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segunda-feira, 3 de novembro de 2014

"Os Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda do Santuário", de Keichi Sato (2014)


Temos a jovem Saori Kido, reencarnação da Deusa Atena, que juntamente com os bravos cavaleiros de bronze, Seiya de Pégaso, Shiryu de Dragão, Shun de Andrômeda, Ikki de Fênix e Hyoga de Cisne, vão até o Santuário para que Saori possa ocupar o lugar de verdadeira Deusa Atena. Porém, a tarefa não será fácil, eles terão que passar pelas doze casas do zodíaco, que são protegidas pelos cavaleiros de ouro (cada casa representa um signo do zodíaco), os cavaleiros mais fortes. Para chegar até a sala do terrível Grande Mestre. O Grande Mestre é o homem que tentou matar Saori quando ela ainda era um bebê, para ficar no lugar de Atena como o ser mais poderoso do Santuário.
Enxuguei minhas lágrimas saudosistas para começar escrever este texto, por que esse desenho faz da parte da minha vida, foi algo importante (e continua sendo até hoje), para você que está lendo, pode parecer bobagem, mas fazer o que se eu gosto muito de Cavaleiros?
Apesar da ótima qualidade da animação, o longa sofre o prejuízo
de cair naquela comparação com a antiga série.
O anime (me refiro à saga das doze casas) tem muitos pontos altos, que são pouco trabalhados no filme, alguns eu entendo que tenham sido diminuídos, porque é um filme de 93 minutos, e a diminuição deles não afetou o meu relacionamento com o filme. Todo aquele drama em excesso que o anime tinha o filme tirou, e deu certo, o filme ficou dinâmico. Também modificaram alguns personagens, visualmente eles acertaram em cheio em tudo, a nova cara dos cavaleiros ficou bem legal, deu uma modernizada nas roupas, cabelos, o visual ficou perfeito. As armaduras ficaram lindas, elas tem peso, parecem ser feitas de bronze ou de ouro, o design esta incrível, só elogios às armaduras. Porém, os elogios às mudanças acabam aqui, por que não mudaram só o visual dos personagens, mas também mudaram a personalidade de um personagem importantíssimo, o coitado do Máscara da Morte de Câncer, que era um sádico assassino sanguinário (que matava até crianças), que no filme entendo que era um personagem pesado demais, já que o filme é para crianças, mas a mudança é drástica. Ele é um personagem bobo, com piadas forçadas, sua cena me deixou assustado, pensando para onde o filme estava indo, definitivamente desnecessário, muito ruim, mas felizmente o filme volta ao rumo normal. Se Máscara da Morte sofre por ter muito tempo de tela, o contrario acontece com Shaka de Virgem, Mestre Ancião e Ikki. Shaka contra Ikki foi uma das lutas mais fantásticas do anime, por que são dois personagens muito fortes, Shaka é cavaleiro mais próximo de Deus, ele tem palavras sabias, neste longa ele não faz nada, fica caminhando com a mãozinha na frente do peito de um lado para outro e não faz nada, nem “KHAAAN”, ele grita, e o Ikki coitado, aparece algumas poucas vezes, bem rápido e já sai de tela, ele não tem importância nenhuma no filme, e o Mestre Ancião, ele nem aparece, nossa, isso é imperdoável (#chateado).
Ainda emocionante para os saudosistas fãs da série.
Resumindo, é um filme bem caprichado, uma animação impecável, os efeitos são grandiosos, as batalhas (apesar de poucas) são bem feitas, um parabéns para a equipe de montagem, que conseguiu dar um ritmo legal ao filme, como espectador, recebendo varias informações, assistindo lutas, tudo ao mesmo tempo, você não fica perdido, por que os cortes são bem executados, as cenas duram o tempo necessário para passar informação (exceto a cena do Mascara da morte, essa dura tempo de mais), como fale tiraram o drama, não tem Seiya chorando por Seyka, Hyoga chorando pela mamãe, Shyriu chorando pela Shunrei, Ikki chorando pela Esmeralda, que no anime funciona, mas para fazer UM filme, não tinha como colocar tudo isso, então o roteiro foca mais no relacionamento Seiya e Saori. Não que drama do anime seja ruim, mas tem alguns que são exagerados, como o drama de Aiolia de Leão, que sofre, por seu irmão Aiolos de Sagitário (já falecido) ser conhecido como homem que traiu Atena ,isso e mostrado o tempo todo no anime, e fica um pouco cansativo. Há outros que seriam necessários, eu mesmo senti falta da busca pelo sétimo sentido, dos cavaleiros de Bronze sofrendo para elevar o cosmo para passar pelas Doze casas, que no longa parece ser bem fácil chegar no sétimo sentido, também senti falta daquele relacionamento de irmãos que eles tem (isso fica muito mais claro no mangá), a amizade bela que nos é mostrado no anime, eu acho que seria bom ser mostrado (incluindo a bela demonstração de amizade na casa de libra).O filme não fala de onde eles vieram, como ganharam as armaduras, as únicas informações de que temos sobre os cavaleiros é aquela explicação que Tatsumi dá para Saori no começo, e depois quando Seiya conta um pouco de seu passado para a mesma Saori. O grande destaque vai para o excelente trabalho da dublagem do estúdio Dubrasil, nossa é de chorar quando você ouve os personagens gritando os nomes dos golpes, um trabalho exemplar, que agiganta o filme.
O resultado final é um filme divertido, mas que não agrada, muito por nossa culpa (isso mesmo, minha e sua) que assistimos o anime, e ficamos comparando o longa ao desenho, por isso as falhas se destacam mais que os aspectos positivos, o nosso sentimento saudosista é muito forte. Se eu nunca tivesse assistido Cavaleiros antes talvez eu gostasse mais do filme, por que ele tem um visual de vídeo game, e o ritmo dos filmes de ação atuais, mas eu já conhecia Cavaleiros de outros carnavais, e o anime mesmo com algumas falhas, continua perfeito, achei a ideia de fazer um longa boa, mas como fã chato, não gostei do resultado final, parece que faltou algo, o filme não atingiu o sétimo sentido.
Então vista sua armadura, eleve seu cosmo, e vá assistir o filme, não por mim, mas ...POR ATENAAAAAA!!!!!!!!!!

