Na semana em que o The
Cure retorna ao Brasil para shows aqui no Rio e em São Paulo, aproveito
para destacar o filme, registrando um concerto épico da banda na França, num
anfiteatro romano na província de Orange, que por sinal empresta seu nome e cor ao
filme: “The Cure in Orange”.
Dirigido por Tim Pope, amigo dos integrantes e diretor de
diversos clipes da banda, o filme registra um concerto na íntegra transcorrendo
desde o entardecer até o cair da noite, o que associado ao cenário das ruínas
do bem conservado anfiteatro, reforça toda uma atmosfera cenográfica e
apropriada ao visual e proposta do grupo. Com uma forma muito particular de
conduzir o filme, o diretor se vale da identidade visual dos próprios
videoclipes para compor a filmagem do concerto, balançando a câmera, levando-a
quase no rosto dos músicos e trabalhando cores vivas em “Inbetween Days”,
utilizando um discreto slow-motion em “A Night Light This”; imitando raios de
sol entrando entre árvores em “A Forest”; ou perseguindo o cantor em “Close to
Me”.
Robert Smith, de cabelo 'normal'
revelado pelo amigo Gallup
O show tem uma particularidade interessante registrada pelo
diretor logo no início do filme: na entrada da banda para o palco, ao som de
“Relax” do The
Glove como música de entrada, Robert Smith, de cabelo cortado,
provavelmente para não desapontar o público que sempre espera vê-lo com a tradicional
juba desgrenhada e arrepiada, entra no palco com uma peruca imitando a ele
próprio, mas logo é ‘desmascarado’ pelo baixista Simon Gallup que tira o
adereço jogando-o longe. Aí, de cabelo curto mesmo, abrem o showzaço com a
matadora “Shake Dog Shake” que mesmo não sendo lá tão enérgica já abre a roda
de pogo na galera; mas “Play for Today”, sim, de apelo pós-punk mais evidente
incendeia o pessoal da frente do palco e a roda punk come solta. O show,
impecável do início ao fim, traz diversos grandes momentos musicais e visuais,
como as já citadas “Inbetween Days”, “Close to Me” e “A Forest”; "One
Hundred Years" intensa e com uma iluminação sinistra e misteriosa; “Sinking” mais sombria do que nunca; "Faith" em uma execução belíssima e emocionante; e uma
“Give Me It” enlouquecida com uma filmagem totalmente agitada, movimentada e
tremida.
A proximidade do final do show vai revelando um êxtase
crescente por uma apresentação até então enlouquecedora e que a cada música
parecoia reservar um encerramento não menos que grandioso. E é o que acontece
com a sequência que costumava fechar muitos shows da banda naquela época;
depois de “10:15 Saturday Night” que sempre empolga o público, a banda fechava
com a tradicional “Killing na Arab” vibrante, elétrica, agressiva botando
abaixo o resto das ruínas do anfiteatro de Orange.
Um final apoteótico. Extático. Catártico.
Um dos melhores registros em filme de uma banda ao vivo, com
uma performance competente e inspirada, muitíssimo bem filmada e dirigida, num
cenário altamente sugestivo e apropriado.
Como não é todo dia que o Cure passa por aqui, é
recomendável aos fãs terem em casa e assistirem sempre que baterem as saudades. Satisfação garantida.
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O anfiteatro de Orange,
cenário espetacular para um show não menos incrível
FAIXAS:
1. "Relax", do The Glove (introdução) 2. "Shake Dog Shake" 3. "Piggy in the Mirror" 4. "Play for Today" 5. "A Strange Day" 6. "Primary" 7. "Kyoto Song" 8. "Charlotte Sometimes" 9."Inbetween Days" 10."The Walk" 11."A Night Like This" 12."Push" 13."One Hundred Years" 14."A Forest" 15."Sinking" 16."Close to Me" 17."Let's Go to Bed" 18."Six Different Ways" 19."Three Imaginary Boys" 20."Boys Don't Cry" 21."Faith" 22."Give Me It" 23."10.15 Saturday Night" 24."Killing an Arab" 25."Sweet Talking Guy", dos The
Chiffons (música de encerramento)
“ ‘White Light/White Heat’ é tão
escuro como encarte do álbum.”
Jason Thompson
O The Velvet Underground conseguiu um feito que pouquíssimos artistas do
rock alcançaram: tornar praticamente toda sua discografia essencial. Tá certo
que gravaram poucos discos de estúdio, mas em sua absoluta maioria imprescindíveis.
Poderiam entrar tranquilamente nessa lista “The Velvet Underground”, de 1969,
“Loaded”, de 1970, e até o póstumo “V.U.”, de 1984, sem falar, claro, de seu
primeiro e histórico trabalho, The Velvet Undeground and Nico, de 1967, já
constante entre os ÁLBUNS FUNDAMENTAIS deste blog. Depois de uma estreia tão marcante
como a deste “divisor de águas” da música moderna do século XX, o grupo, até
então apadrinhado por Andy Wahrol, que lhes coordenava toda a parte artística –
influindo, inclusive, no conceito e repertório –, tinha à frente duas das mais
geniais cabeças que o rock já conheceu: Lou Reed e John Cale. E quem tem uma
dupla desse calibre não iria ficar muito tempo associado à figura de outro
artista, por mais que a amizade se mantivesse – como, de fato, ocorreu. Foi
assim que Reed e Cale pensaram ao criar o ousado, selvagem e brilhante “White
Light/White Heat”.
