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segunda-feira, 30 de abril de 2012

Lauryn Hill - "The Miseducation of Lauryn Hill" (1998)


A escola de Ms. Hill

"O hip hop encontra escrituras transformando o negativo numa coisa positiva”
Lauryn Hill

A década de 90 lançou um filme que entrou pra minha lista de melhores filmes de todos os tempos (não digo que é uma lista de 10 ou de 100, porque perdi a conta, mas engloba todo tipo de filme), o "Mudança de Hábito 2". Uma comédia musical que me chamou atenção pela qualidade dos cantores, pelo repertório e pelo conjunto da obra. Uma cantora em especial, Lauryn Hill, que já participava do grupo de hip hop Fugees, mas que para mim ainda era desconhecida, se tornou um objeto de desejo. Queria saber mais sobre ela, o que fazia, o que estaria por fazer, mas nessa época o acesso às informações musicais era difícil, afinal de contas a internet ainda não estava disponível para todos.
Em 98, Lauryn Hill (nascida em 25 de maio de 1975, na cidade de South Orange, New Jersey), lança o álbum "The Miseducation Of Lauryn Hill". Na primeira oportunidade adiquiri o disco e continuo ouvindo até hoje. O seu nome traduzido significa “A Deseducação de Lauryn Hill” e tem como capa uma xilogravura da cantora – uma referência ao disco "Burning", do The Waylers - numa mesa escolar. Este ambiente é o tema do álbum, usando como referência, logo em sua abertura na faixa "Intro", um sinal de entrada e uma lista de chamada. Ainda há interlúdios entre algumas faixas simulando o intervalo entre as aulas.
Na segunda faixa Ms. Hill abre com o rap "Lost Ones", uma batida sobre os perdidos, uma canção sobre a realidade. E é a partir da concepção de realidade que as músicas se sustentam ao longo do disco. Ela não se preocupa com o amor romântico de baladas superficiais, mas explora a vida como ela é, como na faixa 3. A música "Ex-Factor" é uma batida mais lenta, sobre as contradições e sofrimentos de um amor inacabado, assim como a música 8, que retoma o amor, porém não correspondido.
"To Zion", é uma homenagem à decisão de ter o seu primeiro filho, junto a Rohan Marley (filho de Bob Marley), já que a aconselharam a abortar para que não atrapalhasse o momento de sua carreira. Ainda bem que a decisão foi contrária, pois um dos maiores hits do disco é exatamente esse, que ainda contou com a participação de Carlos Santana.
Doo wop é um estilo musical que surgiu na comunidade negra dos EUA, baseado no R&B, com a particularidade de ter uma harmonia de vocais. Lauryn Hill escancara suas referências musicais nomeando a faixa 5 como "Doo Wop (That Thing)", recriando o estilo, utilizando os vocais pra falar sobre garotos e garotas, e sobre o que eles buscam. A resposta está no refrão: “Garotos é melhor vocês ficarem ligados... algumas garotas só estão atrás ‘daquilo’... Garotas é melhor vocês ficarem ligadas... alguns caras só estão atrás ‘daquilo’”. Da faixa "Doo Wop...", Lauryn viaja novamente pelo hip hop nas duas músicas seguintes, "Superstar" e "Final Hour".
Fica claro que as letras vão além de meras rimas e bons compassos. A ideologia por trás delas gira em torno da realidade vivida por adolescentes negros, de escolas negras, de bairros negros, como na música "Everything Is Everything". Nesta, ela exalta o poder de transformação do hip hop, como no trecho: “ ...o hip hop encontra escrituras transformando o negativo numa coisa positiva”. Já na música "Forgive Them Father", Lauryn se vale de partes da Bíblia para criticar tanto o sistema capitalista como as relações inter-raciais.  Mas é na música "Every Guetto, Every City" que ela usa de metalinguagem para falar de sua própria adolescência, onde era uma menina de pernas magras, que sonhava com o sucesso.
O sucesso, Ms. Hill obteve de forma meteórica. Ganhou cinco prêmios das onze indicações ao Grammy: álbum do ano, artista revelação, prestação vocal R&B feminina, canção R&B e álbum R&B. Vendeu por volta de 400.000 cópias só na primeira semana e entrou para a lista dos 200 álbuns definitivos no Rock and Roll Hall of Fame.
Sua “deseducação” alcançou o mundo, rompendo barreiras entre classes sociais. Porém, assim como podemos entender que o disco engloba críticas variadas, nas variadas faixas, a última música, cujo título é homônimo ao álbum, apresenta uma visão mais para dentro dela mesma. Há questionamentos quanto à repressão externa, do que as pessoas esperavam dela. Logo, “deseducação”, como um todo, significa crítica, questionamento, aprendizado. Mas a sua própria “deseducação”, pode ser um grito de liberdade, de uma pessoa que teve que se adequar às formas para ser quem é.
O disco não pára por aí. Algumas músicas não citadas merecem atenção e duas outras entram na faixa bônus. Uma delas é a regravação de Frankie Valli, a "Can’t Take My Eyes Off You". Após o sucesso, Ms. Hill gravou um Unplugged pela MTV, sem projeção e entrou numa espécie de torpor criativo. O álbum foi tão marcante que os seus fãs aguardam não só os shows baseados nesses sucessos, mas que sua criatividade e reinvenção sejam motivos de inspiração para um novo trabalho.
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FAIXAS:
01. Intro
02. Lost Ones
03. Ex-factor
04. To Zion
05. Doo Wop (That Thing)
06. Superstar
07. Final Hour
08. When It Hurts
09. I Used To Love Him
10. Forgive Them Father
11. Every Ghetto, Every City
12. Nothing Even Matters
13. Everything Is Everything
14. The Miseducation of Lauryn Hill

faixas extra:
15. Can't Take My Eyes Off You
16. Tell Him (live)


