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terça-feira, 17 de abril de 2012

Portishead - "Dummy" (1994)

MÚSICA DE PLÁSTICO
"Porque ninguém me ama, é verdade.
Não como você"
 trecho de 'Sour Times'




Tenho que admitir que me pareceu estranho num primeiro momento.
Aquilo parecia sem vida.
Na época eu lembro de ter definido aquilo como música de plástico. Era como se só a voz ali tivesse algum sinal humano. O resto era artificial, eletrônico, duro, sintético.
Aos poucos fui derrubando minha barreira criada nas primeiras audições e, além de entendendo melhor a música do Portishead, acabei sentindo-a melhor também. Ela tinha um elemento que me agradava muito, cria dos 80 como sou, que era aquela melancolia e escuridão do som dos góticos e similares; a voz da vocalista, Beth Gibbons, então, era na maioria das vezes pura dor e angústia, mas demorei um pouco para assimilar a transposição daquele tipo de som que eu curtia para os novos tempos que se apresentavam ali na metade dos anos 90. No fim das contas, provavelmente os elementos que eu mais relutara em aceitar, inicialmente, eram os que mais davam mérito ao som quase que único do trio de Bristol: as batidas secas, as programações, os scratches, os samples. Costuma-se definir o Portishead como uma banda de trip-hop mas, tão amplo de influências, referências e criatividade, considero hoje, já apaixonado por seu trabalho, limitado enquadrá-los apenas neste gênero.
"Dummy" seu álbum de estreia vai do jazz ao country, passando por funk, trilhas de filmes, tango, soul, hip-hop com naturalidade, sempre com samples inteligentes e criativos utilizados em colagens espertíssimas.
"Mysterons", a primeira do disco e a música que me fez começar a gostar de Portishead, apresenta-nos uma base fantasmagórica conduzida sobre uma percussão eletrônica à militar e um vocal levado entre a doçura e a angústia; um arpejado em linhas de tango abrem a boa "Sour Times" que traz um pouco mais de ritmo, mas não abre mão do pessimismo  (" 'cos nobody loves me..."); em "Strangers" Geoff Barrow apronta com uma genial repetição que lembra um telefone ocupado, acompanhado por uma guitarra bem distorcida; e o hip-hop chique "It Could be Sweet" pega mais leve e até poderia ser doce se não fosse sua letra amarga.
Scratches enlouquecidos, o vocal bem agudo e a batida 'de lata' marcam "Numb", uma das músicas responsáveis pela projetação da banda; um órgão quase monocórdio caracteriza "Wandering Stars"; "It's a Fire" é uma balada melancólica de vocal dolorido; "Roads" que parece estar ressoando o tempo inteiro é uma das que soa mais tristes do álbum e Beth Gibbons chega a parecer estar a ponto de se desfazer em lágrimas chegando ao final com o vocal rouco quase se desintegrando; "Pedestal" introduzida com um batidão alto e pesado, é bem jazz e traz uma linha de baixo sampleada bacanérrima, nesta com a voz soando mais mecânica que nas demais; e "Biscuit", com seu ar misterioso e repleto de dramaticidade, tem destaque para os trabalhos de samples, um de orquestra que permeia praticamente a música toda, e um de vocal ("I'll never fall in love again") que compõe e se integra à canção de uma maneira magnífica.
O disco encerra-se com a ótima "Glory Box", composta a partir do sample da música "Ike's Rap II" de Isaac Hayes, que depois de todos os clamores suplicantes de Beth Gibbons, de um solo estridente e melancólico de guitarra de Adrian Utley, é finalizada com uma batida grave e estrondosa como que imitando um coração batendo.
É, eu estava errado. Aquilo não era música de plástico.
Ali havia vida.
Ali existia um coração batendo.

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FAIXAS:
1."Mysterons" – 5:02
2."Sour Times" – 4:11
3."Strangers" – 3:55
4."It Could Be Sweet" – 4:16
5."Wandering Star" – 4:51
6."It's a Fire" – 3:48
7."Numb" – 3:54
8."Roads" – 5:02
9."Pedestal" – 3:39
10."Biscuit" – 5:01
11."Glory Box" – 5:06

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Ouça:
Portishead Dummy




Cly Reis

sábado, 14 de abril de 2012

cotidianas #153 - Jesualda



JESUALDA
(Jorge Ben)
Jesualda parou com o morro
Pois ela estava no alto
Mas não estava por cima
Moça simpática prendada ano ginasial completo
Toda certinha ainda donzela
Prá ninguém botar defeito
Cheia de afeto
Desceu pra ver de perto o asfalto quente
Sentir a brisa e a água salgada do mar
Molhando seu corpo delgado
Procurou um emprego e achou
Foi trabalhar num duplex na zona sul
De cozinheira de forno e fogão
La, la, la, la, la, la, la, la, la
La, la, la, la, la, la, la, la, la
Na flor da idade
Tão pura tão linda tão meiga
No ponto do ônibus
Num domingo à tarde
Sua felicidade pintou
Pois um moço simpático
Que ia no seu carro meio apressado
Com bandeira e tudo
Com bandeira e tudo ao Maracanã
No que olhou pro lado, parou
Saltou levou um papo
E a linda simpática donzela ele amarrou
Hoje Jesualda é feliz
Casou de véu e grinalda
E agora espera baby
Espera baby no exterior
Espera baby no exterior
Salve simpatia

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Ouça:
Jorge Ben - "Jesualda"

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Os Causo de dois Morro - O maior estádio do mundo

