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quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Legião Urbana - "Legião Urbana" (1985)


URBANA LEGIO
OMNIA VINCIT
(Legião Urbana a tudo vence)



Mesmo em meio à explosão do rock nacional da metade dos anos 80, podia-se notar que a Legião Urbana tinha algo de diferente. Ainda que tenham sido elevados quase que imediatamente a uma espécie de papel de porta-vozes de uma geração, pelas letras engajadas, políticas, sociais, as mesmas não se limitavam à mera convocação ao levante popular ou a um niilismo juvenil, mostrando diferenciais intelectuais e estruturais de seu principal compositor, Renato Russo; e mesmo as mais pessoais, por sua vez se destacavam do lugar comum, saindo do tradicional modelo intimista- apaixonado-desesperado com uma poesia muito peculiar, elaborada e de qualidade. Na parte instrumental, embora não se destacassem tecnicamente por virtuosismos instrumentais individuais, compensavam isso por uma solidez sonora, competência, doses equilibradas de agressividade e lirismo.
“Legião Urbana”, seu primeiro trabalho de 1985, é um tanto cru ainda, meio tosco em alguns momentos, mas essa pureza talvez seja interessante para que se perceba o verdadeiro espírito da música do grupo que nunca foi abandonado mesmo em trabalhos posteriores mais elaborados e sofisticados.
“Será”, não só faz as honras de abertura do disco como é a responsável por apresentar a banda ao Brasil, mostrando muitas das marcas que o grupo levaria consigo ao longo de sua trajetória. Num punk-rock bem trabalhado que fundia brilhantemente questões pessoais com um âmbito mais amplo, abraçando dúvidas e anseios coletivos, Renato Russo, como voz e representante, aproximava-se de maneira muito íntima e solidária de seus interlocutores, e começava a criar grande parte da empatia e liderança que viria a exercer sobre seus fãs.
Segunda faixa do álbum, a embalada “A Dança”, é uma pedrada numa juventude vazia, sem interesses, valores ou expectativas, conduzida com competência pelo baixo de Renato Rocha, o melhor instrumentista da banda, que deixaria a banda em seguida. Se “O Petróleo do Futuro”, a terceira, é um exemplar mais característico do punk de Brasília do início dos anos 80, mais tosca, pesada e agressiva; “Ainda é Cedo”, requintada e limpa, talvez seja o momento de maior maturidade sonora da banda até então para um primeiro disco, numa canção de amor, desentendimento e despedida, interpretada de forma esplêndida por Renato Russo. O disco segue com “Perdidos no Espaço”, canção de amor apenas interessante e de estrutura esquisita em determinados momentos; e com “Geração Coca-Cola”, um daqueles hinos instantâneos, ainda mais naquele contexto pós-militarismo clamoroso por democracia, um autêntico manifesto punk, agressivo e indignado, mas gritado com muito mais inteligência, vocabulário e recursos que o punk paulista suburbano, por exemplo, que sempre fez aquilo, verdade seja dita, mas de forma tão primária que muitas vezes caía no folclórico.
Em “O Reggae”, como o título já faz supor, a banda explora o tradicional ritmo jamaicano, e Renato Russo nos dá a primeira mostra de sua capacidade de desenvolver histórias musicais, no que mais tarde ficaria célebre em "Eduardo e Mônica" e “Faroeste Caboclo”, descrevendo aqui uma trajetória anunciadamente trágica, desde o berço até a crueldade das ruas. Em “Baader-Meinhof Blues”, o vocal conduzido levemente por Renato Russo contrasta com a letra pesada e irônica sobre violência; e igualmente impactante é a pessimista “Soldados”, com sua batida marcial e teclado melancólico.
O espetacular punk-rock “Teorema”, de letra extremamente bem concebida, encaminha o final do disco de forma absolutamente empolgante, especialmente no fraseado de guitarra de introdução para o refrão e no improviso vocal final, extático, histérico, espontâneo e inspirado de Renato Russo. E se por um momento o ouvinte vem a pensar que não poderia haver um encerramento melhor do que aquele notável epílogo que acabara de ouvir, vem então a belíssima “Por Enquanto”, uma melancólica canção de amor, que apenas com uma flutuante base de teclado desenvolvida sobre uma batida eletrônica quebra toda a energia beligerante do álbum e, aí sim, se despede do ouvinte com o sugestivo e inesquecível verso “estamos indo de volta pra casa”. Um final perfeito.
Estava feito: com a quele primeiro álbum a Legião Urbana era conhecida. O mito estava começando a surgir. O sucesso, mito, a idolatria, a identificação, a comoção... O resto da história todo mundo conhece.
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FAIXAS:
1. "Será" (D. Villa-Lobos/M. Bonfá /R. Russo) 2:30
2. "A Dança" (D. Villa-Lobos/M. Bonfá/R. Russo/R. Rocha) 4:01
3. "Petróleo do Futuro" (D. Villa-Lobos/R. Russo) 3:02
4. "Ainda É Cedo" (D. Villa-Lobos/I. Ouro Preto/M. Bonfá/R. Russo) 3:57
5. "Perdidos no Espaço" (D. Villa-Lobos/M. Bonfá/R. Russo) 2:57
6. "Geração Coca-Cola" (R. Russo) 2:22
7. "O Reggae" (R. Russo/M. Bonfá) 3:33
8. "Baader-Meinhof Blues" (D. Villa-Lobos; M. Bonfá; R. Russo) 3:27
9. "Soldados" (M. Bonfá/R. Russo) 4:50
10. "Teorema" (D. Villa-Lobos/M. Bonfá/R. Russo) 3:06
11. "Por Enquanto" (R. Russo) 3:16 