Neste disco, gravado ao vivo no estúdio, o Velvet manda às favas as pré-concepções
intelectualódes que vinham sendo atribuídas a eles e fazem um álbum de puro rock
’n’ roll. Eles se despem de toda a aura de sofisticação, da elegância cool da
ex-integrante Nico e do colorido da pop art para gerar uma obra suja e
corrosiva. Algo ruidoso e psicodélico como jamais registrado antes. Nunca se
tinha ouvido tanta distorção de guitarra, tanto ruído. Parece uma demo! E o
mais incrível: conseguem um resultado tão vanguarda e sofisticado quanto, só
que de outra forma. Ao limparem sua estética de todos os floreios, extraíram a
musicalidade mais bruta e seminal possível, atingindo, por esse viés, níveis sonoros que vão do free-jazz
ensandecido de Ornette Coleman à atonalidade de Shöenberg, passando pela multiplicidade
timbrística de Mahler e pelo folk-rock rural de Hank Williams e à aleatoriedade
dissonante de Cage ou à “música mântrica” de Stockhausen.
A começar pela capa: no lugar da “banana artística” de Warhol, um
design mínimo e seco: fundo preto e letras em fonte simples. Só. O que
importava era o “recheio”. E que recheio! Voltando no trabalho anterior, que
termina no mar de ruídos e improvisos de “European Son”, “WL/WH” inicia com
essa pegada em sua faixa-título, um rockabilly fenomenal em que a voz de Reed
faz tabelinha com o coro, e todas as outras faixas seguem nesta linha até o fim.
O som, tosco e tomado de distorções de pedal, parece rasgar a caixa, e uma
visível (e proposital) equalização estourada, formando uma massa sonora densa.
Tudo está sobreposto: baixo, guitarras, bateria, órgão, vozes. E a letra, mais
corrosiva impossível: narra a experiência de um tratamento de choque a que Reed foi
submetido aos 17 anos na tentativa de “curar-lhe” do homossexualismo. Recado dado, vem “The
Gift”, tribal e minimalista, que conta pela primeira vez na obra do Velvet com
a elegante voz de Cale. O galês recita uma extensa história sobre um homem que
queria assassinar seu desafeto escondido dentro de uma caixa de presente, mas ele
é quem acaba morto.
A terceira é uma das melhores músicas da banda: “Lady Godiva’s
Operation”. Ao estilo das clássicas “All Tomorrow’s Parties” e “Venus in Furs”,
traz uma composição soturna e sensorial com influências da música medieval para
contar sobre uma cirurgia de troca de sexo em uma drag queen, que tem o nome da
histórica personagem anglo-saxã
do séculos I e II. Além da instrumentação crua sobre uma melodia rebuscada, a
harmonia envolve o ouvinte de tal forma que parece criar um mantra. Também
cantada por Cale, lá pelas tantas Reed começa a entrar progressivamente, até
formar com o parceiro o mais psicodélico dueto já visto no rock, em que um solta
uma palavra enquanto o outro emite sons guturais e onomatopeias, e vice-versa.
Nada menos que incrível.
A melodiosa “Here
She Comes Now” dá uma pequena aliviada na pauleira, até entrar “I Heard Her
Call My Name”, que retorna à alta voltagem. Altíssima, no caso. Fico imaginando
o choque que foi isso em plenos anos 60, que, mesmo respirando contarcultura e
rebeldia jovem por todos os lados, nunca tinha visto tamanha radicalidade.
Levei os 20 primeiros segundos da música para entender o seu centro tonal, seu
riff. Mas não é só barulho, não. Em meio
a microfonias e urros de guitarra, descobre-se uma bela canção. Impossível não se
lembrar do épico "Psyco Candy", do Jesus and Mary Chain,claramente inspirado nessa fórmula e
conceito.
O disco
termina com a clássica “Sister Ray”, uma performance protocênica de 17 minutos
tal como a banda fizera várias vezes para as projeções audiovisuais de Warhol
ou para trilhas do cinema alternativo norte-americano. A base, simples e muito
punk, é desenhada pelos improvisos de vocal de Reed e sua guitarra junto com a
de Sterling Morrison, além das inteligentes variações de ritmo de Moe Tocker na
bateria e pelo órgão tresloucado de Cale. Segundo o crítico e historiador
musical italiano Piero Scaruffi, “Sister Ray” é “uma peça épica que rivaliza
com as sinfonias de Beethoven e as improvisações metafísicas de John Coltrane”.
“WL/WH” é, assim, o primeiro disco genuinamente punk da história, antes
mesmo do debut de Stooges e MC5, ambos em 1969, e mais ainda de Ramones, Sex Pistolsou The Clash, que nem pensavam em tanger seus primeiros acordes. Não só
pela sonoridade, mas também por introduzir de vez a postura do “faça você
mesmo”, seja na produção deliberadamente desleixada, seja na execução ao vivo no
estúdio sem esconder possíveis erros, seja na secura da arte gráfica. Um disco
que, completando 45 anos de seu lançamento, é um marco em estética e plasticidade.
