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quinta-feira, 12 de abril de 2018

"Psicose", de Alfred Hitchcok (1960) vs "Psicose", de Gus Van Saint (1998)



Para estrear o nosso quadro Clássico É Clássico (e vice-versa), como não poderia deixar de ser trazemos um grande clássico do cinema. Aqui, conforme anunciamos, uma produção de sucesso, consagrada, um filme marcante da história do cinema, é colocado frente a frente com sua refilmagem e, entrando no clima da Copa, como se fosse uma partida de futebol, avaliaremos quem sairá vencedor desse embate cinematográfico.
O primeiro filme a enfrentar seu remake é nada mais nada menos que "Psicose", filme originalmente dirigido por Alfred Hitchcock, em 1960, e que ganhou uma nova versão pelas mãos do diretor Gus Van Saint em 1998.
"Psicose" de Alfred Hitchcock é uma daquelas coisas magistrais do cinema! Um filme que começa como um policial, chega a sugerir algo sobrenatural e revela-se como um filme de serial-killer, tudo sem deixar cair a tensão em momento algum. Uma obra de arte que só por seu tamanho e grandeza não deveria permitir a ousadia de alguém tentar refilmá-lo. Pois bem: talvez percebendo isso mas ao mesmo tempo tentado pela admiração pela obra de Hitchcock, o norte-americano Gus Van Saint resolveu encarar o desafio mas provavelmente vendo-se incapaz de melhorá-la em qualquer quesito, talvez numa tentativa de homenagem, resolveu simplesmente imitá-la. Sim, a versão de 1998 é meramente uma cópia. Uma reprodução quadro a quadro, cena a cena, literalmente, sem qualquer originalidade. Pra não dizer que não tem diferença, tem a cor, que é um decréscimo considerável em relação à fascinante fotografia (propositalmente) em preto e branco de Hitchcock e, ah, tem umas imagens aleatórias entre um assassinato e outro mas que não representam nada de considerável no todo. E aí, entre o original genial, brilhante e arrebatador, e uma cópia deslavada sem nenhum mérito artístico, não tem como não ficar com a primeira.
A "versão" de Gus Van Saint não tem nenhum ganho. Nada! Anne Heche, apesar de insossa, ainda se vira bem como a ambiciosa Marion que rouba o dinheiro da empresa e vai se hospedar no sinistro Bates Motel; Julianne Morre como a personagem que vai no rastro da irmã investigar seu desaparecimento também dá conta do recado; William H. Macy até tem algum destaque como o detetive; mas o inexpressivo Vince Vaughn diante do perturbador Anthony Perkins como Norman, não sei se é de rir ou de chorar. Mas aí o espectador curioso fica com aquela expectativa pra ver a cena do chuveiro. Talvez seja legal... Nossa! É lamentável. Como eu disse, é a mesma cena, é uma cópia, mas é outra coisa! E para piorar, a opção pelo colorido acaba com grande parte da magia e do terror que Hitchcock soube extrair tão bem do monocromático.
Filme por filme, um é como se fosse um quadro pintado pincelada a pincelada enquanto o outro é uma cópia xérox que depois foi pintada com hidrocor. Psicose antigo 1x0.
A propósito de colorir, a fotografia em preto e branco é mais um gol para o Psicose preto e branco. 2x0.
Quanto aos atores, só para ficar no principal, Anthony Perkins simplesmente tem uma das atuações mais marcantes do cinema tendo forjado um dos personagens mais emblemáticos de todos os tempos enquanto o constrangedor Vince Vaughn é exagerado, pouquíssimo convincente e nada sutil. "Psicose" clássico , 3x0.
Roteiro? O roteiro é o mesmo, só que o diretor da refilmagem não tira nenhuma vantagem disso nem consegue imprimir qualquer valor novo a ele. Mais um gol pro velho Psicose. 4x0!
Elementos técnicos como montagem, som, luz, novos recursos e tecnologias, mesmo 38 anos depois da primeira versão não ajudam em nada a tornar a obra de Gus Van Saint melhor, por isso, nestes itens ele apenas não perde, mas também não ganha.
Quanto ao diretor, basta dizer que original é de Alfred Hitchcock e o outro de um diretor que sequer ousou mudar uma cena numa refilmagem. Bom, né... 5x0 pro Psicose do Hitch e um banho de bola.
 O "Psicose" clássico é um CLÁSSICO mas o mesmo não vale para o inofensivo remake de Gus Van Saint que, como diria Norman Bates, não seria capaz de fazer mal a uma mosca.
O Norman de Perkins com sua expressão naturalmente ameaçadora e o de Vaughn claramente forçado.
Um remake que nunca devia ter acontecido.


Hitchcock dá cinco punhaladas em Gus Van Saint e o original vence a cópia com facilidade.








Cly Reis


sexta-feira, 19 de junho de 2015

A Hollywood que não pode sair do armário



Cary Grant e Randolph Scott
"Quase todos os nossos grandes astros eram gays.
 Mesmo assim o machismo imperava nos estúdios e sufocava carreiras,
salvo alguns como Clift, que assumiu
e sofreu na carne o preço.
Eles tentaram esconder Burt,
 Scott e muitos outros, nos todos sabíamos,
mas os chefões nunca se renderam,
e eu poucas vezes”.
John Ford



Dos quatro deuses rebeldes do método Lee Strasberg – Marlon Brando, James Dean, Montgomery Clift e Paul Newman –, apenas Paul era heterossexual. Clift era gay assumido e sofreu enormes rejeições, ainda que tenha enfrentado todas elas. Depois de aconselhado por Liz Taylor, virou um arrogante de primeira; era sua defesa pessoal. James Dean não fazia esforço para esconder a homossexualidade: frequentava bares gays onde adorava queimar o corpo com cigarro em trips sexuais. Marlon Brando, esse sim: traçou de Vivian Leigh a Jean Cocteau. E mais, muito mais. Mas estes grandes atores não seriam os pioneiros. Tyrone Power, sir Laurence Olivier, George Cukor, Vincent Price, Errol Flynn e o músico Cole Porter, por exemplo, sempre tiveram preferências homossexuais. Errol desfilava com muitas namoradas e lançava cantadinhas não correspondidas à sua partner, Olivia de Havilland. Além disso, adorava desfrutar de orgias com homens e mulheres. Seu grande parceiro de festinhas foi Willian Holden, que não era gay, mas topava a mulherada.

