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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

cotidianas #142 - "Porque é Proibido Pisar na Grama"


Acordei com uma vontade de saber como eu ia
E como ia meu mundo
Descobri que além de ser um anjo eu tenho cinco inimigos
Preciso de uma casa para minha velhice
Porém preciso de dinheiro pra fazer investimentos
Preciso às vezes ser durão
Pois eu sou muito sentimental meu amor
Preciso falar com alguém que precise de alguém
Prá falar também
Preciso mandar um cartão postal para o exterior
Prá meu amigo Big Joney
Preciso falar com aquela menina de rosa
Pois preciso de inspiração
Preciso ver uma vitória do meu time
Se for possível vê-lo campeão
Preciso ter fé em Deus
E me cuidar e olhar minha família
Preciso de carinho, pois eu quero ser compreendido
Preciso saber que dia e hora ela passa por aqui
E se ela ainda gosta de mim


Preciso saber urgentemente
Porque é proibido pisar na grama

*******************************
Jorge Ben
(do álbum “Negro é Lindo”, de 1971)


vídeo de "Porque é proibido pisar na grama" de Jorge Ben
Ouça:
Jorge Ben - "Porque é proibido pisar na grama"


postado por Daniel Rodrigues

A volta de Jorge BEN

Soube apenas a poucos dias e gostaria de compartilhar com os amigos que como eu não tivessem a informação ainda, que Jorge Benjor deve regravar seu místico e clássico álbum "A Tábua de Esmeralda"  na íntegra este ano em comemoração aos 38 anos da obra. Recém iniciado em obras de alquimia e interessado em assuntos astrológicos, Jorge, naquele 1974, coloria seu álbum de citações, referências, ou mesmo letras inteiras sobre estes temas, embalados por seu singular violão e com o acréscimo de arranjos precisos e belíssimos.
Jorge avisou que pretende chamar para a regravação o máximo possível de pessoas que trabalharam com ele na  composição original, com exceção aos falecidos, por motivos óbvios, mas que o fato de ser nostálgico não fará com algumas canções tenham releituras bem diferentes das versões originais, até por uma questão de época, de recursos tecnológicos, de estúdio ou mesmo por uma nova visão da canção distanciada da época de seu lançamento.
Parece que o Jorge Benjor que vem cantando "A Banda do Zé Pretinho" há mais de trinta anos e que de vez em quando cria um refrãozinho pegajoso só pra levantar a galera nos shows, vai sair de cena um pouquinho e   dar espaço para o velho Jorge Ben, aquele da pegada se violão, do swing, do verdadeiro samba-rock. (Seria tão bom se o Jorge Ben ficasse de vez)
Aguardemos o que vai sair disso. Tenho boas expectativas.
Salve Jorge!




C.R.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Oscar 2012 - Vencedores


E o Oscar foi para...

Surpreendeu-me que a Academia de Artes Cinematográficas de Hollywood passasse por cima de alguns preconceitos e superasse seu tradicional conservadorismo e dando o prêmio principal para um filme mudo, francês e preto-e-branco. "O Artista", de Michel Hazanavicius, até era o favorito, mas particularmente não apostava que os velhos do Oscar tivessem essa ousadia em relação aos próprios conceitos. O filme francês levou o Oscar de melhor filme, e de quebra ainda os prêmios de direção, ator, trilha sonora e figurino. Não assisti ainda mas tenho muito boa expectativa. Parece que olhando para o passado a indústria cinematográfica americana projeta, quem sabe, coisas mais interessantes para o futuro num cenário que vinha se apresentando um tanto monótono nos últimos tempos.
Outro que ganhou as atenções da noite de premiação foi "A Invenção de Hugo Cabret", de um dos meus diretores favoritos, o americano Martin Scorcese, com seis estatuetas, mas que se concentraram mais nas categorias técnicas.
A barbada de atriz se confirmou com a vitória de Meryl Streep por "A Dama de Ferro" e o tão esperado Oscar brasileiro, que já estávamos nos contentando que fosse de música mesmo, acabou não vindo.
Confiram aí, abaixo, todos os ganhadores da noite do Oscar:



"O Artista", vencedor das principais categorias:
filme, direção e ator.
Melhor Filme
O Artista


Melhor Diretor
Michel Hazanavicius (O Artista)


Melhor Ator
Jean Dujardin (O Artista)


Melhor Atriz
Meryl Streep (A Dama de Ferro)


Melhor Ator Coadjuvante
Christopher Plummer (Toda Forma de Amor)


Melhor Atriz Coadjuvante
Octavia Spencer (Histórias Cruzadas)


Melhor Roteiro Original
Meia-Noite em Paris


Melhor Roteiro Adaptado
Os Descendentes


Melhor Trilha Sonora
O Artista


Melhor Canção
“Man or Muppet” (Os Muppets)


