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terça-feira, 31 de agosto de 2010

"A Montanha dos Sete Abutres", de Billy Wilder (1951)







Esse negócio todo que está acontecendo no Chile de mineiros presos em uma mina, perfuração da rocha, longo tempo para o resgate e tudo que envolve a situação, inevitavelmente me traz à cabeça um ótimo filme e boa dica pra quem quiser conferir, chamado "A Montanha dos Sete Abutres", do genial Billy Wilder. Diretor consagrado por comédias como "Quanto mais Quente Melhor" e "Se Meu Apartamento Falasse", de vez em quando atacava no drama e igualmente acertava em cheio como no ótimo e premiadíssimo "Farrapo Humano", por exemplo. A "Montanha dos Sete Abutres" que não foi sucesso de público na época de seu lançamento, mostra o drama de um mineiro preso numa mina tida como amaldiçoada pelos índios, numa cidadezinha no Novo Mexico. Seu  resgate até seria trabalhoso porém simples, mas é dificultado pelo interesse de um jornalista recém chegado ao lugarejo, que vê naquilo a oportunidade para uma  grande matéria, um grande furo e um reimpulso na sua carreira já abalada por seu comportamento antiprofissional. Por meio de acordos, conchavos, subornos e ameaças convence interessados e autoridades a irem atrasando o processo de remoção de modo que o fato vá se tornando cada vez mais comovente para o público e Leo, o mineiro preso, uma espécie de mártir. Porém dentro da mina, sob pedras, Leo, vai sofrendo com as condições adversas, com o pó, a umidade e vê sua saúde prejudicada pela longa permanência lá, mas como mantém contato com Tatum, o jornalista inescrupuloso vivido maravilhosamente por Kirk Douglas, e o julga seu amigo, supõe que todos os esforços estejam sendo feitos para tirá-lo dali o mais rápido possível mas vai vendo o tempo passar esua situação ficar cada vez mais crítica, enquanto lá fora há acampamentos, vigílias e aglomerações em solidariedade a ele.
O jornalista Tatum com o mineiro
Leo preso entre as pedras
Uma aula de direção e um estímulo à reflexão sobre a ética humana e principalmente jornalística.
Imperdível!


FICHA TÉCNICA:
Direção: Billy Wilder
Roteiro: Walter Newman / Lesser Samuels / Billy Wilder
Preto e Branco
Duração: 111
País: USA
ELENCO:
Kirk Douglas: Charles "Chuck" Tatum
Jan Sterling: Lorraine Minosa
Robert Arthur: Herbie Cook
Porter Hall: Jacob Q. Boot
Frank Cady: sr. Federber
Richard Benedict: Leo Minosa
Ray Teal: xerife
Lewis Martin: McCardle
John Berkes: pai Minosa
Frances Dominguez: mãe Minosa


Cly Reis

cotidianas #45 - Favela



Numa vasta extensão
Onde não há plantação
Nem ninguém morando lá
Cada um pobre que passa por ali
Só pensa em construir ser lar
E quando o primeiro começa
Os outros, depressa, procuram marcar
Seu pedacinho de terra pra morar


E assim a região sofre modificação
Fica sendo chamada de nova aquarela
E aí que o lugar então passa a se chamar
Favela.

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Favela
(Padeirinho da Mangueira e Jorginho Pessanha)

Ouça:
Jards Macalé Favela

O Frango Atirador

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

"Johnny Cash - Uma Biografia", de Reinhard Kleist - Ed. 8Inverso (2010)



Comprei ontem a biografia em quadrinhos de Johnny Cash. Obviamente, dada a recência da compra, não li ainda mas já guardo grande expectativa.
Mesmo tendo visto (o chato, óbvio  e previsível) "Johnny & June", e de já estar cansado de saber dos fatos mais significativos da vida do "Homem de Preto", é um grande barato ver agora uma biografia dessas, de um dos maiores nomes da história do rock e country, no formato de HQ.
Lembro ainda quando conheci o som do cara: meu irmão tinha referências sobre Cash de listas de melhores de todos os tempos, discos considerados clássicos, críticas exultantes e tudo mais, mas não havíamos ouvido nada dele ainda. Eu tinha um amigo que curtia muito o som daquela época; tinha tudo de Gene Vincent, Elvis, Jerry Lee e aquele pessoal todo; e foi que pedi a ele que gravasse pra mim, ainda em cassete, o que tivesse do cara. Disse-me que eu tivesse uma base inicial, ia gravar uma coletânea, mas que achava que eu não iria gostar muito porque, segundo ele, era 'muito repetitivo'. Fui então ouvir "Johnny Cash & the Tenesse Two - 55/58 Recordings-  The Sun Years" com aquele temor acerca do REPETITIVO e era simplesmente fantástico! O que ele chamava de repetição era, sim, ua marca forte e inconfundível, como só os grandes artistas conseguem imprimir. Não à toa representa tudo isso na história do rock.
A propósito ainda de Johnny Cash, a circunstância na qual substituí aquela fita cassete gravada pelo meu amigo pelo CD foi bem interessante e agradável: Fui à casa de uma mulher, passamos a noite juntos e 'tudo mais' e pela manhã, dando uma olhada nos CD's dela, vendo se havia alguma coisa interessante ali, topo, surpreendenetemente com Johnny Cash. Tiro da fileira, fico impressionado, exclamo e ela diz que nem curtia muito e que eu podia ficar com o CD pra mim. Uau! Noitada completa: vou pra casa dum mulheraço daquele, transamos a noite toda e ainda ganho de bônus um CD do Johnny Cash. Não podia ser melhor.