Punks, new-waves, ingleses dos ‘80, grunges e indies até hoje deitam e rolam nessa
viagem subterrânea do Velvet, pois “WL/WH” é exemplo de que basta iniciativa e
um sentimento genuíno para fazer rock ’n’ roll. E que bom rock ’n’ roll!
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FAIXAS:
1. "White
Light/White Heat" (Reed) - 2:47 2. "The
Gift" (Reed, Morrison, Cale, Tucker) - 8:18 3. "Lady Godiva's
Operation" (Reed) - 4:56 4. "Here She Comes
Now" (Reed, Morrison, Cale) - 2:04 5. "I Heard Her
Call My Name" (Reed) - 4:38 6. "Sister
Ray" (Reed, Morrison, Cale, Tucker) - 17:28 ************************************************
Dentro da baleia mora mestre Jonas, Desde que completou a maior idade, A baleia é sua casa, sua cidade, Dentro dela guarda suas gravatas, seus ternos de linho. E ele diz que se chama Jonas, E ele diz que é um santo homem, E ele diz que mora dentro da baleia por vontade própria, E ele diz que está comprometido, E ele diz que assinou papel, Que vai mantê-lo dentro da baleia, Até o fim da vida, Até o fim da vida. Dentro da baleia a vida é tão mais fácil, Nada incomoda o silêncio e a paz de Jonas. Quando o tempo é mal, a tempestade fica de fora, A baleia é mais segura que um grande navio. E ele diz que se chama Jonas, E ele diz que é um santo homem, E ele diz que mora dentro da baleia por vontade própria, E ele diz que está comprometido, E ele diz que assinou papel, Que vai mantê-lo dentro da baleia, Até o fim da vida, Até o fim da vida, Até subir pro céu.
***************************** letra da música"Mestre Jonas" (Sá, Rodrix e Guarabyra)
e juntamente o esforço de compor alguma coisa ao sabor clássico,
uma página que fosse, uma só, mas tal que pudesse ser encadernada entre Bach e Schumann."
trecho do conto "Um Homem Célebre"
de Machado de Assis
De um modo geral, procuro nunca nutrir expectativas quanto a artistas. O
que ele já fez e eu goste me basta, e o que vier de bom pela frente é lucro. Porém,
a uma exceção me permito: Beck Hansen, autor do espetacular “Odelay”, de 1996.
Sem exagero, Beck ficou ali-ali para parear com gênios da música norte-americana
como Stevie Wonder, Gil Scott-Heron, Bob Dylan ou Tom Waits mas, parecido com o
personagem Pestana do conto “Um Homem Célebre”, de Machado de Assis, nunca superou a si mesmo – e provavelmente não o fará mais talvez por
autobloqueio. Beck despontou na cena alternativa no início dos anos 90 já
prometendo. Veio numa crescente e trouxe ao showbizz o excelente “Mellow Gold”,
de 1994, difícil de superar. Mas ele superou. Para mim o maior disco da música
pop da sua década, “Odelay” é uma obra radicalmente criativa, transgressora e
crítica, um disco caleidoscópico que traz em si todas as referências musicais
possíveis e imagináveis, num caldeirão sonoro de composição, execução e
produção na mais absoluta sintonia.
A coisa toda já começa tirando o fôlego com “Devils Haircuit”, pós-punk
com um riff repetitivo carregado de distorção, um sequenciador eletrônico propositadamente
simplório e muitos, mas muitos samples, colagens, efeitos de mesa, tudo que se
possa imaginar. Impressionante. “Hotwax”, na sequência, começa com uma viola
caipira e muda direto para um inusitado rap-folk. E assim o álbum segue, pois tudo
cabe nesta “desordem organizada” criada por Beck: folk, funk, blues, hardcore,
rap, indie, soul. As faixas são como uma
montanha russa, pois tudo pode mudar a qualquer momento. E muda. Alta riqueza
de texturas, sonoridades, ritmos, notações. Um barroquismo moderno esculpido
por psicodelia e experimentalismo. Assim é “Lord Only Knows”, que inicia com um
grito ensandecido e passa, como se nada tivesse acontecido, a uma balada folk desenhada
pelos lindos canto e voz de Beck.
“Derelict”, densa e percussiva, tem um tom dark com seus elementos
indianos e árabes, lembrando as peças étnico-pop de David Byrne e Brian Eno de "Remain in Light" e "My Life in the Bush of Ghosts".
Já “Novacane”, outra magnífica, é um rock carregado cantado como hip-hop, com
um baixo pesado e bateria marcada, ao estilo do new-rock inglês de Stone Roses e Primal Scream e um riff feito apenas na modulação da distorção da guitarra no
amplificador, uma ideia estupenda. Porém, o que parece num primeiro momento uma
execução de músicos cai por terra quando entra sem aviso um sample que
substitui tudo, voltando, logo em seguida, ao andamento anterior. Ou seja: uma
quebra que serve para mostrar que tudo era apenas um produto artificial. Para causar
ainda mais espanto, a música, em sua parte final avança para uma tensão de ruídos
que se transformam num ritmo de break, como que saído de um Nintendo,
terminando deste jeito: noutra textura e absolutamente diferente de como
começou. É como se Beck pusesse à prova o que é tocado e o que não é, pois em
todo o disco é quase impossível definir isso com exatidão, como se fosse uma
música feita de plástico.
