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sábado, 20 de agosto de 2011

Cream - "The Fresh Cream" (1966)


"Doce e saboroso rock and roll"
Jack Bruce
para a Mellody Maker
em 1966


Se tem uma banda para a qual os termos superbanda ou power-trio se aplicam perfeitamente é o Cream. A formação era 'só', Jack Bruce, Ginger Baker e Eric Clapton . Quer mais? Baker era baterista conceituado e líder do Graham Bond Organisation, banda da qual Jack Bruce, baixista de formação jazz, fazia parte eventualmente, dividindo-se também entre outros projetos. Clapton, que já era Deus, conhecia o baixista dos Bluebreakers e do Powerhouse e convidado por Baker a formar um novo grupo, impôs a convocação de Bruce como condição. A indicação mostrou-se um grande acerto e um grande erro ao mesmo tempo: se por um lado formavam um timaço quase sem precedentes de qualidade, conceituação e técnica, por outro, levava confusão para dentro do grupo, uma vez que Bruce e  Baker, já desde o GBO tinham frequentes desentendimentos sérios, isso sem falar nas drogas e bebidas de Baker e na indisciplina e vaidades do problemático baixista.
Mas como se diz no futebol, o que importa é o que os jogadores faz dentro das quatro linhas e, no estúdio, em "Fresh Cream", seu disco de estreia, a nata do rock and roll mandou ver! Além de estraçalhar com seu baixão potente e apurado, Bruce compôs a maioria das musicas, à exceção dos covers de blues, que ocupam praticamente toda a segunda metade do álbum, e das duas compostas por Baker, "Sweet Wine" em parceria com a esposa de Bruce, e a espetacular "Toad" com seu incrível solo de bateria.
Dos blues, "Rollin' and Trumblin'" de Muddy Waters, "Spoonfull" de Willie Dixon e "Four Until Late" de Robert Johnson formam uma espécie de santíssima-trindade no disco com versões recriadas cheias de energia, além de "I'm So Glad" do blueseiro Skip James, para a qual o Cream deu provavelmente a versão definitiva. Tem ainda o blues de autoria desconhecida, "Cat's Squirrel", que nas mãos da banda ficou bem percussionado e cheio de peso, com destaque especial para a harmônica venenosa de Jack Bruce.
Das composições da banda, sou louco por N.S.U. que inicia com aquela bateria alta meio indígena e logo divide as honras com um baixo pesado e uma levada constante e agressiva de Clapton prenunciando tendências de estilos mais pesados; "Sweet Wine" que repete o barulho também enquadra-se nessa linha das influentes para o metal e afins; "Sleepy Time Time", um blues choroso, embora creditado a Bruce e à esposa Janet, é bem a cara de Clapton e traz toda a técnica do Deus da Guitarra; e a lenta "Dreaming", talvez a 'menos boa', se é que se pode dizer isso, é uma adorável balada num ritmo quase valseado.
Mas a grande música do álbum na minha opinião é mesmo "I Feell Free", um rock-jazz-blues totalmente psicodéleico marcado por uma percussão acelerada carregada nos pratos, com uma condução bem swingada do baixo e um solo notável de Clapton acompanhando os vocais na segunda parte. Fantástica!
Enaltecendo assim as composições de Bruce e o desempenho de Baker, pode parecer que a grande estrela do grupo, Eric Clapton, teria um papel menor na banda. Absolutamente. Pelo contrário. Além de funcionar quase como um líder discreto, com sua segurança técnica e moral, era também uma espécie de fiel-da balança no relacionamento Baker/Bruce e dava algum equilíbrio à banda sobremaneira nos seus primeiros momentos (enquanto ainda era possível). Mas no mais importante, no tocante à parte musical especificamente, sempre que exigido, quando chamado na responsa não deixava pedra sobre pedra proporcionado invariavelmente shows à parte. Isso sem falar que toda a parte de repertorização de pesquisa e resgate do blues passava por ele com as escolhas dos clássicos dos seus mestres inspiradores e as propostas de releituras dos mesmos.
Mas como sabemos, grandes estrelas, grandes gênios juntos não dão certo por muito tempo e o Cream teve um carreira bem breve; com eventuais retornos, é verdade, mas já sem o mesmo valor da fase inicial. Ainda fariam a obra-prima "Disraeli Gears" um ano depois de "Fresh Cream" mas isso, com certeza, é assunto para outro ÁLBUNS FUNDAMENTAIS.
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FAIXAS:
1. "I Feel Free" (Jack Bruce, Pete Brown) 2:53
2. "N.S.U. (Non-Specific Urethritis)" (Jack Bruce) 2:43
3. "Sleepy Time Time" (Jack Bruce, Janet Godfrey) 4:20
4. "Dreaming" (Jack Bruce) 1:58
5. "Sweet Wine" (Ginger Baker, Janet Godfrey) 3:17
6. "Spoonful" (Willie Dixon) 6:30
7. "Cat's Squirrel" (tradicional americana) 3:03
8. "Four Until Late" (Robert Johnson) 2:07
9. "Rollin' and Tumblin" (McKinley Morganfield) 4:42
10. "I'm So Glad" (Skip James) 3:57
11. "Toad" (Ginger Baker) 5:11