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Ouça:
The Miseducation of Lauryn Hill


sábado, 28 de abril de 2012

O Frango Atirador


Coleção Folha Literatura Ibero-Americana



Mais uma coleção bem legal do jornal Folha de São Paulo. Agora é de autores de línguas portuguesa e espanhola. São 25 números que saem nas bancas todos os finais de semana.
As vendas iniciaram-se na verdade há duas semanas quando saiu o primeiro número, de Jorge Luís Borges ("O Livro de Areia") com o segundo volume de brinde, os "Sonetos do Amor Obscuro e Divã do Tamart" de García Lorca, mas a partir do 3° número, é individual custando R$16,90 cada. Mas certamente ainda é fácil encontrar os 3 primeiros volumes.
Hoje, por exemplo, está nas bancas o quarto título, "Memória de Elefante" de Antônio Lobo Antunes mas a lista é boa e conta com nomes consagrados como Neruda, Saramago, Ernesto Sabato e o brazuca Moacyr Scliar. Aparecem também o bom Javier Cercas, espanhol que eu descobri há pouco  no interessante romance "O Motivo" e uma das revelações da literatura contemporânea dos últimos anos, o português Miguel de Sousa Tavares, autor do badalado "Ecuador".
Não vou comprar todos. Alguns não interessam, outros eu já tenho, outros, honestamente, eu nem conheço, mas vale a pena ficar de olho nos títulos a seguir nas bancas e ver o que há de interessante.


Cly Reis

quinta-feira, 26 de abril de 2012

cotidianas #156 - Concepção



Dei para isso agora:
Ando parindo palavras
Sinto-as no bucho, pesando
Afoitas por receberem luz, por respirarem ar
Gestação sem idade
Sem calendário
Sem útero

"Maternidade" - Segall, Lasar
aquarela e grafite sobre papel (1922)
Caminho pelas ruas
E, quando vejo, saiu
Escorrem perna abaixo
A qualquer hora
Várias delas, filhas de todos os formatos, de diferentes caras
Tomam vida logo
Erguem-se e já saem voando
Ganham as ruas
Vão com o vento

Mesmo assim, me pergunto: serão palavras isso que paro, gesto?
Essas que ouço, que ora choco
Que ora me sobem pelo esôfago
E me engasgam sem, contudo, se pronunciarem?
Paro e observo o gesto
Desconfio...

Isso, que se me põe ora sílaba, ora fonema
Ora uivo
Ora pois!

Não, não podem ser palavras
Nem tudo que há dentro cabe nestas borboletas aflitas
Limitadas
Que precisam da atmosfera para bater asas

Agora entendo
Toco meu ventre e sinto
Meu verdadeiro útero está tomado disso: dos sons que vêm dela

Claro!
É isso
Matei a charada:
Estou prenhe de música. 

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Internacional x Fluminense - Bar Copinha / Copacabana - RJ

Hoje, em Porto Alegre, lugar de colorado é no Beira-Rio e no Rio lugar de colorado é no Copinha.
Galera se reunindo, aquecendo, tomando umas. Daqui a pouco começa a peleia.
Vamo, vamo, Inter!


C.R.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Pink Floyd - "Wish You Were Here" (1975)


"Shine On You Crazy Diamond" não é realmente sobre Syd
— ele é só um símbolo para todos os extremos de ausência
que algumas pessoas têm de passar
porque é o único jeito com que elas podem lidar
com o quão triste isso é."
Roger Waters



O sucessor do brilhante "The Dark side of the Moon" carregava consigo já, antes de seu lançamento, a grande responsabilidade de no mínimo se manter no mesmo patamar técnico, criativo, qualitativo e por que não, seguir as marcas de sucesso do seu antecessor. O Pink Floyd não esteve muito segura quanto a lançar um novo álbum tão cedo. Houve divergências quanto a trabalhar mais o novo disco, prolongar a turnê do exitoso álbum anterior, discutir mais o conceito, mas por fim, o que apresentaram não foi nada mais nada menos que outra obra-prima do rock. "Wish You Were Here" era lançado em 1975 e trazia estados alterados da mente, espíritos maltratados, melancolia, decepções com o meio musical e com a sociedade como um todo. Tudo isso traduzido brilhantemente de maneira poético-musical por Gilmour, Waters, Wright e Mason.
O álbum é constituído a partir de uma longa peça musical em duas partes e apenas outras 3 canções. "Shine on You Crazy Diamond", a composição que abre e fecha a obra, dividida no primeiro trecho em 5 partes e no segundo, o final, um pouco mais encorpado, em 4, é uma pequena sinfonia monumental desenvolvida pacientemente, agregando elementos até preencher-se por completo constituindo por fim uma joia musical de rara inspiração. Composta em homenagem ao amigo e ex-parceiro de banda, Syd Barrtet, "Shine on You Crazy Diamond" trata do desequilíbrio interior, da confusão mental, da perda de si próprio, numa das mais belas canções da banda e com atuações individuais absolutamente notáveis de cada um dos intergrantes.
"Walcome to the Machine", sobre as imposições, vontades e condições do mundo da música tem destaque para os teclados e sintetizadores de Wright; "Have a Cigar", como que compensando o fato de ter sido praticamente preterido pela banda em nome de um vocalista convidado para cantar a canção, tem uma performance excepcional de Waters no baixo; e "Wish You Were Here", a faixa que empresta o nome ao álbum, é simplesmente uma das mais belas baladas já feitas na história da música, com seu inconfundível e belíssimo riff e uma interpretação emocionante de David Gilmour.
E o sucessor de "The Dark Side of the Moon" não só não decepcionava como em pouco tempo se constituiria em um daqueles discos legendários da história do rock.
Álbum brilhante! Como um diamante. Lapidado, raro, louco... cheio de luz e matizes.
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FAIXAS:
01 - Shine On You Crazy Diamond (Part 1-5) (vocal principal: Waters)
02 - Welcome To The Machine (vocal principal: Gilmour)
03 - Have A Cigar (vocal principal: Roy Harper)
04 - Wish You Were Here (vocal principal: Gilmour)
05 - Shine On You Crazy Diamond (Part 6-9) (vocal principal: Waters)

