(O inverno está chegando O inverno apressa Apressa O inverno é tão longo O inverno se move)
A última noite na rua Maudlin Adeus casa, adeus escadas Eu nasci aqui fui criado aqui e ... levei umas pauladas aqui
Amor à primeira vista Pode parecer banal Mas é verdade, você sabe Eu poderia listar os detalhes de tudo o que você já vestiu ou disse, ou como se encontrava naquele dia E como passávamos a última noite na rua Maudlin, eu diria "adeus casa - para sempre!" Eu nunca consegui uma hora feliz por aqui
Onde o garoto mais feio do mundo Se transformou no que você vê Aqui estou eu – o mais feio dos homens
É a última noite na rua Maudlin E eu te amo de verdade Ah, eu te amo de verdade
Quando eu durmo com aquela sua foto emoldurada ao lado da cama Oh, é infantil e é idiota, Mas eu acho que é você no meu quarto ao lado da cama (eu te disse que era idiota...) E eu sei que tomei pílulas estranhas Mas eu nunca quis te machucar Ah, eu te amo de verdade Voltei tarde para casa uma noite Todo mundo tinha ido dormir Ninguém fica te esperando Quando se tem dezesseis pontos envolta da cabeça
O último ônibus, eu perdi para a rua Maudlin Então, ele me levou para casa na caminhonete Queixando-se: "as mulheres só gostam de mim pela minha inteligência..." Não deixe sua lanterna lá atrás Há cortes de energia à frente Enquanto nos arrastávamos através do parque Mas não, eu não posso roubar um par de jeans de um varal para você Mas você... sem roupas ah, eu não poderia deixar de admirar Eu - sem roupas? bom, uma nação se vira e segura o riso... Estou com as malas prontas
Estou me mudando metade de uma vida desaparece hoje Toda a escória se despede de mim (secretamente me desejando longe) Bom, logo vou estar longe...
Houve tempos difíceis na rua Maudlin Quando eles te levaram num carro de polícia Caro inspetor - você não sabe? Você não se importa? Você não sabe - sobre o Amor?
Sua avó morreu e sua mãe morreu na rua Maudlin Sofrendo e envergonhadas sem nunca ter tido tempo para dizer Aquelas coisas especiais Eu peguei as chaves da rua Maudlin Bom, são apenas tijolos e argamassa E... eu te amo de verdade Onde quer que você esteja Onde quer que você esteja...
Tô com pena da jiboia! E não é dessas penas de curió Não! É pena pena mesmo, de dó Afinal, olha só:
Primeiro, inventaram essa regra de que jiboia não tem mais assento E agora: quando ela se esgana e bota pra comer a boia Onde a tadinha, gorda como uma bola, vai se sentar? Na hora de tudo aquilo processar, fica ela lá Com a boia boiando lá dentro dela, como uma boia E jiboiar, agora Só deitada ou de pé Sentada, nem se ela quiser
De qualquer forma, vou lhe contar uma coisa: mas que desconfortável é essa norma!
E pior: como se não bastasse esse episódio chato Andam caçoando também do seu formato Já tinham lhe roubado o assento Até aí, vá lá! Mas, agora, veio essa joia de lhe apelidar - só de “boia”...
Daí, não deu outra: De cobra, dentuça e peçonhenta Deram pra lhe taxar de mulher do boi Dessas paradonas e virada em teta
Que desprestígio! Que calúnia com a jiboia!
Ela ficou, claro, mais jururu do que já era E como não? Também pudera!
Há quem socorra, com pena, e lhe chame só de “boa” (Que o Aurélio diz estar “na boa”) Mas agora, com essa má-fama de vaca toura... Tipo aquela que mastiga e mastiga capim Ah, não tem jeito: é o seu fim!
Assim, sem assento, deitada de pança pra cima e, de tanto comer, quase morta Só podia dar em chacota
Não tem mais jeito Agora o estrago tá feito: a cobra foi pro brejo! Só lhe restou, coitada!, ter pejo.
Pelo bem da espécie: deixem a jiboia se assentar, ora bolas! Ou alguém, senhor ou senhora, têm outra ideia que leve assento?