Esse conceito de reciclagem está também em “Jack-Ass”, mas em forma de
tributo, visto que, num lance, Beck homenageia dois mestres da música pop
universal: Van Morrison e Bob Dylan. Do primeiro, ele sampleia a linda base de"It's All Over Now, Baby Blue",
um clássico de Dylan que Morrison versara para o Them em 1966. E o mais
importante: o faz sem parecer preguiça ou falta de criatividade, pois recria
uma nova música – ao estilo Dylan, propositadamente – em cima da melodia de uma
outra recriação, a do Them, num processo semiótico. “Where it’s At”, hit do
disco, é mais uma brilhante. Inicia com o chiado de uma agulha sendo posta
sobre um vinil, que dá lugar a um soul retrô originalíssimo com direito a
scratchs, samples diversos, ruídos, microfonias e um refrão pegajoso.
Pra não deixar que a coisa desvirtue para uma palhaçada pretensamente
“cabeça”, “Minus” vem mostrar que rock bom é rock básico e sem firula. Sonic Youth na veia: seca, às guitarradas, voz furiosa e ritmo punk mantido na linha
do baixo, que rosna. Depois, “Sissyneck”, uma mistura de folk e eletrofunk, assonante
e harmonicamente complexa, mas com um refrão saboroso e totalmente agradável ao
ouvido. Já “Readmade” segue a linha de massa sonora, com muitos efeitos,
texturas e trabalho de estúdio, descendo o tom do disco novamente como foi em
“Derelict”. Sóbria, traz curiosamente em seu sample de destaque uma frase
sonora de “Desafinado”, clássico de Tom e Vinicius na versão de Sérgio Mendes.
Quase terminando o álbum, Beck sai com outra joia: “High 5”. Um break
dance ao estilo Afrika Bambaata em que não faltam scratches, efeitos de voz e,
claro, guitarras pesadas. Referências aparentemente díspares convivem e se
entrosam perfeitamente nesta faixa. Inicia com um violão na batida de
bossa-nova, que, em seguida, dá lugar às vozes de Beck e outros rappers com vozeirão
de negrão do Harlem. Lá pelas tantas, o andamento é interrompido para entrar um
trecho de... “O Lago dos Cisnes”! Como se não bastasse, depois de voltar no que
era e de uma breve incursão daquela mesma melodia com som de videogame barato que
desfecha “Novacane”, Beck adiciona a “High 5” cuícas de samba, encontrando a
tal “batida perfeita” que Marcelo D2 tanto procura mas sem precisar fazer
marketing disso.
Toda essa variedade torna “Odelay” quase uma obra aleatória, uma “obra
aberta”, como definiria Umberto Eco. Aí entra uma das grandes questões que o
disco levanta: ele questiona o papel do músico moderno diante da tecnologia e
das novas formas de interação social através das mídias. É impossível o músico
hoje ter total autenticidade de sua obra, pois esta, mesmo que ele não queira,
será afetada pelos efeitos externos da vida contemporânea. Trata-se de uma nova
autenticidade, a das TVs cuspindo publicidades e Big Brothers, do lixo
eletrônico, do lixo pornográfico, do lixo midiático, do lixo sonoro. É “a nova
poluição”, termo que dá título a uma das mais geniais faixas do disco: um drum
n’ bass, espécie de “Tomorrow Never Knows” pós-moderno, mantido numa base
inteligente de guitarra e colagens sem receio de esconder as “sujeiras”. Ou
seja, é possível escutar os remendos entre um sample e outro de propósito.
Sinal dos novos tempos, em que o músico não pode mais esconder que sua música
se vale de elementos que estão além dele próprio. É a “estética do arrastão”,
como diria Tom Zé.
Fechando o disco, depois de todo esse arsenal de sons e ideias, Beck dá
um novo recado aparentemente contraditório: o de que, se o papel do músico-autor
ficou mais subjetivo hoje, não quer dizer que ele não tenha ainda espaço para
compor “à moda antiga”. É isto que está incutido em “Ramshackle”: acústica, só
nos violões, voz e percussão. Sem sequem qualquer efeito de computador. O que
seria um final “tradicional”, num disco como “Odelay” se torna ainda mais
transgressor.
Isso que Beck trouxe em “Odelay” não é necessariamente uma novidade. Miles Davis já anunciava tal fusão conceitual no final dos anos 60 com "Bitches Brew"
na mesma época, Milton Nascimento e a galera do Clube da Esquina, assim como os
tropicalistas, já experimentavam toda essa musicalidade, só que com aparato
técnico mais deficiente; Prince e David Bowie também já formularam com precisão
essa química. Beck mesmo já mostrara muito disso no seu trabalho anterior, e os Beastie Boys já faziam tal mescla de estilos e referências numa roupagem
moderna desde Paul’s Boutique, de 1989. Mas Beck apresenta tudo isso com uma
maestria diferente, denso, original, além de manter um senso de ironia
constante uma vez que interroga a fundo a sociedade de massas, seu massacre de
informações e imagens, suas ideologias distorcidas, suas ideias que se tornam
abstratas de tão sem sentido. E ele faz isso reciclando tudo que já fora
produzido em música pop até então, gerando um produto pós-moderno incrivelmente
bem acabado.