Um rosto no último degrau da escada









"Um rosto no último degrau da escada" - RODRIGUES, Daniel (2014)
foto e grafite sobre sulfite com manipulação digital (21 x 29,5 com)




sexta-feira, 31 de outubro de 2014

cotidianas #331 Especial Dia das Bruxas - Espantalho




- Ei, Earl – saudou o velho Hank adentrando o portão da propriedade dos McLennan.
- Ah, como vai, seu bode velho? - retribui o cumprimento.
- Com certeza melhor do que você, seu estrume de vaca
Os vizinhos de rancho sempre tratavam-se daquela maneira falsamente rude, típica de homens que na verdade tem grande apreço um pelo outro mas que procuram disfarçar o carinho com palavras indelicadas.
Assim que Hank aproximou-se e subiu os degraus do alpendre, Earl recebeu o amigo estendendo-lhe a mão, reafirmando a pergunta, agora em tom verdadeiramente cordial:
- Bom dia, Hank, como vão as coisas?
- Vão indo, Earl, vão indo. E por aqui?
- Não posso me queixar. A fazenda está em ordem, vamos começar a colheita. Consegui um bom preço pela produção deste ano.
- Isso é bom – comentou Hank brevemente, logo complementando – A propósito, foi uma boa providência a sua de botar um espantalho. Essas pragas desses bichos não deixam meu milharal em paz, também.
- Espantalho? - estranhou o dono da fazenda.
- É, aquele ali – disse Hank apontando para um espantalho que se via ao longe no meio da plantação, elevado do chão como que dependurado, com o enxerto saindo excessivamente pelas mangas da camisa xadrez e com uma enorme cabeça de abóbora, coberta por um largo chapéu de palha todo desfiado, pendendo mórbidamente para o lado.
- Mas eu... Não fui eu quem colocou aquele espantalho lá – afirmou o fazendeiro, desconfiado.
- Ah, devem ter sido as crianças, Earl. Esses meninos são umas peças, mesmo -e riu.
- É, deve ter sido. Devem ter sido... eles – confirmou, meditabundo, sem muita convicção.
Hank, no entanto, interrompeu o devaneio do amigo para advertir:
- Mas tome cuidado para que os meninos não vão muito longe, mesmo dentro da sua propriedade, Earl. Não viu o que andou acontecendo no Lago Rocks? Parece que um doido desses, um psicopata, andou fatiando um grupo de jovens que acampava na cabana da colina. Parece que usou uma foice ou algo parecido. Desgraçado! Se eu pego um desses malucos pela frente, ele ia saber do que velho Hank é capaz. Ah, ia.
A conversa cessou por um momento e os dois ficaram em silêncio olhando para a plantação, provavelmente pensando, ambos, na loucura em que o mundo se transformara e coisas do tipo, até que Hank interrompeu:
- Mas já vou indo, Earl – disse batendo com a mão na própria coxa - Tenho que ir à cidade comprar ração pras galinhas. Você quer alguma coisa da loja do Bob?
- Não, não. Eu estou bem aqui. Só diga pr'aquele safado do Bob lavar aquele rabo sujo que eu estou sentindo o cheiro daqui.
A piada arrancou uma risada de Hank que já descia a pequena escada da varanda e seguia em direção à porteira.
Até que o amigo mencionasse, não havia lembrado dos filhos naquela manhã. Earl deu-se conta então que ainda não tinha ouvido movimentação das crianças no quarto de cima. Àquela hora já costumavam estar acordados. Resolveu então subir para tirá-los da cama. Antes de entrar na casa lançou um último olhar para a plantação. Sim, tinha orgulho dela. Que beleza.
Mas havia algo... O espantalho que Hank lhe mostrara não estava mais lá. Estranho.
Ora, devia ter caído do pedaço de pau que o mantinha em pé. Por certo.
Deu de ombros, abriu a porta e entrou na casa encaminhando-se para a escadaria que dava para o andar de cima. Estranhou aquela palha no chão. Fazia uma espécie de trilha que seguia escada acima.
Ouviu um barulho.
Teriam acordado?
Com um sentimento que não saberia descrever naquele momento, ainda na parte de baixo da escada, o fazendeiro, olhando para cima, para a porta do quarto, chamou:
- Crianças?



