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Alceu Valença, Elba Ramalho e Geraldo Azevedo dividem o palco do Araújo Vianna
Ainda resta uma esperança! Numa semana em que a República parece ter desmoronado, a música brasileira não só salva, como renova o espírito de nação. Foi isso que aconteceu ontem à noite no Araújo Vianna. O show “O Grande Encontro”, que reuniu Alceu Valença, Elba Ramalho e Geraldo Azevedo, deu um banho de civilidade e brasilidade nas três mil pessoas que lotaram o local. De Gonzagão a Dominguinhos, passando por Vital Farias e Jackson do Pandeiro, os três artistas demonstraram vitalidade e altíssima qualidade musical, cada um em sua especialidade.
Alceu com sua energia inesgotável e seus sucessos; Geraldo Azevedo com suas composições e sendo uma espécie de diretor artístico do espetáculo e Elba cantando como nunca. Aliás, devo confessar que nunca fui muito fã da paraibana mas ela me ganhou. Seu resgate de "Sangrando", de Gonzaguinha, fez um arrepio de emoção percorrer as fileiras do Araújo Vianna.
Acompanhados por uma banda com destaque para o guitarrista Paulo Rafael - velho parceiro de Alceu desde os anos 70 - os nordestinos fizeram o público cantar, dançar e perceber que a saída está na variada e luminosa cultura do nosso país, atualmente afastada da mídia tradicional mas permanente nos corações de cada um.
Os fãs gaúchos do Supertramp nunca tiveram a oportunidade de ver a grande banda liderada por Rick Davies e Roger Hodgson ao vivo (Hodgson até se apresentou em carreira solo em Porto Alegre) ao vivo. Então quando surge a oportunidade de assistir a um grupo especializado em reproduzir o som do grupo inglês, que encantou o mundo nos anos 1970 e 1980, os aficionados correm direto para o espetáculo. E não se arrependem.
Foi o que aconteceu nesta quinta-feira, 22 de agosto, quando o público teve a oportunidade de ver, mais uma vez no Auditório Araújo Vianna, o show do Super Tramp Experience (que já havia se apresentado no ano passado na Capital gaúcha), conjunto francês liderado pelo vocalista e tecladista Antoine Oheix.
A banda tributo se dedica a recriar fielmente os sons e as performances ao vivo do Supertramp. E isso é o que agrada aos fãs, que sonharam em ver o grupo original, e nunca tiveram a chance. Aí os franceses se preocupam com isso, e reproduzem à perfeição os vários clássicos da banda.
Além do criador Antoine Oheix, a Super Tramp Experience conta com Alice Vallee (guitarra, teclados, backing vocals), Lucas Fleurance (baixo, backing vocals), David Martin (saxofone, teclado, backing vocals) e Stéphane Glory(bateria).
A Super Tramp Experience empolgando a plateia
com o hit “It’s Raining Again”
E em quase duas horas de apresentação, com uma grande interação de Antoine com a galera, foram desfilados hits do porte de “Crime of The Century”, “Breakfast in America”, “The Logical Song”, “Dreamer”, “Fool’s Overture”, “Bloody Well Right”, “Give a Little Bit”, "Don't Leave Me Now" e “School”, entre outros.
E fechando o show, aquela música que certamente apresentou o Supertramp para a grande parte do público presente no Araújo Vianna: “It’s Raining Again”, talvez o maior hit, presente no disco “...Famous Last Words...”, de 1982. Com direito a muitos fãs abrindo seus guarda-chuvas dentro do auditório. Foi uma viagem à adolescência de muita gente presente no show. E fica aquela máxima: “se não tem o original, se contente com a cópia. Cópia bem feita”.
“Nem estou acreditando que estou chegando nos 50. Esse projeto não é só sobre mim: é sobre todas as pessoas que me ajudaram a não desistir”.
Criolo
Que Criolo é o cara da nova música brasileira, isso já se sabe. Que este músico paulista, iniciado no rap, desenvolveu-se em tudo que é gênero musical, do samba ao afrobeat, também não é novidade. Que é um poeta raro, idem. Que é um dos artistas mais inovadores e influentes da música brasileira contemporânea, igualmente é outra certeza, assim como que ele já ocupa o panteão dos grandes da MPB. Porém, o palco ainda era uma dúvida, pois parecia carecer de uma afirmação. Afinal, é ali que se confirma um grande artista. É onde sua alma é impressa. Já havíamos Leocádia e eu assistido alguns shows de Criolo pela tevê, uns melhores e outros nem tanto. Mas o que não era possível captar à distância era justamente aquilo que se pode confirmar na inesquecível apresentação deste artista no Araújo Vianna, em Porto Alegre: a impressão de sua alma. E ela estava lá.
