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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

"O Lobo de Wall Street", de Martin Scorsese (2013)






Uma das melhores combinações que existem atualmente no cinema norte-americano chama-se Scorsese/DiCaprio. Um, atrás das câmeras, e o outro, à frente. Martin Scorsese, o mestre que soube impor à indústria mais do que elementos narrativos, fílmicos e estilísticos da cena underground, mas, sim, o seu próprio olhar sensível e afiado sobre a sociedade, o qual acolhe o realístico e o fantástico. Leonardo DiCaprio, por sua vez, é o grande ator hollywoodiano da atualidade, capaz de, como os bons da arte de atuar, encarnar os papeis desde galã até os mais agudos sem parecer ele mesmo de uma atuação para a outra.

Pois “O Lobo de Wall Street” (2013), quinto trabalho em conjunto da dupla, vai além da estreia da parceria no inconsistente “Gangues de Nova York” (2002), em que é Daniel Day-Lewis quem cumpre o “fator Robert de Niro” e não DiCaprio; de “O Aviador” (2004), épico mas de difícil deglutição, já com DiCaprio à frente; e do brilhante e premiado “Os Infiltrados” (2006), em que o panteão de astros (Nicholson, Damon, Wahlberg, Sheen) faz com que os holofotes se dividam. Neste novo longa, porém, a química do trabalho entre os dois está amadurecida e DiCaprio conduz o filme com total controle num papel de difícil equilíbrio dramático, pois construído sobre o perfil psicológico preferido de Scorsese muitas vezes assumido pelo talhado e exemplar de Niro: personalidade obsessiva, ambiciosa, extravagante e depressiva mas com grande poder de atração.

O filme conta a história do “vida loka” Jordan Belfort (DiCaprio), um jovem sem orientação dos pais que vai trabalhar como corretor em Wall Street, onde conhece Mark Hanna (Matthew McConaughey, magnífico nos menos de 10 minutos em que aparece), de quem recebe ensinamentos de como lidar com dinheiro, o que acaba levando para toda a vida. A Segunda-Feira Negra, no entanto, faz com que as bolsas caiam repentinamente e Belfort perca o emprego. Vai trabalhar, assim, numa corretora de fundo de quintal que lida com papéis baratos. Lá tem a ideia de montar uma empresa focada neste tipo de negócio, cujas vendas são de valores mais baixos mas, em compensação, o retorno para o corretor é bem mais vantajoso. Cria, então, ao lado de Donnie Azoff (companheiro de todas as horas e carreiras de pó) e de meia dúzia de amigos na mesma vibe de enriquecer, a corretora Stratton Oakmont, uma máquina de produzir dinheiro que faz com que todos passem a levar uma vida sem limites dedicada ao prazer, ao sexo e às drogas.

Neste sentido, Belfort se parece com Henry Hill (Ray Liotta) de “Os Bons Companheiros” ou Jimmy Doyle (DeNiro) de “New York, New York”, fator este que pode ser a única crítica possível ao filme. Ao rodar uma nova “cinebiografia sem cortes” depois de uma fantasia infantil, "A Invenção de Hugo Cabret" (2011), e de um terror psicológico, "Ilha do Medo" (2010) – seus dois trabalhos anteriores –, Scorsese estaria repetindo o formato de “Os Bons...”, “Aviador” ou “Touro Indomável”. Sim, de fato. Mas qual o problema? Além de divertir com suas tiradas e cenas de humor grotesco (a cena em que DiCaprio cheira cocaína para anular o efeito de outra droga e reassumir o controle do próprio corpo para salvar o amigo, fazendo um paralelo com o desenho do Popeye comendo espinafre na televisão, é digna dessa classificação) e da habitual montagem hábil da mestra Thelma Schoonmaker, “O Lobo...” é exemplar em atuações, não só do protagonista (Jonah Hill, como Donnie, merece inquestionavelmente um Oscar de Coadjuvante, o qual concorre), mas em condução narrativa, ainda mais tratando-se de uma produção de 3 horas, que o espectador não vê passar tamanha a capacidade de prender-lhe a atenção.

A belíssima Margot Robbie
como Naomi, a esposa de Belfort
Igualmente, o filme presenteia o mundo com a beleza e o talento da australiana Margot Robbie, no seu primeiro papel de relevância em Hollywood, e com a sempre magnífica trilha sonora (que contém coisas como Bo DiddleyAhmad Jamal Trio, Alcatraz, Foo Fighters, Devo e Cypress Hill, sabidamente resultado do gosto pessoal de Scorsese). Mas, como ressaltado anteriormente, é a força cênica de DiCaprio que sustenta “O Lobo...”, de quem o diretor consegue extrair a representação certa daquilo que pretende evidenciar: o sistema esquizofrênico e superficial da sociedade moderna. Ou melhor, da construção dos porquês desse sistema, uma vez que a biografia do contraventor Belfort transcorre da metade dos anos 80 até os dias atuais, acompanhando fatos históricos como a Black Monday, o avanço tecnológico, a entrada de novas drogas no mercado, etc. O fato de o protagonista se tornar um respeitado e rico consultor empresarial (o que, de fato, ocorre, uma vez que a história, roteirizada por Terence Winter, é baseada na autobiografia do próprio Belfort), em contraposição à enlouquecida investida no submundo, elemento psicológico reforçado ao espectador durante todos os minutos antecessores, deixa claro tal crítica. Quem são essas pessoas públicas a quem estamos endeusando? O que está por trás dessa imagem que a mídia engendra e tenta vender ao maior número de pessoas possível? A que caminhos levam a supervalorização do dinheiro e do prazer físico-carnal? Perguntas que ganham novos pontos de interrogação na abordagem realística e desmistificada impressa por Scorsese, coisa que ele alcança novamente e “O Lobo...” assim como faz com maestria desde quando, de fato, acertou a mão, em “Caminhos Perigosos”, de 1973.

É satisfatório saber que “O Lobo...” já é a maior bilheteria de Martin Scorsese em sua carreira, tanto pela torcida pelo filme e a ele, cineasta que sempre apostou no questionamento da sociedade contemporânea e na ruptura com os modelos pré-estabelecidos da linguagem cinematográfica (e sem deixar de reverenciar quem gosta), quanto pelo o que isso representa para o cinema em dias atuais: a proposição de uma visão mais integrada das coisas, sem excessos tanto de ideologias yankees imundas nem de rompimento total com a arte. Nem tanto para blockbuster nem para Dogma 95. Cinema, na sua essência, é saber contar uma história em audiovisual de uma forma interessante e cativante. Pois o novo Scorsese/DiCaprio cumpre isso muito bem. Se vai ganhar algum Oscar, mesmo com o ator principal sendo sério candidato, não se sabe, até porque a Academia já cometeu muitas barbaridades em nome de ideologias políticas duvidosas, e uma implicância com alguma ferida que o filme porventura toque não seria de se estranhar que não leve mesmo alguma estatueta. Mas a torcida é válida, pois predicados não faltam ao longa.

trailler "O Lobo de Wall Street"