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Ouça:
Pink Floyd Wish You Were Here


Cly Reis

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O Frango Atirador

cotidianas #155 - Dia do Índio - "Índios"


Quem me dera ao menos uma vez
Ter de volta todo o ouro que entreguei a quem
Conseguiu me convencer que era prova de amizade
Se alguém levasse embora até o que eu não tinha.


Quem me dera ao menos uma vez
Esquecer que acreditei que era por brincadeira
Que se cortava sempre um pano-de-chão
De linho nobre e pura seda.


Quem me dera ao menos uma vez
Explicar o que ninguém consegue entender
Que o que aconteceu ainda está por vir
E o futuro não é mais como era antigamente.


Quem me dera ao menos uma vez
Provar que quem tem mais do que precisa ter
Quase sempre se convence que não tem o bastante
Fala demais por não ter nada a dizer.


Quem me dera ao menos uma vez
Que o mais simples fosse visto
Como o mais importante
Mas nos deram espelhos e vimos um mundo doente.


Quem me dera ao menos uma vez
Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três
E esse mesmo Deus foi morto por vocês
Sua maldade, então, deixaram Deus tão triste.


Eu quis o perigo e até sangrei sozinho
Entenda
Assim pude trazer você de volta pra mim
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do iní­cio ao fim.


E é só você que tem a cura pro meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.


Quem me dera ao menos uma vez
Acreditar por um instante em tudo que existe
E acreditar que o mundo é perfeito
E que todas as pessoas são felizes.


Quem me dera ao menos uma vez
Fazer com que o mundo saiba que seu nome
Está em tudo e mesmo assim
Ninguém lhe diz ao menos, obrigado.


Quem me dera ao menos uma vez
Como a mais bela tribo
Dos mais belos índios
Não ser atacado por ser inocente.


Eu quis o perigo e até sangrei sozinho
Entenda
Assim pude trazer você de volta pra mim
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do início ao fim.


E é só você que tem a cura pro meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.


Nos deram espelhos e vimos um mundo doente
Tentei chorar e não consegui.

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letra de "Índios"
Legião Urbana
(Renato Russo)

Ouça:
Legião Urbana - "Índios"