Depois de “Odelay”, Beck caiu na pior armadilha que um artista pode
cair: a de supervalorizar a sua arte. Passou a fazer trabalhos sempre apontando
para um nível técnico altíssimo, sem, contudo, concentra-se no que interessa: a
alma da obra. Neste sentido, lembra o dilema de Pestana, do conto machadiano, que,
descontente por compor apenas polcas, tentava, mesmo com o sucesso popular
destas, produzir em vão uma obra “respeitável”, a qual, no entanto, não
conferia com seu espírito. É parecido com o que aconteceu com Beck: por causa
de uma ideia genuína bem executada, “Odelay”, ele passou a inverter a lógica, ou
seja, a tornar forçadamente uma boa execução numa ideia genuína. Já deu várias
provas disso, sendo a última em 2012, quando lançou seu novo disco. Só de
partituras (!). Nada consumível ou próximo do público como foram seus triunfos
com “Mellow Gold” e, obviamente, “Odelay”, que, se não tem substituto até hoje,
é porque talvez ele mesmo, Beck Hensen, não se disponha a superá-lo. Pelo menos, é o que se percebe: enquanto Pestana tinha neura em se superar, Beck tem medo do autoenfrentamento.
- Quem diria que um cara desse ia acabar assim, hein.
- Quem - respondeu o outro saindo de um breve momento de destenção.
- Ali atrás. Não reconheceu aquele mendigo? - e notando ainda a ignorância do amigo quanto ao que falava, explicou - É o Restilo, aquele que jogava no Rayst. Porra, muito esse desgraçado acabou com o meu time.
Então finalmente dando-se por desperto, certificou-se:
- O Restilo? Aquele do gol do título em 72?
- Ele mesmo. Tá aí hoje na merda. Esses jogadores de futebol torram tudo em bobagem, em mulher, em festa, depois acabam assim. Que destino...
O amigo, torcedor do Rayst, outrora fã daquele homem agora reduzido a pedaços fedorentos de trapo sujo sentado na calçada ali atrás, ainda teve tempo de mais uma olhada para trás e confirmar aquela situação deprimente. O atacante de classe, do toque fino, da bola colocada indefensável na saída do goleiro estava ali do mesmo jeito que costumava deixar os zagueiros adversários antes do último toque para o gol: no chão.
O horário de almoço já estava quase acabando e tinha que voltar para o escritório, teria uma reunião em seguida e não poderia fazer o que lhe dava vontade que era ir lá e falar com o Restilo. O faria no dia seguinte se o pedinte ainda estivesse lá. Como que adivinhando o pensamento do colega de trabalho, o torcedor adversário completou.
- Tá todo dia aí. Mora aí o 'teu craque' - sentenciou desdenhando.
No dia seguinte foi almoçar no mesmo restaurante, desta vez sozinho, e logo na ida notou que o mendigo ilustre estava lá. Não costumava comer ali mas queria passar na volta e falar com o ídolo caído. Foi o que fez. Comeu, pediu para o garçom que fizesse uma quentinha, pagou, saiu e caminhou pela calçada até chegar ao local onde sabia que encontraria o Restilo.
Chegou, abaixou-se de cócoras, e dirigiu-se àquele homem sujo, de barba grossa e grudenta, bêbado e maltrapilho à sua frente, sentado meio que deitado, recostado à parede:
- Oi, tu é o Restilo, não é? O Restilo do Rayst? Do gol de 72?
- Eu mesmo, meu filho - respondeu com a voz trêmula por causa da bebida, deixando escapar um leve sorriso - Tu me reconheceu, é?
- É, eu sou, ... quero dizer, eu era,... não, não: Eu sou seu fã. Torço pro Rayst.
- Hehe! Bons tempo, bons tempo - riu com gostosa nostalgia o craque.
- Olha só,... tu não tá com fome? Eu trouxe um pouco de comida caso tu queira.
- Não, obrigado, meu filho. Eu já comi. Já comi hoje. Tu não tem uma cachaça aí?
- Não, cachaça eu não tenho.
- Não faz mal, depois eu arranjo uma. Eu já te contei de quando eu dei uma janelinha no Pelé? - aprumou-se de repente, mudando subitamente de assunto - Já contei? Já? Já joguei muito, meu guri. Já tive na Ásia, nas Europa, nas Arábia, em tudo quanto é lugar.
- Pois é, cara, tu um baita jogador como foi acabou assim, jogado na rua - aproveitou o mote da trajetória para satisfazer a curiosidade - Como é que isso foi acontecer?
- Ah, meu filho, tu não sabe das coisa que acontece no futebol. Ih! - fez uma pausa desviando o olhar - Muita sujeira, muita sujeira. Empresário, sabe? Promete mundos e fundo pra gente e depois, neca. Tu não tem uma cachaça aí? - voltando a mudar de assunto repentinamente- Me dá dinheiro pruma cachaça?
O fã, vendo-se sem muita alternativa uma vez que o mendigo rescusara até mesmo a comida que lhe dera, sacou alguns trocados do bolso e entregou para o ex-craque.
- Ah, tá bom... Tá bom - exclamou satisfeito.