Melhor Filme Estrangeiro
A Separação (Irã)


Melhor Animação
Rango


Melhor Curta-metragem
The Shore


Melhor Curta (animação)
The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore


Melhor Fotografia
A Invenção de Hugo Cabret


Melhor Direção de Arte
A Invenção de Hugo Cabret


Melhor Figurino
O Artista


Melhor Maquiagem
A Dama de Ferro


Melhor Documentário (Longa)
Undefeated


Melhor Documentário (Curta)
Saving Face


Melhor Montagem
Millennium – Os Homens Que Não Amavam as Mulheres


Melhor Efeitos Visuais
A Invenção de Hugo Cabret


Melhor Efeitos Sonoros
A Invenção de Hugo Cabret


Melhor Edição de Som
A Invenção de Hugo Cabret



C.R.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Chuck Berry - "Chuck Berry is on Top" (1959)



"É difícil para mim falar de Chuck Berry
porque eu copiei todos os acordes
que ele já tocou."
Keith Richards


O que é que aquele negro estava fazendo ali pela segunda metade dos anos 50?
Negros faziam blues, mas aquilo não era blues.
Tinha pitadas, doses de música country, mas não era country, e, afinal de contas country era música pra caipiras brancos.
Tinha um balanço diferente, tinha um embalo impressionante.
Senhores, aquele homem tinha acabado de inventar uma coisa chamada rock'n roll!
Aquela mistura, aquele jeito de tocar, aquela guitarra singular, aqueles riffs, aquele novo ritmo de certa forma desagradava um pouco aos negros porque subvertia o blues; desagradava também aos brancos por ousar mexer com um ritmo característico deles; mas o mais importante é que muito mais gente aprovou, e adorou, e aderiu e, enfim, é por isso que estamos aqui, não é mesmo Chuck?
Embora seu primeiro disco, After School Session" de 1957, seja considerado uma espécie de marco-zero do rock, destaco aqui seu terceiro álbum, "Chuck Berry is on Top" de 1959, por trazer uma maior quantidade de seus grandes hits por metro quadrado entre os primeiros trabalhos de sua carreira: tem a alucinante "Maybelline"; a elétrica "Sweet Little Rock and Roller"; o riff matador de "Johnny B. Goode"; e a empolgante "Roll Over Beethoven"; sem falar em outras como "Around and Around", "Carol" ou "Jo Jo Gunne" por exemplo, igualmente excelentes mas não tão famosas quanto as clássicas.
Não, não é a toa Chuck Berry é considerado por muitos o Pai do Rock, e "Chuck Berry is on Top" está aqui para confirmar isso.

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FAIXAS:

  1. "Almost Grown" – 2:18
  2. "Carol" – 2:44
  3. "Maybellene" – 2:18
  4. "Sweet Little Rock & Roller" – 2:18
  5. "Anthony Boy" – 1:50
  6. "Johnny B. Goode" – 2:38
  7. "Little Queenie" – 2:40
  8. "Jo Jo Gunne" – 2:44
  9. "Roll Over Beethoven" – 2:20
  10. "Around and Around" – 2:20
  11. "Hey Pedro" – 1:54
  12. "Blues for Hawaiians" – 3:22

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Ouça:
Chuck Berry Is On Top


Cly Reis

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Tintas Azuis









Tinta Azul (1)

Tinta Azul (2)

Tinta Azul (3)
fotos: Cly Reis

cotidianas #141 - Y así...



Minha agenda é um rascunho de poemas inacabados
Meus dias são escritos em linhas tortas
Onde Deus não incide
Dias de um calendário que já não está mais aqui
Onde fui parar?
Que endereços são estes que me esqueci de onde ficam?
Perdi-me
Horas, dias que não são mais eu
Não mais sou
(Não mais sou?)


arte: Daniel Rodrigues
Frases que não querem se concluir
Poesias que se prendem ao papel
E nunca, nunca, jamais!, tomar vida
As folhas são sua casa
E, fechadas, no calor das páginas unidas, podem se eternizar naquilo que nunca foram


Outras dessas, porém
drummoniamente
Se libertam
descolaram-se
Ilíadas temerosas
Ansiosas para serem invadidas de sentido
E que, hoje, olham para o ventre de onde saíram e quase não se reconhecem
“Eu fui eu?”, perguntam-se com espanto
É de se espantar


Meses repetitivos, que não mais se repetem
Me angustia, mais do que tudo, não compreender palavras que eu mesmo escrevi
O que contém ali?
Quem eu era naquela hora, ali, quando a caneta feriu o papel?
Anagramas, hieróglifos, traços, borrões, desenhos de eus
Quase letras


Nomes irreconhecíveis
Lugares sem destino
Tarefas cumpridas ou não
Coisas inconclusas
Leio:
“Cata-vento”
“Andrea”
“Caixa forte”
“Pobreza”
“431”
“Noves fora”
e não identifico nada disso aqui dentro
Não lembro do que eu sou-fui neste passado de presentes
Folheio e folheio e não me encontro
Onde fui?


