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sexta-feira, 1 de junho de 2012

Echo and the Bunnymen - "Crocodiles" (1980)


"você quer saber o que há
de errado com este mundo?"
(do texto do encarte do álbum)



Que baita disco!
Daqueles excelentes da primeira à última.
Gravado ainda sob a sombra do punk, “Crocodiles” do Echo and the Bunnymen, tinha o vigor e a energia do estilo vigente naquele final de anos 70, mas já antecipava tendências do som dos 80, do pós-punk e do gótico.
“Going Up”, a canção que abre “Crocodiles’ não podia ser um exemplo melhor, com sua primeira parte pegada, crua, guitarrada, e seu trecho final arrastado, soturno, sombrio. Já “Stars are Stars” fica num bom meio termo entre as sonoridades e “Rescue”, de riff marcante, vocal preciso e refrão fácil é mais cadenciada já sinalizando para uma linha que a banda seguiria dali para a frente; “Villiers Terrace”, agressiva à sua maneira, tem sonoridade forte suavizada por um piano que lhe confere um certo charme; e “Pictures on my Wall’, com seu climão meio western, já remete mais à melancolia dark oitentista.
Mas se o assunto é pegada punk, “Pride”, que chega a ser suja e gritada, não desonra a classe; e “All That Jazz” com seu furioso ‘refrão instrumental’ é uma das melhores do disco. Já “Monkeys”, um pop-rock cuja crueza fica um pouco disfarçada pela produção cuidadosa, funciona de forma fundamental como gancho de entrada para “Crocodiles”, um punk-rock furioso, agressivo, cheio de energia, daqueles de convidar para a roda de ‘pogo’.
O disco fecha com a fantasmagórica “Happy the Man”, canção lúgubre e obscura que acaba com o já mencionado trecho final de “Going Up”, igualmente sorumbático e sombrio, de certa forma terminando o disco por onde começou.
Impecável no começo, impecável no fim. Ou seja, álbum perfeito do começo ao fim.
Baita disco!
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FAIXAS:
  1. "Going Up" – 3:57
  2. "Stars Are Stars" – 2:45
  3. "Pride" – 2:41
  4. "Monkeys" – 2:49
  5. "Crocodiles" – 2:38
  6. "Rescue" – 4:26
  7. "Villiers Terrace" – 2:44
  8. "Pictures on My Wall" (Sergeant, McCulloch, Pattinson) – 2:52
  9. "All That Jazz" – 2:43
  10. "Happy Death Men" – 4:56
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Ouça:

quarta-feira, 30 de maio de 2012

cotidianas #161 - Jacarés


Um fazendeiro resolve colher algumas frutas em sua propriedade, pega um balde vazio e segue rumo às árvores frutíferas.
No caminho ao passar por uma lagoa, ouve vozes femininas e acha que provavelmente algumas mulheres invadiram suas terras.
Ao se aproximar lentamente, observa várias belas garotas nuas se banhando na lagoa.
Quando elas percebem a sua presença, nadam até a parte mais profunda da lagoa e gritam:
- Nós não vamos sair daqui enquanto você não deixar de nos espiar e for embora.
O fazendeiro responde:
- Eu não vim aqui para espiar vocês, eu só vim alimentar os jacarés!

ELVIS


terça-feira, 29 de maio de 2012

Alegria









"Alegria (esquerda)"
acrílico sobre tela 20x20cm
"Alegria (centro)"
acrílico sobre tela 20x20cm
"Alegria (direita)"
acrilico sobre tela 20x20cm

"Alegria" composição em 3 partes
acrílico sobre tela
Reis, Cly
(para Luna)

Bo Diddley - "Bo Diddley" (1958)




“Bo Diddley é Jesus”
título de música da banda
The Jesus and Mary Chain 



Aquela guitarra era solo, base e percussão ao mesmo tempo!
Bo Diddley, ex-fabricante do instrumento, depois de ter produzido algumas tantas pela vida, reinventava o instrumento com uma batida única que revolucionaria o blues, o rock, a música de um modo geral. (Depois ainda reinventaria o instrumento, literalmente, produzindo a sua famosa guitarra quadrada, cujo formato não tinha muito a ver diretamente com a sonoridade e mais com o conforto de Bo na hora de tocar).
Destaco aqui seu primeiro álbum “Bo Diddley” de 1958, disco que traz algumas de suas mais marcantes canções como a 'pausada' “I’m a Man”; o gostosíssimo blues “Before you Acuse Me”; a ‘percussionada’ “Hush Your Mouth”; a excelente “Who Do You Love?”, regravada depois numa versão bem bacana pelo duo escocês The Jesus and Mary Chain, que o tem praticamente como um deus; além, é claro, das auto-homenagens megalomanas “Hey, Bo Diddley” e a outra que simplesmente leva o seu nome assim como o disco.
É outro dos poucos que eu listei aqui nos FUNDAMENTAIS que eu não tenho. Tenho, sim a coletânea da Chess Records que tem tudo de melhor da carreira do artista, inclusive todas deste álbum. Boa alternativa pra quem, como eu, não tem este primeiro disco deste bluesman pra lá de original. Mas, se encontarem, comprem. Eu, certamente farei o mesmo se topar com ele.

