A família estranhou a demora do casal em sair do quarto pela manhã.
Está certo que havia sido a noite de núpcias, que podiam estar querendo se estender nos prazeres de primeira noite, mas aquilo ali já era demais. Já passava de duas da tarde e nada de saírem do quarto. Tinham viagem de lua-de-mel ainda naquela tarde, tinham perdido toda a noção? A mãe da moça resolveu então, embora constrangida, bater na porta do quarto:
- Ademir, Maria Alice, vocês não vão almoçar? Já são duas da tarde. Vocês não viajam hoje mais tarde? Então, ta na hora dos pombinhos acordarem – pronunciou esta última frase simulando um tom malicioso e descontraído.
Mas nada de resposta. Nenhum sinal de movimento lá dentro. Dona Dalva começo a ficar preocupada:
- Maria Alice, Maria Alice, tu ta passando bem? Ademir, aconteceu alguma coisa?
E nada de resposta.
Bateu um repentino desespero na mãe da recém-casada. Pressentindo alguma coisa ruim começou a chamar todo mundo da casa:
- Betinho, Josué, acode aqui, aconteceu alguma coisa. Eles não respondem, não se mexem, não falam nada...
Logo apareceram os dois, um surgido de cada canto da casa, e, assustados também, trataram de repetir a ação de Dona Dalva de bater na porta, só que agora com mais força, veemência e preocupação. Não tendo resposta, Seu Betinho, o pai da noiva e Josué, o irmão, não precisaram trocar uma palavra, entenderam-se pelo olhar e puseram-se os dois a trombar na porta. Bastaram duas batidas com os ombros para que a porta se abrisse e se deparassem então aquele quadro aterrorizante: Ademir, ainda de fraque, estava sentado na beira da cama com a cabeça pendida entre as mãos completamente impassível e Maria Alice jazia deitada ao lado da cama com a cabeça totalmente ensanguentada, rasgada, aberta.
O quarto foi tomado por pânico, gritos histéricos, choro, tudo ao mesmo tempo. A mãe, Dona Dalva, estava inconsolável, o irmão tentava acalmá-la, o pai chorava estático ainda ao pé da porta que acabara de arrombar. Não entendia porque aquele rapaz que sempre lhe parecera tão amoroso, carinhoso, atencioso com a filha faria uma barbaridade daquelas. Sempre lhe pareceram tão felizes, tão feitos um pro outro . Ele sempre prometia a ela fazer tudo o que ela quisesse, tudo o que ela pedisse.
Num esforço maior que sua capacidade, num esforço incomum, Seu Betinho conseguiu aproximar-se da cama onde parou à frente do imóvel Ademir:
- Por que? Por que, meu filho?
Ademir levantou a cabeça e só então mostrou seus olhos inchados e vermelhos, e mirando o velho como que pedindo perdão, respondeu:
- Eu sempre disse que nunca ia negar nada pra ela. Ela foi tão suplicante...
- O que você fez? O que você fez? – inquiriu o velho, agora com veemência e desespero.
- Ela disse “me mata com aquela coisa de mijar, me mata”, daí eu peguei aquilo e bati, bati, bati na cabeça dela. – e apontava para um velho urinol de ferro, branco aloucado que repousava solitário, com a borda ainda suja de sangue, no canto do quarto. Aquela havia sido a arma do crime.
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segunda-feira, 4 de julho de 2011
domingo, 3 de julho de 2011
The Doors - "The Doors" (1967)
"Jim [Morrison] era um xamã."
Ray Manzarek
Em 3 de julho de 1971 morria em Paris, Jim Morrison. Hoje faz 40 anos da morte deste que foi o líder de uma das mais importantes e influentes bandas de rock de todos os tempos. Infelizmente, Morrison faz parte daquele talentoso ‘time’ dos que foram embora cedo demais, junto com Janis, Hendrix , Kurt e outros; mas que, diga-se de passagem, fizeram por onde ter passagens tão breves por este mundo. Morrison era antes de mais nada um poeta, um poeta alucinado, um homem com gritos de liberdade e inconformismo presos na garganta, e que tendo a oportunidade, convidado por um colega de curso de cinema, o talentosíssimo tecladista Ray Manzarek, transformou seus versos ácidos em música e complementados por Robby Krieger e John Densmore, compunham os The Doors. Mas este simples poeta e jovem rebelde revelava-se mais que isso quando as coisas começaram a andar de verdade: era um cantor com recursos, um letrista provocativo, um símbolo sexual, um líder com presença de palco e um dos frontman mais marcantes e emblemáticos que o mundo do rock já viu.