XPRMNTL nº I









"XPRMNTL nºI", REIS, Cly
gouache e acrílica sobre sulfite aplicadas com papel, algodão e mãos
(29,7x21cm)


REIS, Cly

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Chico Buarque de Hollanda - "Chico Buarque de Hollanda nº4" (1970)




"É muito fácil ser rubro-negro. Fácil demais (...)
Torcer pelo Fluminense, modéstia à parte,
requer outros talentos.
Precisa saber dançar sem batucada.
O tricolor chora e ri sem ninguém por perto.
Ele merece um campeonato, ele merece."
Chico Buarque
para o Pasquim, em 1970


"Chico Buarque de Hollanda nº4", de 1970, é Chico renegando Chico. É Chico tentando desfazer um pouco a imagem de bom moço, de poeta das coisas belas, cantava coisas de amor. E já começa com a primeira do disco, "Essa Moça Tá Diferente" que é uma espécie de crônica de costumes na qual Chico mostrava que sabia os tempos estavam mudando, em todos os aspectos, e que aquela moça que ficava na janela (remetendo à música "Ela e a Janela" de seu primeiro disco), agora tinha outras necessidades e aspirações, representando, de certa forma, a própria música do artista.
Exemplo mais perfeito ainda dessa confrontação é a porrada "Agora Falando Sério", onde num cote venenoso e agressivo, Chico, atira para todos os lados e acerta em si mesmo (propositalmente) desfazendo do lirismo, das composições rebuscadas, da própria poesia, e renunciando à tarefa que parecia lhe caber de abrandar os espíritos através de sua arte. "Agora Falando Sério", cantada quase declamada em determinados momentos, faz referência à diversas canções do próprio autor, mas foca principalmente em "A Banda", música que o consagrara no Festival de Música de 1966 e que exaltava as coisas boas da vida em plena ditadura militar (Dou um chute no lirismo/ um pega no cachorro/ e um tiro no sabiá/ dou um fora no violino/ faço a mala e corro/ pra não ver a banda passar).
Pensa que pára por aí? Não. A espetacular "Rosa-dos-Ventos" é outra que vem derrubando tudo pela frente, cheia de figuras, de metáforas, mas clamando por liberdade, por igualdade e, mais atual do que nunca, diante de Felicianos e outros homofóbicos, servindo muito bem à onda de preconceito que toma a sociedade atualmente. Versos como "E do amor gritou-se o escândalo/ do medo criou-se o trágico..." ou  "...e a multidão vendo em pânico ainda que tarde/ seu despertar", por mais que não tenham sido compostos com a intenção de chamar atenção das pessoas para acordarem diante de seus preconceitos, inegavelmente se prestam para este necessário despertar ao qual Chico se referia.
"Cara a Cara", é mais uma extremamente forte e contundente, contrariando o Chico de outrora. Com seus metais altos, imponentes parecendo fazer uma espécie de espiral musical, e com o vocal coletivo intenso do grupo MPB4, Chico incita a atitude, condena o comodismo e classifica seu próprio ofício de, simplesmente, inútil.
O disco traz também o gostoso samba-canção "Nicanor"; a bela parceria com o maestro Tom Jobim em "Pois é"; o ótimo samba cotidiano "Samba e Amor"; a delicada  e melancólica "Gente Humilde" de Vinícius de Moraes; e fecha o disco de maneira também muito contundente com "Os Inconfidentes", adaptação do texto de Cecília Meirelles, composta para a peça de mesmo nome, que mesmo remetendo ao episódio histórico do final do século XVIII, vinha muito muito a calhar no contexto político daquele momento (Toda vez que um justo grita/ um carrasco vem calar/ quem não presta fica vivo/ quem é bom mandam matar). Mais uma daquelas que Chico dava o recado driblando a censura da época.
Agora, o que é que tudo isso tem a ver com futebol? Por que é que este disco está relacionado aos ÁLBUNS FUNDAMENTAIS Clybola?
Bom, só os fatos do cantor ser um aficcionado por futebol, frequentemente mencionar o esporte em suas músicas tendo inclusive uma delas com o nome "O Futebol", ter um time amador com 'estádio' próprio e, pelo que se diz, além de tudo não fazer feio com a redondinha, já poderiam ser razões o suficiente, mas o caso é que "Chico Buarque de Hollanda nº4" tem uma música tratando do assunto e mais especificamente sobre a rivalidade Fla-Flu. Na música "Ilmo. Sr. Cyro Monteiro ou Receita Pra Virar Casaca Desde Neném", Chico, num samba-choro, de letra brilhantemente composta, 'agradece' ao amigo do título da música, o presente, uma camisa do Flamengo, que o mesmo tentara dar à filha de Chico recém nascida, mas educadamente declina do mimo, argumentando que as cores da menina já estavam definidas e que até poderia manter o vermelho da camisa do rival, mas trocaria o preto pelo verde e pelo branco, do Fluminense.
O disco seguinte, "Construção", confirmaria a mudança de atitude com um Chico mais agressivo e contundente e menos lírico, o que teria suas consequências, uma vez que cada vez mais a censura o marcava de cima. Como um zagueiro implacável. Batendo sempre e muito forte. E o pior é que não adiantava nem reclamar pro juiz.
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FAIXAS:
1. "Essa Moça Tá Diferente"
2. "Não Fala de Maria"
3. "Ilmo. Sr. Ciro Monteiro ou Receita Pra Virar Casaca de Neném"
4. "Agora Falando Sério"
5. "Gente Humilde" (Chico Buarque, Garoto, Vinícius de Moraes)
6. "Nicanor"
7. "Rosa dos Ventos"
8. "Samba e Amor"
9. "Pois É" (Chico Buarque, Tom Jobim)
10. "Cara a Cara"
11. "Mulher, Vou Dizer Quanto Te Amo"
12. "Os Inconfidentes" (Cecília Meireles, Chico Buarque)

todas as músicas de Chico Buarque, exceto as indicadas

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Ouça:
Chico Buarque de Hollanda nº4


Cly Reis


Pix

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

"Ela", de Spike Jonze (2013) e "Nebraska" de Alexander Payne (2013)






A solidão é tema de dois dos filmes que concorrem ao Oscar e que tem um jeitinho diferente de ser. O primeiro é "Ela", do Spike Jonze, que fez, entre outras coisas, "Quero Ser John Malkovich" (1999) e "Adaptação" (2002). Joaquin Phoenix (maravilhoso como sempre) é Theodore, um escritor de cartas no futuro que instala um novo Sistema Operacional em seu computador que tem a voz de Samantha (Scarlet Johanssen, incrível). Com o passar do tempo, Theodore, que tenta se recuperar de uma separação, acaba se apaixonando pela voz e pela "personalidade" deste SO autodenominado Samantha. Tudo isso filmado em Xangai e Los Angeles, duas das cidades mais poluídas e desumanas do planeta. Aliás, é isso que Jonze – autor do roteiro – quer mostrar: a substituição das relações pessoais pela tecnologia. Ao sair do filme, sentei num café e fiquei olhando as pessoas ao redor e quase ninguém conversava. Mas todo mundo teclava. Interessantes são os personagens Amy (Amy Adams arrasando de novo!) e Charles (Matt Letscher). Eles são os únicos amigos de Theodore, mas, quando se separam, Charles vira monge budista (uma referência explícita aos amigos de Jonze, os Beastie Boys, cujo integrante falecido, Adam Yauch, também praticava o budismo).  

