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sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Museu do Inter - Porto Alegre/RS (julho/2026)


Aquelas coisas que não se explicam: precisou que minha sobrinha Luna viesse a Porto Alegre para que eu pisasse, pela primeira vez, no Museu do Sport Club Internacional. Mesmo morando há anos perto da casa colorada, o Estádio Beira-Rio, nunca havia me programando para fazer essa visita ao memorial do meu time do coração. Aliás: NOSSO time de coração, visto que Luna, mesmo carioca da gema, é colorada convicta, muito mais que muito gaúcho. Aproveitando um dia ensolarado e agradável de uma semana de tempo instável, então, Luna e eu fomos ao Beira-Rio para fazermos a visita guiada ao estádio, a qual começa e termina no museu.

Parece não ter mudado muito daquilo que meu irmão registrou anos atrás quando fez também sua primeira visita, mas o museu é muito bem montado, com espaços de interatividade e integrando plataformas diferentes, como fotos, vídeos, estátuas, objetos e, claro, fardamentos e os diversos troféus conquistados pelo time ao longo dos anos. Não tinha como ser diferente, aliás, tendo em vista que a história gloriosa de quase 110 anos do Inter tem muito conteúdo para um espaço museológico como este. Poucos clubes no Brasil têm tantas glórias e momentos tão marcantes. Estão lá os registros da antiga Chácara e do Estádio dos Eucaliptos, primeira casa do Inter que viu, além dos nossos primeiros títulos citadinos e estaduais, jogos da Copa do Mundo de 1950.


Fotos da história gloriosa da fase dos Eucaliptos, nossa primeira casa

Por falar na primeira Copa sediada no Brasil, um personagem que estava na competição também faz parte importante da história do Inter: nosso tio-avô Adão, o Adãozinho. Craque do Rolo Compressor, time do Inter que conquistou os ainda inalcançáveis 8 títulos estaduais nos anos 40, Adãozinho foi dos primeiros atletas gaúchos a disputar uma Copa pela Seleção Brasileira. E ele está lá no museu no painel de fotos dos craques históricos do Inter ao lado de outras lendas como Falcão, D'Alessandro, Figueroa, Rafael Sóbis, Taffarel, Carlitos e Fernandão.

São muitas coisas bonitas de se ver no museu, e não só para colorados com nós, mas também para torcedores de outros clubes e de outros estados, haja visto que tinha gente de Minas Gerais, Paraná (e Rio, claro) entre os visitantes. Os troféus das Libertadores e do Mundial; as chuteiras usadas pelo saudoso Fernandão no histórico jogo contra o Barcelona em 2006; a história de comunhão da torcida para construir o Beira-Rio; a lembrança do Tri-Campeonato Brasileiro...

Estátua suspensa de Manga

Luna felizona posando com os troféus da Liberta e de outros
títulos internacionais do Inter

Uma felicidade imensa de ter visitado este espaço na companhia de Luna e um orgulho imenso do time de nosso coração. Pena ser justo numa temporada em que as coisas não vão nada bem pro Inter. Mas, como dizemos em nosso canto: "Inter, nada vai nos separar". Serás sempre motivo de festa em nossos corações.




Falando sobre o nosso templo, o Beira-Rio


Luna bem atenta à história do Inter


Fotos antigas dos primeiros tempos do clube


A vitrine dedicada ao Rolo Compressor


Figueroa e a sua cabeceada iluminada, que nos deu o primeiro Brasileiro, em 1975


Troféus internacionais, dentre eles, Joan Gamper, nosso ensaio de Mundial, em 1982
 

O título da Copa do Brasil de 92. Esse eu vi!


Várias flâmulas de times trocadas pelas do Inter de todo o mundo



A camisa 3 do ídolo Figueroa


Mais troféus


Por falar em troféus, Luna nessa vitrine de grandes conquistas


Esta dupla de colorados terminando a visita ao Beira-Rio




Daniel Rodrigues

segunda-feira, 13 de julho de 2026

COTIDIANAS Especial nº900 - O Tio Adão

 



Desde pequeno ouvia minha mãe contar que nossa família tivera um grande jogador de futebol que havia jogado inclusive pela Seleção Brasileira e participado de uma Copa do Mundo.

Por mais que sempre gostasse muito de futebol, quando garoto, a informação não se fazia totalmente relevante para mim, até porque, meio desencontrada e incompleta, parecia carente de precisão e confirmação. Não que minha mãe, minhas tias e outros parentes estivessem inventando, mentindo, mas talvez aquilo não fosse tão grande quanto colocavam. Minha mãe contava das aventuras dele em países nórdicos, suas fotos com as louras, com delegações de jogadores, mas ninguém sabia ao certo se havia jogado na Copa da Suécia, da Suíça, ou se havia realmente chegado a jogar uma Copa do Mundo. Já era motivo de orgulho por ter jogado na Seleção, e isso era fato, mas talvez tivesse sido um torneio de juniores, uma excursão avulsa ou algo  do tipo. Mas de todo modo, o Tio Adão sempre habitava nossa memória afetiva coletiva como o craque da família.

A era da informação e da Internet trouxe dados mais precisos que eliminaram aquelas imprecisões e só fizeram crescer minha admiração e colocá-lo no lugar de destaque que sempre mereceu.

Tio Adão para nós, ou Adãozinho, como era conhecido no mundo do futebol, fora um atacante de alto nível que atuara no meu time do coração, o Sport Club Internacional, e que entre diversas participações com a seleção nacional, integrou o grupo que participou da fatídica Copa do Mundo de 1950, no Brasil. Jogara mesmo uma Copa, como se contava! Mas fora por aqui mesmo, no próprio país.

Integrante da segunda formação da lendária equipe do Internacional chamada de Rolo Compressor, Adãozinho, imparável, veloz e artilheiro, tamanha era sua volúpia e indomabilidade fora alcunhado de Atacante Satânico. Seu prestígio permanece intacto, atravessa gerações tanto que, hoje, minha filha, colorada, admira e também se orgulha de ter um parente, mesmo que distante, representante das cores do nosso time da lendária camiseta brasileira.

As histórias com louras europeias deviam ser de algum torneio, amistoso ou uma convocação eventual, mas o fato é que a própria participação em um Mundial já atesta não se tratar de um jogador qualquer. Se hoje em dia qualquer jogador mediano, sem coração, veste a camisa da seleção, Tio Adão jogara em uma época repleta de craques na qual a concorrência era grande, além de ser um tempo em que o amor à camiseta que se vestia representava tudo.

Nada pode mudar isso: um dos nossos, do nosso sangue, fora um craque de Seleção Brasileira e jogara uma Copa do Mundo!


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Cly Reis


domingo, 5 de julho de 2026

A Seleção do Gil

 


Não tem ninguém na música brasileira que seja tão identificado com futebol do que Gilberto Gil. Duvida? Então diz aí alguém que torce para vários times ao mesmo tempo como ele. Além do Bahia, seu time, digamos, "natal", Gil tem como característica ter um clube em cada Estado brasileiro. No Rio de Janeiro, é Fluminense; em São Paulo, Santos; no Rio Grande do Sul, veste a camiseta gremista; em Pernambuco, a do Santa Cruz e assim por diante. 

Quando se trata de Seleção Brasileira, então, aí o velho baiano se delicia. Tanto que essa paixão pelo esporte bretão está em várias músicas do cancioneiro gilbertiano. Desde os primeiros anos de carreira até os dias atuais, Gil traz o futebol entremeado à sua faraônica musicalidade. Por isso, com o Brasil avançando de fase na Copa do Mundo, assim como já fizemos com Jorge Benjor e Chico Buarque rodadas atrás, agora é a vez de escalarmos as 11 músicas de Gil, sejam para sua própria voz ou para a de outros artistas, sejam composições de sua autoria ou de outros. Independentemente de quem cante ou compõe, é a arte maior de Gil subindo neste palco de quatro linhas feito de grama. 

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"No tempo que Lessa era goleiro do Bahia
Um goleiro, uma garantia"







1. "Tradição", do álbum "Realce" (1979): Considerada uma das obras-primas de Gil, admirada por colegas como João Bosco e Caetano Veloso, “Tradição”, de “Realce”, de 1979, é uma verdadeira crônica soteropolitana feita de reminiscências do Gil de sua infância. Numa narrativa que lembra Jorge Amado, são contadas, pelo olhar da observadora criança, diversas situações da cidade, como a discriminação racial, o comportamento social e... o futebol, quando Gil refere-se ao arqueiro Walter Lessa, multicampeão pelo seu Bahia entre 1947 a 1950. Já que estamos falando do camisa 1, nada melhor para começar essa lista com o goleiro.

Ouça: Tradição










2. "O Bom Jogador", do álbum "O Viramundo - Ao Vivo" (1972-1998): Música da entressafra do Gil pós-exílio, “O Bom Jogador” fazia parte do repertório que ele levava para os diversos shows que fazia em pequenos teatros no início dos anos 70 após retornar de Londres. Não entrou em nenhum disco na época, vindo a aparecer apenas na caixa com sobras de 1998 e, posteriormente, no registro de show na USP em 1973, lançado nos anos 2000. Na curta letra, uma máxima futebolística: “O bom jogador não engana a geral”.

Ouça: O Bom Jogador



"Viva Pelé do pé preto
Viva Zagallo da cabeça branca"






3. "Abre o Olho", do álbum "Gilberto Gil Ao Vivo" ou "Ao Vivo no Tuca" (1974): Não se trata de uma música necessariamente sobre futebol. Aliás, está mais para uma viagem lisérgica e filosófica de um homem frente a frente consigo mesmo diante do espelho. Mas o refrão não pode ser mais futebolístico - e nem tão emblemático: combinação de talento e "consumição" que deram ao Brasil os títulos mundiais de 1958 e 1970, representadas em Pelé e Zagallo, os quais, segundo Gil, "dão o sentido de contradição e complementaridade yin-yang; um é África, o outro, Europa”.

Ouça: Abre o Olho











4. "Samba Rubro-Negro (O Mais Querido)", com Germano Mathias, do álbum "Antologia do Samba-Choro" (1979)
: Prova de que Gil gosta mesmo é de futebol e não dá bola para rivalidades clubísticas é que ele também exalta seus adversários, caso de “Corintiá”, que ele grava, em 2010, mesmo sendo, em São Paulo, santista. A mesma coisa acontece com o rival de seu Fluminense no Rio, o Flamengo, para o qual ele grava, no seu desconhecido e raro disco “Antologia do Samba-Choro”, feito em parceria com o cantor e compositor paulistano Germano Mathias em 1978, “Samba Rubro-negro (O Mais Querido)”, de autoria de Wilson Batista e Jorge de Castro.

Ouça: Samba Rubro-Negro



"Magos da bola na Cidade Luz
Fazem milagres, transmutações
Dores e horrores que a vida produz
São transformados no balé da bola
Suor e sangue no balé da bola
Crime e castigo no balé da bola"




5. "Balé da Bola (Copa 98)", do single "Balé da Bola - Copa 98" (1998): Quando Gil inventa de compor sambas-enredo sempre sai coisa muito boa. Foi assim com “De Bob Marley a Bob Dylan, Um Samba-Provocação” e “Quilombo, O Eldorado Negro”. Para a Copa do Mundo de 1998, na França, o jornal O Globo contratou-o para compor um tema, que se tornaria na prática o tema daquela fatídica Copa em que o Brasil foi vice-campeão. Mas a música é uma maravilha, de alto poder poético e embalada ao ritmo de uma escola de samba. Só o olhar dele para ter tamanha arguição de ver que “Quando a seleção marcar um gol” serão séculos e mais séculos de nossa história, e que o mesmo vem desde os tupis e passa pela China, Grécia ou na França medieval. É muito craque!

Ouça: Balé da Bola










6. "Trinca de Ases", com Nando Reis e Gal Costa, do álbum "Gil, Nando & Gal - Trinca de Ases - Multishow Ao Vivo" (2018): Composta por Gil especialmente para o projeto deste nome em que ele divide "as quatro linhas" com Gal Costa e Nando Reis, a música faz analogias com o “estilo de jogo” de cada um. Ele, mais maduro, faz um jogo seguro e paciente. Nando, mais jovem, é “impetuoso e viril”. Já a “moça”, por sua vez, “corre livre”. Afinal, quem tem Gal no time tem que passar mesmo a bola pra ela e deixá-la fazer o gol. 

Ouça: Trinca de Ases



"Moleque saci
Saci-pererê
Um gol de Pelé
Que é pra gente ver"





7. "Saci Pererê", com Banda Black Rio, do álbum "Saci Pererê" (1980)
: Assim como "Meio de Campo", é dessas pérolas escritas por Gil para outros artistas, e que casualmente também trata de futebol. Neste caso, a música foi encomendada para a Banda Black Rio, grupo que Gil homenageara em “Refavela” (1977). Para o terceiro e último disco da Black Rio com a formação clássica, o baiano compõe esse reggae, que se tornaria nada menos que a faixa-título e no qual faz referência a um talentoso e intrépido moleque negro brasileiro que, embora perneta, joga muito melhor do que vários “pernas-de-pau” com os dois membros inferiores. Dê-se a camisa 7 pra esse atrevido atacante.

Ouça: Saci Pererê











8. "Meio de Campo", com Elis Regina, do álbum "Elis" (1973)
: Impossível haver combinação melhor: a maestria da composição de um dos maiores compositores da MPB feita para a voz da maior cantora do Brasil. Elis Regina eterniza este samba cheio de suingue, que desafia a Ditadura ao falar em forma de carta endereçada ao polêmico Afonsinho, um dos mais politizados e engajados jogadores do futebol brasileiro dos anos 70. Gil admite na letra que não é “Pelé nem nada”, e que, se muito for, é “um Tostão”. Se Chico Buarque é nosso Pelé na música, não é nenhum demérito a Gil ser um Tostão, não!

Ouça: Meio de Campo









9. "Balé de Berlim", do single "Balé de Berlim" (2006): O Brasil pode não ter ganhado em 1998, mas que a ideia de Gil compor tema da Copa deu certo, ah! Isso deu. Tanto que o baiano foi chamado novamente para a mesma empreitada, só que então para a Copa do Mundo de 2006, na Alemanha. “Balé de Berlim” repete melodia e o clima de samba com letra atualizada para a ocasião e, desta vez, Gil convoca para fazer tabelinha com ele Zeca Pagodinho. Se, assim como na França, a música de Gil não deu a sorte que a Seleção precisava, ficou para a eternidade, ao menos, mais um belo tema dele sobre futebol.

Ouça: Balé de Berlim


"Alô, torcida do Flamengo
Aquele abraço!"






10. "Aquele Abraço", do álbum "Gilberto Gil" (1969): Gil estava com um pé no aeroporto rumo ao exílio forçado na Inglaterra por causa do Governo Militar, mas não sem antes deixar seu manifesto. E, claro, um manifesto com a sua cara: poético, resistente e em forma de samba de breque. O clássico "Aquele Abraço", além de tudo, põe o futebol no contexto político-social do País, chamando para sua celebração de resistência a "torcida do Flamengo", o que significa, como a própria expressão se popularizou, convocar o "todo o povo brasileiro". Música nota 10, merece a camisa 10!

Ouça: Aquele Abraço









11. "Campeão dos Campeões", com Os Doces Bárbaros, do álbum "Doces Bárbaros Bahia" (2000): A partir de um projeto encabeçado por J. Veloso, um dos irmãos de Caetano e Maria Bethânia, os Doces Bárbaros (que inclui, obviamente, ainda Gal e Gil) se reuniram para gravar um disco com versões de hinos e música em homenagem ao Sport Club Bahia. A Gil coube esse reggae de autoria de Zé Pretinho, Raquel e Bezerra da Silva – que, embora super ligado à malandragem carioca, era, na verdade, baiano. Quanto a Gil, este sim, não há dúvidas: por mais que vista a camiseta de outros clubes, na verdade, ele é mesmo "Baêah"!

Ouça: Campeão dos Campeões


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Daniel Rodrigues