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Ouça:


Cly Reis






terça-feira, 26 de agosto de 2014

cotidianas #319 - As Duas Meninas



Cruzou o portão, saindo da escola com um indisfarçável orgulho. "Essas crianças tem cada uma", pensava rindo para si mesma. Mas agora tinha que se apressar, tinha menos de quinze minutos para chegar no trabalho. Dando-se conta da hora, apressou o passo em direção ao carro,porém, não pôde deixar de deter-se pelo comentário de uma senhora idosa, sentada no ponto de ônibus:
- Parabéns, muito bonitas as meninas.
- Obrigado, mas... a senhora quis dizer a menina - corrigiu a mãe.
- Não, as duas que entraram com a senhora, dona. De mãos dadas. São suas filhas, não? - tentou confirmar a velha.
- Desculpe - agora um tanto embaraçada - mas eu entrei apenas com uma menina, a minha filha. Uma menina de casaquinho cor-de-rosa. De que outra a senhora está falando?
- A de preto. A que segurava o balão vermelho. A bola de ar. Não era sua filha?
- Balão? Não... quero dizer... eu não vi ninguém entrar conosco... digo, comigo e com... - fechou os olhos, então já bastante confusa e um tanto, até perturbada, tentou pôr os pensamentos em ordem e prosseguiu - Desculpe, minha senhora, deve ter havido algum engano. Eu entrei apenas com uma criança. A senhora me desculpe mas eu estou um pouco atrasada. Tenha um bom dia.
- Desculpe, moça - disse a velhota - eu devo ter enxergado mal. Minhas vistas já não estão grande coisa - completou a velha com um ar enigmático no rosto.
A mãe então seguiu em direção ao carro, entrou e saiu para o trabalho não sem carregar consigo uma estranha sensação. Algo indefinível, mas que permaneceu com ela o dia inteiro.
O sentimento ruim durou a tarde inteira até o momento em que o telefone tocou, ali pelo meio da tarde. Era da escola da filha. Pediam que fosse urgentemente para lá.
A menina havia caído da casa-da-árvore do parquinho. Sentiam muito. Não puderam fazer nada.
Naquele final de tarde, depois dos gritos, da correria, do choque, da chegada da polícia, da ambulância, da mãe, do recolhimento do corpo, da perícia, do isolamento da área e de todos os envolvimentos acerca do trágico acontecimento, o silêncio do pátio da escola atestava a tristeza . A morbidez do momento contrastava brutalmente com o colorido dos brinquedos e com a presença de um balão vermelho, flutuando, amarrado por um barbante, à árvore de onde a menina caíra.
Na frente da escola, uma senhora muito velha saía caminhando de mãos dadas com uma garotinha vestida de preto.