"Leite Derramado" de Chico Buarque - Companhia das Letras (2009)



Definitivamente a carreira literária de Chico Buarque está consolidada com êxito e qualidade. Mesmo já tendo sido lançado há quase um ano, somente agora tirei da estante para ler seu último livro, “Leite Derramado”, e este é ainda melhor que o ótimo “Budapeste”. Naquele anterior, Chico ainda tratava de brincar com as palavras, com o tempo, com o espaço, num jogo quase musical, mas neste, constitui verdadeiramente um romance de escritor, deixando um pouco de lado o compositor, sem, contudo, perder sua poesia.
“Leite Derramado” é uma saga de uma tradicional família da aristocracia brasileira contada através das memórias de um velho moribundo, mas de uma maneira muito breve e sucinta ao contrário da maior parte das obras do gênero que se estendem em épocas, personagens e contextualizações. Não que um “O Tempo e o Vento”, por exemplo, seja chato por conta disso, mas dentro da proposta, do ritmo pretendido, das características dos personagens, acaba sendo meritória esta objetividade. O barato é que como tratam-se de lembranças de um ancião, sua trajetória e de sua família vão sendo montadas com uma proposital desordem, conduzidas pela ausência de linearidade das memórias do velho; remontando momentos do Brasil e contextualizando as situações no tempo, sem uma ordem cronológica correta.
Com este recurso, de contar a história em primeira pessoa pela voz de um centenário supostamente semi-senil, Chico ao mesmo tempo que nos dá, nos tira informações. Por conta da memória fraca, do estado físico, da fraqueza, do sono ou dos remédios, o velho Eulálio Assumpção, enquanto relata ora a enfermeiras, ora à filha que o visita, ou a talvez ninguém; acaba ou se repetindo cansativamente, ou omitindo detalhes ou mesmo mentindo em seus longos monólogos. Nisso magicamente, um fato que é contado num capítulo é desmentido em outro como se o velho tentasse enganar a si mesmo ou inventar uma outra realidade; fatos são minimizados mas logo acabam-se revelando extremamente relevantes adiante; idéias são repetidas como se fossem apenas esclerose de velho, mas pela reafirmação mostram-se marcas profundas naquela vida; e personagens vão ganhando força e expressão aos poucos, a ponto de se tornarem quase míticos como a esposa Matilde, um espécie de Capitu-Lucíola-Gabriela, que desde já inscreve-se entre as grandes personagens femininas da literatura brasileira.
Sinceramente, eu ainda tinha minhas reservas quanto ao Chico escritor. Não por não ter gostado do que já tinha feito – muito antes pelo contrário - mas por achar que estava acertando, sim, porém sem se arriscar muito e que seus maiores méritos como romancista vinham muito dos recursos dos quais já se utilizava freqüentemente como letrista. Mas não. Eu estava errado. O processo evolutivo era gradual mas evidente e depois de uma roda-viva como a de “Budapeste”, é num livro sem ação, passado num leito de hospital, num romance sólido e seguro, sem grandes arroubos criativos, mas com uma admirável estrutura, que Chico Buarque se inscreve decididamente, na minha opinião, entre os grandes escritores da literatura brasileira contemporânea.



Cly Reis

domingo, 29 de agosto de 2010

Zeróis - Ziraldo na Tela Grande - CCBB - Rio de Janeiro




Dei um pulo no CCBB hoje à tarde e dei uma olhada nas exposições que estão rolando por lá. Uma da pintora Anita Malfati, outra do pesquisador Langsdorf, mas a que eu curti mesmo foi a do cartunista Ziraldo. Nela, em grandes painéis pintados em acrílico, o artista faz referências de arte, do mundo pop, faz suas habituais ironias e crítica sociais e contextualiza momentos históricos através das figuras dos super-heróis clássicos, utilizando-se de imagens que já estamos acostuamados a ver, mas ali, com outra roupagem. Bacana, principalmente a adaptação da "Maja" de Goya, como Mulher-Maravilha. Uma interessante recriação artística.
Um grande barato. Vale a pena ver.

Alguma semelhança com 'La Maja'?



E aí, Wahol?



  






Heróis americanos (?)




















E aqui, o "nosso herói" compondo o painel.





















Cly Reis

cotidianas #44

Era só o que me faltava. E esse engarrafamento agora? Como se não bastasse ter acordado atrasado porque a droga do despertador parou sem motivo, a pasta de dente acabou eu não tinha visto e não tinha outra em casa, tô tomando café e derramo na camisa, vou trocar a droga da camisa e a outra que eu queria estava manchada e antes de sair de casa ainda descubro aquela escultura de barro que o imbecil do cachorro fez no tapete, e aí perco só mais meia-horinha limpando aquilo. Ah, e a mudança do 402? Chamo, chamo o elevador e ele parado porque o de serviço tá enguiçado e tão usando o social pra levar as coisas do novo vizinho. Putaquepariu! E ainda quando finalmente pego o elvador, resolve todo mundo subir; um em cada andar. E ainda consegui a façanha de deixar a chave do carro e ter que subir de novo.
Quê mais? Fora o fato de encontrar 90% dos sinais fechados na minha frente, de provavelmente ter levado uma multa por excesso de velocidade e ter perdido a reunião que tinha hoje... acho que é so. Que diazinho, hem! Devem estar de sacanagem comigo. Só pode ser.
Enquanto isso, numa sala, no Olimpo, Deus, Zeus, Alá, Oxalá, Júpiter, Odin e Tupã, se divertem decidindo qual a próxima que vão aprontar para aquele cidadão. Alguém então sugere:
- Que tal um pneu furado?

