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sexta-feira, 18 de maio de 2012

Coluna dEle #25




Ói, aê! È nóis!
Como é que ‘cês tão?
(Bom, ninguém melhor do que Eu pra saber como é que vocês estão.)
Deixa pra lá.
Aqui em cima tudo na Minha Santa Paz.
Finalmente ajustamos o sistema de clima que tava desregulado há meses e, tirando essa sequinha no Nordeste aí, uma tremidinha de terra no México, e alguma coisinha que outra, até que as coisas estão direitinho. Pedrinho deu um jeito no sistema de irrigação e aquelas enchentes deram uma parada (por enquanto).
Que Eu conserve assim!
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E aí no Brasil?
Tenho lido os jornais, acompanhado os noticiários.
É só essa coisa de Demóstenes, Cachoeira, Delta, Dadá... Até então o único Dadá que Eu conhecia até então era o Dadá Maravilha. Esse negócio já ta enchendo o saco. Toda dia tem novas revelações, uma conversa nova, aliás, conversa não, trecho da conversa. Não, nem trecho, uma frase. Ora, cacete! Não Me encham os colhões.
Façam o que tem que fazer e pronto, se é pra cassar o safado, caça; se é pra abrir CPI, abre, mas vamos botar uma noticiazinha nova, vamos. Por favor.
Pior é que aqui em cima, o pessoal andou contratando uma empresinha pra fazer uma reforma, gastou uma fortuna e agora o financeiro tá contestando as contas. Tô pensando seriamente em abrir uma CCI (ah, aqui a gente chama de Comissão Celestial de Inquérito).
Vamos ver se algum safado anda metendo a mão no Meu dinheiro. Conheço os caras que trabalham pra mim, confio neles ‘até ali’ mas não boto a mão no fogo por ninguém.
Tão pensando o que? Ninguém é santo aqui.
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Por falar em safados, vi que vão abrir a tal da Comissão da Verdade por aí, né?
Tem neguinho se cagando com isso, hein!
É, é muito bom fazer todas as barbaridades que Eu vi os caras fazendo e agora querer ficar tranqüilamente na sala comendo pipoca.
Se bem que pelo que sei é só pra SABER a verdade e não pra fazer justiça com ninguém.
Balela!
Não se preocupem, se não fizerem nada por aí, eu já tenho um lugarzinho resevado pra  todos lá no andar de baixo. Já combinei tudo com o Lu.
(ah, Lu, pra quem não sabe é o modo carinhoso como Eu chamo o Lúcifer. O Diabo, o Belzebu, o Coisa-Ruim. A gente diverge um pouco mas procura manter um boa relação. Na verdade ele trabalhava pra Mim, o problema foi que ele resolveu abrir o próprio negócio.
Eu não concordo muito com a política administrativa nme com os métodos dele, mas a gente procura se respeitar).
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Mas por falar em revelações, verdade, coisas expostas e tal, e essas agora de fotos vazando na Internet, vídeos e tudo mais! Que coisa, não? Não se tem mais sossego.
A propósito, andei vendo as fotos da tal da Carolina Dieckmann... Fui Eu que fiz mas não lembrava como era a menina. Não é das minhas obras-primas mas até que dá pra dar um talagaço ali. Só tem que dar uma aparada naquele matagal, mas fora isso o material não é de se jogar fora.
Mas falando sério: não se pode nem mais mandar o PC pro conserto, perder um celular, que um curioso mal-intencionado qualquer pega e espalha por aí. Eu mesmo esses dias fiquei todo borrado porque mandei o meu lap-god pra assistência técnica e depois é que eu lembrei que tinha um vídeo meu dançando pelado no banho. Foi o Filhão que gravou (esse guri!). Ele tava estreiando a câmera nova dEle e inventou de entrar no banheiro quando Eu tava tomando banho, aí, Eu, só de sacanagem, comecei a dançar um “Ai Se Eu Te Pego”. Salvei o arquivo no computador mas esqueci de apagar antes de levar pra consertar.
Ainda bem que o técnico não encontrou isso.
Imagina se cai na rede.
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Por falar em dançar, alguém aí sabe Me explicar o que que é 'Tchu, Tchá' e 'Tche-tche-tche-rê'?
Eu não tô entendendo bulhufas.
Vocês ainda vã Me enlouquecer.
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Bom, chega por hoje.
Tenho um Mundo inteiro de problemas pra resolver e não posso Me dar ao luxo de ficar aqui escrevendo em bloguezinho o dia todo.
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Se o safado do técnico encontrou o vídeo e publicar, por favor denunciem para
que eu dou um jeito nele e tiro a Internet do mundo inteiro do ar.

Valeu?
Fiquem Comigo e até a próxima.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Van Morrison - "Moondance" (1969)



"Não me encaixo nos padrões do showbiz, definitivamente"
Van Morrison



 Depois de um trabalho ‘difícil’, introspectivo, de vendagens baixas, um projeto conceitual quase acústico, como foi "Astral Weeks", o inquieto e criativo Van Morrison tirava da cartola outra obra-prima. “Moondance” de 1969, visitava o jazz, o soul, o blues, o folk, com beleza, sutileza e sofisticação. “Moondance” a canção que nomeia o disco é exemplo perfeito desse apuro sonoro, num jazz-rock charmoso cheio de metais e de interpretação impecável do cantor.
As baladas “Crazy Love” e “Brand New Day” são duas preciosidades, a primeira com uma bela linha gospel das backing vocals e a outra altamente sofisticada em sua composição misturando jazz, country e gospel de uma maneira incrível, com destaque para o trabalho de piano e para uma slide-guitar chorosa que conduz a canção.
“These Dreams of You” é bem blues; já “Into the Mystic” vai mais pelo lado regionalista, interiorano, explorando de certa forma uma veia folk no trabalho de Morrison; e “Caravan” destaca-se sobemaneira pela interpretação envolvida e intensa do cantor. “And It Stoned Me”, que lembra bandas fúnebres de New Orleans por causa dos metais, é absolutamente notável; a embalada “Come Running”, carregada no soul é espetacular; “Glad Tidings”, que também vai por essa linha black-music não faria feio pra nenhum James Brown; e o rock-barroco “Everyone” ainda é resquício do trabalho anterior de Morrison pela levada acústica e uso de flautas.
Se parecia que Van Morrison tinha chegado ao máximo com "Astral Weeks", “Moondance” estava lá, pelo menos para botar aquela duvidazinha na cabeça dos fãs e críticos.
Eu sou um que fico com essa dúvida? Qual o melhor, “Moondance” ou "Astral Weeks"?
Na dúvida, tenha os dois.