- Olha, tu não quer vir comigo? Tem um abrigo logo ali. Eu te levo.
- Não, não - disse, já levantando afoito - vou tomar um trago. Vou tomar meu trago.
E viu aquele homem que outrora desfilava impávido por entre os marcadores atravessar a rua agora trôpego por entre os carros, abusando da sorte que Deus dedica aos bêbados e crianças, até chegar finalmente a um botequim não menos podre que o cliente, no outro lado da rua.
Não havia mais nada a fazer por hora. Voltou ao trabalho e durante a tarde inteira ficou a relembrar os gols e jogadas do mortífero camisa 9 do Rayst.
Retornou à 'morada' do indigente nos dias seguintes, sempre na volta do almoço. Queria de alguma forma ajudar aquele homem. Seria um ato humano, um ato de amor ao próximo. Não. No fundo mesmo, seria uma forma de retribuir por tantas alegrias que aquele homem lhe dera nos campos de futebol. Por aqueles dias conversou, propôs que procurasse familiares, que fossem ao Clube, que tentassem uma partida beneficente, que procurassem os Alcoólicos Anônimos, chegou a pensar em levá-lo para a própria casa mas imaginou que o mais provável não era que desse abrigo ao pobre homem em sua residência, e sim que se juntasse a ele na rua, despejado que seria por sua mulher. Desistiu.
No fim só ia lá mesmo ouvir as histórias: Num dia o drible que dera no Pelé havia sido um chapéu, no outro era uma meia-lua, no outro uma lambreta. Num dia o motivo de estar ali naquela situação eram as mulheres, no outro eram os cassinos, no outro falsos-amigos, no um trabalho de macumba, outro dia por que quis mesmo... Não havia nada que pudesse fazer. Por mais que quisesse ajudar, aquilo estava tão fora de seu alcance quanto a bola que o Restilo, invariavelmente, implacavelmente, tranquilamente, colocava na saída do goleiro e que, antes de percorrer todo seu caminho, todo mundo sabia qual seria o destino.
“Existe coisa pior que morrer aos 27 anos, numa overdose acidental, depois de terminar um trabalho excelente? Sim. Ser a associada a bichos-grilos deslocados de geração, ser vomitada por rádios que fazem do rock música retrógrada para ogros ignóbeis... Virar símbolo das mulheres-que-não-tomam-banho-e-têm-o-sovaco-cabeludo, ser vulgarizada como a baranga hiipie que o Serguei carcou”.
Pedro Só, jornalista
O pior é que eu era desses. Dos que consideravam Janis só mais uma riponga despirocada da cabeça que, até tinha algum talento, sim, mas que abusava um pouco além da conta dos gritos e dos improvisos. Assim, nunca tive maior respeito pelo trabalho dessa moça. Mas minha impressão foi mudando com o tempo. Fui ouvindo uma aqui, outra ali, descobrindo que tal música que eu conhecia era cantada por ela, achando interessantes aquelas evoluções vocais, achando inspirados aqueles improvisos, até que, por fim, ela foi entrando na minha paisagem musical. Minha descoberta definitiva deu-se no entanto, quando um amigo meu, livrando-se de alguns CD's, me deu o "Joplin In Concert" (1972). Como disse, tirando "Mercedes-Benz" que é praticamente a marca registrada da loirinha e que todo mundo já ouviu pelo menos uma vez na vida, todo meu conhecimento de Janis até então era muito superficial, e ouvindo então aquele álbum ao vivo, abriram-se meus olhos definitivamente. Nossa! que cantora, que performance, que álbum ao vivo.
Este póstumo de Janis Joplin na verdade traz momentos distintos ao vivo com bandas diferentes e foi lançado originalmente em vinil duplo, com o acompanhamento de uma banda em cada disco, sendo a primeira parte, com a Big Brother and the Holding Company, banda da qual fez parte na primeira fase da carreira, mostrando uma sonoridade um pouco mais rock, mais pegada; e o disco 2, com a Full Tilt Boogie Band, do seu cultuado álbum "Pearl", puxando um pouco mais para o blues e soul. Mas a distribuição não precisa ser levada tão à risca, uma vez que a parte rock do disco, tem por exemplo, o excelente blues envenenado, "Piece of my Heart", e a "metade blues", por assim dizer, tem um rock soul e psicodélico como "Road Block".
Mas não ficamos só nestas: destaques também para , "Down on Me" que abre o álbum, um rock poderoso com uma pegada country-folk; para "All is Loneliness" que me lembra bastante The Doors; para a interpretação fantástica dela em "Summertime"; para a soul poderosa "Half Moon"; e para a faixa final, de performance incrível da cantora, "Ball and Chain". Sei que para fãs da antiga essas são completamente batidas mas, perdoem-me a empolgação, eu as conheci nesse ao vivo e adorei nessas performances.
Outro daqueles álbuns que se alguém puder ter em LP, por conta dessa diferença dos momentos, das apresentações, dos conceitos, das bandas, das performances, deve-se dar preferência para o formato vinil.
Daquelas artistas que mostram para a gente como é importante saber reconsiderar. Eu tive ouvidos abertos e felizmente descobri Janis Joplin ainda em tempo.Acho que me redimo de todas as injustiças que durante muito tempo dediquei a ela com este ÁLBUNS FUNDAMENTAIS.