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

The Beatles - "Revolver" (1966)

"Nós, Beatles, somos mais populares que Jesus Cristo neste momento."
John Lennon em 1966



Na eterna “briga” entre Rolling Stones e Beatles, devo admitir que sou um stoniano de carteirinha. Nem ao menos sou tão fã dos garotos de Liverpool quanto a maioria dos músicos, roqueiros, críticos, etc., mas não há como se negar que, se não se trata da melhor, trata-se induscutivelmente da maior banda de rock de todos os tempos e por certo a mais influente da história do gênero. Em qualquer coisa que se ouça de pop e rock depois do seu surgimento, há um dedinho dos caras e isto por certo não é pouca coisa. Um destes discos que pelo seu experimentalismo, tentativa, ousadia, importância e técnica é daqueles que mudaram o rumo das coisas é o ótimo “Revolver”, certamente o meu preferido. Nele temos o rock pegado de “Taxman” que abre o disco, uma das três composições de George Harrisson que desta vez ganha mais espaço colaborando muito com o grau de experimentação e psicodelismo da obra e na minha opinião com a qualidade do mesmo; outra música sua é a viagem hindu “Love You To”, que é bem legal também; temos também a bela “Eleonor Rigby” com seu precioso arranjo de cordas; a clássica “Yellow Submarine” cantada por Ringo e com uma série de recursos de estúdio, ruídos e participações especiais escondidos sob uma atmosfera infantil; e a incrível e audaciosa “Tomorrow Never Knows”, uma viagem psicodélica com uma bateria alucinante e vocais modificados, trabalhada em estúdio em todos os graus possíveis gerando um resultado extremamente inovador e com uma sonoridade ainda hoje atualíssima. Este é o clima do disco. É na minha opinião a obra mais ousada, doida, inovadora e completa dos caras.
Mesmo pra quem, como eu, não é fãzaço, é álbum fundamental.

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Como curiosidade, a propósito de “Tomorrow Never Knows”, ela foi a tal ponto inovadora e atual que serviu de inspiração e base para "Setting Sun" do duo eletrônico Chemical Brothers. A inspiração, e semelhança eram tamanhas que agentes dos Beatles chegaram a alegar plágio, porém a gravadora da dupla inglesa, convocou um especialista que conseguiu provar que a semelhança não chegava a caracterizar a irregularidade.

FAIXAS:
1. "Taxman" (Harrison) 2:39
2. "Eleanor Rigby" 2:07
3. "I'm Only Sleeping" 3:01
4. "Love You To" (Harrison) 3:01
5. "Here, There and Everywhere" 2:25
6. "Yellow Submarine" 2:40
7. "She Said She Said" 2:37
8. "Good Day Sunshine" 2:09
9. "And Your Bird Can Sing" 2:01
10. "For No One" 2:01
11. "Doctor Robert" 2:15
12. "I Want to Tell You" (Harrison) 2:29
13. "Got to Get You into My Life" 2:30
14. "Tomorrow Never Knows"


Download

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terça-feira, 24 de agosto de 2010

cotidianas #43 - A Menina do Bolo de Cenoura


Não dava tempo de almoçar então pegou alguns pedaços do bolo de cenoura que estava na geladeira, botou num pote qualquer e levou, pelo menos, para não morrer de fome no trabalho. A mãe fizera no dia anterior, na tarde de domingo, mas não tinha conseguido provar. Correira, sabe? (Mas adorava aquele bolo de cenoura da mãe).
Desde que chegara na loja naquele início de tarde a coisa foi pegada; loucura total. Clientes, gerente, experimenta aqui, compra ali, crédito ou débito?, quanto a senhora calça?, 35?, 38?, o 37 fica melhor, volte sempre. Ufa!
Quatro da tarde: hora do lanche. Estava azul de fome. Aquele bolo de cenoura ia salvar a vida. Um pedaço na boca: hummm!!! Caiu na asneira de oferecer à amiga que lanchava junto e esta, curiosa, por tamanho orgasmo gustativo, aceitou provar " só um pedacinho". Hummm!!!
-Nossa! Quem foi que fez?
-Minha mãe.
-Caraca, muito bom!
-Só peguei uns pedaços que tinham sobrado de ontem na geladeira. Da próxima vez que a minha mãe fizer eu trago mais - mas nisso já a supervisora já estava apressando as duas por causa da demora e tiveram que retomar todo aquele experimenta aqui, compra ali, crédito ou débito?, quanto você calça?, 35?, 38?, o 37 fica melhor, volte sempre...
Dias depois a mãe fez outro bolo de cenoura, desta vez a pedido, para que a filha pudesse dividir com a amiga. Levou para o lanche da tarde mas desta vez uma outra, nova na loja, foi junto. Tudo bem, tinha levado um pedaço maior e daria para ceder um pedacinho à nova colega, que até mesmo tinha levado um sanduíche natural e por certo não iria comer muito.
-Hummm!!!
-Hummmmm!!!
-Já provou o bolo de cenoura que a mãe dela faz?
-Não.
-Prova.
...
-Hummm!!! Muito bom!  Hum! Bom, bom! - disse com a boca cheia abandonando de vez o sanduíche. Não sobrou nada e a própria dona do bolo, no fim das contas, não pôde, lá, desfrutar muito do próprio lanche.
Passara então a ser hábito comerem bolo de cenoura nos intervalos sempre que a mãe fazia. Quando sentiam falta, quando espaçava muito d'a mãe fazer, chegavam mesmo a cobrar: "não vai trazer mais bolo, é?". Havia já encomendas das amigas, "pede pra tua mãe fazer um só pra mim. eu pago pra ela".
E o tal do bolo de cenoura virou lenda.
Vendedoras da pequena galeria comercial onde trabalhavam comentavam entre si, espalhavam a notícia que a menina daquela loja do 3° levava um bolo de cenoura para o lanche da tarde, hummm, maravilhoso! E a mãe dela que fazia.
Chegavam a ir perguntar pelo bolo na loja, "é aqui que trabalha a menina do bolo de cenoura?". Abordavam-na no elevador, "você que é a garota do bolo de cenoura? Como é que eu faço pra sua mãe fazer um pra mim? Ouvi dizer que é muito bom." E a mãe que fazia o bolinho despretensiosamente, para os filhos, para as tardes de domingo, se divertia, ao mesmo tempo que se surpreendia e se orgulhava um pouco do tamanho da fama da guloseima.
Um dia chegou uma moça na loja e perguntou pela menina do bolo de cenoura e responderam-lhe que não trabalhava mais lá. A loja tinha cortado funcionários, coisa e tal e os mais novos tinham sido mandados embora. Agradeceu a informação e saiu da loja com cara de decepcionada.
O desemprego não foi problema por muito tempo. Ela e a mãe acharam de fazer o bolo pra vender por aí. Primeiro foi em lojas nos horários de intervalo dos funcionários, depois na praia, depois já tinham uma banca, depois alugaram um espaço na Tijuca, e dali partiram pra ter a sua própria loja na Zona Sul. Hoje a "Menina-Cenoura" é uma rede de confeitarias espalhada pelo Rio de Janeiro inteiro. Tem até propaganda na TV. O bordão da moça do comercial é bem assim: "Hummm!!! Bom! Muito Bom! Todo mundo repete por aí.