Pelo que nóis andô sabendo aqui em Dois Morro vai tê Copa do Mundo no Brasir. Eu sube que tão recauchutando uns campo de futebor por aí. Hmm...
Minerão, Ponte Nova, Maracanão... Faço pôco!!!
Estádio mesmo é o Municipar.
Pôca gente sabe mas Dois Morro tem o maior estádio do mundo. Todo mundo fala de Maracanhã, Uêmbli... Tudo fichinha perto do Estádio Municipar de Dois Morro "Epaminonda Nepomuceno Neto”, que nóis chama só de Municipar, mesmo.
O Municipar de Dois Morro
meio mal conservado
No Municipar? Ah, cabe mais ou mens uns trêis Macarranã drento. Coisa linda dissivê.
E muito antes de se inventá essas coisa de arena murtiuso nóis já usava o Municipar pra gineteada, feira gropecuária, exposição de profiteróle, fandangada, matadôro, moter e ôtras cozas más.
O inauguramento do Municipar deu-se em 1886 num amistoso entre Doismorrense contra os Amigos do Arlindo Cachaça. O púbrico totar deu de mais de 500.000 pessôa. Ganhemo de 5x1: dois do Zuninga, um do Xinapre, um do juiz, um do bandeirinha, um do maqueiro, um do Beijoqueiro e um do gandula; o golo deles foi contra do nosso beque, o Morrão, que tava bêbado.
Cês acho que o Bombonera é calderão? É porque cês num conhecero o municipar. Procês tê uma ideia, o alambrado era tão perto do campo que o torcedor ali na ponta, perto da cerca é que batia o escanteio. As mulhé passavo as mão nas perna dos jogador que elas achavo bonito. Ééééé! Pressão totar!
Durante muitos ano o Doismorrense mandô seus jogo lá. Foi Dezacampeão nacionar, Tri da Conquistadores da Mérica (não por ter ganhado trêis vêiz, porque na vardade nóis ganhemo 6 título, mas a gente dizia que era tricampeão porque o time era tri bom) e 5 vêiz campeão mundiar. Depois nóis cansemo de tanto ganhá e encerramo o futebor profissionar. Hojendia o Municipar tá lá. Bandonado. Jogado às traça. Curpa da diministração incompetente do novo Perfeito, o Dr. Emiliano Vendelino. Ladrão, safado, senvergonho.
Com um poquinho de esforço e se não robasse tanto, podia tê levado a Copa pra Dois Morro. Era só dá uma ajeitadinha no Municipar e ele tava novo em folha.
Mas há de se fazê o quê?
Mas que era um tempo bão aquele que a gente ia no Municipar pra vê o Doismorrense jogá, isso era. Ia as família pro estádio, ia a piazada, ia os boi, ia os porfiteróle, os muffin. E o espetáclo era garantido: os craque do Doismorrense não decepcionava a gente. Sempre tinha no mínimo uns 3 jogador do adeversário com a perna quebrada. Aquilo é que era futebor bonito.
Ah, tempo bão.


postado por Chico Lorotta

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Arte Espontânea









Arte Espontânea
superfície de compensado manchada e arranhada

fotos: Cly Reis

Hank Williams - "Memorial Album (1953)

"Poucos compositores deste século
souberam expressar a
profunda dor da solidão
e da saudade por causa do amor
tão sombria e docemente como Hank Williams"
Matt Johnson, The The


Conheci Hank Wiliams através do The The. Seu líder e homem-banda, Matt Johnson, resolveu homenagear o lendário cantor country com a gravação de um álbum só com versões e releituras das músicas de Hank, chamado "Hanky Panky". Matt já havia feito um música numa linha mais country para a trilha do filme "O Juiz" e me deixara uma boa impressão, despertando alguma curiosidade quanto ao que poderia na matéria que se propunha então. Ouvi o "Hanky Panky" do The The, gostei bastante e fiquei bastante curioso a partir disso para ouvir, então, o verdadeiro, o original, uma vez que ouvira muito falar a respeito dele mas nunca havia escutado suas músicas interpretadas por ele mesmo. Até porque o astro country dos anos 40 e 50, tinha a fama de ser maldito, marginal e muito rock'n roll antes mesmo do termo ser efetivamente abençoado por Chuck Berry.
O disco que destaco aqui é um dos poucos dos quais falo nesta seção que não tenho. Ouvi e tenho, na verdade uma coletânea com todos os grandes sucessos do cantor chamada "Hank Willliamms 40 Greatest Hits", mas como o legal aqui é destacar sempre uma obra concebida, seu contexto histórico, suas circunstâncias de produção, etc., aponto como Fundamental o "Memorial Album", terceiro disco de Williams e contentor de alguns de seus grandes sucessos como "Move it on Over e "Your Cheatin' Heart".
"Move it on Over" é uma canção descontraída, alegre, conduzida por um violino e cantada naquela voz anasalada de Williams com uns propositais falseamentos de 'rouquidão' que já eram tradicionais nas suas interpretações; divertida também é a grande "Hey, Good Lookin'", fronteira entre o country, o blues e o rock;  "Your Cheatin' Heart" ainda, até hoje, persiste como uma das  mais belas baladas já feitas e ganhou posteriormente versão de Elvis Presley; e "You Win Again", brilhante, teve versão gravada pelos Stones presente nos extras do álbum  "Some Girls" .
"Cold, Cold Heart", outra balada, tem outra interpretação marcante ; "Half as Much" e "I Could Never Be Ashamed of You", também lentas, de dor-de-cotovelo, fazem o estilo bem campeiro característico; e "a ótima "Kaw-Liga", bem rock'n roll no conceito, tem uma batida indígena forte e marcada acompanhada por um violino.
Influência evidente para artistas como os já citados Elvis e  Rolling Stones , além de outros como Bob Dylan, Neil Young, Johnny Cash, The Smiths entre tantos outros, Hank Williams, ali por aquele final de anos 40 representava mais um passinho que a música dava em direção ao que seria o rock'n roll.

