Curta no Facebook

Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta Wally Salomão. Ordenar por data Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta Wally Salomão. Ordenar por data Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Maria Bethânia - "Drama - Anjo Exterminado" (1972)



capa e contracapa do álbum

"Drama
E ao fim de cada ato
limpo no pano de prato
as mãos sujas do sangue das canções"
da letra de "Drama"


Há tempos que queria escrever sobre este disco nos ÁLBUNS FUNDAMENTAIS, mas sempre hesitava exatamente por gostar demais dele e achar que por mais que o elogie, que lhe exalte, que lhe credite predicados, não seria o suficiente para ressaltar o quanto ele é bom, o quanto é grandioso, o quanto é excepcional. Ora, mas vamos tentar ao menos. Pra começar, Maria Bethânia é na minha opinião, nada mais nada menos que a maior cantora brasileira, a maior voz, a grande intérprete da MPB, talvez só comparável a Elis Regina. Neste disco em especial, “Drama - Anjo Exterminado” de 1972, Bethânia tem algumas de suas mais notáveis interpretações em um repertório extremamente bem selecionado que inclui Gilberto Gil, Luís Melodia, Herivelto Martins e, claro o irmão Caetano Veloso, indo do ponto de umbanda ao fado, visitando o brega e eventualmente o jazz, inveriavelmente esbanjando qualidade, emoção e versatilidade ao longo das 12 faixas.

A vinheta, canto tradicional praticamente declamado, “Ponto” abre o disco já emendando no choroso choro “Esse Cara”, cantado de forma triste e delicada por ela e encerrando com um pequeno trecho do clássico do cancioneiro romântico brasileiro, “Bodas de Prata”. O famoso samba “Volta por Cima” de Paulo Vanzolini fica vigoroso com ela, não somente pela interpretação única mas por uma linha de baixo quebrada que dá um toque sofisticado à canção; a espetacular “Anjo Exterminado” já seria admirável por si só por conta da brilhante composição de Jards Macalé e da letra de Wally Salomão, mas o jeito que ela canta, cada palavra, cada verso, cada inflexão... Nossa!!! parecendo carregar em si toda aquela angústia, aquele desespero, aquela procura, faz com que nas suas mãos, ou melhor na sua voz, torne-se algo superior e inigualável; “Estácio, Holly Estácio” de Luís Melodia ganha igualmente uma versão notável da Abelha Rainha; e a fantástica “Iansã”, oferenda musical de Caetano e Gil para a deusa dos raios no candomblé, é outra que vai da delicadeza ao vigor com uma naturalidade que somente uma grande intérprete pode conseguir.
O nome do disco não é à toa e o tom dramático, as tragédias, os abandonos estão presentes com freqüência: além das já mencionadas “Esse Cara” e “Bom Dia”, “Maldição”, por exemplo, um fado-samba com batidas altas de surdo, é extremamente dramático, quase teatral com um vocal cheio de sentimento e dor; isso sem falar na sangrenta “Drama”, tão cotidiana e praticamente novelística tal o exagero das emoções ali expostas.
A gostosa “Trampolim”, a graciosa “O Circo” e a sonoridade agradável, apesar da premissa pessimista, de “Negror dos Tempos”, suavizam o climão dolorido e sofrido da maior parte do disco. No entanto, não engane-se achando que esse conteúdo trágico, choroso, comovido venha a constituir um produto final maçante, de audição difícil, forçada. Pelo contrário: “Drama - Anjo Exterminado” com faixas bem distribuídas e minuciosamente bem produzido pelo mano Caetano, parece provocar sensações novas, diversas e surpreendentes a cada faixa compondo, ao fim, uma unidade absolutamente coerente e harmoniosa. Uma espécie de grande peça cênico-musical protagonizada por esta baiana de voz firme, potente, empostada que desfila interpretações, situações e personagens que culminam num final grandioso, um final dramático, como que ajoelhada com as mãos para o alto, com as mãos sujas de sangue das canções.
...............................................................................................

FAIXAS:
01 - Ponto (Tradicional)
02 - Esse Cara / Bodas de Prata (Caetano Veloso - Bodas de Prata de Roberto Martins e Mário Rossi)
03 - Volta Por Cima (Paulo Vanzolini)
04 - Bom Dia (Herivelto Martins/ Aldo Cabral)
05 - Anjo Exterminado (Jards Macalé/Waly Salomão)
06 – Maldição (Alfredo Duarte/ Armando Vieira Pinto)
07 – Iansã (Gilberto Gil / Caetano Veloso)
08 – Trampolim (Caetano Veloso / Maria Bethânia)
09 - Negror dos Tempos (Caetano Veloso)
10 - O Circo (Batatinha)
11 - Estácio, Holly Estácio (Luís Melodia)
12 – Drama (Caetano Veloso)

............................................................................................
Ouça;
Maria Bethânia Drama / Anjo Exterminado

Cly Reis

sábado, 16 de agosto de 2025

Metá Metá e Jards Macalé - Salão de Atos da Reitoria-UFRGS - Porto Alegre/RS (06/08/2025)

 

A Metá Metá é a melhor banda do Brasil pós-Chico Science & Nação Zumbi. Isso quer dizer muito, haja visto o terreno fértil para criatividade que a música brasileira pisa. Porém, nada bate o trio Kiko Dinucci (violão), Thiago França (sax e flauta) e Juçara Marçal (voz), que fez uma apresentação histórica num lotado Salão de Atos da Reitoria-UFRGS. O estilo do grupo, interseção entre música brasileira, africana, latina, free jazz, punk rock e avant-garde, desafia qualquer classificação. E se a Metá Metá é de fato a grande banda brasileira, imagina ela adicionada do talento inigualável de Jards Macalé? É para desafinar o coro dos contentes!

Com o trio começando no palco, eles mandaram algumas poucas músicas do repertório deles, porém muito bem selecionadas. Começando com a épica “Vale do Jucá”, canção que simplesmente inaugura o cancioneiro da banda no disco de estreia de 2010. Sobre negritude e força ancestral (“Uma palavra quase sem sentido/ Um tapa no pé do ouvido/ Todos escutaram/ Um grito mudo perguntando aonde/ Nossa lembrança se esconde/ Meus avós gritaram”). Que música! Na sequência, uma das melhores do repertório da Metá Metá: a possante “São Jorge”, que evocou o aguerrido Ogum para dentro do teatro na voz versátil e personalíssima de Juçara: “Guerreio é no lombo do meu cavalo”

Mais quatro do repertório antes de chamarem palco Jards: “Trovoa”, versão para a música do “Mulher Negra” Maurício Pereira, uma execução cheia de improvisos e de difícil canto, visto que de letra extensa e repleta de variações; o heavy-nagô “Atotô” (“Rolei na terra/ Abença, atotô/ Seu xarará/ A ferida secou/ A Flor do velho/ Ô me curou”), do EP de 2015; e “Cobra Rasteira”, outra das grandes da Metá Metá, esta do fantástico álbum “Metal Metal”, de 2013 (“Estrada, caminho torto/ Me perco pra encontrar/ Abrindo talho na vida/ Até que eu possa passar”, diz a letra).