Os estúdios criaram vários casamentos de fachada para seus atores de ponta. Queriam sempre abafar os comentários da imprensa sobre suas sexualidades. Um deles era Burt Lancaster, que foi proibido de “sair do armário”. Acabou casando forçadamente e tendo filhos. Mesmo assim, manteve relacionamentos com Rock Hudson e Cary Grant. E, por fim, foi um grande ativista do movimento gay. O charmoso Cary Grant e Randolph Scott, um dos reis do western da "era dos estúdios", segundo seus amigos pessoais, eram casados e mantinham famílias para despistar os estúdios e a imprensa. Chegaram a morar juntos e foram fotografados em momentos picantes na piscina. As fotos geraram revolta dos chefões de "Oliú", que ameaçaram suspender trabalhos de ambos os atores que foram obrigados a se separar. Após isso, Cary tentaria suicídio com pílulas para dormir. Já Gary Cooper, bonito e másculo, o protótipo do herói americano, foi aconselhado por seus agentes a abandonar seu parceiro sexual sob pena de ter sua próxima produção cancelada – que se chamaria nada menos que "Matar ou Morrer", um dos maiores westerns da história.

Mas o caso mais polêmico foi o do ator e galã Rock Hudson. Em 1955, ele levava uma carreira ascendente no cinema, mas a tranquilidade logo ia dar lugar a um escândalo: uma revista especializada em fofocas publicaria uma matéria com fontes seguras sobre a homossexualidade de Hudson. Seus agentes não perderam tempo e casaram o ator com sua secretária – o mesmo que aconteceu com Anthony Perkins. O casamento "falso" durou poucos anos e logo o galã entraria para uma vida de promiscuidade sexual sem limites. Hudson recorria às ruas todas as noites e levava para a cama até vagabundos e jovens de toda a cidade. Era um sexo mecânico e sem erotismo. A regra de Hudson era “quanto mais, melhor”, não importando a “qualidade”.

O resultado de tudo isso acabou vindo anos mais tarde. Em 1984, o ator foi a primeira grande celebridade do cinema americano a ser diagnosticada com HIV. Rock Hudson faleceu em 1985 em decorrência da doença e o fato teve uma enorme proporção. Tanto que chamou a atenção de celebridades e do governo dos EUA, quando muitos doaram quantias milionárias para as pesquisas da cura da AIDS, tendo Hudson como símbolo póstumo da campanha. Em 1992 e com menos estardalhaço da imprensa, o astro tímido de “Psicose”, Tony Perkins, sucumbiria ao HIV. Elogiado por Hitchcock e por muitos diretores, e criticado por sua opção sexual pela MGM, ele partiria discretamente em sua casa em Hollywood, mas não sem antes dizer em uma entrevista: "Que possamos ser livres em nossas escolhas, mesmo pagando um preço eu prefiro ser livre." Que assim seja.



sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

"Longlegs - Vínculo Mortal", de Osgood Perkins (2024)

 



"Longlegs - Vínculo Mortal" é um policial com elementos de terror. O mistério, a investigação, os crimes, as pistas se sobrepõe ao macabro, embora ele esteja presente, e de uma forma silenciosamente assustadora.

Maika Monroe está excelente no papel da investigadora Lee Harker, uma jovem agente federal que por sua competência e métodos, é designada para reabrir um intrigante caso de um serial-killer conhecido como Longlegs. Determinada mas frágil emocionalmente e com uma certa capacidade sensitiva, conforme a investigação avança, Lee vai se percebendo afetada por alguma ligação com o caso, o que vai se revelando gradualmente na trama. Algo sinistro está por trás das mortes e ao que parece, ela tem alguma conexão com o criminoso.

Nicolas Cage está absurdo (de incrível) na pele (esbranquiçada e quase irreconhecível) do assassino. Um de seus melhores papéis dando vida, possivelmente, a um dos novos personagens marcantes do cinema, daqueles que não será esquecido tão cedo.

Atmosfera sombria, vazia, cinzenta, ritmo lento, tomadas precisas, leitura das expressões dos personagens, ambiente retrô noventista, mistério constante e envolvente, e um dos serial-killers mais marcantes que já se viu.

Um dos melhores thriller-terror-suspense que assisti nos últimos tempos.

Algo como um novo "O Silêncio dos Inocentes", menos elegante, menos requintado, porém mais místico e demoníaco. Seria um exagero meu, um absurdo compará-lo com tamanho clássico? Talvez, talvez... Mas não posso negar que "Longlegs" me impressionou bastante. Como já aconteceu com muitos clássicos ao longo da história do cinema, talvez o tempo nos dê resposta.


À esquerda, a agente Harker absorvida pelas pistas, mergulhada em suas investigações;
e à direita, o irreconhecível Nicolas Cage na pele do sinistro vilão Longlegs.


"Longlegs - Vínculo Mortal"
Título Original: "Longlegs"
Direção: Osgood Perkins
Elenco: Maika Monroe, Nicolas Cage, Alicia Witt
Gênero: Policial/Suspense/Terror
Duração: 101 min.
Ano: 2024
País: EUA
Onde encontrar: YouTube, Prime Vídeo, Google Play, Apple TV (pago)


🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬


por Cly Reis

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Os 12 personagens mais assustadores do cinema


O cinema é capaz de mexer com as nossas emoções como pouca coisa consegue, mesmo a gente sabendo que, na grande maioria das vezes, aquilo que estamos vendo seja apenas uma encenação. Somos, com total aceitação, levados a acreditar na “mentira” e com ela se comover. Jean-Claude Carrière, fascinado por essa magia que talvez apenas o cinema tenha no universo das artes, comenta em seu “A Linguagem Secreta do Cinema” que os instrumentos de persuasão do cinema podem parecer simples: emoção, sensação de medo, repulsa, irritação, raiva, angústia. Mas, pontua ele, “na realidade, o processo é muito mais complexo”, provavelmente até indefinível. “Envolve os mais secretos mecanismos do nosso cérebro, incluindo, talvez a preguiça, a natural indolência, a disposição para renunciar às suas virtudes por qualquer adulação.”