Comemorando seus 50 anos de idade - uma vitória para um rapaz preto e da periferia num país aporofóbico e racista, como ele mesmo observou -, Criolo e sua ótima banda mandaram ver num show empolgante, pois bem realizado em todos os aspectos: som, luz, projeções/arte, narrativa, repertório e, o mais importante, sintonia com a plateia. O carisma, a vibe zen e o bonito vocal de Criolo, dotado de pouca extensão mas que funciona mais em estúdio, é compensado, no palco, pela energia e o vozeirão do MC e DJ DanDan, parceiro antigo. Eles comandam o show, que percorre, num apanhado cirúrgico, o repertório dos cinco álbuns solo de carreira de Criolo dando especial destaque aos excelentes "Nó na Orelha" (2011) e "Convoque seu Buda" (2014), e o seu último, "Sobre Viver" (2022), além do disco de samba "Espiral da Ilusão" (2017).
Foram só pedradas, novos clássicos da música brasileira. Começando por "Mariô" e "Duas de Cinco", que abrem a apresentação puxando versos impactantes: "Tenho pra você uma caixa de lama/ Um lençol de féu pra forrar a sua cama/ Na força do verso a rima que espanca/ A hipocrisia doce que alicia nossas crianças" ou "Compro uma pistola do vapor/ Visto o jaco califórnia azul/ Faço uma mandinga pro terror/ E vou". Seguiram-se "Sistema Obtuso" e "Esquiva da Esgrima", esta, das preferidas do público. Em "Ogum Ogum" e "Iemanjá Chegou", duas de "Sobre...", Criolo abre espaço para a religiosidade afro, assim como faz para outros dois blocos distintos. Um deles, o momento reggae, em que canta "Samba Sambei" e "Pé de Breque", além de um novo arranjo para o rap "Sucrilhos", agora ao estilo de Bob Marley.
A clássica "Subirodoistiozin" pondo o
público gaúcho para cantar
Outro ponto especial é a parte reservada ao samba, gênero que Criolo domina como poucos. O divertido partido-alto "Lá Vem Você" e o samba-canção engajado "Menino Mimado", ambas de "Espiral...", se juntam a "Linha de Frente", célebre samba de encerramento de "Nó..." ("O nó da tua orelha ainda dói em mim/ E Cebolinha mandou avisar/ Que quando a 'fleguesa' chegar/ Muitos pãezinhos há de degustar") em que Criolo já anunciava essa sua verve composicional.
Mais clássicos contemporâneos: "Grajauex", "Não Existe Amor em SP", cantadas em coro pelo público, e "Subirodoistiozin", que ganha, ao final, um arrasador arranjo drum 'n' bass do DJ DanDan. Para fechar, uma versão do samba triste de Benito Di Paula "Retalhos de Cetim" ("Mas chegou o carnaval/ E ela não desfilou/ Eu chorei na avenida, eu chorei...") e o matador rap-ninja "Convoque seu Buda" para encerrar, quando todos fizeram o tradicional movimento de balançar a mão de cima para baixo como nos clipes de hip hop.
Se faltava a Criolo o atestado do palco, o show do Araújo Vianna foi uma mostra de que, chegado aos 50 anos e experiente como artista, não falta nada mais a ele, Sua alma estava lá, definitivamente. E se lhe foi uma vitória chegar ao primeiro meio século, esperamos que o Brasil lhe oportunize a partir de agora novos 50 anos de brilho, dignidade e sucesso. Ele merece.
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Aguardando Criolo!
Começando o show com alta energia
Criolo em sintonia com o público
Seja rap, soul, samba, afrobeat: Criolo manda bem no que vier
Sessão de samba do show
A linda projeção completando a arte do espetáculo
O rap se mistura à musicalidade brasileira no trabalho de Criolo
Emoldurado por um dos cartões postais da cidade, o Araújo Vianna, local onde foi lançado o livro
“Mas não é só o filme que carrega em seu corpo sinais.
Sociedades e cidades também as têm, mesmo que por baixo das vestes. 'O Caso do
Homem Errado', na linha do que outras realizações vêm evidenciando há
aproximadamente 20 anos na produção audiovisual negra no Brasil e noutros polos
cinematográficos, denuncia verdades fadadas até então ao apagamento da
história, ao escurecimento – sem o perdão da redundância.”
Trecho do artigo "A Pele da Cidade", sobre o filme “O Caso do Homem Errado”
Antes de pisar sobre o chão da sala Radamés Gnatalli, no Auditório Araújo Vianna, na manhã do domingo, dia 20 de março, já tinha ideia que viveria um momento especial. A presença de my love Leocádia e de minha hermana Carolina, somadas à coincidentemente bem-vinda presença de minha mãe, Iara, chegada do Rio de Janeiro horas antes por outros motivos, mas que a deu condições de também comparecer ao evento, já garantiam a especialidade. O retorno, depois de 2 anos e alguns meses de total ausência de eventos presenciais por conta da covid-19, ao mesmo tempo em que excitava pela novidade, também assustava pela descostume. Havia também como elemento adicional as comemorações pelos 250 anos de Porto Alegre, do qual o livro faz parte através do projeto Cine Rock, momento raro na história de qualquer cidade. Tudo fazia aumentar a espera.