terça-feira, 17 de abril de 2012

cotidianas #154 - As Cinco Marias


As Cinco Marias



Mal acendeu o cigarro e já teve que apagá-lo. Ela havia chegado. Guto saíra direto da academia e agora a esperava no banco do volante em frente à loja em que Lúcia trabalhava, no Jardins, já um pouco impaciente com o atraso. Mas tudo bem: mulheres sempre se atrasam e, além do mais, seria naquela noite que “cometeria o crime”, que traçaria mais uma, e desta vez era Lúcia: loira, gostosa, boca carnuda, coxas torneadas. A sobrancelha não era das mais bonitas, meio serrilhada demais, e o nariz podia ser menos fino. Mas esses defeitos passavam. Embora não tivesse a estatura de modelo, pelo menos não era baixinha. Prospecto antigo; valia a pena. Carne boa.
Abriu por dentro a porta para ela com o gestual galanteador de roceiro que seduz o gado em direção ao abate, e o gado vai. Aliás, não à toa seu apartamento na Haddock Lobo era conhecido na sua roda de amigos como “O matadouro”. Por ali passavam mulheres toda semana, às vezes de quarta a domingo ininterruptamente. Incontáveis para qualquer outro ser humano, mas que Guto sabia na ponta do lápis. Uma média anual de praticamente uma e meia a cada dois dias. Embora achasse que podia melhorar, considerava boa a própria estatística. Orgulhava-se.
Porém deste montante algumas poucas espécimes se destacavam, vinham-lhe seguidamente à mente e, por algum motivo que desentendia, eram justamente os casos em que saíra, digamos, incomodado. Não raro lembrava-se de Júlia, Lea, Tatiana, Walkíria e Maria Clara. Esta, por ter sido a última das cinco, foi a que lhe fez tomar a decisão de nunca mais levar mulher em consideração. Foi a que lhe motivou uma das poucas certezas as quais conseguiu chegar nesses 29 anos de carros importados, baladas e faculdades inconclusas pagas: amor é para os fracos. Bem que diziam seu pai e seu avô, todos de nome Antônio Augusto, todos de sobrenome Albuquerque, todos sabedores desta máxima que ele também passou a partilhar. Maria Clara, assim, representava de certa forma ela e as outras quatro, aquelas que ele não conseguira prender e que, por falso despeito, chamava ironicamente de “falecidas marias”. O epíteto bíblico serviu não só às cinco, mas a todas as outras cujo nome não importava até o momento em que já podia deixar de gravá-lo. Funcionava assim: levou pra cama, virou maria. Os amigos, orgulhosos, sabiam: “Vai mais uma hoje, Guto? Qual o nome da maria de hoje?”. E riam.
Chegaram ao motel. O clima de brincadeira das preliminares lhe aborreciam profundamente, ainda mais quando fazia com que se lembrasse de umas coisas chatas da infância, e que, curiosamente, envolvia o bendito nome da mãe de Jesus de novo. Quando as meninas do condomínio brincavam, ele, tímido, franzino, a quem não se dava nada, até brincava quando elas o aceitavam na roda. Não raro dividia com elas as bonecas, e gostava. Mas quando inventavam de jogar as cinco marias, com aqueles saquinhos rendadinhos e meigos, Guto se afligia, pois, embora achasse bonito, não entendia a lógica da brincadeira. As meninas diziam, troçando-o, de que era facílimo se entender. Mas não lhe entrava na cabaça. Não havia explicação que adiantasse. E isso o constrangia sobremaneira. Diminuía-o.
Então, hoje, pensa: “nada de brincar. Vâmo pro que interessa! Fuc-fuc, coisinha, ferro na boneca!”, dizia nesta sequência corriqueiramente, fazendo o gesto de bater com as costas de uma mão na palma da outra. Foi assim com mais uma maria naquele início de noite, desta vez uma maria chamada Lúcia, a loira gostosa e pouco alta, de boca carnuda, coxas torneadas, sobrancelha serrilhada, etc. Foi lá: meteu, exercitou o tanquinho, exibiu a musculatura, ouviu gemidos de prazer, esporreou, recostou-se. Não sabia se ela tinha gozado também. O mais importante tinha cumprido: riscara mais uma maria aquele dia. Já podia esquecer que seu nome de verdade era Lúcia.
Ficou deitado com uma expressão triste e sem dizer nada. Beiço de criança desapontada. Arrumando os cabelos, ela, ainda ofegante (talvez por causa daquele provável orgasmo que ele, desinteressado, nem notara) olhou-o com curiosidade, mas também calada. Cada vez mais deprimido, Guto fixava os olhos úmidos no pé da cama, sentindo-se esquartejado. Estranho, mas seguido batia-lhe isso depois do sexo... Até que, de repente, seus olhos saltaram e seu rosto se iluminou. Soltou um sorriso surpreso e bobo de tão infantil. Finalmente apareceram! Nuas, brancas como gesso, as falecidas marias se embolavam umas sobre as outras num espaço mínimo entre os pés do casal e o fim do colchão. Era difícil entender como se equilibravam e cabiam naqueles centímetros, mas pareciam muito à vontade, como se tivessem brotado dali mesmo. Com os olhos vidrados em Guto, cada uma trazia um pedaço sobre os braços cruzados junto ao colo em forma de berço. Júlia, com um globo ocular; Lea, acomodava quatro dedos do pé esquerdo; Tatiana, sempre romântica, equilibrava o intestino grosso detalhadamente enrolado; Walkíria, a wagneriana, não haveria de carregar outra coisa se não a língua; e Maria Clara, sem dó como de costume, o pulmão direito. Olhando-o sem piscar, as falecidas lançavam um confortador sorriso maternal e cadavericamente doce para Guto, que se sentiu inteiro de novo.
Acendeu o cigarro. Já retomado seu olhar vitorioso sobre a natureza feminina característica da linhagem dos de Albuquerque, virou-se com boca de nojo pra ela e, sem pronunciar uma palavra sequer, disse só com a cabeça apontando para a porta: “Cai fora, vadia!”

Portishead - "Dummy" (1994)

MÚSICA DE PLÁSTICO
"Porque ninguém me ama, é verdade.
Não como você"
 trecho de 'Sour Times'




Tenho que admitir que me pareceu estranho num primeiro momento.
Aquilo parecia sem vida.
Na época eu lembro de ter definido aquilo como música de plástico. Era como se só a voz ali tivesse algum sinal humano. O resto era artificial, eletrônico, duro, sintético.
Aos poucos fui derrubando minha barreira criada nas primeiras audições e, além de entendendo melhor a música do Portishead, acabei sentindo-a melhor também. Ela tinha um elemento que me agradava muito, cria dos 80 como sou, que era aquela melancolia e escuridão do som dos góticos e similares; a voz da vocalista, Beth Gibbons, então, era na maioria das vezes pura dor e angústia, mas demorei um pouco para assimilar a transposição daquele tipo de som que eu curtia para os novos tempos que se apresentavam ali na metade dos anos 90. No fim das contas, provavelmente os elementos que eu mais relutara em aceitar, inicialmente, eram os que mais davam mérito ao som quase que único do trio de Bristol: as batidas secas, as programações, os scratches, os samples. Costuma-se definir o Portishead como uma banda de trip-hop mas, tão amplo de influências, referências e criatividade, considero hoje, já apaixonado por seu trabalho, limitado enquadrá-los apenas neste gênero.
"Dummy" seu álbum de estreia vai do jazz ao country, passando por funk, trilhas de filmes, tango, soul, hip-hop com naturalidade, sempre com samples inteligentes e criativos utilizados em colagens espertíssimas.
"Mysterons", a primeira do disco e a música que me fez começar a gostar de Portishead, apresenta-nos uma base fantasmagórica conduzida sobre uma percussão eletrônica à militar e um vocal levado entre a doçura e a angústia; um arpejado em linhas de tango abrem a boa "Sour Times" que traz um pouco mais de ritmo, mas não abre mão do pessimismo  (" 'cos nobody loves me..."); em "Strangers" Geoff Barrow apronta com uma genial repetição que lembra um telefone ocupado, acompanhado por uma guitarra bem distorcida; e o hip-hop chique "It Could be Sweet" pega mais leve e até poderia ser doce se não fosse sua letra amarga.
Scratches enlouquecidos, o vocal bem agudo e a batida 'de lata' marcam "Numb", uma das músicas responsáveis pela projetação da banda; um órgão quase monocórdio caracteriza "Wandering Stars"; "It's a Fire" é uma balada melancólica de vocal dolorido; "Roads" que parece estar ressoando o tempo inteiro é uma das que soa mais tristes do álbum e Beth Gibbons chega a parecer estar a ponto de se desfazer em lágrimas chegando ao final com o vocal rouco quase se desintegrando; "Pedestal" introduzida com um batidão alto e pesado, é bem jazz e traz uma linha de baixo sampleada bacanérrima, nesta com a voz soando mais mecânica que nas demais; e "Biscuit", com seu ar misterioso e repleto de dramaticidade, tem destaque para os trabalhos de samples, um de orquestra que permeia praticamente a música toda, e um de vocal ("I'll never fall in love again") que compõe e se integra à canção de uma maneira magnífica.
O disco encerra-se com a ótima "Glory Box", composta a partir do sample da música "Ike's Rap II" de Isaac Hayes, que depois de todos os clamores suplicantes de Beth Gibbons, de um solo estridente e melancólico de guitarra de Adrian Utley, é finalizada com uma batida grave e estrondosa como que imitando um coração batendo.
É, eu estava errado. Aquilo não era música de plástico.
Ali havia vida.
Ali existia um coração batendo.