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FAIXAS:
1. "Bo Diddley" (2:30) 
2. "I'm a Man" (2:41)
3. "Bring It to Jerome" (Jerome Green) (2:37)
4. "Before You Accuse Me" (2:40)
5. "Hey! Bo Diddley" (2:17)
6. "Dearest Darling" (2:32)
7. "Hush Your Mouth" (2:36)
8. "Say, Boss Man" (2:18)
9. "Diddley Daddy" (McDaniel, Harvey Fuqua) (2:11)
10. "Diddy Wah Diddy" (Willie Dixon) (2:51)
11. "Who Do You Love?" (2:18)
12. "Pretty Thing" (Dixon) (2:48) 


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Ouça:
Bo Diddley 1958


Cly Reis











sábado, 26 de maio de 2012

cotidianas #160 - O Jardim Suspenso


Acordou assustado. Suado. Ofegante. Olhando em volta. Um barulho vindo da cozinha o acordara e o livrara daquele sonho que, não lembrava exatamente do que se tratava mas sabia que tinha sido perturbador.
O barulho continuava. Parecia alguém mexendo na geladeira.
Levantou-se e foi dirigindo-se lentamente a cozinha, descalço, pisando cuidadosamente e esgueirando-se para não ser notado por quem quer que estivesse lá.
"O Jardim das Delícias Terrestres",
Hyeronimus Bosh, séc. XV
Chegando no final do corredor virou à direita e dali já pôde avistar a porta da cozinha de onde notou então em frente à geladeira aberta, um homem de roupão cinza e pantufas mas cujo rosto não conseguia visualizar pois o estranho estava levemente inclinado olhando para dentro da geladeira. O intruso notando a aproximação de alguém voltou-se na direção da porta da cozinha e foi então que o dono a casa viu aquela cara bizarra. Uma cara de rato.  Corpo humano, mas com cara de roedor, de ratazanda de esgoto. Acuado por ter sido descoberto, o invasor, tratou de embrenhar-se geladeira adentro apressadamente. Tentou alcançar ainda o visitante antes que a porta do eletrodoméstico se fechasse mas não conseguiu em tempo. Mesmo tendo-o perdido num primeiro momento, reabriu a porta e deparou-se ali com um caminho escuro, uma passagem estreita de chão batido cercada pelos dois lados por uma extensão de mato baixo que precedia uma espécie de bosque. Colocando primeiro uma perna, depois a outra, a exemplo do visitante, ingressou pela passagem. Lá dentro seguiu pelo único caminho existente, em frente, já àquelas alturas nem pensando mais em encontrar o intruso e simplesmente andando para onde a trilha levasse. Caminhava agora olhando as árvores de galhos tortos e formas curiosas, o mato ia ficando mais alto conforme avançava e pensava se não haveria cobras naquele bosque, sentindo um pouco de medo por isso.
- Será que aquilo é um morcego? – perguntou sua irmã, que caminhava a seu lado.
- Acho que é algum tipo de pássaro noturno – respondeu com ar de conhecimento de causa.
Agora à sua volta não era mais aquele bosque assustador e sim um parque alegre e florido cheio de crianças onde resplandescia um belo dia ensolarado. Sentou no gramado olhando para as crianças e sentindo o calor agradável do sol no rosto. Sua irmã já não o acompanhava e agora uma bela moça sentava-se ao seu lado no gramado e fazia-lhe carinho nos cabelos. Pensou ainda, “mas não era minha irmã que estava aqui agora há pouco?”. Não importava. A garota era atraente, lembrava-lhe alguém que conhecia mas não sabia exatamente quem. Lentamente aproximou os lábios dos dela e aplicou-lhe um beijo longo e apaixonado. Logo levou e mão a seus seios, foi deixando descer até entrear por baixo da saia alisando-lhe primeiro as pernas e logo em seguida subindo lentamente. A troca de carinhos foi interrompida por uma voz rude e colérica.
“Que que tu tá fazendo com a minha guria, rapaz?”
Ergueu os olhos e  viu em pé à sua frente quatro rapazes fortes e com cara de poucos amigos.
Pôs-se em pé também e tratou de tentor argumentar, alguma coisa – a moça já não estava mais lá. Nada dispostos a aceitarem qualquer explicação que fosse, os brutamontes começaram a lhe aplicar empurrões, safanões e ameaçá-lo com mais veemência. Em desvantagem, um contra quatro, resolveu que o melhor era sair dali, e assim que os brigões lhe deram uma brecha engatou uma corrida veloz e decidida. Seguiram-lhe correndo e gritando. Não o alcançavam, corria bem, corria rápido, mas olhou para trás para se certificar de que estava em segurança. O que vou foi uma pequena horda munida de paus, garrafas, levando cães de caça e tochas acesas aglomeradas sobre a ponte elevadiça de um castelo medieval. Correu mais ainda mas logo viu-se num beco sem saída, diante de uma sólida parede de pedras. O grupo aproximava-se, sua angústia crescia. Olhou para os lados: nenhuma escapatória.   Mas de repente notou, ali, próximo a ele a porta de sua casa. Deu alguns passos tranqüilos, já sem os perseguidores no seu encalço, levou a mão à maçaneta, abriu, entrou, deixou a carteira e as chaves sobre a mesa e, cansado, dirigiu-se para o quarto. Lá, tirou os sapatos, a roupa, colocou o pijama e deitou-se para dormir. Havia sido um dia agitado. Pegou no sono. No sonho, teve a impressão de ouvir um barulho estranho. Abriu os olhos e viu um vulto parado no canto do quarto. Uma criatura, um ser bizarro, monstruoso que  aproximou-se rápida e ameaçadora mente em sua direção. Tentou gritar mas a voz não lhe saiu.
Acordou assustado. Suado. Ofegante. Olhando em volta. Um ruído vindo da cozinha o acordara e o livrara daquele sonho que, não lembrava exatamente do que se tratava mas sabia que tinha sido perturbador.
O barulho na cozinha continuava. Parecia alguém mexendo na geladeira.


