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segunda-feira, 20 de junho de 2011

"Unknown Pleasures: A Celebration of Joy Division" - Peter Hook & The Light - Circo Voador - Rio de Janeiro (18/06/2011)



 Não tive a oportunidade de conhecer o Joy Division na época de sua curta existência, até porque tinha apenas 5 aninhos quando lançaram seu primeiro álbum e só fui conhecê-los mesmo no início de minha adolescência, ali pelos 13 anos de idade; mas então Ian Curtis, seu vocalista, já estava 'do outro lado' e a banda, disposta a seguir a vida após a tragédia, já se tornara o New Order e botava o mundo pra dançar com sua eletrônica "Blue Monday". Assim que, tirando alguma eventual 'canja' do New Order não haveria como ouvir as míticas canções do Joy Division executadas por seus integrantes originais. Mas, de todo modo, já perdi de ver o N.O. duas vezes e ao que parece não vou ver mais porque (pela milésima vez) eles dizem ter-se separado.
Mas eis que Peter Hook, baixista original, juntou uma meninada, ensaiou bem as músicas e caiu na estrada para homenagear o primeiro disco da banda, o lendário "Unknown Pleasures" . Aterrisou por aqui e neste último sábado apresentou no Circo Voador, aqui no Rio, o show "Unknown Pleasures: A Celebration of Joy Division", tocando na íntegra as músicas do álbum. Ora!!! Não haveria como perder uma chance destas! Não seria o Joy Division inteiro, é verdade, Ian está morto e nada vai mudar isso, mas presenciar um integrante original tocando um álbum como este não deixaria de ter um grande valor físico, musical e emocional. E a apresentação foi realmente emocionante. Uma alegria enorme para qualquer fã. Um dos poucos shows que passei praticamente todo o tempo com os olhos marejados. Empolgante nos momentos certos, visceral quando tinha que ser, sombrio na medida certa, e especalmente mágico o tempo todo.
Pra começar a loucura, os caras entraram no palco ao som de "Trans-Europe Express" do Kraftwerk, o que já foi de arrepiar; aí abriram a sessão com a instrumental "Incubation", que eu adoro e que minha banda tocava de vez em quando no estúdio; seguiram numa linha bem Warsaw com "No Love Lost" e "Leaders for Men", me surpreendendo porque, ao contrário do que eu imaginava, Peter Hook, que eu achei que fosse ficar só no baixo e fosse trazer um vocalista com um timbre parecido com o de Ian, assume à frente dos vocais e manda bem. Aí vem "Digital" e o lugar quase vai abaixo com a galera cantando o "day in, day out" do refrão num coro alucinado, na última antes da execução das músicas do disco clássico.
O "Unknown Pleasures" começa e "Disorder", um punk-rock embalado e gostoso de poguear, provoca uma catarse coletiva. Segue a belíssima "Day of Lords" com seu andamento lento e pesado, bem executada pelos The Light, mas que, por mais esforçado que Hook estivesse nos vocais, acabou perdendo a dramaticidade conferida pela voz e pela interpretação de Curtis.
Até então Peter Hook cantava, gesticulava, posava com seu instrumento musical, jogava-o pras costas mas a verdade era que, depois da primeira música do show, na qual teve algum desempenho, não tirara mais uma nota sequer de seu reluzente contrabaixo vermelho deixando tudo à cargo dos seus competentes comandados. Só que isto àquelas alturas era um pouco decepcionante haja visto que sua forma de tocar baixo como quem toca guitarra (não só performaticamente mas sonoramente também) era um dos elementos aguardados por mim com expectativa. Mas aí o cara parou de fazer posição e jogar o baixo pra trás e tratou de esmerilhar as cordas. "Insight", se perdeu alguma coisa no que dissesse respeito à ausência dos efeitos da versão do disco, ganhou em peso e intensidade com dois contrabaixos e com a afinação muito peculiar de Peter Hook; em "New Dawn Fades", uma das melhores não só dos álbum em questão como da banda, Hook voltava a destruir tudo, desta vez com aquela levada mais grave, numa canção densa, sombria e espetacular.
Abre-se o lado B com outro clássico, "She's Lost Control", que, igualmente, mesmo sem o trabalho de estúdio para a bateria, manteve a força, a pegada e a magnitude. É quase redundância destacar, mas o baixo de Hook, bem agudo e agressivo nesta música, soava de maneira simplesmente arrasadora.
"Shadowplay" seguiu com aquela espécie de força surpreendente; "Wilderness" trouxe outro show das quatro cordas de Hook; "Interzone" foi selvagem; e "I Remember Nothing", talvez tenha sido a que mais perdeu em relação à sua gravação original, sem os efeitos de vidros quebrados, sem conseguir reproduzir bem aquela sensação de vácuo e sofrendo pela inevitável falta do seu intérprete de origem que nesta canção faz muita diferença. Mas mesmo assim muito boa. Ganhou em energia, força, ruídos, agressividade.
Estava encerrado o álbum. Eu havia visto e ouvido um membro do Joy Division tocar um dos meus álbuns favoritos.
Mas como não nos déssemos por satisfeitos com aquela dádiva, eu e todos os outros fanáticos ali, ficamos ali a exigir mais e mais... E felizmente tivemos mais:
Hook e seus parceiros voltam para uma "Atmosphere" que, na verdade, a mim, não agradou muito; mas por outro lado para uma "Ceremony" que, essa sim, me deixou com lágrimas nos olhos. Saíram do palco de novo e voltaram, agora com Hook vestindo uma camisa número 10 da seleção brasileira com seu nome, para um bis final. Aí veio a boa "These Days", outra pré-Joy, "Novelty"; a vibrante "Transmission" e aquele "dance, dance, dance to the radio" sendo entoado pela plateia inteira com as mãos para o alto; e fechando com, provavelmente o clássico maior da banda, "Love Will Tear Us Apart" para delírio geral.
Estávamos todos repletos, contemplados. Nenhum nome teria sido mais justo para aquele show, para aquela festa do que o que foi dado: "A Celebration of Joy Division". Foi isso. Aquilo ali havia sido uma grande celebração. Uma celebração que revelava agora, prazeres até então desconhecidos.