Isso explica em parte porque sentimos tanto medo de alguns personagens. E não estou falando apenas dos assassinos dos filmes de terror: há pessoas (afinal, acreditamos que elas, mesmo lá dentro da tela, existam de verdade) que, mesmo num drama ou outro gênero menos horripilante nos provocam igual sensação de temor. Quando essa magia intrínseca do cinema observada por Carrière se junta ao talento de cineastas e atores, a química é bem dizer infalível. Aí, soma-se a isso ainda nossa aceitação quase pueril ao que vemos e dá pra imaginar o que acontece: frio na espinha.

Ainda por cima, o universo dos vilões aterrorizantes é inegavelmente fascinante. Quem, mesmo tremendo as pernas a cada gesto que o dito cujo venha a dar, não aprecia (ou pelo menos reconhece que é sui genneris) a figura de um Freddy Krueger ou Michael Myers? Mas, como disse, não tratamos aqui somente dos carniceiros, afinal, destes é até previsível que imputem medo. Elencamos aqueles personagens e seus respectivos atores cujos papeis são tão críveis que não faríamos nenhuma questão de cruzar com eles algum dia na vida – e não precisa nem ser uma pessoa, inclusive.



O penetrante olhar do canibal Lecter.
1 – Hannibal Lecter (Anthony Hopkins)
O absolutamente frio psiquiatra, que atravessou a fronteira da sanidade para passar a matar por prazer – às vezes, até se alimentando de suas vítimas, dando-lhe o simpático apelido de Hannibal “Canibal” –, é provavelmente o mais célebre psicopata da história do cinema. Hopkins, com talento e muita sensibilidade, dá vida ao personagem do escritor Thomas Harris, o qual aparece pela primeira vez na tela no clássico “O Silêncio dos Inocentes” (Demme, 1991). Continuou assustador em outros longas, “Hannibal” (2001), “Dragão Vermelho” (2002) e “Hannibal - A Origem do Mal” (2007), mas vê-lo no primeiro e disparado melhor da série é até hoje imbatível em termos de qualidade cênica – e de medo também.





2 – Norman Bates (Anthony Perkins)
É inegável que as patologias psíquicas dão muito substrato para a criação deste tipo de personagem, seja na literatura ou no cinema. E claro que os diversos transtornos mentais existentes são um prato cheio para roteiristas. Norman Bates, psicótico atormentando pelo Complexo de Édipo encarnado como jamais o próprio Perkins conseguiu igualar, é até hoje um enigma que desafia os psiquiatras. Mas numa coisa todo mundo concorda: o cara dá medo pacas! Com a mão habilidosa de Alfred Hitchcock, "Psicose", de 1960, tem talvez o melhor personagem de um thriller no melhor filme do mestre do suspense.


Monólogo final de Norman Bates - "Psicose"


Pacino, mais assustador que
muito serial-killer.
3 – Michael Corleone (Al Pacino)
Os filmes de máfia são recheados de personagens marcantes e não raro assustadores, pois altamente violentos. Porém, talvez pelo tratamento literário de drama dado por Mario Puzo, pela escolha acertada de Coppola do jovem Pacino para o papel e, obviamente, pelo talento do ator, nenhum se compare ao filho mais novo de Don Corleone. Empurrado pelo destino para o crime organizado, o ex-oficial do Exército tornou-se, mais do que qualquer outro de seus irmãos, o chefão mais impiedoso e frio da cosa nostra. Se no primeiro longa vê-se sua conversão à máfia até a natural sucessão ao pai, em "O Poderoso Chefão - parte 2", de 1974, ele está mais apavorante do que muito serial killer. Com um olhar, ele faz qualquer um congelar. Poderoso, dá-se direito a qualquer coisa, e nunca se sabe o que está maquinando naquela mente obsessiva. Coisa boa, não é. Seja nos acessos de raiva, seja no mais contido e calculista silêncio, Michael é apavorante.





Close com um sorriso nada covidativo.
4 - Alex Forrest (Glenn Close)
Não são apenas homens que fazem o espectador arrepiar. A maníaca de Alex Forrest, de “Atração Fatal” (Lyne, 1988), vivida por Glenn Close, é o melhor exemplo. Inconformada com um “pé na bunda” que levara de um homem casado, Dan Gallagher (Michael Douglas), com quem tivera um caso, ela passa a persegui-lo e a assombrar não apenas a ele, mas toda a sua família. Memoráveis cenas, como a do coelhinho de estimação da filha de Dan cozinhando na panela ou quando, depois de uma briga em que ele quase a estrangula, ela solta um sorriso horripilante, não deixam dúvida da força dessa personagem. Aliás, através da psicopatia, um símbolo à época do novo comportamento feminino, que não aceita mais a imposição machista nas relações. Não tem mais perdão: traiu, é penalizado.





5 - Alien (Bolaji Badejo)
Na magia do cinema, o medo pode vir da maneira que se bem entender. Pois não é a forma humana do ator nigeriano Bolaji Badejo que configura o seu personagem mais marcante. É a fantasia que ele veste, a do extraterrestre mais apavorante do cinema: Alien. Vários da mesma espécie dão as caras no bom “Aliens - O Resgate” (Cameron, 1986) e nas desnecessárias sequências. Mas nada se compara à excelente ficção-terror de 1979, de Ridley Scott, em que apenas um exemplar da espécie vai parar dentro da nave espacial em uma missão cheia de problemas. Um, aliás, é mais que suficiente para botar terror em todo mundo. O mais interessante é que o bicho não é muito visto, pois há o recurso fotográfico e cênico de dificultação do olhar, como pede um bom thiller. O vemos de fato, por inteiro e em luz suficiente, apenas mais para o fim da fita, quando o clímax já está lá em cima. Aí, só resta se segurar na poltrona.


