Reestabelecendo a verdade histórica - 2
terça-feira, 28 de junho de 2011
segunda-feira, 27 de junho de 2011
Television - "Marquee Moon" (1977)
"Eles são uma banda em um milhão;
as canções são algumas das maiores já feitas.
O álbum é 'Marquee Moon'".
Nick Kent,
do New Musical Express,
em 1977
do New Musical Express,
em 1977
“Que música é essa?”, eu me perguntava quando ouvia aquela coisa maravilhosa no rádio. Aquele riff introdutório com uma guitarra minimalista, repetida e hipnótica, seguida de uma segunda guitarra, em outro riff mínimo e igualmente repetido, que se entrecruzava e confundia-se com a primeira; e então as duas permitiam a entrada de um baixo que se por um lado dialogava com ambas, também ocupava seus espaços vazios; até a entrada uma bateria marcada, sem excessos nem arroubos que constituía enfim o corpo básico daquela canção espetacular. Mas era só o início: ela ia-se enrobustecendo, mudando, variando, trocando bases, invertendo solos, cada um mais lindo e impressionante que o outro com verdadeiros duelos de guitarras, e a bateria agora tinha arrebatamentos entusiásticos, e o contrabaixo irrompia em ímpetos emocionantes, até alcançar, depois de mais de 10 minutos, uma espécie de um ápice sonoro, um êxtase, uma redenção musical. Ouvia com muita freqüência no programa da radialista Kátia Suman, na Rádio Ipanema de Porto Alegre, ficava impressionado com aquilo, mas por algum azar nunca conseguia descobrir o nome da música – já tinha sido anunciada no início do bloco; naquele dia a programação da rádio estava no ‘automático’; ou mesmo, simplesmente, não fora anunciada - mas uma hora seria inevitável descobrir, como acabou acontecendo: aquela obra de arte chamava-se “Marquee Moon” e quem a tocava era uma banda chamada Television. A música fazia parte do disco igualmente entitulado “Marquee Moon” , de 1977, que tratei logo de ter, num primeiro momento em cassete, mas hoje tenho devidamente em CD, que traz alguns extras inclusive.
O Television, vim a saber mais adiante ainda, fora um dos precursores do punk, e ainda que a canção que tinha me encantado fosse enorme, toda trabalhada, com partes, entrepartes, solos longos e virtuosismo técnico, ela verdadeiramente já anunciava com seu minimalismo, seu ritmo, sua produção, que trazia no rastro novos tempos e uma nova sonoridade.
“See no Evil” uma das grandes do disco, é uma prova mais concreta disso com sua base minimalista, mas com uma pegada mais consistente, mais pesada e repetitiva; “Friction” vai numa linha parecida, com aquela pinta de punk porém transbordando de técnica por todos os lados; “Vênus” é quase uma sinfonia; “Elevation”, marcante pelo refrão, é o que se poderia chamar de uma música ‘limpa’ trabalhada minuciosamente em todos os detalhes, onde tudo aparece com impressionante clareza e transparência; “Guiding Light” é uma balada levinha e deliciosa; “Prove It” também é mais solta e tem uma levada gostosa de baixo; Torn Curtain” que fecha o disco é arrastada mas não cansativa, é mais melancólica que as demais mas sua condução lenta só faz com que se possa perceber com mais limpidez as virtudes musicais e a técnica dos instrumentistas.
Um dos discos mais importantes da história do rock por ter ao mesmo tempo introduzido o punk e de certa forma negar seus princípios básicos, como os de músicas curtas, composições burras e músicos que não soubessem tocar. Mas se não bastasse sua importância, influência, sua inovação, só pela canção que dá nome ao disco já valeria. Uma das coisas mais incríveis que já ouvi. Um dos meus discos prediletos.
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FAIXAS:
1. "See No Evil" 3:53
2. "Venus" 3:51
3. "Friction" 4:44
4. "Marquee Moon" 10:40
5. "Elevation" 5:07
6. "Guiding Light" (Lloyd, Verlaine) 5:35
7. "Prove It" 5:02
8. "Torn Curtain" 6:56
bônus da reedição em CD
9. "Little Johnny Jewel (Parts 1 e 2)" 7:09
10. "See No Evil (versão alternativa)" 4:40
11. "Friction (versão alternativa)" 4:52
12. "Marquee Moon (versão alternativa)" 10:54
13. Untitled (instrumental)
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Ouça:
sexta-feira, 24 de junho de 2011
Rachmaninoff – Concertos OSPA – Salão de Atos da UFRGS – Porto Alegre - RS
Esta semana estive no 9º Concerto Oficial da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (OSPA) ouvindo um programa em homenagem a Sergei Rachmaninoff. Não estava lotado, mas havia bastante gente no espaçoso Salão de Atos da UFRGS, mostrando que, mesmo sendo uma programação paga, há público para este tipo de atração em Porto Alegre. Feliz constatação.![]() |
| Sergei Rachmaninoff (1873 - 1943) |
Executado com competência, o Concerto nº 2 é marcado pela dramaticidade e pela força orquestral, tanto que, na primeira parte, o piano é quase coadjuvante. Sua poesia pianística vai ganhando corpo a partir da segunda parte, a mais conhecida do grande público. Numa intensidade crescente, bem ao estilo romântico, o tema é executado de modo sublime pelos sopros, seguido do solo de piano e da interpretação das cordas. E o movimento final, que exige técnica e virtuosismo do pianista, fecha com uma alta carga sentimental. Já a Sinfonia nº 2, considerada a sua melhor junto com a nº 3 é, em alguns momentos, “melada” de tão sentimental, mas a sua composição robusta e cheia de belos momentos, como o engenhoso segundo movimento (Allegro molto) e o final, em alta vibração (Allegro vivace), valem qualquer deslize.
