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quinta-feira, 20 de setembro de 2012

cotidianas #180 - Especial 20 de Setembro


Sobre Bandeirantes e Gaudérios

Uma vez me contaram de um diálogo entre um gaúcho e um paulista que até hoje reflito. Por motivos de trabalho, o gaúcho, avisando o paulista de que dia 20 de setembro não haveria como se falarem por causa do feriado regional, foi surpreendido com a seguinte pergunta irônica do paulista: “Ué: mas vocês não perderam a guerra?”. Embora claramente jocosa, não há como contrariar de um todo a observação. Se visto com olhar distanciado, o fato de se optar por marcar a data pelos iniciais e astutos disparos de garrucha (20 de setembro de 1835) ao invés da discreta assinatura de um documento no seu término, em 1845, soa suspeito. Suspeita de um engrandecimento de atos que, no subtexto malicioso do tal paulista, não seriam assim tão grandiosos. A fama do gaúcho valente seria, no fundo, uma propaganda enganosa, uma vez que a rebelião da Revolução Farroupilha sucumbira a um diplomático e entreguista acordo. A birra pedante por um país separado do resto do Brasil se esvanecera num acordo entre rebeldes e Império, deixando tudo até hoje como o “Império” quer. Como diz o outro: “rabo entre as pernas”.

Nem tão a terra nem tão a céu. Acho bárbaro esse sul de rios grandes, serras, campanhas e metrópole, mas confesso que o desejo separatista mal resolvido soa-me ainda o mesmo quando ouço a risada de muita gente que lê O Bairrista e só acha graça em um dos lados da piada. Riem porque é engraçado achar graça de ser superior aos outros, pois só sendo superior para achar graça de si sem o constrangimento de não parecer ser. Por outro lado, não queiram vir aqui esses ex-bandeirantes (ou seja, piratas-de-terra mercenários) desfazer um povo que pensa e que não se omite de posicionar-se quando é preciso. De João Cândido a Dunga, provas disso não faltam. Farroupilha mesmo! Dia desses, um amigo meu ponderou-me alguns argumentos interessantes quanto à valorização dos elementos folclóricos gauchescos. Ele me relatou que uma vez levou uma amiga paulista ao acampamento farroupilha para que ela conhecesse as tradições de nossa terra. O impacto e a excitação dela (inclusive desta forma que você está pensando...) foram tamanhos que ele percebeu o quanto esse folclore vale tanto quanto o de qualquer outro lugar. A diferença é que está aqui mesmo, é que, lá fora, chamam de “folk”.

A questão é: em um país continental como o nosso, e onde se está longe de uma unidade cultural e social de fato, há de se louvar que em algum lugar, mesmo que no pé do mapa, tenha-se procurado encontrar um sentido por uma terra que responda a todos. Sei que tanto não responde a todos quanto, principalmente, a forma como muitas vezes esta unidade é proposta é totalmente errada, e só faz aumentar (propositalmente) nossa distância dos outros brasis que, quer queira, quer não, guris e gurias, fazemos parte. Eu, particularmente, gosto de fazer parte. Orgulha-me neste 20 de setembro, mais do que pilchas e chamas crioulas, as camisas dos gaudérios com um mesmo que discreto bordado com as bandeiras do Rio Grande do Sul em um braço e do Brasil no outro (em tamanhos proporcionalmente idênticos, importante que se diga). Isso sim é estar no aqui para estar no mundo. Cabendo aqui neste pedaço de terra em forma de cuia onde insistimos em nos fechar, socados como erva-mate, é possível caber em qualquer lugar, inclusive nos outros brasis.

Mas além das bandeirinhas bordadas, também me encanta no 20 de setembro o sorriso da prenda. Mas isso é de uma poesia tão grandiosa e longitudinal que, este sim, não cabe nesses pagos. Atravessa as coxilhas, invade os campos, alvoroça o gado. Esse sorriso, índio velho, é muito mais redentor, não pertence a nós. Não pertence a nós.



quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Mott the Hoople - "Mott" (1973)




acima, a capa da edição americana e
abaixo, a distribuída no Reino Unido
"O melhor disco
da melhor banda
do início dos anos 70."
Revista Rolling Stone