O caso de amor entre Theodore e Samantha tem todos os ingredientes de um affair "normal". Ou seja, paixão, sexo e ciúme. Até que Samantha descobre que pode "falar" com várias pessoas ao mesmo tempo e, até mesmo, se apaixonar por elas. Não conto mais para não estragar a surpresa, mas Jonze demonstra que ainda tem fé no ser humano.

O segundo filme que lida com a solidão de uma maneira absolutamente diferente é "Nebraska", mas um grande filme de Alexander Payne, diretor de "Eleição" (1999), "As Confissões de Schmidt" (2002) e, especialmente, "Sideways - Entre Umas e Outras" (2004). Um típico road-movie, o filme conta a busca de Woody Grant (Bruce Dern, coroando uma carreira errática, porém com mais altos que baixos) por um milhão de dólares que está convencido que ganhou. Tanto incomoda a mulher Kate (June Squibb, impagável) e o filho David (Will Forte, demonstrando não ser apenas comediante do programa "Saturday Night Live"), que este resolve atravessar dois estados com o pai para buscar o prêmio em Lincoln, Nebraska. A partir daí, Payne vai criando um mundo que ficou parado no tempo. Woody e David vão parar em Hawthorne, cidade natal do idoso. É claro que todo mundo fica sabendo do prêmio e desperta a cobiça de quase toda a população.

A decisão de Payne por filmar em P&B reforça a sensação de vazio e de abandono. Aqui sim temos "50 Tons de Cinza"! A jornada vai se desenvolvendo, mas a solidão e a alienação de Woody em relação ao mundo exterior vão piorando. E também se instala a comunicação entre pai e filho, sempre complicada pelo alcoolismo de Woody. Aquelas paisagens áridas se transformam numa metáfora das relações entre os personagens. A solidão e o desespero das pessoas estão na ganância e na inveja dos "amigos" que Woody deixou em Hawthorne. Um belo e melancólico filme.



O Jogo da Sua Vida #2 - Santos 0 x São Paulo 2 (prorrogação 0x0) (1979)*


Talvez uma pessoa mais conhecedora de futebol fosse mais adequada para esse tarefa de contar sobre um jogo importante na sua vida, alguém mais conhecedor de escalações, técnicas e tal, mas vou dar meu depoimento de um momento que marcou bastante minha vida.
Eu lembro que eu tinha uns 11 ou 12 de idade quando ganhei minha primeira bandeira do Santos. Naquela época, às vezes dava a louca no meu pai, são-paulino como todo o resto da família, e ele dizia "Vamos fazer um bate-e-volta? Comer um peixinho lá embaixo?" Lá "embaixo" que ele se referia era em Santos. Praia de Embaré, no canal 5.
Eu adorava!
O glorioso alvinegro praiano,
campeão absoluto daquele ano
Tinha uma turminha lá que eu era apaixonada. Aliás, era apaixonada por tudo de lá.
Sei que um desses finais de semana de bate-e-volta, deu no dia da final de Campeonato Paulista de 1978*, entre Santos e São Paulo. O Peixe ganhou o título e meu amado tio Cláudio, já falecido, me deu uma bandeira do Santos. Fiquei tão feliz! Nunca vou esquecer.
Eu era pequena e, do jogo mesmo não lembro de muitos detalhes. Lembro de alguns nomes de alguns jogadores, Pita, Juary, Batata, mas lembro mesmo da festa. Gosto da farra das vitórias. Lembro que ficava feliz e abanava na sacada a bandeira que acabra de ganhar do meu tio. Desde aquele dia me tornei uma santista numa família são-paulina.
Não consigo descrever melhor porque me emociono de lembrar dessa época, dessas pessoas. Só de me fazer lembrar deste dia, foi tão bom. Meu papai e tio estavam vivos, meus pais juntos, ainda morávamos no ipiranga, só lembranças boas.
Meu avô falava brincando que eu era a ovelha-negra da família. Meu vôzinho sãopaulino roxo... como meu pai... Como aliás toda a família.
Menos eu.
Uma alvinegra numa família tricolor.


* O Campeonato Paulista de 1978, em função da Copa do Mundo da Argentina, daquele mesmo ano, só foi terminar em 1979, tendo suas finais disputadas em melhor de 4 pontos com vantagem na prorrogação do último jogo, se fosse necessária, para o time de melhor campanha ao longo do torneio. Assim, o Santos Futebol Clube, tendo vencido o primeiro jogo por 2x1, e empatado o segundo em 1x1, mesmo perdendo no tempo normal a partida decisiva por 2x0, garantiu o título com um 0x0 na prorrogação do jogo disputado em 28 de junho de 1979.




Cláudia de Melo Xavier
(torcedora do Santos)

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Oscar 2014 - Indicados



E domingo tem o quê?
Carnaval?
Não!!!
O Oscar.
Pois é, este ano a grande festa mundial do cinema cai junto com a festa de Momo tão celebrada pelos brasileiros. Para os amantes do cinema as atenções se voltam mesmo para Los Angeles, onde acontece a festa de premiação, no pr´ximo dia 02 de março.
Este ano, na corrida pelo prêmio de melhor filme, ao que parece, "Trapaça" de David Russel e "Gravidade" de Alfonso Cuarón saem na frente no favoritismo, mas 'zebras' como "O Lobo de Wall Street" do oscarizado Martin Scorsese, e o já cultuado "Ela" do doidão Spike Jonze, podem surpreender.
Cate Blanchett parece despontar com uma pequena vantagem sobre suas concorrentes, por seu papel em "Blue Jasmine" e Mathew McConnaughey e Bruce Dern prometem uma disputa acirrada pela estatueta de ator.
Com disputas muito equilibradas, de filmes de muito boa qualidade, a maioria das categorias não tem favoritaços disparados, embora algumas tenham bons indicativos. Mas vamos deixar para descobrir no domingo, não?
Abaixo a lista com os indicados em cada categoria:


Melhor filme
Trapaça
Capitão Phillips
Clube de Compras Dallas
Gravidade
Ela
Nebraska
Philomena
12 Anos de Escravidão
O Lobo de Wall Street


Melhor diretor
David O. Russell - Trapaça
Alfonso Cuarón - Gravidade
Steve McQueen - 12 Anos de Escravidão
Martin Scorsese - O Lobo de Wall Street
Alexander Payne - Nebraska


Melhor atriz
Cate Blanchett - Blue Jasmine
Amy Adams - Trapaça
Sandra Bullock - Gravidade
Judi Dench - Philomena
Meryl Streep - Álbum de Família


Melhor ator
Christian Bale - Trapaça
Bruce Dern - Nebraska
Leonardo DiCaprio - O Lobo de Wall Street
Chiwetel Ejiofor - 12 Anos de Escravidão
Matthew McConaughey - Clube de Compras Dallas


