segunda-feira, 14 de maio de 2012
quarta-feira, 9 de maio de 2012
cotidianas #158 - Lua Cheia Nova
Lua lua
Inteira na esfera
Enevoa mas clareia
A noite escura
Lua lua
Astro-irmã do meio
Mancha o preto com a luz
que não é sua
sexta-feira, 4 de maio de 2012
The Cure- "Pornography" (1982)
"As críticas foram muito divididas,
não ia muita gente aos shows,
mas eu sentia que finalmente
havíamos feito um grande disco."
não ia muita gente aos shows,
mas eu sentia que finalmente
havíamos feito um grande disco."
Robert Smith
Durante muito tempo este foi o disco da minha vida. Hoje em dia tenho que admitir que não é mais "O" disco da minha vida, conheci muitos outros, descobri coisas interessantíssimas de alta qualidade, alto valor técnico, histórico, referencial, etc., mas posso afirmar tranquilamente que ainda é "UM DOS" grandes álbuns da minha discoteca. Naquela época, metade dos anos 80 quando descobri o The Cure, auge da minha fase darkzinha, se tinha um disco traduzia precisamente todo aquele clima e atmosfera era certamente o "Pornography" do The Cure. Um disco denso, pesado, de letras mórbidas, sofridas, sombrias e negativas, muito centralizado nos trabalhos de bateria e com arranjos de guitarra marcantes e bem desenhados. A pessimista "One Hundred Years" ("It doesn't matter if we all die") que abre o disco exemplifica bem isso: uma programação de bateria contínua muito bem desenvolvida com uma guitarra estridente e angustiante como que solando o tempo todo e teclados preenchendo os espaços sufocantemente. "One Hundred Yeras" parece sangrar.
Com uma batida tribal lenta e cansada, a bizarra, surreal e inquietante "Siamese Twins" traz outro trabalho de guitarra notável de Robert Smith em uma interpretação dolorida e agonizante.
'The Figurehead", outra das grandes do álbum tem por sua vez destaque para o baixo de Simon Gallup, numa condução firme, com uma melodia dura, acompanhando uma batida de tons militares de Tolhurst, numa canção que aborda o tema das drogas, tão presente no grupo naquele momento, e os efeitos de estar preso a elas ("I will never be clean again").
"Strange Day", talvez a mais leve do disco também traz outra performance legal de Gallup no baixo, com uma base que lembra muito a de "Charlotte Sometimes"; "A Short Term Effect" vem com uma 'confusão' de guitarras zunindo, dando rastantes, cortando o ar, quase sufocadas pelo som da beteria que parece querer estourar; a gélida "Cold" depois de iniciar com um violoncelo aterrador, explodir numa batida alta e poderosa, se transforma numa suplicante e sombria canção de amor ("Your name like ice into my heart"); e "Hanging Garden", o single do álbum, mostra o perfeito conjunto na proposta do projeto, desde a programação de bateria em rolos contínuos de Tolhurst, ao baixo seguro e preciso de Gallup, e na guitarra aguda e perturbadora de Robert Smith, completada por sua interpretação amedrontadora.
O Cure que sempre deu bons desfechos para seus discos, neste não fez diferente e, se não trata-se de uma grande canção, esta que é o título do álbum, "Pornography", sem dúvida alguma, no mínimo faz com que fiquemos com as sensações de inquietude e angústia vivas mesmo depois que a música barulhenta e claustrofóbica, cheia de ruídos e de diálogos de filmes incompletos e indecifráveis, é interrompida quase que abrupatamente terminando a audição. De deixar sem fôlego.
Certamente até hoje, um dos grandes discos da minha vida.
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- One Hundred Years
- A Short Term Effect
- The Hanging Garden
- Siamese Twins
- The Figurehead
- A Strange Day
- Cold
- Pornography
Ouça:
The Cure Pornography
Cly Reis
quinta-feira, 3 de maio de 2012
Aniversário de 30 anos do Club de Jazz Take Five - Porto Alegre - RS (18/04/2012)
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| Dona Ivone Pacheco solo ao piano |
Deve haver algum mistério divinal guardado
no nome Ivone que faz com que algumas delas, Ivones, sejam iluminadas. Só pode!