Cly Reis

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Pix


"Aniversário Macabro" ("Happy Birthday to Me"), de J. Lee Thompson (1981)




O José Júnior, um dos colaboradores deste blog, às vezes funciona como uma espécie de traficante de filmes. Ele, por assim dizer, abastece os amigos com algumas preciosidades que baixa da Internet. Já ganhei dele, por exemplo, o “Inland Empire” e o “Mulholand Drive”do Lynch, o cult  "Corrida Contra o Destino, o bom “Agonia e Êxtase”, com Charlton Heston na pele de Michelangelo, mas desta vez, me apareceu com o tal “Aniversário Macabro” (“Happy Birthday to Me”), de 1981, do qual ele já havia me falado por ocasião do aniversário dele mesmo.
Bom, por mais que o Júnior tenha crédito pelos tantos bons que me forneceu, infelizmente tenho que dizer que esse “Happy Birthday to Me” é horrível. E não horrível no sentido de ser assustador, horripilante. É horrível de péssimo!
Clichezão de filmes do gênero. O serial-killer ‘mal-humorado’ do campus (da praia, do acampamento, ou seja lá de onde for) matando um a um os coleguinhas  (as namoradas dos coleguinhas, os namorados dos coleguinhas, o quarter-back do time, a líder de torcida...) e aumentando o mistério a medida que o filme segue. O pior é que nem sequer as mortes são legais. É, por que às vezes isso pode fazer valer um filme podre. Boas execuções, originalidade, bizarrice, repugnância. Não, nem isso.
A cena do aniversário... Simplesmente estapafúrdia.
E aquela coisa de sempre: jovens porra-loucas, o suspeito é um esquisitão, o diretor tenta nos despistar com algumas evidências falsas ou incompletas, mulheres passeando no mato em horas que não deviam, tropeços e quedas inaceitáveis... Aff!
O lance é mais ou menos esse: num campus de faculdade alguns alunos vão sofrendo mortes violentas causadas por algum perturbado. Aos poucos vão sendo sentidas as suas ausências e percebe-se que tem alguma coisa errada. O negócio é que uma das alunas é meio esquisita, tem umas tonturas, uns insights de memória de vez em quando que podem estar querendo nos dizer alguma coisa. Não! Engano! Nada de significativo.
Acho que pra fugir do convencional o glorioso J. Lee Thompson opta por um final estapafúrdio que eu não vou contar pro caso alguém ter a coragem de assitir, mas só posso dizer que é tão ruim quanto todo o resto. Vi até o final na esperança de que de repente o desfecho salvasse mas... nossa... minha decepção foi maior.
Eu não gostei, Mas se você tiver coragem de assistir, e ainda por cima gostar, parabéns pra você.




Cly Reis

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Dorival Caymmi - "Canções Praieiras" (1954)



“Dorival é um Buda nagô,
filho da casa real da inspiração.“ 
Gilberto Gil



Antes de mais nada, um aviso aos navegantes das águas de Iemanjá: Dorival Caymmi não é música. Para o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, a verdadeira arte manifesta algo que não está somente naquilo que se percebe na epiderme da obra, mas, sim, na sua estrutura, no seu significado mais profundo. Assim como uma “Guernica” de Picasso é mais do que uma pintura ou “Tempos Modernos” de Chaplin mais do que um filme, pois são marcos históricos divisores-de-águas da sociedade, o que Caymmi produziu tem uma amplitude antropológica que vai além dos limites da música. Caymmi conseguiu traduzir através de sons os costumes de um povo, os jeitos de um povo, o pensar de um povo. “Canções Praieiras”, de 1954, é isso: extrapola o sentido de uma simples gravação. É um documento fonográfico de suma importância para tudo o que se possa classificar como cultura no século XX, seja popular, folclórico ou erudito, pois ele foi um criador de linguagem. Como disse  Gilberto Gil , Caymmi é o início da “nova idade de ouro da canção”.
A universalidade da música deste baiano abençoado pelos orixás está em cada som, em cada dedilhado graúdo mas delicado na viola, em cada entoar do seu barítono, em cada rebolado sensual do seu canto. Nos temas, os conflitos, sentimentos e a luta diária pela sobrevivência daquele que vive em contato com o que há de mais primitivo e puro na natureza: o pescador. E os elementos dessa poética são os mais essenciais da vida: o mar, a água, a terra, o vento, a noite, a morte. De uma coesão conceitual impressionante, as oito faixas que compõem o disco trazem tudo isso do primeiro ao último segundo. Terra, mar e céu, assim como as dimensões do homem, da natureza e do místico, são trazidos em sua poesia em plena simbiose, equiparados, indistinguíveis. Tudo voz e violão, executados com tanta naturalidade que passa a sensação de que ele gravou na beira da praia, com os pés sobre a areia e olhando pro mar, apenas deixando os sons virem.
“Canções Praieiras” é uma escritura de clássicos absolutos, todos irreparáveis. O que dizer de “É Doce Morrer no Mar”, “O Mar” ou “A Jangada Voltou Só”? Operísticas, as três trazem o tema da morte, mas abordado sob a ótica mística e singela do pescador. Deslumbrante, mágico e de uma dramaticidade teatral espantosa. De tão visuais, é possível enxergar um filme em cada música. Misturando um pouco das histórias de cada uma, olhem só no que dá:

CENA 1 - EXTERNA – FIM DE TARDE – Várias tomadas do mar agitado.

CENA 2 - INTERNA – FIM DE TARDE - Pescador Pedro se despede com pesar de sua amada, Rosinha de Chica, pois não sabe se vai voltar da pescaria.

CENA 3 - INTERNA – FIM DE TARDE – Já sozinha, Rosinha, intuindo o pior, reza chorando.

CENA 4 – INTERNA/EXTERNA – NOITE - Pedro e seus companheiros, Chico, Ferreira e Bento, encontram-se na praia para iniciar o trabalho. Pegam a jangada e ganham o mar bravio na noite ventosa.

CENA 5 - EXTERNA – NOITE – Já em alto-mar, as águas se revoltam. Os pescadores acreditam ser por vontade de Iemanjá. Eles lutam para sobreviver, mas não resistem e caem no mar.

CENA 6 - EXTERNA – MANHÃ - A jangada aparece na beira da praia toda quebrada e sem os pescadores. Juntam várias pessoas da comunidade de Jaguaripe. As moças choram de fazer dó. Comoção geral.

CENA 7 - EXTERNA – MANHÃ – O corpo de Pedro aparece em outra ponta da praia próximo às pedras, todo roído dos peixes.

CENA 8 – EXTERNA – TARDE – FLASHBACK – Os pescadores felizes na festa da aldeia. Chico vestido de boi adornado na procissão de Natal. Bento, cantando modinhas e dançando, diverte a todos. Pedro e Rosinha trocam olhares de amor.