Melhor ator coadjuvante
Barkhad Abdi - Capitão Phillips
Bradley Cooper - Trapaça
Michael Fassbender - 12 Anos de Escravidão
Jonah Hill - O Lobo de Wall Street
Jared Leto - Clube de Compras Dallas


Melhor atriz coadjuvante
Sally Hawkins - Blue Jasmine
Jennifer Lawrence - Trapaça
Lupita Nyong'o - 12 Anos de Escravidão
Julia Roberts - Álbum de Família
June Squibb - Nebraska


Melhor canção original
"Alone Yet Not Alone" - Alone Yet Not Alone
"Happy" - Meu Malvado Favorito 2
"Let it Go" - Frozen - Uma Aventura Congelante
"The Moon Song" - Ela
"Ordinary Love" - Mandela

Melhor roteiro adaptado
Antes da Meia-Noite
Capitão Phillips
Philomena
12 Anos de Escravidão
O Lobo de Wall Street


Melhor roteiro original
Trapaça
Blue Jasmine
Clube de Compras Dallas
Ela
Nebraska


Melhor longa de animação
Os Croods
Meu Malvado Favorito 2
Ernest & Celestine
Frozen - Uma Aventura Congelante
The Wind Rises


Melhor documentário em longa-metragem
The Act of Killing
Cutie and the Boxer
Dirty Wars
The Square
20 Feet From Stardom


Melhor longa estrangeiro
The Broken Circle Breakdown
A Grande Beleza
A Caça
The Missing Picture
Omar


Melhor fotografia
O Grande Mestre
Gravidade
Inside Llewin Davis: Balada de um Homem Comum
Nebraska
Os Suspeitos


Melhor figurino
Trapaça
O Grande Mestre
O Grande Gatsby
The Invisible Woman
12 Anos de Escravidão

Melhor documentário em curta-metragem
CaveDigger
Facing Fear
Karama Has No Walls
The Lady in Number 6: Music Saved My Life
Prison Terminal: The Last Days of Private Jack Hall


Melhor montagem
Trapaça
Capitão Phillips
Clube de Compras Dallas
Gravidade
12 Anos de Escravidão


Melhor maquiagem e cabelo
Clube de Compras Dallas
Vovô Sem-Vergonha
O Cavaleiro Solitário


Melhor trilha sonora
A Menina que Roubava Livros
Gravidade
Ela
Philomena
Walt nos Bastidores de Mary Poppins


Melhor design de produção
Trapaça
Gravidade
O Grande Gatsby
Ela
12 Anos de Escravidão


Melhor animação em curta-metragem
Feral
Get a Horse!
Mr. Hublot
Possessions
Room on the Broom


Melhor curta-metragem
Aquel No Era Yo (That Wasn't Me)
Avant Que De Tout Perdre (Just Before Losing Everything)
Helium
Pitääkö Mun Kaikki Hoitaa? (Do I Have to Take Care of Everything?)
The Voorman Problem


Melhor edição de som
Até o Fim
Capitão Phillips
Gravidade
O Hobbit - A Desolação de Smaug
O Grande Herói


Melhor mixagem de som
Capitão Phillips
Gravidade
O Hobbit - A Desolação de Smaug
Inside Llewin Davis: Balada de um Homem Comum
O Grande Herói


Melhores efeitos visuais
Gravidade
O Hobbit - A Desolação de Smaug
Homem de Ferro 3
O Cavaleiro Solitário
Star Trek - Além da Escuridão