Cly Reis

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Sam Peckinpah: Um Poeta na Direção



"Tragam-me a cabeça
de Alfredo Garcia"
Tenho um fascínio enorme por estes três filmes de Sam Peckinpah. Seu estilo de violência gerou polêmicas e fez com que ele fosse uma espécie de renegado por Hollywood. De personalidade forte, bebeu, usou drogas e fazia tudo a seu jeito. São famosas suas brigas com diversos atores, produtores e executivos, entre eles Charlton Heston. Mas também teve grandes e fiéis amigos como os atores Ben Johnson e Warren Oates, o qual ele fez questão de presentear com o personagem de "Traga-me a Cabeça de Alfredo Garcia".
Dustin Hoffman no impressionante papel do
serial-killer de "Straw Dogs"
Quem não lembra a cena-presságio dos meninos sacrificando um escorpião em "Meu Ódio Será sua Herança", sua grande obra-prima? Ou do estupro quase que consentido em "Sob o Domínio do Medo", o qual a personagem tinha desejo por seu estuprador e que terminou com o marido (Dustin Hoffman) eliminando violentamente um a um seus agressores e de sua esposa? Em "Traga-me...", Oates, com uma cabeça decepada dentro de um saco, tiroteia com caçadores de recompensa no deserto, matando todos nas famosas cenas em slow do diretor. Esse último filme foi todo filmado no México e com baixo orçamento, já que os estúdios não queriam financiar seus filmes nos EUA. Apelidado de "Poeta da Violência", Peckinpah quebrou a morosidade da indústria de cinema americana, mas seu estilo soava uma afronta e muitos diziam que beirava o fascismo.
Eu penso que ele foi um diretor muito à frente de seu tempo, inovador e estilista. Usava essa violência como uma espécie de metáfora-protesto contra a própria violência. Sempre quando vejo ou revejo um de seus filmes, tudo me parece tão atual. Prefiro a alcunha de "poeta" na direção. É isso que ele foi.
“Meu ódio Será Sua Herança”






Valentine & Twins









"Valentine & Twins" - RODRIGUES, Daniel
foto digital (2014)






segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Prince - "1999" (1982)



"Não se preocupe,
eu não vou te machucar.
Eu só quero que você
se divirta um pouco."
frase de introdução da música "1999"




A melhor coisa que eu fiz na minha vida foi trocar aquele CD do Tears for Fears por um do Prince. Depois de um longo período de preconceito contra o baixinho de Minneapolis, julgando se tratar de mais um popzinho barato, fui aceitando-o melhor aos poucos. Conheci a música "Sign'O the Times" na MTV e simpatizei mais ainda com o cara, mas ainda tinha aquela resistência. Então deu-se que certa vez, comentei com um amigo, um colega de trabalho, que eu tinha um CD do Tears for Fears mas que não curtia muito a banda, achava o som deles meio morno, sem graça e tal, e ele por sua vez, na mesma conversa me disse que tinha um do Prince e que também não morria de amores. Percebendo meu interesse pelo artigo que ele desdenha, propôs então uma troca. Uma troca simples: Tears for Fears por Prince. Bom, não podia ter feito um negócio melhor.
Era o que eu precisava pra descobrir, gostar e respeitar definitivamente aquele carinha.
Gênio! Gênio!
Como é que eu não tinha percebido antes.
(e já tinha sido alertado)
Com a cara dos anos 80, recheado de teclados, sintetizadores, com ambição futurista, inspirado no filme "Blade Runner" segundo o próprio Prince, 1999” (de 1982) se apresentava para mim então como algo fascinante pela riqueza de ritmos, elementos e alternativas. Embora tivesse, é bem verdade, essa maciça utilização de teclados e dos recursos que a tecnologia, então nova, do início dos anos 80 começava a proporcionar, Prince chama atenção muitas vezes exatamente pela capacidade de fazer muito com pouco. Uma batida básica, uma programação de bateria, um ritmo pré-gravado no teclado e a música está pronta. Mas o que seria limitação nas mãos de qualquer outro, nas dele transforma-se numa obra-prima pela incrível leitura e pela musicalidade que este notável artista carrega consigo.
“Delirious” e “"All the Critics Love U in New York" vão bem nessa linha do “menos é mais”: batida repetida, base gravada de teclado e temos uma música estupenda.
O álbum é perfeito da primeira à última mas tenho predileção especial pela apimentada “Lady Cab Driver”, um funk embalado com um daqueles notáveis trabalhos de guitarra de Prince, discretos mas geniais, incrementada por gemidos femininos, altamente sugestivos; e pela sensual e quente “DMSR” (“Dance Music Sex Romance”), uma longa peça musical na qual Prince brinca com um todas as possibilidades que a música negra oferece.
Não dá pra deixar de citar, é claro, a faixa que dá nome ao disco, a pessimista “1999”, a divertida “Let's Pretend We're Married” e o sucesso “Little Red Corvette”.
Embora tenha a cara dos anos 80, “1999”, acho, alcança a pretensão de seu nome profético, estando desde aquele momento à frente de sua época permanecendo ainda hoje, já adiante da data anunciada, com uma linguagem pop em poucos casos superada.
E pensar que eu não gostava de Prince...
Bendita hora que eu aceitei aquela troca! Foi a melhor coisa que fiz na minha vida.
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FAIXAS:
1. "1999" 6:15
2. "Little Red Corvette" 5:03