CENA 9 – EXTERNA – FIM DE TARDE - Rosinha, traumatizada, enlouquece. Passa a zanzar pela praia catatônica e com os olhos marejados dizendo baixinho: “Morreu. Morreu”.

CENA 10 – EXTERNA – FIM DE TARDE – Sob o sol vespertino, a onda do mar quebra lindamente na areia da praia.

FIM

Um roteiro de cinema perfeito! Caymmi é capaz de criar imagens, verdadeiros quadros da realidade de uma cultura, semelhante ao que fizeram, cada um em sua área, Jorge Amado, Caribé e Pierre Verger da mesma Bahia de Todos os Santos. Neste sentido, a música de Caymmi é extremamente figurativa, pois consegue ser literária ao mesmo passo que é cênica e imagética. “Canoeiro”, das que mais me assombro, reproduz em sons e versos o movimento sincronizado e o canto de um grande grupo de pescadores no ato da pesca, com aquela rede gigante sendo tirada do mar lotada de peixes. Sempre que ouço lembro sempre de cenas de “Barravento”, do também baiano Glauber Rocha.


O fantástico (sereias, lendas, cultos, santos, Batucajé) está constantemente presente. Assim é a incrível “Lenda do Abaeté”, com seus acordes de violão graves parecendo berimbau e clima introspectivo (até assustador) que arrepia ao se escutar, pois dá a impressão que faz suscitar sensações muito viscerais do ser humano. O disco fecha com a brejeira “Saudade de Itapoã”. Em águas calmas.
É de Caymmi que nasce toda a construção melódica da MPB moderna – esta uma das mais modernas e criativas expressões musicais de todo o mundo no último século. Carmen Miranda conquistou o planeta mostrando, com música dele, o que é que a baiana tem. Os grandes intérpretes, de Nelson Gonçalves a  Gal Costa, de Elizeth Cardoso Nara Leão, sempre reverenciaram sua obra. A bossa nova herdou-lhe as inusitadas dissonâncias, o ritmo e o gingado nordestino do samba, além da engenhosidade timbrística e harmônica e, largamente, o estilo sintético. Voz e violão. Foi o exemplo que bastou para  João Gilberto ajudar a criar uma música universal como a bossa nova.
Tudo isso porque, mais do que um músico que transpõe a realidade para sua arte, Caymmi é, justamente, ator e personagem dessa própria realidade. Ele é sua própria arte. Morto em 2008, deixou uma obra relativamente pequena se comparado com outros contemporâneos seus (Cole Porter, Noel Rosa, Carlos Gardel, Pixinguinha, Ernesto Lecuonda). Mas sua música vai além das fronteiras da própria música; é arte em sua mais pura essência. Simplesmente, Dorival Caymmi é como o mar quando quebra na praia: é bonito. É bonito.
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FAIXAS:
01 - Quem Vem Pra Beira do Mar
02 - O "Bem" do Mar
03 - O Mar
04 - Pescaria (Canoeiro)
05 - É Doce Morrer no Mar
06 - A Jangada Voltou Só
07 - Lenda do Abaeté
08 - Saudade de Itapoã

(Todas de autoria de Dorival Caymmi)

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terça-feira, 22 de maio de 2012

cotidianas #159 - "Bitter Sweet Symphony"



The Verve - Bitter Sweet Symphony [1997][SkidVid] por Heupiyapa

Madonna - "MDNA" (2012)


Dei de presente pra ‘patroa’ o novo CD da Madonna, o “MDNA”, e mesmo não tento lá grandes expectativas por conta do último trabalho da cantora, 'Hardy Candy", uma vez o tendo em casa, então, resolvi escutá-lo e dar uma chance. Mas,contrariando a minha má vontade, minha desconfiança para minha agradável surpresa o disco é bem interessante. Bom disco, mesmo! Havia lido em algum lugar que o disco era excessivamente diversificado e por isso não tinha uma identidade, mas na minha opinião a variedade de possibilidades propostas por Madonna e seus produtores, é exatamente um dos principais méritos do trabalho. Se é pra ter uma linha e ficar na mesmice do álbum anterior, tal coerência de linguagem é completamente contraproducente, mas neste, a exemplo de “Like a Prayer”, onde atacava na música negra (‘Like a Prayer”), pop básico (“Express Yourself”), funk minimalista (“Love Song”), balada à espanhola (“Spanish Eyes”),  Madonna e seus parceiros, dentro de uma linguagem de música eletrônica, desfilam diversas facetas e alternativas, tendo como resultado um produto final altamente interessante.
Já havia gostado muito de “Give me All Your Lovin” quando a ouvi pela primeira vez no intervalo do Superbowl e ouvindo agora, a sensação só se confirma, nesta música que tem um dos refrões mais bacanas da música pop nos últimos tempos com aqueles gritos de cheerleaders e aquele clima super up. Mas surpreenderam-me muito positivamente também a primeira faixa do álbum “Girl Gone”, um bom cartão de visitas; a minimalista, agressiva, de batida forte e marcada, “Gang Bang”; a lenta “Masterpiece”, uma espécie de ragga com tons espanhóis; e a excelente “I’m Addicted” com sua levada furiosa e uma performance impecável da cantora, num 'punk-eletrônico' que lembra de certo modo Kraftwerk (sei que é redundância dizer que música eletrônica lembra os robôs, mas em especial remete às músicas do “Computer World”). Madonna ainda se aventura em “Free Falling” que fecha o disco, a cantar sobre uma base orquestrada de cordas, numa canção que soa quase como uma oração, e, surpreendam-se, senhores, sai-se muitíssimo bem dando um final mais que digno pra o álbum.
De resto, algumas são popzinhos competentes, outras, na verdade, descartáveis outras poucas dispensáveis, mas no geral, Madonna, cercada de uma boa retaguarda (William Orbit, Martin Solveig, Benny Bennassi) consegue de novo nos proporcionar mais um bom trabalho em sua discografia.
Não chega a ser um "True Blue", um “Erotica”, um “Like a Prayer” mas é um filho legítimo que não pode negar que ali tem o DNA da Rainha do Pop.