* baseado em fatos reais;
mais precisamente no bolo de cenoura que a minha mãe faz
e que as colegas da minha irmã adoram.



Cly Reis

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

cotidianas #42 - "Ditirambo"



Meu amor me ensinou a ser simples
como um largo de igreja
Onde não há nem um sino
Nem um lápis
Nem uma sensualidade











*******
Ditirambo
Oswald de Andrade

"Corrida Contra o Destino", de Richard C. Serafian (1971)




Como já havia dito aqui, não gostei do À Prova de Morte" de Quentin Tarantino. De todas as críticas que li ou que ouvi, fui o único a não gostar. Fazer o que? Aliás achei bem frágeis os argumentos dos que gostaram mas... como já diria o técnico da Alemanha comedor de meleca, "gosto é gosto e não se discute".
Mas não quero voltar a isso. Só volteia mencionar este filme e o Tarantino, porque, inegavelmente, faça filmes bons, médios, interessantes ou ruins, o cara sempre deixa dicas interessantes de músicas, a partir de suas excelentes trilhas sonoras com coisas do fundo do baú, e de filmes, com referências, menções, cenas adaptadas etc.
No caso do seu "À prova de morte", entre tantas outras referências nos deixa particularmente curiosos pelo tal do filme "Vanishing Point" ao qual as garotas da perseguição final ficam constantemente se referindo, e tem tal fascinação e culto pelo filme, que dão um jeito de dar uma volta no mesmo modelo de carro utilizado no filme idolatrado.
O Challenger 70 branco pilotado
por Kowalski
Pois bem, em "Vanishing Point', batizado em português de "Corrida contra o Destino", Kowalski, uma espécie de contrabandista de carros, tem que, praticamente, atravessar o país em um Dodge Challenger 70 (o objeto de desejo das garotas do "Death Poof") a fim de entregá-lo ao dono na Califórnia, mas faz uma aposta com um amigo de chegar antes do prazo estipulado, só que daí, pra conseguir isso, é só pé embaixo o tempo todo e as leis do trânsito e pápápá vão pro caralho. É lógico que a polícia começa a perseguir o cara e ele vai atravessando estados com o cerco policial aumentando, à medida que também aumenta seu cartaz, seu nome e sua "lenda", a estas alturas já conhecidas e divulgadas pelo rádio. Kowalski passa a ser um herói, o anti-sistema, um símbolo de liberdade, e grande parte desta propaganda é feita por um locutor de uma rádio do interior, o DJ Super Soul, que fica incentivando, dando dicas de trajeto, indicando onde está a polícia e ainda dedica músicas pro cara e tudo mais; tudo isso com uma locução pra lá de bacana.
O sentimento de liberdade que o espírito
hippie transmitia presente no filme.
Olha, um grande barato o filme. Não que o glorioso Richard Serafian, diretor do filme, seja melhor que Tarantino, mas o obra em si, pode não ser melhor mas é mais bacana que "Death Proof". O filme não é só uma perseguição alucinada; tem sim seus méritos, boa trilha, tomadas legais, e um roteiro cheio de boas surpresas como, por exemplo, flashbacks ocasionais vão nos revelando aos poucos quem é Kowalski e porque ele está naquele negócio; a alteração cronológica e sua transição logo no início do filme; a sugestão de racismo a um DJ negro no interior dos Estados Unidos, a contextualização social da geração hyppie do início dos anos 70, além de uma fotografia bem legal pelos desertos e montanhas dos EUA.
Típico cult movie. Sem maiores recursos, com méritos, não atingiu grande público,mas tem os que lhe saibam dar valor. Resumindo assim de maneira bem prática: é uma boa mistura entre "Easy Rider" e seu sonho de liberdade, inconsequência e juventude; com "Agarra-me se Puderes", filme bem legal com Burt Reynolds, cujo pesonagem usa o codinome Bandido, e também se encontra numa louca perseguição e conta com a ajuda de outros motoristas, caminhoneiros, radialistas, e quem encontra pelo caminho, tudo contra a polícia e contra o sistema; bem politicamente incorreto. Tudo isso é um pouco do Kowalski, segundo o DJ Super Soul, "o último herói americano."