Mas todos os receios e expectativas foram totalmente superados ao que adentramos a sala onde “50 Olhares da Crítica sobre o Cinema Gaúcho” teve seu histórico lançamento. A felicidade de todos era visível, fosse pelo feito da materialização do primeiro livro da ACCIRS em 24 anos de associação, fosse pela alegria de poder rever as pessoas depois de tanto tempo, fosse pela satisfação de, simplesmente, dividir aquele momento com os colegas, amigos, familiares e realizadores. O livro da ACCIRS é feito em correalização com a Opinião Produtora por meio do projeto Cine Rock, aprovado pelo Pró-Cultura RS e pela Lei de Incentivo à Cultura (LIC) do RS e patrocínio da JBS.
De minha parte, mesmo sem convidar a ninguém especialmente, fui agraciado com, além destas as quais mencionei no início, ricas presenças que me fizeram ainda mais completo. Estiveram lá, representando a família Leão, meu primo Henrique, filho de Cléber, competente professor e historiador que tão essencialmente contribuiu para o artigo de minha autoria no livro. Fizeram meu coração sorrir também os amados amigos Rodrigo, Lisi, Malu e Elis, e Valéria Luna com a sua filha Dora, bem como dividir - e trocar - autógrafos com Conrado Oliveira, colega de trabalho e de cinefilia. Completou-se ainda com a satisfação de rever (e abraçar) os colegas jornalistas Paulo Moreira, membro da ACCIRS mas que não participou da edição, e Ana Mota, outra que coincidentemente, assim como minha mãe, aterrissou em Porto Alegre e também não quis perder a oportunidade de prestigiar.
Do livro em si, adianto que ainda não será possível me estender. Mal consegui folheá-lo do dia do lançamento até hoje e, para modo de não dar luz ao que mereça, prefiro deixar para uma outra postagem aqui no blog mais adiante – talvez até nem por mim mesmo. Entretanto, agora já posso comentar brevemente sobre o artigo que escrevi e o filme o qual escolhi: “O Caso do Homem Errado”, o essencial documentário da cineasta Camila de Moraes, de 2017, primeiro longa dirigido por uma mulher em então mais de 60 anos de produção cinematográfica no Rio Grande do Sul. Histórico por si só. Mas não somente isso: “O Caso...” trata-se de um grande filme, absurdamente atual diante da uma realidade social gaúcha e brasileira.
Em meu artigo, o qual considero grave por necessidade temática, discorro sobre questões que ligam o ontem e o hoje nas relações de preconceito racial e urbanicidade. Como disse anteriormente, a colaboração de meu primo Cleber é de suma importância para a abordagem proposta, uma vez que sua visão do brancocentrismo na sociedade é chave para fazer ligar essas pontas que enlaçam passado e presente.
Fico aqui, porém, em palavras, mas os deixo com alguns dos felizes registros feitos neste dia marcante para a história da crítica de cinema no Rio Grande do Sul, para o cinema do Rio Grande do Sul, para quem faz e curte cinema no Rio Grande do Sul. Para mim, que nasci e moro no Rio Grande do Sul. Uma coisa posso lhes dizer: que momento feliz vivemos neste dia!
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Um brinde com a mãe e o primo
Love, love, love: cinema, cinema, cinema
Conrado e eu: quando é que vem o próximo em conjunto?
Com hermana, que fez a manhã de autógrafos ser ainda mais iluminada
Os amigos da "visões periféricas" e da vida
Val, Dora e eu: Guaíba e Capibaribe
Autógrafos para a filha e ex-esposa de Luis Carlos Merten, referência pra qualquer crítico de cinema
A amada presença de Henrique representando os Leão
O professor Paulinho Moreira foi prestigiar!
O exemplar autografado de d. Iara não podia faltar...
... E ela logo pegou pra ler!
Com as queridas colegas de ACCIRS Mônica Kanitz e Fatimarlei Lunardelli
Posando para a foto conjunta com todos os autores presentes...
Fui ver no Araújo Vianna - com mais
1700 pessoas – o show do America. Em
2004, tinha visto o segundo show deles em Porto Alegre. Foi um show bacana, bem
fiel aos discos. Como sempre, cantei todas as músicas e pedi autógrafos. Bem
tiete. Afinal, sou fã dos caras desde o primeiro disco.
Minha expectativa pro show de hoje era a mesma. Só que Dewey
Bunnell e Gerry Beckley resolveram fazer uma surpresa para o público. Acompanhados
pelo excelente guitarrista Bill Worrell; pelo baixista Rich Campbell e pelo
baterista Ryland Steen, a dupla meteu o pé na jaca do “roquenrou”. Fazendo
versões mais pesadas de alguns dos seus clássicos - destaque absoluto para
"Sandman", com imagens de "Apocalypse Now" no telão – o
America subverteu a ideia de que veríamos mais um daquelas apresentações mornas
de bandas da antiga. Bunnell continua cantando como sempre. Já Beckley demorou
um pouco a entrar no tranco, mas quando esquentou lembrou os velhos tempos.