SET LIST:

1.Incubation
2.No Love Lost
3.Leaders Of Men
4.Digital
5.Disorder
6.Day Of The Lords
7.Candidate
8.Insight
9.New Dawn Fades
10.She's Lost Control
11.Shadowplay
12.Wilderness
13.Interzone
14.I Remember Nothing

Bis:
15.Atmosphere
16.Ceremony

Bis 2:
17.These Days
18.Novelty
19.Transmission
20.Love Will Tear Us Apart




Cly Reis

domingo, 19 de junho de 2011

Peter Hook & The Light - show "Unknown Pleasures"



Circo Voador - Lapa/RJ - Aqui, agora, diante de um representante original de uma das bandas mais legendárias do rock, Peter Hook, ex-Joy Division, executando na íntegra um dos álbuns mais marcantes e emblemáticos de todos os tempos.
Absolutamente fantástico!




C.R.










Cly Reis

sexta-feira, 17 de junho de 2011

O Frango Atirador

Metallica + Lou Reed

O pessoal do Metallica já havia antecipado e deixado no ar que lançaria um material que, segundo eles mesmos, "não seria exatamente o Metallica", mas só agora desvendaram o mistério: o lance todo é que a banda gravou uma série de canções em parceria com o ex- Velvet Underground , Lou Reed e pretende lançá-las em álbum em breve. Não houve maiores informações como nome do álbum, previsão de lançamento ou algo mais consistente, apenas se sabe que serão dez músicas e que James Hatfiled se diz muito orgulhoso de trabalhar com o velho Lou.
Fica a curiosidade do que pode sair desta união e a expectativa. Boa expectativa, aliás.



C.R.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Retrospective Guy Bourdin 2011 – Casa de Cultura Mário Quintana – Porto Alegre- RS




Passou por Porto Alegre, mais precisamente, pela Casa de Cultura Mário Quintana, uma retrospectiva do fotógrafo francês Guy Bourdin (1928-1992). Numa palavra: putaqueupariu! Muito bom: instigante, provocativo, enigmático, bizarro, preciso. Vários adjetivos podem ser atribuídos ao trabalho deste escultor de imagens fotográficas, dada sua capacidade de imprimir seu olhar artístico ao objeto fotografado.
Guy Bourdin foi um dos precursores da fotografia no mundo da moda, misturando a esta tão comum prática da captura de imagens estáticas a arte contemporânea. Através de técnicas inovadoras e audaciosas, tudo sob uma visão debochada e detalhista, ele criou uma forma de fantasia aliando seu talento estético a situações inesperadas e ousadas, muitas vezes picantes. A moda e a fotografia eram suas ferramentas para explorar reinos entre o absurdo e o sublime, bebendo constantemente no surrealismo e no humor (negro, por vezes).
A retrospectiva compreendeu, na verdade, uma fase curta da carreira profissional de Bourdin, pegando principalmente a década de 70, época da consolidação do seu estilo, até início dos 80. Mas isso basta. Com produções feitas para grandes revistas de moda e para nomes da moda como Dior ou Jourdan, seu jeito altamente estilizado de compor imagens – muitas cores, iluminações altamente planejadas (fosse natural ou artificial), enquadramentos precisos (em foco ou não, superenquadrados ou não, simétricos ou não), suscita climas de suspense, estranhamento, humor e muita, mas muita volúpia.
Corpo feminino, sensualidade, pernas, saltos-altos...
mas não de um modo muito convencional
A valorização dos elementos retrô, a iluminação ora dura, ora de luz propositalmente “precária” e sombreada, aliado a seus enquadramentos criativos e à coloração intensa que empregava aos objetos (roupas, sapatos, corpos, móveis, maquiagens), influenciou largamente toda a produção fotográfica para moda, além de alguns cineastas e o conceito de alguns filmes. Da galera do cinema que bebeu em Bourdin estão: Win Wenders, Jean-Jacques Beineix, David Lynch, Jonathan Demme, irmãos Cohen e, principalmente, Percy Adlon de “Sugarbaby” e “Roseline Vais às Compras”.
Outro fator que me impressionou bastante foi que, como se não bastassem os excelentes quadros expostos com as fotografias feitas para revistas, todos minuciosamente produzidos (e para os quais eram certamente necessárias várias horas de trabalho até chegar ao resultado final), a exposição mostrou duas projeções de slide-shows com fotos tiradas por Bourdin nas ruas dos Estados Unidos, país onde residiu por muito tempo. Nestas, sua lente registrou o charme decadente do kitsch, as texturas sujas da cidade, as geometrias modernistas, a interação entre natureza e concreto. Mas, diferente das superproduções elaboradas para uma Vogue, pré-planejadas em todos os pormenores, ali, se via o contrário: imagens captadas no momento, sob luz natural na maioria das vezes, quase como um repórter ou cronista. Prova de que foi um artista completo na criação de imagens.

O misterioso, o curioso, o bizarro,
o sugestivo no olhar de Bourdin
Sensualismo com surrealismo,
marcas registradas
das lentes do artista
O olho urbano de Bourdin,
com um toque artístico para complementar
Imagem com plasticidade, impacto e força
levandoa inúmeras possibilidades
de leituras e interpretações
Sensualidade kitsch com ar de mistério



por Daniel Rodrigues

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Bezerra da Silva -"Alô Malandragem, Maloca o Flagrante" (1986)