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Ouvir:

domingo, 20 de maio de 2012

The Beatles - "A Hard 's Night" (1964)



Na milésima postagem publicada no Clyblog, um A.F. especial com a maior banda de todos os tempos pelos ouvidos do meu amigo  Christian Ordoque .
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"Pouca gente se dá conta, mas este disco é uma trilha sonora."


Bom, como vocês podem ter notado, sou uma pessoa que dá bastante valor ao lado pop das produções culturais (ou ao lodo cult das produções pop). Por isso escolhi este que é o terceiro disco dos Beatles, lançado em 1964 para conversar com vcs. O  ClyBlog  já fez belos reviews sobre os  ÁLBUNS FUNDAMENTAIS,  "Revolver" e "Sgt. Peppers" que abordam uma fase maravilhosa e experimental do Beatles (colocar os links nos nomes). Este é o “The Head on The Door” (The Cure), o “True Stories” (Talking Heads) ou o "Rocket to Russia" (Ramones) enfim um disco tão bom que tem cara de 'Best Of....'
Trilha sonora do filme homônimo, a "Hard Day´s Night" , este disco reflete bem o poder de composiçáo pop que os Beatles atingiram nesse disco, onde todas, repito, todas as músicas têm cara de Hit Single e todas tem menos de 3 minutos de duração. Começa com 3 músicas compostas por Lennon “A Hard Day´s Night” mais uma das músicas cartão de visitas (aquela que consegue resumir o que será o disco todo), “I Should Have Known Better” (conhecida e divulgada no Brasil através da versão do Renato e Seus Blue Caps chamada Menina Linda) e “If I Feel” uma pérola muito bem arranjada e cantada com muita suavidade, em um casamento perfeito de vozes entre Lennon e McCartney.
Em seguida vêm a primeira composição Lennon / McCartney que foi cantada pelo Harrison que é “I´m Happy Just to Dance With You”. “And I Love Her” é a primeira do McCartney a aparecer nesse disco e também teve uma versão na época da Jovem Guarda feita pelo Roberto Carlos chamada 'Eu Te Amo'.
Nas 2 músicas seguintes são 2 aulas de guitarra base. Uma composição do Lennon “Tell Me Why”, que tem uma guitarra base maravilhosa tocada por Lennon que se ouve bem pouco, mas que merece muito o esforço de tentar. “Can´t Buy Me Love”, clássico do McCartney presente até hoje em suas turnês e que tem a guitarra acompanhando a bateria e deixando o baixo livre para passear entre os instrumentos.
“Any Time at All” e “I´ll Cry Instead” esta última em um clima bem country são outras 2 músicas do Lennon. Músicas de transição que existem em todo bom álbum fundamental.
“Things We Said Today” é uma composição do McCartney com a característica bateria do Ringo, fazendo a base para acordes eventuais do Harrison. E entramos na reta final com as últimas 3 músicas, todas do Lennon “When I Get Home”, a clássica “You Can´t do That” que tem um detalhe de um metal tocado pelo McCartney que é a base ritmica da musica e termina este disco a maravilhosa “I´ll Be Back” onde Lennon mostra que pode fazer músicas tão suaves e ternas como o McCartney. Em resumo, de 13 músicas. 9 do Lennon, 1 Lennon / McCartney e 3 do McCartney e um clássico eterno. É seu Lennon, dessa vez tirei o chapéu para o Sr.
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FAIXAS:
1. "A Hard Day's Night" 2:34
2. "I Should Have Known Better" 2:43
3. "If I Fell" 2:19
4. "I'm Happy Just to Dance with You" 1:56
5. "And I Love Her" 2:30
6. "Tell Me Why" 2:09
7. "Can't Buy Me Love" 2:12
8. "Any Time at All" 2:11
9. "I'll Cry Instead" 1:46
10. "Things We Said Today" 2:35
11. "When I Get Home" 2:17
12. "You Can't Do That" 2:35
13. "I'll Be Back" 2:24



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sábado, 19 de maio de 2012

Os Causo de dois Morro - O Imperador Tiramizu



Dois Morro, no passar do tempo, já recebeu muita visita importante. Já fôro lá Napoleão Boaparte, John Leno, Cristóvo Com o Lombo, Tomás Édisso, e muitos ôtro. Té Jesus Cristo já foi lá e foi recebido pelo Prefeito da época, seu Epaminondas Fragoso da Rocha com toda a pompa e respeito que merecia.
Mas em 1736, se não me falha as ideia, teve uma visita que eu nunca que vô me esquecê: teve lá o Imperador Tiramizu, que era na época o Rei do JáBrioche, uma ilhazinha miudinha que despois cresceu e passô a se chamá JaPão.
Sei que o pessoar do tar do lugar apreciava muito a carne de profiteróle porque dizio que era melhor do que os pêxe deles pra fazê sushi. Nóis lá de Dois Morro não gostemo muito dessa coisa de comer profiteróle pra mijá meió, mas o home explicou que num era nada disso e que o tar do sushi era na verdade carne crua. Nóis não gostemo disso tamém mas... cada um com seus gosto, como já dizia a Dona Nilda, que gostava de comê ranho.
Sei que os japonêis visitaro as terra do Coroné Epaminondas, visitaro as plantação de presunto e as de ovo, tomaro Coca-Cola direto nas teta das vaca, ficaro tão impressionado com tudo que nem discutiro preço: compraro 100 tonelada de carne de profiteróle e levaro de barco.
Na despedida fizero uma churrascada pro imperador Tramizu no armoço, de tarde jogaro bocha e apostaro carrera em cancha reta, e de noite levaro ele e os puxa-saco dele pra zona pra conhecer as guria. Enxero os corno de pinga e não querío saber de pará de safadeza com as xina. Elas só se espantaro com o tamanico das minhoquinha dos jabriochês mas como eles tavo pagando bem e elas num tavo sentindo nada mesmo, deixaro os home se diverti.
Sei que no ôtro dia embarcaro tudo de ressaca e fôro simbora com o navio cheio de carne de profiteróle e pinga do alambique do Véio Bida.
Aquela noitada na Rua do Buraco Molhado com o imperador Tiramizu entro pros anal de Dois Morro.

