalhos seguintes dali para a frente. Até por isso, “Marina Lima”, além de um dos melhores álbuns dos anos 90 no Brasil, passa a ser um registro importante como, possivelmente, o último trabalho em que Marina apresentou-se na sua plenitude.
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FAIXAS:
1. "Ela e Eu" 
2. "Grávida"
3. "Criança"

4. "Não Estou Bem Certa"
5. "O Meu Sim"
6. "Acontecimentos"
7. "E Acho que Não Sou só Eu"
8. "Pode Ser o Que For"
9. "Não Sei Dançar"
10. "Serei Feliz"

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Ouça:


Cly Reis

Pornografia Microscópica










Pornografia Microscópica - I

Pornografia Microscópica - II

Pornografia Microscópica - III


foto digital (2014)