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Ouça:
Cream The Fresh Cream


Cly Reis

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Textura









fotos: Reis, Cly

Chico Buarque - "Chico" (2011)

"Meu tempo é curto, o tempo dela sobra
Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora."
trecho de "Essa Pequena"


Fui cheio de dedos ouvir o novo CD de Chico Buarque emprestado pela minha irmã que é mais louca que eu pela música do cara. Estranho foi que esta fãzoca me advertira que o disco não era ‘lá essas coisas’, meio fraco e coisa e tal, só que para ela colocar alguma restrição a um trabalho dele, olha..., era realmente de recear pelo pior. Como agravante, de minha parte já considero há algum tempo que, atualmente, Chico Buarque de Hollanda está mais para um ótimo escritor que faz música do que propriamente para um grande músico, o que tornava minha muito provável minha concordância com o conceito da fã em questão, dona do CD.
Peguei então para escutar descompromissadamente, meio assim, durante o café da manhã; e talvez por não esperar muito, a cada faixa que se seguia se me apresentava uma positiva surpresa. O disco não era tão mal quanto ela tinha pintado. Não, não! De fato é um bom disco. Passa a falsa impressão de ser ‘fraco’ por ser mais lento, ter um andamento mais cadenciado que de costume mas definitivamente para ruim não serve. O problema é que, também, o parâmetro de comparação de Chico Buarque é a própria obra de Chico Buarque, especialmente até a metade dos anos 80, e aí é covardia com ele mesmo cobrarmos sempre um “Almanaque”, um “Chico Buarque (1984), e coisas do tipo. Não é sempre que se faz discos assim.
Mas “Chico” (2011) é sim um bom disco. Ao longo das faixas a gente vai gostando, vai percebendo detalhes, méritos, qualidades e virtudes. “Querido Diário” que abre o CD e que funcionou como uma espécie de faixa-promocional, lançada previamente na internet, não é nada mais que simpática e dá a falsa impressão de que não teremos nada muito melhor pela frente ; “Rubato”, que a segue, é uma marchinha inusitada que causa uma certa estranheza pelo sutil descompasso de melodia e voz numa estruturação ousada de Chico com o parceiro João Helder.
Claramente sob efeito dos encantos de uma jovem, que minha irmã me informou ser a nova musa do compositor ds olhos verdes, Chico deixa transparecer em algumas faixas essa inspiração, mais evidentemente em “Essa pequena”, onde de alguma forma fala das diferenças deles dentro desta relação com idades tão distantes; mas também dá ‘letrinhas’ do assunto na ótima “Tipo um Baião”, ("Não sei para que outra história de amor a essa hora...") a melhor do disco na minha opinião, e na gostosa “Se eu soubesse” uma adorável valsinha que parece algo meio como a visão dela da coisa ("Ah, se eu pudesse não caía na tua conversa mole, outra vez/ Não dava mole à tua pessoa (...)/ Mas acontece que eu sorri para ti / E aí, larari, lairiri, por aí").
Se o Chico compositor está sempre rondando o Chico escritor, o inverso também vale e em faixas como na muito legal “Barafunda” toda a verve romancista com o traço característico dos seus livros está lá, com uma grande ‘confusão’ de memória que embaralha fatos, lugares e pessoas. Em “Nina” pode notar-se traços ou ideias não aproveitadas do seu romance "Budapeste" e em “Sinhá” alguma coisa talvez descartada ou resultante da concepção de  "Leite Derramado".
Merecem também destaque o samba composto com Ivan Lins, já conhecido a voz de Diogo Nogueira, “Sou eu”, que lembra de certa forma sua antiga “Deixa a Menina”; e a retomada da parceria com João Bosco, que já havia feito com ele a ótima "Mano a Mano" , na já referida, “Sinhá”, um comovente e triste samba de senzala que encerra o disco.
Não é o "Construção" , é verdade, não é um “Paratodos”, tá bem, mas não é em nada desprezível o novo trabalho musical deste grande escultor das palavras. Até que dá para dar um crédito para este escritor aí que andou se aventurando a gravar um CD. Tem futuro, tem futuro o garoto.
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Ouça:
Chico Buarque - "Chico" (2011)




Cly Reis

terça-feira, 16 de agosto de 2011

cotidianas #98 - Maneira de Pensar


Na sala de aula, a professora de matemática pergunta ao Joãozinho:
- Joãozinho, tem três passarinhos num galho de uma árvore. Um homem pega na sua espingarda e mata um. Quantos ficam?
- Nenhum, professora, responde ele.
- Como Joãozinho? Pense bem... Existem 3 passarinhos, e o homem mata um. Quantos sobram?
- Nenhum professora. O homem erra o tiro, os passarinhos se assustam e conseguem fugir. Não sobra nenhum no galho, 'fessora.
- Não, Joãozinho, é só um exercício de matemática. Restam dois passarinhos. Sua resposta não foi correta mas eu gostei muito da sua maneira de pensar.
Aí o Joãozinho diz:
- Professora, eu também tenho uma perguntinha pra senhora: num banco de uma praça tem três mulheres sentadas, uma solteira, uma casada e uma noiva, cada uma com um sorvete. Uma lambe, outra morde e a outra chupa. Qual delas é solteira?
A professora, que por acaso era solteira, muito constrangida e vermelha, pensa um pouco e responde:
- Ahn... Bom,... é a que chupa?
- Não, professora. A solteira é a que NÃO usa aliança, mas eu gostei da sua maneira de pensar...

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sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Pearl Jam - "Ten" (1991)

“Eu tenho problemas com as coisas boas que escrevem sobre o Pearl Jam. Aliás, eu tenho problemas com tudo... Gostaria de nunca ter aparecido na MTV, cara. Me sinto um bobo tendo de falar sobre a banda o tempo todo.
Eddie Vedder


Discaço, frequentemente envolvido em uma desnecessária disputa com o "Nevermind" do Nirvana, que além de não levar a nada, invariavelmente tende a fazer-se tentar depreciar um em nome do outro. Particularmente prefiro o "Nevermind" por considerá-lo fundamental num contexto muito mais abrangente, mas o que não invalida em nada minha grande admiração por este disco que é, inegavelmente, junto com a obra-prima de Kurt, o grande expoente da geração Seattle além de um dos mais importantes dos anos 90 e desde seu lançamento, já um dos importantes da história do rock.
"Ten" , disco de estreia do Pearl Jam, apresentava-nos uma banda forte, com ímpeto, peso, energia, e  agressividade, porém ao mesmo tempo melódica e sensível, com composições bem constituídas e interpretações poderosas e envolventes de Eddie Vedder, seu vocalista e letrista, um tipo extremamente carismático e cativante, apesar de sua personalidade difícil e instável.
No disco, após a breve prelúdio quase instrumental (pois tem algum murmúrios ao fundo) uma linha de baixo bem grave e sinuosa introduz à violenta "Once" que com sua letra forte e vocal furioso começa a dizer a que veio o álbum. "Even Flow" que a segue, é outra pedrada com sua levada pesada e poderosa; "Alive" o grande sucesso da banda, traz um riff inicial envolvente e melodioso, um refrão marcante interpretado de maneira extraordinária por Vedder e um empolgante solo final . "Black", de início lento, de um desenvolvimento crescente, é outra em que Vedder usa todo seu talento vocal e acaba por trazer-nos outra interpretação memorável culminando num final emocionante. Outra das boas do disco, "Jeremy" , é mais uma paulada, igualmente impactante tanto em música quanto em letra, totalmente oportuna nos dias de hoje quando se fala tanto em bullying.
A balada "Oceans" alivia sonoramente e apresenta uma canção lenta de característica quase acústica; "Deep" é fodona; a boa "Garden" também é um destaque e a longa "Release" com seu andar arrastado e denso encerra a obra trazendo no rastro a repetição da vinheta inicial, "Master/Slave", que fecha o disco da mesma forma que abriu: lenta e sombriamente.
Uma vez vi o Pearl Jam ao vivo só porque não tinha nada melhor para fazer. Porto Alegre tinha naquele momento um vazio de shows bons e quando pintou o Pearl Jam por lá achei que seia um bom programa. Na época nem curtia muito o som dos caras, conhecia "Alive" e "Even Flow" acahva legal mas... era isso. Mas depois daquela apresentação inesquecível passei a respeitar muito mais a banda e admirar o som dos caras. Grande banda e um dos maiores shows de rock que já fui na vida.

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FAIXAS:
1. "Once" 3:51
2. "Even Flow" 4:53
3. "Alive" 5:40
4. "Why Go" 3:19
5. "Black" 5:44
6. "Jeremy" 5:18
7. "Oceans" 2:41
8. "Porch" 3:30
9. "Garden" 4:59
10. "Deep" 4:18
11. "Release" 9:05

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Ouça:
Pearl Jam Ten


Cly Reis

terça-feira, 9 de agosto de 2011

cotidianas #97 - Garota Medrosa



Garota medrosa
Até onde vão as intenções dele?
Ou ele sequer possui alguma?
Ela diz: "Ele nunca realmente olhou para mim
Eu lhe dei cada oportunidade
No quarto embaixo das escadas
Ele sentou e ficou olhando
No quarto embaixo das escadas
Ele sentou e ficou olhando
Eu nunca cometerei este erro de novo"
(Eu nunca cometerei este erro de novo
Eu nunca cometerei este erro de novo)


Garoto medroso
A prudência nunca compensa
E tudo o que ela quer custa dinheiro
"Mas ela nem mesmo GOSTA de mim!
E eu sei porque ela me disse isso
No quarto embaixo da escada
Ela sentou e ficou olhando
No quarto embaixo da escada
Ela sentou e ficou olhando
Eu nunca cometerei este erro
de novo."

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trad. de "Girl Afraid" 
The Smiths
(Morrissey/Marr)

Ouça:
The Smiths - "Girl Afraid"

“Filhos de João - O admirável mundo novo baiano”, de Henrique Dantas (2011)




Assisti neste fim de semana a “Filhos de João - O admirável mundo novo baiano", de Henrique Dantas, um divertido documentário sobre os Novos Baianos, a grande banda de MPB dos anos 70. Revolucionários, os Novos Baianos – leia-se Moraes Moreira, Pepeu Gomes, Dadi, Paulinho Boca de Cantor e toda uma enorme trupe que formava a banda – foi responsável pela manutenção do movimento tropicalista no Brasil pós-AI5 e pela revalorização dos elementos tradicionais da música brasileira, mesclando-os com muita propriedade e qualidade ao rock de Hendrix , Stones , Beatles , Janis e outros.
Para mim, adorador de música brasileira e da banda, ver um filme como este é um deleite. E fiquei extremamente feliz quando percebi já no título uma afinidade de pensamento, uma vez que há alguns meses escrevi para este blog uma resenha sobre o melhor disco dos Novos Baianos, “Acabou Chorare”, de 1971. Intitulada "Lá Vem o Brasil Bater à Minha Porta" , abordei justamente a relação da banda com o “velho baiano” João Gilberto e o episódio em que ele, numa aparição tão inesperada quanto mágica no apartamento dos músicos no Rio, levou àquele grupo de hippies “os requebros e maneiras” do samba, ensinando-lhes a batida de violão da bossa nova e abrindo a cabeça da galera para os ritmos brasileiros, tornando-se pai espiritual da galera. Impressionou tanto que Moraes, por exemplo, chegou a cogitar de não tocar nunca mais depois daquilo! A narrativa do filme, bem estruturada, ressalta com assertividade este ponto, mostrando como os Novos Baianos passaram a introduzir o toque afro-brasileiro no seu estilo por indicação de João, mudando para sempre o modo de fazer rock e de fazer música popular no Brasil e no mundo.
Há revelações interessantes, como a de que o nome artístico Baby Consuelo foi atribuído a então Bernadete Dinorah inspirado no de uma personagem prostituta do filme “udigrudi” brasileiro “Caveira My Friend” (de Álvaro Guimarães, 1970). Também, a ideia da música “Acabou Chorare” – primeira bossa nova composta por aqueles jovens roqueiros e talvez a composição mais linda do grupo –, que surgiu das histórias que João Gilberto contava sobre sua pequena filhinha, a hoje cantora mundialmente conhecida Bebel Gilberto. E se quem escuta a música já se emociona (eu, em pleno cinema, me peguei às lágrimas), imagina o sentimento do autor! E foi isso que Moraes confessou: de tão impactado pela beleza e emoção de ter feito aquela canção, passou quatro dias sem dormir, tocando repetidas vezes a obra-prima que acabara de criar.

