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sábado, 9 de julho de 2011

Grand Funk Railroad - "E Pluribus Funk" (1971)


Grand Funk a todo vapor

"Vamos lá todos, nós vamos nos divertir."
Mark Farner



O nome do Grand Funk Railroad tem como inspiração a estrada de ferro Grand Trunk Western, localizada na cidade de Flint, nos Estados Unidos. Lugar aonde surgiu a banda. É a partir deste ponto de partida, que começamos uma viagem chamada “E Pluribus Funk” . Com Mark Farner (vocal, guitarra, teclado e harmonica), Don Brewer (bateria e vocal) e Mel Schacher (baixo), essa rota transita pelo ano de 1971. O Grand Funk fazia aquela bela mescla entre rock e o puro funk americano. Nesta época, o grupo estava a toda e com um enorme sucesso na terra do Tio Sam. Para se ter uma noção, um dos grandes feitos foi bater os Beatles, com a lotação completa, no clássico Shea Stadium, de Nova Iorque. Ao todo, 12 mil pessoas compraram ingressos em apenas 72 horas.
O embarque de 'E Pluribus Funk' inicia com Farner anunciando aos “passageiros” a seguinte frase: “come on everybody, we're gonna have a good time” (vamos lá todos, nós vamos nos divertir). Realmente, esta viagem terá uma excelente trilha sonora de fundo. Nesta canção, a "Footstompin' Music”, há uma ótima troca de teclados para as guitarras. Em boa parte do som, o baixo e a bateria mantém nos trilhos a canção, com as aparições pontuais das harmonias de Farner.
Na próxima estação vem a letra mais politizada do disco, a "People, Let's Stop the War", tendo frases como: “from fighting in a war, that causes big men to get rich” (lutando em uma guerra, que faz com que grandes homens fiquem ricos). Além da argumentação política, Farner usa, em todo o riff, o wah wah em sua guitarra, bem característico e marca registrada em alguns sons do Grand Funk. Outra peculiaridade do grupo é a divisão entre os vocais, com Farner e Brewer cantando juntos “o fim dessa guerra”.
Já a parada seguinte se chama "Upsetter". Aliás, essa é uma que vale a pena calibrar o “bass” das caixas do alto falante, como em outras várias músicas do disco. As linhas de baixo de Schacher são muito bem elaboradas e presentes, cooperando, em muito, na harmonia. Nessa música, o solo fica por conta da harmônica de Farner, contribuindo para soar como um blues tradicional.
"I Come Tumblin'" inicia com um breve do solo de Farner. No entanto, o destaque fica também logo no início da música, mais especificamente na bateria de Don Brewer. A sensação sonora é de um comboio ferroviário ou de uma manada de rinocerontes chegando em sua direção. Após esse atropelamento, acontece uma breve caída para novamente a bateria atropelar tudo. Esses fatos acontecem em vários momentos da música. No encerramento, Schacher sola no baixo, tendo o “comboio” de Brewer de acompanhamento.
Para queimar mais o caldeirão dessa locomotiva, o baterista Don Brewer canta, com sua voz grave e agressiva, em "Save the Land". Essa é a sua única participação como vocal principal deste álbum.
Com um solo de guitarra ao estilo blues vem "No Lies". Nessa canção, como diferencial, foram gravadas duas guitarras. Além disso, mais mensagens são dadas aos “passageiros”. Um dos trechos refere: “we don't need no leader, to tell us just what's wrong” (nós não precisamos de nenhum líder para nos dizer exatamente o que está errado).
No desembarque, "Loneliness" encerra o 'E Pluribus Funk'. No começo, a expectativa é de uma balada, mas, na realidade, essa é a música mais elaborada do disco. O produtor e empresário, Terry Knight, mostrou maior trabalho nessa execução. Para isso, contratou o maquinista, ou melhor, o arranjador Tom Baker para botar mais lenha na locomotiva. Com uma grande orquestração - composta de instrumentos de sopros e arranjos de cordas -, Mark Farner solta a voz mais uma vez e sustenta, por diversas vezes, seus agudos. A orquestra se alinha muito bem com o power trio. O fim apoteótico tem um coral de vozes cantando sobre a solidão, por mais contraditório que isso possa soar.
Para quem não teve a oportunidade de escutar, vale a pena comprar um ticket dessa viagem. Esse passeio musical é diversão pura para os adoradores de rock. Com certeza, as escalas dessa trip farão com que você as queira repetir por diversas vezes.
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FAIXAS:
1."Footstompin' Music" - 3:48
2."People, Let's Stop the War" - 5:12
3."Upsetter" - 4:27
4."I Come Tumblin'" - 5:38
5."Save the Land" - 4:14
6."No Lies" - 3:57
7."Loneliness" - 8:47

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Ouça:
Grand Funk Railroad E Pluribus Funk



sexta-feira, 8 de julho de 2011

cotidianas #89 - "Jhony"


Jhony é menino
Embora cresça sem saber
Que seu destino é jogar bola
E fazer gol
Jhony cresce
"Meninos Jogando Futebol", Volpi, Alfredo
(baixo-esmalte sobre azulejo, 15x15cm)
Mas aqui não desaparece

Na sua mente uma vontade de jogar um futebol

Futebol

Jhony é bacana
Menino vivo não sem engana
Mete as "cabeça" e passa à rente
Faz o vestibular


Jhony estuda
Se forma hoje é doutor
Mas só pensa em futebol
Futebol


Jhony não desisti
Perde o jogo fica triste
Sente vontade de jogar
E de participar
E decide
Tirar a camisa do cabide
Põe a chutereira e o calção
E partiu prum futebol
Futebol