3. "Delirious" 4:00
4. "Let's Pretend We're Married" 7:21
5. "D.M.S.R." 8:17
6. "Automatic" 9:28
7. "Something in the Water (Does Not Compute)" 4:02
8. "Free" 5:08
9. "Lady Cab Driver" 8:19
10. "All the Critics Love U in New York" 5:59
11. "International Lover"

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Ouça:


Cly Reis


sábado, 25 de outubro de 2014

Karine Reis - Quiosque Costello - Praia de Copacabana - Rio de Janeiro



Copacabana - 25/10/14 -19h 30min
Curtindo apresentação da minha irmã,  muito talentosa, por sinal, cantando clássicos do samba e sucessos da MPB.  Olha, não é por ser irmã,  não,  mas manda muito bem. 
Mas agora vou continuar aqui no samba, nos petiscos e na minha cervejinha. Me dêem licença.

Stanley Jordan no 4º Canoas Jazz Festival



Jordn fazendo
seu peculiar "tapping" na guitarra


Fiquei sabendo hoje com alegria da vinda do guitarrista norte-americano Stanley Jordan ao Rio Grande do Sul para a 4ª edição do Canoas Jazz Festival. Promovido pela Prefeitura de Canoas, esse festival vem surpreendendo ano após ano com interessantíssimas programações e atrações internacionais que só se tem chance de ver dentro do evento. Ano passado, por exemplo, tive a oportunidade de ver um show histórico de Ravi Coltrane no Parque Municipal Getúlio Vargas, mas sei também que, em 2012, já havia estado por aqui outro monumento do, Dave Holland. Ou seja, além do Stanley Jordan, o próprio festival é uma atração em si por valorizar o estilo de forma tão consciente e qualificada.
Agora, com Jordan pisando mais uma vez em terras gaúchas, a ideia é não perder, tendo em vista que o músico já tocou diversas vezes por aqui desde os anos 80 e nunca o assisti. Sou fã do seu característico jeito de tocar desde pequeno, desde quando nem sabia que aquilo que ouvia chamava-se jazz. Além disso, ele é um cara envolvido com a arte da música de forma integral e profunda (Jordan é musicoterapeuta, e inclusive irá ministrar uma oficina a crianças carentes com deficiência em uma escola pública de Canoas). Por isso, promete ser um show marcante do autor de discos como “Magic Touch” e “Touch Sensitive”.
O Canoas Jazz tem na sua programação shows nas estações da Trensurb, entre os dias 20 e 27 de novembro, e shows em palco ao ar livre, no Parque Getúlio Vargas, nos dias 28 e 29 de novembro, este, dia em que está previsto show de Stanley Jordan. Vamos aguardar a programação completa, que sai em breve.


por Daniel Rodrigues

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Anta Gônica

cotidianas #330 - "Lave-me, por favor!"



Mal entrou na garagem do prédio onde trabalhava e deu de cara com aquela frase no capô dianteiro do seu carro: “LAVE-ME, POR FAVOR!”.
- Eu só queria saber quem foi o babaca que fez isso – praguejou entre os dentes para si mesmo e entrou no carro que, por sinal, não estava nem perto do que poderia se chamar de limpo.
Mas enfim, rumou para casa e esqueceu o assunto.
No dia seguinte, surpreendeu-se ao deparar-se com uma nova inscrição acrescentada à anterior, que, diga-se de passagem, nem se dera ao trabalho de apagar. Desta vez a pichação na poeira dizia: “FUI EU.”
Seria aquilo uma resposta à pergunta que fizera no dia anterior? Se era, o engraçadinho estava na garagem o observando. Provavelmente estava agora novamente.
Olhou em volta tentando localizar alguém atrás dos pilares da garagem e falou alto o suficiente para que quem estivesse por ali pudesse ouvir:
- Sai daí, ô babaca! Não tem mais o que fazer, não?
Não percebendo movimento nem resposta, insistiu:
- Não tem coragem de assumir o que faz, né, ô idiota.
De repente, por um momento teve a impressão de estar sendo traído pelos próprios olhos mas o que via era real. No capô do carro, logo abaixo das duas inscrições anteriores, se escrevia como se um dedo traçasse na poeira, a frase, “EU MESMO. SEU CARRO.”
Tomou um susto. Correu os olhos ao redor procurando algo. Algo invisível. Pensou em fantasmas, assombrações, maus espíritos. Só conseguiu exclamar:
- O que que tá acontecendo aqui?
O que foi respondido pela pena invisível sobre o capô empoeirado com a frase “Lave-me, por favor. Estou imundo.”
Pela primeira vez desde o primeiro momento de susto, dava margem à improvável possibilidade de que... o carro se comunicava com ele. Não! Impossível!
- É você, mesmo? Meu carro? - perguntou hesitante para aquele automóvel ali parado, não conseguindo evitar de sentir-se um pouco idiota. Mas viu a resposta escrever-se, novamente, assim como as outras, no metal poeirento do carro.
- “SIM”.
Sim, o carro comunicava-se com ele. Escrevia. Escrevia na sujeira da lataria. Ficou tomado de uma alegria infantil por um momento mas logo pensou na solicitação feita por seu próprio veículo.
- Mas se eu te lavar você não vai ter mais como falar comigo... - praticamente lamentou.
E viu então formar-se uma frase um pouco mais longa no pouco espaço que ainda restava na lataria da tampa do motor:
“EU SEMPRE ARRANJAREI UMA MANEIRA DE FALAR COM VOCÊ.”
Visivelmente emocionado, entrou no carro, girou a chave e dirigiu-se a um lava jato, onde observou cada fase do processo de limpeza como se apreciasse o banho um mascote.
Levou o carro para casa, entrou na garagem do condomínio, estacionou, saiu do veículo e como se dirigindo a um filho deu “Boa noite” antes de subir as escadas que levavam a seu apartamento.