Baby, Galvão, Moraes e Paulinho,
o núvleo da banda
Ponto negativo é a não-participação de Baby. Corrigindo: é Baby do Brasil, hoje evangélica, quem não participa, pois se negou a gravar entrevistas. Mas a Baby Consuelo, ah, essa estava lá! Magrinha e extrovertida, ela aparece em filmes da época como no documentário para a TV alemã, realizado na metade dos anos 70, em que canta, radiante, “A Menina Dança”. Uma doçura. João Gilberto é outro que não aparece – a não ser numa imagem fotográfica. Mas é citado por quase todos os entrevistados: Dadi, Tom Zé, Rogério Duarte, Moraes, Galvão, Pepeu e outros. Sua figura é tão essencial na história dos Novos Baianos que sua aparição é até dispensável. Mais do que isso: a não-aparição de João, se não proposital, acaba adensando ainda mais a aura mística que ele tem para com todos da MPB moderna, e o filme capta super bem essa reverência.
“Filhos de João” é mais um bom registro documental tal como vem se fazendo no Brasil nos últimos 10 anos, período em que o cinema nacional avançou muito neste formato, resgatando momentos e personagens importantes como a Velha Guarda da Portela, Dzi-Croquettes, Paulinho da Viola, Oscar Niemeyer, jornal Sol, Wilson Simonal e vários outros. Agora, é a vez de saudar os Novos Baianos, no “passado, presente, particípio”, como diz naquela letra.


sábado, 6 de agosto de 2011

cotidianas #96 - TRAGO A PESSOA AMADA EM TRÊS DIAS



TRAGO A PESSOA AMADA EM TRÊS DIAS, dizia o anúncio. Quando viu aquele cartaz colado num poste, não teve dúvidas do que deveria fazer. Desesperada como estava, visitaria o místico do anúncio e traria de volta seu amado que algum mal entendido do destino tratara de lhe tirar. Seguiu até o endereço, entrou, foi atendida por uma velha magra e baixa com uma voz esganiçada que lhe ouviu, fez orações, jogou cartas e búzios, e por fim anunciou que seria um trabalho difícil pois alguém também teria feito uma amarração forte para tirá-lo dela. Seria necessário pipoca, cachaça, champagne, galinha e até um bode para sacrifício a fim de garantir o resultado. A moça não dispunha de grandes recursos mas faria um esforço para cumprir o objetivo. A mãe-de-santo prometera: 3 dias. Era garantido. Foi para casa esperançosa de que nos dias seguintes o amado voltaria. Não voltou. Nem em três, nem em 5, nem em um mês, mesmo com um despacho caprichado, com novas visitas e reforços nos trabalhos. Mas o tempo, que é dos unguentos o melhor, tratou de fazê-la superar, ir esquecendo e por fim conhecer um outro rapaz também interessante com quem vem saindo ultimamente. Eu soube que o ex andou ligando. Demonstrava algum arrependimento, tentava uma reconciliação, uma nova chance. Ela tratou de convencê-lo que no fim das contas a separação havia sido boa para ambos.
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TRAGO A PESSOA AMADA EM TRÊS DIAS, dizia o anúncio. Quando viu aquele cartaz colado num muro, hesitou um pouco afinal este tipo de recurso ia contra seus princípios religiosos e de mais a mais, nem acreditava muito nessas coisas. Mas desesperada como estava, tentaria até aquilo. Visitaria o mago do anúncio e traria de volta seu amado que algum mal entendido do destino tratara de lhe tirar. Seguiu até o endereço, entrou, foi atendida por uma velha gorda e baixa com uma voz maviosa que lhe ouviu, fez orações, jogou búzios e cartas, e por fim sentenciou que seria um trabalho difícil pois alguém também teria feito uma amarração braba para tirá-lo dela. Seria necessário cachaça, champagne, pipoca, galinha e até um bode para sacrifício a fim de garantir o resultado. A moça, determinada, disse que dinheiro não era problema e que a feiticeira poderia dispor do que precisasse desde que o rapaz voltasse para seus braços. A pitonisa prometera: 3 dias. Era garantido. Foi para casa cheia de dúvidas se aquele teria sido um recurso correto mas o que importava àquelas alturas era cumprir seu objetivo: que ele voltasse. E voltou. Certo, exato, em três dias. Disse que pensara melhor, que sempre a amara e que nunca poderia viver sem ela e coisa e tal. Ela, no seu interior ria-se de satisfação: o trabalho dera certo, o trabalho dera certo! Mas o trabalho nunca fora feito. A charlatã usava agora o dinheiro que seria destinado para a compra de um bode, em provisões para sua casa. Comprara farinha, um frango congelado, pipoca para o netinho e até uma espumante, por quê não?
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TRAGO A PESSOA AMADA EM TRÊS DIAS, dizia o anúncio. Quando viu aquele cartaz nos classificados do jornal pensou que aquilo era o que precisava. Seria sua chance de ter aquele ser tão desejado. Visitaria a feiticeira do anúncio e roubaria daquelazinha o homem que, afinal de contas, deveria ser seu mas que o destino por algum motivo lhe negava. Seguiu até o endereço, entrou, foi atendida por uma velha alta e magra de voz rouca que ouviu-lhe, fez orações, jogou cartas e búzios, e por fim anunciou que seria um trabalho difícil pois ele já estava amarrado a uma pessoa. Seria necessário pipoca, cachaça, champagne, galinha e até um bode para sacrifício a fim de garantir o resultado. A moça, determinada, mesmo não sendo abastada estava disposta a bancar o que fosse e garantiu que iria às últimas consequências para ter o rapaz em seus braços. A mística prometera: 3 dias. Era garantido. Foi para casa confiante que nos dias seguintes finalmente ele bateria à sua porta e praticamente imploraria pelo seu amor. Não deu certo. Mesmo com o empenho da mãe-de-santo e frequentes reforços nos trabalhos, seu querido continuava feliz da vida com aquela desqualificada. Ai, que ódio! Mas o tempo, que é dos remédios o melhor, tratou de fazê-la esquecer, deixar pra lá, reconhecer que aquilo tudo não havia sido mais que um capricho e por fim, no tocar da vida, conhecer outros rapazes interessantes. No fundo, lamentava mais o dinheiro investido do que o fracasso do intento. Como havia sido boba, essas coisas de magias não funcionam.
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TRAGO A PESSOA AMADA EM TRÊS DIAS, dizia o anúncio...