Caibo ainda?

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

cotidianas #140 - Táxi


Luan entra no táxi.
Reconhece o mesmo taxista de alguns dias atrás, quando pegou o mesmo táxi no mesmo lugar.
TAXISTA: Tu já é de casa, irmão. Se incomoda que eu fume?
LUAN: Não, tudo bem...
Minha irmã liga pela segunda vez enquanto estou no táxi.
TAXISTA: Bá, mas pode dizer para a tua irmã que ela é um pé no saco, hein?
LUAN: É que é ela que vai pagar a corrida e tal...
TAXISTA: Pensando melhor, acho bom não falar nada, não. Diz que a corrida foi 100 reais. Dividimos meio a meio.
Ri feito louco.
LUAN: Por 100 reais, eu ia caminhando encontrá-la!
(...)
TAXISTA: Esse carro tá uma porcaria. Tá vendo esse vidro? Não fecha! Mas quer saber? Vou fechá-lo à força!
E começa a bater no vidro feito louco.
LUAN: E como tu vai fazer para abrir?
TAXISTA: Penso nos detalhes depois.
Ri feito louco, mais uma vez.
Às vezes, acho que um piadista se mete a escrever minha vida. Só pode!


de Luan Pires

Berinjela Beligerante

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Little Richard - "Here's Little Richard" (1957)


"... é uma das primeiras
 capas que berram"
Hervé Bourhis, autor de
"O Pequeno Livro do Rock"



Esse foi o cara que ensinou o rock'n roll a rasgar a voz.
Não que tenha sido sua única contribuição - não mesmo - mas come certeza caras como Kurt Cobain Max Cavalera, John Lydon e tantos outros muitos devem um pouco da fúria no jeito de cantar a Richard Waye Pennyman, mais conhecido Little Richard.
Seu disco de estreia, "Here's Little Richard" de 1957, é uma daquelas cartilhas do rock'n roll: doses perfeitas de fúria, malícia, perversão e ousadia.
E aquela batida insistente?
E aquele piano alucinado?
E aquele ritmo ensandecido?
A clássica "Tutti Frutti" é um exemplo perfeito destas interpretações enlouquecidas de Richard, acompanhada de uma base agressiva e acelerada de piano. A canção foi regravada por Elvis Presley mas a versão de Richard no fim das contas, se formos falar em força, é bem mais potente que a do Rei; "She's Got It" é outra com vocal selvagem e gritado; "Rip It Up" vai na mesma linha com força, poder e embalo; tem a baladinha gospel "Can't Believe You Wanna Leave" e "Oh Why?" mais cadenciada, ambas muito legais, mas o bom mesmo é quando o piano da Rainha Diaba pega fogo e sua garganta se abre em urros agudos e ensurdecedores como em "Long Tall Sally" ou em "Jenny Jenny".
Ah, cara, isso é rock'n roll!!!
"A-woop-bop-a-loo-bop-a-loo-bam-boom"

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FAIXAS:
  1. "Tutti Frutti" (Richard Penniman, Dorothy LaBostrie, Joe Lubin) – 2:25
  2. "True Fine Mama" (Penniman) – 2:43
  3. "Can't Believe You Wanna Leave" (Lloyd Price) – 2:28
  4. "Ready Teddy" (Robert Blackwell, John Marascalco) – 2:09
  5. "Baby" (Penniman) – 2:06
  6. "Slippin' and Slidin' (Peepin' and Hidin')" (Penniman, Eddie Bocage, Albert Collins, James Smith) – 2:42
  7. "Long Tall Sally" (Enotris Johnson, Blackwell, Penniman) – 2:10
  8. "Miss Ann" (Penniman, Johnson) – 2:17
  9. "Oh Why?" (Winfield Scott) – 2:09
  10. "Rip It Up" (Blackwell, Marascalco) – 2:23
  11. "Jenny, Jenny" (Johnson, Penniman) –2:04
  12. "She's Got It" (Marascalco, Penniman) –2:26
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Ouça:
Here's Little Richard



Cly Reis

cotidianas #139 - "Vai Passar"


Minha mãe sempre me chamou a atenção para a beleza da letra abaixo, da canção "Vai Passar" de Chico Buarque de Hollanda, que para ela é a que melhor representa este momento de sensação de liberdade, de alegria coletiva, de extravasamento de um povo que toma porrada atrás de porrada, é sacaneado, é roubado pelas autoridades, é injustiçado, mas que durante um desfile de escola de samba se dá ao direito de mandar tudo pro espaço e a uma espécie de limpeza de alma.
Durante uma hora, uma hora e meia, que um pobre, um miserável, um morto de fome, pode por alguns instantes sentir-se um nobre, um nabado, um superior, ou o mínimo exigível, um igual e, naquele trajeto de um lado a outro da avenida, o cidadão comum, que engole sapos o ano inteiro pode chegar a tal ponto de embriaguez de alegria que consegue até mesmo exclamar inconsequentemente, "ai, que vida boa!".


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Vai passar nessa avenida um samba popular
Cada paralelepípedo da velha cidade essa noite vai se arrepiar
Ao lembrar que aqui passaram sambas imortais
Que aqui sangraram pelos nossos pés
Que aqui sambaram nossos ancestrais
Num tempo página infeliz da nossa história,
passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações
Dormia a nossa pátria mãe tão distraída
sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações
Seus filhos erravam cegos pelo continente,
levavam pedras feito penitentes
Erguendo estranhas catedrais
E um dia, afinal, tinham o direito a uma alegria fugaz
Uma ofegante epidemia que se chamava carnaval,
o carnaval, o carnaval
Vai passar, palmas pra ala dos barões famintos
O bloco dos napoleões retintos
e os pigmeus do boulevard
Meu Deus, vem olhar, vem ver de perto uma cidade a cantar
A evolução da liberdade até o dia clarear
Ai que vida boa, ô lerê,
ai que vida boa, ô lará
O estandarte do sanatório geral vai passar
Ai que vida boa, ô lerê,
ai que vida boa, ô lará
O estandarte do sanatório geral... vai passar


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"Vai Passar"
(Chico Buarque/ Francis Hime)


para Iara

Dylan aqui!



E o velho Bob Dylan  voltará a terras brasileiras em abril.
Boa!!!
Esse primeiro semestre tem mostrado boas surpresas no quesito atrações musicais.
Dylan vem ao país pela quinta oportunidade e desta vez fará 6 apresentações, duas em São Paulo, e uma para Brasília, Belo Horizonte, Porto Alegre e, ôba! outra na terra de São Sebastião.
Vou ver se vou ainda. Deve custar os olhos da cara ao quadrado. Ainda mais no Citibank Hall que não é um lugar muito popular aqui no Rio. Mas não se pode deixar de considerar que não é ninguém menos que BOB DYLAN. Mas enfim, decidirei depois. As datas no Brasil são as seguintes:


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shows  Bob Dylan  no Brasil:
Rio de Janeiro (Citibank Hall), dia 15 de abril de 2012
Brasília (Ginásio Nilson Nelson) , dia 17 de abril de 2012
Belo Horizonte (Chevrolet Hall), dia 19 de abril de 2012
São Paulo (Credicard Hall), dias 21 e 22 de abril de 2012
Porto Alegre (Pepsi On Stage) dia 24 de abril de 2012