Cly Reis


Work I









"Work I" - REIS, Cly
foto com manipulação digital




REIS, Cly

Pix

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

cotidianas #318 - Esfinge




Você me dá
Me dá mais
Damasco

Morde 
Belisca
Odalisca

Serpente
Ser parte
Ser todo teu

Não me importo mais com nada
Com nada, nada
Naja

Nilo
Cairo
Miquerinos

Esfinge desentendida
(Quem? Eu?)
Que outra

Hipócrita
Cleópatra


Cly Reis

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Janis Joplin - "Pearl" (1971)




"Ela jogou fora,
em poucos anos,
toda a energia de uma vida"
presidente da Columbia Records,
gravadora de Janis Joplin,
na época de sua morte



A música de Janis Joplin entrou tarde na minha vida, mas não tarde demais. Só fui ter contato com o  trabalho desta magnífica artista há uns poucos anos atrás quando um amigo meu se livrou do seu "Janis in Concert" e me deu o CD. Fiquei encantado! Como eu nunca tinha notado aquilo? Dado atenção? Como nunca tinha apreciado?
Bom antes tarde do que nunca.
A partir daquele ao vivo póstumo quis conhecer melhor sua música de estúdio e procurei ouvir seu mais elogiado trabalho, o célebre “Pearl”, de 1971, que não só confirmou, como superou todas as expectativas.
“Pearl” já mostra a que vem com a excepcional “Move Over” que faz as honras de abertura, num rock, vigoroso, cheio de energia, embalo e talento. Pra não dar chance nem pra se recuperar da primeira, Janis sai rasgando a voz na introdução da apaixonada “Cry Baby”, em uma interpretação emocionante e maravilhosa.
A soul suingada “Half-Moon, com seu piano envolvente e percussão carregada; o blues-rock instrumental pegado “Buried Dead in the Blues”; a excelente “Get It While You Can” em mais uma interpretação marcante; e a agradável “Trust Me”, merecem destaque especial, mas os grandes momentos do álbum são, não por acaso, dois de seus maiores clássicos: o clássico country, “Me and Bob McGee”, que com um colorido todo soul tem sua versão definitiva na voz de Janis, sendo até hoje um de seus números mais emblemáticos; e a legendária “Mercedez-Benz”, que com sua interpretação à capela, tornou-se uma das canções mais conhecidas  e saudadas de todos os tempos.
“Pearl” foi o último registro de estúdio feito pela jovem cantora que viria a falecer poucos meses após a finalização das gravações. Mais uma daquelas carreiras curtas abreviadas por uma morte prematura de um artista que por certo ainda teria muita coisa de interessante para nos mostrar. Onde aquela menina iria parar cantando daquele jeito? Bom, não temos como saber. Só nos resta imaginar. Resta contentamo-nos com o que ela deixou. O que não é pouco. Não é mesmo.
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FAIXAS:
  1. "Move Over"
  2. "Cry Baby"
  3. "Woman Left Lonely"
  4. "Half-Moon"
  5. "Buried Alive In The Blues"
  6. "Me and Bobby McGee"
  7. "My Baby"
  8. "Mercedez Bens"
  9. "Trust Me"
  10. "Get it While You Can"

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Ouça:
Janis Joplin Pearl


Cly Reis

O Frango Atirador

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

cotidianas #317 - Quem foi Caxias?