postado por Chico Lorotta

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Coluna dEle #25




Ói, aê! È nóis!
Como é que ‘cês tão?
(Bom, ninguém melhor do que Eu pra saber como é que vocês estão.)
Deixa pra lá.
Aqui em cima tudo na Minha Santa Paz.
Finalmente ajustamos o sistema de clima que tava desregulado há meses e, tirando essa sequinha no Nordeste aí, uma tremidinha de terra no México, e alguma coisinha que outra, até que as coisas estão direitinho. Pedrinho deu um jeito no sistema de irrigação e aquelas enchentes deram uma parada (por enquanto).
Que Eu conserve assim!
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E aí no Brasil?
Tenho lido os jornais, acompanhado os noticiários.
É só essa coisa de Demóstenes, Cachoeira, Delta, Dadá... Até então o único Dadá que Eu conhecia até então era o Dadá Maravilha. Esse negócio já ta enchendo o saco. Toda dia tem novas revelações, uma conversa nova, aliás, conversa não, trecho da conversa. Não, nem trecho, uma frase. Ora, cacete! Não Me encham os colhões.
Façam o que tem que fazer e pronto, se é pra cassar o safado, caça; se é pra abrir CPI, abre, mas vamos botar uma noticiazinha nova, vamos. Por favor.
Pior é que aqui em cima, o pessoal andou contratando uma empresinha pra fazer uma reforma, gastou uma fortuna e agora o financeiro tá contestando as contas. Tô pensando seriamente em abrir uma CCI (ah, aqui a gente chama de Comissão Celestial de Inquérito).
Vamos ver se algum safado anda metendo a mão no Meu dinheiro. Conheço os caras que trabalham pra mim, confio neles ‘até ali’ mas não boto a mão no fogo por ninguém.
Tão pensando o que? Ninguém é santo aqui.
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Por falar em safados, vi que vão abrir a tal da Comissão da Verdade por aí, né?
Tem neguinho se cagando com isso, hein!
É, é muito bom fazer todas as barbaridades que Eu vi os caras fazendo e agora querer ficar tranqüilamente na sala comendo pipoca.
Se bem que pelo que sei é só pra SABER a verdade e não pra fazer justiça com ninguém.
Balela!
Não se preocupem, se não fizerem nada por aí, eu já tenho um lugarzinho resevado pra  todos lá no andar de baixo. Já combinei tudo com o Lu.
(ah, Lu, pra quem não sabe é o modo carinhoso como Eu chamo o Lúcifer. O Diabo, o Belzebu, o Coisa-Ruim. A gente diverge um pouco mas procura manter um boa relação. Na verdade ele trabalhava pra Mim, o problema foi que ele resolveu abrir o próprio negócio.
Eu não concordo muito com a política administrativa nme com os métodos dele, mas a gente procura se respeitar).
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Mas por falar em revelações, verdade, coisas expostas e tal, e essas agora de fotos vazando na Internet, vídeos e tudo mais! Que coisa, não? Não se tem mais sossego.
A propósito, andei vendo as fotos da tal da Carolina Dieckmann... Fui Eu que fiz mas não lembrava como era a menina. Não é das minhas obras-primas mas até que dá pra dar um talagaço ali. Só tem que dar uma aparada naquele matagal, mas fora isso o material não é de se jogar fora.
Mas falando sério: não se pode nem mais mandar o PC pro conserto, perder um celular, que um curioso mal-intencionado qualquer pega e espalha por aí. Eu mesmo esses dias fiquei todo borrado porque mandei o meu lap-god pra assistência técnica e depois é que eu lembrei que tinha um vídeo meu dançando pelado no banho. Foi o Filhão que gravou (esse guri!). Ele tava estreiando a câmera nova dEle e inventou de entrar no banheiro quando Eu tava tomando banho, aí, Eu, só de sacanagem, comecei a dançar um “Ai Se Eu Te Pego”. Salvei o arquivo no computador mas esqueci de apagar antes de levar pra consertar.
Ainda bem que o técnico não encontrou isso.
Imagina se cai na rede.
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Por falar em dançar, alguém aí sabe Me explicar o que que é 'Tchu, Tchá' e 'Tche-tche-tche-rê'?
Eu não tô entendendo bulhufas.
Vocês ainda vã Me enlouquecer.
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Bom, chega por hoje.
Tenho um Mundo inteiro de problemas pra resolver e não posso Me dar ao luxo de ficar aqui escrevendo em bloguezinho o dia todo.
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Se o safado do técnico encontrou o vídeo e publicar, por favor denunciem para
que eu dou um jeito nele e tiro a Internet do mundo inteiro do ar.

Valeu?
Fiquem Comigo e até a próxima.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Van Morrison - "Moondance" (1969)



"Não me encaixo nos padrões do showbiz, definitivamente"
Van Morrison



 Depois de um trabalho ‘difícil’, introspectivo, de vendagens baixas, um projeto conceitual quase acústico, como foi "Astral Weeks", o inquieto e criativo Van Morrison tirava da cartola outra obra-prima. “Moondance” de 1969, visitava o jazz, o soul, o blues, o folk, com beleza, sutileza e sofisticação. “Moondance” a canção que nomeia o disco é exemplo perfeito desse apuro sonoro, num jazz-rock charmoso cheio de metais e de interpretação impecável do cantor.
As baladas “Crazy Love” e “Brand New Day” são duas preciosidades, a primeira com uma bela linha gospel das backing vocals e a outra altamente sofisticada em sua composição misturando jazz, country e gospel de uma maneira incrível, com destaque para o trabalho de piano e para uma slide-guitar chorosa que conduz a canção.
“These Dreams of You” é bem blues; já “Into the Mystic” vai mais pelo lado regionalista, interiorano, explorando de certa forma uma veia folk no trabalho de Morrison; e “Caravan” destaca-se sobemaneira pela interpretação envolvida e intensa do cantor. “And It Stoned Me”, que lembra bandas fúnebres de New Orleans por causa dos metais, é absolutamente notável; a embalada “Come Running”, carregada no soul é espetacular; “Glad Tidings”, que também vai por essa linha black-music não faria feio pra nenhum James Brown; e o rock-barroco “Everyone” ainda é resquício do trabalho anterior de Morrison pela levada acústica e uso de flautas.
Se parecia que Van Morrison tinha chegado ao máximo com "Astral Weeks", “Moondance” estava lá, pelo menos para botar aquela duvidazinha na cabeça dos fãs e críticos.
Eu sou um que fico com essa dúvida? Qual o melhor, “Moondance” ou "Astral Weeks"?
Na dúvida, tenha os dois.