"O Bezerra é o cara mais rock'n roll que eu conheço."
Paulo Ricardo, RPM


“Mas Bezerra da Silva é pagode!”, precipitar-se-ia algum eventual enfezado leitor ao ver “Alô Malandragem, Maloca o Flagrante” nos ÁLBUNS FUNDAMENTAIS. Ora, amigos, em primeiro lugar, eu não diria que Bezerra da Silva venha a tratar-se extamente de pagode, seria mais apropriado provavelmente dizer samba, samba de raiz ou partido-alto talvez, mas de qualquer modo, ainda que admitindo-se a precisão do seu termo, em momento algum eu afirmei que a seção deveria dedicar-se exclusivamente ao rock e seus assemelhados, a ver-se que por aqui já passaram Miles Davis, Tom Zé, Chico Buarque e outros. Mas mesmo que fosse com este fim, não haveria artista popular mais apropriado que Bezerra da Silva para representar essa relação do pagode (que seja), do samba do morro, do partido-alto com o rock. A crítica social, a digressão, a amoralidade, a rebeldia, a negação, a contravenção, são todos elementos comuns à música de Bezerra com o rock’n roll.
Entre malandros, dedos-duro, cornos, piranhas, bêbados, traficantes e policiais, Bezerra com sua interpretação escrachada confere à música um valor, até antropológico, por assim dizer, com a realidade do morro, da vida nas favelas, o modo característico de falar, as gírias e expressões, os costumes, os procedimentos, as descrições físicas e humanas, tratando tudo com o bom humor e a capacidade intrínseca do brasileiro de rir da própria desgraça.
Tem a denúncia social de "A Rasteira do Presidente"; tem um enterro interrompido pela polícia porque o caixão estaria cheio de muamba na hilária “Defunto Grampeado”; tem uma breve descrição de um espancamento a uma mulher que fora apanhada no flagra ‘enfeitando’ a cabeça do marido (“Quem Usa Antena é Televisão”); tem outra zoação com 'chifrudos' na engraçadísima "Sua Cabeça Não Passa na Porta"; tem a demonstração de desprezo e com os ‘caguetes’ evidenciadas em "Maloca o Flagrante" e "Língua de Tamanduá", e que aparece também em “Malandragem Dá um Tempo”, sendo esta última com o acréscimo da naturalidade ao tratar do uso de drogas; e ainda a relação malandro-mané em “Direitos do Otário”.
É interessante destacar, e muita gente não sabe, que Bezerra não escrevia as músicas, apenas as interpretava com aquele sua maneira toda particular de cantar. As letras incrivelmente bem-humoradas e certeiras eram compostas por ilustres desconhecidos do morro com os mais curiosos nomes como Pedro Butina, Cláudio Inspiração, Beto Sem-Braço e 1000tinho.
Disco muito legal e extremamente divertido. Sexo, drogas, violência, marginalidade... Quer mais rock’n roll que isso?
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FAIXAS:
• 1. Malandragem Dá Um Tempo
• 2. Defunto Grampeado
• 3. Quem Usa Antena É Televisão
• 4. Maloca O Flagrante
• 5. Vovô Cantou Pra Subir
• 6. A Rasteira do Presidente
• 7. Meu Bom Juiz
• 8. Língua de tamanduá
• 9. Na Boca do Mato
• 10. Sua Cabeça Não Passa na Porta
• 11. Os Direitos dos Otários
• 12. Compositores de Verdade

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Ouça:

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Iron Buttterfly - 'In-A-Gadda-Da-Vida" (1968)




"No final dos anos 60 não era socialmente conveniente andar por aí com o cabelo comprido até o cóccix."
Doug Ingle,
vocalista e tecladista


Ao começar a ouvir o disco, você até reconhecerá inevitavelemente algumas qualidades, logo de cara. Reconhecerá por certo toques profundos de psicodelismo, um rastro de folk, sombras de blues e os caminhos para o metal. Poderá até pegar-se tamborilando com os dedos na mesa enquanto ouve a boa "Most Anything You Want", batendo com o pézinho ao som de "Are You Happy?" com seu psicodélico prenúncio de peso, e até ensaiar um air guitar na embalada "Termination"; mas a faixa-título, um épico monumental quilométrico que, sobremaneira, impressiona  e justifica um lugar de destaque para "In-A-Gadda-Da-Vidda" , do Iron Butterfly, no olimpo dos grandes.
Ao longo de seus dezessete minutos a música "In-A-Gadda-Da-Vida", que no formato original em LP era a única faixa do lado B, desfila uma infinidade de variações, ritmos, influências e sonoridades. Uma loucura psicodélica total com guitarras pesadas, uma percussão viajante, órgãos completamente alucinados e um vocal rouco-grave-chapado. Detonante! Cáustico! Espetacular! Um dos primeiros pilares do hard rock e do metal!
Outro daqueles discos em que um erro, equívoco, um mal-entendido acabou gerando e consagrando o nome da obra: consta que o compositor, cantor e tecladista Doug Ingle anunciou ao baterista ter feito uma nova música, mas bêbado demais para falar corretamente o nome pretendido que seria "In The Garden of Eden", pronunciou "In-A-Gadda-Da-Vida" que foi o que o parceiro entendeu e anotou, só que sem saber escreveu 'errado' também na história do rock.

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Embora o grande barato de um disco desses seja tê-lo em LP por causa desta configuração com uma música apenas perfazendo um lado inteiro, não deixa de ser interessante ter a edição remasterizada em CD que traz três versões do clássico "In-A-Gadda-Da-Vida", a original, uma ao vivo e a do single, bem menor, editada especialmente para tocar nas rádios.
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FAIXAS:

Lado A
"Most Anything You Want" – 3:44
"Flowers and Beads" - 3:09
"My Mirage" – 4:55
"Termination" (Erik Brann, Lee Dorman) – 2:53
"Are You Happy" – 4:31

Lado B
" In-A-Gadda-Da-Vida " – 17:05

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Ouça:
Iron Buttefly In-a-gada-da-vida 


Cly Reis

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Ponto de Fuga





foto: Cly Reis

Shopping dos Antiquários - Copacabana - Rio de Janeiro - RJ



 


Um dos antiquários requintados do pequeno shopping...
Já tinha passado por lá mas só ontem pude entrar numa galeria comercial em Copacabana, chamada oficialmente Shopping Cidade Copacabana, conhecida popularmente como Shopping dos Antiquários. Como tinha visto que uma das lojas tinha uns LP’s, resolvi dar aquela conferida. Aproveitei então meu horário de almoço e mergulhei entre os corredores da galeria. A loja que eu havia visto, especificamente, não tinha muitas coisas legais; muitos discos bregas, ou muito populares, ou alguns interessantes mas que se encontra em qualquer lugar, então resolvi esticar um pouquinho e logo ali adiante encontrei uma outra com coisas excelentes e muito baratas. Bolachões de R$2,00, 4, 5 Reais. É lógico que fiz umas pequenas compras: levei na bagagem Iron Butterfly, “In-A-Gadda-Da-Vida”, o clássico “Déjà-Vu” de Crosby, Stills, Nash and Young, o “Wave” do mestre Tom Jobim, e aproveitei pra substituir meu CD piratinha do “Remain In Light” dos Talking Heads por um vinil oficial. O lugar é meio desorganizado no que diz respeito à disposição dos discos; de repente você está dedilhando os nacionais e dá de cara com um Frank Sinatra, ou está nas trilhas de filmes e se depara com um Dorival Caimmy, mas vale a pena vasculhar numa pilha qualquer e topar com uma surpresa interessante.
... e um outro interessante, porém mais amontoado e com jeito de brechó
Percorri mais um pouco a galeria e descobri mais algumas lojas bem legais: sebos riquíssimos, brechós estilosos e, lógico, justificando o nome do shopping, antiquários interessantíssimos, alguns mais chiques e sofisticados, outros mais pobrinhos mas não menos interessantes. Também tem uns bazares, umas lojas de ferragens, uns pés-sujos, mas deixa pra lá. Isso naõ faz a menor diferença.
Vou aproveitar que estou com obra em andamento aqui no bairro e voltar lá uma hora dessas pra mais compras. Só quero ver onde é que eu vou arranjar lugar pra guardar tantos vinis... (eu não devia ter descoberto esse lugar!)