Esse livro ainda vai me levar à falência.
Ou à loucura!
(Ou os dois)
Ou, no melhor das hipóteses, me deixar sem espaço na prateleira de CD’s.
Mas fazer o quê?
Eu reclamo mas, inegavelmente, é sempre legal descobrir coisas novas e a minha ‘bíblia’ de cabeceira, o "1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer" volta e meia me proporciona o descobrimento de algum som bacana que eu nunca tinha ouvido antes.
Li nele sobre um tal de Mott the Hoople e fui à cata. Não baixei. Aproveitei que estava indo a Londres e comprei lá mesmo o álbum “Mott”, que até não tem o maior sucesso da banda “All the Young Duddes” que fez parte inclusive da trilha do filme “Juno”, mas que era o recomendado pela publicação.
E de novo a dica do "1001 Discos..." foi na mosca!
Muito bom disco!
Produzidos que foram no primeiro trabalho por David Bowie, os rapazes aprenderam direitinho o negócio e fizeram um disco exemplar de glam-rock, bem ao estilo do mestre Camaleão.
Num disco que versa fundamentalmente sobre a vida no mundo da música, seus prós e contras, seus altos e baixos, venturas e desventuras destacam-se a primeira do álbum, “All the Way from Memphys”,um rock’n roll gostoso carregado no piano e no sax; a pegada “Whizz Kid”, um hard-rock com peso e distorção; e a excelente “Ballad of Mott the Hoople” que aborda exatamente essa vida mainstream de forma honesta e realista.
Também valem destaque “Hymn for the Duddes” balada que soa quase como uma oração, verdadeiramente um hino com seus solos longos e tons monumentais; “Honaloochie Booggie” um hard-rock charmoso e cheio de vitalidade; “Violence”, um proto-punk com uma interpretação entre o agressivo e o sarcástico do vocalista Ian Hunter; e “I’m a Cadillac / El Camino Dolo Roso”, um excepcional épico em duas partes, a primeira um mais rock’n roll e a segunda mais lenta, mais acústica, com contornos de latinidade e ares mexicanos. 
Grande disco, mais uma grande descoberta!
Mais um pra conta do livro.
Ai, ai, ai... Onde é que eu vou guardar tantos CD’s?

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FAIXAS:
  1. "All the Way from Memphis" – 5:02
  2. "Whizz Kid" – 3:25
  3. "Hymn for the Dudes" (Verden Allen, Hunter) – 5:24
  4. "Honaloochie Boogie" – 2:43
  5. "Violence" (Hunter, Ralphs) – 4:48
  6. "Drivin’ Sister" (Hunter, Ralphs) – 3:53
  7. "Ballad of Mott the Hoople (26th March 1972, Zürich)" (Hunter, Dale "Buffin" Griffin, Peter Watts, Ralphs, Allen) – 5:24
  8. "I’m a Cadillac / El Camino Dolo Roso" (Ralphs) – 9:41
  9. "I Wish I Was Yur Mother" (Hunter) - 4:52
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Ouça:


segunda-feira, 17 de setembro de 2012

cotidianas #179 - Boca Suja




Te quero dizendo
As piores baixarias
Palavras de baixo calão
Da mais alta linguagem

Enche a boca pra falar
Nuanças da fala
Falas nuas de qualquer etimologia
Grosserias, tabuísmos
Diz
E dá um tapa nos beiços
Fingindo espanto
Com um sorriso de malícia por trás

Licencia-se a soltar tudo o que há de mais licencioso
Figuras de estilos pornográficas de tão estapafúrdias ao ouvido:
Zeugmas, anacolutos, prosopopeias, antonomásias
epizeuxes
Meta dentro metáfora

Te desnuda e desboca
Deixa vir o clímax, te entrega
Dá-te prazer na ponta da língua
Com palavras lambuzadas de deleite
E saboreia uma por uma
Viscosas e doces

Pois quando sai de ti
Palavrão não é nome feio:
É palavra grande
Que entope de gozo
A tua boca suja


O Frango Atirador


sábado, 15 de setembro de 2012

Rage Against the Machine - "Evil Empire" (1996)




“...eu os aviso para terem cuidado com a tentação do orgulho, a tentação de se declarar alegremente acima de tudo e rotular os dois lados igualmente em falta, ignorar os fatos da história e os impulsos agressivos de um ‘Império do mal’, para simplesmente chamar a corrida armamentista de um gigante mal-entendido (...) Eles pregam a supremacia do Estado, declarando sua onipotência sobre o homem individual e preveêm sua dominação eventual de todos os povos da Terra. Eles são o foco do mal no mundo moderno. “
discurso de Ronald Reagan
no qual usa a expressão
que inspirou o nome do álbum



