fotos: Cly Reis
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
cotidianas #178 - Nota social
O poeta chega na estação.
O poeta desembarca.
O poeta toma um auto.
O poeta vai para o hotel.
E enquanto ele faz isso
como qualquer homem da terra,
uma ovação o persegue
feito vaia.
Bandeirolas
abrem alas.
Bandas de música. Foguetes.
Discursos. Povo de chapéu de palha.
Máquinas fotográficas assestadas.
Automóveis imóveis.
Bravos...
O poeta está melancólico.
Numa árvore do passeio público
(melhoramento da atual administração)
árvore gorda, prisioneira
de anúncios coloridos,
árvore banal, árvore que ninguém vê
canta uma cigarra.
Canta uma cigarra que ninguém ouve
um hino que ninguém aplaude.
Canta, no sol danado.
O poeta entra no elevador
o poeta sobe
o poeta fecha-se no quarto.
O poeta está melancólico.
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"Nota Social"
Carlos Drummond de Andrade
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
"Fahrenheit 451", HQ de Tim Hamilton, baseada na obra de Ray Bradbury - Globo Graphics (2012)
Acabei de ler há pouco a HQ "Fahrenheit 451", baseada no livro homônimo de Ray Bradbury e fiquei bastante bem impressionado. A adaptação do norte-americano Tim Hamilton é sombria, é forte, é inquietante, em grande parte, sim, pelo conteúdo original, de um futuro onde os livros são proibidos e queimados pelas autoridades, mas muito pela maneira como vê, como interpreta cada frase, cada cena descrita pelo escritor original. A obra em graphic novel é muito mais fiel que a adaptação cinematográfica de François Truffaut, muito mais poética e com mais ênfase direta nos livros especificamente, culminando naquele belíssimo final de biblioteca viva. A versão do desenhista, avalizada e prefaciada com láureas pelo próprio Ray Bradbury recém falecido no último mês de junho, centra-se mais no cerceamento da liberdade, nos aspectos sociológicos e no empobrecimento cultural humano, trazendo-nos um Montag perturbado e confuso, e principalmente por conta de seus quadrinhos escuros, indefinidos e diáfanos, compondo um quadro geral final que soa um tanto mais pessimista.Vale conferir!
Mais uma grande obra da literatura adaptada com brilho e competência para os quadrinhos. Que continue assim!
Cly Reis
terça-feira, 11 de setembro de 2012
"Macanudismo - Quadrinhos, Desenhos e Pinturas" por Liniers - Caixa Cultural - Rio de Janeiro
Não participei das outras possibilidades da programação, como as mesas-redondas, ateliês e tal. Apenas passei meio na pressa, meio de passagem mas com tempo o suficiente para dar um boa conferida e uma apreciada na obra deste excelente artista.
Essa não adianta nem correr mais pra ir porque já foi.
Abaixo algumas imagens da exposição:
por Cly Reis
sábado, 8 de setembro de 2012
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
cotidianas #177 - Difícil de Explicar
As mulheres resolveram se reunir para comemorar o aniversário de formatura.
Conheciam-se havia, sei lá, 15, 16 anos e nunca tinham marcado nada juntas sem os maridos.
Marcaram uma reuniãozinha na casa de uma delas só pra fofocar, botar a conversa em dia e tomar umas que outras. Os maridos podiam, por que elas não, ora?
Lá pelas tantas da madrugada, uma delas, completamente bêbada, mal se aguentando em pé, resolveu que era hora de ir embora. Pegou o carro e pôs-se a dirigir a caminho de sua casa, Deus sabe lá como. Só que no meio do caminho, coisas de bêbado, deu aquela irresistível vontade de mijar. Não tinha como segurar. Um muro? Um pátio? Uma moita? Avistou então um cemitério. Ah, ia ser ali mesmo! Parou o carro próximo ao portão e ignorando até mesmo o sinistro do lugar, sem opção melhor e completamente sem noção pela bebedeira, decidiu fazer ali mesmo, dentro do cemitério.
Desceu do carro, foi-se cambalenado, tropeçando, caindo, esfolando os joelhos, até que não aguentando dar mais um passo subiu na tampa de uma sepultura qualquer, tirou a calcinha e se aliviou ali mesmo.
Ahhhh!!!
Acabando, e não encontrando nada com o que se limpar, pegou a primeira coisa que lhe estava ao alcance, uma fita de uma coroa de flores que estava em cima de um túmulo e a usou como papel higiênico. Levantou, esquecendo-se até mesmo da calcinha, e saiu meio cambaleante andando entre os túmulos até chegar ao carro. Depois disso nem sequer lembrava de como chegara em casa.