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o Shopping Cidade Copacabana ou Shopping dos Antiquários
fica na Rua Figueiredo de Magalhães
ao lado da estação Siqueira Campos do Metrô.

O Frango Atirador

terça-feira, 7 de junho de 2011

cotidianas #85 - NOMES


"Nome", Arnaldo Antunes
Essa coisa dos nomes das pessoas é algo que pode ser muito curioso às vezes. Uma amiga me contou que certa vez, tendo levado seu filho pequeno a um posto de saúde, aguardava na sala de espera a chamada pelo nome do menino e entre Felipes, Vitórias, Pedros e Alices, de repente a enfermeira põe a cabeça pra fora da sala e sai com um "Micarráquinem da Silva". Micarráquinem da Silva??? Pode?

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Pais são fogo. Se forem pobres, então, são um perigo. Não é preconceito, é conceito formado baseado em observação. Notem como na maioria das vezes estes nomes de homenagem a personalidades importantes, a personagens de novela, aquelas combinações malucas do nome do pai com o da mãe normalmente vem das classes mais baixas. É duro dizer mas é verdade. O meu mesmo, que não é nenhum absurdo mas também não é la comum, é uma homenagem a um jogador dos anos 70 que eu nem sei em que time jogava. Mas gosto dele. gosto mesmo. O problema é que ninguém consegue pronunciar direito e eu sempre tenho que repetir mais de uma vez.

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A propósito de nome de jogador, houve uma obra e que eu estava trabalhando onde me pareceu um Hideraldo. Um dia estava conversando com ele num intervalo qualquer e perguntei se o nome era por causa do Hideraldo Luís Bellini, jogador da Seleção Brasileira de 1958. Ele então, 'caindo a ficha', respondeu, "ah, bem que eu sabia que o meu nome tinha a ver com o de algum jogador". Expliquei pra ele de quem se tratava, que o Belllini tinha jogado em 58, que tinha sido o primeiro jogador brasileiro a levantar a taça e que até tinha uma estátua dele em frente ao Maracanã. Acho que ele gostou de saber que o nome era mas importante do que jamais imaginara.
Mas esse Hideraldo não tinha nada lá muito a se elogiar: dias depois já começou a faltar, outro dia chegou bêbado e logo depois sumiu levando o uniforme e a botina da empresa.

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Ainda sobre jogadores de futebol teve um cara que registrou o filho com os nomes de todos os titulares da Seleção brasileira de 70. Sério!
Félix Carlos Alberto Brito Piazza Everaldo Clodoaldo Gérson Pelé Jair Tostão Rivellino... de Souza, da Silva, Pereira ou qualquer coisa assim.

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Na época que eu tinha um time de bairro, de futebol sete, mesmo tendo o time base, aqueles de fé, volta e meia rolava uma certa rotatividade e alguma dispensa ou inclusão acontecia. Sempre que ficávamos sabendo de alguém com futebol interessante, com potencial, com qualidades, dávamos uma conferida, chamávamos pra bater uma bola informalmente e íamos, por assim dizer, negociar a contratação. Assim que soubemos por um dos nossos jogadores que um carinha novo que tinha ido morar numa vilinha perto do campo onde jogávamos era bom de bola, jogamos uma pelada de fim de tarde, comprovamos a categoria do sujeito e o convidamos pra jogar conosco. Como ele era novo no bairro, não tinha compromisso com outro time, fechou com a gente mesmo. Era conhecido por João porque era assim que chamava às pessoas de quem não sabia o nome, mais ou menos como o Garrincha se referia às suas 'vítimas', de quem nem valia a pena saber o nome porque eram todos iguais e iam ficar estatelados no chão mesmo. Todos uns Joões! E ele preferia que fosse assim uma vez que era sabido que não gostava do próprio nome. No máximo permitia que lhe chamassem do segundo nome, Vinícius. Durante muito tempo chamamos aquele cara apenas de João sem saber  efetivamente qual o seu verdadeiro nome, até porque coisas como esta no futebol de rua, de bairro, de amigos, não fazem a menor diferença. Mas um dia deu de haver um campeonato e ser necessário uma inscrição e aí o João teve que revelar seu nome: "Alcione Vinícius", revelou ele contrariado.
Alcione...
- Tenho a maior bronca do meu velho por causa disso. - dizia ele.

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Soube também de um caso interessante: os pais, tendo alguma 'inspiração' daquelas de gosto bastante duvidoso resolveram botar no filho quando nascesse um nomezinho, no mínimo, complicado. Como desta história não sei detalhes vou chamar o garoto de Athaualpakauê, Ok? 
Então... O fato é que ninguém conseguia aprender nem pronunciar o nome do futuro bebê. Nem avós, nem tios, nem amigos, ninguém. Passou-se a gestação inteira com o nome decidido e com as pessoas quase engolindo a língua para falar o nome da criança que estava por vir. Atapauê, Atacapalauê, Atanásio Cauê. Deu-se então que nascida a criança, e com os pais entendendo a dificuldade dos parentes, as complicações que poderiam acontecer na escola, na vida social e tudo mais, tiveram bom senso e resolveram mudar o nome. O pai saiu da maternidade e foi registrar então o filho com o nome mais comum, digamos José, por exemplo, de modo a facilitar totalmente pra todo mundo. Mas aí era tarde demais: todos, apesar da dificuldade já tinham aprendido, acostumado, comprado presentes, toalhinhas, babadores, caminhas, brinquedos gravados com o complicadíssimo nome antigo e por pior que fosse já estava consagrado. Aí que mesmo registrado José, é chamado e conhecido pelo nome que era pra ser mas que acabou não sendo. Athaualpakauê.

