segunda-feira, 24 de outubro de 2011
domingo, 23 de outubro de 2011
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Rio Comicon 2011
Acontece a partir de hoje e vai até domingo, dia 23 de outubro, aqui no Rio, a segunda edição do Rio Comicon apresentando as mais variadas facetas dos quadrinhos, artes gráficas, animação e afins. A primeira foi muito bacana e além dos paineis, vídeos, estandes de editoras e expositores, apresentou um espaço especial reservado a Milo Manara, contando inclusive com a presença do próprio para uma palestra e debate com o público.Este ano a ênfase do festival de quadrinhos e afins é nos mangás e super-heróis, inclusive aproveitando para celebrar os 75 anos da major DC Comics, proprietária de nomes como Batman e Super-Homem.
Outros destaques também são a exposição do pessoal do estúdio japonês de mangás CLAMP e as presenças do ótimo cartunista argentino Liniers e do roteirista Chris Claremont, a principal estrela da festa, responsável pelos textos dos quadrinhos dos X-Men e que inspiraram suas recentes adaptações cinematográficas.
Vou dar uma conferida lá, provavelmente domingo.
Depois posto fotos e comentarios aqui no blog.
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O Rio Comicon 2011acontece na Estação Leopoldina, aqui no
Rio de Janeiro
e os ingressos custam R$20,00 (inteira)
e podem ser adquiridos no local
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
cotidianas #110 - "California"
Pra quem acorda, literalmente, queimado, na segunda-feira.
Vídeo bem bacana dirigido pelo mestre Spike Jonze:
Wax - "California"
sábado, 15 de outubro de 2011
cotidianas #109 - "Vitrine Viva"
Ontem eu gostei - de tudo
Quando te beijei
Quando te beijei - na boca
Ontem na cidade
Ontem na cidade - sangue
Enquanto te beijava
Enquanto te beijava a boca
Ontem na cidade, ontem na cidade - sangue
Na vitrine a modelo
Na vitrine a modelo linda
Vitrine Viva - viva!
Vitrine Viva - viva!!
Vitine!!!!
Eu, ontem estava lá
Ontem estava lá - ontem
Você estava lá, você estava lá e eu tambémEu não sou uma vitrine linda
Eu não sou
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Vitrine Viva
(Luís Arnaldo Braga e Edgar Scandurra)
Ouça:
Ira! - "Vitrine Viva"
*fotos de Guy Bourdin
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Os Mulheres Negras - "Música e Ciência (1988)
“Um marco na ciência aplicada à música pop no terceiro mundo.”
Maurício Pereira
Semana passada tive uma notícia que alegrou a mim e a um bocado de gente nas redes sociais: Os Mulheres Negras vão voltar. Esses paulistanos, que já vinham ensaiando um retorno desde 2009, agora se reúnem novamente para, provavelmente, lançar um novo disco – o provavelmente intitulado “Música, Guerrilha e Quitanda”. Esta incerteza toda é porque, quando se trata de Os Mulheres Negras, nada é lá muito confiável, pois tudo que sai deles carrega um quê de palhaçada. O provável nome do novo trabalho, por exemplo, segue a linha dos únicos outros dois lançados pela banda: “Música Serve Pra Isso” (1990) e “Música e Ciência” (1988), este último o grande disco de estreia da “terceira menor big band do mundo”, como se autointitulam (não me perguntem quem são as duas primeiras, pois acho que nem eles fazem ideia).
Banda totalmente atípica, já começa espirituosa tanto no nome como na formação e visual: Os Mulheres Negras é composta por apenas dois homens brancos, e a concordância errada se deve a uma esquisita homenagem às cantoras afrodescendentes. Versáteis e criativíssimos, o magro Maurício Pereira, vocal e sax, e o gordo André Abujamra, vocal e todos os outros instrumentos, se apresentam sempre de capa e com um chapéu que parece um xaxim. “Música e Ciência”, saborosamente eclético e artesanal, é experimental na medida certa, misturando diversos estilos ao toque cênico e cômico típico da Lira Paulistana (Maurício e Abujamra são também atores, constantemente vistos ou ouvidos em comerciais de TV, filmes, teatro, etc.). Seu título pode ser entendido como “Diversão e Técnica”, pois é evidente o quanto a dupla se diverte nas gravações, porém executando tudo com a técnica de ótimos músicos que são. Ou seja, no fundo, é um trabalho realmente sério e criterioso.
Inteligente e engraçado, o disco é delicioso de se ouvir de cabo a rabo. A primeira faixa já dá indício dessa mescla de musicalidade e humor. “Orelhão”, uma salsa eletrônica com cara de trilha de festinha infantil, chama-se assim porque sua letra é a reprodução de uma conversa telefônica entre Maurício e o pizzaiolo Seu Luciano, que se esqueceu de atender ao pedido deles. Na sequência, depois de alguns segundos ao som de uma gargalhada, aquele ritmo alegre e dançante da canção inicial dá lugar à enfurecida “Método”, um hardcore vociferado por Abujamra ao estilo João Gordo. Em seguida, o tom baixa de novo e vem o grande sucesso do grupo: “Sub”, uma versão swingada de “Yellow Submarine” dos The Beatles. Com um lindo solo de sax com os acordes de outra clássica dos Beatles, “While My Guitar Gently Weeps”, novamente traz o aspecto de música de criança ao reforçar o caráter lúdico da original – e superando-a em qualidade, inclusive.
A diversidade estilística está em todo o álbum. Tem bossa-nova (“Elza”), jazz (as belas instrumentais “Summertime”, “Mãoscolorida” e “19h30”), tango (“Feridas”, hilária), funk (a ótima “Eu vi”, outro sucesso) e rithim'n blues (“Gambá”, super bem cantada mas que não diz coisa com coisa). Mas não só o ecletismo prevalece, e sim o dueto de música e besteirol. “Milho”, com sentenças quase idiotas (uma mostra: “Atrás de um trilho reside um velho milho”), é minha preferida: um sertanejo caipira eletrificado com um incrível duelo de guitarra e acordeom. Matadora e hilariante. “Porquá Meciê”, num francês medonho, é outro destaque. Versos de pura bobagem do tipo: “Só hoje cedo eu já comi uns três tucanos” são musicados com maestria num pop swingado com uma batida bem marcada e uma gostosa levada de guitarra, além de detalhes brilhantes, como a variação timbrística e a afinação dos vocais da dupla e os solos de bateria (feitos com a boca!) de Abujamra.
Nesta linha, também há a vinheta “Samba do Avião”, clássico de Tom Jobim cantado à capela por Maurício. Até aí, tudo bem; se ele, além de pronunciar as palavras, não imitasse como a boca também o som da percussão! Outra, “Lobos para Crianças”, um jazz moderno que se transforma em rap, é exatamente o que seu título sugere: uma aula sobre Heitor Villa-Lobos para os pequenos. A letra diz: “Villa-Lobos, que cara legal/ Segura aí, moçada, vâmo sentá o pau/ Usou o charuto e escreveu a Bachiana/ E mais uma porrada de música bacana.” Como sempre, o negócio não fica só no gracejo: o solo de guitarra, reproduzindo “O Trenzinho Caipira”, é lírico e emocionante.
O desfecho tem a talvez mais engraçada do disco: “Xarope, a Levada”, cuja letra resume-se à genial frase: “Nosso objetivo é fazer música pop e, quem sabe, algum dia, ficar rico e xarope”. Um soul divertido ao estilo Motown pra mexer o esqueleto em clima de gravação caseira: falas ao fundo, risadas, palmas e chamamento para quem estiver ouvindo acompanhá-los naquela festa. Antes de tocarem este último número, porém, no espírito de improviso do disco, Abujamra chama o colega para dar um recado àqueles que escutaram “Música e Ciência” até o fim. É neste momento que ele diz a frase destacada no começo desta resenha e que, salvo o tom de autobrincadeira, é a mais pura verdade.
A banda é um daqueles casos da música brasileira que, sem grandes pretensões (tal como fora com o Tropicalismo, o “heavy-core” do Ratos de Porão ou a turma do Clube da Esquina, para ficar em apenas três exemplos), anteciparam tendências, tornando-se vanguarda na música mundial. Antes d’Os Mulheres Negras, não se tinha produzido em nenhum lugar do mundo algo que tivesse incorporado sem preconceito e com tamanha densidade, clareza de objetivo e leitura crítica a então recente ideia de “globalização” com tudo o que foi produzido em música pop até ali. Eles atualizaram o conceito de world music. Mostraram que, para ser moderno, não precisa ser high-tech; que para ser atualizado, não precisa viver no primeiro mundo; que para fazer um trabalho sério, não precisa ser sisudo. O segredo é enxergar as coisas com liberdade e rir um pouquinho delas.
Mesmo que “Música e Ciência” não tenha tido força comercial para chegar a ouvidos estrangeiros àquela época pré-Internet, Björk e Beck lançariam seus excelentes e avançados "Debut" e “Mellow Gold” apenas cinco e seis anos depois, respectivamente – aí, sim, revolucionando a música pop a partir de então. Talvez tenha sentido uma brisa dos ventos soprados pel’Os Mulheres Negras... Quem sabe? Porém o que “o gordo e o magro” sabiam muito bem era que não ficariam nem ricos e, muito menos, xaropes. Por isso sua retomada está sendo tão comemorada. A dupla retorna para mostrar o quanto continuam à frente de seu tempo e o quanto o terceiro mundo ainda é fonte de muita coisa nova que se faz por aí. Então: sejam benvindos de volta!
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FAIXAS:
1. Orelhão (Coruia, Maurício Pereira, André Abujamra)
2. Método
3. Sub [Yellow submarine] (Lennon, McCartney)
4. Summertime (Gershwin)
5. Feridas
6. 3 músicas coladas [Peter Gun](Henri Mancini, André Abujamra)
7. Purquá mecê
8. Eu vi
9. 19:30 (Agnaldo Valente Rocca, Maurício Pereira, André Abujamra)
10. Elza
11. Milho
12. Gambá
13. Lobos para crianças
14. Samba do avião (Tom Jobim)
15. Mãoscolorida
16. Xarope, a levada
todas de Maurício Pereira e André Abujamra, exceto indicadas
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Clipe de "Milho"
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Ouça o Disco:
Os Mulheres Negras Música e Ciência
por Daniel Rodrigues
cotidianas #108 - O Velho-do-Saco
Minha mãe, quando eu era pequeno, costumava me assustar com aquela história de Velho-do-Saco. Usava este artifício normalmente para me convencer a desistir de alguma peraltice em curso, tipo, ‘desce daí senão vou chamar o Velho do Saco’ ou algo assim. Para a sorte dela, dando mais credibilidade àquela ameaça, havia um homem que passava sempre pela minha rua catando coisas no lixo; um senhor com barba branca desgrenhada e suja , quase calvo, olhar sem vida, corpo magro mas longe de ser raquítico, poderia até se dizer atlético mesmo, e que carregava nas costas um saco de linho imundo e esfarrapado.
Eu muito impressionável naquela época, diante da horripilante ameaça, obedecia assustado imaginando que se não fizesse o que minha mãe dizia o mendigo aquele, na primeira oportunidade, me apanharia, me colocaria dentro daquele trapo horrendo e me levaria para algum lugar escuro e assustador. Quanto ao que faria comigo, havia várias hipóteses: minha mãe mesmo dizia, reforçando seu covarde terrorismo infantil, que o velho me levaria para um porão onde me moeria e transformaria em salsicha; entre nós crianças rondava o medo de que nos comesse como um bom almoço na falta de encontrar alguma iguaria gostosa nas latas de lixo; mas conversas também davam conta que na verdade apenas matava as crianças para beber seu sangue e viver para sempre e naquela época já se dizia que ele ia lá pelos 90 anos de idade. O medo se reforçava pelo sumiço, lá na época que eu devia ter uns dez anos, de um menino das redondezas. Falou-se de sequestro, de venda para o exterior, de aliciamento, de pedofilia mas o caso nunca ficou explicado. Eu nessa idade já não me impressionava (muito) com o tal do velho, mas tenho certeza que muitos pais se utilizaram da circunstância para convencer suas crianças a não falar com estranhos.
O fato é que sempre que passava por ele na rua, primeiro de mãos dadas com a minha mãe, depois crescendo, já sozinho mesmo, tinha uma espécie de calafrio. Mas como minha mãe desde cedo costumou me incumbir de ir ao açougue do Seu Elias buscar bifes, me colocava à prova desde pequeno, pois aquele era pra mim um momento de terror, no qual eu esperava não topar com o Velho, mas se na pior das hipóteses desse o azar de encontra-lo, prontamente dava um jeito de atravessar a rua.
Mas tudo isso foi naquela época, tinha eu, sei lá, 4 ou 6 anos. Acho que o medo durou mais por causa da aparência realmente horripilante do velho. O tempo passou, a fase de criança assustável foi-se e hoje os terrorismos da minha mãe são outros: “se não arrumar o quarto não vai ganhar aquele tênis... não vai ter aumento de mesada... vou te tirar esse videogame” e assim por diante.
O velho vive até hoje. Incrivelmente, mesmo naquela vida de catar em latas, de exposição à chuvas e frios, continua vivo e quase com a mesma aparência daquele tempo. É como se não tivesse envelhecido um dia desde que me lembro dele e ouvia aquelas histórias que cotavam sobre ele. Às vezes ainda o vejo passar lá na frente de casa com seu olhar vazio, andar resoluto e com o mesmo velho saco nas costas, cada dia mais nojento e seboso.
Nessa idade em que me encontro agora, ainda dependente dos pais, volta e meia acabo me sujeitando a servir de mandalhete da minha mãe para compras e tarefas na rua. Ela sabe que eu não gosto muito mas alega que sou mais novo e nunca estou fazendo nada. Creio que se eu ainda acreditasse, por certo, me ameaçaria com a história do Velho-do-Saco, mas como sabe que não cola mais, se limita a me jogar na cara que moro naquela casa, que sou um preguiçoso, um vadio, que só faço comer e dormir e blablablá. Quase sempre contrariado por interromper minha TV ou videogame, respiro fundo, levanto e saio. Às vezes é para buscar tomate, às vezes leite, outras para ir na costureira, às vezes para comprar pão, carne, etc.. Naquele dia me pediu para que comprasse os bifes, o que eu fazia desde que me entendia por gente. Ah, os bifes da minha mãe mereciam o sacrifício. Tá certo que a carne do Seu Elias era extremamente macia, a mãe sempre elogiava, mas o preparo dela fazia valer a pena interromper o meu Messenger pra ir buscar a tal da carne.
Então fui eu lá ao velho açougue de sempre que ficava mais ou menos a uma quadra de casa. No caminho então deu-se, depois de todos aqueles anos, o meu grande desafio: eu avistara o velho. O Velho-do-Saco vindo na direção contrária do mesmo lado da rua que eu. Poucas vezes o via ultimamente e há muito sequer cruzava com ele na rua. Contnuava com a mesma aparência. Nem lembrava mais da sensação que tinha ao vê-lo mas ela não tardou em manifestar-se. Não vou negar que por um momento me vieram à cabeça os velhos temores de criança, as lendas, os sustos, mas ri de mim mesmo interiormente e tratei de seguir marcha em frente. Já próximo àquele senhor, esbocei mesmo um sorriso, como que tentando ser simpático simbolizando um ‘bom dia’, o que não foi correspondido. Ao cruzar por mim, apeas olhou-me com aqueles olhos fixos e frios e passou caminhando às minhas costas. Dei de ombros, tipo, ‘coitado, é meio trantornado’, mas mal tive tempo de concluir o pensamento e senti uma pancada dura e seca na cabeça, quase no pescoço, e depois disso não vi mais nada. Tudo ficou escuro...
Não tenho noção de quanto tempo depois acordei. Abri os olhos lentamente mesmo com a visão um tanto turva pude notar que estava num espécie de depósito, um porão talvez, escuro, úmido, com gotejamentos por todos os lados, poças pelo chão, um cheiro pesado e correntes penduradas caindo do teto baixo e claustrofóbico. Eu mesmo me encontrava pendurado pelos pulsos na vertical por uma dessas correntes e com os tornozelos unidos por uma corda ou algo do tipo, erguido do chão mais ou menos meio metro. Me debati tentando me soltar, tentando alcançar o chão mas só o que consegui foi fazer tilintar o metal que me prendia. Corri os olhos ao redor e além de uma ratazana e um amontoado de alguma coisa gosmenta num canto, pude notar no outro lado do galpão, de costas, sentado diante de uma bancada, um vulto, um homem... Alguém concentrado em alguma tarefa repetitiva mas que eu não conseguia distinguir. Quem poderia ser? Seria?... Parecendo ter acabado o que fazia tratou de levantar e então virou-se na minha direção, mas a distância e a pouca luminosidade ainda me dificultavam alguma identificação embora tivesse uma pequena desconfiança. Porém ao começar a vir em minha direção, meu pior temor se confirmava: sim, era ele, o Velho-do-Saco. Mas o que fazia ele ali? O que fazia eu ali? O que ele fazia com aquele... cutelo? O que ele fazia com aquele cutelo na mão? Devia ser alguma brincadeira. Alguém querendo me pregar um susto. Só podia ser.
E então ele veio se aproximando, se aproximando cada vez mais até chegar bem perto, perto o suficiente para que eu pudesse sentir seu cheiro nauseabundo. Eu tremia. Estando eu erguido pelas correntes olhava–me de baixo para cima e mirava-me fixamente nos olhos com aquele olhar vazio de sempre .
Eu tremia, tremia, tremia, babava e acho que já tinha feito tudo nas calças. Estava verdadeiramente assustado, aterrorizado, já pensava no pior quando ao fundo, quase à minha direita, uma nesga de luz apareceu de uma porta que se abria. Dela surgiu então a figura Seu Elias!
Seu Elias! Nunca tinha ficado tão feliz em vê-lo! Por certo minha mãe devia ter dito a ele que sumira quando ia ao seu estabelecimento, ele tratara de descobrir para onde o maníaco me levara e viera me salvar. Eu estava salvo!
Mas minha felicidade se transformou em perplexidade quando ele se dirigiu ao velho e falou:
- Era esse que tu queria pegar há tempo? Haha – riu, maligno e completou - Tá crescidinho esse, hein. Olha aqui, ó, o sangue pode ficar pra tu, agora anda logo com isso que a carne tá acabando e eu preciso cortar mais bifes.
Cly Reis
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
cotidianas #107 - Nós, o chuchu
Dizem que, às vezes, as maiores descobertas da Astronomia se dão num momento casual. Um instante acidental, fortuito, como que sem querer. Mas é justo nesse lance aparentemente banal que a coisa pode se tornar absolutamente genial.
Sem a pretensão de tornar-me um nome célebre da História e juntar-me ao time de Newtons e Galileus, numa dessas situações ocasionais, cheguei à conclusão de um dos maiores enigmas da humanidade. Um problema nunca antes decifrado e perseguido pelos estudiosos desde que o mundo é mundo. Pois, meus estimados colegas de Via Láctea, informo-lhes, sem falsa modéstia, que desvendei a origem do Universo: viemos todos do chuchu!
Atônitos? Eu explico. Minha brilhante conclusão surgiu num despretensioso almoço quando, numa garfada que continha um pedaço da referida insossa hortaliça, refletia sobre como aquilo podia ser tão sem graça. Foi daí que, num lampejo de genialidade, fiz a ligação de duas indagações aparentemente sem conexão. A primeira era: ‘por que diabos Deus se prestou a inventar o chuchu!?’ Sempre me intrigou o fato d’Ele ter perdido tempo, com tanta coisa melhor pra fazer num tempo recorde de seis dias (já que no sétimo, pelo que se sabe, ele botou os pés pra cima pra curtir o Brasileirão com uma cervejinha do lado), criando um troço pretensamente comestível mas totalmente sem gosto ou cheiro. Porém, eu entendi. Meu raciocínio foi: as coisas são sólidas, líquidas ou gasosas, certo? Ok. Pois esta é a razão da existência do chuchu: não ser nenhum dos três estados. O chuchu, simplesmente, não é. O chuchu é o nada materializado.
A segunda conclusão veio na esteira desta, elucidando uma velha questão que aflige o Homem há séculos: ‘o que era o Universo antes de sua formação?’ ‘Qual era nossa matéria elementar antes do Big Bang?’ Óbvio, cara-pálida! A tal matéria desconhecida era, justamente, a única não-matéria do próprio Universo, ou seja, o chuchu. Um gigantesco e verdejante chuchu. A resposta estava debaixo de nossos narizes – muitas vezes naquela salada insípida que todos um dia tiveram o desprazer de comer. Era evidente! Deus não podia estar loucão! Tinha de haver uma explicação racional, divina, sublime, para algo tão inútil.
Fico imaginando agora como deve ter sido lindo o nascimento de tudo. Aquela explosão luminosa incomensurável e aquela chuva de bagaço, semente e casca verde por todos os lados, em todas as direções, formando todos os corpos celestes, os galáxias, os sóis, as nebulosas, os planetas e todas as coisas. Inclusive, nós.
Minha insuspeita teoria explica um bocado de coisas até então sem sentido, abrindo um novo paradigma para o conhecimento humano. Nesta lógica, nem os livros de Paulo Coelho ou a existência do George Bush são tão imprestáveis como se supunha. Deve haver, portanto, alguma utilidade para eles (embora, sobre isso, os cientistas ainda não tenham chegado a uma resposta).
Pois agora, quando lhe chamarem na rua de “chuchuzinho”, não leve a mal e nem tire quem lhe chamou para antiquado. A gíria é pré-histórica, concordo; mas porque é sinal de que reconheceram em ti algo de essencial, de embrionário, da gênese. Será um grande elogio, podes ficar orgulhoso. Aliás, a humanidade toda deve envaidecer-se. Somos esses seres pensantes incríveis, homo sapiens sapiens sapientes de quem somos, para onde vamos e, agora, de onde viemos. Ó, Herbácio-Rei! A ti louvamos, sechium edule! E viva a espécie humana!
Estou imensamente feliz com minha descoberta, mas, disso tudo, confesso que uma duvidazinha ainda me aporrinha: afinal... por que o chuchu é quase de graça na feira?
sábado, 8 de outubro de 2011
Crosby, Stills, Nash & Young - "Dèjà Vu" (1970)
Um disco memorável... lembrou?
"'Déjà Vu': expressão francesa que significa, literalmente, já visto.
Termo usado para indicar
um fenômeno de origem neurorítmica
que acontece no cérebro que faz com que tenhamos a impressão
de já termos visto, presenciado ou experimentado
uma sensação anteriormente."
Para recordar a origem deste déjà vu, o quarteto surgiu a partir de desmembramentos de bandas de sucesso. David Crosby e Graham Nash tiveram músicas negadas pelos componentes dos grupos que participavam: o The Byrds e o The Hollies, respectivamente. Estes conjuntos, por estarem consolidados perante o público, tinham um apelo nas composições cada vez mais puxando para o pop. Desta insatisfação e desvirtuação artística aliado ao fim do Buffalo Springfield, de Stephen Stills e Neil Young, o resultado foi essa química que culminou num excelente álbum que mistura rock, country, folk e blues: o Dèjà Vu.
Retrocedendo um pouco, em 1969, Crosby, Stills e Nash já haviam lançado um grande disco, com título homônimo. Já nessa ótima fase que entra Young. O quarteto havia realizado diversas apresentações marcantes, tendo como especial a do Woodstock, sendo aclamados pelo público presente como um dos melhores shows do festival.
Além de Déjà Vu, Neil Young só voltou a gravar com seus parceiros (conhecidos pela sigla CSNY) no álbum Looking Forward, de 1999. Segundo Nash, foram 800 horas de estúdio para conceber o Dèjà Vu. Um disco bem dividido nas participações e nas composições. Ou seja, duas músicas para cada um, com a exceção da última, parceira de Stills e Young. Apenas uma é versão da cantora canadense Joni Mitchell. O álbum também conta com as participações Dallas Taylor (bateria e percussão) e Greg Reeves (baixo). A importância dos dois é tão relevante que estão na capa com seus respectivos nomes creditados. Esse registro impressiona pela combinação das quatro vozes, numa sincronia perfeita muitas vezes, e pelas afinações dos violões, bem atípicas.
Já que foi referida a combinação de vocais, um exemplo é Carry on, a primeira faixa. A música é praticamente cantada pelo quarteto CSNY (uma espécie de ópera), com leve destaque para a voz de Nash. Em certa parte, a canção migra para um ritmo oriental, talvez uma influência de Sargent Pepper´s, dos Beatles. Além disso, conta com um baixo bem elaborado de Reeves. Teach your children é um dos grandes hits do álbum, com uma levada extremamente country. A letra também é interessante de se destacar: “Teach your children well, Their father's hell did slowly go by, and feed them on your dreams. The one they picked, the one you'll know by” (Ensine bem suas crianças, porque o inferno dos pais delas vai passando devagar. E alimente o sonho delas, o que elas escolherem, aquele que você ficará sabendo). Essa música tem a contribuição de Jerry Garcia, do Grateful Dead, que toca uma pedal steel guitar (aquela guitarra elétrica “deitada” que se usa um bastão de metal).
Em Almost Cult my hair, Crosby monopoliza o vocal, com um som mais rock. Tem dois solos de guitarra simultâneos, bem característico do The Byrds. Adiante, com muita melancolia e desespero, vem Helpless, primeira contribuição de Neil Young mais destacada. A música é bem ao seu estilo, que consolidou sua exitosa carreira solo.
Como já referido antes neste texto (lembram?), uma música não é de autoria do CSNY e é justamente Woodstook. De certa forma, tem um forte vinculo com o grupo. Isso porque a compositora Joni Mitchell era namorada de Nash durante o período do festival, que intitula a música. Stills apresenta um vocal agressivo, comparado com outras canções do disco, além de uma pegada rock, com guitarras mais estridentes. Já Déjà vu é a mais psicodélica, apesar dos instrumentos convencionais, principalmente os violões. No início, ocorre um erro proposital, com Crosby fazendo a contagem para retomar a canção. Esta começa em ritmo acelerado e logo tem uma grande quebra, para deixar numa atmosfera mais “viajante” a quem escuta. Quem sabe seja uma situação déjà visite, um estranho conhecimento de um novo lugar.
Num momento déjà vécu (já visto) tem Our house com Nash cantando e comandando o piano. De certa forma, recorda algumas composições de Paul McCartney como, Lady Madona, por exemplo, junto com Fixing a hole, de John Lennon, isso de forma mais lenta. É uma balada bem interessante do disco. Em 4+20 a conta fica por responsabilidade de Stills, somente ele e violões. Mas também, não precisaria de mais. É a música mais introspectiva, que basicamente fala da perda de uma mulher, tendo como destino cair “nos abraços do diabo”, isso por causa de pensamentos negativos.
Country girl tem a volta de Young ao vocal principal e é a música mais produzida do disco, que contêm diversos instrumentos de cordas e percussão, além de pianos para deixá-la mais “épica”. Já a faixa Everybody I love you fecha esse registro com aquela já escrita fusão de vozes nunca vista, um jamais vu. Stills solta a voz com os seus graves em alguns momentos. O álbum termina com todo vigor e energia.
Talvez no final deste texto, você já tenha esquecido algumas coisas que escrevi. Mas, no final das contas, esse disco vai ficar muito provavelmente armazenado na memória em longo prazo do seu cérebro. Se algum dia você tiver um ótimo déjà senti musical, pode ter certeza que este álbum pode ter proporcionado este sentimento.
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FAIXAS:
1 Carry On (Stills) 4:25
2 Teach Your Children (Nash) 2:53
3 Almost Cut My Hair (Crosby) 4:25
4 Helpless (Young) 3:30
5 Woodstock (Mitchell) 3:52
6 Déjà Vu (Crosby) 4:10
7 Our House (Nash) 2:59
8 4 + 20 (Stills) 1:55
9 Country Girl (Young) 5:05
10 Everybody I Love You (Stills, Young) 2:20
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Ouça:
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
The Kinks - Kinks (1964)
"Podem estar certos que
os Kinks não lançarão nada
a menos que gostem."
os Kinks não lançarão nada
a menos que gostem."
Brian Sommerville,
do texto da contracapa do disco de 1964.
Outro daqueles casos dos que não vieram com a mudança.
Meu irmão tinha o "Kinks" (1964) em cassete em Porto Alegre, aí quando vim pro Rio, eu trouxe o que podia mas sem desfalcar muito a discoteca dele. Chegando aqui tive que refazer boa parte da minha coleção e foi uma longa recontrução. Mas como eram muitas coisas que tinha deixado tive que eleger prioridades e nessas o Kinks acabou ficando pra trás. Me contentava em ter "You Really Got Me" no MP3 e era isso... Cara! Onde é que eu tava com a cabeça?
Acabei de readquirí-lo e sua nova audição, depois de alguns anos sem ele, só me fizeram admirá-lo mais ainda. Álbum genial e extremamente influente pro rock contemporâneo.
Além do já mencionado clássico, pesado e sujo, "You Realy Got Me" que dava nome à edição americana do álbum, também são incríveis as versões pra Chuck Berry, "Beautifull Delilah" e "Too Much Monkey Business"; a cover enloquecida de Bo Diddley, "Cadillac"; o gospel cáustico de "Bald Headed Woman"; o blues selvagem "Got Love if You Want It" com aquela bateria alta e uma condução notável da harmônica de Davies; e a ótima "I'm a Lover not a Fighter", a minha predileta depois de "You Really Got Me".
Como foi que eu pude ficar tanto tempo sem esse disco?
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FAIXAS:
1."Beautiful Delilah" – 2:06
2."So Mystifying" – 2:55
3."Just Can't Go to Sleep" – 1:57
4."Long Tall Shorty" – 2:51
5."I Took My Baby Home" – 1:47
6."I'm a Lover Not a Fighter" – 2:05
7."You Really Got Me" – 2:14
8."Cadillac" – 2:44
9."Bald Headed Woman" – 2:42
10."Revenge" – 1:30
11."Too Much Monkey Business" – 2:15
12."I've Been Driving On Bald Mountain" – 2:07
13."Stop Your Sobbing" – 2:05
14."Got Love If You Want It" – 3:45
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Ouça:
The Kinks 1964
vídeo The Kinks - "You Really Got Me"
Cly Reis
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
terça-feira, 4 de outubro de 2011
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
cotidianas #106 - "O Estrangeiro"
O pintor Paul Gauguin amou a luz na Baía de Guanabara
O compositor Cole Porter adorou as luzes na noite dela
A Baía de Guanabara
O antropólogo Claude Levy-strauss detestou a Baía de Guanabara:
Pareceu-lhe uma boca banguela.
E eu menos a conhecera mais a amara?
Sou cego de tanto vê-la, te tanto tê-la estrela
O que é uma coisa bela?
O amor é cego
Ray Charles é cego
Stevie Wonder é cego
E o albino Hermeto não enxerga mesmo muito bem
Uma baleia, uma telenovela, um alaúde, um trem?
Uma arara?
Mas era ao mesmo tempo bela e banguela a Guanabara
Em que se passara passa passará o raro pesadelo
Que aqui começo a construir sempre buscando o belo e o amaro
Eu não sonhei que a praia de Botafogo era uma esteira rolante deareia brancae de óleo diesel
Sob meus tênis
E o Pão de Açucar menos óbvio possível
À minha frente
Um Pão de Açucar com umas arestas insuspeitadas
À áspera luz laranja contra a quase não luz quase não púrpura
Do branco das areias e das espumas
Que era tudo quanto havia então de aurora
Estão às minhas costas um velho com cabelos nas narinas
E uma menina ainda adolescente e muito linda
Não olho pra trás mas sei de tudo
Cego às avessas, como nos sonhos, vejo o que desejo
Mas eu não desejo ver o terno negro do velho
Nem os dentes quase não púrpura da menina
(pense Seurat e pense impressionista
Essa coisa de luz nos brancos dentes e onda
Mas não pense surrealista que é outra onda)
E ouço as vozes
Os dois me dizem
Num duplo som
Como que sampleados num sinclavier:
"É chegada a hora da reeducação de alguém
Do Pai do Filho do espirito Santo amém
O certo é louco tomar eletrochoque
O certo é saber que o certo é certo
O macho adulto branco sempre no comando
E o resto ao resto, o sexo é o corte, o sexo
Reconhecer o valor necessário do ato hipócrita
Riscar os índios, nada esperar dos pretos"
E eu, menos estrangeiro no lugar que no momento
Sigo mais sozinho caminhando contra o vento
E entendo o centro do que estão dizendo
Aquele cara e aquela:
É um desmascaro
Singelo grito:
"O rei está nu"
Mas eu desperto porque tudo cala frente ao fato de que o rei é mais bonito nú
E eu vou e amo o azul, o púrpura e o amarelo
E entre o meu ir e o do sol, um aro, um elo.
("Some may like a soft brazilian singer
but i've given up all attempts at perfection").
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"O Estrangeiro"
Caetano Veloso
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