Juçara Marçal e e Metá Metá cantam "Trovoa" 
no Salão de Atos da UFRGS

Antes ainda de Jards entrar, a Metá Metá anuncia-o tocando “Pano pra Manga”, esse samba do clássico “Let’s Play That”, de Jards, de 1983. E foi justamente esta outra clássica, parceria de Macao com Torquato Neto, lá de 1972, que os quatro se juntaram para explodir o teatro da UFRGS. Dois violões esmerilhando, Jards e Juçara atacando todas as notas aos vocais, o sax de França corroendo a atmosfera. Os deuses da atonalidade vibraram no Olimpo! Logo em seguida, outra conhecida do repertório do veterano músico: “Negra Melodia”, dele e de Wally Salomão, em mais um show de sintonia e musicalidade. Tanta química, que é de se pensar: quem sabe Jards não se torna um quarto Metá Metá ou estes formem a banda do primeiro em algum show ou projeto? 

Cabeça que fez a ligação entre Guerra-Peixe e João Gilberto a John Cage – com quem, aliás, jogou xadrez –, Jards é artífice de uma linguagem que, calcada em seu violão crispado, hibridiza lamento, rock, sussurro, guturalidade, blues e samba-canção. Sem acompanhamento, ele manda ver em duas: a linda e sentimental “Anjo Exterminado”, outra com Wally, e, para delírio do público gaúcho, a lupiciniana “Dona Divergência”, resgatada do seu disco “4 Batutas e um 1 Coringa”, de 1987, onde faz a ponte entre os sambistas clássicos e vanguarda – coisa que, aliás, somente uma mente como a dele para concatenar. Teve ainda, num dos grandes momentos do show, o duo com o sax de França para a icônica “Vapor Barato” (“Sim, eu estou tão cansado/ Mas não pra dizer/ Que eu não acredito mais em você”), música que atinge diversas camadas de significado, desde o anseio de liberdade na Ditadura Militar, quando na voz de Gal Costa, nos anos 70, a cinematográfica interpretação de Fernanda Torres no filme “Terra Estrangeira”, ao hit radiofônico d’O Rappa, nos anos 90. Com Jards, apoiado pela Metá Metá, sua própria obra ganha todo o tamanho que merece.

Das composições mais recentes, “Coração Bifurcado”, na voz e de autoria de Kiko e Jards e a qual dá nome ao disco deste segundo, de 2023, foi outra presença no setlist, assim como mais uma deles (esta, também com Thomas Harres), “Vampiro de Copacabana”, a majestosa homenagem a Torquato escrita pelos três em 2019, abertura do excelente álbum “Besta Fera”. Mas voltando ao passado de Jards, também teve o samba-canção “Boneca Semiótica” (de “Aprender a Nadar”, de 1974: “Você venceu com a lógica/ Digital e analógica/ Você não passa da programadora/ De repertório redundante da minha dor”), com mais uma brilhante execução do agora quarteto. Nesta linha, puxaram também “Farinha do Desprezo”, igualmente incríveis nos violões vanguardistas de Kiko e Jards, somados à arrojada interpretação dos vocais. 

Para finalizar, depois de todos estes vários momentos de êxtase, ainda teve uma incrível (mas incrível, mesmo!) “Soluços”, a pioneira gravação de Jards em seu compacto de 1970. Juçara, uma das intérpretes mais expressivas da cena musical brasileira contemporânea, traz no canto ancestralidade e vigor, não restringindo o canto à perfeição melódica ou ao rigor técnico. Ela apura “Soluços”, enquanto o violão afro-percussivo de Kiko e o abrasivo sax de França compõem, junto com Jards e seu violão ácido, um final épico para a apresentação. No bis, cantada por todos, retrazem o samba-dark de Nelson Cavaquinho “Juízo Final”. Sob gritos de “Sem Anistia!” na semana em que havia sido decretada a prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro, a o clássico samba caiu como uma luva com seus versos: “Do mal/ será queimada a semente/ O amor/ Será eterno novamente”. Sim: o amor, a depender de Macao e Metá Metá, será eterno novamente.


🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵


O maravilhoso trio Metá Matá: a melhor banda do Brasil da atualidade

Jards sobe ao palco para formar o quarteto com a Metá Metá

Jards e Thiago França tocando "Vapor Barato": grande momento do show


"Soluços", clássica de Jards para encerrar o show apoteoticamente


Público que lotou o Salão de Atos aplaude de pé



texto: Daniel Rodrigues
fotos e vídeos: Daniel Rodrigues e Youtube

quinta-feira, 2 de maio de 2024

Jards Macalé - Show "Jards Macalé 72" - Espaço Cultural BNDES - Rio de Janeiro/RJ (25/04/24)

 

Quase encerrando uma temporada de alguns dias no Rio de Janeiro, Leocádia e eu, que já havíamos tido a mágica experiência de uma roda de samba na Portela, em Madureira (que, aliás, é mais do que uma experiência apenas musical, pois antropológica), pudemos fechá-la com chave de ouro assistindo a um show (gratuito!) do mestre Jards Macalé. Comemorando os mais de 50 (52 precisamente) anos de lançamento do seu primeiro LP, Macau e sua excelente banda entregaram um show como só um dos maiores da música brasileira (e latina, e mundial) pode entregar.