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

cotidianas #138 - Chá da Tarde


"Marie no Jardim" - Kroyer, Peder Severin (1893)
A tarde estava amena. Uma leve brisa soprava carregando consigo um pouco do olor das flores que tinham acabado de desabrochar naquele início de primavera. O frio dos dias anteriores havia diminuído e a tarde fazia-se assaz aprazível, porquanto o sol ter também aparecido depois de alguns dias escondido atrás de espessas e ameaçadoras nuvens. Dado aquele especial favorecimento do clima, a oportunidade para alguma atividade ao ar livre, em contato com a natureza, fazia-se tentadora à maioria dos habitantes de La Gìnnete e naquela tarde, no pátio do castelo de Laurent, ao lado da estufa onde flores de cores e espécies diversas exibiam sua vividez primaveril, não foi diferente, e uma bela anfitriã, altiva, de porte elegante, gestos leves e maneiras nobres recebia um convidado especial para um chá.
- Causou-me certa estranheza vosso convite, Mademoiselle Marie.
- Ora, a que se deve tal espanto, Monsieur Fabien? Pois não nos temos especialmente em alta estima recíproca? – retrucou Mademoiselle Marie, empunhando elegantemente o bule e servindo um pouco de chá a ambos. - Açúcar?
- Sim, por favor. Dois cubos apenas. Mas... - tentando retomar o assunto - estando nós, cá a sós e tenho certeza de não necessitarmos simular personas ou encenar uma peça: bem sabemos que, há não muito, afirmar sermos apenas amigos seria no mínimo um eufemismo, e também é de nossa mútua ciência que o modo como se encerrou esta suposta ‘amizade’ não pode ser considerado dos mais satisfatórios e felizes, sobremaneira para mademoiselle... – encerrou a fala deixando propositalmente o pensamento em suspenso.
- É pretensiosa a afirmação, Monsieur. - saltou ela com um leve acento de surpresa na voz.
- Mas inverídica? – retrucou ele.
- Não – respondeu com segurança – Acredito que possa-se, sim, afirmar que saí, sim, deveras magoada de nossa pequena aventura, se podemos assim chamar. Mas é sinal de falta de inteligência ficar-se atrelado ao passado e, embora tenha-me deixado levar por vossos encantos outrora, para pacóvia creio não servir...
- Por certo que não – disse interrompendo-a.
- Assim sendo, este acontecido deve ficar relegado ao nosso esquecimento e enterrado em nosso passado. – falou como se orientasse a copeira de como servir a mesa.
- Está certa disso, Mademoiselle Marie? – fez sugerindo alguma desconfiança.
- Subestima-me, Monsieur. Deve tomar-me por alguma infanta que insiste em morrer de amores por quem não lhe quer. Não foi sem pretexto que vos convidei para este encontro informal. Com este singelo chá entre amigos, pretendo exatamente vos afiançar minha boa vontade e nova disposição. Suponho seja este gesto suficiente a demonstrar que não guardo por vós rancores quaisquer.
Monsieur Fabien iniciaria a dizer alguma coisa em resposta mas interrompeu-se de brusco por um pequeno engasgo.
- O que dissestes, Monsieur? Perdoai-me mas não vos compreendo muito bem.
O sufocamento parecia piorar e ele levava agora então a mão ao pescoço e arregalava os olhos fixando-a acusativamente.
- Ah, sim – disse ela com calma enquanto dava voltas com a colherinha em sua xícara – creio que já começa a fazer efeito – ao que ele arregalou mais ainda os olhos.
- Tomei a liberdade de acrescentar ao vosso chá uma substância que obtive com o alquimista. Disse-me ele ser assaz eficiente. Em pouco tempo enrijece a glote, logo depois obstrui as vias e em pouco tempo vosso sofrimento estará findo. Paciência, paciência. – troçou antes de beber mais um gole.
- Deveis estar vos perguntando como fi-lo se estou a beber tão animadamente meu delicioso chá. A propósito, quereis mais um pouco? Não, creio que não. – apressou-se em responder ela mesmo – Lembra do anel que mo destes, aquele com compartimento para veneno? Pois, sim: resolvi fazer bom uso dele e enquanto tratávamos de amenidades, despejei discretamente em vossa xícara. Espero que me perdoe. – concluiu ironicamente enquanto ele agora já despencava da cadeira e agarrava-se à toalha da mesa como se aquilo pudesse de alguma forma salvá-lo.
- Com efeito, tenho nosso caso sepulto no passado. E é verdade que não vos quero mais nem me importo consigo, contudo não podia permitir que pensásseis que sairíeis incólume depois de tamanha desfaçatez com minha pessoa. Lamento que tivesse que ser desta forma para aprender que assim não se age com dama como eu. – concluiu cruel.
Neste momento as últimas resistências de Monsieur Fabien finalmente se esgotavam e ele, sem vida, caía levando a toalha, toda a louça e prataria da mesa, com o que Mademoiselle Marie nem demonstrou incomodar-se. Apenas tratou de levantou-se, desviou para não pisar no corpo, olhou ainda para baixo mais uma vez como se enxergasse ali um excremento ou algo parecido e então chamou o criado:
- Naru. – chamou sem gritar e, quase do nada, logo apareceu um negro alto, retinto, espadaúdo, de olhar delicado porém decidido.
- Pois não.
O criado Naru viera das colônias e fora por ela retirado da escravidão e levado para serviços mais domésticos por, segundo mademoiselle Marie, ter aptidões superiores. Com ela Naru que já sabia ler, aprendeu piano, esgrima, equitação e sempre a surpreendia com novas habilidades. Atendia às lides da casa, do castelo, mas não raro era encarregado de Tarefas mais específicas, de maior exigência.
- Naru, limpa toda essa sujeira agora e depois livra-te disso à noite na ponte Saint Veniz.
- Sim, Senhora.
- Quando retornar, sobe aos meus aposentos pois tenho coisas a tratar consigo.
Deixou Naru às suas costas limpando os cacos de xícaras e maçarocas de doces espalhadas pelo chão e pôs-se a passear calmamente entre os canteiros. Aproximou-se de uma azaléia, aspirou seu perfume, fechou os olhos por um momento e logo pôs-se novamente a caminhar pelas vielas estreitas do jardim. Aquela era verdadeiramente uma bela tarde.