Um coquetel Molotov!
Uma explosiva combinação de funk, hardcore, hip-hop, metal, rap como nunca havia se visto antes. Não com tamanha qualidade, com tamanha pegada, com tamanha fúria.
Sobre os riffs pesados do bom guitarrista Tom Morello e bases embaladas, Zack de La Rocha com seu vocal rap desfilava suas letras engajadas, inteligentes e indignadas sobre a guerra, sociedade industrial, capitalismo, desigualdades sociais e tudo mais que pudesse servir de pólvora para esta verdadeira bomba que é o som do Rage Against the Machine.
Embora seu primeiro álbum, de mesmo nome da banda, de 1992, já tivesse despertado a atenção de público e crítica, com “Evil Empire” de 1996 atingem uma maturidade sonora mais interessante e um resultado técnico mais completo. Peso, balanço, rima e intensidade ganham um maior equilíbrio e resultam em faixas excepcionais como ‘Revolver”, “People of the Sun”, “Tire Me” e “Down Rodeo”, a minha favorita dos disco com aqueles efeitos que lembram o barulho de uma tesoura.
Também merecem destaque “Vietenow”, “Yera of tha Boomerang” e “Witohut a Face”, verdadeiras porradas na boca do estômago.
Dinamite pura.
Um homem-bomba no metrô, um carro bomba estacionado na frente da embaixada.
Tipo do disco que devia vir com o aviso na capa: Altamente inflamável.

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FAIXAS:
  1. "People of the Sun" – 2:30
  2. "Bulls on Parade" – 3:51
  3. "Vietnow" – 4:39
  4. "Revolver" – 5:30
  5. "Snakecharmer" – 3:55
  6. "Tire Me" – 3:00
  7. "Down Rodeo" – 5:20
  8. "Without a Face" – 3:36
  9. "Wind Below" – 5:50
  10. "Roll Right" – 4:22
  11. "Year of tha Boomerang" – 3:59
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Ouça:
RATM Evil Empire



Cly Reis

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Rio Antigo (?)


















fotos: Cly Reis

cotidianas #178 - Nota social


O poeta chega na estação.
O poeta desembarca.
O poeta toma um auto.
O poeta vai para o hotel.
E enquanto ele faz isso
como qualquer homem da terra,
uma ovação o persegue
feito vaia.
Bandeirolas
abrem alas.
Bandas de música. Foguetes.
Discursos. Povo de chapéu de palha.
Máquinas fotográficas assestadas.
Automóveis imóveis.
Bravos...
O poeta está melancólico.

Numa árvore do passeio público
(melhoramento da atual administração)
árvore gorda, prisioneira
de anúncios coloridos,
árvore banal, árvore que ninguém vê
canta uma cigarra.
Canta uma cigarra que ninguém ouve
um hino que ninguém aplaude.
Canta, no sol danado.

O poeta entra no elevador
o poeta sobe
o poeta fecha-se no quarto.
O poeta está melancólico.

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"Nota Social"
Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

"Fahrenheit 451", HQ de Tim Hamilton, baseada na obra de Ray Bradbury - Globo Graphics (2012)



Acabei de ler há pouco a HQ "Fahrenheit 451", baseada no livro homônimo de Ray Bradbury e fiquei bastante bem impressionado. A adaptação do norte-americano Tim Hamilton é sombria, é forte, é inquietante, em grande parte, sim, pelo conteúdo original, de um futuro onde os livros são proibidos e queimados pelas autoridades, mas muito pela maneira como vê, como interpreta cada frase, cada cena descrita pelo escritor original. A obra em graphic novel é muito mais fiel que a adaptação cinematográfica de François Truffaut, muito mais poética e com mais ênfase direta nos livros especificamente, culminando naquele belíssimo final de biblioteca viva. A versão do desenhista, avalizada e prefaciada com láureas pelo próprio Ray Bradbury recém falecido no último mês de junho, centra-se mais no cerceamento da liberdade, nos aspectos sociológicos e no empobrecimento cultural humano, trazendo-nos um Montag perturbado e confuso, e principalmente por conta de seus quadrinhos escuros, indefinidos e diáfanos, compondo um quadro geral final que soa um tanto mais pessimista.
Vale conferir!
Mais uma grande obra da literatura adaptada com brilho e competência para os quadrinhos. Que continue assim!