No dia seguinte encontrou o carro lá. Lindo, Brilhante. Reluzente. Lamentou que não houvesse poeira para que o amigo lhe “falasse” alguma coisa. Sua frustração, no entanto, logo foi desfeita quando no pára-brisa dianteiro, subitamente embaçado sem motivo aparente, com uma delicada caligrafia, viu-se escrever apenas duas palavras: “BOM DIA!”.


Cly Reis

“Ron English - Do Estúdio Para a Rua” - Centro Caixa Cultural - Rio de Janeiro











Abriu a poucos dias por essas bandas daqui do Rio, uma interessantíssima exposição, à qual certamente visitarei. Trata-se da mostra “Ron English - Do estúdio para a rua”, com 110 obras do provocativo e revolucionário artista plástico norte-americano que mistura elementos de arte pop e surrealismo a símbolos religiosos, personagens históricos, realidade social, publicidade, etc. Além da exposição, o evento conta ainda com a exibição de um documentário, "The Art and Crimes of Ron English", que mostra um pouco do processo criativo do artista, suas ideias, conceitos e suas interveções transgressoras em espaços públicos.
A mostra fica aqui no Rio até o dia 21 de dezembro no Centro Caixa Cultural. Confira abaixo mais informações.



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“Ron English - Do estúdio para a rua”
visitação: até 21 de dezembro de 2014
horário: 10h às 21h, de terça a domingo
local: Caixa Cultural Rio de Janeiro – Galerias 2 e 3
endereço: Av. Almirante Barroso, 25, Centro
ingresso: gratuito

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

"Riocorrente", de Paulo Sacramento (2013)



É difícil achar um bom filme nacional (fora as comédias) nos grandes cinemas, mas em uma terça a noite eu marquei um encontro com o pensativo, intrigante, um pouco confuso e premiado (melhor fotografia e melhor montagem no Festival de Brasília) "Riocorrente", do diretor Paulo Sacramento ("O Prisioneiro da Grade de Ferro", 2003), mas não rolou nada sério, foi uma noite agradável, não vou mentir, mas vamos ser apenas bons amigos.
Neste filme acompanhamos um triângulo amoroso formado por Renata (Simone Iliescu), Marcelo (Roberto Audio) e Carlos (Lee Taylor), todos tentando levar a vida no meio de uma frenética metrópole, no filme, São Paulo, mas se encacharia tranquilamente em qualquer outra. O foco do filme é como esses três se relacionam entre eles (nenhum dos dois rapazes sabe da existência do outro), ao mesmo tempo como se relacionam com a cidade.
Renata é uma mulher moderna, que vai atrás do que quer, não tem medo de arriscar, ela visivelmente está atrás de algo, mas acho que nem ela sabe exatamente o que ela quer, enquanto ela não encontra, curte a vida. Renata consegue manter, dentro do possível, um bom relacionamento com os seus dois amantes, ela não está ficando com os dois para no final escolher um, ela quer ficar com os dois, quer ter o prazer que cada um pode lhe proporcionar, a vida comum, um dia de trabalho depois chegar em casa jantar com o namorado, contar como foi o dia, é uma boa noite de sexo, e isso ela tem com Marcelo, ou a vida loca de sair beber em um boteco qualquer, ser jogada na parede ser chamada de lagartixa, e isso ela tem com Carlos.
Renata em sua turbulenta relação com o encrenqueiro Carlos.
Marcelo é um critico de arte, que escreve criticas para um jornal, ele é o cara certinho do filme, gosta de planejar as coisas, temos uma cena que mostra que mostra isso. Certa noite, Renata o convida para pegar o carro e viajar, ele se mostra totalmente contrario: “como assim viajar, sem planejar?” Só pegar o carro e sair, nem que seja só por um final de semana, sem planejar tudo, não esta nos planos de Renato. Mas ele é o personagem mais fácil de se identificar, por que a maioria de nós (generalizando é claro) somos “Marcelos”, apenas aceitamos as coisas, não queremos mudá-las, entramos no ritmo das grandes cidades, e ficamos na zona conforto.
Carlos é um motoqueiro, ex-ladrão de carros, (que ainda se vê tendo que roubar em alguns momentos) e atualmente trabalha em uma oficina. Ele está à margem da sociedade, também está preso em suas dúvidas, em qual rumo dar a sua vida, ele tenta mudar, mas também não quer perder sua identidade, está amarado ao seu passado. Carlos tem a companhia de Exu, um menino de rua que Carlos cuida como se fosse seu filho, embora fique claro que Carlos não é pai de Exu, o filme não explica qual o ligação real dos dois, apenas sabemos que os pais do menino foram embora e Carlos pegou o menino para criar. Carlos não funciona bem como figura paterna, Exu é mostrado em diversas cenas andando pela rua sozinho cometendo pequenos delitos, não que Carlos também o abandone, pelo contrário, ele se demonstra preocupado com o menino, porem é uma figura ausente.
Exu, o menino de rua que tem forte ligação com o ex-ladrão Carlos.
Exu (Vinícius dos Anjos), esse menino, não tem nenhuma fala no filme, ele vive perambulando pela cidade de São Paulo, ele é um personagem inocente (embora em algumas cenas ela não aparece fazendo coisas “feias”), seu olhar revela isso, o jeito maravilhado que ele olha para a grande cidade, temos uma cena onde ele brinca com seu dente mole, porque ele ainda é uma criança e se encanta com coisas simples, mas também já é prisioneiro do estilo de vida de uma grande cidade, tento que dar seu jeito para se virar
"Riocorrente" me parece um poema visual, esse poemas modernos urbanos com uma linguagem “difícil”, com palavras bonitas, esse filme é isso, cheio de camadas, com metalinguagem, simbolismo, que acrescentamos uma fotografia bela e uma montagem que sai do comum, mas esse somatório de coisas fazem o filme ser um pouco “difícil”, e afastar o grande publico do filme, claro é uma opção do diretor, que felizmente consegue fazer um filme do seu jeito, a linguagem que o filme usa não e fácil de ser compreendida tem que estar muito atento ao filme. Achei o ritmo do longa confuso (mais uma vez deixo claro que foi uma opção do diretor), atrapalha um pouco a experiência, tem coisas que poderiam ser mais simples, porém o trabalho da equipe de som, dos atores que estavam ótimos e o rigor artístico que o filme tem, me fazem indicar esse filme.
Assista ao filme, caminhe pela cidade e escute uma música do maluco Arnaldo Batista.