Pois se não bastasse dona Ivone Lara, a sambista bachiana da MPB, eis que tenho
a honra de conhecer e ver tocando a também dona Ivone, esta de sobrenome
Pacheco, intitulada como a Diva do Jazz de Porto Alegre. As semelhanças entre
as duas não se encerram aí: longevas (ambas ultrapassam as 80 primaveras), ainda
são mestres na música e, acima de tudo, verdadeiras entidades, pessoas que ao
se olhar se percebe que excedem este plano aqui, de nós mortais. Há uma
espiritualidade que as eleva e que, justamente, conseguem transpor em arte.
Foi um pouco disso que vi durante o
encontro do Club de Jazz Take Five no último dia 18 de abril, data em que o
clube completou 30 anos. Promovido por d. Ivone, o Take Five teve início quando ela se
juntou ao músico Marcos Ungareti (que, claro, estava lá na comemoração). Na
época, as performances musicais de d. Ivone se restringiam às festas da família. Só depois de criar os filhos,
cursar a faculdade de música e lecionar, Lady Ivone teve a ideia de fazer as jams
sessions no porão de sua casa. Foi então que tudo começou.
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Grupo tocando Hancock, um dos
pontos altos da noite
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"Summertime"
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O pessoal do
rockabilly
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D. Ivone e Ramiro Kersting tocando
"As Time Goes By"
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Amante de jazz como sou, confesso que não
sabia da existência de um grupo tão antigo na minha própria cidade e em plena
atividade e, principalmente, do quão secreto é o evento. Entre as regras que regem
o clube, como o caráter não-comercial e o fato de todos levarem sua própria
bebida, o endereço é mantido em sigilo: só vai quem sabe ou se conhece alguém
que já foi – situação na qual me enquadro. Um critério seletivo que todos respeitam e que só faz valorizar o
clube, além de lhe dar ainda um charme especial.
Foi um momento de se respirar jazz, de se
inalar a “música da alma”. De se sentir música. Saí de lá com uma certeza: na
próxima encarnação, quererei vir Ivone.
Dona Ivone ao piano - comemoração dos 30 anos do Take Five
Dona Ivone ao piano - comemoração dos 30 anos do Take Five
Um pouco mais sobre o Take Five
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Take Five: casa que completa
30 anos
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| Sexto Take: Eu, totalmente intergrado na atmosfera do clube |
texto: Daniel Rodrigues
fotos: Leocádia Costa
quarta-feira, 2 de maio de 2012
"Cópia Fiel", de Abbas Kiarostami (2010)
Será que só eu não gostei do “Cópia
Fiel” do iraniano Abbas Kiarostami?
Não, não é querer ser do contra, estar na contramão das
opiniões, ser polêmico, mas volta e meio me deparo com umas ‘unanimidades’ que,
assim, ó... vou te falar: acho que o pessoal aplaude por decreto. Porque é do fulaninho, porque é cult, porque é referência.
Descasquei aqui no blog a porcaria do Tarantino, "À Prova de Morte"
, fiz montes assim para o
elogiadissimo "A Rede Social", bati de frente com os defensores do
badaladíssimo "O Cisne Negro", isso só para falar de alguns, sendo que, em
especial no caso destes três, Tarantino e Fincher são dos meus diretores
preferidos dos últimos tempos. Ou seja, não trata-se de implicância, de
preconceito, ignorância (acho que não). Só não tem babação para diretores que, temos que admitir, por mais valorosos e
competentes que sejam também erram a mão.E não é que sou obrigado a avacalhar outro dos meus
favoritos? Mesmo sendo diretor de algumas das melhores obras dos últimos 20
anos como “Gosto de Cereja” e “Vida e Nada Mais”, não posso me furtar a
criticar o último filme de Abbas Kiarostami, que só tive a oportunidade de assistir
agora, ‘Cópia Fiel”, sua primeira produção fora de seu país de origem. E olha que fui com grande expectativa.
Lamento, Abbas, lamento. Sei que isso não fará nenhuma
diferença na sua vida, ainda mais considerando que crítica e público continuam
a seu lado incondicionalmente, ao que parece independentemente do que faça, mas
eu não quero ficar indiferente.
“Cópia Fiel” parte de um princípio interessantíssimo
enquanto argumento: de que uma cópia pode ter tanto valor quanto um original.