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FAIXAS:
Disco 1
lado A
1. "Down on Me"
2. "Bye, Bye Baby
3. "All is Loneliness"
4. "Piece of My Heart"
lado B
1. "Road Block"
2. "Flower in the Sun"
3. "Summertime"
4. "Ego Rock"
Disco2
lado C
1. "Half Moon"
2. "Kozmic Blues"
3. "Move Over"
lado D
1. "Try (Just a Little Bit Harder)"
2. "Get It While You Can"
3. "Ball and Chain"
* No disco 1: "Down on Me" e "Piece of My Heart", foram gravadas em Detroit, no Grande Ballroom, em 2 de março de 1968;
"All is Loneliness" e "Ego Rock", no Fillmore West em San Francisco, em 4 de abril de 1970;
"Road Block", "Flower in the Sun" e "Summertime", gravadas em San Francisco, no Caroussel Ballroom em 23 de junho de 1968;
e "Bye, Bye Baby, também em San Francisco, mas no Winterland, em 12 de abril de 1968.
* No disco 2: todas foram gravadas no Canadian Express Festival, porém "Half Moon" e "Kozmic Blues" foram registradas em Toronto, no dia 28 de junho de 1970; e as demais em Calgary, também no Canadá, em 4 de julho de 1970.
Ói que nóis tava sumido mas, dizque quem é vivo
sempr’aparece, então aparecemo de novo.
Vim aqui pramode contá procêis dum causo que assucedeu-se lá
em Dois Morro
que eu si alembrei por causa dessa coisa toda de Papa.
Foi de uma vêiz que o Padre de Dois Morro arrenunciô.
Foi num domingo, antes da missa na catedrar de Dois Morro, a
Igreja Matriz de Santa Espirgínia do Coração Divino da Boa Esperança, as
família, as beata, os fiér, já tavo tudo lá drento, tudo sentado, quando o
padre da diocese locar, Sua Proeminência Eclesielástica, o Reverendo Dom
Alcebíades Schületta, nunciô, pr’espanto e surpresa de todos que aquela ia sê a úrtima
missa dele. Que ele ia renunçá!
Mas aquilo causô um alvoroiço! Umas beata desmaiaro na
igreja, outros se pusero a chorá, ôtras proveitaro e tiraro a ropa. Mas por que o Santo Padre de Dois
Morro ia abandoná seu fiér? Por que??? Ele expricô que já tava muito véio, que tinha pedra
nos rim, que tinha artrite, artrose, que num podia mais ficá se preocupando com
os pobrema de dinheiro da diocese, que tinha ouvido uns pecado muito cabeludo e
mais um monte de razonice. Mas ninguém aceitava. “Ai, o nosso padinho”, dizio
eles.
Tentaro fazê ele mudá de ideia e chamaro um bando de gente pra tentá intercedê co'ele. Sei que não teve bispo, prefeito, banquêro, fazendêro,
padêro, leitêro que convencesse Dom Alcebíades a mudar de ideia. Ele tava dicidido. Ia
largar o Santo Orifício e, como ele mesmo disse, se recolher num cantinho fora
da cidade.
Assim se deu-se: pela semana se chamô o antigo pároco de
Capim Alto, cidadezinha vizinha de Dois Morro, Dom Diego Armando, pra tomá o
lugar do antigo padre. A missa do domingo foi triste. Todo mundo tava’costumado
com Dom Alcebíades. Demoraro um tempo ainda pra gostá do novo padre mas aos
poco foro se afeiçoando.
Tempos depois fôro descobri que Dom Alcebíade, aquele
sem-vergonho, tinha largado a batina por causa dum cacho que ele tinha.
Era um rapagão alto, loiro, ôio claro, uns 19 ano, com uns
braço largo que parecia umas tora de madêra e uma barriga tão marcada que
parecia uma mureta de tijolo à vista. Dizio que era surfagista, sufista,
srufista... Alguma coisa assim. Vivero feliz por algum tempo té qui o moçoilo
resolveu trocar Dom Arcebide pela Miss Anca-Larga, moça bonita, morena, zóio
castanho, bem constituída... Fugiro pra capitar. Dom Cebíade não conseguiu superá o desgosto e se
afundô na cachaça. Diz que foi achado morto com uma garrafa na mão num quarto
cheio de fotografia de home pelado pelas parede. Que farta de pôca-vergonha!
Tamo aí de volta! Como vocês podem notar, Eu não renunciei e estou firme no
cargo que Me é de direito. Ah, né, tive tanto trabalho pra fazer isso tudo e agora vou
deixar pra outro tomar conta? Não, mesmo!Além do mais, Eu aposentado, ia ficar fazendo o que em casa?