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Cly Reis

Antônio Carlos Jobim - "Urubu" (1976)



" Jereba é urubu importante como, aliás, todo urubu. Mas entre eles, urubus, observam-se prioridades. E esse um é o que chega primeiro no olho da rês. Sem privilégios. Provador de venenos, sua prioridade é o risco(...)"
Tom Jobim (trecho do texto da contracapa do disco)


Já consagrado, o maestro Antônio Carlos Jobim, embrenhava-se a partir do disco “Matita Perê” de 1973, por caminhos pouco explorados por sua obra, colorindo-a mais ainda de verde e amarelo. Não que seu trabalho, mesmo embasado no erudito e recheado de jazz não fosse legitimamente brasileiro; suas influências, suas cadências e sua levada indesmentivelemente sambista não deixam margem de dúvida, mas a partir daquele momento e especialmente com “Urubu” de 1976, Tom agregava à sua música elementos da natureza, da fauna e flora brasileiras, paisagens, tradições, cânticos regionais e instrumentos típicos. Provas disso são a gostosa “Correnteza” com seu jorro de frescor; a sutil sugestão de integração homem-natureza de “Arquitetura de Morar”; a evocação (meramente sonora) de paisagens em "Saudades do Brazil"; e sobremaneira a espetacular “O Boto” com sua introdução de berimbau que dá sequencia a um arranjo que imita natureza, incrementado por inserções de apitos e sons de pássaros, e versando sobre lendas e contos brasileiros.
Mas o disco não se resume a estas recentes brasilidades de Tom e traz canções mais tradicionais dentro de seu estilo e discografia como a romântica “Lígia”, a tristonha “Ângela”, o valseado forte de ”Valse” do filho Paulo Jobim e a intensa e dramática “O Homem” que encerra a obra.
Com arranjos de Claus Ogerman e acompanhamentos de sua orquestra, escolhidos pelo próprio Tom, “Urubu” mostra um compositor maduro e completamente senhor de si, brincando livremente com todo seu talento e técnica produzindo uma obra única e admirável.
Álbum para se ter me LP. Disco com lado A e lado B: o primeiro todo com os vocais roucos e característicos do mestre Tom, incluindo uma participação de Miúcha em "O Boto"; e o lado 2 somente com temas orquestrados instrumentais extemamente refinados e sofisticados.
Obra de arte!
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FAIXAS:

1- Bôto (Porpoise)
Antonio Carlos Jobim / Jararaca
2- Lígia
Antonio Carlos Jobim
3- Correnteza (The Stream)
Antonio Carlos Jobim / Luiz Bonfá
4- Ângela
Antonio Carlos Jobim
5- Saudade do Brazil
Antonio Carlos Jobim
6- Valse
Paulo Jobim
7- Arquitetura de morar (Architecture to live)
Antonio Carlos Jobim
8- O Homem (Man)
Antonio Carlos Jobim
 
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Ouça:
Tom Jobim Urubu




Cly Reis

segunda-feira, 6 de junho de 2011

"According to The Rolling Stones: A Banda Conta sua História"



Chega ao Brasil com 8 anos de atraso em relação à edição original, "According to the Rolling Stones: A Banda Conta Sua História", uma coletânea de entrevistas dos próprios integrantes retratando os primeiros 40 anos da banda. Keith, Mick, Ron e Charlie remexeram numas entrevistas dadas em 2002, compilaram, revisaram o material e, em parceria com a empresária Dora Lowenstein, botaram na roda pra galera relatos interessantes, curiosos, impressionantes e tudo mais que se possa esperar dos velhos Stones. Os próprios integrantes trataram, além de organizar os textos, de escolher as fotos que ilustram o trabalho, lançando mão inclusive de seus acervos pessoais.
Não tem como não ter satisfação com isso, hein.

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"According to The Rolling Stones: A Banda Conta sua História"
de Mick Jagger, Keith Richards, Ron Wood, Charlie Watts e Dora Loweisntein
Ed. Cosac Naify
360 páginas
R$119,00


C.R.

domingo, 5 de junho de 2011

cotidianas #84 - Um Elogio


-Com licença, moça – abordou-a cutucando seu ombro.
- Sim...
- Com todo o respeito, – e sou testemunha de que fora com o devido anunciado respeito, uma vez que o personagem desta pequena historieta foi por mim concebido e criado e, junto com seu aspecto nada desprezível, com seu modo de vestir até bem apresentável, com seus modos, bons a julgar-se bons pela abordagem, criei também seu caráter e suas intenções, às quais posso afiançar, não foram vis nem torpes quando, manifestou aquela impressão que pretendia fazer natural e inocente – tem gente que elogia os olhos de outra pessoa, tem gente que elogia o nariz – e neste momento a moça já sorria pressentindo um agrado maior que os que previamente enumerava o moço – mas eu não pude deixar de notar no seu... bumbum, no seu traseiro. A senhorita tem uma bunda muito bonita.
Ela mudou de expressão de gosto: desfez o sorriso num aspecto de quase fúria, arregalou os olhos, expirava aceleradamente pelo nariz e sua face enrubescera inteiramente. Não falou nada naqueles segundos que se seguiram. Apenas, agitada, virava o pescoço procurando alguma coisa à volta, até que avistou.
- Policial, policial! – chamou em voz alta o suficiente para que a escutasse a uma certa distância.
- Que isso, moça, não precisa isso. Foi só um elogio – tentava acalmar a garota enquanto o policial que cuidava do trânsito ali na esquina ia-se dirigindo até onde estavam os dois.
- Pois não.
- Esse tarado me assediou sexualmente.
- Não foi nada disso, seu policial, eu só fiz um elogio pra moça, eu... – e foi bruscamente interrompido pela queixante.
- Ele estava olhando pra minha bunda, ele disse que gostava da minha bunda, que a minha bunda era isso e minha bunda era aquilo. – finalizou a queixa fazendo uma espécie de beicinho de choro.
- E então, malandrão, é assim? Quer dizer que tu fica mexendo com as moças na rua? – inquiriu o guarda num tom desafiador.
- Não foi nada disso seu guarda, eu posso explicar. Posso explicar?
- Te explica, então, ô mané.
- Não foi um assédio, nem uma ousadia, nem uma ofensa, nem tara nem nada, seu guarda. É que... o senhor sabe quando a gente vê uma coisa muito bonita e não consegue deixar de manifestar? Tipo, ‘que pôr-do-sol maravilhoso!’, ‘que filme!’, ‘que golaço!’, sabe? Pois é. Eu só não pude deixar de falar. E tive que falar pra quem merecia o elogio. Pra quem pudesse se orgulhar do que tem. Foi com todo o respeito. Eu inclusive comecei assim, ‘moça, com todo o respeito’, não foi?
Ela meio contrariada, confusa e constrangida respondeu hesitante: -Foi...
- Bom, moça. Eu acho que o rapaz aqui não fez nada de muito sério.
- Como assim? O senhor vai deixar ele ir embora assim. – indignada.
- Não posso prender ninguém por elogiar outra pessoa e além do mais, se a dona me permite, ele tem razão, a moça tem um... uma... é muito bonito mesmo.
- Mas que absurdo! Não dá pra contar nem com a polícia mais. Que abuso. Deixa’ssim, deixa’ssim – e foi saindo desarvorada enquanto o guarda voltada para o sinal rindo e balançando a cabeça negativamente e o rapaz tomava seu rumo e ia seguir a vida.
Ela chegou em casa ainda bufando, abriu a porta nervosamente e bateu para fechar, jogou a bolsa sobre o sofá e entrou apressada no quarto. Parou em frente ao espelho e tirando os brincos ainda sussurrava para si mesma, “Que absurdo, que absurdo!”
Começou a tirar a roupa para tomar um banho e no atabalhoamento da raiva quase caiu na perna da calça. “Absurdo, absurdo!”
Mas agora já começava se acalmar. Afinal, não tinha sido tão sério assim. Por mais inconveniente que tivesse sido, o rapaz não lhe passara a mão, não a chamara de gostosa nem nada vulgar. Só fizera um elogio. Só. Podia ter-lhe elogiado os cabelos, os ombros, os tornozelos e não teria ficado ofendida. Pensando bem exagerara um pouco. “Ai que vergonha”, pensava agora.
- Deixa pra lá. Vou tomar meu banho.
E, só de calcinha, quando já ia sair da frente do espelho e tomar rumo do banheiro, não pôde deixar de deter o olhar na própria bunda. Virou o corpo melhor, girou o pescoço. Até que era graciosa. Não pôde também deixar de soltar um leve sorriso, de vaidade, satisfação provavelmente. Nunca gostara muito da própria bunda.