OK! Esse é o tema do livro do personagem James Miller que começa o filme
defendendo a idéia diante de uma pequena platéia no lançamento do livro
homônimo ao filme numa cidadezinha interiorana na Toscana. O desenvolvimento do
conceito é bem sustentado em princípio pelo personagem do escritor porém mal
conduzido numa discussão extremamente forçada e estereotipada, sobretudo no que
diz respeito à personagem de Juliete Binoche, uma comerciante de antiquário. A
conversa no carro embora notavelmente bem ambientada, com o reflexo da paisagem
no vidro do carro ‘participando’ da ação, por exemplo, parece um esforço do
diretor em nos apresentar dois lados sobre o assunto, porém sem paciência de
que cheguemos às conclusões sobre os dois interlocutores. Por um lado está o
escritor defendendo suas teorias, com simplicidade e sinceridade, é verdade,
mas sendo excessivamente didático às vezes; e por outro uma mulher confusa,
cética, infeliz. O papo tem algumas tiradas boas, perspicazes, engraçadas até,
como a piada da Coca-Cola, mas mostra-se no fim das contas um grande exercício
de apresentação de personalidades ao melhor estilo cinema francês, recheado de
análises filosóficas pretensiosas.
Essa caracterização excessiva não seria o suficiente para
derrubar o filme se não fosse a virada que ele dá a partir do momento em que o
casal passa a encenar uma antiga relação marido e mulher, que em determinado
momento chega a causar dúvida no expectador quanto à sua pré-existência ou não,
mas que, com a devida atenção a alguns fatos anteriores do próprio filme,
percebemos que nunca existiu. Pois é... o tal do faz-de-conta é inverossímil, é
abrupto, é ‘grande’ demais no próprio contexto, ultrapassa o limite da própria
tolerância humana de aceitar se desgastar em nome de um personagem, de defender
um conceito, de abrir a mente, etc., ainda mais diante de um estranho. É certo
que o envolvimento que começa a aparecer entre os dois estimula a farsa. Sim, é
verdade, mas em havendo um interesse mútuo como foi acontecendo, tamanha
exposição pessoal não justificariam as alterações de humor, o exercício de
infelicidade, fraquezas e tantas outras fragilidades.
Devem pensar, “mas o
cara ta pensando na trama de uma maneira muito rígida, muito linear, muito
real“. É porque o universo ao qual somos levados pelo diretor é real. Ele e
não tem nada de surreal, de fantástico, e no entanto, de repente, nos propõe a
tal ponto abandonarmos a plausibilidade do seu filme e entregar-mo-nos à mesma
ficção de seus personagens, fixando-nos apenas à frieza dos fatos, estes sim,
inegavelmente crus e fortes.
Não! Posso estar sendo muito fechado, pragmático, realista
mas não me caiu bem definitivamente o modelo de cinema adotado por Kiarostami
desta vez. Pode ter acertado na locação, nos personagens, na idéia, no tema,
mas na minha visão peca no produto final.
A seu favor, contudo, tenho a sinalizar a integração
ambiente-personagens, sempre precisa, desde um porão de antiquário cheio de cópias
de objetos de arte, passando por uma colunata de ciprestes, por becos
estreitos, e chegando a um quarto de hotel, tudo dialogando de alguma forma com
as naturezas pessoais ou com estados psicológicos correspondentes à cena ou à
situação. Também o tema, sobre os relacionamentos, o casamento, as escolhas,
que salvo o fato de propostos equivocadamente dentro do objeto filme,
mostram-se na maior parte das vezes pertinentes e bem colocados. Não se pode
deixar de elogiar a atuação de Juliette Binoche que com uma ótima interpretação
supera até mesmo a primeira parte do próprio texto que faz questão de lhe
autocarimbar na testa as alcunhas de ‘chata’, ‘estressada’, ‘intolerante’,
‘ciumenta’.
Li por aí que é obra-prima, melhor filme do diretor, melhor
dos últimos tempos... Posso estar errado, nada invalida isso, mas sinceramente
não compartilho dessas opiniões.
Kiarostami parece ter ocidentalizado rápido demais e seu
filme tem muito de cinema francês logo na primeira incursão internacional do
diretor. Chega a lembrar um pouco os Resnais, “Hiroshima, Meu Amor” com suas
discussões e reminiscências e “Ano Passado em Marienbad” com seu desencontro
amoroso de toques surreais, ambos com longas caminhadas acompanhadas de longas
conversas existencialistas. Talvez tenha servido de inspiração. Talvez a
intenção tenha sido mesmo copiar Resnais, copiar o cinema francês, o que só
reforçaria o conceito do livro do personagem Miller e do próprio filme. Se fez
parte da intenção do diretor, a meu juízo, terá sido o principal ponto a favor
do seu filme, ainda que não possa-se usar a máxima defendida por ele neste caso
de que a cópia supera o original.
Cly Reis
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