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FAIXAS:
1."Mysterons" – 5:02
2."Sour Times" – 4:11
3."Strangers" – 3:55
4."It Could Be Sweet" – 4:16
5."Wandering Star" – 4:51
6."It's a Fire" – 3:48
7."Numb" – 3:54
8."Roads" – 5:02
9."Pedestal" – 3:39
10."Biscuit" – 5:01
11."Glory Box" – 5:06

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Ouça:
Portishead Dummy




Cly Reis

sábado, 14 de abril de 2012

cotidianas #153 - Jesualda



JESUALDA
(Jorge Ben)
Jesualda parou com o morro
Pois ela estava no alto
Mas não estava por cima
Moça simpática prendada ano ginasial completo
Toda certinha ainda donzela
Prá ninguém botar defeito
Cheia de afeto
Desceu pra ver de perto o asfalto quente
Sentir a brisa e a água salgada do mar
Molhando seu corpo delgado
Procurou um emprego e achou
Foi trabalhar num duplex na zona sul
De cozinheira de forno e fogão
La, la, la, la, la, la, la, la, la
La, la, la, la, la, la, la, la, la
Na flor da idade
Tão pura tão linda tão meiga
No ponto do ônibus
Num domingo à tarde
Sua felicidade pintou
Pois um moço simpático
Que ia no seu carro meio apressado
Com bandeira e tudo
Com bandeira e tudo ao Maracanã
No que olhou pro lado, parou
Saltou levou um papo
E a linda simpática donzela ele amarrou
Hoje Jesualda é feliz
Casou de véu e grinalda
E agora espera baby
Espera baby no exterior
Espera baby no exterior
Salve simpatia

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Ouça:
Jorge Ben - "Jesualda"

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Os Causo de dois Morro - O maior estádio do mundo

Pelo que nóis andô sabendo aqui em Dois Morro vai tê Copa do Mundo no Brasir. Eu sube que tão recauchutando uns campo de futebor por aí. Hmm...
Minerão, Ponte Nova, Maracanão... Faço pôco!!!
Estádio mesmo é o Municipar.
Pôca gente sabe mas Dois Morro tem o maior estádio do mundo. Todo mundo fala de Maracanhã, Uêmbli... Tudo fichinha perto do Estádio Municipar de Dois Morro "Epaminonda Nepomuceno Neto”, que nóis chama só de Municipar, mesmo.
O Municipar de Dois Morro
meio mal conservado
No Municipar? Ah, cabe mais ou mens uns trêis Macarranã drento. Coisa linda dissivê.
E muito antes de se inventá essas coisa de arena murtiuso nóis já usava o Municipar pra gineteada, feira gropecuária, exposição de profiteróle, fandangada, matadôro, moter e ôtras cozas más.
O inauguramento do Municipar deu-se em 1886 num amistoso entre Doismorrense contra os Amigos do Arlindo Cachaça. O púbrico totar deu de mais de 500.000 pessôa. Ganhemo de 5x1: dois do Zuninga, um do Xinapre, um do juiz, um do bandeirinha, um do maqueiro, um do Beijoqueiro e um do gandula; o golo deles foi contra do nosso beque, o Morrão, que tava bêbado.
Cês acho que o Bombonera é calderão? É porque cês num conhecero o municipar. Procês tê uma ideia, o alambrado era tão perto do campo que o torcedor ali na ponta, perto da cerca é que batia o escanteio. As mulhé passavo as mão nas perna dos jogador que elas achavo bonito. Ééééé! Pressão totar!
Durante muitos ano o Doismorrense mandô seus jogo lá. Foi Dezacampeão nacionar, Tri da Conquistadores da Mérica (não por ter ganhado trêis vêiz, porque na vardade nóis ganhemo 6 título, mas a gente dizia que era tricampeão porque o time era tri bom) e 5 vêiz campeão mundiar. Depois nóis cansemo de tanto ganhá e encerramo o futebor profissionar. Hojendia o Municipar tá lá. Bandonado. Jogado às traça. Curpa da diministração incompetente do novo Perfeito, o Dr. Emiliano Vendelino. Ladrão, safado, senvergonho.
Com um poquinho de esforço e se não robasse tanto, podia tê levado a Copa pra Dois Morro. Era só dá uma ajeitadinha no Municipar e ele tava novo em folha.
Mas há de se fazê o quê?
Mas que era um tempo bão aquele que a gente ia no Municipar pra vê o Doismorrense jogá, isso era. Ia as família pro estádio, ia a piazada, ia os boi, ia os porfiteróle, os muffin. E o espetáclo era garantido: os craque do Doismorrense não decepcionava a gente. Sempre tinha no mínimo uns 3 jogador do adeversário com a perna quebrada. Aquilo é que era futebor bonito.
Ah, tempo bão.