![]() |
| Obras de Rachmaninoff executadas sob a competente regência do maestro Roberto Tibiriçá |
Ambas as peças apresentadas pela OSPA são exemplo da obra deste maestro e pianista russo, conhecido como o último grande compositor do Período Romântico da linhagem de Mussorgsky, Delyansky e Tchaikovsky (de quem foi aluno). Além da estrutura melódica e composicional romântica, sua música também remete a Chopin e Liszt, outras duas fortes influências. Nascido em família de tradição musical, Rachmaninoff é tido como um dos pianistas mais influentes do Século XX, dotado de uma técnica marcada pela precisão, clareza e velocidade. Seus trejeitos técnicos e rítmicos são lendários, e suas mãos largas eram capazes de cobrir um intervalo muito maior no teclado (um palmo esticado de cerca de 30 centímetros), alcançando quatro teclas a mais do que a maioria dos pianistas. Mas é o seu discernimento entre virtuosismo e estrutura rítmica que o fizeram um concertista equilibrado como instrumentista e compositor tão influente.
por Daniel Rodrigues
quarta-feira, 22 de junho de 2011
terça-feira, 21 de junho de 2011
cotidianas #87 - "O Mundo Anda Tão Complicado"
Gosto de ver você dormir
Que nem criança com a boca aberta
O telefone chega sexta-feira
Aperto o passo por causa da garoa
Me empresta um par de meias
A gente chega na sessão das dez
Hoje eu acordo ao meio-dia
Amanhã é a sua vez
Vem cá, meu bem, que é bom lhe ver
O mundo anda tão complicado
Que hoje eu quero fazer tudo por você.
Temos que consertar o despertador
E separar todas as ferramentas
Porque a mudança grande chegou
Com o fogão e a geladeira e a televisão
Não precisamos dormir no chão
Até que é bom, mas a cama chegou na terça
E na quinta chegou o som
Sempre faço mil coisas ao mesmo tempo
E até que é fácil acostumar-se com meu jeito
Agora que temos nossa casa
é a chave que sempre esqueço
Vamos chamar nossos amigos
A gente faz uma feijoada
Esquece um pouco do trabalho
E fica de bate-papo
Temos a semana inteira pela frente
Você me conta como foi seu dia
E a gente diz um p'ro outro:
- Estou com sono, vamos dormir!
Vem cá, meu bem, que é bom lhe ver
O mundo anda tão complicado
Que hoje eu quero fazer tudo por você
Quero ouvir uma canção de amor
Que fale da minha situação
De quem deixou a segurança de seu mundo
Por amor
Renato Russo
segunda-feira, 20 de junho de 2011
"Unknown Pleasures: A Celebration of Joy Division" - Peter Hook & The Light - Circo Voador - Rio de Janeiro (18/06/2011)
Mas eis que Peter Hook, baixista original, juntou uma meninada, ensaiou bem as músicas e caiu na estrada para homenagear o primeiro disco da banda, o lendário "Unknown Pleasures" . Aterrisou por aqui e neste último sábado apresentou no Circo Voador, aqui no Rio, o show "Unknown Pleasures: A Celebration of Joy Division", tocando na íntegra as músicas do álbum. Ora!!! Não haveria como perder uma chance destas! Não seria o Joy Division inteiro, é verdade, Ian está morto e nada vai mudar isso, mas presenciar um integrante original tocando um álbum como este não deixaria de ter um grande valor físico, musical e emocional. E a apresentação foi realmente emocionante. Uma alegria enorme para qualquer fã. Um dos poucos shows que passei praticamente todo o tempo com os olhos marejados. Empolgante nos momentos certos, visceral quando tinha que ser, sombrio na medida certa, e especalmente mágico o tempo todo.