Além disso, o America fez aquilo que não se espera de um show neste estilo.
Eles cantaram músicas novas, fizeram belas versões de "Woodstock" e
de "California Dreaming" e levantaram o Araújo com a minha preferida
deles, "Sister Golden Hair" com todo o público cantando o "ooh bap-shuba" final.
Os faraós do antigo Egito – eu incluído – esperavam uma
banda acomodada e foram surpreendidos com um belo concerto de rock. Como nos
velhos tempos.
"A Ipanema era essencialmente isso: uma nova forma de fazer rádio"
Katia Suman
"A Ipanema mudou toda minha vida, a minha maneira de ver o mundo, e acredito que isso tenha acontecido não só comigo, mas com toda a minha geração."
Porã,
ex- comunicador da rádio
"O ouvinte ligou e disse que a Ipanema é do balacobaco por causa de seus comunicadores, pela naturalidade, pela facilidade com que os ouvintes têm acesso a eles. Disse que, para quem mora sozinho, ouvir Ipanema é como se tivesse outra pessoa em casa."
Mary Mezzari,
ex-redatora e comunicadora da rádio, falecida em 2015.
Se eu já tinha gratidão à rádio Ipanema FM por ter contribuído de forma determinante na minha formação musical, agora, depois de ter lido o livro "Katia Suman e os Diários Secretos da Ipanema FM" eles ganharam também minha admiração, reconhecimento e respeito. Além de tudo aquilo que a gente ouvia pelas ondas do rádio, a programação diferenciada, criteriosa, fora dos padrões das FM's tradicionais; os cadernos deixados pela autora à disposição dos colegas, na época em que trabalhou na rádio, para todo tipo de comunicação interna e recolhidos e ordenados por ela para o livro, revelam uma turma cheia de profissionalismo, envolvimento, compromisso, engajamento e sobretudo, paixão. Paixão por fazer rádio, por fazer rádio bem, por fazer a rádio Ipanema FM. Não era uma rádio qualquer para nós ouvintes e não era para eles também e, entendendo isso, aquela rapaziada tinha um cuidado todo especial em manter a identidade da rádio, fosse musicalmente, como também nos posicionamentos, na postura, nas ações, nas iniciativas. As anotações diárias que todos os comunicadores deixavam um para o outro escancaram a garra que aquela turma tinha para fazer o que fazia. Batalhando por equipamento melhor para a rádio, discutindo programação, propondo pautas relevantes entre eles mesmos, mobilizando eventos, interagindo (verdadeiramente e pioneiramente) com o ouvinte, encarando os veículos mais poderosos, aqueles radialistas cheios de profissionalismo mas com um espírito amador, no melhor sentido que isso possa ser definido, deixavam evidente a cada recadinho no caderno porque a rádio Ipanema, com orçamento baixo, com toca-discos caindo aos pedaços, com telefones péssimos, com som ruim, sem alcance, transformou-se numa referência e num marco para a radiofonia brasileira. É lógico que rolava uns arranca-rabos de vez em quando, umas tretas, umas discussões feias em que o nível ia lá no dedão do pé, uns esporros da chefia, mas, claramente predominava um espírito de equipe, uma vontade de fazer bem, uma gana, um tesão pelo jornalismo, pelo rádio e tudo isso ficava expresso nas notas que, com muita sabedoria e felicidade, Katia Suman recolheu e organizou nesse excelente trabalho.
O formato bem solto, desde a disposição dos capítulos e seus títulos, passando pela escolha da fonte e a opção por caixa-baixa, aproximam a autora do leitor e fazem da leitura algo ainda mais prazeroso a ponto de parecer, em muitos momentos que estamos ouvindo a rádio. Com exceção dos gráficos, na parte final, que particularmente achei um capítulo dispensável, o livro é todo muito cativante e e saboroso. Dentre tudo destacado, anotado, escrito no caderno, merecem destaques as iniciativas pioneiras e bem amadorísticas para levar shows para a cidade que acabaram sendo grandes sucessos como é o caso da emblemática apresentação do Camisa de Vênus, no Auditório Araújo Vianna; as transmissões ao vivo que a rádio fazia de diversas casas de shows de Porto Alegre, antecipando-se a emissoras maiores que mesmo com mais recursos, depois que a Ipanema "inventou" não conseguiam fazer com a mesma qualidade; a iniciativa de reabertura do Araújo Vianna, em que a rádio criou uma enorme mobilização que, com um abaixo-assinado de milhares de assinaturas, obteve o resultado pretendido; a vaquinha para comprar um rádio para um presidiário que havia perdido o seu e adorava ouvir a rádio (o aparelho foi comprado e chegou até ele); além das discussões sobre a programação e setlists que demonstravam acima de tudo um respeito incrível pela identidade daquele veículo e pelo ouvinte. Mais do que já o fazia antes, só tenho a agradecer à Ipanema e a sua equipe por terem feito parte da minha vida. Mas minha gratidão eles já tinham. Agora a Ipanema tem minha reverência.