A L.A.P.D. [Departamento de Polícia de Los Angeles]
A cada policial que já tenha tirado
vantagem de algum deles,
batido ou ferido
por terem cabelos compridos,
por ouvirem o tipo errado de música,
ou por terem a cor errada,
ainda que achassem que fosse motivo para fazê-lo,
Para cada um desses policiais de merda,
Eu gostaria de ter um destes porcos aqui neste estacionamento,
e dar um tiro na porra da cara dele." "Out of Parking Lot", introduçao de "Cop Killer"
Motivado em parte pelo incidente ocorrido com o taxista negro Rodney King*, espancado brutalmente por policiais em março de 1991, que acabaram originando os conflitos generalizados em Los Angeles em abril de '92 em virtude da absolvição dos envolvidos, o rapper Ice-T abandonava momentaneamente seu segmento habitual para se dedicar a um projeto musical envolvendo suas outras predileções como o metal, o punk-rock, o hardcore e outros gêneros mais viscerais. O resultado dessa aventura de um rapper/ator é um dos discos mais pesados, agressivos, violentos e destruidores que o rock já viu. Em "Body Count", disco de estreia que leva o mesmo nome de sua banda, Ice-T mira direto na discriminação racial, no abuso policial, nas drogas, na pobreza e sai varrendo tudo a tiros como se fosse uma poderosa metralhadora.
Ice-T é forte, é incisivo é agressivo a cada frase, a cada verso, e quando fala de preconceito racial, ao contrário de grupos como o Public Enemy que só olhava para a discriminação contra o negro, curiosamente trata de chamar a atenção para o racismo inverso também, como na sinistra "Momma's Gotta Die Tonight" na qual uma mãe se opõe a uma relação do filho negro com uma branca e tem um fim assustador.
Sinistra também é a sombria "Voodoo" sobre uma velha feiticeira de New Orleans; bem como a pervertida "Evil Dick" com sua letra sobre um 'pau demoníaco' que se apodera do seu dono, num metal cadenciado com um trecho mais rápido de bataria no qual Ice-T acompanha no vocal simulando uma trepada enlolouquecida. Já "The Winner Loses", a mais leve (sonoramente) do disco trata sobre a tristeza de jovens se perdendo nas drogas, num metal melódico muito bem construído e com uma performance show de bola do ótimo guitarrista de Ernie C.
Mas no geral, a pancadaria predomina e o tema do racismo quase sempre está presente: "KKK Bitch" por exemplo, como se não bastasse sua porradaria sonora que come solta, despertou a ira dos lares americanos, sobremaneira de brancos conservadores e direitistas enrustidos por sua letra extremamente agressiva, explícita e pesada ( "... conheci essa garota branca com um belo rabo, cabelo louro, olhos azuis, seios e coxas grandes (...) Ela fez selvagem comigo no banheiro nos camarins, chupou meu pau como a porra de um vácuo e disse: "Eu te amo, mas meu pai não curte, ele é um filha-da-puta de um graúdo da KKK"). "There Goes the Neighborhood" com seu riff poderoso é outra que aborda o tema de diferenças raciais questionando o por quê de um negro não poder ter uma banda de rock, numa esposta irônica às críticas ao fato dele, Ice-T, oriundo do rap, estar atacando em outro segmento; a aceleradíssima a violenta "Bowels of the Devil" não trata diretamente sobre o assunto mas relata a vida de um negro na penitenciária; e "Body Count Anthem", esta por sua vez quase sem letra (só repete as palavras Body Count e as iniciais BC), é outra pedrada sonora com as guitarras altas e estridentes soando como se fossem um alarme.
Praticamente todas as faixas são entremeadas por pequenas vinhetas que assim como as músicas, igualmente não poupam nada nem ninguém de agressividade e contundência. Numa destas pequenas faixas Ice-T dá estatísticas da comparação do número de negros na prisão com os que estão na faculdade; noutra delas ridiculariza a apresentadora de TV Oprah Winfrey; noutra coloca que o verdadeiro problema das letras de música pop, segundo ele, seria o medo de que as garotas brancas se apaixonem por rapazes negros; ou ainda como na faixa de abertura simula um diálogo entre um homem que pede ajuda a um policial e acaba levando chumbo, introduzindo então para a excelente e pesadíssima "Body Count's in the House" com seus ruídos de sirenes, tiros e perseguições de automóveis.
Mas o ápice do ódio anti-policial de Ice-T aparece mesmo em "Cop Killer", um petardo matador no qual o artista encarna na letra um matador justiceiro especialista em aniquilar homens da lei. A canção é um hardcore rápido com vocal furioso e rajadas de metralhadora substituindo os rolos de bateria a cada entrada do impiedoso refrão, "Cop killer, better you than me /Cop killer, fuck police brutality! /Cop killer, I know your family's grievin' ... fuck 'em! /Cop killer, but tonight we get even" ("Matador de tiras, antes você que eu/ Matador de tiras, foda-se a brutalidade policial! /Matador de tiras, eu sei que do luto da tua família... foda-se eles! /Matador de tiras, esta noite vamos acertar as contas").