por Vágner Rodrigues









Vágner Rodrigues é estudante de Pedagogia e Artes visuais e trabalha como professor em uma creche. É um cinéfilo e adora assistir a filmes de todos os gêneros, lugares e épocas, de preferencia comendo pipoca . É fã de quadrinhos, animes e consumidor de cultura pop em geral.
Nasceu e reside em Porto Alegre.







Berinjela Beligerante

terça-feira, 21 de outubro de 2014

cotidianas #329 - World




New Order- "World"

Olhares itinerantes por Ouro Preto











A cama de Guinard
(Leocádia Costa)

Andante indo pelas ruelas
(Daniel Rodrigues)

Artistas de rua e outro tempo
(Leocádia Costa)

Círculos d'água no ar
(Leocádia Costa)

Fachada estilo colonial, típica de Ouro Preto
(Leocádia Costa)

Nossa Senhora do Pilar aponta para o céu
(Leocádia Costa)

Portada e parede, madeira e pedra
(Daniel Rodrigues

Quando se olha para o chão
(Leocádia Costa)

Rendas na janela
(Leocádia Costa)

Um dorme lendo, outro lê dormindo
(Daniel Rodrigues)





fotos:
Leocádia Costa e
Daniel Rodrigues

sábado, 18 de outubro de 2014

Ride - "Going Blank Again" (1992)





"As pessoas estavam muito apaixonadas pela forma como fazíamos as coisas no início,

mas o fato que tudo é que tinha mudado bastante durante esse processo,
assim como as próprias pessoas.
Acho que “Goin Blank Again” refletiu isso.
Acho que para um monte de gente foi um certo choque.
Talvez eles esperassem algo mais obscuro ao estilo de “Nowhere”. 
Mark Gardener
vocalista e guitarrista




" 'Going Blank Again' estava à frente de seu tempo para as pessoas que queriam grunge e shoegaze.
Ou ele não associava-se claramente com um movimento especial na música na época,

ou simplesmente não havia um movimento na música naquele momento,
o que é a verdade. Aconteceu por conta própria. "

Loz Colbert,
baterista


Muita gente prefere o cultuado “Nowhere”, álbum de estreia dos ingleses do Ride, mas, particularmente, tenho um carinho todo especial e uma grande admiração pelo ótimo “Going Blank Again” de 1989. Embora seu antecessor seja inegavelmente bom, um clássico do shoegaze britânico, “Going Blank Again” soa mais radiante, mais luminoso, mais aberto.

Um órgão ecoando, uma virada de bateria, uma linha de baixo sinuosa e as guitarras rasgando estridentes apresentam a maravilhosa “Leave Them All Behind”. O vocal em coro de Andy Bell e Mark Gardener se encarrega de dar toda uma monumentalidade à canção, enquanto os solos psicodélicos, os rolos e as pratadas constantes conferem um gostoso ar de jam session à faixa de abertura que, de cara, já se apresenta como uma das grandes do álbum.

Provavelmente pelo efeito extasiante da faixa inicial, as seguintes “Twisterella” e “Not Fazed” e “Chrome Waves” podem dar a falsa impressão de serem menos interessantes, mas assim que o ouvinte se recupera da sensação estonteante da abertura e depois de algumas audições um pouco mais atentas a impressão facilmente é rechaçada, especialmente em relação a “Not Fazed”, faixa elétrica, cheia de energia, conduzida por um riff cativante. Mas se mesmo com uma observação mais cuidadosa, de alguma forma o sentimento persistir, com certeza será desfeito logo em seguida pela empolgante “Mousetrap”, uma adorável canção delineada por uma belíssima melodia vocal em coro da dupla Bell e Gardener; e pela espetacular “Cool Your Boots”, outra que justifica a grandeza do álbum, com uma inspirada linha de guitarras ruidosas e rascantes, incrementada por pedais wah-wah, mas cujo ponto alto, no entanto, se dá no seu trecho final quando a bateria alterna o ritmo cadenciado da canção com breves acelerações ao estilo punk, culmina num final apoteótico.