Rick Wakeman em mais um grande show em Port Alegre
foto: Lúcio Brancato
Em dezembro de 1975,
um jovem de 15 anos ficou embasbacado com o último show do Projeto
Aquarius, que trouxe Rick Wakeman a Porto Alegre com a OSPA. Foi um
espetáculo memorável. Gigantinho lotado. Agora, 39 anos depois,
este já não tão jovem senhor de cabelos e barba grisalhos foi
conferir se continuava tão entusiasmado como antes. Claro que duas
pessoas diferentes viram os espetáculos. Este senhor de hoje
trabalha com música, já leu e viveu muita coisa e, até prova em
contrário, sabe as armadilhas que o chamado Prog Rock prega em seus
fãs. Mesmo assim, este cara ficou fascinado, pois quase 40 anos
depois esta grandiloquência estilística, o exagero do uso de
orquestra e coral, a capa misturada com calça de abrigo, tênis
branco e barriguinha aparecendo não atrapalharam a emoção de
reviver aqueles temas todos.
O som do mini-moog,
a banda afiada, o cantor Ashley Holt dividindo o palco com a nossa
Ana Lonardi (que se saiu muito bem) e a história narrada pelo Álvaro
Luthi terminaram por me seduzir, mesmo que eu saiba que esses
exageros fazem parte de um mise-en-scène já superado. Todos
os defeitos do chamado rock progressivo estavam no palco do Araújo
Vianna. Foi isso que fez o show de Rick Wakeman, acompanhado
da Orquestra Unisinos Anchieta e do Coral Porto Alegre, tão
profissional e irresistível. Mais um da série "Azar, eu
gostei".
A T.N.T. pode não ser necessariamente a melhor banda gaúcha de todos os tempos, haja vista que tem Os Replicantes, De Falla, Engenheiros do Hawaii, Liverpool, Cascavelletes, Saracura... Mas uma coisa não se tem dúvida: eles são a banda mais icônica do rock ‘n’ roll no Rio Grande do Sul. Criado há 40 anos, esse histórico grupo tanto para o rock da terra da bombacha quanto para o Brasil celebrou as quatro décadas de lançamento do seu memorável primeiro e homônimo disco num disputado show no Auditório Araújo Vianna, que lotou de fãs para ouvi-los e cantar seus clássicos.
Por falar em clássico, foi assim que iniciaram a apresentação: emendando nada menos que três de seus maiores sucessos: “Entra Nessa”, “Ana Banana” e “Identidade Zero”. Ufa! Um começo arrasador.. Porém, de certa forma parece que Charles Master, Márcio Petracco, Tchê Gomes, João Maldonado, Fábio Ly, Paulo Arcari e Felipe Jotz gastaram metade da pólvora antes do primeiro quarto de batalha. Não que depois tenha necessariamente decaído ao tocaram músicas menos conhecidas ou tão aclamadas, mas o som mal equalizado (que embolava os sons e dificultava que se entendesse aquilo que já não se sabe de cor), somado à longa duração do show inteiro, deu um certo cansaço.
Mas tudo bem, afinal, show de rock de verdade passa por cima de som ruim ou algum equívoco de repertório, e o público compareceu mesmo para vê-los tocar as músicas que uma geração inteira de gaúchos cresceu ouvindo nas rádios. Caso de “Irmã do Dr. Robert” e “Oh Deby”, esta última, assim como as três citadas do começo do show, composições de autoria de Flávio Basso (ou Júpiter Maçã ou Jupiter Apple). Aliás, ou eu não entendi pelo som embolado das falas entre as músicas ou ninguém mencionou Flávio, que, convenhamos, é o arquiteto da T.N.T., a cabeça mais criativa não só da banda, mas de todo o rock gaúcho em todos os tempos. Estranho...
Além do disco de estreia, teve também coisas das outras fases, como os hits “Não Sei” (“Não sei se eu tô certo ou se eu tô errado/ Mas faço tudo o que eu digo e digo tudo que eu faço”), “Não Vai Mais Sorrir (Pra Mim)” (ambas de “TNT nº 2”, de 1988 e já sem Flávio na formação), “Noite Vem, Noite Vai” e “Quem Procura Acha”, duas do terceiro álbum de estúdio da T.N.T., de 1991. O público gostou.
O hit "Não Sei" com sua melodia a la "Sweet Jane"
Rolou ainda uma participação da Orquestra Rosariense, que não acrescentou muito, na verdade. Tanto que a banda tocou, no bis, exatamente as músicas que haviam rearranjado para as cordas, “Muito Cuidado” e “Nunca Mais Voltar”. Mais para o final, teve outra consagrada, “Cachorro Louco”, desses rocks imbatíveis, dos melhores do BRock anos 80. Para encerrar, “O Mundo É Maior Que o Teu Quarto”, da Cowboys Espirituais, uma das corruptelas da T.N.T. assim como a Tenente Cascavel e a Cascavelletes. Baita música, regravada por gente como Barão Vermelho, mas que, por não terem dosado melhor a narrativa do show e gastado as melhores lá no início, talvez não fosse a mais indicada para encerrar.