Cly Reis

Madonna - "True Blue" (1986)


“A mais bacana Rainha da Ferveção"...
"Uma combinação escandalosa de Orfãzinha Annie, Margaret Thatcher e Mae West”…
“Narcisista, rebelde, cômica....a Deusa dos Anos Noventa...”
trechos de matérias da imprensa
no encarte
da coletânea "The Immaculate Collection"



"True Blue" de 1986, representa um marco e a primeira virada na carreira de Madonna Veronica Louise Ciccone. A partir dele, a "material girl" de roupinhas sensuais, temas pueris e vocais de menina, dava lugar a uma mulher e a uma artista que sabia o que queria e onde pretendia chegar. Começava a dar rumos e um sentido artístico real e relevante à sua carreira que desde o início tivera sucesso mas que carecia de ser tomada à sério pelo público. Não que tivesse abandonado a sensualidade, a ironia, nem o apêlo pop, mas a partir de "True Blue", notava-se pela primeira vez uma certa ousadia, uma pretensão musical, intenções,  e objetivos.
Avalizada pelo sucesso comercial de seus discos anteriores, Madonna passava a escrever suas letras e compor parte delas, co-produzindo inclusive o disco e dando sua cara ao trabalho. O resultado é um disco diferenciado no âmbito vigente do pop daquele momento. "Papa Don't Preach" que abre o disco já dá mostras disso com uma introdução imponente de cordas que desemboca numa canção bem estruturada apoiada numa letra segura e madura que trata sobre aborto e gravidez precoce. Aborto? Mas isso lá é tema que se aborde numa canção para fácil consumo? Era Madonna causando polêmica e novo, mas agora não apenas por causa da lingerie. Era o início de uma rotina de afrontas aos padrões que se repetiriam e fariam uma de suas principais marcas.
"La Isla Bonita" com seu ritmo latino cheio de percussões e balanço, com partes da letra cantada em espanhol; e a pouco convencional balada confessional, "Live To Tell", longa, funkeada e com um improvável intervalo, atestam ainda mais essa diferenciação de qualidade e de estrutura do álbum em relação a seus 'similares', marcante sobremaneira pela variedade de alternativas, pelas temáticas pouco usuais, pela instrumentação qualificada com um bom time que inclui o brasileiro Paulinho da Costa na percussão, e pela cuidadosa produção.
Outra das boas do disco, a dançante e alegre "Open Your Heart", é apenas uma canção pop convencional, mas inegavelmente muito legal e um dos clássicos da rainha; a canção que dá nome ao disco,"True Blue", faz retornar um pouco aos discos anteriores com um pop juvenil, bastante simplório, porém extremamente gostoso e simpático. A boa e embalada "White Heat" vem com referências cinematográficas interessantes como o diálogo sampleado do filme "Fúria Sanguinária" que abre a música; a dedicatória da mesma a James Cagney que fizera parte do filme; além de trazer na letra o famoso bordão do personagem Dirty Harry de Clint Eastwood, o clássico "make my day" . Tem ainda a boa "Where's the Party", a frenética "Jimmy, Jimmy" e a otimista "Love Makes the World Go Round" para fechar este belo disco.
Sei que muitos torcem o nariz para a Madonna colocando-a no mesmo barco de umas outras tantas que na verdade só balançam a bunda e correm atrás e tentam imitá-la, mas a verdade é que a loira tem uma produção musical bem mais consistente, interessante e ousada que as imitações. Madonna sempre, desde o "True Blue", está um passo à frente e sempre incorporando novos elementos, ainda que às vezes sutilmente, à música pop. Ouço com frequência que Madonna não sabe cantar, que as músicas são fracas e biririborobó... Mas o curioso é que aceita-se tão facilmente artistas do metal, do punk, etc., que não cantam nada, mas para os quais se ressalta com ênfase atitude como grande mérito; bandas que não produzem mais que três acordes ou composições minimalistas de mestres tidas como geniais, a quem  a simplicidade, a força, o impacto, são celebrados como grandes virtudes, e no entanto as mesmos predicados sejam minimizados ou ignorados nesta artista extremamente relevante para a música e para o comportamento do final do século XX.
A verdade é que em se tratando de atitude, impacto, enfrentamento, polêmica, pouca gente foi mais 'punk' que Madonna nos últimos tempos. É verdade que se utiliza da mídia e da posição conquistada para expôr suas ideias, estética, conceitos e tudo mais; mas não deixa de ser até mesmo a grande ironia disso tudo, utilizar-se destes meios e ao mesmo tempo miná-los e colocá-los à prova. Coisa de artista diferenciado, coisa de uma mulher à frente de seu tempo. Gostem ou não gostem, parece que não há como negar que Madonna já pode ser considerada uma das maiores personalidades da história e uma das grandes mulheres do nosso tempo.

FAIXAS:
1. Papa Don`t Preach
2. Open Your Heart
3. White Heat
4. Live to Teel
5. Where`s The Party
6. True Blue
7. La Isla Bonita
8. Jimmy Jimmy
9. Love Makes The World Go Round

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Ouça:
Madonna True Blue


Cly Reis

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Helmet - Beco - Porto Alegre - RS (30/07/2011)




Em 1994, por algum abobadice da qual não me recordo, não fui a Capão da Canoa, cidade próxima a Porto Alegre, para o festival de música M2000 Summer Concert, que, apresentava como atrações um monte de babas como Deborah Blando, Robin S. e otras coisas do gênero, mas que curiosamente trazia também o alternativo Helmet, a melhor banda de rock pesado surgida nos anos 90 e a qual eu já adorava àquela época. Perdi e nunca me perdoei por isso. Até que, passados 17 anos daquele descuido, o Helmet volta ao sul, agora exatamente em Porto Alegre, para uma única apresentação no pub Beco. Não podia deixar escapar dessa vez. Juntamente com o povo que lotava o local, pude conferir o grande show que o grupo apresentou, tocando clássicos do seu repertório.

O Helmet parecia estar curtindo o show. A galera agradece!
O show abriu com uma das clássicas: “Wilma’s Rainbow”, cantada com emoção por todos no marcante refrão: “Wathershed we comes/ You’re flush with fever/ The richest junk dealer". Já nesta, a banda, liderada pelo excelente compositor e guitarrista Page Hamilton, mostra a perfeição na execução das complexas linhas melódicas, característica própria da banda. Isso, claro, aliado a muita pegada, flertando direto com o hardcore e o heavy metal, não sendo, apesar de tudo, nenhum dos dois. Aliás, esta é uma marca do Helmet: é simplesmente um belíssimo rock, enfurecido, de guitarras distorcidas, bateria pulsante e baixo que rosna, mas sempre inteligente e bem composto, mas sem apelar para o virtuosismo masturbatório. Isso se pôde perceber nas excelentes “Vacccination”, com sua criativa variação de 3 e 6 tempos, “Milquetoast”, muito festejada pelo público, e “Give It”, com seu tempo “atrasado” de bateria que sincopa a música entre um urro de guitarra e outro.