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letra da música "Jhony"

de Tim Maia




postado por Daniel Rodrigues

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Erasmo Carlos - "Carlos, Erasmo..." (1971)

"A música impediu que eu fosse para o crime"
Erasmo Carlos



Depois de protagonizar junto com Roberto Carlos o estouro da Jovem Guarda, tornando-se um dos artistas de maior popularidade do Brasil, Erasmo, no final dos anos 60, viu-se numa encruzilhada. Roberto, ídolo de multidões, guinara sua carreira para um exitoso e popular estilo misto de bolero, balada e MPB, mais “adulto” que o iê-iê-iê e adequado a uma classe média de um economicamente milagroso país ditatorial. Erasmo, obviamente, não podia ocupar o mesmo lugar que o parceiro. O negócio seria seguir outro caminho. Então, fez uma escolha: dar vazão à sua mente criativa e “alternativa”. O marco inicial e auge desta fase é o brilhante disco “Carlos, Erasmo...” , de 1971. Em clima de reunião musical com os amigos, ele se liberta da pecha de coadjuvante e realiza um álbum “cariocamente” descolado e, ao mesmo tempo, psicodélico, onde se vale do samba, rock, música cubana, soul e baião – não necessariamente nesta ordem.
A começar pelo título, ratificando de qual dos “Carlos” se está falando, o disco é a afirmação da indenidade de Erasmo como artista. E isso se percebe como conceito em todas as faixas, deixando a sua marca em todas elas. Tal como no seu trabalho anterior (“Erasmo Carlos & os Tremendões, 1970), Erasmo gravara uma música de Caetano Veloso; mas desta vez, ao invés de somente interpretar, como bem fizera com a bossa nova “Saudosismo”, Erasmo reinventa a canção do baiano. Encomendada por ele a Caetano, à época ainda no exílio em Londres, “De Noite na Cama” é uma verdadeira ode a esta nova fase do Tremendão: como numa festa com muitas vozes ao fundo e com participação de toda a galera da banda no coro (entre eles os ex-Mutantes Dinho Leme e Liminha), a faixa que abre o disco traz um maravilhoso berimbau acompanhando o baixo (engenhosa ideia que o RPM repetiria 17 anos depois em “A Estratégia do Caos”, do álbum “Os 4 Coiotes”), uma guitarra afiada na base e uma cuíca chorando por toda a melodia. Um show! Misturando samba, soul, rock e baião, Erasmo celebra o Tropicalismo de Caetano e Gil e demarca sua entrada no segundo momento deste movimento, influência que confirmaria nos seus álbuns seguintes daquela década.
O disco traz lindas parcerias com Roberto: a swingada “É Preciso Dar um Jeito Meu Amigo”, a “viajante” “Sodoma e Gomorra” e a rumba “chapada” “Maria Juana” – na qual a dupla, muito antes do Planet Hemp popularizar a verdinha, capciosamente proclamava: “Eu quero Maria Joana”. Outra incrível dos dois é “Mundo Deserto”, um funk no melhor estilo Motown e de ótima letra em que Erasmo solta o gogó, mostrando toda sua influência da black music americana.
O disco traz ainda outras duas pérolas. Uma delas é outra versão de muita criatividade, desta vez prestando vivas a outro amigo tropicalista, Jorge Ben, na genial “Agora Ninguém Chora Mais”. Nesta, Erasmo convoca os parceiros Golden Boys, Fevers, MPB4 e a banda de apoio para cantarem junto com ele, formando uma capa sonora densa e de rara beleza. Com arranjo do maestro-maluco Rogério Duprat, a música de Ben vira um funk sincopado com efeitos psicodélicos, como ruídos “espaciais” e um impressionante solo de sino (!). A guitarra pesada, lembrando Funkadelic, sai dos dedos de outro artista referência do Tropicalismo, o “inglês brasileiro” Lenny Gordin. O resultado é uma obra-prima, que consegue ser melhor que a original. E, como se não bastasse, uma jogadinha genial: o coro, após cantar toda a primeira parte, se duplica na segunda, só que invertendo as estrofes, fazendo com que dois coros se sobreponham, reencontrando-se no final no verso: “Chora maaaaaais...”, o que provoca um efeito impressionante. Simples, mas de pura criatividade. Com poucos recursos (a hoje precária mesa de 16 canais dos estúdios da Phillips), Erasmo alcança nesta música um resultado tão moderno que é de fazer um Beck corar de vergonha.
Quase tão legal quanto, “Dois Animais na Selva Suja da Rua”, de Taiguara, além da letra reflexiva e poética (“Por isso somos iguais/ Nós somos dois animais que se animam/ que se amigam...”), tem a base marcada por notas fortes de piano e um instrumental intenso, chegando ao ápice no refrão, quando todos os elementos se adensam, inclusive a linda orquestração de cordas do maestro Chiquinho de Moraes.
Cult, “Carlos, Erasmo...”, 31º entre os 100 melhores discos da MPB pela Rolling Stone, é seguramente mais vanguardista e contemporâneo do que muita coisa que se faz hoje dentro e fora do Brasil. Ao se comemorar os 50 anos de carreira de Erasmo Carlos, uma justa homenagem a um dos grandes artistas brasileiros vivos.
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FAIXAS:

  1. "De noite na cama"
  2. "Masculino, feminino"
  3. "É preciso dar um jeito, meu amigo"
  4. "Dois animais na selva suja da rua"
  5. "Agora ninguém chora mais"
  6. "Sodoma e Gomorra"
  7. "Mundo deserto"
  8. "Não te quero santa"
  9. "Ciça, Cecília"
  10. "Em busca das canções perdidas nº 2"
  11. "26 anos de vida normal"
  12. "Maria Joana"

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Ouça:
Erasmo Carlos - Carlos, Erasmo...
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Altamente recomendáveis também os discos “Sonhos e Memórias: 1941-1972” (1972), que traz clássicos como “Mané João” e “Mundo Cão” (da trilha do filme “Os Machões”, pelo qual Erasmo foi premiado como Melhor Ator no Festival de Cinema de Brasília), e o excelente “Banda dos Contentes” (1976), disco que marcou época pelo enorme sucesso da faixa de abertura, "Filho Único", da trilha de uma novela da Globo, e que conta também com uma das melhores canções de Gilberto Gil, feita especialmente para Erasmo: “Queremos Saber” (regravada por Cássia Eller no seu Acústico MTV).