Ahhhh!!!
Acabando, e não encontrando nada com o que se limpar, pegou a primeira coisa que lhe estava ao alcance, uma fita de uma coroa de flores que estava em cima de um túmulo e a usou como papel higiênico. Levantou, esquecendo-se até mesmo da calcinha, e saiu meio cambaleante andando entre os túmulos até chegar ao carro. Depois disso nem sequer lembrava de como chegara em casa.
No dia seguinte acordou com uma tremenda ressaca. Não lembrava de praticamente nada da noite anterior. Só recordava de ter saído da casa da amiga e depois, puff! Tudo sumia da sua memória.
Encontrou o marido na cozinha, tomando café e ao lhe dar bom dia, o viu transtornado com os olhos cheios d'água:
- Está tudo acabado entre nós. Tudo - disse o marido.
- Como assim? Mas... por que? Só por que eu saí com as minhas amigas uma única vez? Uma vezinha só! Você sai com seus amigos toda as semanas... - tentou argumentar a esposa.
- Amigas, é??? - retorquiu indignado - Amigas? Então como é que você me explica ter chagado em casa bêbada, de madrugada, com os joelhos todos lascados, sem calcinha e com uma fita presa na bunda com a inscrição: "Jamais te esqueceremos: Vagner, Moisés, Elias e toda a turma da faculdade." ?
*****************************
É... Dífícil de explicar.
Encontrou o marido na cozinha, tomando café e ao lhe dar bom dia, o viu transtornado com os olhos cheios d'água:
- Está tudo acabado entre nós. Tudo - disse o marido.
- Como assim? Mas... por que? Só por que eu saí com as minhas amigas uma única vez? Uma vezinha só! Você sai com seus amigos toda as semanas... - tentou argumentar a esposa.
- Amigas, é??? - retorquiu indignado - Amigas? Então como é que você me explica ter chagado em casa bêbada, de madrugada, com os joelhos todos lascados, sem calcinha e com uma fita presa na bunda com a inscrição: "Jamais te esqueceremos: Vagner, Moisés, Elias e toda a turma da faculdade." ?
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É... Dífícil de explicar.
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
Capital Inicial - "Capital Inicial" (1986)
"Porque pobre quando nasce com instinto assassino
Sabe o que vai ser quando crescer desde menino
Ladrão pra roubar, marginal pra matar
'Papai eu quero ser policial quando eu crescer' "
da letra de "Veraneio Vascaína
Um dos ilustres representantes do rock de Brasília e um dos tentáculos do Aborto Elétrico, embrião que também originou a Legião Urbana, o Capital Inicial em seu excelente disco de estreia fazia um pop altamente acessível e palatável sem, no entanto abrir mão da veia punk que o originara. Mesmo hits como “Música Urbana”, por trás de uma competente produção que lhe enfeitava com metais e com uma linha de teclado simpática e marcante, traziam a sombra do caos cotidiano e da indignação social característica do punk rock. “Fátima”, o outro grande sucesso do álbum, também um pop, porém um tanto mais grave, mais tensa, mais séria, com suas sugestões religiosas, filosóficas e pitadas de alfinetadas contra a ditadura numa letra de Renato Russo, interpretada com notável competência e intensidade por Dinho Ouro-Preto. Já “Psicopata”, outra de boa execução radiofônica, era um punk comportamental agressivo e sem concessões. Básico, rápido, violento e forte. Uma pedrada! Pedrada? Bomba mesmo era “Veraneio Vascaína”, punk até a alma sob todos os aspectos, em sonoridade, letra e atitude, responsável direta pela proibição peremptória e incondicional do álbum, numa letra pra lá de detonante na qual rotulam a polícia de “assassinos armados uniformizados”.
“Cavalheiros” é outra com características punk, pegada e acusativa; a acelerada “No Cinema”, embora tratando de um tema banal guarda sua dose de agressividade sonora; e a boa “Leve Despespero” pende mais para o lado do darkismo dos anos 80, mais cadenciada e com uma letra intimista e depressiva, mas nem tudo é ‘ferro-e-ferro’ e o álbum tem momentos mais leves como “Tudo Mal” e “Linhas Cruzadas”, que apesar de retratarem relações infelizes, dão um toque um pouco mais descontraído sonoramente.
É bom que se diga e não se esconda a verdade que as melhores letras deste primeiro disco do Capital, "Múasica Urbana", "Fátima" e "Veraneio Vascaína" eram de autoria de Renato Russo, frutos ainda do finado Aborto Elétrico, mas não é fato suficiente que deslustre o mérito desta competente banda que soube dar personalidade a estas canções, imprimindo sua marca e conferindo-lhes interpretações marcantes através de seu vocalista.
Outro dos ilustres representantes do rock de Brasília e dos grandes pilares do BRock dos anos 80. Que metade de década foi aquela que nos proporcionou entre 85 e 86 álbuns como "Cabeça Dinossauro", "Dois", "Vivendo e Não Aprendendo", "Revoluções por Minuto", "Nós Vamos Invadir Sua Praia" e este “Capital Inicial” de 1986!
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FAIXAS:
- "Música Urbana" 3:30 (Fê Lemos, Flávio Lemos, André Pretorius, Renato Russo)
- "No Cinema" 2:56 (Fê Lemos, Flávio Lemos, Loro Jones)
- "Psicopata" 2:49 (Fê Lemos, Flávio Lemos, Pedro Pimenta, Loro Jones)
- "Tudo Mal" 3:12 (Fê Lemos, Rogério Lopes de Souza, Loro Jones)
- "Sob Controle" 3:31 (Flávio Lemos, Dinho Ouro Preto, Loro Jones)
- "Veraneio Vascaína" 2:15 (Renato Russo, Flávio Lemos)
- "Gritos" 3:27 (Fê Lemos, Dinho Ouro Preto, Loro Jones, Guta)
- "Leve Desespero" 3:53 (Fê Lemos, Flávio Lemos, Dinho Ouro Preto, Loro Jones)
- "Linhas Cruzadas" 3:36 (Fê Lemos, Flávio Lemos, Dinho Ouro Preto, Loro Jones)
- "Cavalheiros" 3:25 (Fê Lemos, Flávio Lemos, Dinho Ouro Preto)
- "Fátima" 3:49 (Renato Russo, Flávio Lemos)
***********************************
Ouça:
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
cotidianas #176 - Pano Torcido
![]() |
"Trama Sangrada" -
Rodrigues, Daniel
|
Chegou em casa pelas seis e quarenta e cinco da tarde, como regularmente
chegava todos os dias. Entrou pelo portão frontal e passou pela primeira casa
em direção à sua, nos fundos. No estreito corredor lateral, nem percebeu o
cumprimento de dona Eulália, a vizinha idosa, boa gente e muito carente, que
logo, logo ia se recolher. Ela, sem atenção dos parentes, o esperava naquela
hora todos os dias para dar um simples “boa noite”. Mas aquele dia não era “todos
os dias” para ele: era um dia diferente. Era o dia em que, finalmente, acabaria
com aquela agonia.
A porta de madeira envelhecida e de pintura gasta estava entreaberta
como sempre. Empurrou-a com a palma e entrou. A mulher, como de costume àquela
hora, estava na pia, lavando louça. Ela não tirou os olhos da água, mas
obviamente percebeu a chegada do marido, já tão corriqueira e banal que não
merecia o esforço de um “oi”. Mas ele, ao invés de entrar e ir direto em
direção da térmica na mesinha para servir seu cafezinho tradicional, parou logo
depois da porta a olhar para a mulher. De pé, com o macacão sujo de graxa, mas
com as mãos limpíssimas e fedidas de querosene. Largou cuidadosamente a maleta
de ferramentas ao lado da pia e continuou ali parado, fitando-a com um olhar curioso
mas ao mesmo tempo desamparado e doentio. Não deu muito tempo e ela, notando-lhe
a falta de reação, parou a lavagem impaciente:
- Qué qui foi, hôme?! – rosnou-lhe. – Vai ficá aí parado
feito jerivá? Não me diz que tu já tá com aqueles piri-paque de novo?
- Qui piri-paque qui nada, mulhé! Joga essa boca pra lá! –
desviando o até então fixo olhar.
- Olha, Jair, eu já te falei qui se tu não cuidá dessa
pressão eu também não te cuido. Vai morrê tendo um tréco na minha frente
sozinho qui eu não vô nem te acudí!
- Não é pressão, Nilza. Pára de falá berstêra!
- Hum... se eu não te conheço – falou desconfiada, mirando-o
com a testa franzida e voltando-se de novo para a louça.
Calaram-se novamente. Ouvia-se apenas o latido insistente do
Bóbi vindo do pátio, que não parava desde que ele chegou. Os latidos o
incomodavam, mas, por outro lado, ele estava comemorando no seu íntimo pela
reação da mulher. Não pela grosseria, com a qual já estava acostumado, afinal
quem iria dar valor para um homem fraco, doente, sem instrução e que “mal
consegue botar arroz e feijão dentro de casa”? Ninguém, nem mesmo ele. Tinha
consciência de que era um fracassado (afinal, não era assim que seu pai lhe chamou
a vida toda enquanto esteve vivo: “fracassado”?). A comemoração era, sim, por ela
ter creditado que o seu comportamento diferente se devia à saúde. Que bom, pois
isso a despistava. A não-desconfiança da mulher (sempre muito atenta a todos os
movimentos dele, como se sempre antevisse o que ele ia fazer ou dizer), assim,
era menos um obstáculo para o que tinha em mente. Maria Cristina não voltaria,
porque tinha ido dormir numa amiga. Só faltava agora dona Eulália se recolher,
o que fazia todos os dias pontualmente às sete da noite, bem cedo, coisa de
velha. Mas ainda faltavam alguns minutos, e aquela postura estática era porque ele
estava uma pilha de nervos. Soava frio debaixo do macacão, meio inebriado, tão
nervoso que seus movimentos pareciam congelados, pois ainda permanecia de pé no
mesmo lugar de quando chegou. Como um jerivá plantado ali há séculos.
Ainda atida aos pratos, ela observou-o de canto, mais com a
sobrancelha do que com o olho, e soltou:
- Teu irmão Oswaldir que teve aqui mais cedo...
Silêncio dos dois. Dela, de expectativa pelo o que ele iria
falar, e dele, de total incômodo com o fato. Tanto desacomodou que o fez sair
daquela inércia e, finalmente, dar passos em direção à mesa da cozinha. Bóbi,
lá fora, seguia latindo. Parou de novo ali, em pé. Virou a cabeça e observou
pela basculante acima da pia a casa da frente: dona Eulália já tinha fechado a
janela. A luz ainda estava acesa, mas já havia fechado a janela. Bom sinal;
sinal de que em minutos poderia entrar em ação e acabar com aquela humilhação,
com aquela sem-vergonhice de uma vez por todas. Meu Deus, pensava, era muito
rebaixamento para um homem. Se ainda fosse com um outro... mas... o próprio
irmão! E dentro da sua casa! Que descaramento! O que dona Leni (“que-Deus-a-tenha”),
ia pensar daquilo? Seria muita tristeza para uma mãe, pensava, ainda mais para
ela, que teve a vida tão sofrida.
Ele entendia o porquê das risadinhas e piadas maliciosas dos
colegas e até de clientes na oficina. Claro que entendia! Mas fazia-se de tonto,
o que, porém, não diminuía sua dor. Não conseguia nem pensar nos dois na cama
se tocando, se alisando, se beijando, babando um no outro... Dava-lhe náusea, e
a pressão, que andava cada dia pior, subia nas alturas. Mas naquele dia ele
controlou a pressão com o remédio e segurou a ansiedade o dia todo, concentrado,
como um assassino frio e calculista. Agora, no entanto, seu estado nervoso lhe
traía. Suava feito um porco testa abaixo, costela abaixo.
- Esse cachorro não pára de latí... – disse ele baixinho num
tom assutado, como se tivesse sido descoberto pelo cão.
- É esse cusco duz’inferno! – praguejou ela. – Um dia ainda
jogo esse bicho no mato.
Mexeu no bigode e não respondeu nada para não dar
prosseguimento no assunto, num medo idiota de que a mulher fosse traduzir o
latido em palavras.
- Vai ficá com esse macacão gosmento a noite toda, hein? E não
vai tomá o teu café? Recém passei.
Depois de uma pausa, retomou:
– Teu irmão trouxe umas coisa da feira, umas fruta, uns
verde. Tudo coisa boa, de qualidade.
- Já te disse que não gosto que ele fique trazendo coisa
aqui pra casa. Já te falei, não te falei? Ele não tem nada que ficá trazendo
coisa aqui pra casa. Essa não é a casa dele! Tu não é mulher dele, ora essa!...
Se ele não se arranja c’as mulhé por aí, problema dele. Não sei purquê tu continua
aceitando essas coisa?
- Mas e eu vô negá coisa boa? Quem ouve falá até parece que
tem condições de trazê coisa boa pra casa! Rá! Um inútil que trabalha, trabalha
e mal consegue botá arroz e fejão dentro de casa! Teu irmão, não. Ele sim sabe
o que é bom, sabe agradá as pessoa. Sabe agradá uma mulhé... – disse essa
última frase num tom mais baixo, mas suficiente para que o marido ouvisse. – Ah!
E os istudo da tua filha, nem preciso te dizê, né?, qui sô eu que pago com as
custura e com a pensão da mãe. Se fosse dependê de um molerão como tu, rá!, a
gente tava era muito rúim, isso sim.
Ele ouvia tudo quieto, mas cuspindo ódio pelos olhos. Pensava
consigo que ela iria engolir todo aquele desacato e desonra que o fazia passar.
Cada palavra, cada insulto. Ela e o cafajeste do seu irmão iriam ver. Era isso
todo dia! Já tinha passado dos limites. Voltou-lhe à mente, no entanto, a
imagem dos dois juntos. Imaginou-os agora suados deitados no chão da cozinha, em
frente ao fogão, nus, engordurados. Podia ter sido ali naquela tarde, debaixo
de onde estava pisando agora... que eles... que eles... Não! Não conseguia nem
dizer pra si mesmo. Não podia mais aguentar! Aflito, verificou se dona Eulália
já tinha se recolhido. Sim: janela fechada e luz apagada. Passavam alguns
minutos das sete, então ela já caíra no sono. A filha, igualmente, não voltaria
naquela noite, pois ele teve o cuidado de ligar-lhe mais cedo quando,
emocionado, quase deixou escapar um ”adeus”.
A caixa de ferramentas permanecia ao lado da pia, pois
estava tudo ali, no lugar certo, como planejou. Arquitetara tudo: primeiro, quando
a mulher estivesse de costas, dava-lhe uma pancada forte com o alicate de pressão,
pesado o suficiente. Em seguida, enchia-lhe a boca com buchas de estopa para
não ouvirem os gritos. Depois usaria os dedos para esgoelá-la e amolecê-la. Por
último, cravava no seu olho a chave de fenda mais comprida que tinha. Sabia que
ia espirrar muito sangue e que ela iria se debater até desvanecer, sabia disso.
Mas tinha visto num filme que, quando se perfura o globo ocular com
profundidade em direção ao osso occipital, se atinge o cérebro, e, aí: adeus.
Por isso mesmo não tirava o macacão, já ensopado de tanto suor. Aliás, esses
pensamentos faziam suas mãos tremerem. Seu corpo todo se tomava ao mesmo tempo
de cólera e medo. Chegara, enfim, a hora. Mas, de repente, a mulher se vira pra
ele:
- Qué isso, Jair?! Derramou todo o café na mesa que eu
acabei de limpá! Imporcalhô tudo! Tu só sabe fazê porcaria, hein? É tão
abestalhado que não sabe nem serví mais o teu próprio café?!
Absorto, ele nem notara que a canequinha de metal já se
enchera daquele café escuro feito breu.
- Limpa essa imundícia com esse pano de prato. Faz alguma
coisa útil – ralhou, entregando-lhe um esfregão úmido.
Ele segurou firme naquele pano com as duas mãos, amarrotando-o,
fazendo saltar ainda mais as veias azuladas e já sobressalentes de seus braços pálidos,
magros e morrudos. De repente, sua bochecha esquerda começou a tremer
involuntariamente. Seu ser inteiro era um misto de inquietação, vergonha, medo
e horror. Chegava a enjoar. Não sabia o que sentir. Mesmo jamais tendo sido um
homem violento, teria que ter coragem para isso. Vinha matutando há meses: não
podia falhar agora. Não podia mais bancar o fraco, como a mulher, a sogra e até
os outros lhe diziam. Precisava provar o contrário, mostrar do que o “fraco”
era capaz. Provar que era um homem. Mas não conseguia controlar os nervos. Mal
articulava um pensamento lógico. Várias imagens, vários sons se misturavam em
sua cabeça: o Bóbi latindo, dona Eulália cumprimentando, a mulher e o irmão
trepando, o som do pingo da água preta no balde. Uma confusão total. Mas, enfim,
tinha que se controlar, pois aquela era a hora: era tudo ou nada. Então, decidido,
chamou-a firme e com rispidez:
- Nilza!
Imediatamente ela se voltou e o mirou de cima a baixo com
espanto e descrédito, o mesmíssimo olhar desabonador que dedicava ao Bóbi
quando pedia comida.
- Qui é, hôme?!... Vâmo: fala!
Ele hesitou, hesitou e disse:
- Ééé... Não. Não é nada, Nilza. Não é nada.
- Iiiih, tu tá é muito isquisito hoje, isso sim. Toma o teu
café que eu logo te sirvo a janta e depois tu vai é te deitá. Amanhã é ôtro
dia, si Deus quisé.
Sem retrucar, ele baixou a cabeça, esfregou a mão melada de
café açucarado no pano de prato e sentou-se infantilmente e quase sem forças à
mesinha. Deu um gole do café, que lhe desceu tão amargo que nem parecia já conter
açúcar.
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
Exposição "Dalí - A Divina Comédia" - Centro Caixa Cultural - Rio de Janeiro
Visitei no último final de semana, antes que acabasse, a
exposição “Dalí – a Divina Comédia” com obras temáticas do artista surrealista
ilustrando a obra imortal de Dante Alighieri.
![]() |
Salvador Dalí,
mestre do surrealismo
|
Num conjunto de 100 pinturas, o artista catalão, retratou, na
sua visão bem peculiar, cada uma das etapas de “A Divina Comédia”, o “Inferno”,
o “Purgatório” e o “Paraíso”, em aquarelas com bicos de pena e xilogravuras no
seu traço característico distorcendo a percepção lógica de realidade. E quer
obra mais sugestiva que esta para este fim com todos os seus demônios, almas,
fogo, o sagrado, o profano, paisagens improváveis e sofrimento?
Combinação perfeita: Dalí / Dante!
Quem quiser conferir tem que correr, assim como eu fiz, pois
esta é a última semana.
Exposição “Dali – A Divina Comédia”
No Centro Cultural Caixa
Av. Almirante Barroso, 25,
Centro, Rio de Janeiro
até 02 de setembro de 2012
Entrada Franca
por Cly Reis
sábado, 25 de agosto de 2012
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
Ira! - "Vivendo e Não Aprendendo" (1986)
“O Edgard senta na mesa e diz assim: ‘Olha, não é nada disso, não tem
nada dessa história de rebeldia juvenil. Realmente é um preconceito contra a
invasão de nordestinos, era o que eu estava pensando na época e foi isso o que
eu quis dizer mesmo, eu não agüentava essa coisa de música baiana, de Caetano,
de Gil'. Na hora, esse foi mais um dos insights que eu tive. Puta que o pariu, defendi
durante anos essa letra, carreguei essa cruz. Agora, naquele dia, eu saí de lá
falando assim ‘eu nunca mais canto essa música.’ ”
Nasi, à Revista Trip em 2008
sobre a música “Pobre Paulista”
Um dos melhores discos do rock nacional.
Mais um daquela safra brilhante da metade da década de 80
que inclui o "Dois"
do Legião, o "Cabeça
Dinossauro" dos Titãs, o "Selvagem?"
dos Paralamas, o Capital Inicial com seu disco de mesmo nome, entre outros bons
que apareceram por ali.
“Vivendo e não
Aprendendo” do Ira! era a afirmação de uma banda que havia aparecido bem no
seu primeiro trabalho, “Mudança de Comportamento” de 1985, mas que então
ganhava o respeito definitivo de público e crítica. Mais do que isso, era a
afirmação Edgar Scandurra como o melhor guitarrista brasileiro dos últimos
tempos e com certeza o melhor daquela geração. Músico capaz de riffs agressivos como o da espetacular
“Dias de Luta”, melodias ternas como a da melancólica “Quinze Anos”, ou referenciais
como em “Envelheço na Cidade”.
Nas composições de Scandurra pela voz de Marcos Valadão,
conhecido como Nasi, o Ira! proporcionava com “Vivendo e não Aprendendo”, retratos
urbanos recheados de imagens, sentimento coletivo e realidade cotidiana. A
confusão da cidade, a violência, as multidões, as paixões e os desencontros na
ótima "Vitrine
Viva" com sua linha de baixo forte e matadora; a alienação, o dinheiro,
a indignação na punkzinha “Nas Ruas”; o preconceito pueril de Edgar Scandurra
em “Pobre Paulista (“não quero ver mais
essa gente feia / não quero ver mais os ignorantes / só quero ver gente da
minha terra / eu quero ver gente do meu sangue”); e o grito coletivo de desemprego,
fome poluição de “Gritos na Multidão” são exemplos perfeitos desse desenho
musical social proposto pelo Ira!.
No entanto, o grande sucesso do disco, muito devido ao fato
de fazer parte da trilha de uma novela, foi “Flores em Você”, canção de letra
curta, que nas mãos do produtor Liminha ganhou um belíssimo arranjo de cordas
que lhe conferiram toda uma grandiosidade e graça.
O Ira! nunca mais conseguiu produzir um álbum como este. Fez
uma coisa boa aqui, outra ali, os integrantes principais, Nasi e Edgar
envolveram-se em projetos paralelos interessantes mas o grupo nunca mais foi o
mesmo. A obra excessivamente diversificada, atirando em todas as direções, fez
com que nunca tivessem conseguido manter uma unidade de estilo ou de intenção e não
conquistassem um grande público de fãs como foram os casos de Legião, Titãs,
Capital. Talvez se tivessem se fixado um pouco mais em determinada linha, ou
principalmente, se tivessem feito coisas próximas a este “Vivendo e Não
Aprendendo”, tivessem se consolidado posteriormente e tivessem mantido o interesse do público por seu trabalho. Mas isso não é tudo e o Ira!, por mais que tenha sumido da grande mídia, sempre teve seu público fiel. O que importa é que certamente tratou-se de uma das grandes bandas do cenário nacional e que foi fundamental no alavancamento do rock brasileiro naquela metade de anos 80. Se teve seus erros, teve, mas teve seus acertos também, e que foram muitos.
Enfim... a vida é assim, é vivendo e aprendendo.
*****************************************
FAIXAS:
01. Envelheço Na Cidade 3:17
02. Casa De Papel 3:36
03. Dias De Luta 4:26
04. Tanto Quanto Eu 2:50
05. Vitrine Viva 2:20
06. Flores Em Você 1:54
07. Quinze Anos (Vivendo E Não Aprendendo) 2:40
08. Nas Ruas 4:17
09. Gritos Na Multidão 3:08
10. Pobre Paulista 4:57
02. Casa De Papel 3:36
03. Dias De Luta 4:26
04. Tanto Quanto Eu 2:50
05. Vitrine Viva 2:20
06. Flores Em Você 1:54
07. Quinze Anos (Vivendo E Não Aprendendo) 2:40
08. Nas Ruas 4:17
09. Gritos Na Multidão 3:08
10. Pobre Paulista 4:57
********************************************
Ouça:
quinta-feira, 23 de agosto de 2012
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
cotidianas #175 - Entalpia
100 miligramas
nem telefonema
uma injeção de ânimo
ou de Coca-Cola na veia
Sem telegrama
cirrose ou enfizema
uma oversose de aspirinas
Êxtase em minha consciência
Não há mais herois
Então quero minha heroína
Aonde está
Vem pra perto de mim
Mulher Maravilha-de-Jardim
Eu estou no éden
eu Estou no éter
Sou viciado em uma droga X
aminoácidos pra poder dormir
É o fim da picada
É o fim da picada
Viciado em N substancias
preciso de enzimas
Singapura
Anestesia
Eu entrei numas
Eu estou noutra
Mas só não consigo criar
Anti-corpos-teus
Cly Reis
domingo, 19 de agosto de 2012
sábado, 18 de agosto de 2012
Massive Attack - Mezzanine (1998)
"O Massive Attack nunca foi uma banda convencional."
Robert Del Naja
Conheci o Massive Attack com o clipe de “Teardrop” na MTV. Fã
que sou de Cocteau Twins, fiquei fascinado com aquela combinação da voz
angelical de Liz Fraser com a batida eletrônica sutil e a melodia delicada da
canção. Descobrindo que a música fazia parte do álbum “Mezzanine”, tratei de
comprá-lo o quanto antes. Para minha agradável surpresa, ouvindo o álbum,
chegava então à conclusão que a excelente “Teardrop” não era a melhor coisa que
aquele disco tinha. A começar por “Angel”, que abre o disco, com seu ar
misterioso, atmosfera árabe, vocal meio sussurrado, iniciando suavemente até
incendiar-se com uma furiosa e estrepitosa guitarra que dá corpo à canção da metade
para o final.
O disco todo é meio que mergulhado em climas orientais
arábicos e a ótima “Innertia Creeps” com sua percussão bacanérrima e a
faixa-título do álbum, “Mezzanine”, repetem esta característica de forma bem
marcante. Mas o disco é um festival de estilos, influências e colagens e dentro
disso, cores reggae aparecem sutilmente combinadas ao vocal hip-hop de
“Risingson”; mais fortes no baixo grave de “Dissolved Girl”, e mais evidentes
na condução da ótima “Man Next Door”, que conta com samples de The Cure e Led Zeppelin; já “Exchange”, esta com trecho sampleado de Isaac Hayes, é um
adorável cool jazz charmoso com a marca da sofisticação sonora do grupo.
Liz Fraser volta a aparecer em duas faixas, “Black Milk”,
canção lenta em que divide os vocais com um dos vocalistas do Massive, Rober
Del Naja; e na excelente “Group Four” uma espécie de pesadelo crescente,
intensa, forte, de vocal envolvente e enfeitiçante de tirar o fôlego. Para
recuperá-lo, antes de encerrar o disco, “(Exchange”) retorna só para dar aquele
último gostinho e aquela relaxada final para terminar com uma sensação gostosa.
Um ótimo disco de uma banda que sempre fez discos no mínimo
interessantes mas sofria constantemente com problemas internos. Na época do
“Mezzanine’ conta inclusive que os integrantes mal se falavam. Pode? Nem mesmo
sei como é que um grupo que brigava tanto conseguiu produzir pérolas como foram
especialmente o ótimo "Blue Lines" e este, também excelente, “Mezzanine”.
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FAIXAS:
- "Angel" - 6:18
- "Risingson" - 4:58
- "Teardrop" - 5:29
- "Inertia Creeps" - 5:56
- "Exchange" - 4:11
- "Dissolved Girl" - 6:07
- "Man Next Door" - 5:55
- "Black Milk" - 6:20
- "Mezzanine" - 5:54
- "Group Four" - 8:13
- "(Exchange)" - 4:08
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
cotidianas #174 - Dentro (II)
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| "Voz e Fera" - Rodrigues, Daniel grafite sobre sulfite com manipulação digital, 18x 16cm |
porque pegou no fundo
o dito não grato
que ao ouvido arde.
Vocifera e emudece
Acomoda na introspecção
Acolhe mas desespera
Quase contrito
e vai parar no mar dos olhos
semicerrados de água salgada
Agridoce gosto
sorriso sem dente
amarelo como vermelho-sangue.
Cala no peito calado, vivo
pois que grita mudo na boca.
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
"Maus - A História de um Sobrevivente", de Art Spiegelman - Cia. das Letras (2005)
Acabei de ler ontem a consagrada HQ agraciada ineditamente com um Prêmio Pulitzer, a excelente “Maus”, do jornalista e ilustrador Art Spiegelman, e comprovo que realmente ele justifica a condição de um dos maiores e mais importantes trabalhos em quadrinhos já publicados.
Spiegelman, filho de um judeu sobrevivente da segunda guerra, conta a saga do pai em esconderijos sub-humanos, vivendo de migalhas de comida, sob mira de metralhadoras e entre campos de concentração, misturando isso ao próprio processo de criação, à sua condição psicológica em relação à mãe, ao irmão que não conheceu, à própria obra e ao estado do pai, velho, ferido, esclerosado e cheio de reminiscências do Holocausto, que lhe relata toda essa dolorida história entre ranzinices e mesquinharias.
Poderia até passar por mais uma obra em quadrinhos qualquer não fossem alguns detalhes importantíssimos: a amarração perfeita, coerente e precisa da narrativa, o caráter documental de uma história verídica contada com implacável detalhamento e colocada de maneira absolutamente crua e chocante; a qualidade gráfica de Spiegelman e o retrato traçado por ele, desenhando os judeus como ratos, os alemães como gatos, americanos como cães, franceses como sapos, poloneses como porcos, assumindo assim já na concepção da obra um caráter crítico e pessoal, até bem discutível enquanto comparação étnica, mas inegavelmente dotado de admirável originalidade artística.
Publicado originalmente em duas partes, em 1986 e 1991, e lançado em versão integral no Brasil em 2005, "Maus" é a prova definitiva que as HQ's, assim como filmes, livros, entrevistas, etc. podem ser, sim, documentos históricos sérios e altamente qualificados e confiáveis. Certamente já se viu grandes filmes sobre Segunda Guerra Mundial, já se viu fotos marcantes, já se leu admiráveis ensaios e ralatos, mas nunca (ou poucas vezes) até então alguém havia feito uma obra em quadrinhos sobre o assunto com tamanha força, contundência, credibilidade e varacidade.
Obra de Art.
Cly Reis
terça-feira, 14 de agosto de 2012
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