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FAIXAS:
1. "And It Stoned Me" — 4:30
2. "Moondance" — 4:35
3. "Crazy Love" — 2:34
4. "Caravan" — 4:57
5. "Into the Mystic" — 3:25
6. "Come Running" — 2:30
7. "These Dreams of You" — 3:50
8. "Brand New Day" — 5:09
9. "Everyone" — 3:31
10. "Glad Tidings" — 3:42

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Ouça:
Van Morrison Moondance


Cly Reis

terça-feira, 15 de maio de 2012

Camisa de Vênus - "Viva" (1986)


"Bota pra fudê!"




Ele é uma espécie de "Live at Leeds" brasileiro, um “Live at Apollo” tupiniquim, um “Janis in Concert” em Santos. Possivelmente seja o grande disco ao vivo nacional de todos os tempos. Sei que tem o “Sinal Fechado” do Chico, o “Barra 69” do Gil e do Caetano, o “Rádio Pirata Ao Vivo” do RPM, “O Tempo Não Pára” do Cazuza, mas nenhum deles tem essa energia contagiante, a integração com o público, a  anarquia do “Viva”do Camisa de Vênus.
Por um irônico acaso (será?), gravado no Dia Internacional da Mulher daquele 1986, o show é um festival de deselegâncias e baixaria conduzidos com uma irreverência e bom-humor tais por Marcelo Nova que ficaria impossível mesmo para a mais ferrenha das feministas ficar chateada com aqueles caras ali mandando bater com um pau numa mulher.
O discurso antes de tocarem a música “Sílvia”, lembrando da data comemorada, é o que melhor ilustra essa sacanagem constante no show: primeiro, Nova se defende da acusação de machista, elogia, tece loas, rasga seda pelas mulheres, e depois, ao final, como que cobrando pela gentileza, manda a mulherada abaixar as calcinhas. Dá pra levar a sério? Não dá. Tanto que o público, inclusive a parte feminina dele, responde ao refrão “Ô, Sílvia”, puxado por Nova, com o coro pejorativo de “piranha”.
“Bete Morreu”, um punk rock acelerado e pegado é outra que não poupa a mulherada com uma letra pesada e agressiva sobre o estupro e morte uma dondoca da sociedade. Por coisas como essa e pela série de palavrões desferidos desmedidamente é que as execuções públicas de praticamente todas as músicas do álbum foram proibidas, exceção feita a “Homem Forte” canção lenta, séria e cheia de dramaticidade, e à boa “Rotina”.
Mas mesmo que não fosse pelos temas fortes, pela malícia, pelo ar desafiador, pelo tom de protesto bastaria a letra de “My Way”, adaptação do clássico da música mundial outrora imortalizado na voz de Sinatra, para justificar o desejo da Censura de ter o Camisa de Vênus longe dos ouvidos do público. A versão em português criada por Marcelo Nova é um glorioso e fantástico festival de palavrões, sacanagem e putaria do início ao fim desfilado sobre uma melodia simples, compassada, com o público marcando a batida com palmas. Barbaridades como “caminhando de norte a sul eu vi muita gente tomar no cu” e “Eu me fodi mas resisti” são algumas das pérolas que podem ser encontradas nessa adaptação que por certo faz seus autores darem voltas nos respectivos túmulos até hoje.
“Hoje” e “Rotina”, a primeira mais punk que a outra, sonoramente falando, são como supõe os nomes, dois retratos da vida cotidiana, ambos expostos com a habitual acidez, sarcasmo e ironia da banda; e "Solução Final", com letra tipicamente punk, atirando pra todos os lados, desde Guerra Fria, Direitos Humanos até à Coca-Cola, é uma canção apenas interessante, nada mais que isso.
Apresentando uma letra interessantíssima e inteligente que passeia pela História atribuindo pensamentos conflitantes a personagens como Marx, Hitler, Jesus e Freud (“Freud sacou um dia que ele podia pirar”), “Metástase”, é uma daquelas do que se pode considerar a linha séria da banda, novamente com participação superbacana do público, acompanhando a batida forte e marcada com palmas e o tradicional ‘bota pra fudê”, grito que transformara-se numa espécie de marca registrada do Camisinha nos shows.
E com muitos “bota pra fudê” é que a banda é recebida na primeira faixa, na época o grande sucesso da banda, o punk irreverente “Eu Não Matei Joana D’Arc”, numa versão eletrizante, vibrante, pegada, com a galera praticamente dividindo os vocais com o vocalista Marcelo Nova e entoando o refrão num uníssono arrepiante.
O encerramento do álbum não podia ser mais adequado: “O Adventista”, a derradeira faixa, é um daqueles finais históricos. No que Marcelo Nova anunciava como sendo “O Hino da Nova República”, com letra de fino sarcasmo em que ‘se esforça’ em botar fé em diversas coisas não muito críveis, promissoras ou recomendáveis, chegando à conclusão pessimista de que tudo não tinha mais jeito mesmo, e tascando então, no finalzinho, um “Pai Nosso” alternando cada frase da oração com o refrão “não vai haver amor nesse mundo nunca mais” deixado a cargo do público. Êxtase total! Final apoteótico!
Este é outro daqueles casos clássicos em que é altamente recomendável que se tenha o formato LP. Embora o CD tenha faixas a mais, estas não são ao vivo. São simplesmente faixas bônus de estúdio, o que não paga o fato de perder uma das boas músicas do show, “Rotina” que curiosamente não aparece na mídia digital. Além disso, e não menos importante, a versão CD não tem o tal discurso machista no início de “Silvia” e muda a ordem das músicas, o que faz toda a diferença em determinados casos como a inversão da seqüência “Sílvia” com “Bete Morreu”; o fato de “My Way” no disco abrir o lado B; e a passagem de “Metástase” para “O Adventista” que no CD, nem sequer é a última das ao vivo. Ou seja, se tiver toca-discos em casa, vale a pena dar uma catada no LP por aí pelas feiras e brechós da vida.
Tipo de disco que dá vontade de ver a banda ao vivo. Sempre quis depois de ter ouvido o “Viva” mas pensei que tivesse perdido a oportunidade para sempre quando a banda anunciou sua primeira separação, porém anos depois, quando anunciaram uma reunião (caça-níqueis, diga-se de passagem) para shows, não desperdicei a chance. Assisti finalmente a um show dos caras no Auditório Araújo Vianna em Porto Alegre, pelo prazer de presenciar toda aquela vibração, curtir aquele punk irreverente, mas muito também pelo gosto de gritar, ali, ao vivo, junto com a galera “Ô, Sílvia piranha”, “não vai haver amor nessa porra nunca mais”, e claro, como não poderia deixar de ser, o “bota pra fudê”.
BOTA PRA FUDÊ, Camisa!
BOTA PRA FUDÊ!