- Caxias! Quem foi Caxias?
A pergunta meramente retórica lançada ao ar, na verdade não esperava resposta da pequena multidão aglomerada no pátio da escola. Ela seria dada pelo próprio inquiridor, aquele menino magricela, ali, em pé, naquele modesto palanque montado para as celebrações do Dia do Exército. Ele mesmo responderia à interrogação que propusera com um simplório, porém pomposo verso que decorara incansavelmente por mais de um mês para aquela ocasião.
Desde que fora incumbido de declamar o poemeto em homenagem ao Marechal Luís Alves de Lima e Silva, o pequeno Paulo Roberto dos Reis, orgulhoso da tarefa a si atribuída, cuidou de não decepcionar quando o grande momento chegasse. Para isso, não mediu esforços e tratou de ler e reler o pequeno poema tantas vezes quanto fosse necessário até tê-lo perfeitamente gravado na mente. Lia em voz alta em qualquer lugar, no quarto na sala, na cozinha. Depois, já sem necessitar mais lê-lo, de tanto que o repetira, o declamava naturalmente, de modo a certificar-se que o pequeno texto permanecia lá onde o deixara, gravado.
Agrupava, antes de dormir, os muitos irmãos para simular uma plateia tal como teria na escola e declamava para eles com ímpeto e empolgação:
- Caxias! Quem foi Caxias?
E os irmãos aguardavam ansiosos pelo prosseguimento do breve discurso
E o jovem Paulo prosseguia com uma exaltação em forma de resposta:
-“Salve o Duque de Caxias
Alma forte e varonil
Que com sua honra e sua espada
Defendeu nosso Brasil”.
Ao que os 8 espectadores, amontoados no pequeno quarto que dividiam na modesta casa na Rua Liberdade, em Porto Alegre, aplaudiam entusiasmados, orgulhosos do irmão que dali a alguns dias seria a grande atração do evento da data militar.
Repetia tanto aquele versinho, quase que automaticamente, que os próprios irmãos já o tinham na ponta da língua. Era no café da manhã, no caminho para o colégio, na sala de aula, no banho, na hora de dormir... era tanto que, àquelas alturas, os próprios irmãos já torciam para que o dia chegasse de uma vez para que aquela ladainha terminasse logo.
E então o grande dia chegou!
Outros eventos antecederam a apresentação do garoto, que pela importância e significado, seria a atração principal. Um encerramento majestoso para um dia histórico para a escola.
Embora tivesse o texto mais do que decorado, o menino Paulo Roberto ainda o repetia para si mesmo, segundos antes de subir no pequeno palco montado para o evento, “Salve o Duque de Caxias, alma forte e varonil...”. Chamado, subiu os três degraus que elevavam a plataforma do chão, ainda balbuciando, “... que com sua honra e sua espada, defendeu nosso Brasil”, e então viu-se no centro do palco diante de todos os colegas e professores que aguardavam curiosos e ansiosos pela grande homenagem ao Patrono do Exército Brasileiro.
Se o tempo de preparação e ensaio havia se mostrado suficiente para que o jovem Paulo Roberto tivesse domínio do texto, infelizmente não foi tão bem utilizado para que aprendesse a dominar os próprios nervos e, se alguém na plateia não sabia a resposta e a continuação do verso, ficou sem saber.
- Caxias! Quem foi Caxias?
Foi a única frase que o Paulinho disse antes de cair no choro e descer a escadinha e sair correndo do palco deixando todos os espectadores atônitos.
O silêncio tomou conta do pátio da escola e professores e alunos apenas se entreolhavam boquiabertos.
E a comemoração do dia do Exército acabou sem sua atração de fundo e o menino Paulinho sem seu momento de celebridade.
Ou não...
Se foi traumático na época, se o garoto deixou de ir à escola por uma semana, se se escondia dos colegas por vergonha e aguentava suas zombarias, hoje meu tio Paulinho, figura queridíssima, homem sempre jovial e folgazão, conta com a graça e bom humor que lhe são peculiares o episódio, sempre que nós sobrinhos, mesmo já tendo ouvido o caso incontáveis vezes, o solicitamos.
Fazendo questão de reforçar bem a entonação da frase, toma uma pose altiva, emposta a voz e encena como se estivesse no palanque da escola há muitos anos atrás, repetindo a frase que o derrubara do ponto mais alto onde, por poucos instantes teve o prazer de sentir-se naquele dia:
- Caxias! Quem foi Caxias?
E mesmo já tendo ouvido aquilo, milhares de vezes, caímos na risada.



Cly Reis




terça-feira, 19 de agosto de 2014

ARQUIVO DE VIAGEM - Museu Oscar Niemeyer (MON) - Curitiba / PR



A impactante visão do "olho"
espelhado do MON


Mais do que qualquer exposição ou parque (e olha que lá têm muitos), certamente o que mais me impactou em Curitiba foi o Museu Oscar Niemeyer, o MON. É fantástica a emoção que se tem ao chegar pela estreita Rua Marechal Hermes, no bairro Centro Cívico, e, ao desvencilhar o olhar das árvores do entorno, dar de frente com aquele impressionante olho suspenso e espelhado. Tal como foi quando estivemos Leocádia e eu no MAC, de Niterói, no Rio, ao ver aquela nave-flor totalmente integrada com a natureza e a topografia.

Rampa de entrada para o
prédio principal com a torre
e o lago artificial
Nesta obra, a arquitetura de Niemeyer, embora num ambiente menos privilegiado naturalmente do que o de Niterói, traz novamente esta sensação impactante e de fusão com o que lhe cerca. O MON une duas épocas de sua carreira e da Arquitetura como um todo. Isso porque o projeto original foi composto pelo arquiteto em 1967 para as instalações do Instituto de Educação. Esta primeira obra comportava já o prédio em linhas retas que fica ao fundo, o qual dá de costas para o Parque Polonês, uma área verde de convívio ligada à outra de mata fechada. Pois em 2002, Niemeyer, já em sua fase mais madura, foi chamado para reelaborar o projeto, onde seria construído, enfim, o museu que leva seu nome.