(para Marie)

Cly Reis

cotidianas #137 - Tarde da Noite, Rua Maudlin


(O inverno está chegando
O inverno apressa
Apressa
O inverno é tão longo
O inverno se move)


A última noite na rua Maudlin
Adeus casa, adeus escadas
Eu nasci aqui fui criado aqui e
... levei umas pauladas aqui


Amor à primeira vista
Pode parecer banal
Mas é verdade, você sabe
Eu poderia listar os detalhes de tudo o que você já vestiu
ou disse, ou como se encontrava naquele dia
E como passávamos a última noite na rua Maudlin, eu diria
"adeus casa - para sempre!"
Eu nunca consegui uma hora feliz por aqui


Onde o garoto mais feio do mundo
Se transformou no que você vê
Aqui estou eu – o mais feio dos homens


É a última noite na rua Maudlin
E eu te amo de verdade
Ah, eu te amo de verdade


Quando eu durmo com aquela sua foto emoldurada ao lado da cama
Oh, é infantil e é idiota,
Mas eu acho que é você no meu quarto
ao lado da cama (eu te disse que era idiota...)
E eu sei que tomei pílulas estranhas
Mas eu nunca quis te machucar
Ah, eu te amo de verdade Voltei tarde para casa uma noite
Todo mundo tinha ido dormir
Ninguém fica te esperando
Quando se tem dezesseis pontos envolta da cabeça


O último ônibus, eu perdi para a rua Maudlin
Então, ele me levou para casa na caminhonete
Queixando-se: "as mulheres só gostam de mim pela minha inteligência..." Não deixe sua lanterna lá atrás
Há cortes de energia à frente
Enquanto nos arrastávamos através do parque
Mas não, eu não posso roubar um par de jeans de um varal para você
Mas você... sem roupas ah, eu não poderia deixar de admirar
Eu - sem roupas? bom, uma nação se vira e segura o riso...
Estou com as malas prontas


Estou me mudando metade de uma vida desaparece hoje
Toda a escória se despede de mim
(secretamente me desejando longe)
Bom, logo vou estar longe...


Houve tempos difíceis na rua Maudlin
Quando eles te levaram num carro de polícia
Caro inspetor - você não sabe?
Você não se importa?
Você não sabe - sobre o Amor?


Sua avó morreu e sua mãe morreu na rua Maudlin
Sofrendo e envergonhadas sem nunca ter tido tempo para dizer
Aquelas coisas especiais
Eu peguei as chaves da rua Maudlin
Bom, são apenas tijolos e argamassa
E... eu te amo de verdade
Onde quer que você esteja
Onde quer que você esteja...

******************
"Late Night, Maudlin Street"
Morrissey


Ouça:
Morrissey - "Late Night, Maudlin Street"

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

cotidianas #136 - A jiboia sem assento


texto de Daniel Rodrigues
ilustrações Cly Reis
Tô com pena da jiboia!
E não é dessas penas de curió
Não! É pena pena mesmo, de dó
Afinal, olha só:


Primeiro, inventaram essa regra de que jiboia não tem mais assento
E agora: quando ela se esgana e bota pra comer a boia
Onde a tadinha, gorda como uma bola, vai se sentar?
Na hora de tudo aquilo processar, fica ela lá
Com a boia boiando lá dentro dela, como uma boia
E jiboiar, agora
Só deitada ou de pé
Sentada, nem se ela quiser




De qualquer forma,
vou lhe contar uma coisa:
mas que desconfortável é essa norma!


E pior: como se não bastasse esse episódio chato
Andam caçoando também do seu formato
Já tinham lhe roubado o assento
Até aí, vá lá!
Mas, agora, veio essa joia
de lhe apelidar
- só de “boia”...


Daí, não deu outra:
De cobra, dentuça e peçonhenta
Deram pra lhe taxar de mulher do boi
Dessas paradonas e virada em teta


Que desprestígio! Que calúnia com a jiboia!


Ela ficou, claro, mais jururu do que já era
E como não? Também pudera!






Há quem socorra, com pena, e lhe chame só de “boa”
(Que o Aurélio diz estar “na boa”)
Mas agora, com essa má-fama de vaca toura...
Tipo aquela que mastiga e mastiga capim
Ah, não tem jeito: é o seu fim!


Assim, sem assento,
deitada de pança pra cima
e, de tanto comer, quase morta
Só podia dar em chacota


Não tem mais jeito
Agora o estrago tá feito:
a cobra foi pro brejo!
Só lhe restou, coitada!, ter pejo.

Pelo bem da espécie: deixem a jiboia se assentar, ora bolas!
Ou alguém, senhor ou senhora,
têm outra ideia que leve assento?



(Para Leocádia.)

Body Count - "Body Count" (1992)


"A próxima canção é dedicada a alguns
amigos pessoais meus:
A L.A.P.D.
[Departamento de Polícia de Los Angeles]
A cada policial que já tenha tirado
vantagem de algum deles,
batido ou ferido
por terem cabelos compridos,
por ouvirem o tipo errado de música,
ou por terem a cor errada,
ainda que achassem que fosse motivo para fazê-lo,
Para cada um desses policiais de merda,
Eu gostaria de ter um destes porcos aqui neste estacionamento,
e dar um tiro na porra da cara dele."
"Out of Parking Lot",
introduçao de "Cop Killer"

Motivado em parte pelo incidente ocorrido com o taxista negro Rodney King*, espancado brutalmente por policiais em março de 1991, que acabaram originando os conflitos generalizados em Los Angeles em abril de '92 em virtude da absolvição dos envolvidos, o rapper Ice-T abandonava momentaneamente seu segmento habitual para se dedicar a um projeto musical envolvendo suas outras predileções como o metal, o punk-rock, o hardcore e outros gêneros mais viscerais. O resultado dessa aventura de um rapper/ator é um dos discos mais pesados, agressivos, violentos e destruidores que o rock já viu. Em "Body Count", disco de estreia que leva o mesmo nome de sua banda, Ice-T mira direto na discriminação racial, no abuso policial, nas drogas, na pobreza e sai varrendo tudo a tiros como se fosse uma poderosa metralhadora.
Ice-T é forte, é incisivo é agressivo a cada frase, a cada verso, e quando fala de preconceito racial, ao contrário de grupos como o Public Enemy que só olhava para a discriminação contra o negro, curiosamente trata de chamar a atenção para o racismo inverso também, como na sinistra "Momma's Gotta Die Tonight" na qual uma mãe se opõe a uma relação do filho negro com uma branca e tem um fim assustador.
Sinistra também é a sombria "Voodoo" sobre uma velha feiticeira de New Orleans; bem como a pervertida "Evil Dick" com sua letra sobre um 'pau demoníaco' que se apodera do seu dono, num metal cadenciado com um trecho mais rápido de bataria no qual Ice-T acompanha no vocal simulando uma trepada enlolouquecida. Já "The Winner Loses", a mais leve (sonoramente) do disco trata sobre a tristeza de jovens se perdendo nas drogas, num metal melódico muito bem construído e com uma performance show de bola do ótimo guitarrista de Ernie C.
Mas no geral, a pancadaria predomina e o tema do racismo quase sempre está presente: "KKK Bitch" por exemplo, como se não bastasse sua porradaria sonora que come solta, despertou a ira dos lares americanos, sobremaneira de brancos conservadores e direitistas enrustidos por sua letra extremamente agressiva, explícita e pesada ( "... conheci essa garota branca com um belo rabo, cabelo louro, olhos azuis, seios e coxas grandes (...) Ela fez selvagem comigo no banheiro nos camarins, chupou meu pau como a porra de um vácuo e disse: "Eu te amo, mas meu pai não curte, ele é um filha-da-puta de um graúdo da KKK"). "There Goes the Neighborhood" com seu riff poderoso é outra que aborda o tema de diferenças raciais questionando o por quê de um negro não poder ter uma banda de rock, numa esposta irônica às críticas ao fato dele, Ice-T, oriundo do rap, estar atacando em outro segmento; a aceleradíssima a violenta "Bowels of the Devil" não trata diretamente sobre o assunto mas relata a vida de um negro na penitenciária; e "Body Count Anthem", esta por sua vez quase sem letra (só repete as palavras Body Count e as iniciais BC), é outra pedrada sonora com as guitarras altas e estridentes soando como se fossem um alarme.
Praticamente todas as faixas são entremeadas por pequenas vinhetas que assim como as músicas, igualmente não poupam nada nem ninguém de agressividade e contundência. Numa destas pequenas faixas Ice-T dá estatísticas da comparação do número de negros na prisão com os que estão na faculdade; noutra delas ridiculariza a apresentadora de TV Oprah Winfrey; noutra coloca que o verdadeiro problema das letras de música pop, segundo ele, seria o medo de que as garotas brancas se apaixonem por rapazes negros; ou ainda como na faixa de abertura simula um diálogo entre um homem que pede ajuda a um policial e acaba levando chumbo, introduzindo então para a excelente e pesadíssima "Body Count's in the House" com seus ruídos de sirenes, tiros e perseguições de automóveis.
Mas o ápice do ódio anti-policial de Ice-T aparece mesmo em "Cop Killer", um petardo matador no qual o artista encarna na letra um matador justiceiro especialista em aniquilar homens da lei. A canção é um hardcore rápido com vocal furioso e rajadas de metralhadora substituindo os rolos de bateria a cada entrada do impiedoso refrão, "Cop killer, better you than me /Cop killer, fuck police brutality! /Cop killer, I know your family's grievin' ... fuck 'em! /Cop killer, but tonight we get even" ("Matador de tiras, antes você que eu/ Matador de tiras, foda-se a brutalidade policial! /Matador de tiras, eu sei que do luto da tua família... foda-se eles! /Matador de tiras, esta noite vamos acertar as contas").
A canção caiu como uma bomba nos Estados Unidos e provocou gritaria de todo lado. A polêmica foi tanta que a música que fazia parte da primeira versão do disco, acabou sendo retirada das prensagens posteriores do álbum por opção do próprio  Ice-T mesmo apoiado pela gravadora  para mantê-la se assim quisesse. O resultado de tanta celeuma foi que a música abou virando uma espécie de canção cult que todo mundo conhece, poucos tem em versão original e muitos procuram baixar para de alguma forma ter o tal objeto de tamanha ira na sociedade americana.
Nas edições seguintes do álbum, inclusive na brasileira, que já veio sem "Cop Killer", a banda substituiu a faixa proibida por outra também bem interessante chamada "Freedom of Speech" um rap com sampler de "Foxy Lady" de Jimmi Hendrix e participação especialíssima de Jello Biafra dos Dead Kennedy's.
"Body Count" é um dos discos mais porrada que eu conheço. Uma bomab da primeira à última. disco de tirar o fôlego. É porrada em sonoridade, porrada em letra, porrada em atitude, em contundência, em objetivo e em resultado. Um verdadeiro soco no estômago da família americana, um chute no saco dos racistas, um cuspe no meio da cara das autoridades e uma poderosa e barulhenta saraivada de balas na polícia de Los Angeles. Um os grandes discos dos anos 90 e por certo, pelo 'estrago' que fez, pela barulheira que causou, e mesmo pelas próprias qualidades musicais principalmente, um daqueles álbuns que podem ser considerados fundamentais na história do rock.