A juventude de Gulherme Heldt (guitarra) e Pedro Dantas (baixo) se unem à experiência do próprio Jards e de ninguém menos que Tutty, Moreno, lendário baterista da MPB integrante da banda original que gravou com Jards seu marcante álbum de estreia. A química é visível, com Jards comandando as ações com seu violão desconcertante e sua voz/canto rasgado e eles se integrando à atmosfera do genial maldito numa sonoridade híbrido de jazz fusion, samba e rock. Aliás, Jards é muito rock 'n roll! Absolutamente claro isso nas execuções de "Farinha do Desprezo", "Revendo Amigos", "Mal Secreto", "Pacto de Morte" e "78 Rotações", todas clássicas. Muito interessante de se notar o quanto se acertou na sonoridade jazzistica prevalecente naquele período na música brasileira do início dos anos 70 (a qual, inclusive, Jards é o principal artífice ao captar essa atmosfera cosmopolita no exílio em Londres) na arquitetura dessa nova banda, que soube renovar esse estilo e, principalmente, não fazê-lo datar.

Em homenagem à amiga Gal Costa, de quem tanto gostava, dedicou "Hotel das Estrelas", mas indiretamente também celebrou a memória de "Gracinha", como carinhosamente a chama, com "Vapor Barato" acompanhado só da guitarra, para trazer sua mais conhecida parceria com o poeta e agitador Wally Salomão. Ainda, tocou ao violão uma sentida "Movimento dos Barcos", num dos melhores momentos do show, e, recuperou as ainda mais antigas "Soluções" e "Só Morto", que compõem seu EP de 1970.

Além das faixas do repertório do disco, houve espaço também para as recentes "Trevas" e "Meu Amor é Meu Cansaço", parceria com a rapaziada Kiko Dinucci, Rômulo Fróes e Thomas Harres, do seu excelente "Besta Fera", de 2019. Teve também a linda e inédita bossa-nova "Um Abraço do João", motivada por uma inspiração "espiritual" no amigo e ídolo João Gilberto. A música, embora tenha ganhado letra da magnífica Joyce, foi tocada de forma instrumental, uma vez que, gracejador e simpático, Jards admitiu para o público e para a própria artista, que também prestigiava o show, não ter adicionado a letra à melodia ainda. Se no violão já ficou perfeita, imagine-se com letra de Joyce!

"Let's Play That", com Torquato Neto, foi mais uma de arrepiar com sua anarquia sonora implacável. Pra fechar, outra deferência a outro saudoso craque da MPB assim como João, Wally, Torquato e Gal: Luiz Melodia, na blueseira "Farrapo Humano". Para quem nunca o havia visto ao vivo como Leocádia e a mim, que o vira nos idos dos anos 90 num show especial em Porto Alegre dedicado a Noel Rosa, a oportunidade de assisti-lo no excelente palco do Teatro BNDES foi um presente. Presenciamos uma das obras mais grandiosas e sui generis da música brasileira, capaz de fazer pontes sem distinção entre o samba do morro, a vanguarda, o tropicalismo, a bossa-nova, o jazz e o rock. E ainda tivemos tudo isso sem precisar de muito dinheiro. Graças a Deus.

**********

Ao centro, Jards comanda sua banda tocando o repertorio de 1972


Trecho de "Farinha do Desprezo", número que abriu o show 


Sob o olhar do craque Tutty Moreno, remanescente do disco
de estreia de Jards, há 52 anos


Com a banda ao final e sob aplausos


fotos e vídeo: Leocádia Costa, Camila Santos e Gustavo Moita
texto: Daniel Rodrigues



quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

“Poesia Total”, de Waly Salomão – Ed. Companhia das Letras (2013)


Where's Waly?
por Leocádia Costa




“Nascer não é antes, não é ficar a ver navios,
Nascer é depois, é nadar após se afundar e se afogar...” 
Waly Salomão,
trecho do poema “Sargaços”


“Que o leitor, livre dos lugares-comuns, possa agora,
perambular livremente entre as falanges das máscaras que povoam
os libanos de sonho da mente régia de Waly Salomão,
um dos poetas mais originais e vigorosos do nosso tempo.” 
Antonio Cícero