Cly Reis

O Frango Atirador

quarta-feira, 1 de junho de 2011

The Zombies - "Odessey and Oracle" (1968)


"Não tenhas medo; esta ilha é sempre cheia de sons, ruídos e agradáveis árias, que só deleitam, sem causar-nos dano. Muitas vezes estrondam-me aos ouvidos mil instrumentos de possante bulha; outras vezes são vozes"
trecho de "ATempestade" de Shakespeare,
na contracapa do disco


Banda de dois discos apenas. Em parte por conta de questões internas e muito por motivados por questões de gravadora, o The Zombies acabou lançando seu segundo e derradeiro álbum, o brilhante “Odessey and Oracle” , já sabendo que seria o último, mas foi o que bastou para garantirem seu lugar de destaque na história do rock e especificamente na formação do pop-rock britânico.
O disco com seus toques psicodélicos e climas barrocos, por vezes pode soar meio datado com a marca dos anos 60 por conta de seus excessivos côros de fundo, mas por outro lado, se bem analisados,estes mesmos arranjos vocais mostram-se de impressionante qualidade e sensibilidade, e a sonoridade da banda revela, por sua vez, um sutil refinamento e avanço da musicalidade daquela época em direção a um modelo pop mais contemporâneo.
O grande sucesso da banda, “Time of the Season”, provavelmente a melhor canção pop de todos os tempos, é um claro exemplo disso, com uma composição moderna, que atinge tal grau de sofisticação, que poderia tranquilamente passar por uma gravação atual de qualquer banda do momento, tal sua contemporaneidade.
Destaques também para “Care of Cell 44” que abre brilhantemente o disco, para a doce balada “Rose for Emily”, para a sombria “Beachwod Park”, para a psicodelia 'medieval' de “Butcher's Tale” e para outra daquelas atemporais, a ótima "I Want Her, She Wants Me".
Observar para o curioso nome do álbum originado, na verdade, por um erro de grafia do designer gráfico da época que escreveu odessey e não odyssey. Erro que, ironicamente, acabou consagrado em um dos grandes discos da história.
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 FAIXAS:
  1. "Care of Cell 44" (3:53)
  2. "A Rose for Emily" (2:17)
  3. "Maybe After He's Gone" (2:31)
  4. "Beechwood Park" (2:41)
  5. "Brief Candles" (3:38)
  6. "Hung Up on a Dream" (2:58)
  7. "Changes" (3:16)
  8. "I Want Her, She Wants Me" (2:50)
  9. "This Will be Our Year" (2:07)
  10. "Butcher's Tale (Western Front 1914)" (2:45)
  11. "Friends of Mine" (2:15)
  12. "Time of the Season" (3:31)
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Ouça:
The Zombies Odessey and Oracle



Cly Reis

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Tom Zé - "Estudando o Samba" (1976)



“[Tom Zé] pensou e realizou este disco, onde procurou reunir uma variedade de tipos e de formas rurais e urbanos do samba, dando a cada música a vestimenta que achou mais adequada.”
Elton Medeiros


Nos anos 90, o destino pôs diante de Tom Zé o 'talking head' David Byrne, que o trouxe do ostracismo para uma posição de artista cult e mundialmente reverenciado. Mas o início desta história hoje já conhecida nasceu de uma audição despretensiosa de um dos vários LP’s de MPB que Byrne comprara numa vinda ao Brasil. Dentre aqueles bolachões, um lhe fez a diferença. Foi este que o motivou a procurar saber quem era aquele artista e, em seguida, conhecê-lo e gravá-lo. Este álbum era “Estudando o Samba", de 1976, sem dúvida o melhor trabalho do baiano de Irará.

Metalinguístico, atonal, serialista, revisionista. Todos estes atributos “difíceis” estão certos quando creditados a “Estudando o Samba”. Mas tudo tem pouca importância quando o negócio é simplesmente ouvi-lo. Um deleite! Trata-se de um disco indiscutivelmente conceitual, o que já lhe garante certa aura de complexidade. É, talvez, o grande disco-conceito da música brasileira depois do “Coisas” do Moacir Santos, de 1965 (neste quesito, nem “Tropicália”, de 68, em que Tom Zé participa junto com toda a turma de Caetano, Gil, Gal, Nara e Mutantes, é tanto). Mas, acima de tudo, é delicioso escutar o álbum do início ao fim e curtir músicas como “Tô”, “Hein?” e “Vai”, onde Tom Zé desconstrói o gênero samba para, didaticamente, mostrá-lo de maneira híbrida em suas mais variadas vertentes.