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FAIXAS:
  1. Your Cheatin' Heart
  2. Settin' The Woods On Fire
  3. You Win Again
  4. Hey, Good Lookin'
  5. Crazy Heart
  6. Move It On Over
  7. Cold, Cold Heart
  8. Kaw-Liga
  9. I Could Never Be Ashamed Of You
  10. Half As Much
  11. My Heart Would Know
  12. I'm Sorry For You, My Friend
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Ouça:
Hank Williams Memorial Album



Cly Reis

terça-feira, 10 de abril de 2012

Maurice Ravel - "Bolero" (1928)

"Ele sabe muito bem o que fez.
Não se pode falar de forma
nem de desenvolvimento ou modulação (...)
é uma coisa que se autodestroi,
uma partitura sem música, uma fábrica orquestral sem objeto,
um suicida cuja arma é apenas o alargamento, a amplificação do som."
Jean Echenoz, 
escritor francês, autor do romance "Ravel"


Um único movimento.
Uma sequência rítmica que se repete ao longo de mais de 15 minutos assumindo variações, adquirindo forma, desfazendo-se e incorporando elementos. Ora erguendo-se em ênfases, ora reduzindo-se quase a silêncio.
Uma obra-prima minimalista de linhas grandiosas, tons heróicos, um acento levemente ibérico e percussão quase militar.
Uma composição crescente que vai ganhando corpo, forma, amplitude pelo acréscimo progressivo de instrumentos, partindo de um vazio sonoro até chegar um final apoteótico no qual todos os elementos se unem para propiciar um êxtase total.
Modelo de composição altamente moderno e sofisticado, influente para a música da sequência do século 20, encontrado com frequencia em gêneros tidos por vezes como limitados ou burros, como a música eletrônica, por exemplo.
Este é o "Bolero".
De Maurice Ravel.
Um único movimento.
Um movimento único.

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FAIXAS:
1. Boléro (16:13)
2. La Valse (13:17)

*Os primeiros lançamentos em disco de "Bolero" apareceram em um compacto que tinha "La Valse" no outro lado. Teve vários outros formatos posteriormente mas ainda há edições onde se encontra esta primeira disposição.
*Há divergências quanto à duração oficial da peça: originalmente, pela partitura de Ravel ela teria algo em torno de 14 minutos, porém execuções mais lentas chegam mesmo a ter durações superiores a dezoito.
* A minha versão, que tenho em casa, da Slovak Radio Symphony Orchestra, tem duração de pouco mais de dezesseis minutos.
*"La Valse", apenas pra não deixar passar, também é uma peça bastante interessante. Intensa, de tom grandioso, misterioso e de valseado levemente insinuado. Muito valorosa também e não deve ser ignorada, de forma alguma.


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Ouça:
Bolero - Maurice Ravel (Orquestra Sinfônica de Londres - regência Valerie Gergiev)
La Valse - Maurice Ravel (Orquestra Filarmônica Radio France - regência de Myung-Whun Chung)

Cly Reis

sábado, 7 de abril de 2012

cotidianas #152 - "Coelho da Páscoa"