Pra começar a loucura, os caras entraram no palco ao som de "Trans-Europe Express" do Kraftwerk, o que já foi de arrepiar; aí abriram a sessão com a instrumental "Incubation", que eu adoro e que minha banda tocava de vez em quando no estúdio; seguiram numa linha bem Warsaw com "No Love Lost" e "Leaders for Men", me surpreendendo porque, ao contrário do que eu imaginava, Peter Hook, que eu achei que fosse ficar só no baixo e fosse trazer um vocalista com um timbre parecido com o de Ian, assume à frente dos vocais e manda bem. Aí vem "Digital" e o lugar quase vai abaixo com a galera cantando o "day in, day out" do refrão num coro alucinado, na última antes da execução das músicas do disco clássico.Até então Peter Hook cantava, gesticulava, posava com seu instrumento musical, jogava-o pras costas mas a verdade era que, depois da primeira música do show, na qual teve algum desempenho, não tirara mais uma nota sequer de seu reluzente contrabaixo vermelho deixando tudo à cargo dos seus competentes comandados. Só que isto àquelas alturas era um pouco decepcionante haja visto que sua forma de tocar baixo como quem toca guitarra (não só performaticamente mas sonoramente também) era um dos elementos aguardados por mim com expectativa. Mas aí o cara parou de fazer posição e jogar o baixo pra trás e tratou de esmerilhar as cordas. "Insight", se perdeu alguma coisa no que dissesse respeito à ausência dos efeitos da versão do disco, ganhou em peso e intensidade com dois contrabaixos e com a afinação muito peculiar de Peter Hook; em "New Dawn Fades", uma das melhores não só dos álbum em questão como da banda, Hook voltava a destruir tudo, desta vez com aquela levada mais grave, numa canção densa, sombria e espetacular.
Abre-se o lado B com outro clássico, "She's Lost Control", que, igualmente, mesmo sem o trabalho de estúdio para a bateria, manteve a força, a pegada e a magnitude. É quase redundância destacar, mas o baixo de Hook, bem agudo e agressivo nesta música, soava de maneira simplesmente arrasadora.
"Shadowplay" seguiu com aquela espécie de força surpreendente; "Wilderness" trouxe outro show das quatro cordas de Hook; "Interzone" foi selvagem; e "I Remember Nothing", talvez tenha sido a que mais perdeu em relação à sua gravação original, sem os efeitos de vidros quebrados, sem conseguir reproduzir bem aquela sensação de vácuo e sofrendo pela inevitável falta do seu intérprete de origem que nesta canção faz muita diferença. Mas mesmo assim muito boa. Ganhou em energia, força, ruídos, agressividade.
Estava encerrado o álbum. Eu havia visto e ouvido um membro do Joy Division tocar um dos meus álbuns favoritos.
Mas como não nos déssemos por satisfeitos com aquela dádiva, eu e todos os outros fanáticos ali, ficamos ali a exigir mais e mais... E felizmente tivemos mais: Hook e seus parceiros voltam para uma "Atmosphere" que, na verdade, a mim, não agradou muito; mas por outro lado para uma "Ceremony" que, essa sim, me deixou com lágrimas nos olhos. Saíram do palco de novo e voltaram, agora com Hook vestindo uma camisa número 10 da seleção brasileira com seu nome, para um bis final. Aí veio a boa "These Days", outra pré-Joy, "Novelty"; a vibrante "Transmission" e aquele "dance, dance, dance to the radio" sendo entoado pela plateia inteira com as mãos para o alto; e fechando com, provavelmente o clássico maior da banda, "Love Will Tear Us Apart" para delírio geral.
Estávamos todos repletos, contemplados. Nenhum nome teria sido mais justo para aquele show, para aquela festa do que o que foi dado: "A Celebration of Joy Division". Foi isso. Aquilo ali havia sido uma grande celebração. Uma celebração que revelava agora, prazeres até então desconhecidos.
SET LIST:
1.Incubation
2.No Love Lost
3.Leaders Of Men
4.Digital
5.Disorder
6.Day Of The Lords
7.Candidate
8.Insight
9.New Dawn Fades
10.She's Lost Control
11.Shadowplay
12.Wilderness
13.Interzone
14.I Remember Nothing
Bis:
15.Atmosphere
16.Ceremony
Bis 2:
17.These Days
18.Novelty
19.Transmission 20.Love Will Tear Us Apart
Cly Reis
domingo, 19 de junho de 2011
Peter Hook & The Light - show "Unknown Pleasures"
sexta-feira, 17 de junho de 2011
Metallica + Lou Reed
O pessoal do Metallica já havia antecipado e deixado no ar que lançaria um material que, segundo eles mesmos, "não seria exatamente o Metallica", mas só agora desvendaram o mistério: o lance todo é que a banda gravou uma série de canções em parceria com o ex- Velvet Underground , Lou Reed e pretende lançá-las em álbum em breve. Não houve maiores informações como nome do álbum, previsão de lançamento ou algo mais consistente, apenas se sabe que serão dez músicas e que James Hatfiled se diz muito orgulhoso de trabalhar com o velho Lou.
Fica a curiosidade do que pode sair desta união e a expectativa. Boa expectativa, aliás.
Fica a curiosidade do que pode sair desta união e a expectativa. Boa expectativa, aliás.
C.R.
quinta-feira, 16 de junho de 2011
Retrospective Guy Bourdin 2011 – Casa de Cultura Mário Quintana – Porto Alegre- RS
Passou por Porto Alegre, mais precisamente, pela Casa de Cultura Mário Quintana, uma retrospectiva do fotógrafo francês Guy Bourdin (1928-1992). Numa palavra: putaqueupariu! Muito bom: instigante, provocativo, enigmático, bizarro, preciso. Vários adjetivos podem ser atribuídos ao trabalho deste escultor de imagens fotográficas, dada sua capacidade de imprimir seu olhar artístico ao objeto fotografado.