            Cada vez que escuto uma canção ou sua voz falando verborragicamente sobre algum tema, paro. Ler não é a mesma coisa. Parece que a voz de Waly Salomão ou a sua poesia transformada em canção tem que estar no volume máximo. Assim, daquele jeito que o coração dispara, os olhos se fixam no interlocutor e a mente divaga.
         Sempre uma cena mágica abre-se com sua presença. Ora pela risada estrondosa, ora pelo seu porte de Rei Salomão. Lá de cima, com o limite cacheado dos cabelos, observa com muita acidez o que ocorre nas entrelinhas da sociedade. E não perdoa. Solta as palavras como leões ferozes, coreografados como se fossem um cardume infindável de peixes dançarinos em nossa frente, chamando a atenção, hipnotizando.
Waly sempre intenso,
escrevendo ou falando
       Confesso que o conheci por vias tortas. Explico. Custo a perceber as autorias, e olha que minha desatenção já foi pior. Só quando alguma composição me toca é que mergulho nos créditos, senão deixo um espaço livre para que as informações que valem a pena se fixem. Talvez uma forma de backup saudável em tempos que tudo interessa, tudo é cool, tudo deve ser fixado, aprendido numa mente que não pode ser ampliada com acréscimos de memória eletrônica. Afinal “A memória é uma ilha de edição”, não?
            Não soube da existência e paradeiro de Waly por muitos anos. Tempo demais, mas que me permitiu escutá-lo numa palestra em Porto Alegre na Usina do Gasômetro, junto com a minha irmã, em 1998. E lá estava Waly, ocupando um dos lugares na mesa, o homem das Artes múltiplas, dos dizeres não-óbvios, das filosofias vãs e das frases sem comprometimento com o dever de dizermos o que deve ser dito. Diga você o que quiser, mas escute também o que vier. Dali em diante prestei atenção nele. E descobri muito lentamente onde ele estava morando. Em quais espaços estava presente. Desde então sempre quis saber por “Onde estava o nosso Waly?” como se um mapa sinônimo da personagem Wally criado pelo ilustrador americano Martin Handford pudesse avistá-lo, numa terra à vista, em meio a tantos cacarecos desnecessários à essência humana. Afinal é fundamental selecionar o que queremos receber, privilegiar aquelas produções que sejam sintonizadas conosco, abrir espaço para aquilo que nos desacomoda. A vida sem desafios torna-se muito tediosa e improdutiva.
Waly era assim, desafiava a todos, começando por si próprio. Não poupava os seus compatriotas, não poupava sua nação de escutá-lo. Baiano, filho de Xangô e virginiano (“Eu deliro, mas tenho os pés no chão porque sou de virgem”) sempre esteve ligado aos coletivos.  Gostava de dizer: “Chega do papo furado de que o sonho acabou: A Vida é Sonho. A Vida é Sonho. A Vida é Sonho.” como um cale-se a quem dizia que o sonho havia acabado, gerando uma onda de baixa estima a tudo que fosse revolucionário. Irreverente, sempre. Múltiplo também. Porque dizer algo que não tenha um pouco de poesia, humor e sarcasmo misturados? De origem síria, não escondia suas raízes “estrangeiras”, mas também sua relação com essa pátria em que todos vivemos paridos pelo caos. Isso não o assombrava: o que seria diferença para outros, para ele era semelhança.
            Lemisnki dizia que Waly “se não chegou a se tornar tudo, foi muitas coisas”. Isso, claro, para a nossa sorte que bebemos um pouco de lucidez através da sua poesia. Entre 1970 e 2000, Waly atuou como poeta, ensaísta, letrista, articulador cultural, diretor de espetáculos, artista visual e homem público. Dirigiu entre outros o espetáculo “FA-TAL – Gal a todo vapor”; de Gal Costa, esteve na Direção da Fundação Gregório de Matos de Salvador e coordenou o Carnaval da Bahia. Seus poemas foram musicados por muitos artistas, entre eles: Caetano VelosoGilberto GilJards MacaléJoão Bosco e Adriana Calcanhoto.
            Depois de 11 anos da sua passagem, em 2003, a editora Companhia da Letras lançou com a bênção dos herdeiros a poesia completa de Waly, “Poesia Total”. Cada vez que a família de algum artista faz essa ação de compartilhar de forma organizada e acessível à obra de quem não pode mais decidir sobre publicações, sinto-me esperançosa. As publicações são formas de perpetuar a obra de um artista, daí meu agradecimento pela reunião da produção do artista.
            Ali estão os poemas e as reflexões de Waly. Minhas prediletas são os poemas que viraram canções: “Vapor Barato” com Gal; “Mal Secreto” com Jards; “Mel” e “Cobra Coral”, ambas na voz de Caetano Veloso; “Fábrica do Poema”, em homenagem à arquiteta italiana Lina Bo Bardi, a hipnótica “Pista de Dança” e a recente “Teu nome mais secreto”, todas na voz de Adriana Calcanhoto; “Zumbi (A Felicidade Guerreira)” e “Ganga Zumba (O Poder da Bugiganga)”, que encantam no filme “Quilombo”, na voz de Gil; a descontraída e pontual “Assaltaram a Gramática”, musicada por Lulu Santos e gravada por Paralamas do Sucesso; “Memória da Pele”, musicada e gravada por João Bosco e outros poemas dedicados em pura palavra-sentimento a Solange Farkas, in memoriam à Lygia Clarck e a Luiz Zerbini, além do amoroso poema “Mãe dos Filhos Peixes” a sua Yemanjá: Martha.
            Waly, diferente da personagem americana que tem em seu protagonista um jovem adolescente, cresceu. Ele que diz: “Tenho fome de me tornar em tudo que não sou”, porém soube ser muitos sendo um só. Amadureceu cedo demais. O poeta Alexei Bueno comenta uma obra de Waly, “Lábia, 1998”, sua retomada cortante e límpida com as palavras, mais adiante na resenha diz que está na sintaxe sua mais poderosa característica. Senão isso, talvez a clareza e a assertividade de pensamento fazem de Waly um poeta que nos deixa suspensos numa ponte pênsil a cada palavra dita. Em Desejo&Ecolalia, de 1995, ele diz: “O que é que você quer ser quando crescer? Poeta polifônico”. E foi assim que ele nos alcançou em meio ao caos pertinentes da mesma pátria em que vivemos.




O "Pocket Waly", apresentado na
60ª Feira do Livro de POA
            Ainda no ano passado, uma dupla de músicos, Thiago Pirajira e Ricardo Pavão, levaram sua poesia em canção em plena Feira do Livro de Porto Alegre – 60ª edição no “Pocket Waly”. A performance sonora misturava canções e dizeres de Waly e lotou a Tenda de Pasárgada, tradicional palco para apresentações montado durante a Feira. Waly estava ali cintilando de dourado e negro em meio aos violões e vozes. Podia ver-se Waly vestido num parangolé pamplona junto com Oiticica, enfeitado de muita sensibilidade e delicadezas que ele possuía igualmente a sua capa de devaneio concreto. Vivo.
           Se você nunca esbarrou na obra de Waly Salomão ou nem pensou em procurá-lo, mude de rota. Estabeleça uma meta e persiga-o incessantemente. Se conseguir alcançá-lo não desista nas primeiras leituras: siga sereno, mas constante. Leia, cante e diga em voz alta sua poesia. Aos brados retumbando suas frases você sentirá o que ele tinha internamente. Um vulcão prestes a explodir! E sabemos que as terras próximas aos vulcões são sempre as mais férteis, mas suas lavas podem queimar. Mesmo assim siga em frente, rompa essa fronteira. Se necessário queime-se, transforme-se. Vale a pena. 


Adriana Calcanhoto canta Waly






sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Jards Macalé - "O Q Faço é Música" (1998)


"Idolatrada mãe a quem recorro
toda vez ameaçado pranto
Paraíso São Sebastião
Rei de Janeiro"
Glauber Rocha