postado por Chico Lorotta

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Arte Espontânea









Arte Espontânea
superfície de compensado manchada e arranhada

fotos: Cly Reis

Hank Williams - "Memorial Album (1953)

"Poucos compositores deste século
souberam expressar a
profunda dor da solidão
e da saudade por causa do amor
tão sombria e docemente como Hank Williams"
Matt Johnson, The The


Conheci Hank Wiliams através do The The. Seu líder e homem-banda, Matt Johnson, resolveu homenagear o lendário cantor country com a gravação de um álbum só com versões e releituras das músicas de Hank, chamado "Hanky Panky". Matt já havia feito um música numa linha mais country para a trilha do filme "O Juiz" e me deixara uma boa impressão, despertando alguma curiosidade quanto ao que poderia na matéria que se propunha então. Ouvi o "Hanky Panky" do The The, gostei bastante e fiquei bastante curioso a partir disso para ouvir, então, o verdadeiro, o original, uma vez que ouvira muito falar a respeito dele mas nunca havia escutado suas músicas interpretadas por ele mesmo. Até porque o astro country dos anos 40 e 50, tinha a fama de ser maldito, marginal e muito rock'n roll antes mesmo do termo ser efetivamente abençoado por Chuck Berry.
O disco que destaco aqui é um dos poucos dos quais falo nesta seção que não tenho. Ouvi e tenho, na verdade uma coletânea com todos os grandes sucessos do cantor chamada "Hank Willliamms 40 Greatest Hits", mas como o legal aqui é destacar sempre uma obra concebida, seu contexto histórico, suas circunstâncias de produção, etc., aponto como Fundamental o "Memorial Album", terceiro disco de Williams e contentor de alguns de seus grandes sucessos como "Move it on Over e "Your Cheatin' Heart".
"Move it on Over" é uma canção descontraída, alegre, conduzida por um violino e cantada naquela voz anasalada de Williams com uns propositais falseamentos de 'rouquidão' que já eram tradicionais nas suas interpretações; divertida também é a grande "Hey, Good Lookin'", fronteira entre o country, o blues e o rock;  "Your Cheatin' Heart" ainda, até hoje, persiste como uma das  mais belas baladas já feitas e ganhou posteriormente versão de Elvis Presley; e "You Win Again", brilhante, teve versão gravada pelos Stones presente nos extras do álbum  "Some Girls" .
"Cold, Cold Heart", outra balada, tem outra interpretação marcante ; "Half as Much" e "I Could Never Be Ashamed of You", também lentas, de dor-de-cotovelo, fazem o estilo bem campeiro característico; e "a ótima "Kaw-Liga", bem rock'n roll no conceito, tem uma batida indígena forte e marcada acompanhada por um violino.
Influência evidente para artistas como os já citados Elvis e  Rolling Stones , além de outros como Bob Dylan, Neil Young, Johnny Cash, The Smiths entre tantos outros, Hank Williams, ali por aquele final de anos 40 representava mais um passinho que a música dava em direção ao que seria o rock'n roll.

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FAIXAS:
  1. Your Cheatin' Heart
  2. Settin' The Woods On Fire
  3. You Win Again
  4. Hey, Good Lookin'
  5. Crazy Heart
  6. Move It On Over
  7. Cold, Cold Heart
  8. Kaw-Liga
  9. I Could Never Be Ashamed Of You
  10. Half As Much
  11. My Heart Would Know
  12. I'm Sorry For You, My Friend
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Ouça:
Hank Williams Memorial Album



Cly Reis

terça-feira, 10 de abril de 2012

Maurice Ravel - "Bolero" (1928)

"Ele sabe muito bem o que fez.
Não se pode falar de forma
nem de desenvolvimento ou modulação (...)
é uma coisa que se autodestroi,
uma partitura sem música, uma fábrica orquestral sem objeto,
um suicida cuja arma é apenas o alargamento, a amplificação do som."
Jean Echenoz, 
escritor francês, autor do romance "Ravel"


Um único movimento.
Uma sequência rítmica que se repete ao longo de mais de 15 minutos assumindo variações, adquirindo forma, desfazendo-se e incorporando elementos. Ora erguendo-se em ênfases, ora reduzindo-se quase a silêncio.
Uma obra-prima minimalista de linhas grandiosas, tons heróicos, um acento levemente ibérico e percussão quase militar.
Uma composição crescente que vai ganhando corpo, forma, amplitude pelo acréscimo progressivo de instrumentos, partindo de um vazio sonoro até chegar um final apoteótico no qual todos os elementos se unem para propiciar um êxtase total.
Modelo de composição altamente moderno e sofisticado, influente para a música da sequência do século 20, encontrado com frequencia em gêneros tidos por vezes como limitados ou burros, como a música eletrônica, por exemplo.
Este é o "Bolero".
De Maurice Ravel.
Um único movimento.
Um movimento único.

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FAIXAS:
1. Boléro (16:13)
2. La Valse (13:17)

*Os primeiros lançamentos em disco de "Bolero" apareceram em um compacto que tinha "La Valse" no outro lado. Teve vários outros formatos posteriormente mas ainda há edições onde se encontra esta primeira disposição.
*Há divergências quanto à duração oficial da peça: originalmente, pela partitura de Ravel ela teria algo em torno de 14 minutos, porém execuções mais lentas chegam mesmo a ter durações superiores a dezoito.
* A minha versão, que tenho em casa, da Slovak Radio Symphony Orchestra, tem duração de pouco mais de dezesseis minutos.
*"La Valse", apenas pra não deixar passar, também é uma peça bastante interessante. Intensa, de tom grandioso, misterioso e de valseado levemente insinuado. Muito valorosa também e não deve ser ignorada, de forma alguma.