Guy Bourdin foi um dos precursores da fotografia no mundo da moda, misturando a esta tão comum prática da captura de imagens estáticas a arte contemporânea. Através de técnicas inovadoras e audaciosas, tudo sob uma visão debochada e detalhista, ele criou uma forma de fantasia aliando seu talento estético a situações inesperadas e ousadas, muitas vezes picantes. A moda e a fotografia eram suas ferramentas para explorar reinos entre o absurdo e o sublime, bebendo constantemente no surrealismo e no humor (negro, por vezes).
A retrospectiva compreendeu, na verdade, uma fase curta da carreira profissional de Bourdin, pegando principalmente a década de 70, época da consolidação do seu estilo, até início dos 80. Mas isso basta. Com produções feitas para grandes revistas de moda e para nomes da moda como Dior ou Jourdan, seu jeito altamente estilizado de compor imagens – muitas cores, iluminações altamente planejadas (fosse natural ou artificial), enquadramentos precisos (em foco ou não, superenquadrados ou não, simétricos ou não), suscita climas de suspense, estranhamento, humor e muita, mas muita volúpia.
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| Corpo feminino, sensualidade, pernas, saltos-altos... mas não de um modo muito convencional |
Outro fator que me impressionou bastante foi que, como se não bastassem os excelentes quadros expostos com as fotografias feitas para revistas, todos minuciosamente produzidos (e para os quais eram certamente necessárias várias horas de trabalho até chegar ao resultado final), a exposição mostrou duas projeções de slide-shows com fotos tiradas por Bourdin nas ruas dos Estados Unidos, país onde residiu por muito tempo. Nestas, sua lente registrou o charme decadente do kitsch, as texturas sujas da cidade, as geometrias modernistas, a interação entre natureza e concreto. Mas, diferente das superproduções elaboradas para uma Vogue, pré-planejadas em todos os pormenores, ali, se via o contrário: imagens captadas no momento, sob luz natural na maioria das vezes, quase como um repórter ou cronista. Prova de que foi um artista completo na criação de imagens.
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| O misterioso, o curioso, o bizarro, o sugestivo no olhar de Bourdin |
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| Sensualismo com surrealismo, marcas registradas das lentes do artista |
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| O olho urbano de Bourdin, com um toque artístico para complementar |
quarta-feira, 15 de junho de 2011
Bezerra da Silva -"Alô Malandragem, Maloca o Flagrante" (1986)
"O Bezerra é o cara mais rock'n roll que eu conheço."
Paulo Ricardo, RPM
“Mas Bezerra da Silva é pagode!”, precipitar-se-ia algum eventual enfezado leitor ao ver “Alô Malandragem, Maloca o Flagrante” nos ÁLBUNS FUNDAMENTAIS. Ora, amigos, em primeiro lugar, eu não diria que Bezerra da Silva venha a tratar-se extamente de pagode, seria mais apropriado provavelmente dizer samba, samba de raiz ou partido-alto talvez, mas de qualquer modo, ainda que admitindo-se a precisão do seu termo, em momento algum eu afirmei que a seção deveria dedicar-se exclusivamente ao rock e seus assemelhados, a ver-se que por aqui já passaram Miles Davis, Tom Zé, Chico Buarque e outros. Mas mesmo que fosse com este fim, não haveria artista popular mais apropriado que Bezerra da Silva para representar essa relação do pagode (que seja), do samba do morro, do partido-alto com o rock. A crítica social, a digressão, a amoralidade, a rebeldia, a negação, a contravenção, são todos elementos comuns à música de Bezerra com o rock’n roll.
Entre malandros, dedos-duro, cornos, piranhas, bêbados, traficantes e policiais, Bezerra com sua interpretação escrachada confere à música um valor, até antropológico, por assim dizer, com a realidade do morro, da vida nas favelas, o modo característico de falar, as gírias e expressões, os costumes, os procedimentos, as descrições físicas e humanas, tratando tudo com o bom humor e a capacidade intrínseca do brasileiro de rir da própria desgraça.
Tem a denúncia social de "A Rasteira do Presidente"; tem um enterro interrompido pela polícia porque o caixão estaria cheio de muamba na hilária “Defunto Grampeado”; tem uma breve descrição de um espancamento a uma mulher que fora apanhada no flagra ‘enfeitando’ a cabeça do marido (“Quem Usa Antena é Televisão”); tem outra zoação com 'chifrudos' na engraçadísima "Sua Cabeça Não Passa na Porta"; tem a demonstração de desprezo e com os ‘caguetes’ evidenciadas em "Maloca o Flagrante" e "Língua de Tamanduá", e que aparece também em “Malandragem Dá um Tempo”, sendo esta última com o acréscimo da naturalidade ao tratar do uso de drogas; e ainda a relação malandro-mané em “Direitos do Otário”.
É interessante destacar, e muita gente não sabe, que Bezerra não escrevia as músicas, apenas as interpretava com aquele sua maneira toda particular de cantar. As letras incrivelmente bem-humoradas e certeiras eram compostas por ilustres desconhecidos do morro com os mais curiosos nomes como Pedro Butina, Cláudio Inspiração, Beto Sem-Braço e 1000tinho.