- Só o nêgo, só o nêgo!
Minha mãe que sempre tem histórias de infância intreressantes, emocionantes ou engraçadas (ou tudo isso junto) conta que era assim que o Paulinho, meu tio, seu irmão mais velho reclamava quando era incumbido de alguma tarefa como lavar a louça, limpar o pátio ou ir buscar pão, julgando-se sempre o sobrecarregado, o injustiçado, uma vítima das crueis ordens dos mais velhos.
- Só o nêgo, só o nêgo - protestava ele, não raro desobedecendo mesmo, a determinação da Dona Izaura, sua mãe, recusando um favor a um dos irmãos ou contrariando alguma tia. E foi o que aconteceu naquela tarde de véspera de Páscoa quando uma tia, irmã de minha avó que sinceramente não lembro o nome, que os visitava naquele dia, pediu para o Paulinho ir no armazém buscar cigarros para ela. Diante do já mencionado protesto e da recusa veemente, a tia ainda tentou argumentar:
- Olha, Paulinho, que amanhã é Páscoa e o Coelhinho não vai te trazer nada.
- Haha! Eu não acredito em Coelhinho. isso nem existe! Haha! - troçou ele - Manda outro.
- Paulinho, deixa de ser teimoso e vai na venda pra mim.
- Não vou, nada! Só o Nêgo? Manda a Iara.
- Paulinho, o Coelhinho da Páscoa não gosta de guri malcriado.
- Ah, essa coisa de coelho nem existe! É tudo bobagem! Eu não acredito mais nisso. - exibiu-se o neguinho todo senhor de si.
- Tu vai pra mim, Iara? - perguntou a tia, ao que a sobrinha assentiu e foi-se buscar a encomenda.
Acontece que naquele tempo, pobres que eram, meus avós não podiam nem pensar em dar-se ao luxo de dar presentes de Páscoa, Natal, Dia da Criança ou qualquer coisa do tipo, e aquela tia, com uma situação financeira um pouco melhor, fazia a boa ação de distribuir ovinhos para os filhos da irmã desfavorecida sempre que podia. Só que aquela malcriação do Paulinho não podia ficar assim. Ele ia ver só.
- Paulinho, tu vai ver que o Coelhinho da Páscoa vai é te deixar uma vara de marmelo do lado da tua cama pra tu deixar de ser malcriado.
- Aha! - e foi-se lá ele brincar rindo todo prosa.
O dia passou e à noite todos foram dormir com a expectativa de encontrar 'alguma coisa' embaixo de usas camas. Embaixo da cama é modo de dizer, pois a situação da família era tão precária que havia na verdade poucas camas para abrigar tantos filhos e a maioria dormia mesmo em colchõezinhos no chão. Assim, e expectativa na verdade era de encontrarem algo ao lado do seu colchão.
Aquela noite a pequena Iarinha ansiosa pelo regalo do Coelhinho mal pregou o olho. Até dormia mas era um sono leve, atento, esperando pela chegada do famoso Coelho da Páscoa. Como ele seria? Peludão? Grande? Trazia várias cestinhas? Até que lá pelas tantas da madrugada, quando todos os irmãos já tinham dormido... eis que ela ouve passos abafados. Faz de conta que está dormindo mas deixa um olho entreaberto. Os passos continuam a se aproximar até que ela vê: ele. Era o Coelhinho da Páscoa. Vê o Coelho grande, um peludo bípede de ar bonachão, orelhas longas e pés grandes e peludos. Apesar da emoção continua fingindo dormir enquanto o vê deixar cestinhas ao lado de cada um dos colchões. Quando vê que vai se aproximar de sua 'cama', ao rés-do-chão, fecha imediatamente o outro olho e imita uma respiração de sono profundo. Assim que sente que se afastou, volta a abrir o olho e ainda consegue vê-lo deixar alguma coisa diferente ao lado do colchão do traquinas irmão Paulinho. O que era aquilo? Puxa! uma vara de marmelo. O misterioso peludo deixa a vara e sai silenciosamente do quarto e apesar da surpresa, da excitação, da emoção, depois disso a pequena Iara finalmente adormece.
Na manhã seguinte acorda já com a algazarra dos irmãos. Aquela folia generalizada pela descoberta dos cestinhos ao lado dos catres. Tudo exatamente na mesma posição que a menina Iara vira na noite anterior, inclusive o seu, exatamente onde ele havia deixado. Tudo certinho: as mesmas posições no chão, as mesmas decorações de fitas, as mesmas cores dos ovos. Então... não tinha sido um sonho! E reforçando sua certeza de que não sonhara, naquele momento, em meio à comemoração dos outros irmãos, via o Paulinho acordar cheio de expectativa e deparar-se com aquela vara de marmelo colocada ao lado do colchão.
Tinha sido verdade mesmo!
Tinha sido verdade!
Emburrado, indignado, enfurecido, o Paulinho apanhou sua vara, correu pro meio do pátio e chorando quebrou o galho espinhento nas coxas finas ignorando a dor sob a risada dos irmãos e o regozijo da tia.
- Viu, Paulinho, eu não te disse que o Coelhinho ia te trazer uma vara de marmelo?
E o guri enfurecido continuava quebrando o presente em quantos pedacinhos fosse possível e repetindo sem parar "Eu odeio o coelhinho! Odeio esse coelho!".
A menina Iara, no entanto, só pensava no que havia visto na noite anterior. Um coelho grande, de carinha simpática, do tamanho de um homem, de patas grandes e felpudas. Tinha sido verdade, tinha sido verdade.
Não sei o que a minha mãe viu naquela noite. Sei que por certo não sonhou pois as cestas, os lugares, as cores eram exatamente como tinha visto à noite e além do mais vira a vara de marmelo ser posta lá. Pode-se dizer que a tia tivesse se fantasiado de coelho e entrado sorrateiramente no dormitóiro das crianças para pôr as cestas, mas não, além do fato de não chegar a ponto de se prestar a uma coisa dessas, embora tivesse um pouco mais de recursos, certamente não tinha tanto que pudesse desperdiçar numa fantasia, ainda mais para, muito possivelmente nem ser vista por nenhum dos sobrinhos. Pode-se também dizer que o subconsciente montou a situação toda de coelho, ovos, vara, irmão e numa espécie de sonho quase acordada tenha misturado fantasia com realidade. É, acho um pouco mais provável. Mas não importa muito. O mais bonito disso tudo é que uma criança por uma noite, sendo verdade ou não, nas condições humildes em que vivia, tenha experimentado a sensação de ver o Coelho da Páscoa. E minha mãe não é dessas que inventam coisas, que aumentam histórias para impresionar os filhos. Se ela diz que viu o Coelho, ela viu. Bom, ... ou pelo menos alguma coisa ela viu.


Cly Reis

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Pink Floyd - "The Division Bell" (1994)


“Eu tinha um cem número de problemas com a direção da banda no passado recente, antes de Roger sair. Eu achava que as músicas tinham muitas palavras, e que devido ao significado dessas palavras serem tão importantes, a música tinha-se tornado um mero veículo para as letras, o que não era muito inspirador...”
David Gilmour