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Curiosidade é que a famosa trilha do Globo Repórter, utilizada a té hoje, é uma das músicas da trilha sonora do filme. Chama-se "Freedom of Expression", e é tocada pelo J.B. Pickers.
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Outra coisa legal é a música chamada "Kowalski" do Primal Scream do álbum chamado, exatamente, "Vanishing Point" que além de ser muito legal por si só, com uma linha de baixo muito bala e agressiva, tem uns samples demais com trechos de locuções do DJ Super Soul do filme.


Confiram aí, "Kowalski" com Primal Scream:






Trailer do filme:



Cly Reis

Era uma vez na América (ou melhor, DUAS vezes)

Eu tinha assistido à semifinal contra o Olímpia em 89. Eu estava lá no Gigante. Não, não podia acontecer de novo.
Quando os mexicanos do Chivas fizeram o primeiro gol do jogo aquele filme de terror me veio à cabeça. E eu lá de novo. Seria EU o culpado? Teria, EU, me desbarrancado do Rio de Janeiro a Porto Alegre, sem ingresso na mão, desembarcando 4 horas antes do jogo, conseguido incrivelmente a tal entrada, tudo isso para EU dar azar pro eu time? (Torcedor pensa cada coisa, não?) Mas por certo não fui só eu. Outros devem ter pensado que aquilo estava acontecendo porque não usaram a mesma cueca, não conseguiram sentar no mesmo lugar no estádio, porque não seguiram determinados rituais, ou sabe-se lá mais o que; mas de todos estes não sei quantos ali haviam presenciado a maior "tragédia" do Beira-Rio. E eu estava lá.
Em 1989, o Internacional havia conseguido a vantagem fora de casa - como agora -, vencera o bom Olímpia em Assunción por 1x0 com um gol de bicicleta. O jogo da volta era só uma formalidade. Tínhamos a vantagem do empate e naquela época não tinha esse negócio de gol qualificado. Começa o jogo e com 0x0 estamos dentro, mas os cara fazem o seu gol. Ai, ai, ai! Tudo bem, somos melhores: empatamos. Viramos o jogo (nada nos tirava aquela vaga). Pênalti pra nós!!! Quem ia bater? Nosso goleador, herói do greNal do Século, Nílson. E ele perde. Tudo bem, estamos classificando. Tomamos o empate (tudo bem o empate nos serve). Finalzinho do jogo e tomamos 3x2. Puta merda! Tivemos a vantagem 4 vezes durante os 90 minutos e deixamos escapar, agora seriam os pênaltis. Mas tínhamos bons batedores e o melhor goleiro do Brasil, exímio pegador de penalidades, Taffarel. Não por culpa dele mas, com cobranças muito bem executadas, acabou não agarrando nenhuma e Leomir, um dos nossos bons chutadores, errou.
Fim.
Nunca vira tanta gente permanecer no estádio depois do jogo por causa de uma derrota. Havia naquele dia 70 mil pessoas no Beira-Rio; imagino que umas 5 mil permaneceram sentadas, chorando, olhando pro vazio, sem acreditar, pedindo uma nova chance ao tempo como se ele pudesse retroceder, esperando que o juiz voltasse a campo e anunciasse que o Olímpia estava eliminado por... por... por qualquer motivo, sei lá. MAS NÃO ACONTECEU.
Os rivais tricolores, na época brincavam "sabe qual o maior circo do mundo? o Beira-Rio: tinha 70 mil palhaços lá dentro, ontem. hahaha", "por que que o colorado foi na padaria? comprar sonho, mas o sonho acabou hahaha"). E com um belo time, com uma grande campanha, com uma perspectiva de final mais fácil que a semi, fomos eliminados e naquele momento o sonho estava destruído.
O gol do Chivas foi aos 41 minutos. Pelos minutos restantes do primeiro-tempo fiquei gelado repassando tudo isso.Não! Não podia acontecer de novo. E NÃO ACONTECEU.
Desta vez a justiça de um futebol superior, de uma vantagem construída com uma atuação fantástica no jogo de ida, de jogadores com caráter, de um time determinado, de uma torcida empolgante, foi confirmada.
A partir do momento que o time controlou os nervos, botou a bola no chão, bateu no peito e disse "quem manda aqui sou eu", não teve pra ninguém e a vitória acabou vindo de maneira bem natural. O bom futebol voltou e foram 3 gols em 45 minutos. Eles até fizeram mais unzinho mas... e daí? Ninguém nem viu aquilo direito. Nuca vi tanta gente permanecer no estádio por tanto tempo depois do jogo por conta de um título. Havia umas 60 mil pessoas no estádio e as 60 mil permaneceram ali em pé, vibrando, gritando, chorando, comemorando. Venceu o melhor e felizmente o melhor é o meu INTERNACIONAL. E então, com minha camisa vermelha, mas sem cachaça na mão porque são proibidas bedidas alcoólicas dentro do estádio, fiz a festa no Gigante que só me esperava para começá-la.
E agora, definitivamente o fantasma do Olímpia, o de 89, as almas-penadas do goleiro Almeida e do centroavante Amarilla, foram embora. Nunca mais terei medo de fantasmas!