Comecemos pelo fim. Afinal, sou daquela teoria de que todo grande disco tem uma obra-prima de desfecho, de abertura ou as duas coisas juntas. No caso de “Estudando...” a faixa final não é bem um espetáculo, mas, com certeza, original e incomum, por isso o destaque. Intitulada “Índice”, traz na letra de frases fragmentadas e de sentido vago um verdadeiro índice remissivo em que se repassam os títulos de todas as músicas anteriores. Aí o motivo tanto de a letra ser quase silábica, pois todos os títulos (exceto “A Felicidade” e a própria “índice”) são formados por palavras que não passam de quatro letras, quanto, também, do teor fortemente conceitual do disco, visto que a obra se autoreferencia a todo instante.

Se o final do disco é interessante, porém não musicalmente estonteante, o início é. “Mã”, samba modernista repleto de referências aparentemente díspares, é a tradução da obra de Tom Zé (não à toa o próprio artista a regravou com outras letras mais de uma vez depois). Num clima entre a ópera e o ritualístico, mistura batuque de terreiro, canto de trabalho das lavadeiras nordestinas, coro sacro-religioso, ruídos da São Paulo urbana, entrecruzamentos vocais ao modo das vanguardas europeias (Ligeti, Stockhausen) e riff de rock (tocado não na guitarra, mas cavaquinho de samba!). Tudo está ali: tradição e vanguarda, lundu e tropicália, popular e erudito, roça e asfalto; e de uma forma intensa, poderosa. Já tendo criado ótimas músicas até então (o samba concretista “Todos os Olhos”, o sertanejo-pop “Sabor de Burrice” ou o funk-rock “Jimi Renda-se”), “Mã” é, definitivamente, marco da maturidade musical de Tom Zé como músico.

Na sequência, a única do disco que não é de sua autoria: o clássico “A Felicidade”, de Tom e Vinícius. A escolha, claro, não foi à toa: tocada em ritmo de valsa-rancho, Tom Zé canta lindamente em tom baixo acompanhado só de violão, que sincopa o compasso. Ainda, esparsos acordes de baixo e frases de orquestra de metais ao estilo de George Martin ou Rogério Duprat. Através desta economia de elementos, Tom Zé põe a nu a belíssima estrutura melódica original da canção, homenageando não apenas a famosa dupla de autores, mas a bossa nova como um dos gêneros sambísticos. Ainda, para arrematar, depois de um dos últimos “soluços” da síncope, entra uma cozinha de pagode na diagonal do compasso, desconexão rítmica esta que não estraga a música. Pelo contrário: cai tão bem que faz deixar ainda mais clara a percepção de que os criadores da bossa nova muito se inspiraram no que vinha do morro.

Outra que merece todos os elogios é “Toc”, talvez o único samba serial da história! Próximo ao que o maestro francês Pierre Boulez inventou, o serialismo (método de composição que usa séries de notas, ordenando-as e variando suas durações, intensidades e ataques), “Toc” representa, em tese, uma sequência de sons infinitos e contínuos. Só não é assim porque, como um jogo de xadrez, o compositor “joga” com as notas e as séries sonoras, tirando-as, adicionando-as, repetindo-as, deslocando-as, num esquema matemático em que as variáveis são intermináveis. Sem nenhuma percussão, esta “brincadeira” instrumental ainda traz um dos “inventos” de Tom Zé: o agogô no esmeril, uma serra de verdade adaptada como instrumento musical, o que faz deste samba soar mais barulhento do que muito rock pesado.

“Tô” é outra pérola; das minhas preferidas. Parceria com o sambista Elton Medeiros e de letra filosófica, mas pegajosa (“Eu tô te explicando pra te confundir/ Eu tô te confundindo pra te esclarecer/ Tô iluminado pra poder cegar/ Tô ficando cego pra poder guiar”), é um sambão urbano a la Riachão. O disco ainda passa pelo samba brejeiro (“Ui!”), o samba minimalista (“Dói”), o samba-canção (“Só”), o samba-marchinha (“Vai”) e o samba “dor de cotovelo” (“Se”: “Ah, se maldade vendesse na farmácia/ Que bela fortuna você faria”). Tudo de forma revisitada, revisada, irônica e filtrada pelo olhar tropicalista de Tom Zé.

“Estudando o Samba” significa, na história da MPB, um passo adiante na linguagem do gênero não por inventar um novo conceito, mas por montar uma “enciclopédia do samba”, evidenciando, ao decompor a espinha-dorsal dos seus subestilos, as mil e uma possibilidades que ainda poderia vir a ser explorado. E deu certa a experiência em laboratório. Estão aí Towa Tei, Beastie Boys, Sean Lennon, Ed Motta e Fantastic Plastic Machine que não me deixam mentir. Todos adicionaram a seu paradigma de referências o samba, invariavelmente usando-o entre outros estilos. Afinal, foi Tom Zé mesmo quem disse: “estudando [o samba] pra saber ignorar”.

FAIXAS:
1. Mã
2. A Felicidade
3. Toc (Instrumental)
4. Tô
5. Vai
6. Ui!
7. Dói
8. Mãe
9. Hein?
10. Só
11. Se
12. Índice
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Ouça “Estudando o Samba”:
Tom Zé Estudando o Samba
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Além de “Estudando o Samba”, vale ouvir outros três discos super representativos da longa obra de Tom Zé: “Todos os Olhos” (1973), a “mais completa tradução” da São Paulo moderna; “The Hips of Tradition” (1992), o marcante primeiro trabalho gerado após a redescoberta por David Byrne; e a linda trilha do balé “Parabelo” (1997), composta em parceria com José Miguel Wisnik para o Grupo Corpo.

Ouça “Todos os Olhos”:
Todos os Olhos

Ouça “The Hips of Tradition”:
The Hips of Tradition

Ouça “Parabelo”:
Parabelo

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por Daniel Rodrigues

domingo, 29 de maio de 2011

"Pedaços de um Caderno Manchado de Vinho", de Charles Bukowski (2010) - L&PM



"Estilo significa guerrear sem escudo.
Estilo significa não ter frente de batalha.
Estilo significa a mais absoluta naturalidade.
Estilo significa um homem sozinho com um bilhão de homesn em volta."
Charles Bukowski


Passei ontem pelas últimas páginas de "Pedaços de um Caderno Manchado de Vinho" de Charles Bucowski, uma coletânea de textos variados e de origens diversas de um dos mais controvertidos escritores dos últimos tempos e um dos melhores a meu juízo. Apesar de admirador do estilo e da obra do autor, tenho que admitir que este livro em especial não enquadra-se entre os melhores de sua bibliografia, até mesmo por este caráter variado das procedências que faz com que o mesmo perca algum sentido de unidade. Com resenhas para jornais, artigos para revistas, crônicas, contos, críticas literárias e escritos perdidos nunca publicados até então, o livro de certa forma percorre a carreira do escritor e acompanha sua evolução. Nem tudo tem lá muita qualidade. A escrita do Velho Safado mostra-se por vezes ainda um tanto incipiente, um tanto sem rumo, sem alvo certo, onde em alguns casos até a velha e característica verborragia incontida e impiedosa não consegue atender nem aos próprios princípios literários.