Conheci Pink Floyd aos 7 anos, assistindo "The Wall", terminando o filme eu me liguei que já tinha escutado “aquela banda” e foi ai que tudo começou...
Particularmente, prefiro a “Era Gilmour”. Gosto do Waters também (tanto que até hoje assisto "The Wall"), mas o feeling do David é algo inexplicável! Não foi a toa que ele foi considerado 14º melhor guitarrista do mundo pela revista norte-americana Rolling Stone.
E esse álbum em especial, "The Division Bell" que foi lançado em 1994, é o que tem as músicas mais fantásticas que já ouvi. Solos de guitarra e vocais perfeitos.
Um belo exemplo de solo? "Coming Back To Life"!
De vocais?  "What Do You Want From Me", que, ao vivo é lindo de ver aquele bando de mulher fazendo esses backings.
Uma música em especial que cada vez que ouço me dá vontade de sair dirigindo sem rumo é  "Take It Back", não me pergunte o motivo. Mas, talvez seja por que a primeira vez que escutei foi em uma volta da praia com minha mãe, devia ter uns 13 anos, sentada no banco de trás e “obrigada” a escutar o que os adultos escutavam e, surprise: "Take It Back" na rádio.
O nome do disco faz alusão ao division bell (sino da divisão, traduzindo ao pé da letra). E nesse álbum, boa parte dele lida com as questões de comunicação, tipo a ideia de que muitos dos problemas da vida podem ser resolvidos através do diálogo. Canções como "Poles Apart" e "Lost for Words" às vezes são interpretadas como referências ao longo estranhamento entre o ex-membro Roger Waters e os restos dos integrantes da banda, Gilmour negou, no entanto que o álbum é uma alegoria sobre a separação.
Se é ou não, não sei. Só sei que é um baita álbum!
Gilmour usou vários estilos diferentes no álbum. "What Do You Want From Me" tem influências de blues de Chicago e "Poles Apart" tem vários tons folk. Nos improvisados solo de guitarra de "Marooned" usou um pedal Digitech Whammy para elevar as notas numa oitava. Em "Take It Back" usou um EBow (um dispositivo que simula o som de uma guitarra tocando com um arco, com uma Gibson J-200 passou por um aparelho de efeitos).
Como eu digo: esse cara é o cara!
Acabei falando muito do Gilmour, mas, com a saída do Waters da banda em 1985, ele disse que sem ele o Pink Floyd não ia pra frente. Daí, o Gilmour foi lá e assumiu  por completo o controle da banda, e tá ai um dos álbuns mais belos da “Era Gilmour” e do Pink Floyd!

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FAIXAS:
1. Cluster One
2. What Do You Want From Me
3. Poles Apart
4. Marooned
5. A Great Day For Freedom
6. Wearing The Inside Out
7. Take It Back
8. Coming Back to Life
9. Keep Talking
10. Lost For Words
11. High Hopes

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vídeo: Pink Floyd - "Coming Back"



Ouça:
Pink Floyd The Division Bell

Pix

quinta-feira, 5 de abril de 2012

cotidianas #151 - "Estrela da Manhã"


Eu queria a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã


Ela desapareceu ia nua
Desapareceu com quem?
Procurem por toda à parte


Digam que sou um homem sem orgulho
Um homem que aceita tudo
Que me importa?
Eu quero a estrela da manhã


Três dias e três noite
Fui assassino e suicida
Ladrão, pulha, falsário


Virgem mal-sexuada
Atribuladora dos aflitos
Girafa de duas cabeças
Pecai por todos pecai com todos


Pecai com malandros
Pecai com sargentos
Pecai com fuzileiros navais
Pecai de todas as maneiras
Com os gregos e com os troianos
Com o padre e o sacristão
Com o leproso de Pouso Alto
Depois comigo


Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas
[comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples
Que tu desfalecerás


Procurem por toda à parte
Pura ou degradada até a última baixeza
Eu quero a estrela da manhã.

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Estrela da Manhã
Manuel Bandeira

Poema Concreto










fotos: Cly Reis

Stan Getz e João Gilberto - "Getz/Gilberto" (1964)


"...isto é bossa-nova,
isto é muito natural"
da letra de 'Desafinado'




A Bossa-Nova já era uma sensação nacional e João Gilberto já era seu representante mais significativo quando o estilo cameçou a despertar interesse também fora do Brasil. A sofisticação do ritmo, a singularidade da batida, a modernidade do conceito era algo que impressionava os americanos naquele final de década de 50 e no rastro desta descoberta internacional, seguiram-se diversas releituras, interpretações e parceiras. Provavelmente a mais marcante delas tenha sido a que envolveu o saxofonista norte-americano Stan Getz e o gênio brasileiro, do violão de voz maviosa, João Gilberto. Executando, na maioria, músicas de Tom Jobim, um dos mestres do gênero, com o próprio Tom ao piano, a dupla produziu algumas das melhores versões de clássicos da música brasileira no álbum "Getz/Gilberto" de 1964, combinando o violão notável de João e seu vocal ímpar, ao sax tenor grave e sedutor de Getz, conduzidos por vezes pela voz sensual, rouca, quase infantil de Astrud Gilberto, então esposa do cantor.
A propósito dela, sua interpretação para "Corcovado" é absolutamente fantástica! Não que em "The Girl from Ipanema", a outra cantada por ela no álbum, não seja ótima, mas aquele início ( "quiet night of quiet stars" ) é simplesmente de amolecer as pernas. Mas não só ela brilha em "Corcovado". João canta  de uma maneira emocionante e a entrada para o sax de Getz e , ah..., de tirar o fôlego.
Getz e João em 1963
Já a citada "Garota de Ipanema", mesmo no seu trecho em inglês, permanece graciosa como uma moça passeando pelo calçadão, com destaque especial nesta para o piano do mestre Antônio Brasileiro; em "Doralice" o vocal de João, fazendo as vezes de trumpete, conversa com o sax de Getz; "Pra Machucar Meu Coração" como propõe o título, é pra machucar mesmo, apaixonada e com um vocal sentido de João.
"Só Danço Samba" é bem ritmada e gostosa; em "O Grande Amor", ao contrário das demais, o sax de Stan Getz é que abre a canção se extendendo com um longo solo até dar espeço, primeiramente para a voz de João e depois para o piano de Tom, até voltar em um solo final arrebatador; a tristonha "Vivo Sonhado" tem um daqueles trabalhos vocais admiráveis de João nesta que é a canção de encerramento do disco; e "Desafinado", outro dos grandes clássicos da MPB, é mais um dos pontos altos do álbum com shows particulares de cada um: João com sua voz instrumental e sua batida perfeita de vioão, Getz com aquelas entradas extasiantes de seu poderoso saxofone e o maestro Tom Jobim derramando as notas de seu piano como um bálsamo sobre a canção.
Disco apaixonante. Um dos meus preferidos da discoteca. Obra prima do samba, da bossa e do jazz, ou de tudo isso junto. Daqueles que não apenas se ouve mas se saboreia. Ouvir a voz doce de Astrud, a leveza da de João e o sax envolvente de Getz é uma das melhores coisas que se pode querer num final de tarde de preferência com o sol desaparecendo atrás do Corcovado.
Sem dúvida o disco que fez definitivamente a música brasileira romper fronteiras com o ritmo/estilo/gênero que, com certeza, foi e é até hoje a maior contribuição brasileira para a música mundial.