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FAIXAS:
1. "And It Stoned Me" — 4:30
2. "Moondance" — 4:35
3. "Crazy Love" — 2:34
4. "Caravan" — 4:57
5. "Into the Mystic" — 3:25
6. "Come Running" — 2:30
7. "These Dreams of You" — 3:50
8. "Brand New Day" — 5:09
9. "Everyone" — 3:31
10. "Glad Tidings" — 3:42

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Ouça:
Van Morrison Moondance


Cly Reis

terça-feira, 15 de maio de 2012

Camisa de Vênus - "Viva" (1986)


"Bota pra fudê!"




Ele é uma espécie de "Live at Leeds" brasileiro, um “Live at Apollo” tupiniquim, um “Janis in Concert” em Santos. Possivelmente seja o grande disco ao vivo nacional de todos os tempos. Sei que tem o “Sinal Fechado” do Chico, o “Barra 69” do Gil e do Caetano, o “Rádio Pirata Ao Vivo” do RPM, “O Tempo Não Pára” do Cazuza, mas nenhum deles tem essa energia contagiante, a integração com o público, a  anarquia do “Viva”do Camisa de Vênus.
Por um irônico acaso (será?), gravado no Dia Internacional da Mulher daquele 1986, o show é um festival de deselegâncias e baixaria conduzidos com uma irreverência e bom-humor tais por Marcelo Nova que ficaria impossível mesmo para a mais ferrenha das feministas ficar chateada com aqueles caras ali mandando bater com um pau numa mulher.
O discurso antes de tocarem a música “Sílvia”, lembrando da data comemorada, é o que melhor ilustra essa sacanagem constante no show: primeiro, Nova se defende da acusação de machista, elogia, tece loas, rasga seda pelas mulheres, e depois, ao final, como que cobrando pela gentileza, manda a mulherada abaixar as calcinhas. Dá pra levar a sério? Não dá. Tanto que o público, inclusive a parte feminina dele, responde ao refrão “Ô, Sílvia”, puxado por Nova, com o coro pejorativo de “piranha”.
“Bete Morreu”, um punk rock acelerado e pegado é outra que não poupa a mulherada com uma letra pesada e agressiva sobre o estupro e morte uma dondoca da sociedade. Por coisas como essa e pela série de palavrões desferidos desmedidamente é que as execuções públicas de praticamente todas as músicas do álbum foram proibidas, exceção feita a “Homem Forte” canção lenta, séria e cheia de dramaticidade, e à boa “Rotina”.
Mas mesmo que não fosse pelos temas fortes, pela malícia, pelo ar desafiador, pelo tom de protesto bastaria a letra de “My Way”, adaptação do clássico da música mundial outrora imortalizado na voz de Sinatra, para justificar o desejo da Censura de ter o Camisa de Vênus longe dos ouvidos do público. A versão em português criada por Marcelo Nova é um glorioso e fantástico festival de palavrões, sacanagem e putaria do início ao fim desfilado sobre uma melodia simples, compassada, com o público marcando a batida com palmas. Barbaridades como “caminhando de norte a sul eu vi muita gente tomar no cu” e “Eu me fodi mas resisti” são algumas das pérolas que podem ser encontradas nessa adaptação que por certo faz seus autores darem voltas nos respectivos túmulos até hoje.
“Hoje” e “Rotina”, a primeira mais punk que a outra, sonoramente falando, são como supõe os nomes, dois retratos da vida cotidiana, ambos expostos com a habitual acidez, sarcasmo e ironia da banda; e "Solução Final", com letra tipicamente punk, atirando pra todos os lados, desde Guerra Fria, Direitos Humanos até à Coca-Cola, é uma canção apenas interessante, nada mais que isso.
Apresentando uma letra interessantíssima e inteligente que passeia pela História atribuindo pensamentos conflitantes a personagens como Marx, Hitler, Jesus e Freud (“Freud sacou um dia que ele podia pirar”), “Metástase”, é uma daquelas do que se pode considerar a linha séria da banda, novamente com participação superbacana do público, acompanhando a batida forte e marcada com palmas e o tradicional ‘bota pra fudê”, grito que transformara-se numa espécie de marca registrada do Camisinha nos shows.
E com muitos “bota pra fudê” é que a banda é recebida na primeira faixa, na época o grande sucesso da banda, o punk irreverente “Eu Não Matei Joana D’Arc”, numa versão eletrizante, vibrante, pegada, com a galera praticamente dividindo os vocais com o vocalista Marcelo Nova e entoando o refrão num uníssono arrepiante.
O encerramento do álbum não podia ser mais adequado: “O Adventista”, a derradeira faixa, é um daqueles finais históricos. No que Marcelo Nova anunciava como sendo “O Hino da Nova República”, com letra de fino sarcasmo em que ‘se esforça’ em botar fé em diversas coisas não muito críveis, promissoras ou recomendáveis, chegando à conclusão pessimista de que tudo não tinha mais jeito mesmo, e tascando então, no finalzinho, um “Pai Nosso” alternando cada frase da oração com o refrão “não vai haver amor nesse mundo nunca mais” deixado a cargo do público. Êxtase total! Final apoteótico!
Este é outro daqueles casos clássicos em que é altamente recomendável que se tenha o formato LP. Embora o CD tenha faixas a mais, estas não são ao vivo. São simplesmente faixas bônus de estúdio, o que não paga o fato de perder uma das boas músicas do show, “Rotina” que curiosamente não aparece na mídia digital. Além disso, e não menos importante, a versão CD não tem o tal discurso machista no início de “Silvia” e muda a ordem das músicas, o que faz toda a diferença em determinados casos como a inversão da seqüência “Sílvia” com “Bete Morreu”; o fato de “My Way” no disco abrir o lado B; e a passagem de “Metástase” para “O Adventista” que no CD, nem sequer é a última das ao vivo. Ou seja, se tiver toca-discos em casa, vale a pena dar uma catada no LP por aí pelas feiras e brechós da vida.
Tipo de disco que dá vontade de ver a banda ao vivo. Sempre quis depois de ter ouvido o “Viva” mas pensei que tivesse perdido a oportunidade para sempre quando a banda anunciou sua primeira separação, porém anos depois, quando anunciaram uma reunião (caça-níqueis, diga-se de passagem) para shows, não desperdicei a chance. Assisti finalmente a um show dos caras no Auditório Araújo Vianna em Porto Alegre, pelo prazer de presenciar toda aquela vibração, curtir aquele punk irreverente, mas muito também pelo gosto de gritar, ali, ao vivo, junto com a galera “Ô, Sílvia piranha”, “não vai haver amor nessa porra nunca mais”, e claro, como não poderia deixar de ser, o “bota pra fudê”.
BOTA PRA FUDÊ, Camisa!
BOTA PRA FUDÊ!

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FAIXAS (ordem do LP):
 Lado A
1. "Eu Não Matei Joana D'Arc" (Gustavo Mullem / Marcelo Nova)
2. "Hoje" (Karl Hummel / Marcelo Nova)
3. "Homem Forte" (Karl Hummel / Marcelo Nova)
4. "Solução Final" (Karl Hummel / Marcelo Nova)
5. "Rotina" (Karl Hummel/ Gustavo Mullem / Marcelo Nova)


Lado B
1. "My Way" (Anka / François / Revaux / Thimbault / versão: Marcelo Nova)
2. "Bete Morreu" (Marcelo Nova / Robério Santana)
3. "Silvia" (Marcelo Nova / Robério Santana)
4. "Metástase" (Karl Hummel / Marcelo Nova)
5. "O Adventista" (Karl Hummel / Marcelo Nova) 

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Ouça:


O Frango Atirador


quarta-feira, 9 de maio de 2012

cotidianas #158 - Lua Cheia Nova




Lua lua
Inteira na esfera
Enevoa mas clareia
A noite escura


Lua lua
Astro-irmã do meio
Mancha o preto com a luz
que não é sua



sexta-feira, 4 de maio de 2012

The Cure- "Pornography" (1982)

"As críticas foram muito divididas,
não ia muita gente aos shows,
mas eu sentia que finalmente
havíamos feito um grande disco."
Robert Smith


Durante muito tempo este foi o disco da minha vida. Hoje em dia tenho que admitir que não é mais "O" disco da minha vida, conheci muitos outros, descobri coisas interessantíssimas de alta qualidade, alto valor técnico, histórico, referencial, etc., mas posso afirmar tranquilamente que ainda é "UM DOS" grandes álbuns da minha discoteca. Naquela época, metade dos anos 80 quando descobri o The Cure, auge da minha fase darkzinha, se tinha um disco traduzia precisamente todo aquele clima e atmosfera era certamente o "Pornography" do The Cure. Um disco denso, pesado, de letras mórbidas, sofridas, sombrias e negativas, muito centralizado nos trabalhos de bateria e com arranjos de guitarra marcantes e bem desenhados.
A pessimista "One Hundred Years" ("It doesn't matter if we all die") que abre o disco exemplifica bem isso: uma programação de bateria contínua muito bem desenvolvida com uma guitarra estridente e angustiante como que solando o tempo todo e teclados preenchendo os espaços sufocantemente. "One Hundred Yeras" parece sangrar.
Com uma batida tribal lenta e cansada, a bizarra, surreal e inquietante "Siamese Twins" traz outro trabalho de guitarra notável de Robert Smith em uma interpretação dolorida e agonizante.
'The Figurehead", outra das grandes do álbum tem por sua vez destaque para o baixo de Simon Gallup, numa condução firme, com uma melodia dura, acompanhando uma batida de tons militares de Tolhurst, numa canção que aborda o tema das drogas, tão presente no grupo naquele momento, e os efeitos de estar preso a elas ("I will never be clean again").
"Strange Day", talvez a mais leve do disco também traz outra performance legal de Gallup no baixo, com uma base que lembra muito a de "Charlotte Sometimes"; "A Short Term Effect" vem com uma 'confusão' de guitarras zunindo, dando rastantes, cortando o ar, quase sufocadas pelo som da beteria que parece querer estourar; a gélida "Cold" depois de iniciar com um violoncelo aterrador, explodir numa batida alta e poderosa, se transforma numa suplicante e sombria canção de amor ("Your name like ice into my heart"); e "Hanging Garden", o single do álbum, mostra o perfeito conjunto na proposta do projeto, desde a programação de bateria em rolos contínuos de Tolhurst, ao baixo seguro e preciso de Gallup, e na guitarra aguda e perturbadora de Robert Smith, completada por sua interpretação amedrontadora.
O Cure que sempre deu bons desfechos para seus discos, neste não fez diferente e, se não trata-se de uma grande canção, esta que é o título do álbum, "Pornography", sem dúvida alguma, no mínimo faz com que fiquemos com as sensações de inquietude e angústia vivas mesmo depois que a música barulhenta e claustrofóbica, cheia de ruídos e de diálogos de filmes incompletos e indecifráveis, é interrompida quase que abrupatamente terminando a audição. De deixar sem fôlego.
Certamente até hoje, um dos grandes discos da minha vida.

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FAIXAS:
  1. One Hundred Years
  2. A Short Term Effect
  3. The Hanging Garden
  4. Siamese Twins
  5. The Figurehead
  6. A Strange Day
  7. Cold
  8. Pornography
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Ouça:
The Cure Pornography



Cly Reis

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Aniversário de 30 anos do Club de Jazz Take Five - Porto Alegre - RS (18/04/2012)



Dona Ivone Pacheco solo ao piano
Deve haver algum mistério divinal guardado no nome Ivone que faz com que algumas delas, Ivones, sejam iluminadas. Só pode! Pois se não bastasse dona Ivone Lara, a sambista bachiana da MPB, eis que tenho a honra de conhecer e ver tocando a também dona Ivone, esta de sobrenome Pacheco, intitulada como a Diva do Jazz de Porto Alegre. As semelhanças entre as duas não se encerram aí: longevas (ambas ultrapassam as 80 primaveras), ainda são mestres na música e, acima de tudo, verdadeiras entidades, pessoas que ao se olhar se percebe que excedem este plano aqui, de nós mortais. Há uma espiritualidade que as eleva e que, justamente, conseguem transpor em arte.
Foi um pouco disso que vi durante o encontro do Club de Jazz Take Five no último dia 18 de abril, data em que o clube completou 30 anos. Promovido por d. Ivone, o Take Five teve início quando ela se juntou ao músico Marcos Ungareti (que, claro, estava lá na comemoração). Na época, as performances musicais de d. Ivone se restringiam às festas da família. Só depois de criar os filhos, cursar a faculdade de música e lecionar, Lady Ivone teve a ideia de fazer as jams sessions no porão de sua casa. Foi então que tudo começou.
Grupo tocando Hancock, um dos
pontos altos da noite
O ambiente é totalmente mágico, misto de clube de jazz nova-iorquino ou parisiense com loja de antiguidades. Um espetáculo. Diversos quadros, espelhos, capas de disco, móveis antigos, objetos, tecidos, pôsters que vão de Charlie Parker ao de Humphrey Bogart e, claro, o piano. Pouca luz; suficiente. Cheiro de magia no ar. Pessoas felizes que te sorriem sem saber quem tu és: o fazem só pela simples alegria de estar compartilhando aquilo ali seja com quem for. Tomado por essa atmosfera, escutei números de jazz tocados com muita emoção. Teve “Summertime”, “Hello, Dolly” e uma versão de “Ins’t She Lovely” do Stevie Wonder com a mesma banda que tocou uma outra que me tirou do chão: “Cantaloupe Island”, do Hancock. Uau!





"Summertime"

O pessoal do
rockabilly
Como funciona em rodízio de bandas/artistas, cada um vai lá ao palco e manda ver algumas músicas. Numa dessas trocas, um simpático trio de rockabilly se apresentou, tocando coisas bem legais, como “Summertime Blues” (Eddie Cochran) e “Can´t Help Falling In Love”, clássico imortalizado por Elvis Presley, em que todo mundo entoou o refrão.
D. Ivone e Ramiro Kersting tocando
"As Time Goes By"
Mas o melhor desta noite onírica não podia vir de uma pessoa: d. Ivone. Ao piano, ela, numa concentração astral, emanou com extrema delicadeza e sensibilidade peças emocionantes. Lembrava a fineza dos dedilhados de Paul Bley, Toshiko Akyioshi, Bill Evans, Sonny Clark. Mas antes de qualquer coisa era Ivone Pacheco. Como se não bastasse, juntou-se a ela o trompetista Ramiro Kersting, e ali se deu algo realmente mágico. Sem trocar uma palavra, mas em total sincronia, presentearam o público com pérolas como “As Time Goes By” e “When The Saints Go Marchin' In”, para ficar em dois ótimos exemplos.
Amante de jazz como sou, confesso que não sabia da existência de um grupo tão antigo na minha própria cidade e em plena atividade e, principalmente, do quão secreto é o evento. Entre as regras que regem o clube, como o caráter não-comercial e o fato de todos levarem sua própria bebida, o endereço é mantido em sigilo: só vai quem sabe ou se conhece alguém que já foi – situação na qual me enquadro. Um critério seletivo que todos respeitam e que só faz valorizar o clube, além de lhe dar ainda um charme especial.
Foi um momento de se respirar jazz, de se inalar a “música da alma”. De se sentir música. Saí de lá com uma certeza: na próxima encarnação, quererei vir Ivone.

Dona Ivone ao piano - comemoração dos 30 anos do Take Five


Um pouco mais sobre o Take Five
Take Five: casa que completa 
30 anos
Sexto Take: Eu, totalmente intergrado
na atmosfera do clube
Depois de pôr em funcionamento o Take Five, em 1982, Ivone Pacheco começou a se apresentar em bares e fazer shows em Porto Alegre, interior gaúcho e até em outros estados e fora do Brasil, tocando em ruas, metrôs e pubs. No início, as reuniões do Club de Jazz eram semanais. Nos anos 90, auge do Take Five, os encontros passaram a ser mensais, pois o local começou a lotar e perder um pouco sua essência. Ivone Pacheco sempre incentivou novos e conhecidos artistas a se apresentarem naquele espaço.Muitas bandas se formaram lá durante os encontros, que avançavam até as altas horas da madrugada. Já passaram pelo palco bandas como a Tradicional Jazz Band que, quando vinham se apresentar em Porto Alegre, faziam questão de tocar no "porão da Ivone". Hoje, as reuniões do Take Five são realizadas apenas em datas especiais quatro vezes por ano: o aniversário do clube, a noite de São João, a chegada da primavera e a festa de encerramento com o Natal.





fotos: Leocádia Costa

quarta-feira, 2 de maio de 2012

"Cópia Fiel", de Abbas Kiarostami (2010)



Será que só eu não gostei do “Cópia Fiel” do iraniano Abbas Kiarostami?
Não, não é querer ser do contra, estar na contramão das opiniões, ser polêmico, mas volta e meio me deparo com umas ‘unanimidades’ que, assim, ó... vou te falar: acho que o pessoal aplaude por decreto. Porque é do fulaninho, porque é cult, porque é referência.
Descasquei aqui no blog a porcaria do Tarantino, "À Prova de Morte"
 , fiz montes assim para o elogiadissimo "A Rede Social", bati de frente com os defensores do badaladíssimo "O Cisne Negro", isso só para falar de alguns, sendo que, em especial no caso destes três, Tarantino e Fincher são dos meus diretores preferidos dos últimos tempos. Ou seja, não trata-se de implicância, de preconceito, ignorância (acho que não). Só não tem babação para diretores que, temos que admitir, por mais valorosos e competentes que sejam também erram a mão.E não é que sou obrigado a avacalhar outro dos meus favoritos? Mesmo sendo diretor de algumas das melhores obras dos últimos 20 anos como “Gosto de Cereja” e “Vida e Nada Mais”, não posso me furtar a criticar o último filme de Abbas Kiarostami, que só tive a oportunidade de assistir agora, ‘Cópia Fiel”, sua primeira produção fora de seu país de origem. E olha que fui com grande expectativa.
Lamento, Abbas, lamento. Sei que isso não fará nenhuma diferença na sua vida, ainda mais considerando que crítica e público continuam a seu lado incondicionalmente, ao que parece independentemente do que faça, mas eu não quero ficar indiferente.
“Cópia Fiel” parte de um princípio interessantíssimo enquanto argumento: de que uma cópia pode ter tanto valor quanto um original. OK! Esse é o tema do livro do personagem James Miller que começa o filme defendendo a idéia diante de uma pequena platéia no lançamento do livro homônimo ao filme numa cidadezinha interiorana na Toscana. O desenvolvimento do conceito é bem sustentado em princípio pelo personagem do escritor porém mal conduzido numa discussão extremamente forçada e estereotipada, sobretudo no que diz respeito à personagem de Juliete Binoche, uma comerciante de antiquário. A conversa no carro embora notavelmente bem ambientada, com o reflexo da paisagem no vidro do carro ‘participando’ da ação, por exemplo, parece um esforço do diretor em nos apresentar dois lados sobre o assunto, porém sem paciência de que cheguemos às conclusões sobre os dois interlocutores. Por um lado está o escritor defendendo suas teorias, com simplicidade e sinceridade, é verdade, mas sendo excessivamente didático às vezes; e por outro uma mulher confusa, cética, infeliz. O papo tem algumas tiradas boas, perspicazes, engraçadas até, como a piada da Coca-Cola, mas mostra-se no fim das contas um grande exercício de apresentação de personalidades ao melhor estilo cinema francês, recheado de análises filosóficas pretensiosas.
Essa caracterização excessiva não seria o suficiente para derrubar o filme se não fosse a virada que ele dá a partir do momento em que o casal passa a encenar uma antiga relação marido e mulher, que em determinado momento chega a causar dúvida no expectador quanto à sua pré-existência ou não, mas que, com a devida atenção a alguns fatos anteriores do próprio filme, percebemos que nunca existiu. Pois é... o tal do faz-de-conta é inverossímil, é abrupto, é ‘grande’ demais no próprio contexto, ultrapassa o limite da própria tolerância humana de aceitar se desgastar em nome de um personagem, de defender um conceito, de abrir a mente, etc., ainda mais diante de um estranho. É certo que o envolvimento que começa a aparecer entre os dois estimula a farsa. Sim, é verdade, mas em havendo um interesse mútuo como foi acontecendo, tamanha exposição pessoal não justificariam as alterações de humor, o exercício de infelicidade, fraquezas e tantas outras fragilidades.
Devem pensar, “mas o cara ta pensando na trama de uma maneira muito rígida, muito linear, muito real“. É porque o universo ao qual somos levados pelo diretor é real. Ele e não tem nada de surreal, de fantástico, e no entanto, de repente, nos propõe a tal ponto abandonarmos a plausibilidade do seu filme e entregar-mo-nos à mesma ficção de seus personagens, fixando-nos apenas à frieza dos fatos, estes sim, inegavelmente crus e fortes.
Não! Posso estar sendo muito fechado, pragmático, realista mas não me caiu bem definitivamente o modelo de cinema adotado por Kiarostami desta vez. Pode ter acertado na locação, nos personagens, na idéia, no tema, mas na minha visão peca no produto final.
A seu favor, contudo, tenho a sinalizar a integração ambiente-personagens, sempre precisa, desde um porão de antiquário cheio de cópias de objetos de arte, passando por uma colunata de ciprestes, por becos estreitos, e chegando a um quarto de hotel, tudo dialogando de alguma forma com as naturezas pessoais ou com estados psicológicos correspondentes à cena ou à situação. Também o tema, sobre os relacionamentos, o casamento, as escolhas, que salvo o fato de propostos equivocadamente dentro do objeto filme, mostram-se na maior parte das vezes pertinentes e bem colocados. Não se pode deixar de elogiar a atuação de Juliette Binoche que com uma ótima interpretação supera até mesmo a primeira parte do próprio texto que faz questão de lhe autocarimbar na testa as alcunhas de ‘chata’, ‘estressada’, ‘intolerante’, ‘ciumenta’.
Li por aí que é obra-prima, melhor filme do diretor, melhor dos últimos tempos... Posso estar errado, nada invalida isso, mas sinceramente não compartilho dessas opiniões.
Kiarostami parece ter ocidentalizado rápido demais e seu filme tem muito de cinema francês logo na primeira incursão internacional do diretor. Chega a lembrar um pouco os Resnais, “Hiroshima, Meu Amor” com suas discussões e reminiscências e “Ano Passado em Marienbad” com seu desencontro amoroso de toques surreais, ambos com longas caminhadas acompanhadas de longas conversas existencialistas. Talvez tenha servido de inspiração. Talvez a intenção tenha sido mesmo copiar Resnais, copiar o cinema francês, o que só reforçaria o conceito do livro do personagem Miller e do próprio filme. Se fez parte da intenção do diretor, a meu juízo, terá sido o principal ponto a favor do seu filme, ainda que não possa-se usar a máxima defendida por ele neste caso de que a cópia supera o original.



Cly Reis

cotidianas #157 - "Open Your Eyes"


Videozinho do Snow Patrol que eu nem gosto muito mas que, devo admitir, o clipe é muito legal.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Lauryn Hill - "The Miseducation of Lauryn Hill" (1998)


A escola de Ms. Hill

"O hip hop encontra escrituras transformando o negativo numa coisa positiva”
Lauryn Hill

A década de 90 lançou um filme que entrou pra minha lista de melhores filmes de todos os tempos (não digo que é uma lista de 10 ou de 100, porque perdi a conta, mas engloba todo tipo de filme), o "Mudança de Hábito 2". Uma comédia musical que me chamou atenção pela qualidade dos cantores, pelo repertório e pelo conjunto da obra. Uma cantora em especial, Lauryn Hill, que já participava do grupo de hip hop Fugees, mas que para mim ainda era desconhecida, se tornou um objeto de desejo. Queria saber mais sobre ela, o que fazia, o que estaria por fazer, mas nessa época o acesso às informações musicais era difícil, afinal de contas a internet ainda não estava disponível para todos.
Em 98, Lauryn Hill (nascida em 25 de maio de 1975, na cidade de South Orange, New Jersey), lança o álbum "The Miseducation Of Lauryn Hill". Na primeira oportunidade adiquiri o disco e continuo ouvindo até hoje. O seu nome traduzido significa “A Deseducação de Lauryn Hill” e tem como capa uma xilogravura da cantora – uma referência ao disco "Burning", do The Waylers - numa mesa escolar. Este ambiente é o tema do álbum, usando como referência, logo em sua abertura na faixa "Intro", um sinal de entrada e uma lista de chamada. Ainda há interlúdios entre algumas faixas simulando o intervalo entre as aulas.
Na segunda faixa Ms. Hill abre com o rap "Lost Ones", uma batida sobre os perdidos, uma canção sobre a realidade. E é a partir da concepção de realidade que as músicas se sustentam ao longo do disco. Ela não se preocupa com o amor romântico de baladas superficiais, mas explora a vida como ela é, como na faixa 3. A música "Ex-Factor" é uma batida mais lenta, sobre as contradições e sofrimentos de um amor inacabado, assim como a música 8, que retoma o amor, porém não correspondido.
"To Zion", é uma homenagem à decisão de ter o seu primeiro filho, junto a Rohan Marley (filho de Bob Marley), já que a aconselharam a abortar para que não atrapalhasse o momento de sua carreira. Ainda bem que a decisão foi contrária, pois um dos maiores hits do disco é exatamente esse, que ainda contou com a participação de Carlos Santana.
Doo wop é um estilo musical que surgiu na comunidade negra dos EUA, baseado no R&B, com a particularidade de ter uma harmonia de vocais. Lauryn Hill escancara suas referências musicais nomeando a faixa 5 como "Doo Wop (That Thing)", recriando o estilo, utilizando os vocais pra falar sobre garotos e garotas, e sobre o que eles buscam. A resposta está no refrão: “Garotos é melhor vocês ficarem ligados... algumas garotas só estão atrás ‘daquilo’... Garotas é melhor vocês ficarem ligadas... alguns caras só estão atrás ‘daquilo’”. Da faixa "Doo Wop...", Lauryn viaja novamente pelo hip hop nas duas músicas seguintes, "Superstar" e "Final Hour".
Fica claro que as letras vão além de meras rimas e bons compassos. A ideologia por trás delas gira em torno da realidade vivida por adolescentes negros, de escolas negras, de bairros negros, como na música "Everything Is Everything". Nesta, ela exalta o poder de transformação do hip hop, como no trecho: “ ...o hip hop encontra escrituras transformando o negativo numa coisa positiva”. Já na música "Forgive Them Father", Lauryn se vale de partes da Bíblia para criticar tanto o sistema capitalista como as relações inter-raciais.  Mas é na música "Every Guetto, Every City" que ela usa de metalinguagem para falar de sua própria adolescência, onde era uma menina de pernas magras, que sonhava com o sucesso.
O sucesso, Ms. Hill obteve de forma meteórica. Ganhou cinco prêmios das onze indicações ao Grammy: álbum do ano, artista revelação, prestação vocal R&B feminina, canção R&B e álbum R&B. Vendeu por volta de 400.000 cópias só na primeira semana e entrou para a lista dos 200 álbuns definitivos no Rock and Roll Hall of Fame.
Sua “deseducação” alcançou o mundo, rompendo barreiras entre classes sociais. Porém, assim como podemos entender que o disco engloba críticas variadas, nas variadas faixas, a última música, cujo título é homônimo ao álbum, apresenta uma visão mais para dentro dela mesma. Há questionamentos quanto à repressão externa, do que as pessoas esperavam dela. Logo, “deseducação”, como um todo, significa crítica, questionamento, aprendizado. Mas a sua própria “deseducação”, pode ser um grito de liberdade, de uma pessoa que teve que se adequar às formas para ser quem é.
O disco não pára por aí. Algumas músicas não citadas merecem atenção e duas outras entram na faixa bônus. Uma delas é a regravação de Frankie Valli, a "Can’t Take My Eyes Off You". Após o sucesso, Ms. Hill gravou um Unplugged pela MTV, sem projeção e entrou numa espécie de torpor criativo. O álbum foi tão marcante que os seus fãs aguardam não só os shows baseados nesses sucessos, mas que sua criatividade e reinvenção sejam motivos de inspiração para um novo trabalho.
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FAIXAS:
01. Intro
02. Lost Ones
03. Ex-factor
04. To Zion
05. Doo Wop (That Thing)
06. Superstar
07. Final Hour
08. When It Hurts
09. I Used To Love Him
10. Forgive Them Father
11. Every Ghetto, Every City
12. Nothing Even Matters
13. Everything Is Everything
14. The Miseducation of Lauryn Hill

faixas extra:
15. Can't Take My Eyes Off You
16. Tell Him (live)


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Ouça:
The Miseducation of Lauryn Hill


sábado, 28 de abril de 2012

O Frango Atirador


Coleção Folha Literatura Ibero-Americana



Mais uma coleção bem legal do jornal Folha de São Paulo. Agora é de autores de línguas portuguesa e espanhola. São 25 números que saem nas bancas todos os finais de semana.
As vendas iniciaram-se na verdade há duas semanas quando saiu o primeiro número, de Jorge Luís Borges ("O Livro de Areia") com o segundo volume de brinde, os "Sonetos do Amor Obscuro e Divã do Tamart" de García Lorca, mas a partir do 3° número, é individual custando R$16,90 cada. Mas certamente ainda é fácil encontrar os 3 primeiros volumes.
Hoje, por exemplo, está nas bancas o quarto título, "Memória de Elefante" de Antônio Lobo Antunes mas a lista é boa e conta com nomes consagrados como Neruda, Saramago, Ernesto Sabato e o brazuca Moacyr Scliar. Aparecem também o bom Javier Cercas, espanhol que eu descobri há pouco  no interessante romance "O Motivo" e uma das revelações da literatura contemporânea dos últimos anos, o português Miguel de Sousa Tavares, autor do badalado "Ecuador".
Não vou comprar todos. Alguns não interessam, outros eu já tenho, outros, honestamente, eu nem conheço, mas vale a pena ficar de olho nos títulos a seguir nas bancas e ver o que há de interessante.


Cly Reis

quinta-feira, 26 de abril de 2012

cotidianas #156 - Concepção



Dei para isso agora:
Ando parindo palavras
Sinto-as no bucho, pesando
Afoitas por receberem luz, por respirarem ar
Gestação sem idade
Sem calendário
Sem útero

"Maternidade" - Segall, Lasar
aquarela e grafite sobre papel (1922)
Caminho pelas ruas
E, quando vejo, saiu
Escorrem perna abaixo
A qualquer hora
Várias delas, filhas de todos os formatos, de diferentes caras
Tomam vida logo
Erguem-se e já saem voando
Ganham as ruas
Vão com o vento

Mesmo assim, me pergunto: serão palavras isso que paro, gesto?
Essas que ouço, que ora choco
Que ora me sobem pelo esôfago
E me engasgam sem, contudo, se pronunciarem?
Paro e observo o gesto
Desconfio...

Isso, que se me põe ora sílaba, ora fonema
Ora uivo
Ora pois!

Não, não podem ser palavras
Nem tudo que há dentro cabe nestas borboletas aflitas
Limitadas
Que precisam da atmosfera para bater asas

Agora entendo
Toco meu ventre e sinto
Meu verdadeiro útero está tomado disso: dos sons que vêm dela

Claro!
É isso
Matei a charada:
Estou prenhe de música. 

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Internacional x Fluminense - Bar Copinha / Copacabana - RJ

Hoje, em Porto Alegre, lugar de colorado é no Beira-Rio e no Rio lugar de colorado é no Copinha.
Galera se reunindo, aquecendo, tomando umas. Daqui a pouco começa a peleia.
Vamo, vamo, Inter!


C.R.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Pink Floyd - "Wish You Were Here" (1975)


"Shine On You Crazy Diamond" não é realmente sobre Syd
— ele é só um símbolo para todos os extremos de ausência
que algumas pessoas têm de passar
porque é o único jeito com que elas podem lidar
com o quão triste isso é."
Roger Waters



O sucessor do brilhante "The Dark side of the Moon" carregava consigo já, antes de seu lançamento, a grande responsabilidade de no mínimo se manter no mesmo patamar técnico, criativo, qualitativo e por que não, seguir as marcas de sucesso do seu antecessor. O Pink Floyd não esteve muito segura quanto a lançar um novo álbum tão cedo. Houve divergências quanto a trabalhar mais o novo disco, prolongar a turnê do exitoso álbum anterior, discutir mais o conceito, mas por fim, o que apresentaram não foi nada mais nada menos que outra obra-prima do rock. "Wish You Were Here" era lançado em 1975 e trazia estados alterados da mente, espíritos maltratados, melancolia, decepções com o meio musical e com a sociedade como um todo. Tudo isso traduzido brilhantemente de maneira poético-musical por Gilmour, Waters, Wright e Mason.
O álbum é constituído a partir de uma longa peça musical em duas partes e apenas outras 3 canções. "Shine on You Crazy Diamond", a composição que abre e fecha a obra, dividida no primeiro trecho em 5 partes e no segundo, o final, um pouco mais encorpado, em 4, é uma pequena sinfonia monumental desenvolvida pacientemente, agregando elementos até preencher-se por completo constituindo por fim uma joia musical de rara inspiração. Composta em homenagem ao amigo e ex-parceiro de banda, Syd Barrtet, "Shine on You Crazy Diamond" trata do desequilíbrio interior, da confusão mental, da perda de si próprio, numa das mais belas canções da banda e com atuações individuais absolutamente notáveis de cada um dos intergrantes.
"Walcome to the Machine", sobre as imposições, vontades e condições do mundo da música tem destaque para os teclados e sintetizadores de Wright; "Have a Cigar", como que compensando o fato de ter sido praticamente preterido pela banda em nome de um vocalista convidado para cantar a canção, tem uma performance excepcional de Waters no baixo; e "Wish You Were Here", a faixa que empresta o nome ao álbum, é simplesmente uma das mais belas baladas já feitas na história da música, com seu inconfundível e belíssimo riff e uma interpretação emocionante de David Gilmour.
E o sucessor de "The Dark Side of the Moon" não só não decepcionava como em pouco tempo se constituiria em um daqueles discos legendários da história do rock.
Álbum brilhante! Como um diamante. Lapidado, raro, louco... cheio de luz e matizes.
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FAIXAS:
01 - Shine On You Crazy Diamond (Part 1-5) (vocal principal: Waters)
02 - Welcome To The Machine (vocal principal: Gilmour)
03 - Have A Cigar (vocal principal: Roy Harper)
04 - Wish You Were Here (vocal principal: Gilmour)
05 - Shine On You Crazy Diamond (Part 6-9) (vocal principal: Waters)

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Ouça:
Pink Floyd Wish You Were Here


Cly Reis

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O Frango Atirador

cotidianas #155 - Dia do Índio - "Índios"


Quem me dera ao menos uma vez
Ter de volta todo o ouro que entreguei a quem
Conseguiu me convencer que era prova de amizade
Se alguém levasse embora até o que eu não tinha.


Quem me dera ao menos uma vez
Esquecer que acreditei que era por brincadeira
Que se cortava sempre um pano-de-chão
De linho nobre e pura seda.


Quem me dera ao menos uma vez
Explicar o que ninguém consegue entender
Que o que aconteceu ainda está por vir
E o futuro não é mais como era antigamente.


Quem me dera ao menos uma vez
Provar que quem tem mais do que precisa ter
Quase sempre se convence que não tem o bastante
Fala demais por não ter nada a dizer.


Quem me dera ao menos uma vez
Que o mais simples fosse visto
Como o mais importante
Mas nos deram espelhos e vimos um mundo doente.


Quem me dera ao menos uma vez
Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três
E esse mesmo Deus foi morto por vocês
Sua maldade, então, deixaram Deus tão triste.


Eu quis o perigo e até sangrei sozinho
Entenda
Assim pude trazer você de volta pra mim
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do iní­cio ao fim.


E é só você que tem a cura pro meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.


Quem me dera ao menos uma vez
Acreditar por um instante em tudo que existe
E acreditar que o mundo é perfeito
E que todas as pessoas são felizes.


Quem me dera ao menos uma vez
Fazer com que o mundo saiba que seu nome
Está em tudo e mesmo assim
Ninguém lhe diz ao menos, obrigado.


Quem me dera ao menos uma vez
Como a mais bela tribo
Dos mais belos índios
Não ser atacado por ser inocente.


Eu quis o perigo e até sangrei sozinho
Entenda
Assim pude trazer você de volta pra mim
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do início ao fim.


E é só você que tem a cura pro meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.


Nos deram espelhos e vimos um mundo doente
Tentei chorar e não consegui.

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letra de "Índios"
Legião Urbana
(Renato Russo)

Ouça:
Legião Urbana - "Índios"

terça-feira, 17 de abril de 2012

cotidianas #154 - As Cinco Marias


As Cinco Marias



Mal acendeu o cigarro e já teve que apagá-lo. Ela havia chegado. Guto saíra direto da academia e agora a esperava no banco do volante em frente à loja em que Lúcia trabalhava, no Jardins, já um pouco impaciente com o atraso. Mas tudo bem: mulheres sempre se atrasam e, além do mais, seria naquela noite que “cometeria o crime”, que traçaria mais uma, e desta vez era Lúcia: loira, gostosa, boca carnuda, coxas torneadas. A sobrancelha não era das mais bonitas, meio serrilhada demais, e o nariz podia ser menos fino. Mas esses defeitos passavam. Embora não tivesse a estatura de modelo, pelo menos não era baixinha. Prospecto antigo; valia a pena. Carne boa.
Abriu por dentro a porta para ela com o gestual galanteador de roceiro que seduz o gado em direção ao abate, e o gado vai. Aliás, não à toa seu apartamento na Haddock Lobo era conhecido na sua roda de amigos como “O matadouro”. Por ali passavam mulheres toda semana, às vezes de quarta a domingo ininterruptamente. Incontáveis para qualquer outro ser humano, mas que Guto sabia na ponta do lápis. Uma média anual de praticamente uma e meia a cada dois dias. Embora achasse que podia melhorar, considerava boa a própria estatística. Orgulhava-se.
Porém deste montante algumas poucas espécimes se destacavam, vinham-lhe seguidamente à mente e, por algum motivo que desentendia, eram justamente os casos em que saíra, digamos, incomodado. Não raro lembrava-se de Júlia, Lea, Tatiana, Walkíria e Maria Clara. Esta, por ter sido a última das cinco, foi a que lhe fez tomar a decisão de nunca mais levar mulher em consideração. Foi a que lhe motivou uma das poucas certezas as quais conseguiu chegar nesses 29 anos de carros importados, baladas e faculdades inconclusas pagas: amor é para os fracos. Bem que diziam seu pai e seu avô, todos de nome Antônio Augusto, todos de sobrenome Albuquerque, todos sabedores desta máxima que ele também passou a partilhar. Maria Clara, assim, representava de certa forma ela e as outras quatro, aquelas que ele não conseguira prender e que, por falso despeito, chamava ironicamente de “falecidas marias”. O epíteto bíblico serviu não só às cinco, mas a todas as outras cujo nome não importava até o momento em que já podia deixar de gravá-lo. Funcionava assim: levou pra cama, virou maria. Os amigos, orgulhosos, sabiam: “Vai mais uma hoje, Guto? Qual o nome da maria de hoje?”. E riam.
Chegaram ao motel. O clima de brincadeira das preliminares lhe aborreciam profundamente, ainda mais quando fazia com que se lembrasse de umas coisas chatas da infância, e que, curiosamente, envolvia o bendito nome da mãe de Jesus de novo. Quando as meninas do condomínio brincavam, ele, tímido, franzino, a quem não se dava nada, até brincava quando elas o aceitavam na roda. Não raro dividia com elas as bonecas, e gostava. Mas quando inventavam de jogar as cinco marias, com aqueles saquinhos rendadinhos e meigos, Guto se afligia, pois, embora achasse bonito, não entendia a lógica da brincadeira. As meninas diziam, troçando-o, de que era facílimo se entender. Mas não lhe entrava na cabaça. Não havia explicação que adiantasse. E isso o constrangia sobremaneira. Diminuía-o.
Então, hoje, pensa: “nada de brincar. Vâmo pro que interessa! Fuc-fuc, coisinha, ferro na boneca!”, dizia nesta sequência corriqueiramente, fazendo o gesto de bater com as costas de uma mão na palma da outra. Foi assim com mais uma maria naquele início de noite, desta vez uma maria chamada Lúcia, a loira gostosa e pouco alta, de boca carnuda, coxas torneadas, sobrancelha serrilhada, etc. Foi lá: meteu, exercitou o tanquinho, exibiu a musculatura, ouviu gemidos de prazer, esporreou, recostou-se. Não sabia se ela tinha gozado também. O mais importante tinha cumprido: riscara mais uma maria aquele dia. Já podia esquecer que seu nome de verdade era Lúcia.
Ficou deitado com uma expressão triste e sem dizer nada. Beiço de criança desapontada. Arrumando os cabelos, ela, ainda ofegante (talvez por causa daquele provável orgasmo que ele, desinteressado, nem notara) olhou-o com curiosidade, mas também calada. Cada vez mais deprimido, Guto fixava os olhos úmidos no pé da cama, sentindo-se esquartejado. Estranho, mas seguido batia-lhe isso depois do sexo... Até que, de repente, seus olhos saltaram e seu rosto se iluminou. Soltou um sorriso surpreso e bobo de tão infantil. Finalmente apareceram! Nuas, brancas como gesso, as falecidas marias se embolavam umas sobre as outras num espaço mínimo entre os pés do casal e o fim do colchão. Era difícil entender como se equilibravam e cabiam naqueles centímetros, mas pareciam muito à vontade, como se tivessem brotado dali mesmo. Com os olhos vidrados em Guto, cada uma trazia um pedaço sobre os braços cruzados junto ao colo em forma de berço. Júlia, com um globo ocular; Lea, acomodava quatro dedos do pé esquerdo; Tatiana, sempre romântica, equilibrava o intestino grosso detalhadamente enrolado; Walkíria, a wagneriana, não haveria de carregar outra coisa se não a língua; e Maria Clara, sem dó como de costume, o pulmão direito. Olhando-o sem piscar, as falecidas lançavam um confortador sorriso maternal e cadavericamente doce para Guto, que se sentiu inteiro de novo.
Acendeu o cigarro. Já retomado seu olhar vitorioso sobre a natureza feminina característica da linhagem dos de Albuquerque, virou-se com boca de nojo pra ela e, sem pronunciar uma palavra sequer, disse só com a cabeça apontando para a porta: “Cai fora, vadia!”