Ouça também:
Sonhos e Memórias
Banda dos Contentes

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O Frango Atirador

Reestabelecendo a verdade histórica - 3

cotidianas #88 - Me mata (ou uma piada contada de uma maneira muito dramática)

A família estranhou a demora do casal em sair do quarto pela manhã.
Está certo que havia sido a noite de núpcias, que podiam estar querendo se estender nos prazeres de primeira noite, mas aquilo ali já era demais. Já passava de duas da tarde e nada de saírem do quarto. Tinham viagem de lua-de-mel ainda naquela tarde, tinham perdido toda a noção? A mãe da moça resolveu então, embora constrangida, bater na porta do quarto:
- Ademir, Maria Alice, vocês não vão almoçar? Já são duas da tarde. Vocês não viajam hoje mais tarde? Então, ta na hora dos pombinhos acordarem – pronunciou esta última frase simulando um tom malicioso e descontraído.
Mas nada de resposta. Nenhum sinal de movimento lá dentro. Dona Dalva começo a ficar preocupada:
- Maria Alice, Maria Alice, tu ta passando bem? Ademir, aconteceu alguma coisa?
E nada de resposta.
Bateu um repentino desespero na mãe da recém-casada. Pressentindo alguma coisa ruim começou a chamar todo mundo da casa:
- Betinho, Josué, acode aqui, aconteceu alguma coisa. Eles não respondem, não se mexem, não falam nada...
Logo apareceram os dois, um surgido de cada canto da casa, e, assustados também, trataram de repetir a ação de Dona Dalva de bater na porta, só que agora com mais força, veemência e preocupação. Não tendo resposta, Seu Betinho, o pai da noiva e Josué, o irmão, não precisaram trocar uma palavra, entenderam-se pelo olhar e puseram-se os dois a trombar na porta. Bastaram duas batidas com os ombros para que a porta se abrisse e se deparassem então aquele quadro aterrorizante: Ademir, ainda de fraque, estava sentado na beira da cama com a cabeça pendida entre as mãos completamente impassível e Maria Alice jazia deitada ao lado da cama com a cabeça totalmente ensanguentada, rasgada, aberta.
O quarto foi tomado por pânico, gritos histéricos, choro, tudo ao mesmo tempo. A mãe, Dona Dalva, estava inconsolável, o irmão tentava acalmá-la, o pai chorava estático ainda ao pé da porta que acabara de arrombar. Não entendia porque aquele rapaz que sempre lhe parecera tão amoroso, carinhoso, atencioso com a filha faria uma barbaridade daquelas. Sempre lhe pareceram tão felizes, tão feitos um pro outro . Ele sempre prometia a ela fazer tudo o que ela quisesse, tudo o que ela pedisse.
Num esforço maior que sua capacidade, num esforço incomum, Seu Betinho conseguiu aproximar-se da cama onde parou à frente do imóvel Ademir:
- Por que? Por que, meu filho?
Ademir levantou a cabeça e só então mostrou seus olhos inchados e vermelhos, e mirando o velho como que pedindo perdão, respondeu:
- Eu sempre disse que nunca ia negar nada pra ela. Ela foi tão suplicante...
- O que você fez? O que você fez? – inquiriu o velho, agora com veemência e desespero.
- Ela disse “me mata com aquela coisa de mijar, me mata”, daí eu peguei aquilo e bati, bati, bati na cabeça dela. – e apontava para um velho urinol de ferro, branco aloucado que repousava solitário, com a borda ainda suja de sangue, no canto do quarto. Aquela havia sido a arma do crime.

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domingo, 3 de julho de 2011

The Doors - "The Doors" (1967)


"Jim [Morrison] era um xamã."
Ray Manzarek


Em 3 de julho de 1971 morria em Paris, Jim Morrison. Hoje faz 40 anos da morte deste que foi o líder de uma das mais importantes e influentes bandas de rock de todos os tempos. Infelizmente, Morrison faz parte daquele talentoso ‘time’ dos que foram embora cedo demais, junto com Janis, HendrixKurt e outros; mas que, diga-se de passagem, fizeram por onde ter passagens tão breves por este mundo. Morrison era antes de mais nada um poeta, um poeta alucinado, um homem com gritos de liberdade e inconformismo presos na garganta, e que tendo a oportunidade, convidado por um colega de curso de cinema, o talentosíssimo tecladista Ray Manzarek, transformou seus versos ácidos em música e complementados por Robby Krieger e John Densmore, compunham os The Doors. Mas este simples poeta e jovem rebelde revelava-se mais que isso quando as coisas começaram a andar de verdade: era um cantor com recursos, um letrista provocativo, um símbolo sexual, um líder com presença de palco e um dos frontman mais marcantes e emblemáticos que o mundo do rock já viu.
O disco de estreia dos The Doors, “The Doors” de 1971, é simplesmente um dos maiores debuts em álbum de uma banda. Abre com a fantástica “Break on Through” com sua levada meio rumba e seu embalo sensual; traz a ótima e hipnótica “Soul Kitchen”; a versão muito peculiar e cheia de personalidade de “Alabama Song”; uma interpretação notável de Morrison em “The Chrstal Ship”; o grande sucesso, a sensual “Light My Fire” com o show à parte dos teclados de Manzarek (que a porpósito, é o toque do meu celular); e fechando o álbum a polêmica, impactante, sexy, chocante, genial e quilométrica “The End”, uma sinfonia de melancolia, dor, morte e incesto.
Típico caso de banda fundamental, na verdadeira acepção da palavra. Com uma obra bastante pequena, uma carreira curta, deixaram álbuns extremamente significativos, conseguiram mexer com o sistema (TV, moda, costumes, comportamento), mudar conceitos, influenciar mais de meio mundo e futuras gerações de bandas. “The Doors”, 1971: ÁLBUM FUNDAMENTAL!