C.R.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

cotidianas #275 - Render as Armas


Um de frente para o outro à mesa, Fábio e Cibele almoçavam no restaurante da esquina, ponto que, aliás, vinha-lhes sendo um agradável abrigo todos os dias a aproximadamente um mês desde que foram destacados para trabalharem juntos. Mas aquele dia era diferente. A comida mal descia, o que, convenhamos, não era para menos. Mesmo assim, entre olhares falivelmente infantis, pois perceptivelmente chocados, uma vez que a dilatação das pupilas ainda expandidas os traía, tentavam empurrar algumas garfadas, que, estrategicamente, davam em intervalos espaçados, de modo a tornar o menos incômodo possível o incomum silêncio que dominava o almoço daquele dia. Embora se esforçassem com disciplina militar, não conseguiam esconder o espanto pelo ocorrido. Por isso, silêncio, que, depois de muitos minutos e empenho interior, Fábio quebrou:
- ‘Tá boa essa panqueca, né?..., perguntou, assim, meio sem complemento da frase, meio que só para falar qualquer coisa que desviasse a atenção do que ambos receavam falar.  
- É...  acho que ‘tá... ‘Tá! ‘Tá sim, claro, Sargento Mello, respondeu-lhe, convencendo-se imediatamente daquilo que não havia de fato raciocinado. Ele, então, completando, de maneira a não deparar-se novamente com o ensurdecedor silêncio da mesa, disse, todo idiota:
- É, tá boa mesmo...
Não adiantou. O silêncio voltou implacável, intransigente. Mesmo que, ao redor dos dois, o restaurante e o mundo funcionassem como todos os dias: gentes conversando alto e falando de boca cheia, garçons esfregando mesas com paninhos úmidos e ensebados, ruído de fritura misturado à voz da âncora do telejornal, carros passando na rua com a mão na buzina, solitários e acompanhados mascando a comida com os olhos fixados na tela do i-phone. Tudo transcorria como se nada tivesse acontecido. Curioso é que aquela balbúrdia, que, para eles, ambos vindos da pacatez do interior, geralmente era motivo de divertimento, naquele dia, atazanava-os um pouco.
Ela, no entanto, mais abstraída e audaz, arriscou sair da barricada:
- Capitão Rocha disse que fizemos o certo. Ele elogiou a nossa conduta. Até nos dispensou o resto do dia.
Fábio levantou a cabeça com surpresa, e respondeu com um olhar ainda mais pueril do que aquele que lhe lançava nos momentos de descontração das conversas durante as rondas. Porque Cibele, a Soldado Alves, era pessoa agradável de estar, educada e engraçada, mas tinha uma mania de, às vezes, fazer observações tão sinceras e espontâneas sobre as coisas que lhe deixavam, vira e mexe, com essa cara de bobo. Ele até relevava e se identificava com a atitude dela, afinal, isso faz parte do jeito meio xucro de gente do interior. Mas agora, além do fulminante olhar (o qual já havia sido motivo de comentário na ala masculina do pelotão: “castanho-escuro”, ressaltavam os mais empolgados), suficiente para encabulá-lo, ela ousava mais uma vez tocar num assunto delicado. Sentindo aprovação no silêncio dele – mesmo que de longe não fosse esse o recado que ele quisesse transmitir com tal atitude –, a Soldado avançou mais território:
- Capitão Rocha tem noção do perigo que nós passamos. Ele... sabe, Sargento... essa situação me fez lembrar de uma vez na praia, quando eu era criança.
Garfadas dos dois. Fábio, mudo, pondo-se numa inútil tática defensiva de quem teme onde vai dar aquilo. Cibele, depois de mirar o infinito, que dava na porta do banheiro, mastigando lentamente para digerir a comida e as palavras, rendeu o olhar castanho-escuro, fixou-o em Fábio e prosseguiu:
- Uma vez, quando eu tinha uns 6, 7 anos, a gente tava na casa da minha tia Eunice, irmã da minha mãe. A gente foi veranear na casa que a tia tinha na praia. Era uma praia de rio, água parada e bem morninha. Uma delícia. Eu, meu irmão e meus primos, a gente adorava aquilo, esperava o ano todo pra ‘tá junto e tomar banho no rio.
Fábio parou de comer. Apenas a escutava atentamente.
- Aquele dia, a mãe tirou da cesta um bolo de laranja que ela mesma fez. Lembro que tomei guaraná com bolo debaixo de um solzinho bem claro e ameno, falou, rindo-se toda por conta da lembrança gostosa. Depois de uma pausa, a risada foi morrendo até agravar novamente a expressão da face.
- Depois de comer, dei um beijo na mãe, outro no meu pai e outro na tia, que ‘tavam todos sentados lagarteando um do lado do outro nas cadeiras de praia, e fui correndo tomar banho. Mas sabe come é criança, né? Mesmo que sempre dissessem: “te cuida, não vai muito fundo”, naquela empolgação, naquela festa, a gente não se cuida, não tem jeito, e como dizem lá pra fora...
- “Águas calmas são profundas”.
- Isso mesmo, tu sabe. Não sei o que aconteceu que eu entrei demais pro fundo e me perdi deles dentro d’água, do meu irmão e dos meus primos, que tinham ido comigo brincar e tomar banho. Não dá pra ter clareza do que aconteceu, mas só sei que, quando vi, eu ‘tava longe da praia e meu pé não tocava mais o chão. Me desesperei. Eu ouvi de longe o Marquinhos, meu irmão, gritar, assustadinho: “cadê a Neneca?! Pai, cadê a Neneca?!”. Neneca era eu. Eu tava me afogando. Lembro que eu me bati, me bati e tomei muita água, porque eu não sabia nadar. Não lembro quanto tempo fiquei ali, mas tenho muito forte na minha lembrança que pensei naquela hora que nunca mais ia ver minha mãe, minha boneca, nem a minha professora, nem ia mais pegar o giz pra escrever no quadro-negro da escola, que nunca mais ia ver meu pai sair de casa todo lindo vestindo a farda pra ir trabalhar... sabe... tanta coisa que passa na cabeça numa hora dessas que, sei lá..., riu constrangida, voltando o olhar para a mesa, talvez contendo o choro (o que não deu para Fábio confirmar por causa da cabeça baixa dela).
- E como tu saiu? Porque, tu saiu, né? Se não, não ‘taria aqui, indagou Fábio, curioso.
- Meu pai, né, Sargento Mell...
- Fábio. Pode me chamar de Fábio. A gente trabalha junto faz quase dois meses e convive todos os dias, então, aqui fora, a gente não precisa mais dessas formalidades lá de dentro do regimento. Ainda mais depois disso, de hoje..., calou-se por um segundo, surpreso com o próprio ímpeto, mas retomou a linha numa brincadeira triunfal considerando seu natural acanhamento. – Eu prometo que também não te chamo mais de Soldado Alves, tá?
- Tá bem... Fábio. Fechado, rindo junto com ele, já mais descontraídos. – É, meu pai me salvou. Ele disse que eu tomei muita água, que ficou assustado achando que ia perder a única filha, todo mundo ficou assustado. Minha mãe só chorava, meu irmão e meus primos com os olhos arregalados de culpa. Tia Eunice não falava nada de tão apavorada, isso foi o que me contaram. Até que meu pai fez respiração boca a boca em mim e eu cuspi aquela água toda.
- Deve ter sido horrível.
- Que foi, foi. Mas bastou eu ficar melhorzinha pro meu pai dar umas boas palmadas em mim e no meu irmão e nos botar de castigo, cada um num quarto da casa (risos subservientes dela.). Brabo ele. Mas não tiro a razão. Não sou mãe, ainda, mas numa situação dessas, acho que faria o mesmo. Tem que disciplinar.
- Sim! Seu pai. Grande orgulho pra corporação, o Tenente-Coronel Alves. Pessoa muito correta e competente seu pai. Tive a honra de trabalhar com ele por um tempo, já te contei. Não dava moleza pra bandido nenhum, mas sabia falar até com eles, por isso era respeitado por todo mundo. Agora ‘tá lá ele, longe da cidade, aposentado, curtindo a vida boa, risos partilhados e orgulhosos de ambos. – Ele merece, ele merece. Exemplo pra gente o seu pai.
- Mas tua ação hoje também foi exemplar, Fábio. Acho mesmo. Se não fosse tu perceber o movimento suspeito dele e ter corrido atrás, ele teria arrombado o carro e sequestrado aquela senhora.
- Não posso chamar de “exemplar” o que eu fiz. Não. Eu não me perdoo por aquilo. Escorregar e cair na frente do sujeito?! E ainda levar um tiro que só não pegou em mim porque... sei lá, algum milagre desviou aquela bala de mim. Passou raspando... Tive muita sorte, muita. Ainda bem que tu ‘tava lá, e teve a felicidade de acertar ele na perna.
- Apontei a arma e mandei ele baixar a dele. Ele não atendeu, então...
- Tu fez o que manda a norma. Tu, sim, fez certo. É bondade tua, que é minha parceira, mas, não: não posso achar que agi bem. Eu podia ter morrido!
Falou isso e calou-se, percebendo a gravidade da palavra que acabara de pronunciar: “mor-ri-do”. Aquilo lhe saltou da boca, sem controle, como uma bala de pistola que dispara sem ser acionada. Tentou dar mais uma garfada da comida, quieto, mas já estava fria. Não vendo inimigo à frente, animou-se em continuar:
- Teve uma vez, lá em casa, também quando eu era pequeno, numa Sexta-feira Santa. Faziam, e fazem até hoje, a colheita da marcela nesse dia. Lembro que a vó Nina dizia, toda beata: “marcela colhida na Sexta-feira Santa é abençoada com as lágrimas da Virgem Maria”. Eu morava só com a mãe e a vó – te contei já isso, né? –, e elas iam fazer a colheita naquela noite, e eu ia junto. Eu ‘tava já pronto pra sair, até de sandália no pé. Só que, piá, acostumado a acordar cedo e dormir com as galinhas, até que todas as vizinhas do bairro se reunissem com minha mãe e minha vó demorou bastante. Foi ficando tarde, ficando tarde, e eu não aguentei. Caí no sono. Minha mãe ficou com pena de me acordar, porque já era tarde e ‘tava se armando uma chuvarada. Só sei que elas saíram. Minha mãe, com dois corações, mas saiu.
- E daí?
- Daí que eu fiquei em casa sozinho dormindo, até que começou a chover. Acordei assustado com a casa de madeira estremecendo com o barulho do trovão, olhei pela janela e vi aquele raio forte riscar o céu. Não demorou muito e a chuva desabou. Foi um baita temporal Chovia muito, e fazia aquele barulho alto da água caindo. E cada trovoada! Fiquei com muito medo. Eu tinha medo de temporal, e mais ainda porque não tinha ninguém perto. Não podia sair de casa, mas ficar sozinho também ‘tava me apavorando. Minha mãe disse, depois que voltou, que elas tiveram que parar um tempo dentro da igrejinha pra esperar a chuva passar, o que levou uma meia hora. Só que na minha cabeça de criança parecia que aquela chuva nunca mais ia terminar. Quando a mãe voltou eu abracei ela e chorei muito, e ela só dizia: “eu sei, filho, eu sei.” E, sabe, Cibele, eu pensei que... coisa boba isso que eu tô te contando... eu pensei que eu ia morrer.
Silêncio dos dois, porém agora noutra atmosfera.
- Pensei que a mãe não ia mais voltar e que, sei lá, sem ela, eu não ia mais saber viver... Tive medo de morrer hoje, Cibele. Tive sim. Como só daquela vez, guri, eu tinha sentido. Estranho eu ‘tá te dizendo isso... É engraçado que a gente entra pra corporação, mas nunca acha que essas coisas vão acontecer com a gente, de estar vivo num minuto e no seguinte quase estar morto. Morto, assim: morto. Tudo pode terminar tão rápido, desse jeito: pfff! Num sopro...
- É, tem razão.
- Essas coisas acontecem pra gente saber valorizar a vida. Sou um homem mudado depois disso que aconteceu hoje. Sou sim. Pode ter certeza. A gente não pode perder tempo, tem que aproveitar as coisas, porque, se não, elas passam. Simples assim: passam.
Lançou mão do copo de suco de laranja, mas desta vez não como bengala emocional, mas para dar uma merecida pausa depois de falar em quantidade e intensidade como nunca o tinha feito.
- Eu não vou comer mais. Tu vai?, perguntou a ela.
- Não, também não consigo mais comer.
- É, não desce mais, perdi a fome. Então... vamos?
A resposta veio num momento de entreolhares sérios e cúmplices, seguido de um aceno com a cabeça de “positivo” dela, suficiente para levantarem-se sem hesitação, pagarem dona Nelci no caixa e saírem pela porta do restaurante.