Em primeiro plano,
a escultura em aço, La Luna,
de Niemeyer
Escultura em bronze do
modernista Bruno Giorgi
Foi quando se ergueu o chamado “olho”, que, na verdade, foi inspirado no formato de uma pinha de araucária, árvore característica da região e daqui do Sul. Sobre um lago artificial, o olho – cujo traço da borda em concreto armado branco é de uma beleza infindável – é sustentado por uma “sutil” base retangular, a “Torre”, em cor amarelo-canário, onde se estampam a traço preto desenhos do mestre que dialogam com outros feitos por ele em Niterói para o Caminho Niemeyer, obra também pertencente à sua última fase. Digo “sutil”, pois, como é natural em Niemeyer, as dimensões gigantescas se aliam à precisão das proporções dentro do todo, fazendo com que se percebam claramente os volumes, distinguindo o que é menor e o que é maior. O que não quer dizer que o “menor” seja necessariamente pequeno. Pelo contrário: ao todo, são 35 mil metros quadrados de área construída. Somente dentro da base amarela, vimos depois, há três andares de espaço expositivo mais o do próprio olho anexo. Isso, rodeado de rampas curvas que, além da função de acesso e mobilidade, emprestam movimento ao desenho.

Espaço Niemeyer traz maquetes, fotos e vídeos
dos principais projetos do arquiteto pelo mundo
Ao fundo, então, o prédio principal, distribuído em três pisos. Reto, amplo, moderníssimo. À Bauhaus. A estrutura do prédio é de concreto protendido, que permite vencer os grandes vãos da edificação com um enorme arrojo estrutural. Nele, estão nove salas de exposição, a maioria do museu. Além das mostras temporárias, há duas permanentes que cabem muito bem serem destacadas. A primeira fica na área externa do subsolo, que é o Pátio das Esculturas. Ali é possível perambular entre obras de Tomie Ohtake, Xico Stockinger, Erbo Stenzel, Amélia Toledo, Bruno Giorgi e até do Niemeyer.

Leocádia percorre o tunel a la "Solaris"
que liga o prédio principal
à "torre do olho"
A outra exposição permanente digna de realce refere-se ao próprio Oscar Niemeyer, num espaço reservado à sua obra, com projetos, fotos e maquetes do arquiteto de vários países do mundo, como os clássicos Cassino da Pampulha, o MAC, o Ibirapuera, as obras de Brasília, o Centro Cultural Le Havre (Paris), entre outros. Interessantíssimo, embora a proposta seja generalista, visto que não apresenta projetos dele menos famosos mas tão legais quanto, como a sede do Partido Comunista da França, em Paris, ou o Palazzo Mondadori, em Milão, Itália. Mas pra arrematar o desbunde, saindo dali, um lindo corredor em concreto que liga o prédio principal à torre, o qual passa por debaixo do lago artificial da entrada. Desenhada em curvas, dá a sensação de se estar percorrendo os corredores da nave espacial do "Solaris", do Tarkovski – só para se ter uma ideia do barato que dá.

Nós entre as esculturas
Enfim, para nós que, aonde vamos, procuramos sempre conhecer algo do Niemeyer que tenha no local, foi uma visita mais uma vez deslumbrante. Um museu organizadíssimo que, mesmo que não se veja nenhuma exposição, por si só, vale como passeio.

Para quem quer saber mais sobre o MON: www.museuoscarniemeyer.org.br










vídeo do Espaço Niemeyer - por Leocádia Costa




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As 'costas do olho', com o desenho
da Ártemis dançarina de Niemeyer
Museu Oscar Niemeyer
Endereço: Rua Marechal Hermes 999, Centro Cívico – Curitiba/PR
Visitação: Terça a domingo (10h às 18h)
Entrada: R$6,00








texto:
vídeo:

Gol de Falta









"Gol de Falta" - REIS, Cly
ponta porosa e esferográfica em sulfite
(aprox. 10x12cm)


REIS, Cly

sábado, 16 de agosto de 2014

Dire Straits - "Brothers in Arms" (1985)





"Eu quero 
a minha MTV"
"Money for Nothing"