Cena do gato de Ripley - "Alien, o oitavo passageiro"


O Cady da primeira e o da segunda vaersão.
6 - Max Cady (Robert De Niro)
Um dos maiores atores da história, De Niro de tempo em tempo encarna figuras assustadoras, desde o taxista louco de “Taxi Driver’ até o comerciante de escravos Rodrigo Mendoza de “A Missão”. Mas nada se compara a Cady, em que revive o já ótimo personagem de Robert Mitchum na versão que inspirou Martin Scorsese a rodar "Cabo do Medo", de 1991 (“Círculo  do Medo”, 1962). União de QI elevado e músculos, o algoz da família Bowden é capaz de, aliado à abordagem do roteiro, confundir os papeis de vilão e herói. Quem é mais filha da puta ali: o ex-presidiário que se vale da liberdade para perseguir os outros, o advogado que o prendeu deliberadamente, a esposa conivente ou as leis da sociedade, interpretáveis e permissivas?






7 - HAL-9000 (Douglas Rain – voz)
Quem disse que só a violência do homem ou a selvageria do bicho podem assustar? A inteligência, quando direcionada para o lado ruim, é devastadora. Ainda mais quando essa inteligência for artificial, como a do computador HAL-9000, o cérebro-mãe da nave especial de "2001: Uma Odisseia no Espaço" (1968). Kubrick e Clarke criam o personagem mais estático e, talvez até por isso, amedrontador do cinema moderno. Mirar aquele seu “olho” de plástico é deparar-se com a frieza inumana capaz das piores coisas. Através de meticulosos comandos, a máquina, rebelde e neurótica, põe à sua mercê toda a tripulação, afetando, mesmo depois de “morto”, toda a expedição. Detalhe: a voz original de Douglas Rain já é suficientemente aterradora, mas a da dublagem para o português, feita pelo célebre Marcio Seixas na clássica versão da Herbert Richards, consegue superar.

Dublagem clássica de HAL-9000 - "2001: Uma Odisseia no Espaço"




8 - Zé Pequeno/Dadinho (Leandro Firmino da Hora/ Douglas Silva)
Tem que ser muito sem noção para dizer para um mal-encarado “como é que tu chega assim na minha boca?!” Não precisa ser cinéfilo pra conhecer a resposta que é dada, pois é naquela cena que um dos personagens mais incríveis do cinema dos últimos 30 anos surgia ainda mais temível. Se o pequeno Dadinho já apavorava por se ver uma criança com sede de matar nos olhos, o jovem traficante vivido magistralmente por Firmino em “Cidade de Deus” (2002), então, “lavou a égua” neste quesito. Violento, entorpecido, marginal, cruel. Como não esbugalhar os olhos quando esse cara manda matar uma criança pequena a sangue frio? Ninguém se meta com Dadinho! Ops! Agora é Zé Pequeno, foi mal aí.






O brilhante personagem de Barden.
9 - Anton Chigurh (Javier Barden)
Os irmãos Cohen são mestres do anticlímax, uma vez que seus filmes se valem largamente desse expediente, usado por eles com muita habilidade de forma a gerar impactos surpreendentes no espectador pelo jogo oportuno de quebra ou confirmação da expectativa. O personagem Anton Chigurh, encarnado por Javier Barden no faroeste moderno "Onde Os Fracos Não Tem Vez" (2007), é montado todo em cima dessa premissa. Absolutamente inexpressivo e unidirecional, o psicótico Anton não sente nada, apenas mata. A naturalidade com que ele elimina suas vítimas não tem glamour nenhum. Ele simplesmente pega e mata, e nada é capaz de freá-lo. Fora isso, dá um pavor danado sempre que ele aparece com aquela arma de ar comprimido.







10 - Harry Powell (Robert Mitchum)
“Lobo em pele de cordeiro” é a melhor definição para Harry Powell. Afinal, quem desconfiaria que um pastor aparentemente cheio de boas intenções se revelaria um tirano doméstico da pior espécie? Se a interpretação de Mitchum fora superada pela de De Niro como Max Cady, esta de "O Mensageiro do Diabo" (Laughton, 1955) fica para a história do cinema como uma das mais fortes e impressionantes já vistas nas telas. Filme impecável, também mas não apenas pelas atuações. Mas Mitchum, inegavelmente é o destaque.

"Amor-Ódio" - "O Mensageiro do Diabo"



Mais insano que qualquer outro Coringa.
11 – Coringa (Heath Ledger)
 O alucinado e diabólico vilão das histórias do Batman é um dos personagens mais originais da cultura pop mundial. Interpretá-lo é, obviamente, um privilégio. George Romero o fez muito bem na série e até o craque Jack Nicholson mandou muito bem no papel, mas nada se compara ao que Heath Ledger fez em "O Cavaleiro das Trevas" (Nolan, 2008). Ele encarna Coringa, a ponto de, dizem, amaldiçoar-se, haja vista que morreu logo depois das filmagens. Ledger achou como poucos atores para o limiar entre a loucura e a lucidez, entre o burlesco e o austero. Menção que não podia deixar de faltar na lista.