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FAIXAS (ordem do LP):
 Lado A
1. "Eu Não Matei Joana D'Arc" (Gustavo Mullem / Marcelo Nova)
2. "Hoje" (Karl Hummel / Marcelo Nova)
3. "Homem Forte" (Karl Hummel / Marcelo Nova)
4. "Solução Final" (Karl Hummel / Marcelo Nova)
5. "Rotina" (Karl Hummel/ Gustavo Mullem / Marcelo Nova)


Lado B
1. "My Way" (Anka / François / Revaux / Thimbault / versão: Marcelo Nova)
2. "Bete Morreu" (Marcelo Nova / Robério Santana)
3. "Silvia" (Marcelo Nova / Robério Santana)
4. "Metástase" (Karl Hummel / Marcelo Nova)
5. "O Adventista" (Karl Hummel / Marcelo Nova) 

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Ouça:


O Frango Atirador


quarta-feira, 9 de maio de 2012

cotidianas #158 - Lua Cheia Nova




Lua lua
Inteira na esfera
Enevoa mas clareia
A noite escura


Lua lua
Astro-irmã do meio
Mancha o preto com a luz
que não é sua



sexta-feira, 4 de maio de 2012

The Cure- "Pornography" (1982)

"As críticas foram muito divididas,
não ia muita gente aos shows,
mas eu sentia que finalmente
havíamos feito um grande disco."
Robert Smith


Durante muito tempo este foi o disco da minha vida. Hoje em dia tenho que admitir que não é mais "O" disco da minha vida, conheci muitos outros, descobri coisas interessantíssimas de alta qualidade, alto valor técnico, histórico, referencial, etc., mas posso afirmar tranquilamente que ainda é "UM DOS" grandes álbuns da minha discoteca. Naquela época, metade dos anos 80 quando descobri o The Cure, auge da minha fase darkzinha, se tinha um disco traduzia precisamente todo aquele clima e atmosfera era certamente o "Pornography" do The Cure. Um disco denso, pesado, de letras mórbidas, sofridas, sombrias e negativas, muito centralizado nos trabalhos de bateria e com arranjos de guitarra marcantes e bem desenhados.
A pessimista "One Hundred Years" ("It doesn't matter if we all die") que abre o disco exemplifica bem isso: uma programação de bateria contínua muito bem desenvolvida com uma guitarra estridente e angustiante como que solando o tempo todo e teclados preenchendo os espaços sufocantemente. "One Hundred Yeras" parece sangrar.
Com uma batida tribal lenta e cansada, a bizarra, surreal e inquietante "Siamese Twins" traz outro trabalho de guitarra notável de Robert Smith em uma interpretação dolorida e agonizante.
'The Figurehead", outra das grandes do álbum tem por sua vez destaque para o baixo de Simon Gallup, numa condução firme, com uma melodia dura, acompanhando uma batida de tons militares de Tolhurst, numa canção que aborda o tema das drogas, tão presente no grupo naquele momento, e os efeitos de estar preso a elas ("I will never be clean again").
"Strange Day", talvez a mais leve do disco também traz outra performance legal de Gallup no baixo, com uma base que lembra muito a de "Charlotte Sometimes"; "A Short Term Effect" vem com uma 'confusão' de guitarras zunindo, dando rastantes, cortando o ar, quase sufocadas pelo som da beteria que parece querer estourar; a gélida "Cold" depois de iniciar com um violoncelo aterrador, explodir numa batida alta e poderosa, se transforma numa suplicante e sombria canção de amor ("Your name like ice into my heart"); e "Hanging Garden", o single do álbum, mostra o perfeito conjunto na proposta do projeto, desde a programação de bateria em rolos contínuos de Tolhurst, ao baixo seguro e preciso de Gallup, e na guitarra aguda e perturbadora de Robert Smith, completada por sua interpretação amedrontadora.
O Cure que sempre deu bons desfechos para seus discos, neste não fez diferente e, se não trata-se de uma grande canção, esta que é o título do álbum, "Pornography", sem dúvida alguma, no mínimo faz com que fiquemos com as sensações de inquietude e angústia vivas mesmo depois que a música barulhenta e claustrofóbica, cheia de ruídos e de diálogos de filmes incompletos e indecifráveis, é interrompida quase que abrupatamente terminando a audição. De deixar sem fôlego.
Certamente até hoje, um dos grandes discos da minha vida.

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FAIXAS:
  1. One Hundred Years
  2. A Short Term Effect
  3. The Hanging Garden
  4. Siamese Twins
  5. The Figurehead
  6. A Strange Day
  7. Cold
  8. Pornography
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Ouça:
The Cure Pornography



Cly Reis