Cly Reis

terça-feira, 11 de setembro de 2012

"Macanudismo - Quadrinhos, Desenhos e Pinturas" por Liniers - Caixa Cultural - Rio de Janeiro



Esse é, na verdade, mais um Fui e Vi do que um "Val e Veja" uma vez que a exposição em questão encerrou-se anteontem, 09 de setembro, mas fica apenas o registro da visita ao evento que incluía debates, oficinas, mostras e o lançamento no Brasil do livro "Macanudo #5" do cartunista argentino Liniers, particularmente um dos meus preferidos da nova geração (se formos considerar Angeli, Laerte, Vasquez, Quino, como uma 'velha-guarda'), no Centro Caixa Cultural, aqui no Rio de Janeiro.
Não participei das outras possibilidades da programação, como as mesas-redondas, ateliês e tal. Apenas passei meio na pressa, meio de passagem mas com tempo o suficiente para dar um boa conferida e uma apreciada na obra deste excelente artista.
Essa não adianta nem correr mais pra ir porque já foi.
Abaixo algumas imagens da exposição:





por Cly Reis

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Brasa Adormecida







foto de lajota cerâmica quebrada sobre brasa de carvão

fotos: Moacir Júnior

cotidianas #177 - Difícil de Explicar


As mulheres resolveram se reunir para comemorar o aniversário de formatura.
Conheciam-se havia, sei lá, 15, 16 anos e nunca tinham marcado nada juntas sem os maridos.
Marcaram uma reuniãozinha na casa de uma delas só pra fofocar, botar a conversa em dia e tomar umas que outras. Os maridos podiam, por que elas não, ora?
Poder, podiam. O problema é que passaram um pouquinho da conta e ficaram um pouco 'altas demais'.
Lá pelas tantas da madrugada, uma delas, completamente bêbada, mal se aguentando em pé, resolveu que era hora de ir embora. Pegou o carro e pôs-se a dirigir a caminho de sua casa, Deus sabe lá como. Só que no meio do caminho, coisas de bêbado, deu aquela irresistível vontade de mijar. Não tinha como segurar. Um muro? Um pátio? Uma moita? Avistou então um cemitério. Ah, ia ser ali mesmo! Parou o carro próximo ao portão e ignorando até mesmo o sinistro do lugar, sem opção melhor e completamente sem noção pela bebedeira, decidiu fazer ali mesmo, dentro do cemitério. 
Desceu do carro, foi-se cambalenado, tropeçando, caindo, esfolando os joelhos, até que não aguentando dar mais um passo subiu na tampa de uma sepultura qualquer, tirou a calcinha e se aliviou ali mesmo.
Ahhhh!!!
Acabando, e não encontrando nada com o que se limpar, pegou a primeira coisa que lhe estava ao alcance, uma fita de uma coroa de flores que estava em cima de um túmulo e a usou como papel higiênico. Levantou, esquecendo-se até mesmo da calcinha, e saiu meio cambaleante andando entre os túmulos até chegar ao carro. Depois disso nem sequer lembrava de como chegara em casa.  
No dia seguinte acordou com uma tremenda ressaca. Não lembrava de praticamente nada da noite anterior. Só recordava de ter saído da casa da amiga e depois, puff! Tudo sumia da sua memória.
Encontrou o marido na cozinha, tomando café e ao lhe dar bom dia, o viu transtornado com os olhos cheios d'água:
- Está tudo acabado entre nós. Tudo - disse o marido.
- Como assim? Mas... por que? Só por que eu saí com as minhas amigas uma única vez? Uma vezinha só! Você sai com seus amigos toda as semanas... - tentou argumentar a esposa.
- Amigas, é??? - retorquiu indignado - Amigas? Então como é que você me explica ter chagado em casa bêbada, de madrugada, com os joelhos todos lascados, sem calcinha e com uma fita presa na bunda com a inscrição: "Jamais te esqueceremos: Vagner, Moisés, Elias e toda a turma da faculdade." ?
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É... Dífícil de explicar.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Capital Inicial - "Capital Inicial" (1986)




"Porque pobre quando nasce com instinto assassino
Sabe o que vai ser quando crescer desde menino
Ladrão pra roubar, marginal pra matar
'Papai eu quero ser policial quando eu crescer' "
da letra de "Veraneio Vascaína