FAIXAS:
"Break on Through (To the Other Side)" – 2:29
"Soul Kitchen" – 3:35
"The Crystal Ship" – 2:34
"Twentieth Century Fox" – 2:33
"Alabama Song (Whisky Bar)" (Bertolt Brecht, Kurt Weill) – 3:20
"Light My Fire" – 7:06
"Back Door Man" (Willie Dixon) – 3:34
"I Looked at You" – 2:22
"End of the Night" – 2:52
"Take It As It Comes" – 2:23
"The End" – 11:41

*todas as faixas, Densmore, Krieger, Manzareck, Morrison,
exceto as indicadas

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Ouça:
The Doors 1967


Cly Reis

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Television - "Marquee Moon" (1977)

"Eles são uma banda em um milhão;
as canções são algumas das maiores já feitas.
O álbum é 'Marquee Moon'".
Nick Kent,
do New Musical Express,
em 1977


“Que música é essa?”, eu me perguntava quando ouvia aquela coisa maravilhosa no rádio. Aquele riff introdutório com uma guitarra minimalista, repetida e hipnótica, seguida de uma segunda guitarra, em outro riff mínimo e igualmente repetido, que se entrecruzava e confundia-se com a primeira; e então as duas permitiam a entrada de um baixo que se por um lado dialogava com ambas, também ocupava seus espaços vazios; até a entrada uma bateria marcada, sem excessos nem arroubos que constituía enfim o corpo básico daquela canção espetacular. Mas era só o início: ela ia-se enrobustecendo, mudando, variando, trocando bases, invertendo solos, cada um mais lindo e impressionante que o outro com verdadeiros duelos de guitarras, e a bateria agora tinha arrebatamentos entusiásticos, e o contrabaixo irrompia em ímpetos emocionantes, até alcançar, depois de mais de 10 minutos, uma espécie de um ápice sonoro, um êxtase, uma redenção musical. Ouvia com muita freqüência no programa da radialista Kátia Suman, na Rádio Ipanema de Porto Alegre, ficava impressionado com aquilo, mas por algum azar nunca conseguia descobrir o nome da música – já tinha sido anunciada no início do bloco; naquele dia a programação da rádio estava no ‘automático’; ou mesmo, simplesmente, não fora anunciada - mas uma hora seria inevitável descobrir, como acabou acontecendo: aquela obra de arte chamava-se “Marquee Moon” e quem a tocava era uma banda chamada Television. A música fazia parte do disco igualmente entitulado “Marquee Moon” , de 1977, que tratei logo de ter, num primeiro momento em cassete, mas hoje tenho devidamente em CD, que traz alguns extras inclusive.
O Television, vim a saber mais adiante ainda, fora um dos precursores do punk, e ainda que a canção que tinha me encantado fosse enorme, toda trabalhada, com partes, entrepartes, solos longos e virtuosismo técnico, ela verdadeiramente já anunciava com seu minimalismo, seu ritmo, sua produção, que trazia no rastro novos tempos e uma nova sonoridade.
“See no Evil” uma das grandes do disco, é uma prova mais concreta disso com sua base minimalista, mas com uma pegada mais consistente, mais pesada e repetitiva; “Friction” vai numa linha parecida, com aquela pinta de punk porém transbordando de técnica por todos os lados; “Vênus” é quase uma sinfonia; “Elevation”, marcante pelo refrão, é o que se poderia chamar de uma música ‘limpa’ trabalhada minuciosamente em todos os detalhes, onde tudo aparece com impressionante clareza e transparência; “Guiding Light” é uma balada levinha e deliciosa; “Prove It” também é mais solta e tem uma levada gostosa de baixo; Torn Curtain” que fecha o disco é arrastada mas não cansativa, é mais melancólica que as demais mas sua condução lenta só faz com que se possa perceber com mais limpidez as virtudes musicais e a técnica dos instrumentistas.
Um dos discos mais importantes da história do rock por ter ao mesmo tempo introduzido o punk e de certa forma negar seus princípios básicos, como os de músicas curtas, composições burras e músicos que não soubessem tocar. Mas se não bastasse sua importância, influência, sua inovação, só pela canção que dá nome ao disco já valeria. Uma das coisas mais incríveis que já ouvi. Um dos meus discos prediletos.
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FAIXAS:
1. "See No Evil" 3:53
2. "Venus" 3:51
3. "Friction" 4:44
4. "Marquee Moon" 10:40
5. "Elevation" 5:07
6. "Guiding Light" (Lloyd, Verlaine) 5:35
7. "Prove It" 5:02
8. "Torn Curtain" 6:56

bônus da reedição em CD
9. "Little Johnny Jewel (Parts 1 e 2)" 7:09
10. "See No Evil (versão alternativa)" 4:40
11. "Friction (versão alternativa)" 4:52
12. "Marquee Moon (versão alternativa)" 10:54
13. Untitled (instrumental)
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Ouça:

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Rachmaninoff – Concertos OSPA – Salão de Atos da UFRGS – Porto Alegre - RS




Esta semana estive no 9º Concerto Oficial da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (OSPA) ouvindo um programa em homenagem a Sergei Rachmaninoff. Não estava lotado, mas havia bastante gente no espaçoso Salão de Atos da UFRGS, mostrando que, mesmo sendo uma programação paga, há público para este tipo de atração em Porto Alegre. Feliz constatação.
Sergei Rachmaninoff
(1873 - 1943)
A orquestra, sob regência do maestro Roberto Tibiriçá, apresentou duas das mais conhecidas obras de Rachmaninoff: Concerto para piano e orquestra nº 2, no qual teve ao piano o excelente André Carrara; e Sinfonia nº 2.
Executado com competência, o Concerto nº 2 é marcado pela dramaticidade e pela força orquestral, tanto que, na primeira parte, o piano é quase coadjuvante. Sua poesia pianística vai ganhando corpo a partir da segunda parte, a mais conhecida do grande público. Numa intensidade crescente, bem ao estilo romântico, o tema é executado de modo sublime pelos sopros, seguido do solo de piano e da interpretação das cordas. E o movimento final, que exige técnica e virtuosismo do pianista, fecha com uma alta carga sentimental. Já a Sinfonia nº 2, considerada a sua melhor junto com a nº 3 é, em alguns momentos, “melada” de tão sentimental, mas a sua composição robusta e cheia de belos momentos, como o engenhoso segundo movimento (Allegro molto) e o final, em alta vibração (Allegro vivace), valem qualquer deslize.
Obras de Rachmaninoff
executadas sob a competente
regência do maestro Roberto Tibiriçá
Radicado nos Estados Unidos a partir da metade da vida, Rachmaninoff teve sua obra bastante utilizada em trilhas de cinema, sendo o próprio Concerto para piano nº 2 o mais aproveitado, sendo “O Pecado Mora ao Lado”, clássico de Billy Wilder com Marilyn Monroe estonteante, o mais conhecido exemplo. E não só as peças originais de Rachmaninoff foram usadas no cinema como, mais do que isso, seu estilo carregado de dramaticidade, gerando sensações de emotividade, tensão, leveza, suspensão, etc, caíram como uma luva para o cinema americano, tornando-se um dos mais fortes inspiradores de trilhas sonoras do cinema clássico, influência facilmente percebida até hoje nos compositores dos filmes de Hollywood.
Ambas as peças apresentadas pela OSPA são exemplo da obra deste maestro e pianista russo, conhecido como o último grande compositor do Período Romântico da linhagem de Mussorgsky, Delyansky e Tchaikovsky (de quem foi aluno). Além da estrutura melódica e composicional romântica, sua música também remete a Chopin e Liszt, outras duas fortes influências. Nascido em família de tradição musical, Rachmaninoff é tido como um dos pianistas mais influentes do Século XX, dotado de uma técnica marcada pela precisão, clareza e velocidade. Seus trejeitos técnicos e rítmicos são lendários, e suas mãos largas eram capazes de cobrir um intervalo muito maior no teclado (um palmo esticado de cerca de 30 centímetros), alcançando quatro teclas a mais do que a maioria dos pianistas. Mas é o seu discernimento entre virtuosismo e estrutura rítmica que o fizeram um concertista equilibrado como instrumentista e compositor tão influente.


terça-feira, 21 de junho de 2011

cotidianas #87 - "O Mundo Anda Tão Complicado"


Gosto de ver você dormir
Que nem criança com a boca aberta
O telefone chega sexta-feira
Aperto o passo por causa da garoa
Me empresta um par de meias
A gente chega na sessão das dez
Hoje eu acordo ao meio-dia
Amanhã é a sua vez


Vem cá, meu bem, que é bom lhe ver
O mundo anda tão complicado
Que hoje eu quero fazer tudo por você.


Temos que consertar o despertador
E separar todas as ferramentas
Porque a mudança grande chegou
Com o fogão e a geladeira e a televisão
Não precisamos dormir no chão
Até que é bom, mas a cama chegou na terça
E na quinta chegou o som


Sempre faço mil coisas ao mesmo tempo
E até que é fácil acostumar-se com meu jeito
Agora que temos nossa casa
é a chave que sempre esqueço


Vamos chamar nossos amigos
A gente faz uma feijoada
Esquece um pouco do trabalho
E fica de bate-papo
Temos a semana inteira pela frente
Você me conta como foi seu dia
E a gente diz um p'ro outro:
- Estou com sono, vamos dormir!


Vem cá, meu bem, que é bom lhe ver
O mundo anda tão complicado
Que hoje eu quero fazer tudo por você
Quero ouvir uma canção de amor
Que fale da minha situação
De quem deixou a segurança de seu mundo
Por amor

Renato Russo

segunda-feira, 20 de junho de 2011

"Unknown Pleasures: A Celebration of Joy Division" - Peter Hook & The Light - Circo Voador - Rio de Janeiro (18/06/2011)



 Não tive a oportunidade de conhecer o Joy Division na época de sua curta existência, até porque tinha apenas 5 aninhos quando lançaram seu primeiro álbum e só fui conhecê-los mesmo no início de minha adolescência, ali pelos 13 anos de idade; mas então Ian Curtis, seu vocalista, já estava 'do outro lado' e a banda, disposta a seguir a vida após a tragédia, já se tornara o New Order e botava o mundo pra dançar com sua eletrônica "Blue Monday". Assim que, tirando alguma eventual 'canja' do New Order não haveria como ouvir as míticas canções do Joy Division executadas por seus integrantes originais. Mas, de todo modo, já perdi de ver o N.O. duas vezes e ao que parece não vou ver mais porque (pela milésima vez) eles dizem ter-se separado.
Mas eis que Peter Hook, baixista original, juntou uma meninada, ensaiou bem as músicas e caiu na estrada para homenagear o primeiro disco da banda, o lendário "Unknown Pleasures" . Aterrisou por aqui e neste último sábado apresentou no Circo Voador, aqui no Rio, o show "Unknown Pleasures: A Celebration of Joy Division", tocando na íntegra as músicas do álbum. Ora!!! Não haveria como perder uma chance destas! Não seria o Joy Division inteiro, é verdade, Ian está morto e nada vai mudar isso, mas presenciar um integrante original tocando um álbum como este não deixaria de ter um grande valor físico, musical e emocional. E a apresentação foi realmente emocionante. Uma alegria enorme para qualquer fã. Um dos poucos shows que passei praticamente todo o tempo com os olhos marejados. Empolgante nos momentos certos, visceral quando tinha que ser, sombrio na medida certa, e especalmente mágico o tempo todo.
Pra começar a loucura, os caras entraram no palco ao som de "Trans-Europe Express" do Kraftwerk, o que já foi de arrepiar; aí abriram a sessão com a instrumental "Incubation", que eu adoro e que minha banda tocava de vez em quando no estúdio; seguiram numa linha bem Warsaw com "No Love Lost" e "Leaders for Men", me surpreendendo porque, ao contrário do que eu imaginava, Peter Hook, que eu achei que fosse ficar só no baixo e fosse trazer um vocalista com um timbre parecido com o de Ian, assume à frente dos vocais e manda bem. Aí vem "Digital" e o lugar quase vai abaixo com a galera cantando o "day in, day out" do refrão num coro alucinado, na última antes da execução das músicas do disco clássico.
O "Unknown Pleasures" começa e "Disorder", um punk-rock embalado e gostoso de poguear, provoca uma catarse coletiva. Segue a belíssima "Day of Lords" com seu andamento lento e pesado, bem executada pelos The Light, mas que, por mais esforçado que Hook estivesse nos vocais, acabou perdendo a dramaticidade conferida pela voz e pela interpretação de Curtis.
Até então Peter Hook cantava, gesticulava, posava com seu instrumento musical, jogava-o pras costas mas a verdade era que, depois da primeira música do show, na qual teve algum desempenho, não tirara mais uma nota sequer de seu reluzente contrabaixo vermelho deixando tudo à cargo dos seus competentes comandados. Só que isto àquelas alturas era um pouco decepcionante haja visto que sua forma de tocar baixo como quem toca guitarra (não só performaticamente mas sonoramente também) era um dos elementos aguardados por mim com expectativa. Mas aí o cara parou de fazer posição e jogar o baixo pra trás e tratou de esmerilhar as cordas. "Insight", se perdeu alguma coisa no que dissesse respeito à ausência dos efeitos da versão do disco, ganhou em peso e intensidade com dois contrabaixos e com a afinação muito peculiar de Peter Hook; em "New Dawn Fades", uma das melhores não só dos álbum em questão como da banda, Hook voltava a destruir tudo, desta vez com aquela levada mais grave, numa canção densa, sombria e espetacular.
Abre-se o lado B com outro clássico, "She's Lost Control", que, igualmente, mesmo sem o trabalho de estúdio para a bateria, manteve a força, a pegada e a magnitude. É quase redundância destacar, mas o baixo de Hook, bem agudo e agressivo nesta música, soava de maneira simplesmente arrasadora.
"Shadowplay" seguiu com aquela espécie de força surpreendente; "Wilderness" trouxe outro show das quatro cordas de Hook; "Interzone" foi selvagem; e "I Remember Nothing", talvez tenha sido a que mais perdeu em relação à sua gravação original, sem os efeitos de vidros quebrados, sem conseguir reproduzir bem aquela sensação de vácuo e sofrendo pela inevitável falta do seu intérprete de origem que nesta canção faz muita diferença. Mas mesmo assim muito boa. Ganhou em energia, força, ruídos, agressividade.
Estava encerrado o álbum. Eu havia visto e ouvido um membro do Joy Division tocar um dos meus álbuns favoritos.
Mas como não nos déssemos por satisfeitos com aquela dádiva, eu e todos os outros fanáticos ali, ficamos ali a exigir mais e mais... E felizmente tivemos mais:
Hook e seus parceiros voltam para uma "Atmosphere" que, na verdade, a mim, não agradou muito; mas por outro lado para uma "Ceremony" que, essa sim, me deixou com lágrimas nos olhos. Saíram do palco de novo e voltaram, agora com Hook vestindo uma camisa número 10 da seleção brasileira com seu nome, para um bis final. Aí veio a boa "These Days", outra pré-Joy, "Novelty"; a vibrante "Transmission" e aquele "dance, dance, dance to the radio" sendo entoado pela plateia inteira com as mãos para o alto; e fechando com, provavelmente o clássico maior da banda, "Love Will Tear Us Apart" para delírio geral.
Estávamos todos repletos, contemplados. Nenhum nome teria sido mais justo para aquele show, para aquela festa do que o que foi dado: "A Celebration of Joy Division". Foi isso. Aquilo ali havia sido uma grande celebração. Uma celebração que revelava agora, prazeres até então desconhecidos.