12 - Jack Torrance (Jack Nicholson)
Se Stanley Kubrick já conseguira assustar com um computador, imagina quando ele volta toda a história para isso. É o caso do perfeito "O Iluminado" (1979), outra das obras-primas do cineasta costumeiramente reconhecido como o grande filme de terror de todos os tempos e a melhor adaptação de Stephen King para as telas. Mas seu impacto certamente não seria o mesmo se não tivesse a força de Nicholson no papel de Jack Torrance. Ele vale-se de toda sua técnica e sensibilidade cênicas a serviço da construção do personagem que vai perdendo o controle de sua sanidade, pois, mediunicamente vulnerável, sucumbe aos espíritos “sanguessugas” ligados àquele que Jack foi na vida passada: um serial killer que matou toda sua família.

por Daniel Rodrigues

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Elvis Presley - "Elvis Presley" ou "Rock 'N' Roll" (1956)



“As pessoas de cor vêm cantando e tocando desse jeito por tanto tempo que nem mesmo sei. Eles tocam assim nos cortiços e ouvem essa música na jukebox. Ninguém deu a mínima até que comecei a cantar esse estilo. 
Aprendi com eles”.
Elvis Presley

"Houve muitos caras durões. Já houve impostores. E houve concorrentes. Mas só há um Rei". 
Bruce Springsteen

Foi em 26 de março de 1956. Esta é a data simbólica do nascimento de algo que revolucionaria a sociedade da idade contemporânea: o surgimento do rock 'n roll. Neste dia, após três anos de carreia musical, Elvis Aaron Presley, então com apenas 21 anos, lançava seu clássico e homônimo primeiro disco, não à toa também intitulado com aquilo que ousa inventar: “Rock ‘N’ Roll”. Muito já se falou sobre este álbum, e muito teria ainda a se falar hoje, 70 anos após sua chegada às lojas, aos ouvidos e aos corações de gerações de fãs. Mas como pede a cartilha de um bom rock, o legal mesmo é falar pouco e curtir, mas curtir muito!

Do primeiro crepitar da agulha no vinil ao último, são só músicas icônicas da cultura mundial, como poucos produtos culturais conseguem oferecer. É impaciente até hoje, e seguirá sendo, aquele início com "Blues Suede Shoes": "Well, it's one for the money" (dois acordes do violão e da bateria), "Two for the show" (mais dois acordes), "Three to get ready”, (bateria antecipando) “Now go, cat, go/ But don't you step on my blue suede shoes”. A partir daí, é a cargo de Elvis ao violão e do incendiário trio: Scotty Moore, guitarra; Bill Black, baixo; e D.J. Fontana, bateria; além de Gordon Stoke, ao piano; e os The Jordanaires, nos vocais de apoio. São os primeiros acordes do começo de um novo mundo. É a liberdade soando pelos ouvidos! 

A atitude, a assimetria, a rebeldia, a imperfeição, a perfeição, a luxúria, a carne, a carne. A música nunca mais foi a mesma depois daqueles 2 minutos chegarem ao fim. Os jornais da época chamariam de “primitivo”, “delinquente”, “vulgar”, “animalesco”, e “que suas performances deveriam ser restritas ao cais do porto e a bordéis, não à televisão nacional”. É tudo isso, sim, meus senhores. Era algo realmente delinquente, primitivo, assustador. E irrefreável. E divino.

Num disco cuja primeira faixa simboliza uma das maiores transformações comportamentais, mercadológicas e artísticas do século 20, ainda havia mais. Já existia "Hound Dog", single daquele mesmo ano com que Elvis pusera o mundo de cabeça para baixo. Bruce Springsteen, fã ardoroso do King, disse por toda uma geração do impacto que a icônica faixa teve para ele na primeira vez que a ouviu: "Ela simplesmente atravessou meu cérebro". Mas o álbum ia além disso, pois materializava em uma obra completa essa revolução. Elvis canta a “Tutti-Frutti” do negro gay e desafiador Little Richards empostando a voz blueser e dando uma outra roupagem a esse marco do rock. Afinal, Elvis mostrava, ainda muito embrionariamente, que rock, esse insubordinado filho direto do blues, se desmembraria em centenas e centenas de outros subgêneros. “Rock and roll can never die”, diria Neil Young em sua canção.

E tem também o country rock "Just Because", uma versão folk para o Standart “Blue Moon” e as baladas indefectíveis "I'll Never Let You Go (Lil' Darlin')" e "I Love You Because", gravações que Elvis registrara em seu período de Sun Records, entre 1953 e 1954, e cujos takes tornaram-se lendários como precursores do rock. E Elvis também canta o gênio Ray Charles ("I Got A Woman"), dos primeiros a fazer generosa ponte entre a música do Oeste com o R&B do Sul; "One-Sided Love Affair", que contém todos os predicados de um rock embalado; e "Trying to Get to You", exemplar country rock, com um show de vocal de Elvis.

E o que dizer de “Money Honey”, outro ícone da cultura contemporânea, muito bem escolhida pelo produtor da RCA, Steve Sholes, para encerrar o disco? Estão ali os maneirismos, a potência vocal, a reverência à tão massacrada cultura afro-americana daquela época. Elvis, alheio a qualquer preconceito de raça, disse: “Lá em Tupelo, Mississippi, eu ouvia o velho Arthur Crudup mandando bala e pensei que se eu conseguisse passar esse mesmo sentimento, minha música não teria igual”. No alvo, mr. Presley. 

A própria capa, centenas de vezes imitada e referenciada com suas letras em rosa na vertical no canto à esquerda e em verde na horizontal, abaixo, é pura ousadia: visceral, potente e até erótica para a época. Mesmo sem ser enquadrada, é possível enxergar, só de ver a expressão de seu rosto, os quadris e as pernas remexendo freneticamente e enlouquecendo de tesão a plateia, tal como a febre Elvis provocaria por anos.

O jovem caipira do Mississipi, nascido numa sociedade racista e colonialista, conviveu e absorveu do povo negro as suas principais referências. Soube ele misturar a enraizada cultura folk, a sonoridade melancólica do country e a visceralidade da tradição negra - o blues, o gospel, o R&B e, claro, o nascente rock ‘n’ roll, que já havia sido criado por mãos negras de Sister Rosetta Tharpe. Elvis juntou os branquelos feiosos Carl Perkins, Bill Halley e Jerry Lee Lewis aos roqueiros negros Little Richards, Chuck Berry e Bo Diddle, mais uma pitada do modern country de Ramblin' Jack Elliott e Woody Guthrie à sua imagem jovial e estonteante e seu carisma e, pronto: estava feita a química para o maior ícone pop de todos os tempos.