Um dos ilustres representantes do rock de Brasília e um dos tentáculos do Aborto Elétrico, embrião que também originou a Legião Urbana, o Capital Inicial em seu excelente disco de estreia fazia um pop altamente acessível e palatável sem, no entanto abrir mão da veia punk que o originara. Mesmo hits como “Música Urbana”, por trás de uma competente produção que lhe enfeitava com metais e com uma linha de teclado simpática e marcante, traziam a sombra do caos cotidiano e da indignação social característica do punk rock. “Fátima”, o outro grande sucesso do álbum, também um pop, porém um tanto mais grave, mais tensa, mais séria, com suas sugestões religiosas, filosóficas e pitadas de alfinetadas contra a ditadura numa letra de Renato Russo, interpretada com notável competência e intensidade por Dinho Ouro-Preto. Já “Psicopata”, outra de boa execução radiofônica, era um punk comportamental agressivo e sem concessões. Básico, rápido, violento e forte. Uma pedrada! Pedrada? Bomba mesmo era “Veraneio Vascaína”, punk até a alma sob todos os aspectos, em sonoridade, letra e atitude, responsável direta pela proibição peremptória e incondicional do álbum, numa letra pra lá de detonante na qual rotulam a polícia de “assassinos armados uniformizados”.
“Cavalheiros” é outra com características punk, pegada e acusativa;  a acelerada “No Cinema”, embora tratando de um tema banal guarda sua dose de agressividade sonora; e  a boa “Leve Despespero” pende mais para o lado do darkismo dos anos 80, mais cadenciada e com uma letra intimista e depressiva, mas nem tudo é ‘ferro-e-ferro’ e o álbum tem momentos mais leves como “Tudo Mal” e “Linhas Cruzadas”, que apesar de retratarem relações infelizes, dão um toque um pouco mais descontraído sonoramente.
É bom que se diga e não se esconda a verdade que as melhores letras deste primeiro disco do Capital, "Múasica Urbana", "Fátima" e "Veraneio Vascaína" eram de autoria de Renato Russo, frutos ainda do finado Aborto Elétrico, mas não é fato suficiente que deslustre o mérito desta competente banda que soube dar personalidade a estas canções, imprimindo sua marca e conferindo-lhes interpretações marcantes através de seu vocalista.
Outro dos ilustres representantes do rock de Brasília e dos grandes pilares do BRock dos anos 80. Que metade de década foi aquela que nos proporcionou entre 85 e 86 álbuns como "Cabeça Dinossauro", "Dois", "Vivendo e Não Aprendendo", "Revoluções por Minuto", "Nós Vamos Invadir Sua Praia" e este “Capital Inicial” de 1986!
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FAIXAS:
  1. "Música Urbana" 3:30 (Fê Lemos, Flávio Lemos, André Pretorius, Renato Russo)
  2. "No Cinema" 2:56 (Fê Lemos, Flávio Lemos, Loro Jones)
  3. "Psicopata" 2:49 (Fê Lemos, Flávio Lemos, Pedro Pimenta, Loro Jones)
  4. "Tudo Mal" 3:12 (Fê Lemos, Rogério Lopes de Souza, Loro Jones)
  5. "Sob Controle" 3:31 (Flávio Lemos, Dinho Ouro Preto, Loro Jones)
  6. "Veraneio Vascaína" 2:15 (Renato Russo, Flávio Lemos)
  7. "Gritos" 3:27 (Fê Lemos, Dinho Ouro Preto, Loro Jones, Guta)
  8. "Leve Desespero" 3:53 (Fê Lemos, Flávio Lemos, Dinho Ouro Preto, Loro Jones)
  9. "Linhas Cruzadas" 3:36 (Fê Lemos, Flávio Lemos, Dinho Ouro Preto, Loro Jones)
  10. "Cavalheiros" 3:25 (Fê Lemos, Flávio Lemos, Dinho Ouro Preto)
  11. "Fátima" 3:49 (Renato Russo, Flávio Lemos)

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Ouça:

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

cotidianas #176 - Pano Torcido



 Sentado no banquinho branco, preto de tão engraxado que ninguém lembrava mais que um dia foi branco, ele fixava o olhar no nada do horizonte. Carros passavam barulhentos na avenida movimentada e de calçada estreita, amplificando o ronco dos motores dentro da oficina. Canos de descarga despejavam sua fumaça, intoxicando o ambiente. Porém, nem percebia. Nada o distraía, afinal, já estava suficientemente distraído e entorpecido torcendo aquele pano sobre o balde de metal. As gotas sujas que escorriam escureciam mais e mais a água, adensando-a. E ele seguia torcendo. Torcia, torcia repetidas vezes e numa sincronia exata, de tempos quase simétricos de tão regularmente espaçados. Cada mão fazia um movimento para um lado. Três vezes, em espaços de cinco segundos cada movimento. Até que estendia com a ponta dos dedos o tecido e o sacudia para extrair mais algum conteúdo que tivesse. Mas não pingava mais nada há bastante tempo, pois o pano, de tantas vezes torcido, já estava seco, ainda mais com a quentura que suas mãos. Mãos que aquela noite iriam, enfim, agir. Estava decidido: era chegada a hora de acabar com aquela pouca-vergonha com as próprias mães. Planejara tudo. Daquela noite não passava.
"Trama Sangrada" -
Rodrigues, Daniel
Chegou em casa pelas seis e quarenta e cinco da tarde, como regularmente chegava todos os dias. Entrou pelo portão frontal e passou pela primeira casa em direção à sua, nos fundos. No estreito corredor lateral, nem percebeu o cumprimento de dona Eulália, a vizinha idosa, boa gente e muito carente, que logo, logo ia se recolher. Ela, sem atenção dos parentes, o esperava naquela hora todos os dias para dar um simples “boa noite”. Mas aquele dia não era “todos os dias” para ele: era um dia diferente. Era o dia em que, finalmente, acabaria com aquela agonia.
A porta de madeira envelhecida e de pintura gasta estava entreaberta como sempre. Empurrou-a com a palma e entrou. A mulher, como de costume àquela hora, estava na pia, lavando louça. Ela não tirou os olhos da água, mas obviamente percebeu a chegada do marido, já tão corriqueira e banal que não merecia o esforço de um “oi”. Mas ele, ao invés de entrar e ir direto em direção da térmica na mesinha para servir seu cafezinho tradicional, parou logo depois da porta a olhar para a mulher. De pé, com o macacão sujo de graxa, mas com as mãos limpíssimas e fedidas de querosene. Largou cuidadosamente a maleta de ferramentas ao lado da pia e continuou ali parado, fitando-a com um olhar curioso mas ao mesmo tempo desamparado e doentio. Não deu muito tempo e ela, notando-lhe a falta de reação, parou a lavagem impaciente:
- Qué qui foi, hôme?! – rosnou-lhe. – Vai ficá aí parado feito jerivá? Não me diz que tu já tá com aqueles piri-paque de novo?
- Qui piri-paque qui nada, mulhé! Joga essa boca pra lá! – desviando o até então fixo olhar.
- Olha, Jair, eu já te falei qui se tu não cuidá dessa pressão eu também não te cuido. Vai morrê tendo um tréco na minha frente sozinho qui eu não vô nem te acudí!
- Não é pressão, Nilza. Pára de falá berstêra!
- Hum... se eu não te conheço – falou desconfiada, mirando-o com a testa franzida e voltando-se de novo para a louça.
Calaram-se novamente. Ouvia-se apenas o latido insistente do Bóbi vindo do pátio, que não parava desde que ele chegou. Os latidos o incomodavam, mas, por outro lado, ele estava comemorando no seu íntimo pela reação da mulher. Não pela grosseria, com a qual já estava acostumado, afinal quem iria dar valor para um homem fraco, doente, sem instrução e que “mal consegue botar arroz e feijão dentro de casa”? Ninguém, nem mesmo ele. Tinha consciência de que era um fracassado (afinal, não era assim que seu pai lhe chamou a vida toda enquanto esteve vivo: “fracassado”?). A comemoração era, sim, por ela ter creditado que o seu comportamento diferente se devia à saúde. Que bom, pois isso a despistava. A não-desconfiança da mulher (sempre muito atenta a todos os movimentos dele, como se sempre antevisse o que ele ia fazer ou dizer), assim, era menos um obstáculo para o que tinha em mente. Maria Cristina não voltaria, porque tinha ido dormir numa amiga. Só faltava agora dona Eulália se recolher, o que fazia todos os dias pontualmente às sete da noite, bem cedo, coisa de velha. Mas ainda faltavam alguns minutos, e aquela postura estática era porque ele estava uma pilha de nervos. Soava frio debaixo do macacão, meio inebriado, tão nervoso que seus movimentos pareciam congelados, pois ainda permanecia de pé no mesmo lugar de quando chegou. Como um jerivá plantado ali há séculos.