O disco de estreia dos The Doors, “The Doors” de 1971, é simplesmente um dos maiores debuts em álbum de uma banda. Abre com a fantástica “Break on Through” com sua levada meio rumba e seu embalo sensual; traz a ótima e hipnótica “Soul Kitchen”; a versão muito peculiar e cheia de personalidade de “Alabama Song”; uma interpretação notável de Morrison em “The Chrstal Ship”; o grande sucesso, a sensual “Light My Fire” com o show à parte dos teclados de Manzarek (que a porpósito, é o toque do meu celular); e fechando o álbum a polêmica, impactante, sexy, chocante, genial e quilométrica “The End”, uma sinfonia de melancolia, dor, morte e incesto.
Típico caso de banda fundamental, na verdadeira acepção da palavra. Com uma obra bastante pequena, uma carreira curta, deixaram álbuns extremamente significativos, conseguiram mexer com o sistema (TV, moda, costumes, comportamento), mudar conceitos, influenciar mais de meio mundo e futuras gerações de bandas. “The Doors”, 1971: ÁLBUM FUNDAMENTAL!
FAIXAS:
"Break on Through (To the Other Side)" – 2:29
"Soul Kitchen" – 3:35
"The Crystal Ship" – 2:34
"Twentieth Century Fox" – 2:33
"Alabama Song (Whisky Bar)" (Bertolt Brecht, Kurt Weill) – 3:20
"Light My Fire" – 7:06
"Back Door Man" (Willie Dixon) – 3:34
"I Looked at You" – 2:22
"End of the Night" – 2:52
"Take It As It Comes" – 2:23
"The End" – 11:41
*todas as faixas, Densmore, Krieger, Manzareck, Morrison,
exceto as indicadas
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Ouça:
The Doors 1967
Cly Reis
terça-feira, 28 de junho de 2011
segunda-feira, 27 de junho de 2011
Television - "Marquee Moon" (1977)
"Eles são uma banda em um milhão;
as canções são algumas das maiores já feitas.
O álbum é 'Marquee Moon'".
Nick Kent,
do New Musical Express,
em 1977
do New Musical Express,
em 1977
“Que música é essa?”, eu me perguntava quando ouvia aquela coisa maravilhosa no rádio. Aquele riff introdutório com uma guitarra minimalista, repetida e hipnótica, seguida de uma segunda guitarra, em outro riff mínimo e igualmente repetido, que se entrecruzava e confundia-se com a primeira; e então as duas permitiam a entrada de um baixo que se por um lado dialogava com ambas, também ocupava seus espaços vazios; até a entrada uma bateria marcada, sem excessos nem arroubos que constituía enfim o corpo básico daquela canção espetacular. Mas era só o início: ela ia-se enrobustecendo, mudando, variando, trocando bases, invertendo solos, cada um mais lindo e impressionante que o outro com verdadeiros duelos de guitarras, e a bateria agora tinha arrebatamentos entusiásticos, e o contrabaixo irrompia em ímpetos emocionantes, até alcançar, depois de mais de 10 minutos, uma espécie de um ápice sonoro, um êxtase, uma redenção musical. Ouvia com muita freqüência no programa da radialista Kátia Suman, na Rádio Ipanema de Porto Alegre, ficava impressionado com aquilo, mas por algum azar nunca conseguia descobrir o nome da música – já tinha sido anunciada no início do bloco; naquele dia a programação da rádio estava no ‘automático’; ou mesmo, simplesmente, não fora anunciada - mas uma hora seria inevitável descobrir, como acabou acontecendo: aquela obra de arte chamava-se “Marquee Moon” e quem a tocava era uma banda chamada Television. A música fazia parte do disco igualmente entitulado “Marquee Moon” , de 1977, que tratei logo de ter, num primeiro momento em cassete, mas hoje tenho devidamente em CD, que traz alguns extras inclusive.
O Television, vim a saber mais adiante ainda, fora um dos precursores do punk, e ainda que a canção que tinha me encantado fosse enorme, toda trabalhada, com partes, entrepartes, solos longos e virtuosismo técnico, ela verdadeiramente já anunciava com seu minimalismo, seu ritmo, sua produção, que trazia no rastro novos tempos e uma nova sonoridade.
“See no Evil” uma das grandes do disco, é uma prova mais concreta disso com sua base minimalista, mas com uma pegada mais consistente, mais pesada e repetitiva; “Friction” vai numa linha parecida, com aquela pinta de punk porém transbordando de técnica por todos os lados; “Vênus” é quase uma sinfonia; “Elevation”, marcante pelo refrão, é o que se poderia chamar de uma música ‘limpa’ trabalhada minuciosamente em todos os detalhes, onde tudo aparece com impressionante clareza e transparência; “Guiding Light” é uma balada levinha e deliciosa; “Prove It” também é mais solta e tem uma levada gostosa de baixo; Torn Curtain” que fecha o disco é arrastada mas não cansativa, é mais melancólica que as demais mas sua condução lenta só faz com que se possa perceber com mais limpidez as virtudes musicais e a técnica dos instrumentistas.
Um dos discos mais importantes da história do rock por ter ao mesmo tempo introduzido o punk e de certa forma negar seus princípios básicos, como os de músicas curtas, composições burras e músicos que não soubessem tocar. Mas se não bastasse sua importância, influência, sua inovação, só pela canção que dá nome ao disco já valeria. Uma das coisas mais incríveis que já ouvi. Um dos meus discos prediletos.
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FAIXAS:
1. "See No Evil" 3:53
2. "Venus" 3:51
3. "Friction" 4:44
4. "Marquee Moon" 10:40
5. "Elevation" 5:07
6. "Guiding Light" (Lloyd, Verlaine) 5:35
7. "Prove It" 5:02
8. "Torn Curtain" 6:56
bônus da reedição em CD
9. "Little Johnny Jewel (Parts 1 e 2)" 7:09
10. "See No Evil (versão alternativa)" 4:40
11. "Friction (versão alternativa)" 4:52
12. "Marquee Moon (versão alternativa)" 10:54
13. Untitled (instrumental)
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Ouça:
sexta-feira, 24 de junho de 2011
Rachmaninoff – Concertos OSPA – Salão de Atos da UFRGS – Porto Alegre - RS
Esta semana estive no 9º Concerto Oficial da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (OSPA) ouvindo um programa em homenagem a Sergei Rachmaninoff. Não estava lotado, mas havia bastante gente no espaçoso Salão de Atos da UFRGS, mostrando que, mesmo sendo uma programação paga, há público para este tipo de atração em Porto Alegre. Feliz constatação.![]() |
| Sergei Rachmaninoff (1873 - 1943) |
Executado com competência, o Concerto nº 2 é marcado pela dramaticidade e pela força orquestral, tanto que, na primeira parte, o piano é quase coadjuvante. Sua poesia pianística vai ganhando corpo a partir da segunda parte, a mais conhecida do grande público. Numa intensidade crescente, bem ao estilo romântico, o tema é executado de modo sublime pelos sopros, seguido do solo de piano e da interpretação das cordas. E o movimento final, que exige técnica e virtuosismo do pianista, fecha com uma alta carga sentimental. Já a Sinfonia nº 2, considerada a sua melhor junto com a nº 3 é, em alguns momentos, “melada” de tão sentimental, mas a sua composição robusta e cheia de belos momentos, como o engenhoso segundo movimento (Allegro molto) e o final, em alta vibração (Allegro vivace), valem qualquer deslize.
![]() |
| Obras de Rachmaninoff executadas sob a competente regência do maestro Roberto Tibiriçá |
Ambas as peças apresentadas pela OSPA são exemplo da obra deste maestro e pianista russo, conhecido como o último grande compositor do Período Romântico da linhagem de Mussorgsky, Delyansky e Tchaikovsky (de quem foi aluno). Além da estrutura melódica e composicional romântica, sua música também remete a Chopin e Liszt, outras duas fortes influências. Nascido em família de tradição musical, Rachmaninoff é tido como um dos pianistas mais influentes do Século XX, dotado de uma técnica marcada pela precisão, clareza e velocidade. Seus trejeitos técnicos e rítmicos são lendários, e suas mãos largas eram capazes de cobrir um intervalo muito maior no teclado (um palmo esticado de cerca de 30 centímetros), alcançando quatro teclas a mais do que a maioria dos pianistas. Mas é o seu discernimento entre virtuosismo e estrutura rítmica que o fizeram um concertista equilibrado como instrumentista e compositor tão influente.
por Daniel Rodrigues
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