A canção caiu como uma bomba nos Estados Unidos e provocou gritaria de todo lado. A polêmica foi tanta que a música que fazia parte da primeira versão do disco, acabou sendo retirada das prensagens posteriores do álbum por opção do próprio Ice-T mesmo apoiado pela gravadora para mantê-la se assim quisesse. O resultado de tanta celeuma foi que a música abou virando uma espécie de canção cult que todo mundo conhece, poucos tem em versão original e muitos procuram baixar para de alguma forma ter o tal objeto de tamanha ira na sociedade americana.
Nas edições seguintes do álbum, inclusive na brasileira, que já veio sem "Cop Killer", a banda substituiu a faixa proibida por outra também bem interessante chamada "Freedom of Speech" um rap com sampler de "Foxy Lady" de Jimmi Hendrix e participação especialíssima de Jello Biafra dos Dead Kennedy's.
"Body Count" é um dos discos mais porrada que eu conheço. Uma bomab da primeira à última. disco de tirar o fôlego. É porrada em sonoridade, porrada em letra, porrada em atitude, em contundência, em objetivo e em resultado. Um verdadeiro soco no estômago da família americana, um chute no saco dos racistas, um cuspe no meio da cara das autoridades e uma poderosa e barulhenta saraivada de balas na polícia de Los Angeles. Um os grandes discos dos anos 90 e por certo, pelo 'estrago' que fez, pela barulheira que causou, e mesmo pelas próprias qualidades musicais principalmente, um daqueles álbuns que podem ser considerados fundamentais na história do rock.
*************************
Confrontos de Los Angeles em maio de 1992
FAIXAS:
"Smoked Pork" — 0:46 (Ice-T)
"Body Count's in the House" — 3:24 (Ice-T/Ernie C)
"Now Sports" — 0:04 (Ice-T)
"Body Count" — 5:17 (Ice-T/Ernie C)
"A Statistic" — 0:06 (Ice-T)
"Bowels of the Devil" — 3:43 (Ice-T/Ernie C)
"The Real Problem" — 0:11 (Ice-T)
"KKK Bitch" — 2:52 (Ice-T/Ernie C)
"C Note" — 1:35 (Ernie C)
"Voodoo" — 5:00 (Ice-T/Ernie C)
"The Winner Loses" — 6:32 (Ernie C)
"There Goes the Neighborhood" — 5:50 (Ice-T/Ernie C)
"Oprah" — 0:06 (Ice-T)
"Evil Dick" — 3:58 (Ice-T/Ernie C)
"Body Count Anthem" — 2:46 (Ice-T/Ernie C)
"Momma's Gotta Die Tonight" — 6:10 (Ice-T/Ernie C)
"Out in the Parking Lot" — 0:30 (Ice-T)
"Cop Killer" - 4:09 (Ice-T, Ernie C)
* "Freedom of Speech" - 4:41 (Ice-T , Biafra, Hendrix) - faixa que susbstituiu "Cop Killler" a partir da segunda tiragem
*Rodney King é um taxista negro que foi violentamente espancado pela polícia de Los Angeles que o havia detido sob a acusação de dirigir em alta velocidade na noite de 3 de março de 1991. O julgamento e absolvição dos agentes policiais envolvidos provocou os violentos tumultos de Los Angeles de 1992. A cena do espancamento, registrada em vídeo por uma testemunha, correu o mundo e causou indignação geral. A absolvição dos policiais, em 29 de abril de 1992, por um juri formado por dez brancos, um negro e um asiático, provocou uma das maiores ondas de violência da história da Califórnia. Foram três dias de confrontos, incêndios, saques, depredações e uma onda de crimes que causaram 58 mortes, deixaram mais de 2800 feridos, destruíram 3.100 estabelecimentos comerciais e causaram prejuízos estimados em mais de 1 bilhão de dólares. Mais tarde, após os distúrbios, em 17 de abril de 1993 por volta das 7 horas da manhã, num novo julgamento, foi tomada a decisão de condenação de dois agentes dos distúrbios de Los Angeles, e a absolvição de outros dois.