Ainda atida aos pratos, ela observou-o de canto, mais com a sobrancelha do que com o olho, e soltou:
- Teu irmão Oswaldir que teve aqui mais cedo...
Silêncio dos dois. Dela, de expectativa pelo o que ele iria falar, e dele, de total incômodo com o fato. Tanto desacomodou que o fez sair daquela inércia e, finalmente, dar passos em direção à mesa da cozinha. Bóbi, lá fora, seguia latindo. Parou de novo ali, em pé. Virou a cabeça e observou pela basculante acima da pia a casa da frente: dona Eulália já tinha fechado a janela. A luz ainda estava acesa, mas já havia fechado a janela. Bom sinal; sinal de que em minutos poderia entrar em ação e acabar com aquela humilhação, com aquela sem-vergonhice de uma vez por todas. Meu Deus, pensava, era muito rebaixamento para um homem. Se ainda fosse com um outro... mas... o próprio irmão! E dentro da sua casa! Que descaramento! O que dona Leni (“que-Deus-a-tenha”), ia pensar daquilo? Seria muita tristeza para uma mãe, pensava, ainda mais para ela, que teve a vida tão sofrida.
Ele entendia o porquê das risadinhas e piadas maliciosas dos colegas e até de clientes na oficina. Claro que entendia! Mas fazia-se de tonto, o que, porém, não diminuía sua dor. Não conseguia nem pensar nos dois na cama se tocando, se alisando, se beijando, babando um no outro... Dava-lhe náusea, e a pressão, que andava cada dia pior, subia nas alturas. Mas naquele dia ele controlou a pressão com o remédio e segurou a ansiedade o dia todo, concentrado, como um assassino frio e calculista. Agora, no entanto, seu estado nervoso lhe traía. Suava feito um porco testa abaixo, costela abaixo.
- Esse cachorro não pára de latí... – disse ele baixinho num tom assutado, como se tivesse sido descoberto pelo cão.
- É esse cusco duz’inferno! – praguejou ela. – Um dia ainda jogo esse bicho no mato.
Mexeu no bigode e não respondeu nada para não dar prosseguimento no assunto, num medo idiota de que a mulher fosse traduzir o latido em palavras.
- Vai ficá com esse macacão gosmento a noite toda, hein? E não vai tomá o teu café? Recém passei.
Depois de uma pausa, retomou:
– Teu irmão trouxe umas coisa da feira, umas fruta, uns verde. Tudo coisa boa, de qualidade.
- Já te disse que não gosto que ele fique trazendo coisa aqui pra casa. Já te falei, não te falei? Ele não tem nada que ficá trazendo coisa aqui pra casa. Essa não é a casa dele! Tu não é mulher dele, ora essa!... Se ele não se arranja c’as mulhé por aí, problema dele. Não sei purquê tu continua aceitando essas coisa?
- Mas e eu vô negá coisa boa? Quem ouve falá até parece que tem condições de trazê coisa boa pra casa! Rá! Um inútil que trabalha, trabalha e mal consegue botá arroz e fejão dentro de casa! Teu irmão, não. Ele sim sabe o que é bom, sabe agradá as pessoa. Sabe agradá uma mulhé... – disse essa última frase num tom mais baixo, mas suficiente para que o marido ouvisse. – Ah! E os istudo da tua filha, nem preciso te dizê, né?, qui sô eu que pago com as custura e com a pensão da mãe. Se fosse dependê de um molerão como tu, rá!, a gente tava era muito rúim, isso sim.
Ele ouvia tudo quieto, mas cuspindo ódio pelos olhos. Pensava consigo que ela iria engolir todo aquele desacato e desonra que o fazia passar. Cada palavra, cada insulto. Ela e o cafajeste do seu irmão iriam ver. Era isso todo dia! Já tinha passado dos limites. Voltou-lhe à mente, no entanto, a imagem dos dois juntos. Imaginou-os agora suados deitados no chão da cozinha, em frente ao fogão, nus, engordurados. Podia ter sido ali naquela tarde, debaixo de onde estava pisando agora... que eles... que eles... Não! Não conseguia nem dizer pra si mesmo. Não podia mais aguentar! Aflito, verificou se dona Eulália já tinha se recolhido. Sim: janela fechada e luz apagada. Passavam alguns minutos das sete, então ela já caíra no sono. A filha, igualmente, não voltaria naquela noite, pois ele teve o cuidado de ligar-lhe mais cedo quando, emocionado, quase deixou escapar um ”adeus”.