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Confrontos de Los Angeles em maio de 1992


FAIXAS:
  1. "Smoked Pork" — 0:46 (Ice-T)
  2. "Body Count's in the House" — 3:24 (Ice-T/Ernie C)
  3. "Now Sports" — 0:04 (Ice-T)
  4. "Body Count" — 5:17 (Ice-T/Ernie C)
  5. "A Statistic" — 0:06 (Ice-T)
  6. "Bowels of the Devil" — 3:43 (Ice-T/Ernie C)
  7. "The Real Problem" — 0:11 (Ice-T)
  8. "KKK Bitch" — 2:52 (Ice-T/Ernie C)
  9. "C Note" — 1:35 (Ernie C)
  10. "Voodoo" — 5:00 (Ice-T/Ernie C)
  11. "The Winner Loses" — 6:32 (Ernie C)
  12. "There Goes the Neighborhood" — 5:50 (Ice-T/Ernie C)
  13. "Oprah" — 0:06 (Ice-T)
  14. "Evil Dick" — 3:58 (Ice-T/Ernie C)
  15. "Body Count Anthem" — 2:46 (Ice-T/Ernie C)
  16. "Momma's Gotta Die Tonight" — 6:10 (Ice-T/Ernie C)
  17. "Out in the Parking Lot" — 0:30 (Ice-T)
  18. "Cop Killer" - 4:09 (Ice-T, Ernie C)
* "Freedom of  Speech" - 4:41 (Ice-T , Biafra, Hendrix)  - faixa que susbstituiu "Cop Killler" a partir da segunda tiragem


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Ouça:
Body Count Body Count (1992)





*Rodney King é um taxista negro que foi violentamente espancado pela polícia de Los Angeles que o havia detido sob a acusação de dirigir em alta velocidade na noite de 3 de março de 1991. O julgamento e absolvição dos agentes policiais envolvidos provocou os violentos tumultos de Los Angeles de 1992. A cena do espancamento, registrada em vídeo por uma testemunha, correu o mundo e causou indignação geral. A absolvição dos policiais, em 29 de abril de 1992, por um juri formado por dez brancos, um negro e um asiático, provocou uma das maiores ondas de violência da história da Califórnia. Foram três dias de confrontos, incêndios, saques, depredações e uma onda de crimes que causaram 58 mortes, deixaram mais de 2800 feridos, destruíram 3.100 estabelecimentos comerciais e causaram prejuízos estimados em mais de 1 bilhão de dólares. Mais tarde, após os distúrbios, em 17 de abril de 1993 por volta das 7 horas da manhã, num novo julgamento, foi tomada a decisão de condenação de dois agentes dos distúrbios de Los Angeles, e a absolvição de outros dois.
fonte: Wikipedia