De um modo geral, as pessoas, críticos e publicações costumam destacar o álbum "Let's Play That", de 1983, como o grande trabalho de Jards Macalé, que efetivamente é um excelente disco. Mas particularmente, tenho uma especial predileção pelo ótimo "O Q Faço é Música" de 1998.
Dos músicos brasileiros mais criativos, Jards Macalé explora as diversas possibilidades do samba neste disco, indo desde choros, passando por sambas-canção ou experimentando alternativas percussivas. "O Q Faço é Música" é variado, é eclético, é embalado, divertido, é sensacional. "Rei de Janeiro", composta sobre verso de Glauber Rocha, é uma bela exaltação cantada por um coro feminino; "Cidade Lagoa", outra referência ao Rio de Janeiro, cidade natal de Jards, é um samba-de-breque, irônico e debochado, extremamente atual no que se refere às frequentes inundações que acontecem na cidade a cada chuva. O trecho "Essa cidade que ainda é maravilhosa/ Tão cantada em verso e prosa/ Desde o tempo da vovó/ Tem um problema vitalício e renitente/ Qualquer chuva causa enchente/ Não precisa ser toró", dá uma ideia de como era nos anos 50 quando a letra foi escrita, e de como, incrivelmente ainda é hoje.
A inusitada versão de "Blues Suede Shoes' de Carl Perkins, é outro exemplo dessa exploração das possibilidades do samba, onde Jards dá um tratamento chorinho acelerado para o clássico do rock. O resultado é incrível!
A ótima "Favela" traz um retrato físico, antropológico, histórico, social e poético da formação urbana dos morros cariocas, num samba pesado, cheio de cuícas e tiros; "Vapor Barato", parceria de Jards com Wally Salomão, ganha uma versão muito mais melancólica que outras gravadas ao longo dos anos, talvez só perdendo para a dramática interpretação de Gal Costa.
O disco segue com a charmosa "Destino"; a primorosa "Dente no Dente"; o belíssimo tango-chorinho "Mais Um Abraço no Nosso Amigo Radamés"; a parceria com Vinícius de Moraes na ótima "O Mais-que-Perfeito"; a versão  para "Unicornio" do cubano Silvio Rodrigues; a adaptação para o "Poema da Rosa" de Becht; e o disco encerra-se com a interessantíssima "Coração do Brasil", uma perfeita combinação letra-música-conceito com um surdo pesado, alto, forte marcando o tempo como se fossem batimentos cardíacos. O coração da bateria, o coração do samba, o coração do sambista. O coração de um artista inquieto, criativo e de uma musicalidade ímpar.
*******************

FAIXAS:
  1. Rei de Janeiro
  2. Favela
  3. Destino
  4. Terceira Vez
  5. Cidade Lagoa
  6. Dente no Dente
  7. Movimento dos Barcos
  8. O Mais que Perfeito
  9. Vapor Barato
  10. Blues Suede Shoes
  11. Mais Um Abraço no Nosso Amigo Radamés
  12. Unicornio
  13. Mais Uma Luz
  14. Poema da Rosa
  15. Um Abraço no Oliveira
  16. Coração do Brasil

*******************
Baixe e ouça:
Jards Macalé O Q Faço é Música



Cly Reis

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Copa do Mundo Gilberto Gil - classificados da terceira fase





Quem disse que seria fácil?
É, quando se trata de música do Gil, contra música do Gil, muitas vezes fica quase impossível decidir qual a melhor.
Mas essa é nossa tarefa aqui e a fase de dezesseis avos-de-final foi torturante para fás como nós.
Ter que eliminar Domingo no Parque, Raça Humana, Tempo Rei, Drão... Pois é, caros clybloguianos, essas são algumas das grandes que ficaram pelo caminho nesta fase.
"Mas como???", pode questionar alguém, indignado.
Calma, calma e veja abaixo a justificativa dos nossos treinadores.
(O que não significa que você vá concordar com ela)


Seguem, abaixo, todos os jogos e os classificados para as oitavas-de-finais:

****

resultados de Joana Lessa

PANIS ET CIRCENCES 1 x 0 AMARRA O TEU ARADO A UMA ESTRELA
Pela importância histórica, Panis et Circense leva de Amarra O Teu Arado A Uma Estrela num resultado simples, 1x0

FILHOS DE GANDHI 5 x 3 DOMINGO NO PARQUE
Jogo que deveria ser empate por conta da qualidade das equipes, Filhos de Gandhi leva o clássico contra Domingo no Parque por 5x3

****

resultados de Kaká Reis

REALCE 2 x 1 ILÊ AYÊ
Começando a disputa com uma das mais icônicas músicas de Gil, Realce x um hino da Senzala do Barro Preto, o bloco que leva o nome da música: Ilê Ayie (Ayê). Disputa acirradíssima não fosse o fato da composição de Ilê Ayê ser de Paulinho Camafeu, fazendo com que Realce ganhe esse jogo por 2x1.
Fim de jogo e Realce permanece!

THREE LITTLE BIRDS 0 x 2 ZUMBI, A FELICIDADE GUERREIRA
Mais uma vez, a composição do gênio vai vencer essa disputa! Bob Marley x Gilberto Gil e Wally Salomão… é 0x2 pra Zumbi! que segue na disputa!

****

resultados de Daniel Rodrigues

TEMPO REI 0 X 1 SÍTIO DO PICA-PAU AMARELO
Para terem chegado a esta fase, é claro que se trata de dois clássicos do repertório de Gil. Confronto muito parelho este. De um lado, “Tempo Rei”, com sua maturidade e pensamento claro com a pegada elevada do seu autor; do outro, a poética do universo lobatiano que tanto marcou gerações na TV. Difícil, mas quem tira do zero o certame é “Sítio...”. Cheia de encantos, ela fez uma jogada tão mágica que surpreendeu seu adversário, que, quando viu, a bola já estava dentro do gol. “Pode isso, Arnaldo?” A jogada foi pro VAR e o juiz de vídeo não detectou nada, então ficou valendo a decisão de campo mesmo. Final: “Sítio do Pica-pau Amarelo” 1 x 0 sobre “Tempo Rei”

MARACATU ATÔMICO 1 X 2 HAITI
Outro jogo pegado. No ritmo nordestino, “Maracatu...”, do alto de seu prestígio de clássico, mal começa o jogo e já marca o seu. Enquanto isso, “Haiti” mantém seu estilo lento mas contundente, que mantém o mesmo ritmo em praticamente todo o andamento, mas sempre sendo perigoso, ousado. Até que, de tanto envolver o adversário com seus versos misto de rap e repente, “Haiti” empata. Lembram do bordão da torcida organizada de “Haiti”, né? “O Haiti é aqui!” Pois embalado pelas arquibancadas e sem medo do enfrentamento, a parceira Gil/Caetano põe de novo na rede para se consagrar vencedora. Vitória apertada de 2 x 1,

ORIENTE 0 X 1 BACK IN BAHIA
O clássico “Oriente-Ocidente” é um verdadeiro jogo de extremos. As músicas coirmãs formam, grosso modo, começo e fim de “Expresso 2222”. “Back...” com um brit-rock empolgante, daqueles que partem pra cima já de cara sem deixar o adversário respirar. Já “Oriente”, voz e violão, é dona de um futebol mais cadenciado, mas cheio de surpresas em seu arranjo/esquema intrincadíssimo, quase intransponível. Mas pra “Back...” não tem time invencível. Depois de uma bola dividida pra lá e pra cá, e é ela que, num rebote, quase ao final da partida, quando já se imaginava que a igualdade no placar iria se manter, que põe pra dentro. Na comemoração, o goleador ainda tira uma onda com a adversária: “Se oriente, rapaz!”