Cly Reis

terça-feira, 17 de agosto de 2010

cotidianas #41 - Música Urbana 2



Em cima dos telhados as antenas de TV tocam música urbana,
Nas ruas os mendigos com esparadrapos podres
cantam música urbana,
Motocicletas querendo atenção às três da manhã -
É só música urbana.


Os PMs armados e as tropas de choque vomitam música urbana
E nas escolas as crianças aprendem a repetir a música urbana.
Nos bares os viciados sempre tentam conseguir a música urbana.


O vento forte, seco e sujo em cantos de concreto
Parece música urbana.
E a matilha de crianças sujas no meio da rua -
Música urbana.
E nos pontos de ônibus estão todos ali: música urbana.


Os uniformes
Os cartazes
Os cinemas
E os lares
Nas favelas
Coberturas
Quase todos os lugares.


E mais uma criança nasceu.
Não há mais mentiras nem verdades aqui
Só há música urbana.
Yeah, Música urbana.
Oh Ohoo, Música urbana.
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"Música Urbana 2"
Renato Russo

Ouça:
Legião Urbana Música Urbana 2

ELVIS

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

"A Origem" de Christopher Nolan (2010)





Uma daquelas sessões que se sai com aquela sensação boa de ter-se assistido a um baita filme! Poucos diretores conseguem mexer tanto com a mente do espectador como Christopher Nolan. Desafia-nos, testa-nos. Foi assim em ‘Amnésia”, em “Insônia”, até em “O Cavaleiro das Trevas” com o lunático Coringa; e agora volta a levar-nos a uma viagem pelo consciente, pelo subconsciente, pelo mundo dos sonhos, pela alucinação, pelo real e irreal com o ótimo “A Origem”.
Com um roteiro inteligente, criativo, coerente e muito bem amarrado ele monta um enorme labirinto na cabeça do personagem, na trama, no espaço e na cabeça do espectador. Tudo é um grande sonho dentro de sonho e nele, um espião, especialista normalmente em invadir mentes durante o sono das vítimas para buscar informações confidenciais em seus subconscientes, desta vez tem a missão de implantar uma idéia durante o sono de um empresário. Nisso, realidade e sonhos se confundem o tempo todo, passado e presente, realidade e projeções, vivos e mortos, a ponto de sequer acabarmos com a certeza se toda a história não é um sonho.
Nolan eleva a outro patamar os filmes de ação, aventura, ficção e espionagem, com uma trama complexa e surreal mantendo as principais características destes gêneros. Outro grande mérito é a utilização de efeitos especiais e recursos que ficaram notabilizados, principalmente por “Matrix” mas que vinham ficando vulgarizados pela utilização banal e generalizada, em "A Origem" com propósito, inteligência, utilidade e contexto, o que a estas alturas já não se imaginava que fosse possível alguém fazer.
Um superdelírio! Um labirinto cinematográfico! Uma porrada na mente! Um dos melhores filmes dos últimos tempos!
Fascinante! Fascinante!


"A Origem" - trailer





Cly Reis

Bob Dylan - "Bringing It All Back Home" (1965)



"O que é lento, logo ficará muito rápido. Como o presente, que mais tarde será passado."  
Bob Dylan



Tá bom, tá bom, eu sei. Não se pode falar do "Highway 61 Revisited" sem levar em conta o "Bringing It All Back Home". Tudo bem! E não me custa nada na verdade colocá-lo aqui tambem. Na verdade gosto mais deste álbum por ser mais 'pegado'. Se seu sucessor foi a virada completa de Dylan, foi com "Bringing It All Back Home" que a coisa começou a mudar. Nele já aprarecem os elementos que depois iriam revoltar os mais conservadores: guitarras elétricas, teclados blues transgressores e pouco tradicionais. Exemplos disso são as corrosivas e elétricas "Maggie's Farm" e "Outlaw Blues". "Subterranean Homesick Blues" que abre o disco é outra que foge à linha tradicional do músico folk, já como uma mostra de sua intenção mais rock' roll.
A segunda metade do álbum é um pouco mais tradicional com "Mr. Tambourine Man" , por exemplo, que guarda a característica clássica dos versos longos e pouco usuais de Dylan e da sua velha e boa levada de violão; assim como "It's Allright Ma (I'm Only Bleeding)", outra das acústicas, com sua composição de estrofe toda peculiar para o modelo musical, o que Dylan desenvolveu como ninguém.
O aviso estava dado, a evolução era inevitável e quem quisesse aceitar que aceitasse e foi "Bringing All Back Home" que preparou o campo.