Vendo Liga dos Campeões na TV de tarde? Enchendo o rabo de sono? Ia acabar indo
pro buteco beber, indo pras 'prima' ou jogando dama na praça. Bom mas se Eu não arreguei parece que o Meu ‘representante’
aí na Terra realmente pediu o chapéu e tirou o dele da reta, hein. O Bentinho cansou dessa coisa toda de comedores de
criancinhas, de rombos no banco do Vaticano e picou a mula. Não que eu
considere mesmo esse pessoal de batina meus representantes, a Joana, aquela
Dark, por exemplo, tá aqui toda ‘bronzeadinha’ por causa deles, isso sem falar
nas idéias caretas daquele bando de velhos. Mas não vou negar que é, de certa
forma, sempre bom ter alguém aí embaixo agindo (em tese) em Meu nome. Mas pelo que Eu tô vendo tá um 'auê' enorme pela escolha desse novo
Papa, hein! É imprensa, é galera na Praça de são Pedro, é bolsa de apostas, é
favoritismo e tal. Tá parecendo escolha de técnico da Seleção ou algo do tipo.
Só que ao invés daquele negócio de “Os mais cotados são: Fulano que já treinou
o Santos, o São Paulo, foi campeão disso e daquilo” o lance todo é “Cicrano que
já comandou a diocese tal e fez tal obra assistencial e biriri-bororó...”. Tá
engraçado, tá engraçado! Tô acompanhando atentamente daqui de cima. De minha parte, posso dizer que se for consultado, se
tiver que dar algum palpite, não vou querer que o Papa seja esse brasileiro. Pra cuidar dos nossos interesses já basta Eu.
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Mas a propósito de Meus representantes, Eu soube que tem um
cidadão aí no Brasil, que se diz Pastor, que foi nomeado pra uma comissão de Direitos
Humanos mas que tudo o que não respeita são exatamente os Direitos Humanos. É
isso mesmo??? Esses caras que falam em Meu nome só Me racham a cara de
vergonha! E, vem cá, onde é que ele leu aquilo de negros amaldiçoados,
que Eu tenho algo contra homossexuais? Aquele cara não sabe ler? Tá certo que desde
quando O Livro foi escrito, e Eu nem endosso tudo aquilo que tá lá, até os dias
de hoje, já se distorceu muita coisa, mas mesmo assim tem que ter muita vontade
e tendenciosidade pra interpretar daquela forma. O cara distorceu tudo. O
carinha leu, releu, tresleu e parece que não viu o principal que é o papo
que Eu fiz vocês à Minha imagem e semelhança e que todos vocês são iguais
perante Mim. Ou seja, pra mim não tem essa de bicha, preto, judeu, muçulmano,
flamenguista. Rélou!!! Te liga. Agora, que o babaca ache isso ou aquilo, tá na cabeça dele
e, afinal de contas, Eu dei o Livre Arbítrio a vocês pra isso mesmo, mas me
impressiona os outros babacas colocarem o cara na COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS.
Porra! Eu vou parar o mundo pra Eu descer!
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Mas mudando de assunto: vieram aqui pra cima recentemente o
Chávez (não, não é do Kiko) e o Chorão. No caso do primeiro, o presidente
venezuelano, Eu só estranhei o fato de que não tinha nenhum câncer previsto
pra ele no Meu Livro da Vida. Não fui Eu quem botou aquela doença lá, não,
hein. Não é querer dizer nada mas Eu acho que isso foi coisa daqueles
amiguinhos imperialistas lá de cima... Rmm, rmm... Deixa quieto. No caso do outro, do cantor esse, atendi ao que vocês tanto
reclamavam que eu só fazia subir artistas de expressão, significativos e tal.
Dessa vez, já que eu tinha mesmo que trazer um, escolhi um, assim, bem mais ou
menos, que eu achei que não fosse fazer muita falta, que não fizesse muita
diferença no mundo. Mas não é que foi só o carinha bater as botas pra vocês
idolatrarem ele como se fosse um gênio, um astro, um deus?
Ai, Eu não entendo vocês mesmo. Eu mê dê paciência!
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Soube que a galera aí embaixo tá meio assustada com uns objetos
que andam cruzando os céus ultimamente, né? Podem se acalmar. Não é nada
demais. Não é nada de meteoritos nem vai acabar o mundo. Sou Eu que comecei a
jogar golfe e, às vezes, pela falta de prática, não calculo bem a força da
tacada e a bolinha vai meio longe demais. Hehe...
Me disseram que uma caiu na Rússia e fez um certo estrago. Ih!!! Aí, ó, foi mal. Não vai acontecer de novo.
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Mas mudando da água pro vinho, a Páscoa tá aí.
(porra, o tempo passa!) Aqui em
casa Páscoa é um lance sempre meio desagradável por causa do
que aconteceu com o Jotacê, mas a gente sempre aproveita o feriadão pra viajar e aí muda um pouco o ânimo. Só não rola muito essa parada de chocolate aqui em casa. A patroa diz que não quer mais saber disso, que tá
de dieta, que tá malhando e tal, o filhão já é adulto e não quer saber mais de
ovinhos, aí não tem mais pra quem comprar chocolate. Ah, mas Eu não resisto. Compro
umas caixas de bombom pra Mim e Me empanturro na frente da TV assistindo futebol. Tem coisa melhor?
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Por falar em futebol, olha a Copa aí, gente.
Vão correr com esses estádios, aeroportos, estradas e tudo
mais. Depois não Me peçam pra fazer milagre.
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Por hoje era só, pessoal
Vou lá que Eu tenho um Mundo de coisas pra resolver. Fiquem Comigo e que Eu vos abençoe.
Apostas no novo Papa, cartas pro Chorão, homenagens pro
Chávez, instruções sobre golfe para: