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segunda-feira, 16 de maio de 2011

My Bloody Valentine - "Loveless" (1991)


O Disco Que Eu Levaria Para Uma Ilha Deserta

"Muitos dos samples eram de feedbacks. Nós aprendemos que do feedback da guitarra, com muita distorção, que você pode fazer qualquer instrumento, qualquer um que você possa imaginar."
Kevin Shields



- Não interessa, só pode escolher um.
- Só um? Uns dez que seja. Pra ter mais variedade, mais opções...
- Só um.
- Então...então..., vai o "Loveless" do My Bloody Valentine.
Este hipotético diálogo não seria muito diferente do real se, algum dia por alguma circunstância qualquer, um incêndio, uma enchente, um terremoto, um roubo, uma divisão de bens, um exílio, fosse obrigado ter que apenas escolher UM álbum na minha discoteca para levar comigo para qualquer lugar, para uma ilha deserta, por exemplo. Não que seja o melhor CD que tenho, se fosse por isso o por exemplo "Let It Bleed" estaria à frente; não que seja a banda que mais gosto, se prevalecesse este critério provavelmente Cure e Smiths teriam prioridade, mas o "Loveless" é um daqueles discos que poderia-se chamar um xodó. Mas não um xodó injustificável, daqueles que a gente sabe que é ruim, não contraria o fato, mas morre abraçado com ele, por qualquer motivo que... só Deus sabe. Não, é um álbum absolutamente prazeroso de se ouvir, com seu harmonioso e cativante ruído que constrói a todo tempo inusitadas sinfonias. Além do mais, este disco do My Bloody Valentine é um dos melhores, mais significativos e influentes das últimas décadas e a banda é uma das mais cultuadas e respeitadas no universo underground mesmo com uma discografia rigorosamente pequena.
Com inegáveis influências do noise-rock, caracteristico de bandas como Sonic Youth, por exemplo, do gótico dos '80 e de bandas como Jesus and Mary Chain , o MBV conseguiu em apenas dois álbuns incorporar novas características a estes estilos, praticamente reinventando-os, conferindo-lhe então uma assinatura própria de tal forma original que tornam o som da banda absolutamente peculiar e inconfundível.
"Loveless" o segundo álbum da banda é avanço em relação ao bom "Isn't Anything", seu trabalho de estreia, agregando às distorções, aos efeitos, aos ruídos e à criatividade do cérebro da banda, Kevin Shields, mais vocais femininos de Belinda Butcher, arranjos mais melodiosos e muito mais ousadia nas experimentações.
"Only Shalow", a primeira do disco, é daquelas coisas que a gente mal acredita que esteja ouvindo algo daquele tipo: depois de uma introdução com uma tempestade de guitarras e distorções, que poderia fazer supor algo enérgico, violento, inaudível; tudo desemboca numa canção cantada suave e melodiosamente por uma doce voz feminina, até voltar, a cada 'refrão', a maravilhosas e improváveis explosões sonoras .
"Loomer", que a segue é cheia, concentrada e suavemente barulhenta; "Touched", a terceira, é uma pequena sinfonia 'desafinada' com a rotação alterada que provoca algum descons(c)erto de sentidos no ouvinte. Uma mistura de sensações de belo e bizarro, de harmônico e desrítmico, de clássico e contemporâneo.
A segue a fantástica "To Here Knows When", lindíssima a seu modo; uma cortina sonora que vai se dissipando aos poucos até ficar praticamente dissolvida, restando ao final apenas uma tênue conexão que ainda possa identificá-la em meio à névoa sonora que se transforma.
"When You Sleep" é outra grandiosa, com outro inusitado e indefinível riff conseguido por Kevin Shields em suas muitas experimentações de estúdio.
 A lindíssima "I Only Said" já introduz com uma emocionante 'explosão estrelar' que conduz a uma base fantástica que de certa forma, cheia de guitarras, efeitos, samples e tudo mais, lembra uma orquestra de violinos, e os violinos de Kevin Shields são suas guitarras, suas distorções, seus efeitos.
"Come in Alone" é forte, completa e funciona como um catalisador de elementos; "Sometimes" é doce e agradável; "Blown a Wish" apenas compõe bem; "What You Want" é acelerada, empolgante e numa passagem mágica, quase que vacilante, introduz às baterias sampleadas da fantástica "Soon", uma joia cheia de efeitos de marcação, ruídos de fundo e incríveis guitarras que sobrevoam uma base ritmada e carregada de peso e beleza, tudo isso sob a maviosa voz de Belinda Butcher que quase desaparece em meio ao barulho. Num final absolutamente emocionante e épico, "Soon" atinge um clímax sonoro, um êxtase instrumental até praticamente se apagar, se desvanecer, com uma guitarra ao fundo ainda tentando sobreviver  ao final inevitável. Um encerramento digno de um disco como este!
Um dos meus preferidos da discoteca, um dos meus xodós da coleção, um dos discos mais cultuados, um dos melhores discos dos anos 90 e um dos grandes da história do rock. Por todas estas razões, pelas sensações que causa, por toda essa estranha beleza, "Loveless" passaria à frente de discos mais completos, mais perfeitos, mais clássicos, mais geniais talvez e seria o disco que eu, se por uma inevitável e cruel escolha tivesse que optar, levaria para uma ilha deserta.
Mas aí penso no meu "Trans-Europe Express", no meu "Gil e Jorge", no meu "Aftermath" e lembro que felizmente, trata-se apenas de um exemplo, de uma hipótese absurda e totalmente improvável, e posso ir curtindo todos os outros também.
Ufa!

FAIXAS:
1."Only Shallow" (Butcher, Shields) - 4:17
2."Loomer" (Butcher, Shields) - 2:38
3."Touched" ( Colm Ó Cíosóig ) – 0:56
4."To Here Knows When" (Butcher, Shields) - 5:31
5."When You Sleep" - 4:11
6."I Only Said" – 5:34
7."Come in Alone" – 3:58
8."Sometimes" – 5:19
9."Blown a Wish" (Butcher, Shields) - 3:36
10."What You Want" - 5:33
11."Soon" – 6:58



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Baixe e ouça:
My Bloody Valentine Loveless

sexta-feira, 13 de maio de 2011

cotidianas #81 - Nostálgico Blues Subterrâneo


Johnny está no porão
Misturando medicamentos
Eu estou no pavimento
Pensando no governo
O cara de sobretudo
De distintivo, ferrado
Diz que está com um nó na garganta
Quer pagar para se livrar
Olhe garoto
Foi algo que você fez
Deus sabe como
Mas você está fazendo de novo
Melhor você tropeçar parque abaixo
Procurando por um novo amigo
O homem de chapéu de guaxinim
Com a grande caneta
Quer onze notas de dólar
Você só tem dez


Maggie vem ao pé da frota
Cara cheia de fuligem preta
Falando que o calor pôs
Ervas na cama, mas
O telefone está desligado, mesmo assim
Maggie diz o que muitos dizem
Precisa atacar no começo de maio
Ordens do departamento
Olhe garoto
Não importa o que diz
Ande na ponta dos dedos
Não ande com deslocados
Melhor se manter afastado destes
Do que se meter em bizarrices
Mantenha o nariz limpo
Observe as roupas da moda
Você não precisa do homem do tempo
Para saber de que lado o vento sopra


Fique doente, fique bem
Arrume uma tatuagem legal
Balance o pinto, é difícil falar
Se alguém vai vender
Vá atrás, seja barrado
Volte, escreva em Braille
Seja preso, salte a cerca
Entre para o exército, se falhar
Olhe garoto
Você vai arrasar
Mas usuários, trapaceiros
Completos perdedores
Rodeiam os teatros
Garota na piscina
Procurando um novo otário
Não siga líderes
Observe os medidores dos parquímetros


Ah nasça, fique calmo
Calças curtas, romance, aprenda a dançar
Vista-se, seja abençoado
Tente ter sucesso
Agrade-a, agrade-o, compre presentes
Não roube, não furte
Vinte anos de escola
E eles o colocam no turno diurno
Olhe garoto
Eles mantêm isso escondido
Melhor pular num bueiro
Acenda para si uma vela
Não use sandálias
Tente evitar escândalos
Não queira ser um vagabundo
Melhor mascar chiclete
O barril de bebida não funciona
Pois os vândalos levaram a alavanca
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"Subterranean Homesick Blues"
Bob Dylan

cotidianas #82 - "13 de Maio"





Dia 13 de maio em Santo Amaro
Na Praça do Mercado
Os pretos celebravam
(Talvez hoje inda o façam)
O fim da escravidão
Da escravidão
O fim da escravidão


Tanta pindoba!
Lembro do aluá
Lembro da maniçoba
Foguetes no ar


Pra saudar Isabel
Ô Isabé
Pra saudar Isabé

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"13 de Maio"
Caetan Veloso

Ouça:
Caetano Veloso - '13 de Maio'

sexta-feira, 6 de maio de 2011

cotidianas #80 - A Festa da Turma


Todo ano, sem falta, reencontravam-se para a festa da turma. Às vezes faltava um, outra hora faltava outro, mas via de regra, os de fé sempre acabavam comparecendo. Era assim desde o final da faculdade, desde o ano seguinte quando o Dé resolveu chamar a galera para um churrasco pra não deixar morrer a amizade. Boa iniciativa que a turma acolheu.
Agora doze anos depois do primeiro encontro a coisa continuava no mesmo clima: muita amizade, muita palhaçada, muita zoeira e muita cerveja. É lógico que a situação tinha mudado um pouco: alguns tinham casado, outros já tinham casado e separado, outros já tinham filho, outros não puderam ir à festinha porque era o dia que podiam visitar o filho, outros não podiam ir porque tinham sido transferidos no trabalho para o Acre, um outro lá já tinha morrido, outro tinha deixado a bebida, outro não podia comer açúcar, etc. , mas driblando as dificuldades, adaptando-se às situações, revezando um aqui outro ali de uma no pro outro, continuavam se vendo e sempre na maior camaradagem.
Numa festa dessas a Gislaine aparece com uma foto:
- Olhem só o que eu achei dentro de um livro...
- Cara! É do tempo da faculdade!
- Olha só, é a gente na praia aquela vez da excursão!
- Que barato! - atalhou o Lélio
- Que horror! - rebateu a Cris - Olha os cabelos. E a gente ainda achava isso bonito na época.
E todos riram.
- E os maiôs, gente... O que dizer desses maiôs? - suspirou a Gladys num tom de desapontamento.
E todos riram de novo.
- Isso sem falar nas sungas - hahahaha - Olha a sunga do Carlos. Olha o Beto, parece uma saracura - e novas risadas entusiasmadas.
- E quem é esse aqui? Magrelo de cabelo comprido? E essa sunguinha...
A Gislaine reconheceu:
- É o Pereira.
- Pereira! É tu, Pereira? - que a essas alturas vendo que iam acabar o reconhecendo, foi ficando pra trás do amontoado de gente que tentava ver a foto.
- Pereira, mas tu era muito magro, Pereira. E que sunguinha ridícula! A pior das nossas, hein! A minha tá feia - admitiu o Beto - mas a tua é o 'ó do borogodó'.
E mais risadas.
- Ah, eu vou ter que scanear pra botar no Orkut, na nossa comunidade.
- Isso, isso. - empolgou-se a Cecília.
- Manda pra mim.
- Vou por no meu Face.
Todos gostaram da ideia. Todos menos um: o Pereira.
- Não, não, não quero minha foto assim na internet.
- Ah, deixa de bobagem, Pereira. Que que tem?
- Não, não, me dá isso aqui - dizia enquanto tentava pegar a foto da mão da Gislaine que se esquivava pra tentar impedi-lo.
- Ai, para, Pereira. Que saco! Vou guardar isso aqui. - disse guardando na bolsa - Depois eu vejo o que que eu faço.
Depois daquilo o Pereira, costumeiramente muito falante, alegre, brincalhão, ficou estranhamente quieto o restante da noite. Foi embora mais cedo do que de costume saindo com ar meio sorumbático e despedindo-se de todos à distância com um mero aceno de mão.
Na festa do ano seguinte o Pereira não apareceu. A turma não estranhou muito porque faltas eventuais aconteciam, e volta e meia eram surpridas por uma agradável surpresa, como a do Arthur que viera do Acre para ver a mãe e aproveitara para comparecer à festa, mas a ausência do Pereira se repetiu no ano seguinte, e no outro, e no outro...
O Pereira nunca mais foi visto por ninguém da turma, aliás nunca mais fora visto por niguém, e ninguém sabia ao certo do seu paradeiro tampouco se o sumiço tinha a ver com a 'ameaça' de exibição da foto. A tal foto, por sua vez, nunca foi scaneada nem colocada em redes sociais. A Gislaine colocou dentro de um livro e nunca mais lembrou onde estava.

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quinta-feira, 5 de maio de 2011

Silver Apples - "Silver Apples" (1968)


"Oscilações, oscilações,
 Eletrônicas evocações
dos sons da realidade."
da letra de "Oscillations"





Bem como o Kraftwerk, referência em música eletrônica, a dupla americana Silver Apples foi uma das grandes responsáveis pelo desenvolvimento do gênero; não com a mesma qualidade dos alemães, que surgiram depois mas atingiram resultados mais expressivos, mas ainda assim com muita relevância no cenário musical de um modo geral. Muito doidos, psicodélicos, criativos e experimentais, os Silver Apples, ao mesmo tempo que prenunciavam uma série de estilos dentro da prórpia música eletrônica, ajudavam também, de certa forma com suas repetições, timbres, vocais e minimalismo, na formação do punk rock que explodiria dali a alguns anos,
“Silver Apples” , seu álbum de estreia, de 1968, é o que merce atenão especial. Seu som ainda soa cru e pouco trabalhado, se formos comparar com o que o Kraftwerk conseguiria fazer pouco tempo depois; pode soar até meio repetitivo e pouco criativo para os mais exigentes, mas exatamente por isso mesmo torna-se extremamente interessante e mais valoroso no seu contexto, conseguindo com criatividade atingir uma sonoridade bem rock, mesmo sem o instrumental característico, uma vez que a dupla Danny Taylor e Simeon III, utilizava-se basicamente de uma bateria (acústica) e uma espécie de sintetizador primário que chamavam de oscilador eletrônico.
Destaques para a excelente “Oscillations” que abre o disco, síntese de tudo o que a banda se propunha num misto perfeito de experimentação, psicodelia, concretismo e atitude musical; para o que a segue: “Seagreen Serenades”; para a boa “Velvet Cave” com sua beteria pesada e forte; para os tons árabes de “Whirly-Bird”; e para a tribal “Dancing Gods”.
Criativo e inovador, um pouco estranho, é verdade, mas absolutamente fundamental.
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FAIXAS:
1. "Oscillations" (Danny Taylor, Stanley Warren) - 2:48
2. "Seagreen Serenades" (Simeon, Warren) - 2:55
3. "Lovefingers" (Simeon, Warren) - 4:11
4. "Program" (Simeon, Warren) - 4:07
5. "Velvet Cave" (Simeon, Warren) - 3:30
6. "Whirly-Bird" (Simeon, Warren) - 2:41
7. "Dust" (Simeon, Warren) - 3:40
8. "Dancing Gods" (cerimonial dos índios Navajos) - 5:57
9. "Misty Mountain" (Eileen Lewellen, Simeon) - 3:26

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Ouça:
Silver Apples 1968


Cly Reis

sexta-feira, 29 de abril de 2011

The Strokes - "Is This It" (2001)

"Provavelmente o mais importante álbum de rock dos últimos 10 anos.”
Jornal The Guardian, em 2007



O The Strokes na verdade não tem nada de muito especial.
É uma bandinha bem comunzinha pra ser bem sincero.
Eles não fizeram nada demais. Não botaram um ovo em pé, não inventaram o fogo, nem inventaram a roda. No entanto se eles tem algum mérito na história da humanidade foi o de nos trazer de volta o bom e velho rock’n roll. Foi o de dar um sopro de esperança a quem já estava puxando os cabelos com eletrônicos repetitivos, pops sem qualidade, pseudo-punks, emos, rockzinho juvenil e outras coisas que predominavam na cena pop naquele momento. E então com a fórmula mais simples possível: guitarra-baixo-bateria, vocal dosando entre a sensualidade, o relaxamanto e a agressividade, com um som bem cru, bem puro e soando como as antigas bandas de garagem, os caras fizeram um dos discos mais legais, gostosos e significativos dos últimos tempos.
“Is This It”, de 2001 é por definição um disco de rock. Rock básico, rock cheio de vitalidade, cheio de influências de punk rock, de Television, de Velvet, de Stooges e por incrível que possa parecer, dentro da sua simplicidade, também altamente influenciador no cenário alternativo a partir do seu lançamento.
Destaques, é claro, para a faixa-título e de abertura, a graciosa “Is This It”para a embalada "Barely Legal"; para os clássicos imediatos “Someday” e “Last Nite”; para a ótima “Hard to Explain”, para a polêmica  “New York City Cops”, um punk-rock bem pegado; e para a belíssima e melódica “Trying Your Luck”.
Discaço!
Era o rock de volta.
Mas… bom…na verdade ele nunca foi embora.
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FAIXAS:

1. "Is This It" - 2:35
2. "The Modern Age" - 3:32
3. "Soma" - 2:38
4. "Barely Legal" - 3:58
5. "Someday" - 3:07
6. "Alone, Together" - 3:12
7. "Last Nite" - 3:18
8. "Hard to Explain" - 3:48
9. "New York City Cops" - 3:36
10. "Trying Your Luck" - 3:28
11. "Take It or Leave It" - 3:16

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Ouça:
The Strokes Is This It


Cly Reis

O Bode Espiatório

terça-feira, 26 de abril de 2011

Bauhaus - "Burning From the Inside" (1983)


“...nós nunca fomos góticos, fizemos uma música de brincadeira ["Bela Lugosi is Dead"], uma ironia e um monte de idiotas no mundo começou a nos chamar de góticos."
Peter Murphy


Bauhaus é uma banda frequentemente substimada pelo seu aspecto dark, excessivamente teatral, mas atrás do que se escondiam, contudo, boas qualidades, boas referências musicais e literárias, um vocalista com bons recursos, instrumentistas criativos e nada desprezíveis. A verdade é que ao entrar na década de 80, o punk do final da década passada, ganhava outras características e com bandas como Sisters of Mercy, The Cure, Siouxsie and the Banshees, desacelerava aquele som, preenchia mais o ambiente com bases de teclados e sintetizadores, abordava temáticas mais pessimistas e soturnas e dava uma estética a este estado de espírito, tão densa e angustiante quanto suas letras e atmosferas. É verdade que o visual somado à proposta meio expressionista, tirava um pouco da credibilidade sonora do novo movimento que se ensaiava, ainda mais sucedendo exatamente ao punk que era extremamente ativo, engajado, revoltado, o que fazia aquele pessoal de preto parecer meramente um bando de fantasiados pro dia das bruxas sem nenhum valor musical. Mas isso não era verdade. O chamado rock gótico produziu muitos bons discos e alguns, diria, muito bons, como é o caso de “Burning From the Inside” do Bauhaus, de 1983, que se destaca na curta e interessante discografia da banda pela ousadia e experimentação, se afastando um pouco das próprias características. Diferencia-se também por prescindir em alguns momentos de gravação e produção, da presença do vocalista Peter Murphy, doente naquele período, fato que, por um lado dava mais liberdade e autonomia aos outros integrantes, mas por outro, prenunciava o possível fim da banda, que se confirmou logo em seguida.
Mas “Burning From the Inside” mostra uma banda mais madura em relação à própria obra e por isso mesmo arriscando mais. É um disco daqueles com ‘cara’ de grande álbum, sabem? Estrutura de grande disco: grande abertura, faixas de ligação, vinhetas importantes, faixa monumental e um final depois do final.
A abertura na qual se destaca uma envolvente linha de baixo e uma guitarra corrosiva traz a excelente “She’s in Parties” interpretada de forma magistral por Murphy; canção que depois de ‘terminar’, praticamente recomeça só instrumental com o baixo de David J. ainda mais marcante e mais recheada de efeitos, ecos e sintetizadores. Traz na seqüência um punk com roupagem preta na anárquica, “Antonin Artaud”, que por sua vez já emenda na vinheta”‘Wasp”, uma curta introdução de rabeca que leva à mística “King Volcano”, uma espécie festa cigana com inserção gradual de instrumentos acústicos cantada num coro ritualístico assustador.
Depois daí, aparecem dois momentos curiosos no disco pela ausência de Peter Murphy, e é onde os outros integrantes, Ash, Hawkins e David, tomam conta e já dão um ar meio Love & Rockets, futura banda dos três, para o som do disco. “Who Killed Mr. Moonlight” é uma balada soturna pontuada por um piano e cantada por Daniel Ash,; e “Slice of Life”, cantada por ele com o baixista David J., aparece com uma abertura de guitarras ‘luminosas’ que parecem nos permitir uma breve saída do claustro. Na seqüência vem “Honeymoon Croon” que também tem um som mais aberto e apresenta um teclado que remete a The Doors; seguida de “Kingdom Coming” que mostra uma beleza sombria que alterna luz e trevas quase ao mesmo tempo. Mas é a faixa que dá nome ao disco que faz arrepiar todos os pelos do braço: “Burning From the Inside”, uma longa viagem tormentosa com uma guitarra pesada, alta e quase monocórdia servindo de base para a voz de Peter Murphy soar mais horripilante do que nunca, durante mais de nove minutos, ao longo dos quais a música é entremeada por uma espécie de funk das trevas com uma linha de baixo pesada e agressiva. Simplesmente destruidora. Depois de algo assim não precisava vir mais nada, mas até para nos permitir dar uma respirada, ainda vem ‘Hope” que é como se fosse a luz do dia depois de tanta escuridão, numa canção entoada em coro lembrando cânticos camponeses, mas aí já é apenas uma despedida. E a propósito de adeus, o disco, por conta da excessiva participação de Ash e David J., na ausência de Murphy, que não aprovou tamanha autonomia, acabou sendo o estopim da separação da banda que até voltou em 2008 porém já sem o mesmo ímpeto criativo nem anímico. Mas já não valia a pena. Sua contribuição já tinha sido dada e era hora de assumir que, assim como Bela Lugosi, no nome de sua mais famosa canção, o Bauhaus também estava morto.
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FAIXAS:
1. "She's in Parties" – 5:43
2. "Antonin Artaud" – 4:04
3. "Wasp" – 0:20
4. "King Volcano" – 3:29
5. "Who Killed Mr Moonlight?" – 4:54
6. "Slice of Life" – 3:43
7. "Honeymoon Croon" – 2:52
8. "Kingdom's Coming" – 2:25
9. "Burning from the Inside" – 9:19
10. "Hope" – 3:16

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Ouça:
Bauhaus Burning From The Inside


Cly Reis

Foo Fighters - "Foo Fighters" (1995)

"Foi necessário trazer tudo isso à tona para conseguir fazer esse disco. Não estaria fazendo o que estou fazendo se não fosse pelo Nirvana".
Dave Grohl



Uns dizem que Dave Grohl, medíocre ex-baterista do Nirvana, teria contado com a ajuda do falecido vocalista Kurt Cobain (ainda em vida) para compor as músicas do primeiro álbum do que viria a ser sua futura banda; outros afirmam que o próprio Kurt teria composto quase todas, senão todas, as faixas para Grohl; outros ainda que, na verdade,  o material era de sobras da famosa banda de Seattle; ou ainda, e o mais provável, até que se prove o contrário, que Grohl, oficialmente compositor de todas as faixas, além de co-produtor e executor de praticamente todas, estivesse altamente inspirado. Mas independentemente do que tenha acontecido, o fato é que o Foo Fighters, embora tenha alcançado e mantido o sucesso comercial ao longo de sua carreira, nunca mais produziu um disco como seu primeiro, "Foo Fighters" de 1995 que, senhores, é um discaço!
A comparação com Nirvana é inevitável no início do Foo Fighters. Muito ainda enquadrada na sonoridade que consagrou o legendário grupo do qual Grohl fez parte, as canções soavam ainda muito 'grunge', por assim dizer, e mantinham uma estrutura muito similar ao que fizeram principalmente em "Nevermind".
Contudo, ainda que mostrasse peso, energia, influências de punk-rock e metal, o disco já soava mais pop e acessível que seus contemporâneos, representando neste sentido, um passo à frente no que dizia respeito à aproximação com o grande público, o que viria a se confirmar, sobremaneira com os trabalhos posteriores da banda.
Mas, "Foo Fighters", o álbum, sem analisarmos o que a banda acabaria fazendo futuramente, é um ótimo trabalho. Tem pegada, tem força, tem melodia e se constitui num dos melhores e mais importantes discos dos anos 90.
O início do disco é de tirar o fôlego com três tiros certeiros: "This is a Call" começa o álbum em grande estilo, transitando entre o melodioso e o enérgico com uma levada, ao mesmo tempo doce e forte; já traz na colada, praticamente emendando "I'll Stick Around" que entra com tudo com uma bateria furiosa introduzindo para um riff vibrante e empolgante; "Big Me" baixa a rotação mas não a qualidade e nos apresenta uma balada graciosa com levada mais lenta e pendendo pro acústico.
Aí o caldo engrossa com o peso de "Alone+Easy Target" e com o hardcore furioso de "Good Grief". "Oh, George" volta a dar uma cadenciada e é igualmente um dos destaques do disco; "Weenie Beenie" detona tudo; "For all the Cows" outra das grandes é uma espécie de jazz de cabaré com rompantes ocasionais; "Wattershed" volta a atacar furiosamente num hardcore pesado e distorcido; e o disco fecha espetacularmente com a majestosa "Exhausted" com suas guitarras belas e rascantes de arrepiar, num grand-finale digno de um álbum fundamental.
Não sei o que é verdade ou o que é lenda a respeito deste disco, a respeito de Grohl e do Foo Fighters, o que me interessa é o som, o que fazem, o que produzem e o que ouvi da banda depois deste disco não me agrada muito, aliás muito pouco. Porém, o que se escuta neste álbum de estreia da banda é um avanço técnico e compositivo em relação à própria fonte de inspiração, o Nirvana, com uma sonoridade mais limpa, mais uniforme e que, aqui, ainda não perdia a autenticidade do som e sua a agressividade natural.
Agora, independente do quanto Dave Grohl tenha de parcela de composição, genialidade, de inspiração, mesmo que só o tivesse tocado as músicas, pode-se dizer que o fez muito bem. E se as canções eram de Kurt, do Corgan, da Courtney ou fosse lá de quem, não teria havido demérito algum em, a partir delas ter constituído uma obra de grande qualidade. Quantos artistas não compõe uma nota e consagraram-se, assumidamente, interpretando ou tocando composições de outros?
Agora, o que eu acho? Particularmente acho que algum dedo do falecido Cobain tem por aí. Não me parece por acaso que a inspiração nunca mais tenha batido à porta do sr. Dave Grohl. Mas o que importa?
Se o disco é do Foo Fighters, então vamos curtir um Foo Fighters.
Então... Aperte o play.
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FAIXAS:
1. "This Is a Call" 3:53
2. "I'll Stick Around" 3:52
3. "Big Me" 2:12
4. "Alone+Easy Target" 4:05
5. "Good Grief" 4:01
6. "Floaty" 4:30
7. "Weenie Beenie" 2:45
8. "Oh, George" 3:00
9. "For All the Cows" 3:30
10. "X-Static" 4:13
11. "Wattershed" 2:15
12. "Exhausted"

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Ouça:
Foo Fighters 1995


Cly Reis

cotidianas #79 - Cidade Lagoa


 Já havia publicado uma vez a letra de "Cidade Lagoa" aqui no blog quando falei sobre o disco "O Q Faço é Música" de Jards Macalé, mas dada a contínua reincidência de alagamentos aqui no Rio, a ver-se este último acontecido no Rio nesta última madrugada, aí vai ela de novo... cada vez mais cotidiana
O que é impressionante é a atualidade da letra, os mesmos problemas, os mesmos locais; e digo impressionante, porque incrivelmente, este gostoso samba de breque data dos anos 50. Mas o mais curioso, se forem notar, é que os autores reclamam que o problema já viria de longe.
E a situação continua igualzinha.
Unf! Acho que nunca vai melhorar...

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foto da enchente de 1966 no Rio de Janeiro.
Essa cidade que ainda é maravilhosa
Tão cantada em verso e prosa
Desde o tempo da vovó
Tem um problema vitalício e renitente
Qualquer chuva causa enchente
Não precisa ser toró

Basta que chova mais ou menos meia hora
É batata, não demora
Enche tudo por aí
Toda cidade é uma enorme cachoeira
Que da praça da Bandeira
Vou de lancha a Catumbi

Que maravilha nossa linda Guanabara
Tudo enguiça, tudo para
Todo trânsito engarrafa
Quem tiver pressa seja velho ou seja moço
Entre n'água até o pescoço
E peça a deus pra ser girafa

Por isso agora já comprei minha canoa
Pra remar nessa lagoa
Cada vez que a chuva cai
E se uma boa me pedir uma carona
Com prazer eu levo a dona
Na canoa do papai


(breque)
Ai meu Deus,. Mas que toró...
Vou meter uma roupa de escafandro
pra atravessar essa lagoa.

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"Cidade Lagoa"
(Sebastião Fonseca e Cícero Nunes)

Ouça:
Moreira da Silva - "Cidade Lagoa"

Memória curta, mas uma diva eterna

"Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Zis" - Neyde Zis

Quando se fala que o brasileiro tem memória curta, essa é uma grande verdade. Principalmente, quando se refere aos importantes artistas da música. Talentos da black music como Cassiano, Noriel Vilela, entre outros, caíram numa espécie de amnésia. Infelizmente (e surpreendentemente) também é o caso de Neyde Zis - uma das maiores cantoras do País do gênero, considerada por alguns especialistas a melhor.

Conhecida como “A Musa”, “Diva da Black”, “A menina mulher”, Neyde era sinônimo de sucesso no final dos anos 1960. Não é a toa que tinha como parceiros Tim Maia e Jorge Ben (que depois colocou o "Jor"). Lamentavelmente, após uma meteórica e estrondosa carreira, caiu no ostracismo musical e no desconhecimento popular.

No entanto, canções de qualidade são eternizadas e basta uma audição para relembrar (para alguns) ou descobrir (para outros), o quão é incrível a sonoridade e a inconfundível voz de Neyde Zis. O disco “Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Zis” mostra essa riqueza de sons.

Neste registro, a cantora encerra sua "trilogia" musical. Tentou retomar a carreira nos anos 1980, com um disco honômino, mas não teve a mesma criatividade e sucesso de anos anteriores. Em “Dó, Ré, Mi”, que pode ser percebido pela capa, mostra o quanto de experimentalismo e de psicodelia (típicos da época) estão contidos no disco.

A obra - que tem Neyde nos vocais, no violão e nas composições - conta com grandes participações, como dos seus velhos e eternos parceiros: Tim Maia, Tony Tornado e Jorge Ben. Além das contribuições de Erasmo Carlos, Arnaldo Baptista (dos Mutantes) e do Trio Mocotó.


Neyde Zis no programa
do apresentador
Sílvio Santos em 1968
Na faixa "Machado de Assis era negão, sim", a letra é uma crítica ácida que, por ironia do destino, aborda a falta da memória do povo brasileiro. Além disso, valoriza tanto a literatura como da negritude no País. O Trio Mocotó contribui nesta música com um excepcional ritmo, incorporando muito swing do samba rock. Já em “Mãe preta”, Neyde mais uma vez faz um show à parte. Além da voz principal, gravou os três backing vocals, mostrando a sua facilidade de alcançar notas agudas até as mais graves.

Em “Meu nego” (tendo relatos que essa música foi dedicada ao Jorge Ben), tem o mesmo nos vocais e no violão. Já em “The black is on the table” é a vez de Tim Maia aparecer em cena, com seu inglês e voz impecáveis. Tim toca bateria nesta canção, um dos raros registros da carreira do “Sindico” neste instrumento. Aliás, esta música também faz uma crítica social, expondo-a literalmente na “mesa” para todos ouvirem.

Na “Barato total”, Arnaldo Baptista empresta suas “veias psicodélicas” no piano. Também foi responsável por samplers, com ruídos difíceis de detectar do que se tratam.

A “Ogulabuiê” é uma espécie de “revival” de Neyde no período em que cantava junto com Tony Tornado na BR3. A “Diva da black” fez questão que esta música soasse como nos tempos que participava do grupo, quando era uma mera coadjuvante. Nesta, ela divide os vocais com o próprio Tony. Na “Uh, Uh” tem Erasmo Carlos tocando guitarra. O Tremendão colaborou para que esta faixa fosse a mais rock de todas.

A “Ezistência/rezistência” é a canção que abre o disco, com início melancólico e finaliza com um samba de raiz tradicional do Rio de Janeiro. Já a “Zumbi” fecha esta preciosidade brasileira. Curiosamente, na letra, Neyde parece ter tido um pressentimento do seu declínio, cantando: “minha liberdade já se foi, sou uma escrava da dor. Meu quilombo parece longe, seja lá meu destino para aonde for”.

O esquecimento pode perdurar anos, mas não é eterno. O que é permanente é o talento de Neyde Zis, a grande musa da black music do Brasil. Recordar é viver, principalmente para apreciar a boa música.


segunda-feira, 25 de abril de 2011

Os Causo de Dois Morro - O Casamento Rear

Tão falando muito desse casório desse prince das Inglaterra com essa moça aí, mas festança bonita foi a que teve nas núpcia do filho do Coroné Durvalgino de Freitas com uma moça lá das grota. Foi cousa mui linda de se vê!
No início os pai do moço num querío sabê de junção com aquela rapariga porcaus’ que ela num era de família respeitada, de família enriquecida, num tinha um torrão de terra, e de mais a mais o Coroné Durvalgino fazia gosto que o filho se casasse com a Maricotinha, filha do Coroné Tertuliano da Silveira, da cidadezinha vizinha, dali do lado, chamada Cidade Vizinha.
Mas o guri, o Duílio, teimoso que era, cabeça-dura, insistiu que queria pra marida a prenda da roça, a tar de Kátia e começou a passeá com ela pela praça, levá na egreja, levá pra montá de acavalo, até que o pessoar da cidade foi se costumando, começo a gostá da moça e logo, logo todo mundo, até os pai dele, já tavo gostando da guria e tinho aprovado o matrimoniamento.
Antonce que começaro os preparativo: Seu Durvalgino queria que fosse um casório de marcá época, de fazê inveja a quarqué casamento das Corôa Britânia; até porque ele por mais que vivesse com a Dona Das Dor há 38 ano, na verdade nunca tinha se casado assim, de verdade mesmo, de paper passado, véu-e-grinarda. É que porque quando os dois era mais novo e resorvero fazê a vida junto, à revelia do pai da moça, Seu Durvalgino tiro ela de casa, lá em Riozinho Estreito, onde a Das Dor morava. Aí que fugiro pra Dois Morro e ali ele se estabeleceu-se, criô profiteróle, planto presunto e encheu as burra de dinhêro; mas sempre ficô com esse desgosto na vida de nunca tê casado, entonce queria que o filho tivesse a melhor festa de casório daquelas plagas e de quarqué redondeza que se tivesse notícia.
Aí, como todos sabío que o Seu Durvalgino e Dona Das Dor, só erro ajuntado, o casamento do menino Duílio e da moça Kátia ficô conhecido como o casamento rear, porque esse sim era de verdade, já que o do pai dele não tinha sido bem um casamento legalizado, jurisdicado e catolificado. Esse sim era um Casamento Rear!
Mas a cerimônica foi mui linda! Aconteceu na catedrar de Dois Morro, que é mais ou menos do tamanho da Brasílica de São Pedro, aquela dos Vaticano. O guri Duílio entrô de bombacha e lenço colorado no pescoço, a chinoca, pra seu lado, com um vestido de chita branco com umas renda bonitaça que dava gosto de vê. A cousa foi ligêra porque o Seu Durvalgino mandô o Padre apressá aquela ladainha pramodequê os peão já tavo preparando o churrasco e os convidado já tavo azur de fome; então foi que Sua Reverendíssima foi direto pros sim, pros não e pros aceito e foi-se todo o povo da cidade pra churrascada na fazenda do Coroné.
Sei que o Coroné mandou matá 508 boi pro churrasco. Mais 3200 galinha, 220 porco e um milhão e duzentos profiteróle, que, não sei se cês sabe, tem uma carne mui da saborosa.
As gente se empanturraro tanto, tanto que dispôs o esgoto de Dois Morro mal dava conta de tanta bosta, mas isso não tem desimportância, o que vale é que a festança foi daquelas de guardar nas memória: muito chopeidança, muito risada, muita briga de facão e muito emocionamento. Lindo foi vê o Duílio e a Kátia dançando uma ranchera de casamento ao som da cordeona do Vicente Bagual. (Me vem água nozóio só de alembrá).
O casório foi às maravilha, a festança mui linda, mas as coisa não ficaro lá muito bem dispois não. Pois bem que o pai do Duílio tinha implicância com a guria, que não demorô pra botá as asinha de fora e se mostrá uma baita duma sirigaita, sempre de assanhamento pros peão e pros gaudério da região. Não tardô pra cidade inteira ficá sabendo que o Coroné tinha então mais uma cabeça de gado pra criação dele: a do próprio filho.
O Duílio não agüento o humilhamento e uma noite bebeu, bebeu e se afogo na sanga. Como o casamento era de divisão de bem, a china ficou com todas as propriedade que tavo no nome do rapaz e ainda deu um gorpe e tirou o que era do véio Durvalgino que saiu da cidade e hoje vive ali pertinho em Gloriópolis, sempre bêbedo, atirado pelos canto que nem um mindingo. Quando ele conta ninguém acredita que ele já foi muito rico e dono de terra. Nem dão confiança quando ele conta do casamento que deu pro filho e que não foi casório de mentirinha que nem que o dele. Foi um Casamento Rear! Rear!

postado por Chico Lorotta