SET LIST:

1.Incubation
2.No Love Lost
3.Leaders Of Men
4.Digital
5.Disorder
6.Day Of The Lords
7.Candidate
8.Insight
9.New Dawn Fades
10.She's Lost Control
11.Shadowplay
12.Wilderness
13.Interzone
14.I Remember Nothing

Bis:
15.Atmosphere
16.Ceremony

Bis 2:
17.These Days
18.Novelty
19.Transmission
20.Love Will Tear Us Apart




Cly Reis

domingo, 19 de junho de 2011

Peter Hook & The Light - show "Unknown Pleasures"



Circo Voador - Lapa/RJ - Aqui, agora, diante de um representante original de uma das bandas mais legendárias do rock, Peter Hook, ex-Joy Division, executando na íntegra um dos álbuns mais marcantes e emblemáticos de todos os tempos.
Absolutamente fantástico!




C.R.










Cly Reis

sexta-feira, 17 de junho de 2011

O Frango Atirador

Metallica + Lou Reed

O pessoal do Metallica já havia antecipado e deixado no ar que lançaria um material que, segundo eles mesmos, "não seria exatamente o Metallica", mas só agora desvendaram o mistério: o lance todo é que a banda gravou uma série de canções em parceria com o ex- Velvet Underground , Lou Reed e pretende lançá-las em álbum em breve. Não houve maiores informações como nome do álbum, previsão de lançamento ou algo mais consistente, apenas se sabe que serão dez músicas e que James Hatfiled se diz muito orgulhoso de trabalhar com o velho Lou.
Fica a curiosidade do que pode sair desta união e a expectativa. Boa expectativa, aliás.



C.R.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Retrospective Guy Bourdin 2011 – Casa de Cultura Mário Quintana – Porto Alegre- RS




Passou por Porto Alegre, mais precisamente, pela Casa de Cultura Mário Quintana, uma retrospectiva do fotógrafo francês Guy Bourdin (1928-1992). Numa palavra: putaqueupariu! Muito bom: instigante, provocativo, enigmático, bizarro, preciso. Vários adjetivos podem ser atribuídos ao trabalho deste escultor de imagens fotográficas, dada sua capacidade de imprimir seu olhar artístico ao objeto fotografado.
Guy Bourdin foi um dos precursores da fotografia no mundo da moda, misturando a esta tão comum prática da captura de imagens estáticas a arte contemporânea. Através de técnicas inovadoras e audaciosas, tudo sob uma visão debochada e detalhista, ele criou uma forma de fantasia aliando seu talento estético a situações inesperadas e ousadas, muitas vezes picantes. A moda e a fotografia eram suas ferramentas para explorar reinos entre o absurdo e o sublime, bebendo constantemente no surrealismo e no humor (negro, por vezes).
A retrospectiva compreendeu, na verdade, uma fase curta da carreira profissional de Bourdin, pegando principalmente a década de 70, época da consolidação do seu estilo, até início dos 80. Mas isso basta. Com produções feitas para grandes revistas de moda e para nomes da moda como Dior ou Jourdan, seu jeito altamente estilizado de compor imagens – muitas cores, iluminações altamente planejadas (fosse natural ou artificial), enquadramentos precisos (em foco ou não, superenquadrados ou não, simétricos ou não), suscita climas de suspense, estranhamento, humor e muita, mas muita volúpia.
Corpo feminino, sensualidade, pernas, saltos-altos...
mas não de um modo muito convencional
A valorização dos elementos retrô, a iluminação ora dura, ora de luz propositalmente “precária” e sombreada, aliado a seus enquadramentos criativos e à coloração intensa que empregava aos objetos (roupas, sapatos, corpos, móveis, maquiagens), influenciou largamente toda a produção fotográfica para moda, além de alguns cineastas e o conceito de alguns filmes. Da galera do cinema que bebeu em Bourdin estão: Win Wenders, Jean-Jacques Beineix, David Lynch, Jonathan Demme, irmãos Cohen e, principalmente, Percy Adlon de “Sugarbaby” e “Roseline Vais às Compras”.
Outro fator que me impressionou bastante foi que, como se não bastassem os excelentes quadros expostos com as fotografias feitas para revistas, todos minuciosamente produzidos (e para os quais eram certamente necessárias várias horas de trabalho até chegar ao resultado final), a exposição mostrou duas projeções de slide-shows com fotos tiradas por Bourdin nas ruas dos Estados Unidos, país onde residiu por muito tempo. Nestas, sua lente registrou o charme decadente do kitsch, as texturas sujas da cidade, as geometrias modernistas, a interação entre natureza e concreto. Mas, diferente das superproduções elaboradas para uma Vogue, pré-planejadas em todos os pormenores, ali, se via o contrário: imagens captadas no momento, sob luz natural na maioria das vezes, quase como um repórter ou cronista. Prova de que foi um artista completo na criação de imagens.

O misterioso, o curioso, o bizarro,
o sugestivo no olhar de Bourdin
Sensualismo com surrealismo,
marcas registradas
das lentes do artista
O olho urbano de Bourdin,
com um toque artístico para complementar
Imagem com plasticidade, impacto e força
levandoa inúmeras possibilidades
de leituras e interpretações
Sensualidade kitsch com ar de mistério



por Daniel Rodrigues

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Bezerra da Silva -"Alô Malandragem, Maloca o Flagrante" (1986)

"O Bezerra é o cara mais rock'n roll que eu conheço."
Paulo Ricardo, RPM


“Mas Bezerra da Silva é pagode!”, precipitar-se-ia algum eventual enfezado leitor ao ver “Alô Malandragem, Maloca o Flagrante” nos ÁLBUNS FUNDAMENTAIS. Ora, amigos, em primeiro lugar, eu não diria que Bezerra da Silva venha a tratar-se extamente de pagode, seria mais apropriado provavelmente dizer samba, samba de raiz ou partido-alto talvez, mas de qualquer modo, ainda que admitindo-se a precisão do seu termo, em momento algum eu afirmei que a seção deveria dedicar-se exclusivamente ao rock e seus assemelhados, a ver-se que por aqui já passaram Miles Davis, Tom Zé, Chico Buarque e outros. Mas mesmo que fosse com este fim, não haveria artista popular mais apropriado que Bezerra da Silva para representar essa relação do pagode (que seja), do samba do morro, do partido-alto com o rock. A crítica social, a digressão, a amoralidade, a rebeldia, a negação, a contravenção, são todos elementos comuns à música de Bezerra com o rock’n roll.
Entre malandros, dedos-duro, cornos, piranhas, bêbados, traficantes e policiais, Bezerra com sua interpretação escrachada confere à música um valor, até antropológico, por assim dizer, com a realidade do morro, da vida nas favelas, o modo característico de falar, as gírias e expressões, os costumes, os procedimentos, as descrições físicas e humanas, tratando tudo com o bom humor e a capacidade intrínseca do brasileiro de rir da própria desgraça.
Tem a denúncia social de "A Rasteira do Presidente"; tem um enterro interrompido pela polícia porque o caixão estaria cheio de muamba na hilária “Defunto Grampeado”; tem uma breve descrição de um espancamento a uma mulher que fora apanhada no flagra ‘enfeitando’ a cabeça do marido (“Quem Usa Antena é Televisão”); tem outra zoação com 'chifrudos' na engraçadísima "Sua Cabeça Não Passa na Porta"; tem a demonstração de desprezo e com os ‘caguetes’ evidenciadas em "Maloca o Flagrante" e "Língua de Tamanduá", e que aparece também em “Malandragem Dá um Tempo”, sendo esta última com o acréscimo da naturalidade ao tratar do uso de drogas; e ainda a relação malandro-mané em “Direitos do Otário”.
É interessante destacar, e muita gente não sabe, que Bezerra não escrevia as músicas, apenas as interpretava com aquele sua maneira toda particular de cantar. As letras incrivelmente bem-humoradas e certeiras eram compostas por ilustres desconhecidos do morro com os mais curiosos nomes como Pedro Butina, Cláudio Inspiração, Beto Sem-Braço e 1000tinho.
Disco muito legal e extremamente divertido. Sexo, drogas, violência, marginalidade... Quer mais rock’n roll que isso?
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FAIXAS:
• 1. Malandragem Dá Um Tempo
• 2. Defunto Grampeado
• 3. Quem Usa Antena É Televisão
• 4. Maloca O Flagrante
• 5. Vovô Cantou Pra Subir
• 6. A Rasteira do Presidente
• 7. Meu Bom Juiz
• 8. Língua de tamanduá
• 9. Na Boca do Mato
• 10. Sua Cabeça Não Passa na Porta
• 11. Os Direitos dos Otários
• 12. Compositores de Verdade

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Ouça:

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Iron Buttterfly - 'In-A-Gadda-Da-Vida" (1968)




"No final dos anos 60 não era socialmente conveniente andar por aí com o cabelo comprido até o cóccix."
Doug Ingle,
vocalista e tecladista


Ao começar a ouvir o disco, você até reconhecerá inevitavelemente algumas qualidades, logo de cara. Reconhecerá por certo toques profundos de psicodelismo, um rastro de folk, sombras de blues e os caminhos para o metal. Poderá até pegar-se tamborilando com os dedos na mesa enquanto ouve a boa "Most Anything You Want", batendo com o pézinho ao som de "Are You Happy?" com seu psicodélico prenúncio de peso, e até ensaiar um air guitar na embalada "Termination"; mas a faixa-título, um épico monumental quilométrico que, sobremaneira, impressiona  e justifica um lugar de destaque para "In-A-Gadda-Da-Vidda" , do Iron Butterfly, no olimpo dos grandes.
Ao longo de seus dezessete minutos a música "In-A-Gadda-Da-Vida", que no formato original em LP era a única faixa do lado B, desfila uma infinidade de variações, ritmos, influências e sonoridades. Uma loucura psicodélica total com guitarras pesadas, uma percussão viajante, órgãos completamente alucinados e um vocal rouco-grave-chapado. Detonante! Cáustico! Espetacular! Um dos primeiros pilares do hard rock e do metal!
Outro daqueles discos em que um erro, equívoco, um mal-entendido acabou gerando e consagrando o nome da obra: consta que o compositor, cantor e tecladista Doug Ingle anunciou ao baterista ter feito uma nova música, mas bêbado demais para falar corretamente o nome pretendido que seria "In The Garden of Eden", pronunciou "In-A-Gadda-Da-Vida" que foi o que o parceiro entendeu e anotou, só que sem saber escreveu 'errado' também na história do rock.

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Embora o grande barato de um disco desses seja tê-lo em LP por causa desta configuração com uma música apenas perfazendo um lado inteiro, não deixa de ser interessante ter a edição remasterizada em CD que traz três versões do clássico "In-A-Gadda-Da-Vida", a original, uma ao vivo e a do single, bem menor, editada especialmente para tocar nas rádios.
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FAIXAS:

Lado A
"Most Anything You Want" – 3:44
"Flowers and Beads" - 3:09
"My Mirage" – 4:55
"Termination" (Erik Brann, Lee Dorman) – 2:53
"Are You Happy" – 4:31

Lado B
" In-A-Gadda-Da-Vida " – 17:05

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Ouça:
Iron Buttefly In-a-gada-da-vida 


Cly Reis