| "As Bailarinas" - Reis, Cly (2010) óleo sobre tela, 160x90cm |
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
terça-feira, 25 de setembro de 2012
"A Árvore da Vida", de Terrence Malick (2011)
Somente dia desses tive a oportunidade de assistir ao
premiado “Árvore da Vida” do cineasta pouco prolífico Terrence Malick, ganhador
da Palma de Ouro do festival de Cannes do ano passado e centro de uma certa
discussão dos que o colocam como extremamente chato e longo e dos que o vêem
como uma obra-prima definitiva. Eu diria que nem tanto ao mar nem tanto à
terra. Vi com toda a expectativa para um bom filme, mas também me resguardando
do que poderia me esperar, com toda a tenção que pudesse merecer ou necessitar
para que detalhes definidores não me escapassem, e com toda a paciência que
exigisse. Fiz bem em abranger todas as possibilidades. É um filme que exige que
todas estas antenas estejam ligadas. Ele vai exigir sua atenção, sensibilidade,
disposição, percepção e tempo.
Mallick alterna sua lente sobre a vida de uma família dos
anos 50, cujo pai (Brad Pitt) é rígido em sua educação religiosa; na cabeça
perturbada de um dos filhos desta família nos tempos atuais (Sean Penn); em
imagens esparsas acompanhadas pela voz de e Penn ou pela mãe da família
(Jéssica Ceastain); e em imagens notáveis do surgimento da vida, desde o Big
Bang, passando pelas glaciações, pela primeira forma de vida, pelos
dinossauros, pelo surgimento de uma árvore, pelo nascimento de uma criança.
Tudo isso ao som de temas clássicos que conferem uma atmosfera toda majestosa e
etérea à cada cena. Tudo pacientemente. Tudo sem obedecer necessariamente a uma
ordem lógica. Mas isso é compensado, na minha opinião, pela fundamental
amarração de todos os elementos que é a perda de um dos filhos pela família que
traz à tona toda sorte de dúvidas, questionamentos, reflexões por parte da mãe
e do irmão e, pretende suscitar no espectador o sentimento mais importante de
todos: entendermos que nessa vida, só há uma coisa verdadeiramente importante,
só uma coisa que realmente fica, que permanece, e que esta coisa é o amor.
O diretor pacientemente insiste nos mostrar em imagens
espetaculares a origem da vida, do universo, do mundo, nos apresenta uma
família com problemas, com sentimentos conflitantes, com hábitos particulares,
com suas crenças, insiste em mostrar a natureza, questiona Deus, questiona o
ser, só para nos dizer no fim das contas que A VIDA É ASSIM. Tudo tem começo,
meio e fim. Inclusive nós. Mas nós, humanos, racionais que somos, temos é que
viver nossas vidas, sejam elas com pais rigorosos ou não, com religiões ou sem
elas, com alegria muitas vezes mas com tristezas também, lidando com a morte,
lidando com frustrações, mas fazendo uso dessa capacidade ímpar que temos em
relação aos outros seres vivos que é o poder de amar.
Nem tanto ao mar nem tanto à terra: não é cansativo como
muitos classificam, maçante por conta de sua duração, ausência de linearidade
ou subjetividade. É filme para se ver mais com os olhos da alma do que com os
olhos físicos. Filme que merece a contemplação que ele mesmo sugere. Por outro
lado, não o classificaria também como obra-prima. Não chegaria a tanto. Não
diria tratar-se de uma das melhores coisas que tenha visto na vida ou o
impulsionaria imediatamente ao olimpo das grandes obras do cinema, lá junto com
“8 e 1/2”, “Laranja Mecânica”, etc. Muito bom filme, com certeza. Inegavelmente o é. Apreciável e
recomendável pra quem estiver disposto a ver com o coração e a mente abertos.
Porque “A Árvore da Vida” no fim das contas, amigos, não é
nada mais nada menos do que um filme sobre... a vida. Sobre a vida.
Cly Reis
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
Coluna dEle #27
Ó!
Tamo aí, chegando na área.
Como vão Meus filhos?
Tudo na Minha Santa Paz?
Que bom!
Que Eu vos abençoe.
*****************************
Sabem que Eu sempre fui meio resistente a essas coisas de
tecnologia e coisa e tal, né. Pra automatizar todo o sistema aqui, por exemplo,
teve muita resistência da Minha parte. Mas aí ficava o Pedrinho insistindo,
dizendo que a gente podia programar as estações do ano, as chuvas, que nunca
mais ia ter problemas como aquele do Noé e olha aí as merdas que tem dado. Mas
tenho que admitir que mesmo dando uns tilt de vez em quando, é melhor do que
no sistema antigo que era todo manual. Era dê-lhe a negada aqui carregar balde
e mangueira pra qualquer chuvinha que tivesse que fazer; tinha que desenhar
cada cidadão pra ver como é que ia ficar a cara do indivíduo e hoje a gente faz
isso no computador; tinha que abrir um livro enorme pra ver quem nascia e quem
morria e hoje tá tudo cadastrado num programinha. É maneiro, é maneiro!
Até esse negócio de escrever em blog! Nossa! Pra Mim isso
era algo inimaginável mas a modernidade acaba chegando uma hora pra todo mundo
e pra Mim, em especial, parece que foram milhões de anos.
Só que agora, de uns tempos pra cá, apareceu outro barato
que Eu resolvi aderir também que é essa parada de redes sociais. No início Eu
não curti muito, mas até pra ver o que tanto esses santos-do-pau-oco daqui de
cima ficavam futricando na Eternet a tarde inteira, Eu resolvi criar uma conta.
O fato é que a galera toda aqui também tinha entrado e ninguém mais trabalhava
nesse inferno, quero dizer nesse Céu. Que que Eu fiz, então??? Pra saber o que
todo esse povo andava pensando e postando nesses Yorkut, Feice, Tuíster ou o diabo que
seja, Eu resolvi ser o administrador. Quero dizer, aministrador Eu já
sou, né, mas digo, resolvi ser o administrador da Minha própria rede social.
Pedi pro Jobs, que acabou de chegar por aqui pra configurar os esquemas pra mim
e tal, ele Me disse que não era a especialidade dele, que o que ele sabia fazer
mesmo era tablete, Aipode, mas achava que dava pra fazer. Aí que agora Eu tenho
a minha rede própria celestial que Eu batizei de Faithbook.
Uma maravilha!
Troco uma ideia com a galera, posto vídeos, sacaneio os caras,
discuto futebol, posto fotos. Imagina que o Moisés publicou uma foto minha de
quando a gente se encontrou no Sinai pra Eu entregar os Mandamentos pra ele.
Putz! Eu nem lembrava mais disso!
Divino!
Cara, e isso vicia!
Não consigo mais deixar de entrar. Aliás, Eu nem saio mais.
E tem a rapaziada, né; tem o Chico de Assis que fica
postando aquelas mensagens de adoção de animais e tal; O Jorginho que depois
que o Corinthians ganhou a Libertadores só fica botando coisas de futebol, zoando o Paulão chamando ele de Bambi; o Tinhoso, que só fica mandando uns
clipes de metal; a patroa que fica trocando umas receitas com a Fátima, com a
Gracinha e com a Das Dor; e o Meu filhão, o JC, que adora COMPARTILHAR tudo o
que vê pela frente no Faithbook, sempre com aquele coração enorme.
Sem falar nos que vieram aqui pra cima e que também tem
perfis, tipo o Shakespeare e o Wilde que tão sempre botando umas frasezinhas
bacanas; Aquela velha safada da Dercy que fica falando sacanagem o tempo todo; O
Kurt que só fica com aquele ranço pessimista e negativo; e caras como o Chico Anysio sempre tem alguma coisa pra fazer a gente rir.
Se quiserem Me adicionar Eu tô lá como Todo-Poderoso. É
fácil de achar.
Já tô com mais de 7 bilhões de amigos.
Me Add lá, vai.
****************
Antes de aderir a essa coisa toda de tecnologia, informática
e tudo mais Eu era muito ruim nesses troços. Eu lembro que logo que a gente
começou a utilizar computadores aqui em cima, Eu sempre esquecia de salvar o
que tava fazendo e volta e meia perdia todo o Meu trabalho. Por sorte o Meu filhão,
que trabalhava em rede comigo, sempre dava um SAVE e a gente garantia os arquivos na máquina dele. O pessoal aqui sempre comentava como ele era responsável,
atento e foi daí que surgiu aquela expressão “Só Jesus Salva”.
É mesmo!
Se não fosse ele...
********************
Por hoje chega, filharada.
Não se esqueçam de fazer suas orações, não matem, não
roubem, não pronunciem Meu santo nome em vão e não desejem a mulher do próximo
(se bem que tem umas que não tem como resistir, né?)
Fiquem Comigo e que Eu vos abençoe!
Fui!
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Contato, informações, pedidos, súplicas, etc., pelo
ou no
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
Os Causo de Dois Morro - A Revolução Maltrapilha
Lá em Dois Morro nóis também comemora uma data importante
que nos enche de orgulho. É a famosa Revolução Maltapilha que assucedeu-se
maizomeno lá por 1735 e ficô conhecida assim porque depois de muito
bombardeamento do inimigo, as roupa dos sordado doimorrense ficaro uns
verdadero trapo.
Naquelas época Dois Morro importava carne de profiteróle pro
resto do mundo e os’panhol, de ôio grande, vendo que Dois Morro já era a maior
potença navegadora e comerciadora daqueles tempo, resorveu de boicotá (e vacacotá também) as
nossa importação da carne do bichinho. Se ajuntaro com os bretão, com os saxão
e com os escandinávio, e broquearo nossos comerço co’zotros país. Ah, nóis se
enfurecemo! Declaremo guerra co’ resto do mundo! Se armemo com o que nóis tinha
mesmo: espeto, faca de churrasco, bodoque, bolita, as muié usaro as agulha de
tricô e crochê e fomo pra luta. Enfrentemo o Império Romano, os Persa, os
Mongol, os Sarraceno como nóis podia.
Foi difícer!
O confrito duro 10 ano. Déiz ano!!!
Té que, acuado como nóis tava, tivemo que recorrê às
arma-química pra intimidá o inimigo: chamamo o Chico Bota-Queimada, demo pra
ele uma janta com bastante batata-doce, ovo, repolho, feijão, aipim e a famosa carne
do profiteróle, especialidade da região, e levamo ele pra linha de batalha.
Viramo a bunda dele pro lado dos exército rival, saímo de perto e esperamo a
coisa acontecê. Era só questã de tempo até a coisa toda se processá no estongo do desinfeliz. Quando ele
sortô aquilo tudo...meu amigo... metade dos sordado inimigo morrero, a ôtra
metade, meio tonta, pediu arrêgo. Ameacemo mandá ôtra carga e aí sim é que eles
se borraro de medo. Levantaro as bandêra branca.
Sei que os rei, os líder, os imperador pediro descurpa,
dissero pra dexá tudo num honroso empate e resorvero que ío vortá a comerciá
com Dois Morro. Uma ova! Aí nóis é que num queria mais! Depois daquela desfeita
que fizero co’a gente resorvemo nos separá do resto do mundo. Antonce que no dia 1° de
Abriu de 1745 o General Pinto Seboso procramô a República Doismorrense.
E é desse jeito até hoje. Nóis separado de vocêis. Por isso
que vocêis num encontra Dois Morro no grobo terrestre. Pode procurá. No
mapa-mundo, no Gugol Ãrff, nas encicropédia. É porcausdequê, oficiarmente, nóis
num faz parte mais do mundo.
E nóis tá bem assim.
postado por Chico Lorotta
cotidianas #180 - Especial 20 de Setembro
Sobre Bandeirantes e Gaudérios
Uma vez me contaram de um diálogo entre um gaúcho e um paulista
que até hoje reflito. Por motivos de trabalho, o gaúcho, avisando o paulista de
que dia 20 de setembro não haveria como se falarem por causa do feriado regional,
foi surpreendido com a seguinte pergunta irônica do paulista: “Ué: mas vocês
não perderam a guerra?”. Embora claramente jocosa, não há como contrariar de um
todo a observação. Se visto com olhar distanciado, o fato de se optar por
marcar a data pelos iniciais e astutos disparos de garrucha (20 de setembro de
1835) ao invés da discreta assinatura de um documento no seu término, em 1845,
soa suspeito. Suspeita de um engrandecimento de atos que, no subtexto malicioso
do tal paulista, não seriam assim tão grandiosos. A fama do gaúcho valente
seria, no fundo, uma propaganda enganosa, uma vez que a rebelião da Revolução
Farroupilha sucumbira a um diplomático e entreguista acordo. A birra pedante
por um país separado do resto do Brasil se esvanecera num acordo entre rebeldes
e Império, deixando tudo até hoje como o “Império” quer. Como diz o outro:
“rabo entre as pernas”.
Nem tão a terra nem tão a céu. Acho bárbaro esse sul de rios
grandes, serras, campanhas e metrópole, mas confesso que o desejo separatista
mal resolvido soa-me ainda o mesmo quando ouço a risada de muita gente que lê O
Bairrista e só acha graça em um dos lados da piada. Riem porque é engraçado
achar graça de ser superior aos outros, pois só sendo superior para achar graça
de si sem o constrangimento de não parecer ser. Por outro lado, não queiram vir
aqui esses ex-bandeirantes (ou seja, piratas-de-terra mercenários) desfazer um
povo que pensa e que não se omite de posicionar-se quando é preciso. De João
Cândido a Dunga, provas disso não faltam. Farroupilha mesmo! Dia desses, um
amigo meu ponderou-me alguns argumentos interessantes quanto à valorização dos
elementos folclóricos gauchescos. Ele me relatou que uma vez levou uma amiga
paulista ao acampamento farroupilha para que ela conhecesse as tradições de
nossa terra. O impacto e a excitação dela (inclusive desta forma que você está
pensando...) foram tamanhos que ele percebeu o quanto esse folclore vale tanto
quanto o de qualquer outro lugar. A diferença é que está aqui mesmo, é que, lá
fora, chamam de “folk”.
A questão é: em um país continental como o nosso, e onde se está
longe de uma unidade cultural e social de fato, há de se louvar que em algum
lugar, mesmo que no pé do mapa, tenha-se procurado encontrar um sentido por uma
terra que responda a todos. Sei que tanto não responde a todos quanto,
principalmente, a forma como muitas vezes esta unidade é proposta é totalmente
errada, e só faz aumentar (propositalmente) nossa distância dos outros brasis
que, quer queira, quer não, guris e gurias, fazemos parte. Eu, particularmente,
gosto de fazer parte. Orgulha-me neste 20 de setembro, mais do que pilchas e
chamas crioulas, as camisas dos gaudérios com um mesmo que discreto bordado com
as bandeiras do Rio Grande do Sul em um braço e do Brasil no outro (em tamanhos
proporcionalmente idênticos, importante que se diga). Isso sim é estar no aqui
para estar no mundo. Cabendo aqui neste pedaço de terra em forma de cuia onde
insistimos em nos fechar, socados como erva-mate, é possível caber em qualquer
lugar, inclusive nos outros brasis.
Mas além das bandeirinhas bordadas, também me encanta no 20 de
setembro o sorriso da prenda. Mas isso é de uma poesia tão grandiosa e
longitudinal que, este sim, não cabe nesses pagos. Atravessa as coxilhas,
invade os campos, alvoroça o gado. Esse sorriso, índio velho, é muito mais
redentor, não pertence a nós. Não pertence a nós.
por Daniel Rodrigues
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
Mott the Hoople - "Mott" (1973)
![]() |
| acima, a capa da edição americana e abaixo, a distribuída no Reino Unido |
"O melhor disco
da melhor banda
do início dos anos 70."
da melhor banda
do início dos anos 70."
Revista Rolling Stone
Esse livro ainda vai me levar à falência.
Ou à loucura!
(Ou os dois)
Ou, no melhor das hipóteses, me deixar sem espaço na
prateleira de CD’s.
Mas fazer o quê?
Eu reclamo mas, inegavelmente, é sempre legal descobrir
coisas novas e a minha ‘bíblia’ de cabeceira, o "1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer" volta e meia me proporciona o descobrimento de algum som bacana que eu
nunca tinha ouvido antes.
Li nele sobre um tal de Mott the Hoople e fui à cata. Não
baixei. Aproveitei que estava indo a Londres e comprei lá mesmo o álbum “Mott”,
que até não tem o maior sucesso da banda “All the Young Duddes” que fez parte
inclusive da trilha do filme “Juno”, mas que era o recomendado pela publicação.
E de novo a dica do "1001 Discos..." foi na mosca!
Muito bom disco!
Produzidos que foram no primeiro trabalho por David Bowie,
os rapazes aprenderam direitinho o negócio e fizeram um disco exemplar de
glam-rock, bem ao estilo do mestre Camaleão.
Num disco que versa fundamentalmente sobre a vida no mundo
da música, seus prós e contras, seus altos e baixos, venturas e desventuras
destacam-se a primeira do álbum, “All the Way from Memphys”,um rock’n roll
gostoso carregado no piano e no sax; a pegada “Whizz Kid”, um hard-rock com peso e distorção; e a excelente “Ballad
of Mott the Hoople” que aborda exatamente essa vida mainstream de forma honesta e realista.
Também valem destaque “Hymn for the Duddes” balada que soa
quase como uma oração, verdadeiramente um hino com seus solos longos e tons
monumentais; “Honaloochie Booggie” um hard-rock charmoso e cheio de vitalidade; “Violence”,
um proto-punk com uma interpretação entre o agressivo e o sarcástico do vocalista Ian Hunter; e “I’m a Cadillac / El Camino Dolo Roso”, um excepcional épico em duas partes, a
primeira um mais rock’n roll e a segunda mais lenta, mais acústica, com contornos de
latinidade e ares mexicanos.
Grande disco, mais uma grande descoberta!
Mais um pra conta do livro.
Ai, ai, ai... Onde é que eu vou guardar tantos CD’s?
FAIXAS:
- "All the Way from Memphis" – 5:02
- "Whizz Kid" – 3:25
- "Hymn for the Dudes" (Verden Allen, Hunter) – 5:24
- "Honaloochie Boogie" – 2:43
- "Violence" (Hunter, Ralphs) – 4:48
- "Drivin’ Sister" (Hunter, Ralphs) – 3:53
- "Ballad of Mott the Hoople (26th March 1972, Zürich)" (Hunter, Dale "Buffin" Griffin, Peter Watts, Ralphs, Allen) – 5:24
- "I’m a Cadillac / El Camino Dolo Roso" (Ralphs) – 9:41
- "I Wish I Was Yur Mother" (Hunter) - 4:52
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Ouça:
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
cotidianas #179 - Boca Suja
Te quero dizendo
As piores baixarias
Palavras de baixo calão
Da mais alta linguagem
Enche a boca pra falar
Nuanças da fala
Falas nuas de qualquer etimologia
Grosserias, tabuísmos
Diz
E dá um tapa nos beiços
Fingindo espanto
Com um sorriso de malícia por trás
Licencia-se a soltar tudo o que há de mais licencioso
Figuras de estilos pornográficas de tão estapafúrdias ao ouvido:
Zeugmas, anacolutos, prosopopeias, antonomásias
epizeuxes
Meta dentro metáfora
Te desnuda e desboca
Deixa vir o clímax, te entrega
Dá-te prazer na ponta da língua
Com palavras lambuzadas de deleite
E saboreia uma por uma
Viscosas e doces
Pois quando sai de ti
Palavrão não é nome feio:
É palavra grande
Que entope de gozo
A tua boca suja
sábado, 15 de setembro de 2012
Rage Against the Machine - "Evil Empire" (1996)
“...eu os
aviso para terem cuidado com a tentação do orgulho, a tentação de se declarar
alegremente acima de tudo e rotular os dois lados igualmente em falta, ignorar
os fatos da história e os impulsos agressivos de um ‘Império do mal’, para
simplesmente chamar a corrida armamentista de um gigante
mal-entendido (...) Eles pregam a supremacia do Estado, declarando sua
onipotência sobre o homem individual e preveêm sua dominação eventual de todos
os povos da Terra.
Eles são o foco do mal no mundo moderno. “
discurso
de Ronald Reagan
no qual usa a expressão
que inspirou o nome do álbum
no qual usa a expressão
que inspirou o nome do álbum
Um coquetel Molotov!
Uma explosiva combinação de funk, hardcore, hip-hop, metal,
rap como nunca havia se visto antes. Não com tamanha qualidade, com tamanha
pegada, com tamanha fúria.
Sobre os riffs pesados do bom guitarrista Tom Morello e
bases embaladas, Zack de La Rocha com seu vocal rap desfilava suas letras
engajadas, inteligentes e indignadas sobre a guerra, sociedade industrial,
capitalismo, desigualdades sociais e tudo mais que pudesse servir de pólvora
para esta verdadeira bomba que é o som do Rage Against the Machine.
Embora seu primeiro álbum, de mesmo nome da banda, de 1992,
já tivesse despertado a atenção de público e crítica, com “Evil Empire” de 1996
atingem uma maturidade sonora mais interessante e um resultado técnico mais
completo. Peso, balanço, rima e intensidade ganham um maior equilíbrio e
resultam em faixas excepcionais como ‘Revolver”, “People of the Sun”, “Tire Me”
e “Down Rodeo”, a minha favorita dos disco com aqueles efeitos que lembram o
barulho de uma tesoura.
Também merecem destaque “Vietenow”, “Yera of tha Boomerang”
e “Witohut a Face”, verdadeiras porradas na boca do estômago.
Dinamite pura.
Um homem-bomba no metrô, um carro bomba estacionado na
frente da embaixada.
Tipo do disco que devia vir com o aviso na capa: Altamente
inflamável.
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FAIXAS:
- "People of the Sun" – 2:30
- "Bulls on
Parade" – 3:51
- "Vietnow" – 4:39
- "Revolver" – 5:30
- "Snakecharmer" – 3:55
- "Tire Me" – 3:00
- "Down Rodeo" – 5:20
- "Without a Face" – 3:36
- "Wind Below" – 5:50
- "Roll Right" – 4:22
- "Year of tha Boomerang" – 3:59
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quinta-feira, 13 de setembro de 2012
cotidianas #178 - Nota social
O poeta chega na estação.
O poeta desembarca.
O poeta toma um auto.
O poeta vai para o hotel.
E enquanto ele faz isso
como qualquer homem da terra,
uma ovação o persegue
feito vaia.
Bandeirolas
abrem alas.
Bandas de música. Foguetes.
Discursos. Povo de chapéu de palha.
Máquinas fotográficas assestadas.
Automóveis imóveis.
Bravos...
O poeta está melancólico.
Numa árvore do passeio público
(melhoramento da atual administração)
árvore gorda, prisioneira
de anúncios coloridos,
árvore banal, árvore que ninguém vê
canta uma cigarra.
Canta uma cigarra que ninguém ouve
um hino que ninguém aplaude.
Canta, no sol danado.
O poeta entra no elevador
o poeta sobe
o poeta fecha-se no quarto.
O poeta está melancólico.
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"Nota Social"
Carlos Drummond de Andrade
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
"Fahrenheit 451", HQ de Tim Hamilton, baseada na obra de Ray Bradbury - Globo Graphics (2012)
Acabei de ler há pouco a HQ "Fahrenheit 451", baseada no livro homônimo de Ray Bradbury e fiquei bastante bem impressionado. A adaptação do norte-americano Tim Hamilton é sombria, é forte, é inquietante, em grande parte, sim, pelo conteúdo original, de um futuro onde os livros são proibidos e queimados pelas autoridades, mas muito pela maneira como vê, como interpreta cada frase, cada cena descrita pelo escritor original. A obra em graphic novel é muito mais fiel que a adaptação cinematográfica de François Truffaut, muito mais poética e com mais ênfase direta nos livros especificamente, culminando naquele belíssimo final de biblioteca viva. A versão do desenhista, avalizada e prefaciada com láureas pelo próprio Ray Bradbury recém falecido no último mês de junho, centra-se mais no cerceamento da liberdade, nos aspectos sociológicos e no empobrecimento cultural humano, trazendo-nos um Montag perturbado e confuso, e principalmente por conta de seus quadrinhos escuros, indefinidos e diáfanos, compondo um quadro geral final que soa um tanto mais pessimista.Vale conferir!
Mais uma grande obra da literatura adaptada com brilho e competência para os quadrinhos. Que continue assim!
Cly Reis
terça-feira, 11 de setembro de 2012
"Macanudismo - Quadrinhos, Desenhos e Pinturas" por Liniers - Caixa Cultural - Rio de Janeiro
Não participei das outras possibilidades da programação, como as mesas-redondas, ateliês e tal. Apenas passei meio na pressa, meio de passagem mas com tempo o suficiente para dar um boa conferida e uma apreciada na obra deste excelente artista.
Essa não adianta nem correr mais pra ir porque já foi.
Abaixo algumas imagens da exposição:
por Cly Reis
sábado, 8 de setembro de 2012
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
cotidianas #177 - Difícil de Explicar
As mulheres resolveram se reunir para comemorar o aniversário de formatura.
Conheciam-se havia, sei lá, 15, 16 anos e nunca tinham marcado nada juntas sem os maridos.
Marcaram uma reuniãozinha na casa de uma delas só pra fofocar, botar a conversa em dia e tomar umas que outras. Os maridos podiam, por que elas não, ora?
Lá pelas tantas da madrugada, uma delas, completamente bêbada, mal se aguentando em pé, resolveu que era hora de ir embora. Pegou o carro e pôs-se a dirigir a caminho de sua casa, Deus sabe lá como. Só que no meio do caminho, coisas de bêbado, deu aquela irresistível vontade de mijar. Não tinha como segurar. Um muro? Um pátio? Uma moita? Avistou então um cemitério. Ah, ia ser ali mesmo! Parou o carro próximo ao portão e ignorando até mesmo o sinistro do lugar, sem opção melhor e completamente sem noção pela bebedeira, decidiu fazer ali mesmo, dentro do cemitério.
Desceu do carro, foi-se cambalenado, tropeçando, caindo, esfolando os joelhos, até que não aguentando dar mais um passo subiu na tampa de uma sepultura qualquer, tirou a calcinha e se aliviou ali mesmo.
Ahhhh!!!
Acabando, e não encontrando nada com o que se limpar, pegou a primeira coisa que lhe estava ao alcance, uma fita de uma coroa de flores que estava em cima de um túmulo e a usou como papel higiênico. Levantou, esquecendo-se até mesmo da calcinha, e saiu meio cambaleante andando entre os túmulos até chegar ao carro. Depois disso nem sequer lembrava de como chegara em casa.
Ahhhh!!!
Acabando, e não encontrando nada com o que se limpar, pegou a primeira coisa que lhe estava ao alcance, uma fita de uma coroa de flores que estava em cima de um túmulo e a usou como papel higiênico. Levantou, esquecendo-se até mesmo da calcinha, e saiu meio cambaleante andando entre os túmulos até chegar ao carro. Depois disso nem sequer lembrava de como chegara em casa.
No dia seguinte acordou com uma tremenda ressaca. Não lembrava de praticamente nada da noite anterior. Só recordava de ter saído da casa da amiga e depois, puff! Tudo sumia da sua memória.
Encontrou o marido na cozinha, tomando café e ao lhe dar bom dia, o viu transtornado com os olhos cheios d'água:
- Está tudo acabado entre nós. Tudo - disse o marido.
- Como assim? Mas... por que? Só por que eu saí com as minhas amigas uma única vez? Uma vezinha só! Você sai com seus amigos toda as semanas... - tentou argumentar a esposa.
- Amigas, é??? - retorquiu indignado - Amigas? Então como é que você me explica ter chagado em casa bêbada, de madrugada, com os joelhos todos lascados, sem calcinha e com uma fita presa na bunda com a inscrição: "Jamais te esqueceremos: Vagner, Moisés, Elias e toda a turma da faculdade." ?
*****************************
É... Dífícil de explicar.
Encontrou o marido na cozinha, tomando café e ao lhe dar bom dia, o viu transtornado com os olhos cheios d'água:
- Está tudo acabado entre nós. Tudo - disse o marido.
- Como assim? Mas... por que? Só por que eu saí com as minhas amigas uma única vez? Uma vezinha só! Você sai com seus amigos toda as semanas... - tentou argumentar a esposa.
- Amigas, é??? - retorquiu indignado - Amigas? Então como é que você me explica ter chagado em casa bêbada, de madrugada, com os joelhos todos lascados, sem calcinha e com uma fita presa na bunda com a inscrição: "Jamais te esqueceremos: Vagner, Moisés, Elias e toda a turma da faculdade." ?
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É... Dífícil de explicar.
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
Capital Inicial - "Capital Inicial" (1986)
"Porque pobre quando nasce com instinto assassino
Sabe o que vai ser quando crescer desde menino
Ladrão pra roubar, marginal pra matar
'Papai eu quero ser policial quando eu crescer' "
da letra de "Veraneio Vascaína
Um dos ilustres representantes do rock de Brasília e um dos tentáculos do Aborto Elétrico, embrião que também originou a Legião Urbana, o Capital Inicial em seu excelente disco de estreia fazia um pop altamente acessível e palatável sem, no entanto abrir mão da veia punk que o originara. Mesmo hits como “Música Urbana”, por trás de uma competente produção que lhe enfeitava com metais e com uma linha de teclado simpática e marcante, traziam a sombra do caos cotidiano e da indignação social característica do punk rock. “Fátima”, o outro grande sucesso do álbum, também um pop, porém um tanto mais grave, mais tensa, mais séria, com suas sugestões religiosas, filosóficas e pitadas de alfinetadas contra a ditadura numa letra de Renato Russo, interpretada com notável competência e intensidade por Dinho Ouro-Preto. Já “Psicopata”, outra de boa execução radiofônica, era um punk comportamental agressivo e sem concessões. Básico, rápido, violento e forte. Uma pedrada! Pedrada? Bomba mesmo era “Veraneio Vascaína”, punk até a alma sob todos os aspectos, em sonoridade, letra e atitude, responsável direta pela proibição peremptória e incondicional do álbum, numa letra pra lá de detonante na qual rotulam a polícia de “assassinos armados uniformizados”.
“Cavalheiros” é outra com características punk, pegada e acusativa; a acelerada “No Cinema”, embora tratando de um tema banal guarda sua dose de agressividade sonora; e a boa “Leve Despespero” pende mais para o lado do darkismo dos anos 80, mais cadenciada e com uma letra intimista e depressiva, mas nem tudo é ‘ferro-e-ferro’ e o álbum tem momentos mais leves como “Tudo Mal” e “Linhas Cruzadas”, que apesar de retratarem relações infelizes, dão um toque um pouco mais descontraído sonoramente.
É bom que se diga e não se esconda a verdade que as melhores letras deste primeiro disco do Capital, "Múasica Urbana", "Fátima" e "Veraneio Vascaína" eram de autoria de Renato Russo, frutos ainda do finado Aborto Elétrico, mas não é fato suficiente que deslustre o mérito desta competente banda que soube dar personalidade a estas canções, imprimindo sua marca e conferindo-lhes interpretações marcantes através de seu vocalista.
Outro dos ilustres representantes do rock de Brasília e dos grandes pilares do BRock dos anos 80. Que metade de década foi aquela que nos proporcionou entre 85 e 86 álbuns como "Cabeça Dinossauro", "Dois", "Vivendo e Não Aprendendo", "Revoluções por Minuto", "Nós Vamos Invadir Sua Praia" e este “Capital Inicial” de 1986!
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FAIXAS:
- "Música Urbana" 3:30 (Fê Lemos, Flávio Lemos, André Pretorius, Renato Russo)
- "No Cinema" 2:56 (Fê Lemos, Flávio Lemos, Loro Jones)
- "Psicopata" 2:49 (Fê Lemos, Flávio Lemos, Pedro Pimenta, Loro Jones)
- "Tudo Mal" 3:12 (Fê Lemos, Rogério Lopes de Souza, Loro Jones)
- "Sob Controle" 3:31 (Flávio Lemos, Dinho Ouro Preto, Loro Jones)
- "Veraneio Vascaína" 2:15 (Renato Russo, Flávio Lemos)
- "Gritos" 3:27 (Fê Lemos, Dinho Ouro Preto, Loro Jones, Guta)
- "Leve Desespero" 3:53 (Fê Lemos, Flávio Lemos, Dinho Ouro Preto, Loro Jones)
- "Linhas Cruzadas" 3:36 (Fê Lemos, Flávio Lemos, Dinho Ouro Preto, Loro Jones)
- "Cavalheiros" 3:25 (Fê Lemos, Flávio Lemos, Dinho Ouro Preto)
- "Fátima" 3:49 (Renato Russo, Flávio Lemos)
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Ouça:
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
cotidianas #176 - Pano Torcido
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"Trama Sangrada" -
Rodrigues, Daniel
|
Chegou em casa pelas seis e quarenta e cinco da tarde, como regularmente
chegava todos os dias. Entrou pelo portão frontal e passou pela primeira casa
em direção à sua, nos fundos. No estreito corredor lateral, nem percebeu o
cumprimento de dona Eulália, a vizinha idosa, boa gente e muito carente, que
logo, logo ia se recolher. Ela, sem atenção dos parentes, o esperava naquela
hora todos os dias para dar um simples “boa noite”. Mas aquele dia não era “todos
os dias” para ele: era um dia diferente. Era o dia em que, finalmente, acabaria
com aquela agonia.
A porta de madeira envelhecida e de pintura gasta estava entreaberta
como sempre. Empurrou-a com a palma e entrou. A mulher, como de costume àquela
hora, estava na pia, lavando louça. Ela não tirou os olhos da água, mas
obviamente percebeu a chegada do marido, já tão corriqueira e banal que não
merecia o esforço de um “oi”. Mas ele, ao invés de entrar e ir direto em
direção da térmica na mesinha para servir seu cafezinho tradicional, parou logo
depois da porta a olhar para a mulher. De pé, com o macacão sujo de graxa, mas
com as mãos limpíssimas e fedidas de querosene. Largou cuidadosamente a maleta
de ferramentas ao lado da pia e continuou ali parado, fitando-a com um olhar curioso
mas ao mesmo tempo desamparado e doentio. Não deu muito tempo e ela, notando-lhe
a falta de reação, parou a lavagem impaciente:
- Qué qui foi, hôme?! – rosnou-lhe. – Vai ficá aí parado
feito jerivá? Não me diz que tu já tá com aqueles piri-paque de novo?
- Qui piri-paque qui nada, mulhé! Joga essa boca pra lá! –
desviando o até então fixo olhar.
- Olha, Jair, eu já te falei qui se tu não cuidá dessa
pressão eu também não te cuido. Vai morrê tendo um tréco na minha frente
sozinho qui eu não vô nem te acudí!
- Não é pressão, Nilza. Pára de falá berstêra!
- Hum... se eu não te conheço – falou desconfiada, mirando-o
com a testa franzida e voltando-se de novo para a louça.
Calaram-se novamente. Ouvia-se apenas o latido insistente do
Bóbi vindo do pátio, que não parava desde que ele chegou. Os latidos o
incomodavam, mas, por outro lado, ele estava comemorando no seu íntimo pela
reação da mulher. Não pela grosseria, com a qual já estava acostumado, afinal
quem iria dar valor para um homem fraco, doente, sem instrução e que “mal
consegue botar arroz e feijão dentro de casa”? Ninguém, nem mesmo ele. Tinha
consciência de que era um fracassado (afinal, não era assim que seu pai lhe chamou
a vida toda enquanto esteve vivo: “fracassado”?). A comemoração era, sim, por ela
ter creditado que o seu comportamento diferente se devia à saúde. Que bom, pois
isso a despistava. A não-desconfiança da mulher (sempre muito atenta a todos os
movimentos dele, como se sempre antevisse o que ele ia fazer ou dizer), assim,
era menos um obstáculo para o que tinha em mente. Maria Cristina não voltaria,
porque tinha ido dormir numa amiga. Só faltava agora dona Eulália se recolher,
o que fazia todos os dias pontualmente às sete da noite, bem cedo, coisa de
velha. Mas ainda faltavam alguns minutos, e aquela postura estática era porque ele
estava uma pilha de nervos. Soava frio debaixo do macacão, meio inebriado, tão
nervoso que seus movimentos pareciam congelados, pois ainda permanecia de pé no
mesmo lugar de quando chegou. Como um jerivá plantado ali há séculos.
Ainda atida aos pratos, ela observou-o de canto, mais com a
sobrancelha do que com o olho, e soltou:
- Teu irmão Oswaldir que teve aqui mais cedo...
Silêncio dos dois. Dela, de expectativa pelo o que ele iria
falar, e dele, de total incômodo com o fato. Tanto desacomodou que o fez sair
daquela inércia e, finalmente, dar passos em direção à mesa da cozinha. Bóbi,
lá fora, seguia latindo. Parou de novo ali, em pé. Virou a cabeça e observou
pela basculante acima da pia a casa da frente: dona Eulália já tinha fechado a
janela. A luz ainda estava acesa, mas já havia fechado a janela. Bom sinal;
sinal de que em minutos poderia entrar em ação e acabar com aquela humilhação,
com aquela sem-vergonhice de uma vez por todas. Meu Deus, pensava, era muito
rebaixamento para um homem. Se ainda fosse com um outro... mas... o próprio
irmão! E dentro da sua casa! Que descaramento! O que dona Leni (“que-Deus-a-tenha”),
ia pensar daquilo? Seria muita tristeza para uma mãe, pensava, ainda mais para
ela, que teve a vida tão sofrida.
Ele entendia o porquê das risadinhas e piadas maliciosas dos
colegas e até de clientes na oficina. Claro que entendia! Mas fazia-se de tonto,
o que, porém, não diminuía sua dor. Não conseguia nem pensar nos dois na cama
se tocando, se alisando, se beijando, babando um no outro... Dava-lhe náusea, e
a pressão, que andava cada dia pior, subia nas alturas. Mas naquele dia ele
controlou a pressão com o remédio e segurou a ansiedade o dia todo, concentrado,
como um assassino frio e calculista. Agora, no entanto, seu estado nervoso lhe
traía. Suava feito um porco testa abaixo, costela abaixo.
- Esse cachorro não pára de latí... – disse ele baixinho num
tom assutado, como se tivesse sido descoberto pelo cão.
- É esse cusco duz’inferno! – praguejou ela. – Um dia ainda
jogo esse bicho no mato.
Mexeu no bigode e não respondeu nada para não dar
prosseguimento no assunto, num medo idiota de que a mulher fosse traduzir o
latido em palavras.
- Vai ficá com esse macacão gosmento a noite toda, hein? E não
vai tomá o teu café? Recém passei.
Depois de uma pausa, retomou:
– Teu irmão trouxe umas coisa da feira, umas fruta, uns
verde. Tudo coisa boa, de qualidade.
- Já te disse que não gosto que ele fique trazendo coisa
aqui pra casa. Já te falei, não te falei? Ele não tem nada que ficá trazendo
coisa aqui pra casa. Essa não é a casa dele! Tu não é mulher dele, ora essa!...
Se ele não se arranja c’as mulhé por aí, problema dele. Não sei purquê tu continua
aceitando essas coisa?
- Mas e eu vô negá coisa boa? Quem ouve falá até parece que
tem condições de trazê coisa boa pra casa! Rá! Um inútil que trabalha, trabalha
e mal consegue botá arroz e fejão dentro de casa! Teu irmão, não. Ele sim sabe
o que é bom, sabe agradá as pessoa. Sabe agradá uma mulhé... – disse essa
última frase num tom mais baixo, mas suficiente para que o marido ouvisse. – Ah!
E os istudo da tua filha, nem preciso te dizê, né?, qui sô eu que pago com as
custura e com a pensão da mãe. Se fosse dependê de um molerão como tu, rá!, a
gente tava era muito rúim, isso sim.
Ele ouvia tudo quieto, mas cuspindo ódio pelos olhos. Pensava
consigo que ela iria engolir todo aquele desacato e desonra que o fazia passar.
Cada palavra, cada insulto. Ela e o cafajeste do seu irmão iriam ver. Era isso
todo dia! Já tinha passado dos limites. Voltou-lhe à mente, no entanto, a
imagem dos dois juntos. Imaginou-os agora suados deitados no chão da cozinha, em
frente ao fogão, nus, engordurados. Podia ter sido ali naquela tarde, debaixo
de onde estava pisando agora... que eles... que eles... Não! Não conseguia nem
dizer pra si mesmo. Não podia mais aguentar! Aflito, verificou se dona Eulália
já tinha se recolhido. Sim: janela fechada e luz apagada. Passavam alguns
minutos das sete, então ela já caíra no sono. A filha, igualmente, não voltaria
naquela noite, pois ele teve o cuidado de ligar-lhe mais cedo quando,
emocionado, quase deixou escapar um ”adeus”.
A caixa de ferramentas permanecia ao lado da pia, pois
estava tudo ali, no lugar certo, como planejou. Arquitetara tudo: primeiro, quando
a mulher estivesse de costas, dava-lhe uma pancada forte com o alicate de pressão,
pesado o suficiente. Em seguida, enchia-lhe a boca com buchas de estopa para
não ouvirem os gritos. Depois usaria os dedos para esgoelá-la e amolecê-la. Por
último, cravava no seu olho a chave de fenda mais comprida que tinha. Sabia que
ia espirrar muito sangue e que ela iria se debater até desvanecer, sabia disso.
Mas tinha visto num filme que, quando se perfura o globo ocular com
profundidade em direção ao osso occipital, se atinge o cérebro, e, aí: adeus.
Por isso mesmo não tirava o macacão, já ensopado de tanto suor. Aliás, esses
pensamentos faziam suas mãos tremerem. Seu corpo todo se tomava ao mesmo tempo
de cólera e medo. Chegara, enfim, a hora. Mas, de repente, a mulher se vira pra
ele:
- Qué isso, Jair?! Derramou todo o café na mesa que eu
acabei de limpá! Imporcalhô tudo! Tu só sabe fazê porcaria, hein? É tão
abestalhado que não sabe nem serví mais o teu próprio café?!
Absorto, ele nem notara que a canequinha de metal já se
enchera daquele café escuro feito breu.
- Limpa essa imundícia com esse pano de prato. Faz alguma
coisa útil – ralhou, entregando-lhe um esfregão úmido.
Ele segurou firme naquele pano com as duas mãos, amarrotando-o,
fazendo saltar ainda mais as veias azuladas e já sobressalentes de seus braços pálidos,
magros e morrudos. De repente, sua bochecha esquerda começou a tremer
involuntariamente. Seu ser inteiro era um misto de inquietação, vergonha, medo
e horror. Chegava a enjoar. Não sabia o que sentir. Mesmo jamais tendo sido um
homem violento, teria que ter coragem para isso. Vinha matutando há meses: não
podia falhar agora. Não podia mais bancar o fraco, como a mulher, a sogra e até
os outros lhe diziam. Precisava provar o contrário, mostrar do que o “fraco”
era capaz. Provar que era um homem. Mas não conseguia controlar os nervos. Mal
articulava um pensamento lógico. Várias imagens, vários sons se misturavam em
sua cabeça: o Bóbi latindo, dona Eulália cumprimentando, a mulher e o irmão
trepando, o som do pingo da água preta no balde. Uma confusão total. Mas, enfim,
tinha que se controlar, pois aquela era a hora: era tudo ou nada. Então, decidido,
chamou-a firme e com rispidez:
- Nilza!
Imediatamente ela se voltou e o mirou de cima a baixo com
espanto e descrédito, o mesmíssimo olhar desabonador que dedicava ao Bóbi
quando pedia comida.
- Qui é, hôme?!... Vâmo: fala!
Ele hesitou, hesitou e disse:
- Ééé... Não. Não é nada, Nilza. Não é nada.
- Iiiih, tu tá é muito isquisito hoje, isso sim. Toma o teu
café que eu logo te sirvo a janta e depois tu vai é te deitá. Amanhã é ôtro
dia, si Deus quisé.
Sem retrucar, ele baixou a cabeça, esfregou a mão melada de
café açucarado no pano de prato e sentou-se infantilmente e quase sem forças à
mesinha. Deu um gole do café, que lhe desceu tão amargo que nem parecia já conter
açúcar.
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