Mas, de novo, tudo bem! A noite foi para celebrar o bom e velho rock ‘h’ roll, o que a T.N.T. representa no mais alto grau. Deixa pra lá a acústica ruim, o andamento do repertório. O negócio foi “entrar nessa” e “dançar um rock ‘n’ roll”. Foi o que fizemos - e foi legal.
🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸
Começa o show da lendária T.N.T.
Acompanhando a letra no telão de "Entra Nessa",clássico do rock gaúcho
Entrando nessa com "Entra Nessa"
"Ana Banana" no começo do show pondo
todo mundo pra cantar
Repertório do primeiro e dos outros discos da banda compuseram o show
A T..N.T. canta outra clássica:
"A Irmã do dr. Robert"
Mais clássicos
Tocando "Nunca Mais Voltar", das preferidas da galera
Estes dois roqueiros felizes por ver a T.N.T. celebrando os 40 anos de sua estreia
Sabe aqueles acontecimentos em que se cria uma grande expectativa e a
recompensa vem completa? Pois ter assistido Caetano Veloso e Gilberto Gil juntos e ao vivo foi assim: momento completo de se guardar para a vida.
Folgados os nós dos sapatos, das gravatas, dos desejos e dos receios, fui, na
doce e astral companhia das hermanasLeocádia e Carolina, ao Araújo Vianna presenciar uma noite inesquecível na
cidade (ao menos, a nós). Dois gênios vivos da arte mundial celebrando algo
incomparável e irrepetível: a união de 50 anos de carreira de cada um. As vivências
artísticas e próprias ou em comum; as conexões com vários tempos e movimentos;
a confluência com diversas manifestações da Arte e culturas; a musicalidade e a
poesia constantemente desenvolvidas ao longo dos muitos anos; as parcerias
entre eles e com outros. A significância inequívoca de cada um dentro do cenário
sociocultural brasileiro e mundial. Enfim: uma gama de motivos que fazem de “Dois Amigos, Um Século de Música” um
marco só por sua realização.
Porém, no palco, Caetano e Gil justificam o show, cuja turnê, iniciada
na Europa, em junho, passou pelo Brasil e já ganha a América Latina. Repertório
escolhido com inteligência e cuidado, como sempre fizeram em seus projetos.
Aliás, conheço essa qualidade não só dos discos ao vivo mas por já ter
assistido tanto a um quanto outro por duas ocasiões. Coincidentemente, as duas
primeiras vezes nos anos 90, quando cinquentões, e as recentes há bem pouco
tempo: 2013 (Gil, “Concerto de Cordas & Máquinas de Ritmo”), e 2014
(Caetano, "Abraçaço"), já passados dos 70 anos. Pela tevê ainda tive, em 1993,
a oportunidade de assisti-los num memorável megashow aberto em São Paulo com
duas superbandas mais a cozinha da Timbalada com Brown e tudo por ocasião do
disco “Tropicália 2” (à época, gravei em VHS e revi várias vezes o que hoje tem
no Youtube). Ou seja: vê-los agora de novo e reunidos é como se fechasse um
panorama de compreensão da extensão e da perenidade de suas obras ao longo do
tempo, esse “tambor de todos os ritmos”.
E foi justo a diversidade de ritmos que, trazidos pelo ecletismo
tropicalista ainda hoje revolucionário, pautaram o show. O arrebatamento se deu
do primeiro ao último acorde. O inicial, aliás, foi de emocionar qualquer um
que admire e entenda um pouco de suas obras. A música escolhida para abrir o
espetáculo foi a magistral “Back in Bahia”, rock
‘n’roll escrito por Gil na volta do exílio de Londres, início dos anos 70,
na qual ele expõe de forma madura, consciente e transformadora tudo o que
aprendeu com a (que poderia ter sido) traumática experiência. O tom de
identificação de um se refletiria no outro durante todo o desenrolar do show –
aliás, uma mostra daquilo que um sempre foi para o outro: um espelho. Foi o que
aconteceu no número seguinte. Se “Back...” traz as reminiscências de Gil de um
período marcante de sua vida, Caetano preferiu reviver outro tipo de memória
afetiva com a bossa nova que abriu seu primeiro disco (na voz de Gal Costa, à
época), em 1966: “Coração Vagabundo”.
Arranjos bem pensados, ambos dividiram os violões e os microfones nas
duas de abertura para, na sequência, trazerem uma cantada por cada um. E foram
dois hinos tropicalistas: a própria “Tropicália”, numa bela e impensável versão
acústica (difícil imaginá-la sem a orquestração de Duprat) com Caetano à voz, e
a tocante “Marginália II”, poesia brasilianista de Torquato Neto que Gil,
magistralmente, musicara para o disco-manifesto “Tropicália” ou “Panis et
Circensis”, de 1968. Primeiro momento do show a me levar às lágrimas ao ouvir
Gil entoando aquela letra do mais alto lirismo e identidade: “A bomba explode lá fora/ E agora, o que vou temer?/ Oh, yes, nós temos banana/ Até pra dar e vender/
Olelê, lalá/ Aqui é o fim do mundo/ Aqui é o fim do mundo...”