Nunca mais se repetirá essa combinação.

Mick Jagger, John Lennon, Madonna, Lou Reed, Elton John, Springsteen, Renato Russo, Lana Del Rey, Paul McCartney, Freddie Mercury, Eddie Vedder, Joan Jett, Bob Dylan, todos, sem exceção, devem ao Rei do Rock.

Elvis Presley, o disco, é muito mais do que um disco. É o raiar de uma era. É a criação da cultura pop. É a invenção de uma nova linguagem. É o florescer de uma revolução comportamental. É o nascer para valer da indústria fonográfica. É a entrada da juventude no mercado consumidor. É a instituição da cultura jovem. É a concretização do fenômeno de massas. É a simbolização da "vitória" dos Estados Unidos na Segunda Guerra, mesmo com a polarização da Guerra Fria (afinal, do outro lado da Cortina de Ferro não havia nada parecido com ele). Elvis, o disco, que alça o artista ao estrelato, é o primeiro efeito multimídia, que vazaria para o cinema, a TV e milhares de produtos do “Américan way of life”. Primeiro disco de rock ‘n’ roll a liderar as paradas, primeiro a passar dez semanas no topo da Billboard Top Pop Albuns. O primeiro do gênero a vender mais de um milhão de cópias. 

Há quem acredite que Elvis, Rei do Rock, foi a encarnação de Jesus Cristo, Rei dos Reis. Embora sua também breve existência, assim como a do filho de Deus, e o forte impacto de sua passagem entre os mortais, mobilizando multidões por onde passsava, não há como comparar. Cheio de defeitos, Elvis foi se mostrando cada vez mais machista, mesquinho e mimado, Elvis foi a representação perfeita não da Redenção, mas, sim, do messiânico rock ‘n’ roll, aquela música que veio à Terra, há exatos 70 anos, para salvar a humanidade. Da caretice do mundo.

🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸

FAIXAS:
1. “Blue Suede Shoes” (Carl Perkins) - 1:58
2. “I'm Counting On You” (Don Robertson) - 2:21
3. “I Got A Woman (Ray Charles) - 2:22
4. “One-Sided Love Affair” (Bill Campbell) - 2:10
5. “I Love You Because” (Leon Payne) - 2:39
6. “Just Because” (Bob Shelton, Joe Shelton, Sid Robin) - 2:32
7. “Tutti Frutti” (Dorothy La Bostrie, Richard Penniman) - 1:57
8. “Tryin' To Get To You” (Singleton, McCoy) - 2:31
9. ”I'm Gonna Sit Right Down And Cry (Over You)” (Biggs, Thomas) - 2:01
10. “I'll Never Let You Go” (Jimmy Wakely) - 2:21
11. “Blue Moon” (Rodgers & Hart) - 2:39
12. “Money Honey” (Jesse Stone) – 2:33

**********
OUÇA:

🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸


Daniel Rodrigues

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Jards Macalé - "O Q Faço é Música" (1998)


"Idolatrada mãe a quem recorro
toda vez ameaçado pranto
Paraíso São Sebastião
Rei de Janeiro"
Glauber Rocha



De um modo geral, as pessoas, críticos e publicações costumam destacar o álbum "Let's Play That", de 1983, como o grande trabalho de Jards Macalé, que efetivamente é um excelente disco. Mas particularmente, tenho uma especial predileção pelo ótimo "O Q Faço é Música" de 1998.
Dos músicos brasileiros mais criativos, Jards Macalé explora as diversas possibilidades do samba neste disco, indo desde choros, passando por sambas-canção ou experimentando alternativas percussivas. "O Q Faço é Música" é variado, é eclético, é embalado, divertido, é sensacional. "Rei de Janeiro", composta sobre verso de Glauber Rocha, é uma bela exaltação cantada por um coro feminino; "Cidade Lagoa", outra referência ao Rio de Janeiro, cidade natal de Jards, é um samba-de-breque, irônico e debochado, extremamente atual no que se refere às frequentes inundações que acontecem na cidade a cada chuva. O trecho "Essa cidade que ainda é maravilhosa/ Tão cantada em verso e prosa/ Desde o tempo da vovó/ Tem um problema vitalício e renitente/ Qualquer chuva causa enchente/ Não precisa ser toró", dá uma ideia de como era nos anos 50 quando a letra foi escrita, e de como, incrivelmente ainda é hoje.
A inusitada versão de "Blues Suede Shoes' de Carl Perkins, é outro exemplo dessa exploração das possibilidades do samba, onde Jards dá um tratamento chorinho acelerado para o clássico do rock. O resultado é incrível!
A ótima "Favela" traz um retrato físico, antropológico, histórico, social e poético da formação urbana dos morros cariocas, num samba pesado, cheio de cuícas e tiros; "Vapor Barato", parceria de Jards com Wally Salomão, ganha uma versão muito mais melancólica que outras gravadas ao longo dos anos, talvez só perdendo para a dramática interpretação de Gal Costa.
O disco segue com a charmosa "Destino"; a primorosa "Dente no Dente"; o belíssimo tango-chorinho "Mais Um Abraço no Nosso Amigo Radamés"; a parceria com Vinícius de Moraes na ótima "O Mais-que-Perfeito"; a versão  para "Unicornio" do cubano Silvio Rodrigues; a adaptação para o "Poema da Rosa" de Becht; e o disco encerra-se com a interessantíssima "Coração do Brasil", uma perfeita combinação letra-música-conceito com um surdo pesado, alto, forte marcando o tempo como se fossem batimentos cardíacos. O coração da bateria, o coração do samba, o coração do sambista. O coração de um artista inquieto, criativo e de uma musicalidade ímpar.
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FAIXAS:
  1. Rei de Janeiro
  2. Favela
  3. Destino
  4. Terceira Vez
  5. Cidade Lagoa
  6. Dente no Dente
  7. Movimento dos Barcos
  8. O Mais que Perfeito
  9. Vapor Barato
  10. Blues Suede Shoes
  11. Mais Um Abraço no Nosso Amigo Radamés
  12. Unicornio
  13. Mais Uma Luz
  14. Poema da Rosa
  15. Um Abraço no Oliveira
  16. Coração do Brasil