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Ouça:
Bolero - Maurice Ravel (Orquestra Sinfônica de Londres - regência Valerie Gergiev)
La Valse - Maurice Ravel (Orquestra Filarmônica Radio France - regência de Myung-Whun Chung)

Cly Reis

sábado, 7 de abril de 2012

cotidianas #152 - "Coelho da Páscoa"


- Só o nêgo, só o nêgo!
Minha mãe que sempre tem histórias de infância intreressantes, emocionantes ou engraçadas (ou tudo isso junto) conta que era assim que o Paulinho, meu tio, seu irmão mais velho reclamava quando era incumbido de alguma tarefa como lavar a louça, limpar o pátio ou ir buscar pão, julgando-se sempre o sobrecarregado, o injustiçado, uma vítima das crueis ordens dos mais velhos.
- Só o nêgo, só o nêgo - protestava ele, não raro desobedecendo mesmo, a determinação da Dona Izaura, sua mãe, recusando um favor a um dos irmãos ou contrariando alguma tia. E foi o que aconteceu naquela tarde de véspera de Páscoa quando uma tia, irmã de minha avó que sinceramente não lembro o nome, que os visitava naquele dia, pediu para o Paulinho ir no armazém buscar cigarros para ela. Diante do já mencionado protesto e da recusa veemente, a tia ainda tentou argumentar:
- Olha, Paulinho, que amanhã é Páscoa e o Coelhinho não vai te trazer nada.
- Haha! Eu não acredito em Coelhinho. isso nem existe! Haha! - troçou ele - Manda outro.
- Paulinho, deixa de ser teimoso e vai na venda pra mim.
- Não vou, nada! Só o Nêgo? Manda a Iara.
- Paulinho, o Coelhinho da Páscoa não gosta de guri malcriado.
- Ah, essa coisa de coelho nem existe! É tudo bobagem! Eu não acredito mais nisso. - exibiu-se o neguinho todo senhor de si.
- Tu vai pra mim, Iara? - perguntou a tia, ao que a sobrinha assentiu e foi-se buscar a encomenda.
Acontece que naquele tempo, pobres que eram, meus avós não podiam nem pensar em dar-se ao luxo de dar presentes de Páscoa, Natal, Dia da Criança ou qualquer coisa do tipo, e aquela tia, com uma situação financeira um pouco melhor, fazia a boa ação de distribuir ovinhos para os filhos da irmã desfavorecida sempre que podia. Só que aquela malcriação do Paulinho não podia ficar assim. Ele ia ver só.
- Paulinho, tu vai ver que o Coelhinho da Páscoa vai é te deixar uma vara de marmelo do lado da tua cama pra tu deixar de ser malcriado.
- Aha! - e foi-se lá ele brincar rindo todo prosa.
O dia passou e à noite todos foram dormir com a expectativa de encontrar 'alguma coisa' embaixo de usas camas. Embaixo da cama é modo de dizer, pois a situação da família era tão precária que havia na verdade poucas camas para abrigar tantos filhos e a maioria dormia mesmo em colchõezinhos no chão. Assim, e expectativa na verdade era de encontrarem algo ao lado do seu colchão.
Aquela noite a pequena Iarinha ansiosa pelo regalo do Coelhinho mal pregou o olho. Até dormia mas era um sono leve, atento, esperando pela chegada do famoso Coelho da Páscoa. Como ele seria? Peludão? Grande? Trazia várias cestinhas? Até que lá pelas tantas da madrugada, quando todos os irmãos já tinham dormido... eis que ela ouve passos abafados. Faz de conta que está dormindo mas deixa um olho entreaberto. Os passos continuam a se aproximar até que ela vê: ele. Era o Coelhinho da Páscoa. Vê o Coelho grande, um peludo bípede de ar bonachão, orelhas longas e pés grandes e peludos. Apesar da emoção continua fingindo dormir enquanto o vê deixar cestinhas ao lado de cada um dos colchões. Quando vê que vai se aproximar de sua 'cama', ao rés-do-chão, fecha imediatamente o outro olho e imita uma respiração de sono profundo. Assim que sente que se afastou, volta a abrir o olho e ainda consegue vê-lo deixar alguma coisa diferente ao lado do colchão do traquinas irmão Paulinho. O que era aquilo? Puxa! uma vara de marmelo. O misterioso peludo deixa a vara e sai silenciosamente do quarto e apesar da surpresa, da excitação, da emoção, depois disso a pequena Iara finalmente adormece.
Na manhã seguinte acorda já com a algazarra dos irmãos. Aquela folia generalizada pela descoberta dos cestinhos ao lado dos catres. Tudo exatamente na mesma posição que a menina Iara vira na noite anterior, inclusive o seu, exatamente onde ele havia deixado. Tudo certinho: as mesmas posições no chão, as mesmas decorações de fitas, as mesmas cores dos ovos. Então... não tinha sido um sonho! E reforçando sua certeza de que não sonhara, naquele momento, em meio à comemoração dos outros irmãos, via o Paulinho acordar cheio de expectativa e deparar-se com aquela vara de marmelo colocada ao lado do colchão.
Tinha sido verdade mesmo!
Tinha sido verdade!
Emburrado, indignado, enfurecido, o Paulinho apanhou sua vara, correu pro meio do pátio e chorando quebrou o galho espinhento nas coxas finas ignorando a dor sob a risada dos irmãos e o regozijo da tia.
- Viu, Paulinho, eu não te disse que o Coelhinho ia te trazer uma vara de marmelo?
E o guri enfurecido continuava quebrando o presente em quantos pedacinhos fosse possível e repetindo sem parar "Eu odeio o coelhinho! Odeio esse coelho!".
A menina Iara, no entanto, só pensava no que havia visto na noite anterior. Um coelho grande, de carinha simpática, do tamanho de um homem, de patas grandes e felpudas. Tinha sido verdade, tinha sido verdade.
Não sei o que a minha mãe viu naquela noite. Sei que por certo não sonhou pois as cestas, os lugares, as cores eram exatamente como tinha visto à noite e além do mais vira a vara de marmelo ser posta lá. Pode-se dizer que a tia tivesse se fantasiado de coelho e entrado sorrateiramente no dormitóiro das crianças para pôr as cestas, mas não, além do fato de não chegar a ponto de se prestar a uma coisa dessas, embora tivesse um pouco mais de recursos, certamente não tinha tanto que pudesse desperdiçar numa fantasia, ainda mais para, muito possivelmente nem ser vista por nenhum dos sobrinhos. Pode-se também dizer que o subconsciente montou a situação toda de coelho, ovos, vara, irmão e numa espécie de sonho quase acordada tenha misturado fantasia com realidade. É, acho um pouco mais provável. Mas não importa muito. O mais bonito disso tudo é que uma criança por uma noite, sendo verdade ou não, nas condições humildes em que vivia, tenha experimentado a sensação de ver o Coelho da Páscoa. E minha mãe não é dessas que inventam coisas, que aumentam histórias para impresionar os filhos. Se ela diz que viu o Coelho, ela viu. Bom, ... ou pelo menos alguma coisa ela viu.


