- Hoje eu vou comer um cu!
Abismados com o descaramento, indignados com a indelicadeza, estupefatos, enfim, todos se viram e olham para trás. Então ele emenda:
-Eu disse UM!!
Com um navio, num cruzeiro marítimo, sobre a água (ou seja, sem chão) o cara consegue conter o mundo inteiro e destruir fronteiras; e nisso, utilizando-se das mais diversas formas e recursos, constrói um manifesto artístico que abrange dinheiro, política, religião, etnias, ideologias. Depois, com uma família, com quatro pessoas numa propriedade semi-rural, disseca a história política da França, sua política desde suas origens até os dias de hoje unindo (ou desunindo) quatro gerações de cidadãos franceses e suas ideias. Só que em meio a tudo isso , entre um "capítulo" e outro, entre uma "viagem" e outra, deixa perguntas no ar: no que se transformou sua França?, no que se tranformou a Europa?, no que nos transformamos?
Ainda tenho algumas dívidas de Woody Allen para comigo mesmo e uma delas era "Zelig", filme que sempre quis ver mas nunca loquei, perdia quando passava no Cult e assim por diante. Esta semana tive a oportunidade de assistir e só confirmou tudo o que eu esperava dele. Pode não ser tão espetacular quanto "Manhattan", meu preferido do diretor, mas é daqueles geniais, na mesma proporção por exemplo de "Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo mas tinha medo de perguntar". Só um gênio como Allen pra fazer um filme daquele e daquele jeito.![]() |
| Zelig Gordo, Zelig Negro, Zelig Escocês. |
Estava no auge do seu Creedence, na fila do banco quando na sua frente apareceu aquele filme mudo. Aquela mulher mexendo a boca ao som de ""Have You Ever Seen the Rain". Pronto; de novo tinha que tirar o fone de ouvido pra responder alguma coisa. Era sempre assim. Podia ter milhares de pessoas numa fila, num ônibus, no metrô, em qualquer lugar; tinham que perguntar alguma coisa exatamente para ele que estava sempre ouvindo música. Por acaso tinha cara de bem informado? E como é que é cara de bem informado? Mas os fones deviam, na sua opinião deixar subentendido, no mínimo, que não escutaria ou mal escutaria se falassem com ele, e para um melhor entendedor, devia ficar claro que não queria conversa. Mas não, o cara da frente não estava de fones, a mulher atrás dele também não, mas, era 'lógico',tinham que perguntar logo para ele.