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Baixe e ouça:
Jards Macalé O Q Faço é Música



Cly Reis

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Ella Fitzgerald and Louis Armstrong - "Ella and Louis" (1956)



"Homem, mulher ou criança,
Ella [Fitzgerald] é maior que qualquer um."
Bing Crosby

"Se houve alguém que foi um mestre,
esse alguém foi Luis Armstrong."
Duke Ellington



Um encontro de titãs de dois dos maiores nomes da música. Ella Fitzgerald, diva do jazz, uma das maiores cantoras de todos os tempos e dona de interpretações inigualáveis juntava-se a Louis Armstrong, cantor de voz inconfundível, de recursos vocais interessantíssimos e trompetista de estilo moderno e ousado para sessões de gravação que originariam o extraordinário “Ella and Louis”.
Composto basicamente por canções românticas e baladas de compositores como Gershwin e Irving Berlin, “Ella and Louis” (1956) é puro deleite. As interpretações de ambos, sustentadas por nada menos que o Oscar Peterson Trio, carregam o talento pessoal de cada um somados às suas respectivas grandes capacidades de improvisação, demonstrando um impressionante entrosamento e uma gostosa descontração de estúdio.
A lindíssima “Can't We Be Friends?” tem interpretação destacada da diva; “Isn't This a Lovely Day?” tem um daqueles belos solos econômicos, básicos e precisos de Louis, seus improvisos vocais característicos e um dueto lá-e-cá adorável entre os dois cantores; e ainda a ótima “Tenderly” que com uma performance solo arrasadora do trompete de Armstrong abre e prepara terreno para que Ella deslize sua voz doce sobre a canção, e igualmente fecha com outra demonstração de talento e inspiração no instrumento de sopro. Na adorável “Cheek to Cheek”, uma das minhas favoritas do álbum, mesmo reconhecendo que no quesito cantar Ella é muito mais completa que o Louis, o destaque é para a atuação vocal dele. Muitíssimo bem “A Foggy Day” dos Gershwin não pode deixar de ser mencionada assim como a melancólica “April in Paris”, que numa interpretação cheia de sentimento de Ella Fitzgerald, com um solo choroso do trompete de Louis Armstrong e com uma performance magistral de Oscar Peterson ao piano, encerra a obra de forma perfeita.
“Ella and Louis” só não é um documento musical único porque, por conta do sucesso do lançamento, a gravadora encomendou um novo encontro da dupla para o álbum “Ella and Louis Again”, que é considerado por muitos até mesmo melhor que o original.
Talvez. Não sei. Gosto muito do outro também. Talvez seja assunto para outro A.F.. Mas por hora fiquemos com este registro mágico onde a graça da Primeira Dama e a originalidade do Satchmo garantem um dos momentos mais célebres que a música já viveu.
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FAIXAS:
01. Can't We Be Friends? (Paul James, Kay Swift) – 3:45
02. Isn't This a Lovely Day? (Irving Berlin) – 6:14
03. Moonlight in Vermont (John Blackburn, Karl Suessdorf) – 3:40
04. They Can't Take That Away From Me (George Gershwin, Ira Gershwin) – 4:36
05. Under a Blanket of Blue (Jerry Livingston, Al J. Neiburg, Marty Symes) – 4:16
06. Tenderly (Walter Gross, Jack Lawrence) – 5:05
07. A Foggy Day (G. Gershwin, I. Gershwin) – 4:31
08. Stars Fell on Alabama (Mitchell Parish, Frank Perkins) – 3:32
09. Cheek to Cheek (Berlin) – 5:52
10. The Nearness of You (Hoagy Carmichael, Ned Washington) – 5:40
11. April in Paris (Vernon Duke, Yip Harburg) – 6:33


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Ouça:

Cly Reis

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Jerry Lee Lewis - "Live at Star Club, Hamburg" (1964)




“Não é um álbum,
é uma cena de crime”
revista Rolling Stone



E quem disse que piano não é instrumento pra rock’n roll? Se alguém acreditava que não, Jerry Lee Lewis tratou de provar não apenas que era mas também o quanto poderia ser infernal com ele. Infernal literalmente! A ponto de incendiar o próprio instrumento no palco, muito antes de Hendrix fazer uma fogueirinha com sua guitarra.
Daqueles artistas tipicamente rock’n roll. Sob todos os aspectos: na postura frenética no palco, nas atitudes inconseqüentes, na rebeldia incontrolável e na conturbada vida pessoal, tendo se casado com a própria prima, na época menor de idade, num dos maiores escândalos daquele tempo.
Este artista explosivo, temperamental, doido, genial mostra toda sua força e vitalidade no registro ao vivo “Live at Star Club, Hamburg” onde extrapola todos os limites da performance ao vivo, levando as canções a extremos da interpretação.
Em canções como “Mean Woman Blues”, simplesmente ensandecida; “High School Confidential” onde praticamente ‘agride’ o piano; na selvagem “Hound Dog”; e nas clássicas “Long Tall Sally” e “Good Golly Miss Molly” aceleradas, rasgadas e gritadas, ele justifica plenamente a alcunha de "Matador" e destroi tudo.
Ainda dá uma leitura charmosíssima para "Money" (gravada por Beatles, Sonics e outros tantos), esmerilha no bluesão "Matchbox" e tira um pouco da chorosidade de "Your Cheatin' Heart" de Hank Williams conferindo-lhe um ar um pouco mais cínico.
Outro daqueles grandes álbuns ao vivo da história, e este com a marca de uma das maiores lendas do rock’n roll.
Killer! Killer!
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FAIXAS:

  1. "Mean Woman Blues" (Claude Demetrius) 4:01 
  2. "High School Confidential" (Hargrave, Lewis) 2:25 
  3. "Money (That's What I Want)" (Janie Bradford, Berry Gordy) 4:35 
  4. "Matchbox" (Carl Perkins) 2:46 
  5. "What'd I Say, Part 1" (Ray Charles) 2:18 
  6. "What'd I Say, Part 2" 3:08 
  7. "Great Balls of Fire" (Otis Blackwell, Jack Hammer) 1:48 
  8. "Good Golly, Miss Molly" (Bumps Blackwell, John Marascalco) 2:19 
  9. "Lewis' Boogie" (Lewis) 1:55 
  10. "Your Cheatin' Heart" (Hank Williams) 3:03 
  11. "Hound Dog" (Jerry Leiber, Mike Stoller) 2:28 
  12. "Long Tall Sally" (Enotris Johnson, Little Richard) 1:52 
  13. "Whole Lotta Shakin' Goin' On" (Sunny David, Dave Williams) 4:24

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Ouça:

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

ÁLBUNS FUNDAMENTAIS ESPECIAL 12 ANOS DO CLYBLOG - Jane's Addiction - "Ritual de Lo Habitual" (1990)



Acima, a polêmica capa original,
retirada das lojas e substituída, não sem protestos, 
por uma bastante simplificada.



"Señores y señoras 
Nosotros tenemos 
más influencia con sus hijos 
que tú tiene. 
Pero los queremos. *
Creado y regado de Los Ángeles, 
¡Juana's adicción!" 
introdução do álbum,
antes da música "Stop!"
* Senhores e senhoras,
nós temos mais influência sobre seus filhos
do que vocês tem. Mas nós os amamos"


Segundo álbum de estúdio do Jane's Addiction lançado em agosto de 1990, "Ritual de Lo Habitual" já causava "desconforto" na capa ao mostrar uma arte de bonecos em uma ménage à trois. Capa proibida. Algo que o Jane's provocativo deixou claro, ao lançar a capa alternativa branca, mas com um selo explicando o porquê.

O Jane's era considerado, nos anos 90, o "cabeça" do rock alternativo. Alternativo na época também significava uma banda que usava outros elementos no seu som e isso o Jane's tinha de sobra.

Começando pela capa, as letras, tudo sugeria um grande ritual de magia. Boatos na época diziam que Perry Farrell estava envolvido em magia negra, drogas pesadas e que tinha HIV.

As letras das músicas provocavam todas estas dúvidas e ainda medos, crenças e perturbações da ordem.

"Been Caught Stealing", música de trabalho e com um clipe "engraçado" rolando na MTV, falava em roubar para obter-se o desejado, afirmando que se roubava por prazer. Muito adolescente e rebelde. E a mesma censura que proibiu a capa exaltou a pregação ao roubo.

"Stop!" a faixa de abertura criticava a sociedade atual de trabalhadores em massa vivendo uma rotina insuportável. Um clipe confuso mas amado pela juventude alternativa.

Jane's Addiction - "Stop!"

Mas Perry mexia também com temas complicados. "Three Days", escrita para uma amiga que acabara de falecer por overdose - aliás, o álbum é dedicado a ela - tem uma letra pesada. Mas o que chocou foi o verso em que Perry fala de um Jesus nada convencional.

Perry também se jogava no limbo. Em "Ain't No Right" ele fala de si, começando a se descrever fisicamente e afirmando que não há nada de errado em ser diferente, bem como toda a geração alternativa que o acompanhava.

E os tais elementos alternativos estavam lá. "Of Course" tem um começo que mais parece uma música árabe; "Obvious" tem uma batida sinistra; e "Classic Girl" fecha o álbum com um vocal doce glorificando o amor.

Mérito dos quatro excelentes músicos: Stephen Perkins com sua bateria monstro e sua percussão que torna o som da banda único; Dave Navarro, um dos melhores guitarristas do rock e que recheou o álbum de riffs clássicos; e Eric Avery, baixista centrado.

Mas o álbum que trazia um ar perturbador revelava o que acontecia com os músicos. Brigas entre Perry e Navarro, o vício em drogas de ambos, o desgaste de Avery, culminaram com o fim da banda e tornou uma geração órfã de seu maior líder.

Foi um respiro para os músicos que engataram outros projetos,como o Deconstruction e o Porno For Pyros para mais tarde voltarem com a banda, um novo álbum mas aí para uma geração de rock alternativo um pouco diferente, que, contudo, ainda tinha o Jane's Addiction como seu maior mentor.

Aconselho a prestarem atenção em cada detalhe deste álbum. E ao escutá-lo  na íntegra e em ordem, o que é imprescindível para que se tenha a noção da estranheza, perturbação, dúvida e admiração que ele causa. E é impossível não amar o vocal de Perry em cada detalhe.

"Ritual de Lo Habitual" é um álbum lindo de ouvir e sentir. Ele mexe em nossas certezas e emoções e nos faz viajar em uma mente e visão iluminadas: as de Perry Farrell.

 Detalhe: o lançamento do álbum se deu em 21 de agosto de 1990. Portanto, está de aniversário, assim como o ClyBlog.

"Jesus erótico,
deita-se com suas marias
Ama seus marias..."
verso de "Three Days"




por  S I M O N E   D A   S I L V A   W O R M


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FAIXAS:
1) Stop!
2) No One's Leaving
3) Ain't No Right
4) Obvious
5) Been Caught Stealing
6) Three Days
7) Then She Did...
8) Of Course
9) Classic Girl

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OUÇA:





Simone da Silva Worm,(ou Simone Hill) 
é estudante de técnica vocal e guitarra.
Faz parte do Coral da UFCSPA, gosta de rock e mantras e 
é Devota para a Consciência de Krishna.