Cly Reis

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Pink Floyd - "The Division Bell" (1994)


“Eu tinha um cem número de problemas com a direção da banda no passado recente, antes de Roger sair. Eu achava que as músicas tinham muitas palavras, e que devido ao significado dessas palavras serem tão importantes, a música tinha-se tornado um mero veículo para as letras, o que não era muito inspirador...”
David Gilmour



Conheci Pink Floyd aos 7 anos, assistindo "The Wall", terminando o filme eu me liguei que já tinha escutado “aquela banda” e foi ai que tudo começou...
Particularmente, prefiro a “Era Gilmour”. Gosto do Waters também (tanto que até hoje assisto "The Wall"), mas o feeling do David é algo inexplicável! Não foi a toa que ele foi considerado 14º melhor guitarrista do mundo pela revista norte-americana Rolling Stone.
E esse álbum em especial, "The Division Bell" que foi lançado em 1994, é o que tem as músicas mais fantásticas que já ouvi. Solos de guitarra e vocais perfeitos.
Um belo exemplo de solo? "Coming Back To Life"!
De vocais?  "What Do You Want From Me", que, ao vivo é lindo de ver aquele bando de mulher fazendo esses backings.
Uma música em especial que cada vez que ouço me dá vontade de sair dirigindo sem rumo é  "Take It Back", não me pergunte o motivo. Mas, talvez seja por que a primeira vez que escutei foi em uma volta da praia com minha mãe, devia ter uns 13 anos, sentada no banco de trás e “obrigada” a escutar o que os adultos escutavam e, surprise: "Take It Back" na rádio.
O nome do disco faz alusão ao division bell (sino da divisão, traduzindo ao pé da letra). E nesse álbum, boa parte dele lida com as questões de comunicação, tipo a ideia de que muitos dos problemas da vida podem ser resolvidos através do diálogo. Canções como "Poles Apart" e "Lost for Words" às vezes são interpretadas como referências ao longo estranhamento entre o ex-membro Roger Waters e os restos dos integrantes da banda, Gilmour negou, no entanto que o álbum é uma alegoria sobre a separação.
Se é ou não, não sei. Só sei que é um baita álbum!
Gilmour usou vários estilos diferentes no álbum. "What Do You Want From Me" tem influências de blues de Chicago e "Poles Apart" tem vários tons folk. Nos improvisados solo de guitarra de "Marooned" usou um pedal Digitech Whammy para elevar as notas numa oitava. Em "Take It Back" usou um EBow (um dispositivo que simula o som de uma guitarra tocando com um arco, com uma Gibson J-200 passou por um aparelho de efeitos).
Como eu digo: esse cara é o cara!
Acabei falando muito do Gilmour, mas, com a saída do Waters da banda em 1985, ele disse que sem ele o Pink Floyd não ia pra frente. Daí, o Gilmour foi lá e assumiu  por completo o controle da banda, e tá ai um dos álbuns mais belos da “Era Gilmour” e do Pink Floyd!

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FAIXAS:
1. Cluster One
2. What Do You Want From Me
3. Poles Apart
4. Marooned
5. A Great Day For Freedom
6. Wearing The Inside Out
7. Take It Back
8. Coming Back to Life
9. Keep Talking
10. Lost For Words
11. High Hopes

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vídeo: Pink Floyd - "Coming Back"



Ouça:
Pink Floyd The Division Bell

Pix

quinta-feira, 5 de abril de 2012

cotidianas #151 - "Estrela da Manhã"


Eu queria a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã


Ela desapareceu ia nua
Desapareceu com quem?
Procurem por toda à parte


Digam que sou um homem sem orgulho
Um homem que aceita tudo
Que me importa?
Eu quero a estrela da manhã


Três dias e três noite
Fui assassino e suicida
Ladrão, pulha, falsário


Virgem mal-sexuada
Atribuladora dos aflitos
Girafa de duas cabeças
Pecai por todos pecai com todos


Pecai com malandros
Pecai com sargentos
Pecai com fuzileiros navais
Pecai de todas as maneiras
Com os gregos e com os troianos
Com o padre e o sacristão
Com o leproso de Pouso Alto
Depois comigo


Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas
[comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples
Que tu desfalecerás


Procurem por toda à parte
Pura ou degradada até a última baixeza
Eu quero a estrela da manhã.

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Estrela da Manhã
Manuel Bandeira

Poema Concreto










fotos: Cly Reis