A casa de Fábio ficava dali a duas quadras.



sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Ludwig van Beethoven - "Sinfonia nº 9" (1824)



"Fora uma noite maravilhosa
e eu só precisava para concluí-la com perfeição
de um pouco do velho Ludwig van (...)
ó, deleite, ó deleite e paraíso.
era a formosura e a formosidade feito carne.
Era como um pássaro de metal raro e celestial,
ou o vinho prateado flutuando numa espaçonave
deixando a gravidade para trás."
personagem Alexander DeLarge
no filme "Laranja Mecânica"


Uma das maiores obras já produzidas na história da humanidade, composta por ninguém menos que aquele que é considerado por muitos, o maior compositor de todos os tempos. A "Sinfonia nº9 em ré menor, opus 125, Coral", última obra completa escrita por Ludwig van Beethoven, no ano de 1824, ou simplesmente a "Nona Sinfonia" como é mais conhecida, é uma das obras musicais mais populares, repetidas, respeitadas e executadas de todos os tempos, utilizada com frequência em meios como comerciais de TV, games, cerimônias e filmes, assumindo, de certa forma, um caráter pop dentro do âmbito da música clássica ou erudita.
A Nona é por exemplo, elemento fundamental na adaptação de Stanley Kubrick para o cinema da obra "Laranja Mecânica", de Anthony Burgess (no livro o autor se fixa na música clássica em si e não especificamente na obra de Beethoven como faz o diretor no filme); foi adotada como hino de instituições ou de eventos; é constantemente tocada em celebrações de toda ordem como olimpíadas, copas, confraternizações, cerimoniais, etc., especialmente seu movimento mais belo, a "Ode à Alegria", um coral imponente onde as vozes conduzem o movimento acompanhado a orquestração, de uma forma absolutamente magnífica e inigualável.
Não vou me alongar aqui em elocubrações técnicas; em dós, rés, e sibemóis porque não sou um profundo entendedor de música. Sequer sou músico. Seria pouco sincero de minha parte. Sou apenas um diletante como muitos, que não se cansa de ouvir, de se encantar e admirar esta majestosa obra deste gênio alemão.
É lógico que a "Nona Sinfonia", como qualquer outra obra desta natureza, não foi concebida no modelo álbum, não foi feita para ser disco, mas é tão importante para o formato, especialmente no que diz respeito à mídia Compact Disc, que a capacidade original do nosso conhecido CD teria sido definida em função da duração da obra. É o que reza a lenda.
Se não for por todos os seus méritos, e não são poucos, só isso já lhe justificaria a inclusão entre os ÁLBUNS FUNDAMENTAIS.
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MOVIMENTOS:

  1. Allegro ma non troppo, un poco maestoso
  2. Molto vivace
  3. Adagio moltoe cantabile
  4. Presto - Allegro assai

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Ouça:
9ª Sinfonia Ludwig Van Beethoven

Cly Reis

Pix



quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

O Jogo da Sua Vida #1 - Internacional 2 (3) x Olimpia 3 (5) (1989)