Passeando por suas histórias, foi a vez de reverenciar com afinco a
bossa nova e, mais que isso, ao ídolo João Gilberto. Outras duas dividindo os
vocais: “É Luxo Só”, samba de Ary Barroso “convertido” em bossa por João quando
da inauguração do estilo, em 1959, e “É de Manhã”, primeira composição de
Caetano e mais antiga escrita por um dos dois em todo o show, em 1963. Nesta, destacaram
a importância de Maria Bethânia, primeira da turma dos baianos a gravá-la e a registrar
uma música do irmão, então um jovem compositor iniciante.
Contraponto à canção mais antiga, num dos momentos especiais do show,
eles apresentaram uma composição de 2015, primeira parceria em 22 anos escrita
em São Paulo quando retornaram da temporada europeia. Ou seja: somente São
Paulo e Curitiba, shows imediatamente anteriores ao de Porto Alegre, a tinham
escutado. Uma joia chamada “As camélias do Quilombo do Leblon”, samba poético e
filosófico que repensa as condições socioculturais que o Brasil tem de criar e colher,
como dizem os versos, “as camélias da
Segunda Abolição”. Numa resposta a toda polêmica gerada pela tentativa de
boicote do ex-Pink Floyd, Roger Waters, ativista anti-Estado de Israel, quando
da passagem dos brasileiros por Tel-Aviv, a letra não deixa por menos, evidenciando
as possibilidades emancipadoras que o miscigenado e “cordial” povo brasileiro (aka Sérgio Buarque de Hollanda e Domenico
de Masi) tem diante de outras civilizações do planeta: “Vimos as tristes colinas logo ao sul de Hebron/ Rimos com as doces
meninas sem sair do tom/ O que fazer/ Chegando aqui?/ As camélias do Quilombo
do Leblon/ Brandir.”
Caetano, uma das maiores forças criativas da MPB.
foto: Júlio Cordeiro
Uma sequência de várias de Caetano emocionou o público – de uma
complacência um tanto fria até então, mas que a partir dali se derreteu de vez.
Não era para menos, pois vieram a clássica “Sampa” e a não menos épica “Terra”,
talvez a mais bem arranjada de todo o show. Somente aos dois violões, de longe
superou a versão original, revelando toda a atmosfera etérea da melodia, com
seus traços árabes e folks. Enquanto
Caetano cantava com emoção e destreza, Gil percutia levemente na madeira do
pinho. No refrão, providenciava para o amigo todos os complementos que o
arranjo original suscita. As percussões cintilantes, o som da cítara, a viola,
o andamento cadenciado: tudo é substituído e condensado no dedilhar magistral
de Gil. De arrepiar.
Caetano emenda outras de três momentos importantes de sua carreira: “Nine
Out of Ten”, presente em "Transa", de 1972, seu melhor disco e que, gravado em
Londres, foi responsável por fazê-lo sair da depressão do exílio; “Odeio”, do
visceral “Cê”, já dos anos 2000, uma confissão de amor ao estilo rock: fazendo
sexo virtual a esmo, o que ele queria mesmo era a ex ali consigo; e a
castelhana “Tonada de Luna Ilena” (de Simón Diaz, que gravou em 1994, em “Fina
Estampa”), numa impressionante interpretação que, claro, tocou a nós gaúchos
tão próximos dos irmãos portenhos.
Mais outras três encantadoras tocadas em dupla: a excelente bossa nova
“Eu Vim da Bahia”, das primeiras composições de Gil; “Come Prima”, em que ambos
mandaram um afiado italiano; e "Super-Homem, a canção", noutro momento de emoção.
Caetano, com a afinação e o timbre doce que lhe foram presenteados por Deus,
começa cantando. Na segunda parte, Gil, comovido por ouvir o parceiro, engasga
a voz e é aplaudido.
Gil e o violão qu expressa tudo.
foto: Júlio Cordeiro
O repertório, seguindo o conceito de espelhamento, trouxe, então, uma
série com Gil, começando pela gostosa “Esotérico”, cantada em coro pela plateia.
Tomado pela acolhedora egrégora criada pelos dois, me deu até a impressão de
esta ser uma música de Caetano – embora saiba que é de fato de Gil – devido às
repetições de versos, às assimetrias de métrica e o tom desafiador típicos
deste. Depois, esmerilhando as cordas, Gil sacou uma impecável “Tres Palavras”,
do mexicano Osvaldo Farrés, para, na sequência, emocionar novamente todos com
“Drão” que – assim como ocorrera antes, quando o companheiro desnuda-se ao
tocar “Odeio” – revela a dor da separação da antiga esposa. Caetano, que a
gravou em 1998 (no ao vivo “Prenda Minha”), nem ousou cantar junto.
Aliás, a deferência e a admiração de Caetano para com Gil ficam visíveis.