A simpática “Making Judy Smile” é uma daquelas canções de transição como todo grande disco tem, fazendo uma espécie de ponte para o segmento final quando outros dois grandes momentos se afiguram: as espetaculares “Time Machine”, e “OX4”. A primeira, surgindo com uma introdução de teclado viajante, algo meio “espacial”, seguido por uma linha de baixo dub, que quebrada por uma marcação no aro da bateria, irrompe agora sim, em um baixão com distorção, contrapondo com guitarras que desta vez aparecem puras e limpas, acompanhadas por uma programação de teclado contínua que pontua com magia e levez toda a canção. E se a difícil tarefa de finalizar bem um álbum de qualidade como “Going Blank Again” ficaria a cargo de “OX4” ela não decepciona e o faz de forma perfeita numa das canções mais belas e inspiradas do disco. Com uma introdução de teclados bem psicodélica, uma levada apaixonante e outra linha de baixo muito envolvente, a faixa conta com um trabalho de guitarras excepcional, dobrando e soando como bandolins em alguns momentos assumindo assim um certo tom de grandiosidade e, por fim, desfazendo-se num belíssimo solo de guitarra que some silenciando aos poucos, já deixando vontade de ouvir de novo.

À parte qualquer questão pessoal por ser “Going Blank Again” um dos meus xodós, ele não entra nos ÁLBUNS FUNDAMENTAIS por uma questão meramente pessoal. Ride é um dos grandes representantes do rock inglês produzido no final dos anos 80 e o álbum um dos melhores exemplares do britpop, deixando um pouco de lado o ranço de alguns de seus colegas e compatriotas, e jogando um pouco de luz na obscura cena musical britânica daquele momento.
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FAIXAS:
1. Leave Them All Behind (Ride, Gardener) 8:18
2. Twisterella (Ride, Gardener) 3:43
3. Not Fazed (Ride, Bell) 4:25
4. Chrome Waves (Ride, Bell) 3:55
5. Mouse Trap (Ride, Gardener) 5:15
6. Time Of Her Time (Ride, Bell) 3:17
7. Cool Your Boots (Ride, Bell) 6:04
8. Making Jody Smile (Ride, Bell) 2:39
9. Time Machine (Ride, Gardener) 5:55
10. OX4 (Ride, Gardener) 7:04

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Ouça:
Ride Going Blank Again


Cly Reis


Sem Título









Sem título - COSTA, Leocádia
técnica mista (gravura, colagem e carimbo)
Nov. 2009




COSTA, Leocádia

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

João Donato - 1º Porto Alegre Jazz Festival – Parque da Redenção – Porto Alegre/RS (12/10/2014)



Água!

Chuva só se foi de musicalidade com o versátil e eclético João Donato no palco.
O temor era de que caísse um toró como ocorrera na manhã daquele domingo. O espetáculo estava marcado para as 11h, porém, ali pelas 9h, o tempo mostrava-se nublado mas estável, sem nenhuma chuva. Com a programação confirmada pelas redes sociais, fomos, Leocádia e eu, assistir ao principal e derradeiro dos shows gratuitos do 1º Porto Alegre Jazz Festival. E, ao contrário do que pudesse se esperar, não foram pingos que caíram sobre nós, mas um sol forte de mormaço que assolou o Parque da Redenção. O clima abafado, entretanto, não tirou o prazer de assistir a uma das lendas vivas da MPB e da música mundial: o pianista, acordeonista, arranjador, compositor e cantor acreano João Donato.

Com sua simpatia peculiar, Donato, um dos principais músicos brasileiros de todos os tempos, veio à cidade comemorando seus 80 anos de vida. Acompanhado de uma maravilhosa banda – Robertinho Silva, craque da bateria; Luiz Alves, baixo acústico; Ricardo Pontes, sax alto e flauta; e José Arimatéa, flughorn e sax tenor –, ele nos inundou com o que há de mais cristalino na música brasileira sintonizada com o mundo. Tudo compartilhado com o público com a sabedoria e a doce malandragem que sempre lhe foram características. Não à toa, o tema inicial do show foi “Amazonas (Keep Talking)”, clássico do álbum "Quem é Quem", de 1972, resenhado aqui no blog por Márcio Pinheiro. Sente-se nela o mambo cubano, o jazz fusion, a Bossa Nova, a soul music, tudo enredado num riff de piano inconfundível e solos magníficos de Donato, de Alves e dos dois sopros. Grandiosa como o rio que leva seu nome.

A sensação mágica de estar vendo João Donato ao vivo logo se ressalta. É assombroso perceber que justo aquele senhor animado e tomado de genialidade no palco é o ÚNICO compositor pré-Bossa Nova vivo. O único! Todos já se foram: Dolores Duran, Antonio Maria, Billy Blanco, Johnny Alf, Paulo Moura, Moacir Santos – e, claro, o próprio Tom Jobim, que foi pré, durante e pós-Bossa. Donato, este músico de formação tão erudita quanto popular, que viveu o boom da Bossa Nova mas logo se bandeou para os Estados Unidos para realizar obras referenciais como “A Bad Donato” (1970) e “Donato/Deodato” (em parceria com Eumir Deodato, de 1973), não só seguiu produzindo espantosamente nos anos 70, 80 e 90 afora como, está aí até hoje, desbravando oceanos.

Sensação mágica de estar vendo ao vivo
um dos maiores gênios da música brasileira.
Mas se o assunto era água, em seguida Donato chamou a todos para caírem na lagoa com “O Sapo”, outro marco de seu repertório que, na versão do show, não veio com a letra de Caetano Veloso (que a reintitula de “A Rã”), mas com o vocalise clássico – algo como: “Pã-rã-rã-rã/ Pã-rã-rã-rã-rá daza-inguê/ Daza-inguê-inguê guin-rin-gui-din/ Guin-rin-gui-din gui-din gon-ron-gon-don/ Gon-ron-gon-don pã-rã-rã-rã...” – que, até onde vai meu conhecimento, teve sua “letra” inventada por João Gilberto quando este a gravou em 1971 no disco “João Gilberto en Mexico”.

Vieram outras belezas de total musicalidade: “Rio Branco” (referência à cidade-natal do compositor mas não menos aquífera em conceito); a gostosa “Nasci para Bailar”, que trouxe novamente os ritmos caribenhos; a romântica “Até quem sabe”; o bop “Song of my Father”, do pianista norte-americano Horace Silver; e o samba cool “Café com Pão”.

Das celebradas parcerias com Gilberto Gil tivemos o privilégio de ouvir algumas das melhores. Primeiro, “Bananeira” (“Bananeira, não sei/ bananeira, sei lá/ a bananeira, sei não/ a maneira de ver...”), animada e cantada pela plateia. “Lugar Comum”, das mais belas do cancioneiro de ambos os músicos, veio em ritmo de bossa nova, como a água do mar batendo, como um “começo do caminhar pra dentro do fundo azul”. A sabedoria oriental desta (“Tudo isso vem, tudo isso vai/ Pro mesmo lugar de onde tudo sai...”) se reflete em outra parceria da dupla, “A Paz”, das preferidas do público. Esta, porém, quase foi estragada por uma participação (nada) especial do músico gaúcho Totonho Villeroy (ah, não pode mais chamar de “Totonho”? Tem que ser Antonio agora, pra dar o ar de “artista sério”? Puxa, desculpe, mas até João Donato o anunciou assim). Não fosse o espetacular riff, a melancólica e profunda letra de Gil (que remonta ao cinema de Ozu à "Rosa de Hiroshima" de Vinícius) e o primor da execução da banda, Villeroy, desatento e sem brilho, quase direcionou a bomba atômica que cairia sobre o Japão para Porto Alegre. Ele conseguiu, apenas cantando e no único momento em que esteve no show, errar a letra! E duas vezes! O público e Donato (este, com oito décadas nas costas) tiveram que lembrá-lo, como num karaokê. Ridiculamente desnecessário.

Ainda rolaram duas de autoria de Donato com Martinho da Vila, mostrando o quanto a natureza africana e rural do segundo se reflete na universalidade estilística do colega. Uma delas, “Suco de Maracujá”, um samba maxixado cuja engraçada letra, de estilo literário típico do compositor carioca, relata a preocupação de um homem prestes a se casar com uma mulher muito fogosa (“Pra me casar com você/ Eu vou ter que me cuidar/ Contratar um personal/ Treiner pra me acelerar”). E, dependendo das situações do cotidiano do casal, a dieta dele vai se alterando: “Quando a gente for deitar/ Um bom pó de guaraná/ Se a quentura tiver morna/ Come um ovo de codorna/ E se a noite for infinda/ Aí só Pau de Cabinda/ Se ela quiser bis no fim/ Pimenta no amendoim/ E depois pra me acalmar/ Suco de maracujá.” O outro samba, “Daquele amor nem me fale”, também chistosa, dá uma cutucada no Governo: “Posso até discutir religião/ Ou falar num domingo de sol/ Criticar a terrível inflação/ O machismo, o racismo a tortura/ Mas daquele amor, Nem me fale...”.

O show terminou com João agradecendo aos gaúchos por terem trazido o sol, mas não sem antes gritar seu tradicional jargão para que a banda finalize os números: “Água!”. Coincidência ou não com a chuva que se prenunciava e não precipitou, ouvimos isso duas vezes, uma delas, inclusive, na faixa que encerrou a apresentação abaixo de muito sol, a marchinha “O bicho tá pegando” (“O coro tá comendo/ O bicho tá pegando”), que instaurou um clima de dança de salão no parque.

Assistir João Donato, ainda mais já numa idade assim tão avançada (e que, pelo contrário, ele não parece ter), é realmente muito especial, pois fica ainda mais evidente nessas horas a grandiosidade da música brasileira, que, naturalmente, se posiciona entre todos os chamados “estilos” musicais. Donato é genuinamente jazz? É. E é genuinamente MPB? É também. É tudo – e mais um pouco. Tanto faz o rótulo. O fato é que saímos, com perdão do trocadilho, encharcados de boa música, de música pura, límpida. Tu és água, João Donato.