Eram mais de três mil.
Nunca vi tanta gente permanecer no estádio depois de um jogo.
Bom, na verdade já vi. Em vitórias. Vi muitas no Gigante.
Mas em uma derrota???
Aquelas criaturas lá pareciam simplesmente não acreditar no que acabara de acontecer.
Uns cabisbaixos, uns chorando, outros atônitos, outros impassíveis, outros olhando para o gramado vazio como se a qualquer momento os times fossem retornar a campo e continuar a partida nos dando mais uma chance. Esperando talvez que os alto-falantes anunciassem que tudo o que tinha acontecido até aquele momento não passava de uma brincadeira e que o jogo mesmo começaria naquele instante. Esperando que... Esperando, talvez, simplesmente acordar. Pois aquilo só podia ter sido um sonho. Um sonho ruim.
O sonho do Sport Club Internacional de conquistar uma Libertadores da América era antigo. Embora tivéssemos participado da competição antes que o nosso tradicional rival, tendo inclusive chegado a uma final antes deles, o co-irmão da Azenha havia tido uma melhor sorte e conquistado a Taça em 1983. Mas naquele 1989, depois de ter obtido a vaga na competição sul-americana num épico confronto com o rival, no jogo apelidado de  "GreNal do Século", seguido, no entanto, de uma decepcionante derrota na final do brasileiro que coroaria o triunfo, mesmo com um primeira fase um tanto claudicante, nas eliminatórias nossas esperanças pareciam começar a tomar forma daquele tão almejado título, do qual os torcedores rivais tanto se gabavam de ter conquistado.
O pênalti batido por Nílson, durante o jogo,
na foto do jornal Zero-Hora, do dia seguinte
A quarta-de-final, então, foi o que faltava para a empolgação tomar conta, numa atuação luxuosa no Beira-Rio, fazendo 6x2 no multicampeão Peñarol.
Ninguém segurava aquele time!
Tínhamos um centroavante matador que decidira o GreNal do Século, um uruguaio que nunca falhava e, nada mais nad menos que, o melhor goleiro do Brasil.
Iríamos à semifinal contra o Olimpia do Paraguai, adversário difícil, sim, mas nada que nos metesse medo. Tinham um centroavante bem conceituado, um tal de Amarilla, tinham a tal garra porteña, mas por outro lado, tinham um goleiro baixo, velho e meio acima do peso, o tal de Almeida.
Se nossa confiança já estava lá nas nuvens depois da goleada contra os uruguaios, o primeiro jogo contra o Olimpia em Assunción, parecia nos dar uma certeza: estávamos na final.
Vencemos os paraguaios na casa deles com um golaço de bicicleta. E mais: sem grandes riscos, com uma partida segura, uma boa atuação. Nada podia nos tirar aquela vaga e na final... Na final, viesse quem viesse, nós trucidaríamos.
E veio o jogo da volta. Naquele 17 de maio de 1989, todos os colorados queriam estar no Beira-Rio aquela noite. Eu fui um dos 70 mil que conseguiram isso.
Já na chegada, o clima de festa era tanto que um vendedor de lanches anunciava o 'cachorro-quente Amarilla'. Era aquilo: iríamos devorar o Amarilla e seu timezinho paraguaio. O empate servia mas queríamos golear como fizéramos contra o aurinegro uruguaio. E se já havíamos feito 1x0 fora de casa, e com um gol de bicicleta, no nosso estádio faríamos 4, 5, de letra, de lençol, de sem-pulo, de todas as maneiras possíveis.
Mas esta não foi a realidade do jogo.
Não tardou muito para o Olimpia, com Mendoza, fazer seu primeiro gol e desfazer nossa vantagem. O placar de Assunción tinha ido pro espaço e agora éramos nós que tínhamos que buscar o resultado. Felizmente, também não muito tarde, nosso volante Dacroce empatava. Era nosso, de novo!
Mas o Olimpia era bravo e ninguém menos que ele, aquele que engoliríamos como um hot-dog, colocaria o adversário em vantagem. Gol dele: Amarilla. E os portenhos viraram o intervalo em vantagem. Não seria a facilidade que imaginávamos. àquelas alturas já nos dávamos por satisfeitos com um empatezinho e olhe lá.
Veio o segundo tempo e veio o gol do empate: Luís Fernando, o baixinho que havia feito o golaço em Assunción. Parecia um bom prenúncio! Sim, era um bom prenúncio pois logo depois viria um pênalti a favor do Internacional. Pronto! A sorte voltava a brilhar para o nosso lado. E quem bateria o penal? Ele, Nílson, o matador do GreNal do Século. E Nílson perdeu. Nas mãos do gordinho Almeida.
Mas tudo bem... 2x2 ainda era nosso. Estávamos na final.
Não. Num chute de fora da área do bom meia Neffa, a bola batia num defensor, enganava Taffarel e morria no fundo das redes. Havia pouco tempo para reagir e, de mais a mais, o time já se desestruturara tática e psicologicamente. Tivéramos por três vezes a vantagem (0x0, 1x1, 2x2) e um pênalti a favor. Eles chegavam mais confiantes para a decisão.
Restava ir para os pênaltis, e sorte que na época o regulamento não previa gol qualificado, senão não teríamos nem aquela esperança. E nossa esperança numa decisão por penais tinha um nome: Taffarel. Goleiro de Seleção Brasileira, exímio pegador de pênaltis, mas naquela noite não.
Dois dos nosso jogadores perderam, eles fizeram todos, inclusive do goleiro gordo, velho e baixinho deles que bateu um. Mas coube a Amarilla cravar o último prego no caixão. Gol do Olimpia. A bola nas redes os jogadores do Olimpia correndo para comemorar, o fim do sonho, um silêncio mortal como poucas vezes se ouviu num estádio de futebol.
Eu olhava em volta e via que daqueles 70 mil que estiveram ali, muitos permaneciam. Ninguém acreditava no que acabara de acontecer.
Do meu lado, meu amigo, chorava com a cabeça baixa entre as pernas, abraçado bandeira do clube, um outro simplesmente olhava para o vazio, um outro mais revoltado xingava, outros simplesmente não tinham coragem de voltar pra casa, outros esperavam... esperavam por um milagre, por uma boa notícia, esperavam que o juiz tivesse contado errado e tivéssemos mais um pênalti para bater mantendo viva a esperança por mais alguns instantes que fosse. Esperavam talvez que o presidente da Confederação pudesse entrar em campo para anunciar que a partida havia sido anulada e que o jogo seria disputado novamente. Esperávamos simplesmente acordar. Pois aquilo só podia ter sido um sonho. Um pesadelo.
Felizmente depois disso já presenciei glórias fantásticas dentro do Beira-Rio e já fiquei depois dos jogos por horas fazendo festa, esperando voltas olímpicas, cantando e tudo mais. Mas aí foram vitórias.
Mas em uma derrota... nunca vi tanta gente permanecer no estádio depois de um jogo.
Eram mais de três mil.




Cly Reis
(torcedor do Internacional)

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

cotidianas #274 - Véspera





Mais alguns dias
Mais algumas horas
Os dias passam
Às vezes quentes
Às vezes amenos

Me sinto mal

Mas alguns dias...
Os dias passam
Dias de calor
Dias amenos

Me sinto bem

Menos em alguns dias
Os dias passam
Dias de mais
Dias a menos

Me sinto assim


Cly Reis

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Novos Baianos - "Novos Baianos F.C." (1973)





“Eles se achavam na época
melhores jogadores de futebol
do que músicos.” 
Solano Ribeiro



Quem me conhece sabe que a minha banda brasileira favorita veio da Bahia não é o Camisa de Vênus. Claro que são os Novos Baianos. E toda vez que alguém fala neles, pensa direto em "Acabou Chorare", um verdadeiro... clássico da MPB de todos os tempos. Adoro este disco. Mas o meu favorito deles é outro: “Novos Baianos F.C.”, terceiro disco da trupe, lançado um ano depois do “Acabou...”. Pensem bem: depois de fazer um disco como aquele, como seguir em frente? Pois Pepeu, Baby, Paulinho e Moraes e sua gangue resolveram fazer um LP falando das coisas que faziam parte da sua vida cotidiana naquele sítio em Jacarepaguá onde viviam em total harmonia (mais ou menos, né? como ficou claro no filme "Filhos de João - O Admirável Mundo Novo Baiano", de Henrique Dantas).