Não que ele se apequene; não que desconheça seu tamanho e relevância; mas Caê
reverencia “aquele preto que ele gosta” e deixa que ele estabeleça o clima do
show, o qual se dá de forma leve e elevada. Bonito de se perceber. Em “Expresso
2222”, obra-prima visionária de Gil, é ele quem, além de tanger os complexos
acordes da melodia, comanda o forró que se instala. O Araújo Vianna dança. No
embalo da animação, vem o afoxé “Toda Menina Baiana”, outro clássico.
Junto com a nova composição já apresentada, a lírica “São João, Xangô
Menino” é a única do set-list
composta em parceria. Linda, outra que me emociona sempre (e não foi diferente
desta feita), principalmente no refrão de versos móveis, um verdadeiro canto de
louvor à riqueza do folclore nacional e às forças da natureza: “Viva São João/ Viva o milho verde/ Viva São
João/ Viva o brilho verde/ Viva São João/ Das matas de Oxóssi/ Viva São João”. A
crença e a espiritualidade voltam em outro sucesso de Gil: “Andar com Fé”. Na
mesma atmosfera, eles enfim me desmontam ao tocarem "Filhos de Gandhi". Das
melhores e mais significativas canções de todo o vastíssimo cancioneiro de Gil.
Um privilégio ouvi-la ali naquela ocasião tão especial, acompanhado de quem
estava e, tendo recentemente ido à Bahia e sentido todo esse universo que a
canção carrega. E ainda mais com Caetano entoando junto essa verdadeira oração
aos orixás (“Omolu, Ogum, Oxum, Oxumaré/
Todo o pessoal/ Manda descer pra ver/ Filhos de Gandhi...”).
O primeiro bis teve uma que já nasceu clássica: “Desde Que o Samba e
Samba”, a qual parece ter sido composta por aqueles bambas dos anos 30/40 tipo
Wilson Baptista ou Ataulfo Alves. Mas não: é do próprio Caetano e do já
mencionado “Tropicália 2”, dos anos 90 – que teve também a eletrizante “Nossa
gente” no repertório. “Luz de Tieta”, forte e cantarolável, não foi suficiente
para que os deixassem ir embora. Teve ainda um segundo bis com a beatle “Leãozinho”, muito querida da
plateia, uma impressionante "Domingo no Parque", em que Gil novamente faz
daquele violão uma orquestra completa e, fechando de vez a apresentação, “Tree
Little Birds”, de Bob Marley. Um final alegre e sereno.
Caê e Gil, andando com fé pela música.
foto: Júlio Cordeiro
Poucas foram as repercussões pré ou pós na cidade. Parafraseando
Caetano, o “silêncio sorridentede Porto Alegre” de quem não quer
admitir admiração por outrem. Talvez, em decorrência de um intimidamento
provocado pela interferência internacional de Roger Waters ao show de Israel
(muitos pensaram alarmados: “Nossa, um
estrangeiro importante dando atenção para tupiniquins como eu?!”) ou pela
polêmica em torno do valor dos ingressos, “caros demais para artistas que se
dizem populares”, como ouvi. Uma proposital confusão entre “popular” e “populista”
de quem não se autoentendeu diante da situação de existirem representantes do
seu país com merecido destaque tanto lá fora quanto aqui – haja vista que a
turnê de “Dois Amigos, Um Século de Música” foi um sucesso na Europa. Detração
que vem, certamente, de quem criticou o preço do ingresso de um show como este
(que não teve nada de diferente de qualquer outra bilheteria de artista
brasileiro, muitas vezes infinitamente menos expressivo) mas paga caro para ver
algum dinossauro do rock caquético e descontado que vem tirar uma grana naquela
cidade que se submete a isso. Desculpe frustrá-lo, Caetano, mas Porto Alegre
não faz jus à sentença de que a “verdadeira
Bahia é o Rio Grande do Sul”.
De minha parte, só elogios. Uma ocasião que, até pelo mote, jamais se
repetirá, e sabe-se lá se ainda tocarão assim juntos novamente em vida. Óbvio
que, como fã, passou-me pela cabeça músicas das preferidas que não foram incluídas,
como “Trilhos Urbanos”, “Trem das Cores”, “Cajuína”, “Cores Vivas”, “Palco”, "Lamento Sertanejo", “Aqui e Agora”. Ou mesmo não terem escolhido apenas duas
das coautorias: quiçá uma “Divino Maravilhoso”, “Iansã”, “Haiti”, “Panis et
Circensis”, “Cinema Novo” ou “Beira-mar”. Mas é evidente que, em 100 anos de
carreiras somadas tão profícuas quanto extensas e constantes, fica impraticável
condensar tudo em uma hora e meia. Ao menos, foi possível neste tempo sentir a
riqueza infindável da arte que emana de Caetano Veloso e de Gilberto Gil. Minutos,
na verdade, dentro de toda a amplidão. Minutos que valeram por um século.
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Caetano Veloso e Gilberto Gil - As Camélias do Quilombo do Leblon - Porto Alegre 28/08/2015