Com um rock qualificado, trabalhado e técnico mas altamente acessível, os Dire Straits, liderados por Mark Knofler, conquistavam o público e registravam um dos discos mais importantes e marcantes dos anos 80: “Brothers in Arms” (1985). Recheado de sucessos, o álbum reafirmava as influências de country e blues no som daqueles britânicos, com um apelo pop eficientíssimo e certeiro.
Embora seja um dos álbuns marcantes da era digital, do início da era do CD, é mais um daqueles que vale a pena ser lido e entendido como LP, uma vez que cada lado do bolachão tem suas diferentes características. O lado 1 extremamente pop, trazia todas as músicas que tocaram à exaustão nas rádios e na então incipiente MTV, à qual, curiosamente, numa crítica bem-humorada, com o clássico “Money for Nothing”, ajudaram a consolidar pela menção à emissora na letra da música e pelo emblemático videoclipe, que hoje pode parecer um tanto primário e tosco no que diz respeito a recursos técnicos, mas que, pela linguagem, permanece sendo ainda hoje, um dos exemplares mais importantes do formato. Já na segunda metade, o lado B, encontramos um trabalho mais autoral, um pouco mais experimental e até, por assim dizer, mais introspectivo, com exploração de diferentes estilos.
Uma sequência de grandes sucessos encaminha o início do álbum: “So Far Away” é a que faz a s honras de abertura confirmando o gosto de Knofler pela música americana, num adorável country conduzido por uma suave slide-guitar; a já citada “Money for Nothing”, um empolgante rock de guitarra distorcida e riff alucinante é o grande destaque do álbum, uma das melhores canções dos anos 80 e por certo um dos clássicos definitivos da história do rock; a segue “Walk of Life” um pop alegrinho de teclado grudento; vem a romântica e melosa “Your Latest Trick” com um sax de motel ao estilo Kenny G, mas que ao contrário do que se pode pensar pela descrição, é bastante interessante; e o lado fecha com a longa balada “Why Worry”, uma delicada canção de amor que muito embalou as reuniões dançantes da década de oitenta.
Virando o bolachão, a embalada “Ride Across the River” abre os trabalhos flertando com o reggae numa canção que demonstra toda a capacidade compositiva diversificada da banda. “The Man Too Strong”, que a segue, é um exemplar country mais característico que “So Far Away” ou mesmo “Money For Nothing”, onde tal sonoridade aparece mesclada numa linguagem pop. “One World”é um blues com um colorido todo pop, abrilhantado por toda a qualidade técnica da guitarra de Knofkler; bem como “Brother in Arms”, outro blues, este grandioso, com ares de progressivo, uma balada melancólica, que também teve algum sucesso e encerra a o disco como uma grande obra merece ser finalizada.
Por conta da insistente execução pública de mais de 60% das músicas do álbum, em rádios, TV's, festinhas juvenis ou onde quer que fosse, o disco se tornou um clássico dos anos 80 e “Money For Nothing”, especialmente, um de seus maiores símbolos, sonoros e visuais. Mas o álbum é mais do que um amontoado de mega-hits. Muitas vezes, considerando grande parte das coisas que caem no gosto popular costuma ser de qualidade duvidosa, somos levados a desconfiar que alguns trabalhos que agradam ao grande público sejam mero produto de entretenimento descartável. Assim, pode-se imaginar que um disco como este, com tantos sucessos, seja uma baba, um disco empurrado goela abaixo do público abaixo de uma irritante insistência videoclípica. Neste caso penso que foi ao contrário: embora admitindo que tivesse um apelo pop superior aos álbuns antecessores da banda, no caso de “Brothers in Arms”, a qualidade do álbum prevaleceu chegando ao grande público e se impondo em forma de grandes sucessos. Sem falar que o público daquele momento, filho do pós-punk, era um pouco diferente do de hoje, mais preparado e mais sequioso por ouvir coisas interessantes, o que fazia com que trabalhos bem concebidos, executados com boas influências tivesses um aceitação e acolhimento imediato.
E, ironicamente, a brincadeira com a emissora e com o mundo pop em geral, que poderia vir a ser gol contra, um tiro no pé, acabou por tornar-se um grande trunfo da banda. Por acaso? Não, é claro! Sem propósito não foi, não sejamos inocentes. Mas que mal há de se utilizar dos recursos que o próprio universo pop oferece.
Que bom.
Antes outros grandes discos como este fizessem tanto sucesso.
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vídeo de "Money for Nothing" - Dire Straits


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FAIXAS:
  1. So Far Away
  2. Money for Nothing
  3. Walk of Life
  4. Your Latest Trick
  5. Why Worry
  6. Ride Across the River
  7. The Man's Too Strong
  8. One World
  9. Brothers in Arms  