A brincadeira começa com “Sorrir e Cantar Como Bahia”, música de Luiz Galvão e Moraes Moreira que faz um jogo de palavras com a gravidez de Baby Consuelo e a maternidade do planeta: “Mãe pode ser e ter bebê/ E até pode ser Baby também”. Ela estava permanentemente grávida de Riroca, Zabelê e Nana Shara, suas três meninas que se tornariam o trio SNZ. O futebol do título está presente em “Só Se Não For Brasileiro Nessa Hora”. Como cronista do cotidiano, Galvão consegue mostrar exatamente o que acontecia nas ruas do Brasil, até bem pouco tempo, o joguinho de bola na calçada: “Que a vida que há do menino atrás da bola/ para carro, para tudo/ quando já não há tempo/ para apito, para grito/ E o menino deixa a vida pela bola/ Só se não for brasileiro nessa hora”. O lado nonsense de Galvão, o letrista da banda, aparece em “Cosmos e Damião”, uma verdadeira viagem onomatopaica na voz de Paulinho Boca de Cantor. Olhem que maluquice: “Qui qui qui qui qui não é qui qui qui/ Que bom é bom demais pra ser aqui/ Onde um faz hum e outro hum hum/ Mas que bom, todos hum!/ Como um dia, não ria ?/ Sorria como nós...um dia como esse de Cosmos e Damião/ você pode até dançar com Damião/ Mas quem contrariar a lei do Cosmos/ não vai pagar/ já paga ao contrariar”. Doideira total emoldurada pelas guitarras, bandolins e violões de Pepeu e Moraes, o baixo de Dadi, Jorginho Gomes na bateria mais Paulinho, Baby, Baixinho e Bola nas percussões. Eles fazem a gente cantar estes versos enlouquecidos.

Uma das influências mais marcantes do grupo,  Dorival Caymmi, é reinterpretado e rearranjado em “O Samba da Minha Terra”. Uma mistura de MPB com Jimmi Hendrix, a versão deles valoriza o verso: “Quem não gosta de samba/ Bom sujeito não é/ É ruim da cabeça ou doente do pé”. Esse sim é o verdadeiro roque brasileiro, onde as guitarras convivem harmonicamente com a percussão e não copiam ninguém. Ao ouvir os discos dos Novos Baianos – e esse, em particular –, fico imaginando porque grande parte da gurizada se deixa seduzir pelo “rock brasileiro” dos anos 80. Todas as bandas daquela fase são inspiradas em algum grupo inglês do período. Poderia também dizer copiadas. Enquanto isso, os NB usaram a incrível e inesgotável matriz de ritmos nativos para fazer uma música criativa e inteligente. “Vagabundo não é Fácil” é outro exemplo das letras maluquetes de Galvão numa cama de samba com um surdo bem marcado: “Se eu não tivesse com afta/ até faria uma serenata pra ela/ Que veio cair de morar/ Em cima de minha janela”. Lá pelas tantas, rola uma rima de “Bicarbonato de sódi”o com “pessoas sem ódio”. Hilário! E no final, mais um jogo de palavras: “Ao menos leve uma certeza/ Você me deixa doído/ Mas só não me deixará doido/ Porque isso sou/ Isso eu já sou”. Na sequência, outro sambão daqueles de sair cantando pela rua: “Com Qualquer Dois Mil Réis”. Na voz de Paulinho Boca de Cantor, a música brinca com a figura do malandro carioca: ”E o malandro aqui/ Com Qualquer Dois Mil Réis/ Põe em cima uma sandália de responsa e essa camisa/ de malandro brasileiro/ que me quebra o maior galho”. E o refrão é chicletaço musical: “E esse ano não vai ser/ Igual aquele que passou/ oh oh oh oh oh que passou”.

Depois deste samba balançado, vem a faixa mais “roquenrou” de todo o disco, “Os Pingo da Chuva”, que Baby Consuelo se encarrega de dar aquele molho. Preste a atenção nos comentários da guitarra de Pepeu durante toda a canção, enquanto Baby canta este história pro seu namorado – não por acaso, ele, Pepeu, na época –, dizendo que ele não deve se preocupar com o céu que está “preto e as nuvens que até as sombras assombram”. Ela sabe que “Você tem seus argumentos de querer/ o sol pra bater sua bola/ E a lua pra ver sua mina/ ou só pra ir ali na esquina...Faça como eu que vou como estou/ porque só o que pode acontecer/ É os pingo da chuva me molhar”. E esse rock vira um baião elétrico no final. É aí que eu me refiro. Com tantas possibilidades rítmicas e melódicas, os roqueiros dos anos 80 se contentavam em copiar The SmithsThe Cure, The Police, entre outros. Que desperdício! “Quando Você Chegar” é uma bossa a lá João Gilberto onde Moraes fala de um filho que está chegando e que, aparentemente, iria chamar de Pedro. Os planos devem ter mudado, pois este filho é o guitarrista Davi Moraes, que veio a Porto Alegre em 2013 com ele para um show em homenagem aos 40 anos de “Acabou...”. Lá pelas tantas, esta bossa vira um samba. E a letra é tão boa que vai inteira: “Quando você chegar/ é mesmo que eu estar vendo você/ Sempre brincando de velho/ me chamando de Pedro/ me querendo menino que viu de relance/ Talvez um sorriso em homenagem à Pedro/ Pedro do mundo dum bom dum bom dum bom.../ Fique quieto que tudo sana/ Que a língua portuguesa, a língua da luz/ A lusitana fez de você o primeiro guri/ Meu guri, meu gurizinho/ Água mole em pedra dura, pedra pedra até que Pedro”.

Pra encerrar “Novos Baianos F.C”, duas faixas sem letra. Desde "Acabou Chorare" existia, dentro dos Novos Baianos, o grupo instrumental A Cor do Som, formado por Pepeu, Dadi, Jorginho e os percussionistas. As duas últimas músicas são dedicadas a este embrião de trabalho que iria desembocar no grupo de mesmo nome que gravaria seu primeiro disco em 1977. Na formação de estreia, só Dadi permaneceria, tendo ao seu lado o irmão Mu mais Armandinho e Gustavo. “Alimente” e “Dagmar” são dois exemplos do que seria desenvolvido pela Cor e por Pepeu em seu primeiro trabalho solo, “Geração de Som”, em 1978. Choro, samba, rock, tudo misturado e embalado pra presente. Uma delícia de disco que muita gente não conhece. Em 1978, os Novos Baianos gravam seu último disco, “Farol da Barra”, outro trabalho incrível. E decolam as carreiras solo de Pepeu, Baby, Dadi na Cor do Som. Mas isso, como sempre, é outra história.


vídeo de "Só Se Não For Brasileiro Nessa Hora" - Novos Baianos


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FAIXAS:
1. "Sorrir e cantar como Bahia" (Luiz Galvão/Moraes Moreira) – 3:37
2. "Só se não for Brasileiro Nessa Hora" (Galvão/Moraes) – 3:28
3. "Cosmos e Damião" (Galvão/Moraes) – 4:07
4. "O Samba da minha Terra" (Dorival Caymmi) – 3:29
5. "Vagabundo não é Fácil" (Galvão/Moraes) – 5:06
6. "Com qualquer Dois Mil Réis" (Galvão/Moraes/Pepeu Gomes) – 3:26
7. "Os Pingo da Chuva" (Galvão/Moraes/Pepeu) – 4:10
8. "Quando você Chegar" (Galvão/Moraes) – 3:19
9. "Alimente" (Jorginho Gomes/ Paulinho Gomes) – 4:44
10. "Dagmar" (Moraes) – 2:31

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OUÇA:



cotidianas #273



tenho sido tão eu
eu
eu
eu
ultimamente
que acabei esquecendo de
mim.




Gustavo Schenkel