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Notem na capa cheia de referências e metáforas: o gato no colo de Dylan ( curiosamente chamado de Rolling Stone); a moça atrás dele fumando que é esposa de seu empresário ($$$); seu disco anterior "Another Side Of  Bob Dylan" dentro da lareira como que sugerindo que o que fizera antes devesse ser queimado; a capa do disco de Robert Johnson indo ao encontro do título do álbum 'Trazendo tudo de volta pra casa' como uma intenção de resgatar as origens da sua música no blues; além de vários outros pequenos enigmas contidos em cada imagem, detalhe, elemento, disposição de um móvel ou objeto.
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Inédito nos ÁLBUNS FUNDAMENTAIS dois discos do mesmo artista na sequência e ainda de obras contínuas, mas estes não podiam ser colocados distantes pela relação quase complementar que exercem um em relação ao outro.
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FAIXAS:
  1. "Subterranean Homesick Blues" – 2:21
  2. "She Belongs to Me" – 2:47
  3. "Maggie's Farm" – 3:54
  4. "Love Minus Zero/No Limit" – 2:51
  5. "Outlaw Blues" – 3:05
  6. "On the Road Again"– 2:35
  7. "Bob Dylan's 115th Dream"– 6:30
  8. "Mr. Tambourine Man" – 5:30
  9. "Gates of Eden" – 5:40
  10. "It's Alright, Ma (I'm Only Bleeding)" – 7:29
  11. "It's All Over Now, Baby Blue" – 4:12
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Ouça:
Bob Dylan Bringing It All Back Home


Cly Reis

O Frango Atirador

domingo, 15 de agosto de 2010

cotidianas #40 - "Neologismo"



"O Abraço", Gustav Klimt
Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
que traduzem a ternura mais funda
E mais cotidiana.
inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo
Teadoro, Teodora.





"Neologismo"
Manuel Bandeira

sábado, 14 de agosto de 2010

Bob Dylan - "Highway 61 Revisited" (1965)

Oh, Deus disse a Abraão “Mate-me um filho”
Abraão diz, “Cara, você está de sacanagem comigo”
Deus diz, “Não”. Abraão diz, “O quê?”
Deus diz, “Você pode fazer o que quiser Abraão, mas
Na próxima vez que você me ver chegando
É melhor correr”
da letra de "Highway 61 Revisited"


E dizer que eu não gostava do Dylan!
Achava ele com uma voz 'de velha', sabe? Na verdade acho até que tem um pouco mesmo, ainda mais hoje em dia quando a idade já chegou de vez. Além dsso era pra mim uma voz maio anasalada, fanha, meio caipira. Mas e daí? E o que esse 'caipira' já fez? Simplesmente mudou o curso das coisas, mudou a história do rock, estabeleceu linguagens e depois desestabeleceu; porque gênios são assim, quando a gente menos espera, eles na sua inquietude, na sua inconformidade natural, nos surpreendem.
Prova disso é o genial "Highway 61 Revisited". Depois de ter se consagrado na transição do country e do blues para o rock, ter definido o que hoje conhecemos como folk, basicamente com um violão na mão e uma harmônica na boca, em 1965 Dylan pega em guitarras, liga o órgão elétrico, junta a uma banda de rock, acelera o ritmo e nos apresenta mais esta obra-prima. Os dylanistas puriostas torceram o nariz num primeiro instante, aquilo contrariava tudo o que o garoto genial tinha feito até então, ia contra seus prórpios princípios, acabava com a originalidade do que o próprio Dylan havia construído... Balela. Tanto que mesmo estes não conseguiram ficar indiferentes por muito tempo e logo entenderam que aquilo era um enorme passo adiante não só na carreira do cara, como na história do rock.
Para ilustrar bem este momento e o que significou esta passagem de Dylan, não pode-se dexar de mencionar o show no qual Dylan e sua banda entram pela primeira vez com os instrumentos elétricos. Ele é vaiado, hostilizado, chamado de traidor e tudo mais, mas não deixa de completar o show com a segurança de quem pensa "logo vocês perceberão que eu estu certo". Este episódio é legal de ser conferido no maravilhosos documentário de Martin Scorcese, "No Direction Home", que perfaz a trajetória do ídolo desde o início da careira, com lendas, entrevistas, relatos, imagens raras, até culminar exatamente neste momento que é sem dúvida um marco definitivo.
As melhores do álbum? Pra mim "Tombstone Blues", "Desolation Row", o clássico supremo "Like a Rolling Stone" com seu órgão marcante que por incrível que pareça é quase casual, e a espetacular "Highway 61 Revisited" com aquela letra absolutamente genial, inspirada e sarcástica, como aliás são todas deste que é provavelmente o melhor letrista do rock.

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Pela revista Rollig Stone, "Highway 61 Revisited" é considerado o 4° melhor álbum de todos os tempos na sua lista dos 500 melhores.
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A faixa "Like a Rolling Stone", pela mesma publicação, é considerada a melhor de todos os tempos na lista das 500 Maiores Canções.
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É ainda, o 8° no Rock'n Roll Hall of Fame na lista dos 200 álbuns definitivos.
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FAIXAS:
  1. "Like a Rolling Stone" – 6:09
  2. "Tombstone Blues" – 5:58
  3. "It Takes a Lot to Laugh, It Takes a Train to Cry" – 4:09
  4. "From a Buick 6" – 3:19
  5. "Ballad of a Thin Man" – 5:58
  6. "Queen Jane Approximately" – 5:31
  7. "Highway 61 Revisited" – 3:30
  8. "Just Like Tom Thumb's Blues" – 5:31
  9. "Desolation Row" – 11:21
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Ouça:
Bob Dylan Highway 61 Revisited

Cly Reis

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Aniversário do Show da HímenElástico