Disco muito legal e extremamente divertido. Sexo, drogas, violência, marginalidade... Quer mais rock’n roll que isso?
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FAIXAS:
• 1. Malandragem Dá Um Tempo
• 2. Defunto Grampeado
• 3. Quem Usa Antena É Televisão
• 4. Maloca O Flagrante
• 5. Vovô Cantou Pra Subir
• 6. A Rasteira do Presidente
• 7. Meu Bom Juiz
• 8. Língua de tamanduá
• 9. Na Boca do Mato
• 10. Sua Cabeça Não Passa na Porta
• 11. Os Direitos dos Otários
• 12. Compositores de Verdade
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Ouça:
domingo, 12 de junho de 2011
sábado, 11 de junho de 2011
sexta-feira, 10 de junho de 2011
Iron Buttterfly - 'In-A-Gadda-Da-Vida" (1968)
"No final dos anos 60 não era socialmente conveniente andar por aí com o cabelo comprido até o cóccix."
Doug Ingle,
vocalista e tecladista
Ao começar a ouvir o disco, você até reconhecerá inevitavelemente algumas qualidades, logo de cara. Reconhecerá por certo toques profundos de psicodelismo, um rastro de folk, sombras de blues e os caminhos para o metal. Poderá até pegar-se tamborilando com os dedos na mesa enquanto ouve a boa "Most Anything You Want", batendo com o pézinho ao som de "Are You Happy?" com seu psicodélico prenúncio de peso, e até ensaiar um air guitar na embalada "Termination"; mas a faixa-título, um épico monumental quilométrico que, sobremaneira, impressiona e justifica um lugar de destaque para "In-A-Gadda-Da-Vidda" , do Iron Butterfly, no olimpo dos grandes.
Ao longo de seus dezessete minutos a música "In-A-Gadda-Da-Vida", que no formato original em LP era a única faixa do lado B, desfila uma infinidade de variações, ritmos, influências e sonoridades. Uma loucura psicodélica total com guitarras pesadas, uma percussão viajante, órgãos completamente alucinados e um vocal rouco-grave-chapado. Detonante! Cáustico! Espetacular! Um dos primeiros pilares do hard rock e do metal!
Outro daqueles discos em que um erro, equívoco, um mal-entendido acabou gerando e consagrando o nome da obra: consta que o compositor, cantor e tecladista Doug Ingle anunciou ao baterista ter feito uma nova música, mas bêbado demais para falar corretamente o nome pretendido que seria "In The Garden of Eden", pronunciou "In-A-Gadda-Da-Vida" que foi o que o parceiro entendeu e anotou, só que sem saber escreveu 'errado' também na história do rock.
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Embora o grande barato de um disco desses seja tê-lo em LP por causa desta configuração com uma música apenas perfazendo um lado inteiro, não deixa de ser interessante ter a edição remasterizada em CD que traz três versões do clássico "In-A-Gadda-Da-Vida", a original, uma ao vivo e a do single, bem menor, editada especialmente para tocar nas rádios.
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FAIXAS:
Lado A
"Most Anything You Want" – 3:44
"Flowers and Beads" - 3:09
"My Mirage" – 4:55
"Termination" (Erik Brann, Lee Dorman) – 2:53
"Are You Happy" – 4:31
Lado B
" In-A-Gadda-Da-Vida " – 17:05
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Ouça:
Iron Buttefly In-a-gada-da-vida
Cly Reis
quarta-feira, 8 de junho de 2011
Shopping dos Antiquários - Copacabana - Rio de Janeiro - RJ
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| Um dos antiquários requintados do pequeno shopping... |
![]() |
| ... e um outro interessante, porém mais amontoado e com jeito de brechó |
Vou aproveitar que estou com obra em andamento aqui no bairro e voltar lá uma hora dessas pra mais compras. Só quero ver onde é que eu vou arranjar lugar pra guardar tantos vinis... (eu não devia ter descoberto esse lugar!)
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o Shopping Cidade Copacabana ou Shopping dos Antiquários
fica na Rua Figueiredo de Magalhães
ao lado da estação Siqueira Campos do Metrô.
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o Shopping Cidade Copacabana ou Shopping dos Antiquários
fica na Rua Figueiredo de Magalhães
ao lado da estação Siqueira Campos do Metrô.
terça-feira, 7 de junho de 2011
cotidianas #85 - NOMES
![]() |
| "Nome", Arnaldo Antunes |
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Pais são fogo. Se forem pobres, então, são um perigo. Não é preconceito, é conceito formado baseado em observação. Notem como na maioria das vezes estes nomes de homenagem a personalidades importantes, a personagens de novela, aquelas combinações malucas do nome do pai com o da mãe normalmente vem das classes mais baixas. É duro dizer mas é verdade. O meu mesmo, que não é nenhum absurdo mas também não é la comum, é uma homenagem a um jogador dos anos 70 que eu nem sei em que time jogava. Mas gosto dele. gosto mesmo. O problema é que ninguém consegue pronunciar direito e eu sempre tenho que repetir mais de uma vez.
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A propósito de nome de jogador, houve uma obra e que eu estava trabalhando onde me pareceu um Hideraldo. Um dia estava conversando com ele num intervalo qualquer e perguntei se o nome era por causa do Hideraldo Luís Bellini, jogador da Seleção Brasileira de 1958. Ele então, 'caindo a ficha', respondeu, "ah, bem que eu sabia que o meu nome tinha a ver com o de algum jogador". Expliquei pra ele de quem se tratava, que o Belllini tinha jogado em 58, que tinha sido o primeiro jogador brasileiro a levantar a taça e que até tinha uma estátua dele em frente ao Maracanã. Acho que ele gostou de saber que o nome era mas importante do que jamais imaginara.
Mas esse Hideraldo não tinha nada lá muito a se elogiar: dias depois já começou a faltar, outro dia chegou bêbado e logo depois sumiu levando o uniforme e a botina da empresa.
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Ainda sobre jogadores de futebol teve um cara que registrou o filho com os nomes de todos os titulares da Seleção brasileira de 70. Sério!
Félix Carlos Alberto Brito Piazza Everaldo Clodoaldo Gérson Pelé Jair Tostão Rivellino... de Souza, da Silva, Pereira ou qualquer coisa assim.
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Na época que eu tinha um time de bairro, de futebol sete, mesmo tendo o time base, aqueles de fé, volta e meia rolava uma certa rotatividade e alguma dispensa ou inclusão acontecia. Sempre que ficávamos sabendo de alguém com futebol interessante, com potencial, com qualidades, dávamos uma conferida, chamávamos pra bater uma bola informalmente e íamos, por assim dizer, negociar a contratação. Assim que soubemos por um dos nossos jogadores que um carinha novo que tinha ido morar numa vilinha perto do campo onde jogávamos era bom de bola, jogamos uma pelada de fim de tarde, comprovamos a categoria do sujeito e o convidamos pra jogar conosco. Como ele era novo no bairro, não tinha compromisso com outro time, fechou com a gente mesmo. Era conhecido por João porque era assim que chamava às pessoas de quem não sabia o nome, mais ou menos como o Garrincha se referia às suas 'vítimas', de quem nem valia a pena saber o nome porque eram todos iguais e iam ficar estatelados no chão mesmo. Todos uns Joões! E ele preferia que fosse assim uma vez que era sabido que não gostava do próprio nome. No máximo permitia que lhe chamassem do segundo nome, Vinícius. Durante muito tempo chamamos aquele cara apenas de João sem saber efetivamente qual o seu verdadeiro nome, até porque coisas como esta no futebol de rua, de bairro, de amigos, não fazem a menor diferença. Mas um dia deu de haver um campeonato e ser necessário uma inscrição e aí o João teve que revelar seu nome: "Alcione Vinícius", revelou ele contrariado.
Alcione...
- Tenho a maior bronca do meu velho por causa disso. - dizia ele.
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Soube também de um caso interessante: os pais, tendo alguma 'inspiração' daquelas de gosto bastante duvidoso resolveram botar no filho quando nascesse um nomezinho, no mínimo, complicado. Como desta história não sei detalhes vou chamar o garoto de Athaualpakauê, Ok?
Então... O fato é que ninguém conseguia aprender nem pronunciar o nome do futuro bebê. Nem avós, nem tios, nem amigos, ninguém. Passou-se a gestação inteira com o nome decidido e com as pessoas quase engolindo a língua para falar o nome da criança que estava por vir. Atapauê, Atacapalauê, Atanásio Cauê. Deu-se então que nascida a criança, e com os pais entendendo a dificuldade dos parentes, as complicações que poderiam acontecer na escola, na vida social e tudo mais, tiveram bom senso e resolveram mudar o nome. O pai saiu da maternidade e foi registrar então o filho com o nome mais comum, digamos José, por exemplo, de modo a facilitar totalmente pra todo mundo. Mas aí era tarde demais: todos, apesar da dificuldade já tinham aprendido, acostumado, comprado presentes, toalhinhas, babadores, caminhas, brinquedos gravados com o complicadíssimo nome antigo e por pior que fosse já estava consagrado. Aí que mesmo registrado José, é chamado e conhecido pelo nome que era pra ser mas que acabou não sendo. Athaualpakauê.
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Cly Reis
Antônio Carlos Jobim - "Urubu" (1976)
" Jereba é urubu importante como, aliás, todo urubu. Mas entre eles, urubus, observam-se prioridades. E esse um é o que chega primeiro no olho da rês. Sem privilégios. Provador de venenos, sua prioridade é o risco(...)"
Tom Jobim (trecho do texto da contracapa do disco)
Já consagrado, o maestro Antônio Carlos Jobim, embrenhava-se a partir do disco “Matita Perê” de 1973, por caminhos pouco explorados por sua obra, colorindo-a mais ainda de verde e amarelo. Não que seu trabalho, mesmo embasado no erudito e recheado de jazz não fosse legitimamente brasileiro; suas influências, suas cadências e sua levada indesmentivelemente sambista não deixam margem de dúvida, mas a partir daquele momento e especialmente com “Urubu” de 1976, Tom agregava à sua música elementos da natureza, da fauna e flora brasileiras, paisagens, tradições, cânticos regionais e instrumentos típicos. Provas disso são a gostosa “Correnteza” com seu jorro de frescor; a sutil sugestão de integração homem-natureza de “Arquitetura de Morar”; a evocação (meramente sonora) de paisagens em "Saudades do Brazil"; e sobremaneira a espetacular “O Boto” com sua introdução de berimbau que dá sequencia a um arranjo que imita natureza, incrementado por inserções de apitos e sons de pássaros, e versando sobre lendas e contos brasileiros.
Mas o disco não se resume a estas recentes brasilidades de Tom e traz canções mais tradicionais dentro de seu estilo e discografia como a romântica “Lígia”, a tristonha “Ângela”, o valseado forte de ”Valse” do filho Paulo Jobim e a intensa e dramática “O Homem” que encerra a obra.
Com arranjos de Claus Ogerman e acompanhamentos de sua orquestra, escolhidos pelo próprio Tom, “Urubu” mostra um compositor maduro e completamente senhor de si, brincando livremente com todo seu talento e técnica produzindo uma obra única e admirável.
Álbum para se ter me LP. Disco com lado A e lado B: o primeiro todo com os vocais roucos e característicos do mestre Tom, incluindo uma participação de Miúcha em "O Boto"; e o lado 2 somente com temas orquestrados instrumentais extemamente refinados e sofisticados.
Obra de arte!
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FAIXAS:
1- Bôto (Porpoise)
Antonio Carlos Jobim / Jararaca
2- Lígia
Antonio Carlos Jobim
3- Correnteza (The Stream)
Antonio Carlos Jobim / Luiz Bonfá
4- Ângela
Antonio Carlos Jobim
5- Saudade do Brazil
Antonio Carlos Jobim
6- Valse
Paulo Jobim
7- Arquitetura de morar (Architecture to live)
Antonio Carlos Jobim
8- O Homem (Man)
Antonio Carlos Jobim
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Ouça:
Tom Jobim Urubu
Cly Reis
segunda-feira, 6 de junho de 2011
"According to The Rolling Stones: A Banda Conta sua História"
Chega ao Brasil com 8 anos de atraso em relação à edição original, "According to the Rolling Stones: A Banda Conta Sua História", uma coletânea de entrevistas dos próprios integrantes retratando os primeiros 40 anos da banda. Keith, Mick, Ron e Charlie remexeram numas entrevistas dadas em 2002, compilaram, revisaram o material e, em parceria com a empresária Dora Lowenstein, botaram na roda pra galera relatos interessantes, curiosos, impressionantes e tudo mais que se possa esperar dos velhos Stones. Os próprios integrantes trataram, além de organizar os textos, de escolher as fotos que ilustram o trabalho, lançando mão inclusive de seus acervos pessoais.Não tem como não ter satisfação com isso, hein.
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"According to The Rolling Stones: A Banda Conta sua História"
de Mick Jagger, Keith Richards, Ron Wood, Charlie Watts e Dora Loweisntein
Ed. Cosac Naify
360 páginas
R$119,00
C.R.
domingo, 5 de junho de 2011
cotidianas #84 - Um Elogio
- Sim...
- Com todo o respeito, – e sou testemunha de que fora com o devido anunciado respeito, uma vez que o personagem desta pequena historieta foi por mim concebido e criado e, junto com seu aspecto nada desprezível, com seu modo de vestir até bem apresentável, com seus modos, bons a julgar-se bons pela abordagem, criei também seu caráter e suas intenções, às quais posso afiançar, não foram vis nem torpes quando, manifestou aquela impressão que pretendia fazer natural e inocente – tem gente que elogia os olhos de outra pessoa, tem gente que elogia o nariz – e neste momento a moça já sorria pressentindo um agrado maior que os que previamente enumerava o moço – mas eu não pude deixar de notar no seu... bumbum, no seu traseiro. A senhorita tem uma bunda muito bonita.
Ela mudou de expressão de gosto: desfez o sorriso num aspecto de quase fúria, arregalou os olhos, expirava aceleradamente pelo nariz e sua face enrubescera inteiramente. Não falou nada naqueles segundos que se seguiram. Apenas, agitada, virava o pescoço procurando alguma coisa à volta, até que avistou.- Que isso, moça, não precisa isso. Foi só um elogio – tentava acalmar a garota enquanto o policial que cuidava do trânsito ali na esquina ia-se dirigindo até onde estavam os dois.
- Pois não.
- Esse tarado me assediou sexualmente.
- Não foi nada disso, seu policial, eu só fiz um elogio pra moça, eu... – e foi bruscamente interrompido pela queixante.
- Ele estava olhando pra minha bunda, ele disse que gostava da minha bunda, que a minha bunda era isso e minha bunda era aquilo. – finalizou a queixa fazendo uma espécie de beicinho de choro.
- E então, malandrão, é assim? Quer dizer que tu fica mexendo com as moças na rua? – inquiriu o guarda num tom desafiador.
- Não foi nada disso seu guarda, eu posso explicar. Posso explicar?
- Te explica, então, ô mané.