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Ouça:


Cly Reis


sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O Bode Espiatório

cotidianas #316 - Pavimentação



Ninguém sabe como o plástico é feito, 
Ninguém sabe. 
Como o leite é feito ninguém sabe, 
Não se sabe. 
A fórmula da coca-cola é segredo. 
A da pepsi também 
Foi feita por alguém. 
Plástico foi feito por ninguém 
Sabe como o chão é feito, 
Do que é feito o chão. 
Pé esquerdo, pé direito, 
Pavimentação. 
Mas do que é feito o chão? 
É feito de pedra, 
É feito de pixe. 
É feito de pedra e pixe. 
Pá pá pá pavimentação, pavimenta, 
Menta, mentalização! 
Mas ninguém sabe como a gente é feita, 
Se a gente é feita ou não. 
Mão esquerda, mão direita, 
Bate palma então! 
Pá pá pá pavimentação, pavimenta, 
Menta, mentalização! 
Mas do que é feita a gente? 
É feita de pé, 
É feita de mão. 
É feita de pé e mão. 
Ou não?


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"Pavimentação"
Titãs
(Arnaldo Antunes/ Paulo Miklos)

Ouça:
Titãs - "Pavimentação"

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Tedeschi Trucks Band - "Revelator" (2011)



Eu comecei a cantar quando era uma garotinha,
antes mesmo de falar.
 Minha mãe disse que eu costumava
cantar todas as manhãs no berço.” 
Susan Tedeschi


A Tedeschi Trucks Band, para quem ainda não conhece, e anteriormente conhecido como Derek Trucks e Susan Tedeschi Band, é um grupo de rock blues de Jacksonville, Florida. Formada em 2010, a banda é liderada pelo casal Derek Trucks e Susan Tedeschi, junto com os membros de seus grupos quando solos, uma banda com “apenas” 11 integrantes. Seu álbum de estreia, "Revelator" (2011), ganhou o 2012 Grammy Award de Melhor Álbum de blues.
E como não ser né? Para quem não sabe, Derek é sobrinho de Butch Trucks, baterista da “The Allman Brothers Band”, nada mais nada menos que uma das melhores bandas que já conheci até hoje, uma mistura de rock, blues e country viciante... Ok, depois eu faço um “álbuns” sobre essa baita banda, onde Derek também fez parte.  Mas, voltando ao guri, ele começou a tocar guitarra aos 9 anos e aos 13, já havia tocado ao lado de Buddy Guy, sem contar que cresceu ouvindo e aprendendo com ninguém menos que Duane Allman, guitarrista do Allman Brothers e uma das influencias de Derek quanto ao estilo de tocar com slide, que infância hein... E hoje tem sido apontado como melhor guitarrista de slide. Além de já ter tocado com Allman Brothers, Buddy Guy, Bob Dylan e John Lee Hooker, em 2006 foi convidado para fazer uma turnê mundial de Eric Clapton como solista, é muita honra!
E a Susan? Quando eu crescer, quero ser como ela!!! (rsrsrs!). Além de linda, a voz dela tem sido descrita como uma mistura de Bonnie Raitt e Janis Joplin, e ambas foram suas influências. Sem contar o estilo de tocar guitarra que é influenciado por Buddy Guy, Steve Ray Vaughan , Freddie King e Doyle Bramhall. Ela foi criada em uma família que não era musical, mas ficava escutando a coleção de vinis de blues que o pai dela tinha, onde começaram suas inspirações. Ela se juntou a um grupo gospel até se formar em composição musical aos 20 anos, ela continuou cantando gospel até ingressar na cena de blues de Boston, onde logo se estabeleceu como uma das melhores atuações ao vivo. Sua crescente reputação como corajosa e poderosa cantora e guitarrista a levou em 1998, a uma indicação ao Grammy por melhor artista novo. Ela já abriu shows de John Mellencamp, Bob Dylan e Rolling Stones, e de seus heróis pessoais como BB King, Buddy Guy e Taj Mahal. E foi abrindo shows em uma turnê para o Allman Brothers que essa dupla se encontrou.
Sobre "Revelator"... Pra quem não ouviu ainda, está perdendo tempo! Baita álbum e que começa com uma sonzeira chamada Come See About Me, duvido ouvir essa música sem ao menos se balançar ou bater o pezinho. Outro destaque nesse álbum, em minha opinião, é Midnight In Harlem, é tão doce, suave, ótima de ouvir, começa com um solinho discreto do Derek e seu slide e de Kofi Burbridge em seu keyboard que dá todo o charme para o inicio dessa baita música onde, em seguida, chega dona Susan com seus vocais fortes e suaves dando um show... É, acho que essa música é a minha preferida! Ah, isso sem falar de "Until You Remember", no mesmo embalo sutil, porém com aquela pegada R&B clássica da Susan. Tem outra também que gostaria de destacar, "Learn How To Love", onde voltamos a ouvir um bom, velho e pegado rock n’ roll soul, (rss)... Bom demais! Então, Tedeschi com seus vocais poderosos e suaves, e Trucks com sua guitarra deslumbrante em solos a base de slides maravilhosos, complementam um ao outro, formando essa baita banda que lhes apresento: Tedeschi Trucks Band!
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vídeo de "Midnight in Harlem" - Tedeschi Trucks Band