A caixa de ferramentas permanecia ao lado da pia, pois estava tudo ali, no lugar certo, como planejou. Arquitetara tudo: primeiro, quando a mulher estivesse de costas, dava-lhe uma pancada forte com o alicate de pressão, pesado o suficiente. Em seguida, enchia-lhe a boca com buchas de estopa para não ouvirem os gritos. Depois usaria os dedos para esgoelá-la e amolecê-la. Por último, cravava no seu olho a chave de fenda mais comprida que tinha. Sabia que ia espirrar muito sangue e que ela iria se debater até desvanecer, sabia disso. Mas tinha visto num filme que, quando se perfura o globo ocular com profundidade em direção ao osso occipital, se atinge o cérebro, e, aí: adeus. Por isso mesmo não tirava o macacão, já ensopado de tanto suor. Aliás, esses pensamentos faziam suas mãos tremerem. Seu corpo todo se tomava ao mesmo tempo de cólera e medo. Chegara, enfim, a hora. Mas, de repente, a mulher se vira pra ele:
- Qué isso, Jair?! Derramou todo o café na mesa que eu acabei de limpá! Imporcalhô tudo! Tu só sabe fazê porcaria, hein? É tão abestalhado que não sabe nem serví mais o teu próprio café?!
Absorto, ele nem notara que a canequinha de metal já se enchera daquele café escuro feito breu.
- Limpa essa imundícia com esse pano de prato. Faz alguma coisa útil – ralhou, entregando-lhe um esfregão úmido.
Ele segurou firme naquele pano com as duas mãos, amarrotando-o, fazendo saltar ainda mais as veias azuladas e já sobressalentes de seus braços pálidos, magros e morrudos. De repente, sua bochecha esquerda começou a tremer involuntariamente. Seu ser inteiro era um misto de inquietação, vergonha, medo e horror. Chegava a enjoar. Não sabia o que sentir. Mesmo jamais tendo sido um homem violento, teria que ter coragem para isso. Vinha matutando há meses: não podia falhar agora. Não podia mais bancar o fraco, como a mulher, a sogra e até os outros lhe diziam. Precisava provar o contrário, mostrar do que o “fraco” era capaz. Provar que era um homem. Mas não conseguia controlar os nervos. Mal articulava um pensamento lógico. Várias imagens, vários sons se misturavam em sua cabeça: o Bóbi latindo, dona Eulália cumprimentando, a mulher e o irmão trepando, o som do pingo da água preta no balde. Uma confusão total. Mas, enfim, tinha que se controlar, pois aquela era a hora: era tudo ou nada. Então, decidido, chamou-a firme e com rispidez:
- Nilza!
Imediatamente ela se voltou e o mirou de cima a baixo com espanto e descrédito, o mesmíssimo olhar desabonador que dedicava ao Bóbi quando pedia comida.
- Qui é, hôme?!... Vâmo: fala!
Ele hesitou, hesitou e disse:
- Ééé... Não. Não é nada, Nilza. Não é nada.
- Iiiih, tu tá é muito isquisito hoje, isso sim. Toma o teu café que eu logo te sirvo a janta e depois tu vai é te deitá. Amanhã é ôtro dia, si Deus quisé.
Sem retrucar, ele baixou a cabeça, esfregou a mão melada de café açucarado no pano de prato e sentou-se infantilmente e quase sem forças à mesinha. Deu um gole do café, que lhe desceu tão amargo que nem parecia já conter açúcar.


segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Exposição "Dalí - A Divina Comédia" - Centro Caixa Cultural - Rio de Janeiro





Visitei no último final de semana, antes que acabasse, a exposição “Dalí – a Divina Comédia” com obras temáticas do artista surrealista ilustrando a obra imortal de Dante Alighieri.
Salvador Dalí, 
mestre do surrealismo
Num conjunto de 100 pinturas, o artista catalão, retratou, na sua visão bem peculiar, cada uma das etapas de “A Divina Comédia”, o “Inferno”, o “Purgatório” e o “Paraíso”, em aquarelas com bicos de pena e xilogravuras no seu traço característico distorcendo a percepção lógica de realidade. E quer obra mais sugestiva que esta para este fim com todos os seus demônios, almas, fogo, o sagrado, o profano, paisagens improváveis e sofrimento?
Combinação perfeita: Dalí / Dante!
Quem quiser conferir tem que correr, assim como eu fiz, pois esta é a última semana.



Confira aí algumas imagens da exposição:






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Exposição “Dali – A Divina Comédia”
No Centro Cultural Caixa
Av. Almirante Barroso, 25, Centro, Rio de Janeiro
até 02 de setembro de 2012
Entrada Franca






por Cly Reis