Porém mesmo com alguns defeitos nesta coletânea, Buk consegue ser melhor do que a maioria dos escritores contemporâneos e que as coisas que se lê hoje em dia. Seu texto tem energia, tem vigor, tem forma, tem objetivo, fúria, mesmo quando simplesmente põe linhas aparentemente desordenadas e sai atacando tudo no escuro.

Falando assim pode parecer que "Pedaços de um Cadernos Manchado de Vinho" é só um amontoado de escritos fora de propósito, o que em absoluto seria verdade: O livro traz preciosas apreciações literárias sobre Hemingway, Pound e Artaud; ensaios sobre conceitos pessoais de escrita e estilo; e contos admiráveis com as marcas registradas do velho beberrão.

Algumas das muitas "Notas de um Velho Safado" que aparecem neste livro, nome da antiga coluna publicada em revistas ao longo de sua carreira, são rigorosamente imperdíveis, outras bem dispensáveis; sua "Antologia de Artaud" é simplesmente magnífica; o bom conto "Malhação" tem toda a boa e velha sujeira e putaria de Bucowski; já o ótimo "20 Tanques para Kasseldown" traz uma admirável sutileza, uma aura de mistério e um tom sombrio e pessimista. Também deve-se destacar outros contos de ficção como o curioso "Como tudo começou" e o emocionante "Eu conheço o Mestre", além do espetacular "O Outro", um misto de romance policial, espionagem e sobrenatural que (tomara que Buk não esteja lendo isso no outro mundo mas), lembra o "Horla" de Maupassant. Os ensaios literários também merecem menção, sobretudo dois deles, o notável "Sobre a matemática da respiração e do estilo" e o lindíssimo "Treinamento Básico", um apaixonado manifesto que fecha o livro com tudo o que um leitor pode querer ler da essência de um escritor.

Se formos comparar com outras obras de Charles Bukowksi, como o livro de contos "Crônicas de um Amor Louco", as reflexões filosóficas de "O Capitão Saiu para o Almoço e os Marinheiros Tomaram Conta do Navio", ou o excelente romance policial "Pulp", certamante este aqui fica lá para trás, mas vale sempre pelo jeito turrão e 'mal-humorado', vale pela escrita, pelo jeito autêntico de escrever, vale pela visão da vida sob um ponto de vista mais cru e mundano, vale pelo humor, pelo sarcasmo,... e se não vale por tudo isso, vale ao menos pela curiosidade. Para os fãs, como eu, um prato cheio.



Cly Reis

Rock'n Roll Show


"Rock'n Roll Show - REIS, Cly
grafite sobre sulfite



terça-feira, 24 de maio de 2011

Andy Warhol 16mm - Caixa Cultural - Rio de Janeiro










Começou hoje e vai até o dia 5 de junho no centro cultural da Caixa, aqui no Rio, uma mostra da obra cinematográfica de Andy Warhol em 16mm, exibida no formato original. Entre experimentações, curtas, documentários, filmes conceito e até um 'semi-pornô', por assim dizer ("I, a Man"), pode-se destacar uma apresentação dos seus afilhados do Velvet Underground em Boston e seu famoso filme "Chelsea Gilrs", que inclusive será exibido com projeção dupla (dois projetores na mesma sala), conforme sua concepção original.
Confira abaixo toda a programação:




TERÇA, 24
15H SLEEP (5 HORAS 21 MIN)

QUARTA, 25
17H CAMP (66 MIN)
18H30 MY HUSTLER (66 MIN)
20H THE LIFE OF JUANITA CASTRO (66 MIN)

QUINTA, 26 (PROJEÇÕES DUPLAS)
15H LUPE (37 MIN)
16H OUTER AND INNER SPACE (33 MIN)
17H30 THE CHELSEA GIRLS (3 HORAS 30 MIN)

SEXTA, 27
15H SCREEN TEST #1 (66 MIN)
16H30 HEDY (66 MIN)
18H30 KISS (48MIN) - SESSÃO COM MÚSICA AO VIVO
20H MARIO BANANA #1 (4 MIN) + COUCH (52 MIN) - SESSÃO COM MÚSICA AO VIVO

SÁBADO, 28
16H ROLO 26 DOS SCREEN TESTS (40 MIN)
17H ROLO 25 DOS SCREEN TESTS (40 MIN)
18H I, A MAN (95 MIN)
20H SALVADOR DALÍ (22 MIN) + THE VELVET UNDERGROUND IN BOSTON (34 MIN)

DOMINGO, 29
14H SCREEN TEST #2 (66 MIN)
15H30 BLOW JOB (36 MIN) + EAT (35 MIN)
17H THE NUDE RESTAURANT (100 MIN)
19H MY HUSTLER (66 MIN)

TERÇA, 31
13H EMPIRE (8 HORAS 5 MIN)

QUARTA, 1
16H SALVADOR DALI (22 MIN) + THE VELVET UNDERGROUND IN BOSTON (34 MIN)
17H30 LONESOME COWBOYS (109 MIN)
20H BLOW JOB (36 MIN) + EAT (35 MIN)

QUINTA, 2
16H30 I, A MAN (95 MIN)
18H30 MARIO BANANA #1 (4 MIN) + COUCH (52 MIN)
20H KISS (48 MIN)

SEXTA, 3
16H THE NUDE RESTAURANT (100 MIN)
18H SCREEN TEST #2 (66 MIN)
19H30 LONESOME COWBOYS (109 MIN)

SÁBADO, 4 (PROJEÇÕES DUPLAS)
15H30 OUTER AND INNER SPACE (33 MIN)
16H30 LUPE (36 MIN)
17H30 THE CHELSEA GIRLS (3 HORAS 30 MIN)

DOMINGO, 5
14H SCREEN TEST #1 (66 MIN)
15H30 HEDY (66 MIN)
17H THE LIFE OF JUANITA CASTRO (66 MIN)
18H30 CAMP (66 MIN)

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Andy Warhol 16mm
Local: Centro Caixa Cultural - Rio de Janeiro
Rua Almirante Barroso, 25 - junto ao Lg. da Carioca - Centro
mais informações no site do evento:
http://www.andywarhol16mm.com.br/