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FAIXAS:
1 "Come See About Me"                 
2 "Don't Let Me Slide"                 
3 "Midnight In Harlem"                 
4 "Bound For Glory"                 
5 "Simple Things"                 
6 "Until You Remember"                 
7 "Ball And Chain"                 
8 "These Walls"                 
9 "Learn How To Love"                 
10 "Shrimp And Grits (Interlude)"                 
11 "Love Has Something Else To Say"                 
12 "Shelter"


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Tedeschi Trucks Band - Revelator


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Colônia II







"Colônia II", REIS, Cly
foto com manipulação digital



REIS, Cly


cotidianas #315 - Smile



ARQUIVO DE VIAGEM - Feira do Largo da Ordem - Curitiba/PR





Em frente ao Palácio Garibaldi,
um dos prédios históricos da cidade




O tempo nublado e frio não nos desencorajou de conhecer o Centro Histórico de Curitiba no domingo pela manhã, dia em que semanalmente ocorre a tradicional Feira do Largo da Ordem. Aproveitando esse cenário, forjado com várias casas de estilo português do século XIX, além de centros culturais e históricos da cidade, como o Museu Paranaense – um casarão antigo transformado em espaço expositivo oficial do estado, bem legal –, a feira é de um clima superagradável e democrática. Crianças, idosos, adultos, moradores e turistas de todas as etnias e gerações: todos frequentam – o que faz lembrar o também tradicional Brique da Redenção, de Porto Alegre.
São 200 barracas espalhadas pelas ruas com artesanato, roupas, comidas e outros, entre os quais um muito interessante de louças e bordados ucranianos, uma das imigrações mais fortes de Curitiba junto com os japoneses, portugueses, espanhóis, italianos, árabes e poloneses (claro, sem falar dos africanos levados para o Paraná na época da escravidão e dos índios, que já habitavam todo o estado). Nas ruas, igualmente, há igrejas, bares, e obras históricas, como o Palácio Garibaldi, o Memorial da Cidade e até uma mesquita (excepcionalmente aberta naquele dia), templo religioso da comunidade muçulmana local, inaugurado em 1972.
O olhar de Leocádia Costa traz luz a alguns desses pontos e faz jus à beleza de outros, como as ruínas da Igreja de São Francisco de Paula, do início do século XIX, a simpática Igreja do Rosário dos Pretos e a Fonte da Memória, na Praça Garibaldi, que tem como destaque o chafariz do Cavalo Babão. No mais, a feira de cabo a rabo respira música. Ouvem-se sons de todos os lados: de grupo de chorinho a índios peruanos com suas flautas de bambu típicas. Para nós que gostamos de centros históricos de cidades, foi um barato. Vejam vocês, então, um pouco do que nós vimos na Feira do Largo da Ordem:


Detalhe da ruína da Igreja de São Francisco de Paula
Conjunto de choro e seresta
se apresentando na praça

Índios peruanos tocando suas típicas flautas de bambu
em plena feira

Vitrola do tempo do Império,
localzada no Museu Paranaense

Selos de erva-mate produzida
no Estado do Paraná
Arco do portal de entrada
da mesquita muçulmana

Turistas e fiéis na parte
interna da mesquita

Vista do deck do restaurante árabe,
coma praça e a Igreja do rosário dos Pretos ao fundo

Leocádia combinando com o Karmanghia



texto : Daniel Rodrigues
fotos: Leocádia Costa Daniel Rodrigues