- Não foi um assédio, nem uma ousadia, nem uma ofensa, nem tara nem nada, seu guarda. É que... o senhor sabe quando a gente vê uma coisa muito bonita e não consegue deixar de manifestar? Tipo, ‘que pôr-do-sol maravilhoso!’, ‘que filme!’, ‘que golaço!’, sabe? Pois é. Eu só não pude deixar de falar. E tive que falar pra quem merecia o elogio. Pra quem pudesse se orgulhar do que tem. Foi com todo o respeito. Eu inclusive comecei assim, ‘moça, com todo o respeito’, não foi?
Ela meio contrariada, confusa e constrangida respondeu hesitante: -Foi...
- Bom, moça. Eu acho que o rapaz aqui não fez nada de muito sério.- Como assim? O senhor vai deixar ele ir embora assim. – indignada.
- Não posso prender ninguém por elogiar outra pessoa e além do mais, se a dona me permite, ele tem razão, a moça tem um... uma... é muito bonito mesmo.
- Mas que absurdo! Não dá pra contar nem com a polícia mais. Que abuso. Deixa’ssim, deixa’ssim – e foi saindo desarvorada enquanto o guarda voltada para o sinal rindo e balançando a cabeça negativamente e o rapaz tomava seu rumo e ia seguir a vida.
Ela chegou em casa ainda bufando, abriu a porta nervosamente e bateu para fechar, jogou a bolsa sobre o sofá e entrou apressada no quarto. Parou em frente ao espelho e tirando os brincos ainda sussurrava para si mesma, “Que absurdo, que absurdo!”
Começou a tirar a roupa para tomar um banho e no atabalhoamento da raiva quase caiu na perna da calça. “Absurdo, absurdo!”
Mas agora já começava se acalmar. Afinal, não tinha sido tão sério assim. Por mais inconveniente que tivesse sido, o rapaz não lhe passara a mão, não a chamara de gostosa nem nada vulgar. Só fizera um elogio. Só. Podia ter-lhe elogiado os cabelos, os ombros, os tornozelos e não teria ficado ofendida. Pensando bem exagerara um pouco. “Ai que vergonha”, pensava agora.
- Deixa pra lá. Vou tomar meu banho.E, só de calcinha, quando já ia sair da frente do espelho e tomar rumo do banheiro, não pôde deixar de deter o olhar na própria bunda. Virou o corpo melhor, girou o pescoço. Até que era graciosa. Não pôde também deixar de soltar um leve sorriso, de vaidade, satisfação provavelmente. Nunca gostara muito da própria bunda.
Cly Reis
quarta-feira, 1 de junho de 2011
The Zombies - "Odessey and Oracle" (1968)
"Não tenhas medo; esta ilha é sempre cheia de sons, ruídos e agradáveis árias, que só deleitam, sem causar-nos dano. Muitas vezes estrondam-me aos ouvidos mil instrumentos de possante bulha; outras vezes são vozes"
trecho de "ATempestade" de Shakespeare,
na contracapa do disco
na contracapa do disco
Banda de dois discos apenas. Em parte por conta de questões internas e muito por motivados por questões de gravadora, o The Zombies acabou lançando seu segundo e derradeiro álbum, o brilhante “Odessey and Oracle” , já sabendo que seria o último, mas foi o que bastou para garantirem seu lugar de destaque na história do rock e especificamente na formação do pop-rock britânico.
O disco com seus toques psicodélicos e climas barrocos, por vezes pode soar meio datado com a marca dos anos 60 por conta de seus excessivos côros de fundo, mas por outro lado, se bem analisados,estes mesmos arranjos vocais mostram-se de impressionante qualidade e sensibilidade, e a sonoridade da banda revela, por sua vez, um sutil refinamento e avanço da musicalidade daquela época em direção a um modelo pop mais contemporâneo.
O grande sucesso da banda, “Time of the Season”, provavelmente a melhor canção pop de todos os tempos, é um claro exemplo disso, com uma composição moderna, que atinge tal grau de sofisticação, que poderia tranquilamente passar por uma gravação atual de qualquer banda do momento, tal sua contemporaneidade.
Destaques também para “Care of Cell 44” que abre brilhantemente o disco, para a doce balada “Rose for Emily”, para a sombria “Beachwod Park”, para a psicodelia 'medieval' de “Butcher's Tale” e para outra daquelas atemporais, a ótima "I Want Her, She Wants Me".
Observar para o curioso nome do álbum originado, na verdade, por um erro de grafia do designer gráfico da época que escreveu odessey e não odyssey. Erro que, ironicamente, acabou consagrado em um dos grandes discos da história.
FAIXAS:
- "Care of Cell 44" (3:53)
- "A Rose for Emily" (2:17)
- "Maybe After He's Gone" (2:31)
- "Beechwood Park" (2:41)
- "Brief Candles" (3:38)
- "Hung Up on a Dream" (2:58)
- "Changes" (3:16)
- "I Want Her, She Wants Me" (2:50)
- "This Will be Our Year" (2:07)
- "Butcher's Tale (Western Front 1914)" (2:45)
- "Friends of Mine" (2:15)
- "Time of the Season" (3:31)
Ouça:
The Zombies Odessey and Oracle
Cly Reis
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