Há exatos 17 anos, numa sexta-feira 13, a HímenElástico fazia seu primeiro show na cidade de Alvorada, vizinha a Porto Alegre, num lugar chamado Woodstock Bar.
A HímenElástico fora o projeto musical-criativo de 4 primos malucos que costumavam passar madrugadas (sóbrios) falando e inventando doideiras de todo tipo; gráficas, verbais, musicais, ou de qualquer outra forma. Essa hemorragia criativa nos estimulou; a mim, meu irmão Daniel, e meus primos Lúcio e Lê; a tentarmos, mesmo sem tocar nada, a ter uma banda. Não era este afinal o espírito punk? Era! E era isso também que nos servia de base. O Lúcio estivera pouco tempo antes de cabeça no punk da periferia paulista Cólera, Garotos Podres, tinha também descoberto os Kennedy's, Exploited e havia levado a mim e meu irmão que fazíamos uma linha um pouco mais Rock-BR da época (Legião, Titãs, RPM). O Lúcio também tava numas de rap na época e a novidade pra mim era interessante. O tal do Public Enemy era bom pra caralho. Tínhamos também todos acabado de ouvir o "Cabeça Dinossauro" dos Titãs e talvez aquilo tenha sido a mola propulsora definitiva. Poucas notas, agrassividade, letras minimalistas. Dava pra fazer rock! Vamos ter uma banda? Mas e essa diferença toda? Eu gostava de Smiths, meu irmão de Caetano, o Lúcio de Ratos de Porão e o Lê de Thayde. Deu no que deu: uma mistura das mais interessantes, criativas e originais.
O nome era uma brincadeira entre o "Homem-Elástico" e algo bem malicioso, tanto que escreve-se originalmente o nome da banda com o Φ grego, deixando a palavra  hΦmem com uma possível dupla leitura.
Nosso som ficou muito próximo ao do nosso disco modelo, o "Cabeça Dinossauro". Lembrava um bocado Titãs, especialmente na minimalista "Nem uma, coisa nem outra" que parecia não fazer muito sentido mas (sinceramente) era extremamente questionadora, versando sobre o TER, o querer sempre mais, o não se dar por satisfeito. Era tão simplesmente-complexa que, em verdade, entre um ajuste e outro, um complemento, uma palavra aqui  outra ali, a letra demorou três anos pra ficar pronta; e depois musicalmente, acrescido som à letra, fôra uma de nossas melhores.
Não tínhamos muito compormisso exceto com nós mesmos e com a nossa diversão. Tanto que não temos grandes registros gravados. A maioria são em cassete e sem muita qualidade. Ensaiamos pra valer mesmo no dia do tal do show em Alvorada. Apresentação que o Lúcio conseguiu com alguns contatos e nos botou na jogada. Só que aí teríamos que estar mais preparados e então marcamos duas horas de estúdio no fim da tarde pra ficarmos afiados pro show à noite. Deu certo. Estávamos na ponta dos cascos. O problema foi que uma hora antes do show, com a voz desgastada, com o frio terrível que fazia e acho que um pouco pela ansiedade, a voz se foi. Só sei que estava apavorado numa mesa pouco antes de entrar no palco e veio um cara de uma outra banda e recomendou, "sabe o que que é bom pra isso? cachaça. toma uma cachaça pura que isso passa rapidinho". Segui a orientação e não deu outra.
Obra do destino ou sei lá o que, mas entramos no palco exatamente à meia-noite do dia 13 de agosto (o que na verdade já era dia 14, mas pra efeito poético-sinistro ainda seria sexta-feira 13 até raiar o sol). Em um ambiente especialmente decorado para a data tão especial, à penumbra e cheio de caveiras com velas, abrimos o show com a "Marcha-Fúnebre" emendando com nossa vinheta de abertura tradicional inspirada naqueles gritos de pelotões do exército que correm na rua: "Dá um beijo no cangote, Carolina/ Uh, Uh, Uh, Carolina...", e que já emendava com a matadora "Ex", uma das nossas preferidas, também muito minimalista que contava com uma incrível agrssividade intrínsca. A coisa seguiu na boa, acho que a galera gostou, tocamos tudo que tínhamos ensaiado até o grand-finale com "Nem Tudo Está Perdido" que com sua letra apocalíptica e executada de maneira tão catártica acabou configurar um final apoteótico da nossa apresentação.
No final fui cumprimentado sincera e entusiasticamente por um cara da Space Rave, banda de Porto Alegre que continua no circuito com algum êxito e ainda esnobei a loirinha que eu tinha dado em cima antes do show, mas que só depois da apresentação veio se querendo. Agora é tarde, baby.
Como disse, não tínhamos grande compromisso com a coisa, apesar de gostarmos muito. Eu tinha faculdade, éramos duros pra bancar estúdios, meus primos moravam longe e no fim das contas não levamos a coisa muito adiante. Mas até hoje, bem imodestamente, logo eu que sou extremamente chato para o que faço e para o que ouço, considero a HímenElástico uma das melhores coisas nacionais que já ouvi nos últimos tempos. Eu teria um CD daquela banda. Ouço bandas hoje e penso: "Cara, a Hímen já fazia isso naquele tempo e sem o menos recurso". Era criatividade pura.
Parabéns hermenêuticos pelo aniversário do showzinho de Alvorada.

ESCLARECIAMENTO AOS NÃO-HERMENÊUTICOS: Hermenêutico nesse caso não tem a menor relação com seu significado original que é de interpretação de livros sagrados ou de leis, blá, blá, blá. Adotamos a palavra para designar tudo aquilo que fosse relativo à HímenElástico.

Assim sendo, faz 17 anos do primeiro show Hermenêutico!