Galera ainda meio comportada.
Bem à esq., na parte inferior, um pedaço da minha cabeleira,
antes de me juntar à roda do pogo.
Como cheguei já com a casa cheia, posicionei-me, antes do show, pelo meio da pista; mas a intenção era, quando começasse, cair na roda punk. Rolaram as primeiras músicas, e os que estavam logo à minha frente só assistiam parados. Fazer o quê? Direito deles, né? Mas quando a banda tocou a furiosa “Turned Out”, com seu vocal raivoso e sua estrutura toda “quebrada”, não pude resistir: saí abrindo passagem a socos e pontapés para misturar-me à saudavelmente ensandecida galera que pogueava. A glória! E ali fiquei até o fim. Vieram na sequência a emputecida “Ironhead”, “Role Motel” (das minhas preferidas) e “Better”, todas do célebre álbum “Meantime”, de 1992.
Os simpáticos integrantes mostraram o tempo todo estarem se divertindo, agradecendo, inclusive, várias vezes a presença do público. Mas o ponto alto foi, de fato, “Unsung”, maior hit da banda, quando a plateia toda cantou junto. No bis, três músicas, fechando com nada mais, nada menos que “Just Another Victim”, da trilha sonora do filme “Judgment Night” que, na original, é tocada junto com os rappers do House of Pain. Mas como só tinha Helmet no palco, a segunda metade da música, quando entraria a parte do rap, teve uma ótima solução: emendaram-na com “In the Meantime”, a joia que abre o disco mais conhecido da banda.
Já na rua, com os ouvidos zunindo e a canela doída por causa de um chute, ao invés de pegar um táxi, preferi sair caminhando, curtindo aquela sensação gloriosa pelo show que acabara de acontecer. A cada música que me lembrava, bengueava sozinho pela noite porto-alegrense. Voltei para casa com o sentimento de que, agora, estou perdoado por mim mesmo.


segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Motörhead -"Ace of Spades" (1980)

"Motörhead é heavy metal no únco sentido significativo do termo. Todo o resto é apenas faz-de-conta"
Gary Bushell,
jornalista da revista Sounds



Conheci o Motörhead através do Sepultura, com a clássica regravação de "Orgasmatron", depois fui ouvindo uma coisa aqui outra ali e sempre gostando do que ouvia mas nunca tomando vergonha na cara para ter alguma coisa dos caras. Ouvia a boa "Hellraiser" da trilha da terceira sequência da franquia, a versão deles pra "Enter Sandman" do Metallica , e há pouco tempo um colega do trabalho me trouxe uns arquivos pra gravar no MP3 e me apresentou uma versão ao vivo de "Ace of Spades". Nossa! Aquilo me enlouqueceu. Era o que eu precisava pra tomar uma atitude. Tinha lido a respeito no "1001 Discos para Ouvir Antes de Morrer" , havia ficado curioso, mas agora conhecendo-a eu tinha que ter aquilo em casa. Dia desses numa loja dessas de CD's usados me deparo com o dito álbum, "Ace of Spades", novinho, na embalagem, por 20 pratas. Putz! "Só se for agora!".
Ouvi no dia seguinte no carro indo para o trabalho...
Cara... Quase derreti os alto-falantes.
O carro chegou em casa fumaçando.
O Motörhead que tem a fama de ser a banda mais barulhenta e mais rápida do mundo, justifica areputação com um incesante e imponente troar de guitarras, ritmos incontrolavelmente acelerados e levadas verdadeiramente alucinantes, tudo isso conduzido pela voz rouca e cavernosa do deus Lemmy Kilmister.
"Shoot You In the Back" com sua levada galopante é um tiro à queima-roupa; a rápida "Bite the Bullet" chega e põe tudo abaixo; "Love me Like a Reptile" é simlesmente arrasadora; "The Hammer", uma das melhores, é uma marretada hardcore; e a faixa-título, "Ace of Spades" tem possivelmente o riff mais destruidor, matador, detonante já produzido por um ser humano. Humano? Mas quem disse que Lemmy é humano?
Disco foda!
Referência do metal e indubitavelmente, álbum fundamental.
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FAIXAS:
1.. "Ace of Spades" – 2:49
2.. "Love Me Like a Reptile" – 3:23
3.. "Shoot You in the Back" – 2:39
4.. "Live to Win" – 3:37
5.. "Fast and Loose" – 3:23
6.. "(We Are) The Road Crew" – 3:12
7.. "Fire Fire" – 2:44
8.. "Jailbait" – 3:33
9.. "Dance" – 2:38
10.. "Bite the Bullet" – 1:38
11.. "The Chase Is Better Than the Catch" – 4:18
12.. "The Hammer" – 2:48

todas as faixas: Clarke, Kilmister, Taylor

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Ouça:
Motörhead - Ace of Spades



Cly Reis

Berinjela Beligerante