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FAIXAS:
1."The Girl from Ipanema" (Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Norman Gimbel - versão) – 5:24
2."Doralice" (Dorival Caymmi, Antonio Almeida) – 2:46
3."Para Machucar Meu Coração" (Ary Barroso) – 5:05
4."Desafinado" (Tom Jobim, Newton Mendonça) – 4:15
5."Corcovado" (Tom Jobim, Gene Lees - versão) – 4:16
6."Só Danço Samba" (Tom Jobim, Vinícius de Moraes) – 3:45
7."O Grande Amor" (Tom Jobim, Vinícius de Moraes) – 5:27
8."Vivo Sonhando" (Tom Jobim) – 3:04
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Ouça:
Stan Getz e João Gilberto - "Getz / Gilberto (1964)


Cly Reis

quarta-feira, 4 de abril de 2012

cotidianas #150 - Milagre (II)


Maurino, Dadá e Zeca, ô
"Aldeia de Pescadores", Di Cavalcanti (1950)
óleo sobre tela
Embarcaram de manhã
Era quarta-feira santa
Dia de pescar e de pescador
Quarta-feira santa, dia de pescador
Maurino, Dadá e Zeca, ô
Embarcaram de manhã
Era quarta-feira santa
Dia de pesca e de pescador
Quarta-feira santa, dia de pescador
Se sabem que muda o tempo
Sabe que o tempo vira
Ah, o tempo virou
Maurino que é de guentar, guentou
Dadá que é de labutar, labutou
Zeca, este nem falou

Era só jogar a rede e puxar
A rede

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"Milagre"
(letra: Dorival Caymmi)

Ouça:
"Milagre" - interpretação de João Gilberto, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia

Internacional, 103 Anos

Inter, estarei contigo


Ainda lembro quando meu pai me exclamou certa vez entusiasmado, lá pelos idos de 1979, "tu torce pro maior time do Brasil!". Quando ele falou aquilo eu não tinha a total noção do que aquilo significava. Aquilo não era uma ordem de que ue deveria torcer para aquele time, uma determinação, era provavelmente, sim, uma conscientização. Eu era colorado quase que automaticamente, nunca isso fora posto em dúvida, tinha ganhado um uniforme do meu padrinho, ouvia falar de Internacional, via meu pai ouvindo os jogos, ouvia foguetórios e tudo mais, mas não tinha noção de que aquilo que ele me revelava era a mais absoluta realidade naquele momento. Não que o Sport club Internacional tenha deixado de ser tão grande, pelo contrário, mas hoje, Campeão de Tudo, divide estas honras de grandiosidade com os hexacampeonatos nacionais do São Paulo e do Flamengo; os tri de Libertadores do próprio São Paulo e do Santos; os brasileiros de Corinthians, Palmeiras, Vasco, só para citar alguns. Mas naquele momento era absoluto.  Em uma década de Campeonato Brasileiro o Internacional tinha conquistado o título duas vezes, havia sido terceiro colocado duas vezes também, e quarto em outras duas oportunidades e se encaminhava naquele ano, até então sem perder (o que se confirmou), para levantar a taça novamente. Sei que naquele ano de 79 fui duas vezes ao estádio na campanha do título invicto, uma contra o São Paulo de Rio Grande e outra contra o América do Rio. A lembrança é vaga, sei dos resultados mas não lembro deles. O que importa é que ali com 5 nos de idade se consolidava definitivamente minha paixão pelo Sport Club Internacional e começava a minha longa relação com o estádio Beira-Rio.
Desde então, salvo pequenos intervalos, nunca mais deixei de frequentar o nosso estádio. Lembro ( e aí lembro mesmo) que no segundo GreNal que fui assistir, em 1982, o Inter venceu por 3x1 com três gols do Geraldão. Nossa! Fiquei fã do Geraldão. Queria ser centroavante. Usar a 9. No início dos anos 80 o Colorado acumulara 4 títulos estaduais. Nem o Brasileiro conquistado pelo rival no início da década nos abatia. O que era um titulozinho contra os nossos TRÊS, sendo um INVICTO? Além disso ganhávamos torneios de prestígio no exterior, ganhamos o Juan Gamper na casa do Barcelona; nossos jogadores representavam o país em competições.
O problema é que do outro lado, o rival, aproveitando melhor uma oportunidade que o Internacional tivera antes em 1980, conquistava a Libertadores da América e aí, talvez o comparativo tenha desequilibrado as estruturas internas do clube. Tanto foi que a partir da metade da década de 80, acumulamos derrotas e fracassos. Vimos o rival empilhar 7 títulos regionais quase igualando nosso feito de oito conquistas seguidas; perdemos dois títulos nacionais um deles contra o pouco expressivo Bahia dentro de casa; fomos desclassificados numa improvável semifinal de Libertadores estando com a vantagem três vezes no jogo. Inacreditável. A maré era braba.
Mas em todos estes momentos eu estive lá com o Inter. Presenciei quase todas as derrotas estaduais do hepta do Grêmio, fui ao 1º jogo da final de 87 contra o Flamengo, à final de 88 contra o Bahia, à fatídica semifinal de 89 contra o Olímpia mas nunca deixei de ser torcedor. Digo isso porque é bem usual, principlamente do OUTRO lado que quando se está perdendo se desligue do futebol, se ocupe de outros assuntos, tente-se dar menos importância a uma coisa que para nós toredores tem TODA a importância do mundo. Não! Eu me orgulho de em todos estes anos de minha vida de colorado ter ido ao Beira-rio em praticamente todos eles e nunca ter desistido do meu time.
Mas não se enganem os que por acaso pensarem que sou um pé-frio e que sempre que estava lá levei o time à derrota: eu estava lá, na social do Beira-Rio, vendo o Nílson guardar duas neles no GreNal do Século; em 92 estava abaixado atrás do muro da coréia pra não ver a cobrança do pênalti do Célio Silva na final da Copa do Brasil (mas levantei pra ver); estava no jogo que impediu o rival de igualar nosso octa mesmo nunca tendo dado muita bola pra campeonato estadual; e mesmo quando não foi na nossa casa, no estádio deles presenciei o chocolate do 5x2.
Vi muitas coisas boas e muitas coisas ruins. Chorei de alegria e de tristeza. Prometi nunca mais pisar lá e semanas depois lá estava eu de novo. Estive lá sob calores senegalêzes, sob frios polares e sob chuvas torrenciais mas nunca deixei de estar com o Internacional.
Hoje no Rio de Janeiro acompanho o que posso daqui. Sempre vou ao Maracanã ou ao Engenhão ver o Inter e sempre que vou a Porto Alegre, programo minha viagem para que seja em algum dia que tenha jogo no Beira-rio para que eu possa ver meu time na NOSSA casa. Dos grandes momentos do clube, no Beira-Rio, só não vi a primeira final de Libertadores, pois já morava aqui e não tinha, na época, dinheiro para viajar; mas  asegunda, contra o Chivas, movi o mundo para estar no Beira-Rio e vi meu time ser Bicampeão da América.
Me orgulho de todos estes momentos. Dos felizes e dos tristes. De sempre estar com o Inter. Só me envergonho um pouco de um momento em que, devo admitir, não fui ao Beira-rio porque tive medo. Foi o jogo contra o Palmeiras que podia nos levar à segunda divisão.
Naquele jogo EU TIVE MEDO. Aliás tinha quase convicção que não conseguirÍamos e optei por não participar daquele momento triste para o clube. Era melhor que eu não estivesse lá. Ego´´ista, orgulhoso, não queria guardar isso no meu currículo de torcedor, nem presenciar tamanha decepção.
Felizmente o rebaixamento acabou não acontecendo. O Dunga fez aquele gol salvador e continuamos sendo o único clube gaúcho a não ter disputado uma série B do campeonato brasileiro, mas ficou em mim um pouco da vergonha pela covardia de quando o clube precisou de mim, eu não ter me prontificado a estar lá. Mas tenho certeza que ele me perdoa. O Internacional por certo perdoa esse filho que apesar daquela fraqueza sempre foi fiel.
Prometo nunca mais te abandonar.
Estarei sempre contigo.

Parabéns, Internacional
pelos 103 anos
de gloriosa existência.

Cly Reis

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Coluna dEle #24



Ôpa! Tô chegando!
E aí, belesma?
Por aqui tudo na Minha santa paz.
Não curto muito esse negócio de Páscoa por causa do que fizeram com o Meu guri mas já que tem feriadão vou aproveitar e tirar uns dias de folga.
Só vou ter que dar um jeito de resolver tudo até quarta-feira e pegar a estrada na quinta de manhã pra evitar engarrafamento.
Então já tão sabendo, né: nada de ficar Me enchendo o saco com orações, pedidos, milagres e essa coisa toda no feriadão porque Eu não tô, falei?
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E por falar em milagre, Eu só tô qui de olho nesse negócio todo de Copa e coisa e tal, obras, aeroportos, estradas e biriri-bororó. Fizeram tanta questão de ter a droga da Copa do Mundo e agora tão nessa lenga-lenga.
Depois não vem querer que Eu faça milagre na última hora pra essa merda toda aí dar certo.
(Eu digo que não ajudo mas vocês sabem que Eu sempre acabo dando uma forcinha. No fundo Eu tenho uma quedinha por esse lugar aí, né. Eu também não tenho vergonha nessa Minha cara.)
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Mas, agora, cá entre nós, não tem Santo que ajude com essa roubalheira nesse país!
Cruzes!
O cara tenta dar uma força pra vocês: tu olha em volta é praia, é montanha, é mata bonita; tu cava jorra petróleo, cava sai ouro, cata no pé e dá tudo que é fruta; as mulher são de primeira; o futebol é de primeira; o povo é festeiro ( se bem que às vezes Eu acho que exagerei), mas aí vocês só querem foder com tudo.
Porra!
Assim vocês não vão a lugar nenhum.
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E a propósito, também, Eu me esforço pra dar um talento artístico, uma musicalidade, uma genialidade tal pra vocês aí e tudo o que vocês conseguem me apresentar é Michel Teló?
Putaquipariu!
Esses dias Me apareceu o Natanael, um anjo da segurança aqui, ouvindo alto no celular essa tal de "Ai se eu te pego". (por que que pobre tem que ouvir celular alto sem fone de ouvido?) 
Nossa que horror aquela música!
Mandei desligar na hora. Pior é que não adiantou nada porque não é só ele que ouve isso. Tá todo mundo ouvido essa porcaria por aqui. Isso aqui tá um inferno!
Eu que me perdoe!
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E o tal do Wando veio aqui pro andar de cima.
Tenho certeza que não tava fazendo falta pra vocês, né?
Aqui também não está sendo muito bem-vindo, pra falar a verdade.
É que o malandro me chegou cheio de graça, cheio de olhares provocantes pra nêga véia. Pode?
Tive que dar uma enquadrada nele, tipo, "Ô, meu, tu não dá valor à vida, não?". Mas aí que Eu lembrei que  o fulano tava aqui em cima exatamente porque já tava morto e a parada de ameaçar ele de morte não ia pegar. 
Só sei que depois que ele chegou andei encontrando umas calcinhas novas no varal, aqui de casa.
Acho que vou ter que dar uma consultada no amigo lá de baixo e ver se ele aceita esse 'trambolho' antes que Eu me incomode com a patroa.
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Também andaram batendo aqui dois dos bons aí de vocês. Dois daqueles que quando Eu fiz, dei aquela caprichada.
Um deles é o Milton... Quero dizer Millôr. (eu sempre me confundo com aquele registro de nascimento)
Gênio, cara!
Gênio!
Adorei "A Bíblia do Caos".
E o salário...
Definitivo.
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O outro foi o Chico.
Não, não o Buarque. Esse ainda não.
Não, o Science já tá aqui.
O Anysio. O Anysio.
Gênio!
O ruim é que Eu trouxe ele e vieram junto mais 200 e poucos. Deu superlotação (hehe)
Sei que vocês não gostaram de ele ter vindo aqui pra cima mas já tava na hora. Um dia todo mundo vem.
E de mais a mais, vocês já curtiram bastante, agora deixa Eu ter a Escolinha aqui.
Praticamente só faltava o Professor Raimundo. Eu já tinha aqui o Rolando Lero, o Samuel Blaustein, o Baltazar da Rocha, a Dona Bela, o Sandoval Quaresma, o seu Eustáquio, o Galeão Cumbica, o Seu Gaudêncio, o Pedro Pedreira e o Seu Mazarito, que aliás... nossa... Aquelas piadas dele. Mas eu morro de rir quando ele faz a  bichinha (hahahaha!) Muito bom, muito bom.
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Eu, pra aguentar vocês é que tinha que usar o bordão do Professor Raimundo:
E o salário, ó!
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Olha, galera, fui!
Tenho que preparar as coisas pra viagem. Senão a patroa bronqueia.
Boa Páscoa pra vocês e não vão encher o rabo de chocolate, hein! (hehehe)
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Orações, pedidos, milagres e tudo mais para
god@voxdei.gov
(mas só vou responder qualquer coisa depois do feriadão)

Exposição 'METROPOLITANOS' - Casa de Cultura Mário Quintana - Porto Alegre - RS




por Valéria Luna


A mostra Metropolitanos – A Nova Urbanidade em Exposição, que abriu no último dia 15/03, no Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul - Casa de Cultura Mário Quintana, leva às dependências do Museu à arte das ruas pela expressão de 25 artistas gaúchos. Em Metropolitanos, a exposição nos trás a realidade exibida nos muros e viadutos, expostas ali diariamente e que, na maioria das vezes, passa despercebida aos olhos da população. Artista como: Pedro Gutierres, Carol W e Luciano Scherer levam seu trabalho “marginal” para as salas do museu, despertando uma dialética de boa discussão: "onde realmente é o lugar da arte?"
No cotidiano podemos nos deparar quase que em cada esquina com as manifestações do Cusco Rebel, Trampo e Xadalu, por exemplo. Porém a discussão acerca da mesma manifestação nas dependências do museu é a consolidação da manifestação urbana, a arte pela arte, e sua importância como obra, reforçando seu valor e todo o reflexo da arte Urbe-POA, por vezes perturbadora por ser tão explicita e singular.
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Exposição METROPOLITANOSA NOVA URBANIDADE EM EXPOSIÇÃO
ARTISTAS: Braziliano, Carla Barth,CarolW, Celo Pax, Cusco Rebel, Guilherme Nerd, Jotapê, Holie, Lidia Brancher, Luciano Scherer, Luciano Spinelli, Matheus Grimm, Nina Moraes, Paula Plim, Pablo Etchepare, Pedro Gutierres, Renan Santos, Ricardo Dias, Seilá Pax, Sergio Rodriguez, Talita Hoffmann, Trampo, Tridente, True e Xadalu

Local: Museu de Arte Contemporânea do RS, Rua dos Andradas 6° andar da Casa de Cultura Mario Quintana
Visitação: Até 15 de abril, Segunda das 14h às 19h, de Terça à Sexta das 10h às 19h, Sábados, Domingos e Feriados das 12h às 19h.



confira abaixo alguns trabalhos da exposição:

Carol W.


Carol W.


Luciano Scherer


Luciano Scherer


Luciano Scherer


Pedro Gutierres
 
Cusco Rebel

Trampo

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Valéria Luna é Relações Públicas formada pela ESURP – Escola Superior de Relações Públicas de Pernambuco. Teve seu exercício profissional pautado na Produção Executiva de Moda durante quase 10 anos de atuação no mercado do Nordeste, onde coordenou a Feira de Componentes Têxteis – COMTEX, por seis anos e, em 2008, criou a Rede ModaMercado – Rede de Profissionais de Moda, voltada para o agenciamento de profissionais em todo o país para a execução de ações de informação, como palestras, workshops e consultorias. Através da rede, realizou produção executiva de marcas e estilistas, ainda, eventos de moda pelo país.