****

resultados de Leocádia Costa

VITRINES 1x 4 CÁLICE
Essa versão violão e voz de Gil para a composição feita com Chico é linda! Escutei essa canção desde sempre, daquelas que emocionava por toda a sua crítica e representatividade. A versão ao vivo, na USP, no ano que eu nasci, onde a galera pede bis e Gil pede a letra ganhou de goleada do adversário, que entrou bem no clima mais rock e distorção, mas perdeu no quesito, pra história!

REFAZENDA 3 x 2 DRÃO
A vitoriosa tem tudo aquilo que Gil domina: letra, música, violão, ritmo, fala e os “ááááááás”! O arranjo harmonizado com cordas amplia ainda mais a canção na versão original. “Refazenda” é um alerta importante de renovação constante. Amo! Porém, “Drão” é uma música que traz o coração, a amizade e a forma poética de Gil e Donato. Difícil, mas ao final “Refazenda” leva!

AQUELE ABRAÇO 3 x 2 BARATO TOTAL
A Copa é do Gil, né? Essa canção, “Aquele Abraço”, é ele, sempre! É que nem um time entrar em campo sem a sua lenda, sabe? Faz falta! E a versão de “Barato Total” é eterna na voz de Gal. Por isso o jogo foi se complicando e chegou na vitória para o hino “Aquele Abraço”, que fazia o Chacrinha balançar a pança, nas tardes de sábado e embalou a minha caminhada inicial musical da primeira infância até os dias de hoje.


****

resultados de Rodrigo Dutra

PALCO 2x1 SÃO JOÃO XANGÔ MENINO
Xangô Menino entrou em campo querendo festa e puxava o coro “Viva São João, Viva Refazenda”, mas distraído pela pouca idade, foi vencido no “Palco” pelo ritmo dançante do hit oitentista. Foi eliminado cantando e comendo milho verde.

ESOTÉRICO 1x0 MARGINÁLIA II
“Marginália II”, Aqui é o fim da Copa do Mundo, óóóó. O reggae de “Esotérico” (e outras versões, como a linda acústica da turnê dos 50 anos) são lindas demais, mas o placar foi apertado.

SUPER-HOMEM (A CANÇÃO) 0x0 TODAMENINA BAIANA (4x1 nos pênaltis)
Caetano viu o filme dos anos 70 e saiu entusiasmado contando pro Gil, que fez essa ode às mulheres, uma vibe homem feminino, linda linda, como toda menina baiana. Jogo parelho no tempo normal, mas nem toda menina baiana sabe cobrar pênaltis (inventei desculpa porque com dor no coração elimino essa lindeza de música).


****

resultados de Cly Reis

O SOM DA PESSOA 2 x 1 FLORA
Jogo dificílimo! Grandes músicas, cada uma com seus méritos diferentes. Passa 'O Som da Pessoa' pela concisão, pela poesia concreta. Mas foi ali, ali...

ANDAR COM FÉ  6 x 0 KAYA N'GAN DAYA
'Kaya N'Gan Daya' já entra em campo perdendo. Mesmo com os méritos pela releitura, 'Kaya' é do Marley. Sem chance. 

RAÇA HUMANA 0 x 1 EXPRESSO 2222
Putaparil!!! Esse confronto é pegado!!! Toda a poesia filosófica de 'Raça Humana', contra toda a riqueza e vitalidade de Expresso 2222. 'Raça...' tem o lindíssimo verso do refrão que é quase um provérbio, mas 'Expresso...", por tudo, sua força, energia, ritmo, além de ser da época de Londres, do exílio, leva pequena vantagem e se classifica. No sufoco. Gol aos 49 do segundo tempo.

****

CLASSIFICADAS PARA AS OITAVAS-DE-FINAL
PANIS ET CIRCENCES
FILHOS DE GANDHI
REALCE
ZUMBI, A FELICIDADE GUERREIRA
SÍTIO DO PICA-PAU AMARELO
HAITI
BACK IN BAHIA
EXPRESSO 2222
ANDAR COM FÉ
O SOM DA PESSOA
ESOTÉRICO
SUPER-HOMEM (A CANÇÃO)
AQUELE ABRAÇO
PALCO
REFAZENDA
CÁLICE




Assim que realizarmos o novo sorteio e tivermos definidos os confrontos, 
eles estarão aqui no ClyBlog.
Fique ligado!


quinta-feira, 23 de julho de 2026

Sessão Comentada filme "Quilombo" - Centro de Debates Democracia & Cultura (CDDC) - EEEM Campos Verdes - Alvorada/RS (19/05/2026)


Dentre os trabalhos que desenvolvo com cinema e crítica, como curadorias, júris e espaços de debate, um me deu especial alegria, que foi a sessão comentada do filme “Quilombo” na Escola Estadual de Ensino Médio Campos Verdes, na cidade de Alvorada, na região Metropolitana de Porto Alegre, alusiva ao 13 de maio, dia da Abolição da Escravidão, ocorrido dias antes. O convite veio pelo agitador Lincon Fonseca, coordenador do Centro de Debates Democracia & Cultura (CDDC), militante do Congresso Nacional Afro-Brasileiro (CNAB) e ex-aluno de meu curso sobre Cinema Negro ano passado e que, percebendo minha paixão pelo mesmo filme, que comento no curso, teve a ideia de exibi-lo para os alunos do colégio e promover um debate após a sessão.

E eu não estava só. Juntamente comigo e Lincon, estiveram: Carl Marx (sim, eu debati com Carl Marx!), estudante de filosofia na UFRGS e militante do CNAB; Danusa Alhandra, militante da União Brasileira de Mulheres (UBM-RS) e da União Nacional de Negros e Negras (UNEGRO-RS); Eduardo Fortes, professor, quilombista, presidente da ONG UmBUNTU e vereador suplente em Alvorada; e Nicolas Marques, presidente da União Gaúcha dos Estudantes (UGES) e militante da Juventude Pátria Livre.

Todos falaram sobre o filme a partir de suas percepções e vivências, o que certamente gerou um conteúdo rico para a gurizada que participou. De minha parte, comentei brevemente sobre a realização de “Quilombo” e seu contexto dentro da cinematografia negra do cinema brasileiro e a de seu realizador, o cineasta alagoano Cacá Diegues (1940-2025). Também expus minha admiração sobre a obra, talvez o grande épico do cinema nacional, e a importância de trazer à tela heróis negros até muito pouco tempo desvalorizados e invisibilizados na História oficial do país.

No filme, que se passa no Nordeste brasileiro do século 17, diversos escravos fogem e se unem para formar o Quilombo dos Palmares, no interior de Alagoas, aproveitando-se da fraqueza do governo colonial, que enfrenta a invasão holandesa. Sob o comando de Ganga Zumba - e depois de Zumbi -, o quilombo prospera e os ex-escravos tornam-se uma força militar e comercial poderosa, ameaçando o domínio dos colonizadores e a autoridade real. Logo, as forças da ordem se mobilizam para liquidar com os afro-brasileiros rebeldes numa guerra sangrenta que se estenderá por muitos anos. Quilombo dos Palmares existiu/resistiu por cerca de 1 século.

Cena de "Quilombo", com trilha sonora de Gilberto Gil

Mais sobre “Quilombo” teria para falar, assim como na ocasião para os alunos da Campos Verdes, a quem expus apenas parte do possível e o mínimo para uma fala que interessante, uma vez que outras vozes trariam a eles outras contribuições. Não coube, por exemplo, mencionar a maravilhosa trilha sonora do filme, feita especialmente por Gilberto Gil em parceria com Wally Salomão. Ao final, já saindo da escola, um dos alunos passou por mim e agradeceu pela oportunidade. Considerei um ótimo retorno, tendo em vista que, se já é cada vez mais difícil as pessoas dizerem alguma coisa, quanto mais adolescentes, que são mais fechados, tímidos ou absorvidos pelos seus próprios mundos. Ademais, nunca se sabe de fato o que as pessoas acharam, mesmo com os protocolares aplausos ao final... Independentemente disso, a oportunidade em si foi única e a iniciativa do CDDC louvável. Por mais atividades culturais e cinematográficas assim para os jovens das nossas periferias.

Confira nas fotos um pouquinho de como foi:

🎥🎥🎥🎥🎥🎥🎥🎥

Lincon fazendo a abertura


Eu falando um pouco sobre o filme e a obra de Cacá Diegues


Quilombo ao fundo corroborando comigo


A vez de Danusa Alhandra conversar com a galera


O quilombista Eduardo Fortes atraindo as atenções


A numerosa turma do Campos Velho presente


🎥🎥🎥🎥🎥🎥🎥🎥

texto: Daniel Rodrigues
fotos: Cini

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Gal Costa - "Cantar" (1974)


Canto, Recanto

"Gal é uma das grandes
personalidades da nossa história.
As Dunas da Gal, o Vapor Barato, ‘a mulher mais elegante do Brasil’
(no dizer de Danuza Leão na época),
Baby, Divino Maravilhoso, Índia:
todo um mundo brasileiro do qual
não podemos abrir mão
se quisermos ser o que devemos ser."
Caetano Veloso



Caetano Veloso é, como todos sabem, irmão de Maria Bethânia. Mas sua ligação e sinergia musicais com Gal Costa talvez sejam até maiores do que com a cosanguínea. Baiana como ele, poucos anos mais nova mas da mesma geração, foi com Gal que o cantor e compositor gravou seu primeiro disco, “Domingo”, de 1966 – embora o elo, inclusive familiar, já viesse de antes. Além disso, no entanto, foi Gal quem, embarcada com os dois pés no Tropicalismo liderado por ele e Gilberto Gil na segunda metade dos anos 60, manteve acesa a explosão transgressora e criativa aberta pelos tropicalistas quando do exílio da dupla em Londres de 1969 a 1972. Ao contrário de Bethânia – que sempre soube seguir o seu caminho fugindo ao máximo das rotulações e estereótipos –, Gal por escolha não só segurou a barra enquanto única remanescente da formação original da Tropicália durante os anos de chumbo da Ditadura como, mais ainda, avançou a MPB em todos os sentidos, da confluência de estilos e referências (objetivo-fim tropicalista) a, obviamente, sua própria arte maior: a técnica do canto.

Não se começou a falar em Caetano Veloso num texto sobre Gal Costa à toa. Como aconteceria no espetacular "Recanto" – disco de 2012 cujo diálogo estreito com este forma um díptico de 38 anos de ínterim –, é o quase-irmão Caetano quem dá o tom do “cantar” de Gal. Produzido por ele em parceria com outro mestre da retaguarda tropicalista, Perinho Albuquerque, é um disco totalmente maduro da talentosa cantora, já deixando a extravagante e raivosa Gal do início da Tropicália um pouco para trás. Aqui, ela está dona de si, de seu conceito como artista e do posto de maior cantora de seu tempo ao lado de Elis Regina, também no auge à época. E Caetano, dirigindo um projeto para ela pela primeira vez (até então haviam exercido tal função Wally Salomão, Jards MacaléRogério Duprat e Guilherme Araújo), é um pouco responsável por esse amadurecimento.

Desfilam pelo disco músicos de primeira linha, como o genial João Donato, o mestre da raça Gil, o “Clube da Esquina” Noveli, o baterista Tuty Moreno e, claro, os próprios Perinho e Caetano. O resultado é um álbum resplandecente, florido como sugere a belíssima arte forjada pelo artista visual Rogério Duarte. A contestação de “Divino, maravilhoso”, a fúria de “Eu sou terrível”, a psicodelia de “Dê um role” ou a estridência de “Meu nome é Gal”, agora, refazem-se, remolduram-se. Estão ali, porém sob outro olhar. Um sopro de pólen colorido no negror dos anos de chumbo.

O começo não é nem um desabroche: é a flor já em pleno estado de vida. “Barato Total”, hit do álbum, é das melhores músicas de Gilberto Gil cujo presente não se encerra somente no fato de este tê-la dado especialmente para a amiga. Gil também empunha o violão durante a faixa, e Gil ao violão sabe-se como é, né? Além de sua altíssima técnica que une a batida de João Gilberto ao ritmo frenético do rock – e mais o congado, o maxixe, o jazz e o baião –, o grande compositor simplesmente arrasa nas cordas, sustentando a melodia num toque swingado e cheio. É tão intenso que, na regravação feita por Gal com a Nação Zumbi, em 2004 (também produzida por Caetano), bastou à banda traduzir para os tambores pernambucanos a batida de violão de Gil. A letra traz, já na abertura do disco, a mesma ideia de ressaltar a beleza da vida para além de toda a situação política e moral do país: “Quando a gente tá contente/ Tanto faz o quente, tanto faz o frio, tanto faz”. E finaliza, numa exclamação: “Quando a gente tá contente/ Nem pensar que está contente a gente quer/ Nem pensar a gente quer, a gente quer/ A gente quer, a gente quer é viver”.

Como todo grande disco, “Cantar” larga com uma de encher os olhos. O que virá a seguir superará ou se equiparará? Pois o lirismo da cantora estava realmente germinado. Ela arrebenta na interpretação da clássica “A Rã”. É a primeira das quatro de autoria de Caetano no disco, e justo uma em parceria com outro personagem fundamental desta obra: João Donato. Ele, além desta, assina o arranjo da canção de ninar que finaliza o disco, “Chululu” (de autoria da mãe de Gal, Mariah Costa, que costumava cantá-la para a filha na infância), e de outras duas: “Até quem Sabe”, só piano e voz, lindíssima e altamente erudita; e “Flor de Maracujá”, um soul funkeado ao estilo de “A Bed Donato” (referencial álbum gravado pelo acreano nos Estados Unidos em 1970). Esta, última do lado A do vinil, dialoga maravilhosamente com a primeira da segunda face: “Flor do Cerrado”, que, assim como “Barato Total” é das melhores composições de Gil não gravadas por si próprio, também é das mais belas de Caetano nunca registradas por ele mesmo. Letra de poesia caetaneana, vocal cristalino de Gal e uma rica incursão do autor contracantando “Garota de Ipanema”, de Tom e Vinícius. No refrão, ainda, Gal, afinadíssima, executa um portamento de notas muito bonito e técnico, subindo gradualmente até finalizar lá em cima da escala na última palavra: “Mas da próxima vez que eu for a Brasília/ Eu trago uma flor do cerrado pra você”.

Antes, entretanto, o primeiro lado ainda guarda duas ótimas faixas. Lua, lua, lua, lua”, mais uma de Caê, que, junto com outra que vem mais adiante, “Joia” (um espetacular trabalho de percussões africanas e piano monotonal que antecipa trabalhos de Caetano de 1997 e 2000, “Livro” e “Noites do Norte”, respectivamente, quando ele aproxima a vanguarda erudita às raízes da África), foram gravadas por Gal um ano antes do próprio usá-las no seu disco – por sinal, intitulado “Joia”. E diferentemente da versão barroca que gravaria para si, “Lua...” traz um elemento interessantíssimo: sob a voz dela, Caetano exercita uma espécie de beat-box, expediente que o mesmo se valera na concepção da trilha sonora do filme “São Bernardo”, dois anos antes, encomendada pelo cineasta Leon Hirszman a ele quando ainda no exílio.

A outra maravilha que completa a primeira parte de “Cantar” é “Canção que morre no ar”, clássico da bossa-nova de Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli, somente com a voz e um apaixonante e ornado arranjo de cordas de Perinho e regência de Mário Tavares. Aqui, Gal encarna Billi Holliday acompanhada da orquestra de Ray Ellis em "Lady in Satin"; Ella Fitzgerald conduzida pela batuta de Nelson Riddle em “Sings the George and Ira Gershwin Songbook”; ou Dalva de Oliveira com o conjunto sinfônico de Roberto Inglez. Gal está jazzística e lírica em seu timbre de soprano. A letra faz uma fusão entre as atmosferas lunar e flórea do disco como um todo: “O mundo é sempre amor/ O pranto que desliza/ No seio de uma flor/ É a luz lá do céu”.

Também síntese do álbum é “O Céu e o Som”, do cantor, compositor e poeta Péricles Cavalcanti. Ritmada e gostosa, contrapõe cantos entre ela e um coro masculino (que desconfio seriamente serem Os Golden Boys, embora não haja crédito disso). “Cantar, cantar/ Há uma asa na alma no ar/ Me ensina a cantar, amor”. E, lá pelas tantas, perguntam retoricamente: “Quem foi que disse que a mulher não voa?” Voa, sim.

Tanto voa que, antes de terminar o disco, Gal faz o ouvinte levitar no sensualíssimo jazz “Lágrimas Negras”, composição de Jorge Mautner e Nelson Jacobina. Das melhores do álbum, sua cadência suave remete (e serve muito bem para isso, diga-se de passagem) ao momento de uma transa embalada ao ritmo da guitarra-ponto dedilhada por Perinho. E quando Gal, diz, num compasso hiper sexy: “E você, baby, vai, vem, vai...”, é de arrepiar até o tal “astronauta da saudade” mencionado na letra!

“Cantar” gerou um show que não foi bem recebido pelo público por ser taxado de “muito suave”, contrastando com a imagem forte que a cantora criara a partir do movimento tropicalista. À época, bom que se lembre, artistas de sucesso como ela eram exigidos pela opinião pública burra de permanente e abertamente lutarem contra a Ditadura na concepção de suas obras. Queriam canções de protesto, não arte. Uma bobagem tamanha, uma vez que a premissa do artista é exatamente a liberdade tão desejada por estes que os retalhavam. Afora isso, visto noutro enfoque, há formas distintas de se lutar e se engajar sem necessariamente bater de frente com a força bruta – e sair perdendo, como geralmente acontece. Foi o que Gil e Caetano, enquanto tropicalistas como ela, fizeram a seu modo. E venceram. Hoje, completando 40 anos de seu lançamento, “Cantar” é um trabalho de uma riqueza descomunal que tem ainda muito a se revelar e cuja participação destes protagonistas foi fundamental. Uma flor que não morreu e ainda colore o jardim de quem entende que “o caminho do céu” está “no caminho do som”. Gal nos ensina a cantar e voar.

"Barato Total" - Gal Costa



 *********************************

FAIXAS:

1. Barato Total (Gilberto Gil) - 3:48
2. A Rã (Caetano Veloso, João Donato) - 3:52
3. Lua, Lua, Lua, Lua (Veloso) - 3:02
4. Canção que Morre no Ar (Carlos Lyra, Ronaldo Bôscoli) - 1:50
5. Flor de Maracujá (Veloso/Lysias Ênio) - 2:56
6. Flor do Cerrado (Veloso – música incidental: “Garota de Ipanema”, Tom/Vinicius) - 3:13
7. Joia (Veloso) - 3:24
8. Até Quem Sabe (Ênio/Donato) - 3:39
9. O Céu e o Som (Péricles Cavalcanti) - 3:00
10. Lágrimas Negras (Jorge Mautner/Nelson Jacobina) - 3:31
11. Chululu (Mariah Costa) - 0:56
 ******************************
Ouça: