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quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Rio Antigo (?)


















fotos: Cly Reis

cotidianas #178 - Nota social


O poeta chega na estação.
O poeta desembarca.
O poeta toma um auto.
O poeta vai para o hotel.
E enquanto ele faz isso
como qualquer homem da terra,
uma ovação o persegue
feito vaia.
Bandeirolas
abrem alas.
Bandas de música. Foguetes.
Discursos. Povo de chapéu de palha.
Máquinas fotográficas assestadas.
Automóveis imóveis.
Bravos...
O poeta está melancólico.

Numa árvore do passeio público
(melhoramento da atual administração)
árvore gorda, prisioneira
de anúncios coloridos,
árvore banal, árvore que ninguém vê
canta uma cigarra.
Canta uma cigarra que ninguém ouve
um hino que ninguém aplaude.
Canta, no sol danado.

O poeta entra no elevador
o poeta sobe
o poeta fecha-se no quarto.
O poeta está melancólico.

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"Nota Social"
Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

"Fahrenheit 451", HQ de Tim Hamilton, baseada na obra de Ray Bradbury - Globo Graphics (2012)



Acabei de ler há pouco a HQ "Fahrenheit 451", baseada no livro homônimo de Ray Bradbury e fiquei bastante bem impressionado. A adaptação do norte-americano Tim Hamilton é sombria, é forte, é inquietante, em grande parte, sim, pelo conteúdo original, de um futuro onde os livros são proibidos e queimados pelas autoridades, mas muito pela maneira como vê, como interpreta cada frase, cada cena descrita pelo escritor original. A obra em graphic novel é muito mais fiel que a adaptação cinematográfica de François Truffaut, muito mais poética e com mais ênfase direta nos livros especificamente, culminando naquele belíssimo final de biblioteca viva. A versão do desenhista, avalizada e prefaciada com láureas pelo próprio Ray Bradbury recém falecido no último mês de junho, centra-se mais no cerceamento da liberdade, nos aspectos sociológicos e no empobrecimento cultural humano, trazendo-nos um Montag perturbado e confuso, e principalmente por conta de seus quadrinhos escuros, indefinidos e diáfanos, compondo um quadro geral final que soa um tanto mais pessimista.
Vale conferir!
Mais uma grande obra da literatura adaptada com brilho e competência para os quadrinhos. Que continue assim!





Cly Reis

terça-feira, 11 de setembro de 2012

"Macanudismo - Quadrinhos, Desenhos e Pinturas" por Liniers - Caixa Cultural - Rio de Janeiro



Esse é, na verdade, mais um Fui e Vi do que um "Val e Veja" uma vez que a exposição em questão encerrou-se anteontem, 09 de setembro, mas fica apenas o registro da visita ao evento que incluía debates, oficinas, mostras e o lançamento no Brasil do livro "Macanudo #5" do cartunista argentino Liniers, particularmente um dos meus preferidos da nova geração (se formos considerar Angeli, Laerte, Vasquez, Quino, como uma 'velha-guarda'), no Centro Caixa Cultural, aqui no Rio de Janeiro.
Não participei das outras possibilidades da programação, como as mesas-redondas, ateliês e tal. Apenas passei meio na pressa, meio de passagem mas com tempo o suficiente para dar um boa conferida e uma apreciada na obra deste excelente artista.
Essa não adianta nem correr mais pra ir porque já foi.
Abaixo algumas imagens da exposição:





por Cly Reis

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Brasa Adormecida







foto de lajota cerâmica quebrada sobre brasa de carvão

fotos: Moacir Júnior

cotidianas #177 - Difícil de Explicar


As mulheres resolveram se reunir para comemorar o aniversário de formatura.
Conheciam-se havia, sei lá, 15, 16 anos e nunca tinham marcado nada juntas sem os maridos.
Marcaram uma reuniãozinha na casa de uma delas só pra fofocar, botar a conversa em dia e tomar umas que outras. Os maridos podiam, por que elas não, ora?
Poder, podiam. O problema é que passaram um pouquinho da conta e ficaram um pouco 'altas demais'.
Lá pelas tantas da madrugada, uma delas, completamente bêbada, mal se aguentando em pé, resolveu que era hora de ir embora. Pegou o carro e pôs-se a dirigir a caminho de sua casa, Deus sabe lá como. Só que no meio do caminho, coisas de bêbado, deu aquela irresistível vontade de mijar. Não tinha como segurar. Um muro? Um pátio? Uma moita? Avistou então um cemitério. Ah, ia ser ali mesmo! Parou o carro próximo ao portão e ignorando até mesmo o sinistro do lugar, sem opção melhor e completamente sem noção pela bebedeira, decidiu fazer ali mesmo, dentro do cemitério. 
Desceu do carro, foi-se cambalenado, tropeçando, caindo, esfolando os joelhos, até que não aguentando dar mais um passo subiu na tampa de uma sepultura qualquer, tirou a calcinha e se aliviou ali mesmo.
Ahhhh!!!
Acabando, e não encontrando nada com o que se limpar, pegou a primeira coisa que lhe estava ao alcance, uma fita de uma coroa de flores que estava em cima de um túmulo e a usou como papel higiênico. Levantou, esquecendo-se até mesmo da calcinha, e saiu meio cambaleante andando entre os túmulos até chegar ao carro. Depois disso nem sequer lembrava de como chegara em casa.  
No dia seguinte acordou com uma tremenda ressaca. Não lembrava de praticamente nada da noite anterior. Só recordava de ter saído da casa da amiga e depois, puff! Tudo sumia da sua memória.
Encontrou o marido na cozinha, tomando café e ao lhe dar bom dia, o viu transtornado com os olhos cheios d'água:
- Está tudo acabado entre nós. Tudo - disse o marido.
- Como assim? Mas... por que? Só por que eu saí com as minhas amigas uma única vez? Uma vezinha só! Você sai com seus amigos toda as semanas... - tentou argumentar a esposa.
- Amigas, é??? - retorquiu indignado - Amigas? Então como é que você me explica ter chagado em casa bêbada, de madrugada, com os joelhos todos lascados, sem calcinha e com uma fita presa na bunda com a inscrição: "Jamais te esqueceremos: Vagner, Moisés, Elias e toda a turma da faculdade." ?
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É... Dífícil de explicar.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Capital Inicial - "Capital Inicial" (1986)




"Porque pobre quando nasce com instinto assassino
Sabe o que vai ser quando crescer desde menino
Ladrão pra roubar, marginal pra matar
'Papai eu quero ser policial quando eu crescer' "
da letra de "Veraneio Vascaína


Um dos ilustres representantes do rock de Brasília e um dos tentáculos do Aborto Elétrico, embrião que também originou a Legião Urbana, o Capital Inicial em seu excelente disco de estreia fazia um pop altamente acessível e palatável sem, no entanto abrir mão da veia punk que o originara. Mesmo hits como “Música Urbana”, por trás de uma competente produção que lhe enfeitava com metais e com uma linha de teclado simpática e marcante, traziam a sombra do caos cotidiano e da indignação social característica do punk rock. “Fátima”, o outro grande sucesso do álbum, também um pop, porém um tanto mais grave, mais tensa, mais séria, com suas sugestões religiosas, filosóficas e pitadas de alfinetadas contra a ditadura numa letra de Renato Russo, interpretada com notável competência e intensidade por Dinho Ouro-Preto. Já “Psicopata”, outra de boa execução radiofônica, era um punk comportamental agressivo e sem concessões. Básico, rápido, violento e forte. Uma pedrada! Pedrada? Bomba mesmo era “Veraneio Vascaína”, punk até a alma sob todos os aspectos, em sonoridade, letra e atitude, responsável direta pela proibição peremptória e incondicional do álbum, numa letra pra lá de detonante na qual rotulam a polícia de “assassinos armados uniformizados”.
“Cavalheiros” é outra com características punk, pegada e acusativa;  a acelerada “No Cinema”, embora tratando de um tema banal guarda sua dose de agressividade sonora; e  a boa “Leve Despespero” pende mais para o lado do darkismo dos anos 80, mais cadenciada e com uma letra intimista e depressiva, mas nem tudo é ‘ferro-e-ferro’ e o álbum tem momentos mais leves como “Tudo Mal” e “Linhas Cruzadas”, que apesar de retratarem relações infelizes, dão um toque um pouco mais descontraído sonoramente.
É bom que se diga e não se esconda a verdade que as melhores letras deste primeiro disco do Capital, "Múasica Urbana", "Fátima" e "Veraneio Vascaína" eram de autoria de Renato Russo, frutos ainda do finado Aborto Elétrico, mas não é fato suficiente que deslustre o mérito desta competente banda que soube dar personalidade a estas canções, imprimindo sua marca e conferindo-lhes interpretações marcantes através de seu vocalista.
Outro dos ilustres representantes do rock de Brasília e dos grandes pilares do BRock dos anos 80. Que metade de década foi aquela que nos proporcionou entre 85 e 86 álbuns como "Cabeça Dinossauro", "Dois", "Vivendo e Não Aprendendo", "Revoluções por Minuto", "Nós Vamos Invadir Sua Praia" e este “Capital Inicial” de 1986!
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FAIXAS:
  1. "Música Urbana" 3:30 (Fê Lemos, Flávio Lemos, André Pretorius, Renato Russo)
  2. "No Cinema" 2:56 (Fê Lemos, Flávio Lemos, Loro Jones)
  3. "Psicopata" 2:49 (Fê Lemos, Flávio Lemos, Pedro Pimenta, Loro Jones)
  4. "Tudo Mal" 3:12 (Fê Lemos, Rogério Lopes de Souza, Loro Jones)
  5. "Sob Controle" 3:31 (Flávio Lemos, Dinho Ouro Preto, Loro Jones)
  6. "Veraneio Vascaína" 2:15 (Renato Russo, Flávio Lemos)
  7. "Gritos" 3:27 (Fê Lemos, Dinho Ouro Preto, Loro Jones, Guta)
  8. "Leve Desespero" 3:53 (Fê Lemos, Flávio Lemos, Dinho Ouro Preto, Loro Jones)
  9. "Linhas Cruzadas" 3:36 (Fê Lemos, Flávio Lemos, Dinho Ouro Preto, Loro Jones)
  10. "Cavalheiros" 3:25 (Fê Lemos, Flávio Lemos, Dinho Ouro Preto)
  11. "Fátima" 3:49 (Renato Russo, Flávio Lemos)

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Ouça:

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

cotidianas #176 - Pano Torcido



 Sentado no banquinho branco, preto de tão engraxado que ninguém lembrava mais que um dia foi branco, ele fixava o olhar no nada do horizonte. Carros passavam barulhentos na avenida movimentada e de calçada estreita, amplificando o ronco dos motores dentro da oficina. Canos de descarga despejavam sua fumaça, intoxicando o ambiente. Porém, nem percebia. Nada o distraía, afinal, já estava suficientemente distraído e entorpecido torcendo aquele pano sobre o balde de metal. As gotas sujas que escorriam escureciam mais e mais a água, adensando-a. E ele seguia torcendo. Torcia, torcia repetidas vezes e numa sincronia exata, de tempos quase simétricos de tão regularmente espaçados. Cada mão fazia um movimento para um lado. Três vezes, em espaços de cinco segundos cada movimento. Até que estendia com a ponta dos dedos o tecido e o sacudia para extrair mais algum conteúdo que tivesse. Mas não pingava mais nada há bastante tempo, pois o pano, de tantas vezes torcido, já estava seco, ainda mais com a quentura que suas mãos. Mãos que aquela noite iriam, enfim, agir. Estava decidido: era chegada a hora de acabar com aquela pouca-vergonha com as próprias mães. Planejara tudo. Daquela noite não passava.
"Trama Sangrada" -
Rodrigues, Daniel
Chegou em casa pelas seis e quarenta e cinco da tarde, como regularmente chegava todos os dias. Entrou pelo portão frontal e passou pela primeira casa em direção à sua, nos fundos. No estreito corredor lateral, nem percebeu o cumprimento de dona Eulália, a vizinha idosa, boa gente e muito carente, que logo, logo ia se recolher. Ela, sem atenção dos parentes, o esperava naquela hora todos os dias para dar um simples “boa noite”. Mas aquele dia não era “todos os dias” para ele: era um dia diferente. Era o dia em que, finalmente, acabaria com aquela agonia.
A porta de madeira envelhecida e de pintura gasta estava entreaberta como sempre. Empurrou-a com a palma e entrou. A mulher, como de costume àquela hora, estava na pia, lavando louça. Ela não tirou os olhos da água, mas obviamente percebeu a chegada do marido, já tão corriqueira e banal que não merecia o esforço de um “oi”. Mas ele, ao invés de entrar e ir direto em direção da térmica na mesinha para servir seu cafezinho tradicional, parou logo depois da porta a olhar para a mulher. De pé, com o macacão sujo de graxa, mas com as mãos limpíssimas e fedidas de querosene. Largou cuidadosamente a maleta de ferramentas ao lado da pia e continuou ali parado, fitando-a com um olhar curioso mas ao mesmo tempo desamparado e doentio. Não deu muito tempo e ela, notando-lhe a falta de reação, parou a lavagem impaciente:
- Qué qui foi, hôme?! – rosnou-lhe. – Vai ficá aí parado feito jerivá? Não me diz que tu já tá com aqueles piri-paque de novo?
- Qui piri-paque qui nada, mulhé! Joga essa boca pra lá! – desviando o até então fixo olhar.
- Olha, Jair, eu já te falei qui se tu não cuidá dessa pressão eu também não te cuido. Vai morrê tendo um tréco na minha frente sozinho qui eu não vô nem te acudí!
- Não é pressão, Nilza. Pára de falá berstêra!
- Hum... se eu não te conheço – falou desconfiada, mirando-o com a testa franzida e voltando-se de novo para a louça.
Calaram-se novamente. Ouvia-se apenas o latido insistente do Bóbi vindo do pátio, que não parava desde que ele chegou. Os latidos o incomodavam, mas, por outro lado, ele estava comemorando no seu íntimo pela reação da mulher. Não pela grosseria, com a qual já estava acostumado, afinal quem iria dar valor para um homem fraco, doente, sem instrução e que “mal consegue botar arroz e feijão dentro de casa”? Ninguém, nem mesmo ele. Tinha consciência de que era um fracassado (afinal, não era assim que seu pai lhe chamou a vida toda enquanto esteve vivo: “fracassado”?). A comemoração era, sim, por ela ter creditado que o seu comportamento diferente se devia à saúde. Que bom, pois isso a despistava. A não-desconfiança da mulher (sempre muito atenta a todos os movimentos dele, como se sempre antevisse o que ele ia fazer ou dizer), assim, era menos um obstáculo para o que tinha em mente. Maria Cristina não voltaria, porque tinha ido dormir numa amiga. Só faltava agora dona Eulália se recolher, o que fazia todos os dias pontualmente às sete da noite, bem cedo, coisa de velha. Mas ainda faltavam alguns minutos, e aquela postura estática era porque ele estava uma pilha de nervos. Soava frio debaixo do macacão, meio inebriado, tão nervoso que seus movimentos pareciam congelados, pois ainda permanecia de pé no mesmo lugar de quando chegou. Como um jerivá plantado ali há séculos.
Ainda atida aos pratos, ela observou-o de canto, mais com a sobrancelha do que com o olho, e soltou:
- Teu irmão Oswaldir que teve aqui mais cedo...
Silêncio dos dois. Dela, de expectativa pelo o que ele iria falar, e dele, de total incômodo com o fato. Tanto desacomodou que o fez sair daquela inércia e, finalmente, dar passos em direção à mesa da cozinha. Bóbi, lá fora, seguia latindo. Parou de novo ali, em pé. Virou a cabeça e observou pela basculante acima da pia a casa da frente: dona Eulália já tinha fechado a janela. A luz ainda estava acesa, mas já havia fechado a janela. Bom sinal; sinal de que em minutos poderia entrar em ação e acabar com aquela humilhação, com aquela sem-vergonhice de uma vez por todas. Meu Deus, pensava, era muito rebaixamento para um homem. Se ainda fosse com um outro... mas... o próprio irmão! E dentro da sua casa! Que descaramento! O que dona Leni (“que-Deus-a-tenha”), ia pensar daquilo? Seria muita tristeza para uma mãe, pensava, ainda mais para ela, que teve a vida tão sofrida.
Ele entendia o porquê das risadinhas e piadas maliciosas dos colegas e até de clientes na oficina. Claro que entendia! Mas fazia-se de tonto, o que, porém, não diminuía sua dor. Não conseguia nem pensar nos dois na cama se tocando, se alisando, se beijando, babando um no outro... Dava-lhe náusea, e a pressão, que andava cada dia pior, subia nas alturas. Mas naquele dia ele controlou a pressão com o remédio e segurou a ansiedade o dia todo, concentrado, como um assassino frio e calculista. Agora, no entanto, seu estado nervoso lhe traía. Suava feito um porco testa abaixo, costela abaixo.
- Esse cachorro não pára de latí... – disse ele baixinho num tom assutado, como se tivesse sido descoberto pelo cão.
- É esse cusco duz’inferno! – praguejou ela. – Um dia ainda jogo esse bicho no mato.
Mexeu no bigode e não respondeu nada para não dar prosseguimento no assunto, num medo idiota de que a mulher fosse traduzir o latido em palavras.
- Vai ficá com esse macacão gosmento a noite toda, hein? E não vai tomá o teu café? Recém passei.
Depois de uma pausa, retomou:
– Teu irmão trouxe umas coisa da feira, umas fruta, uns verde. Tudo coisa boa, de qualidade.
- Já te disse que não gosto que ele fique trazendo coisa aqui pra casa. Já te falei, não te falei? Ele não tem nada que ficá trazendo coisa aqui pra casa. Essa não é a casa dele! Tu não é mulher dele, ora essa!... Se ele não se arranja c’as mulhé por aí, problema dele. Não sei purquê tu continua aceitando essas coisa?
- Mas e eu vô negá coisa boa? Quem ouve falá até parece que tem condições de trazê coisa boa pra casa! Rá! Um inútil que trabalha, trabalha e mal consegue botá arroz e fejão dentro de casa! Teu irmão, não. Ele sim sabe o que é bom, sabe agradá as pessoa. Sabe agradá uma mulhé... – disse essa última frase num tom mais baixo, mas suficiente para que o marido ouvisse. – Ah! E os istudo da tua filha, nem preciso te dizê, né?, qui sô eu que pago com as custura e com a pensão da mãe. Se fosse dependê de um molerão como tu, rá!, a gente tava era muito rúim, isso sim.
Ele ouvia tudo quieto, mas cuspindo ódio pelos olhos. Pensava consigo que ela iria engolir todo aquele desacato e desonra que o fazia passar. Cada palavra, cada insulto. Ela e o cafajeste do seu irmão iriam ver. Era isso todo dia! Já tinha passado dos limites. Voltou-lhe à mente, no entanto, a imagem dos dois juntos. Imaginou-os agora suados deitados no chão da cozinha, em frente ao fogão, nus, engordurados. Podia ter sido ali naquela tarde, debaixo de onde estava pisando agora... que eles... que eles... Não! Não conseguia nem dizer pra si mesmo. Não podia mais aguentar! Aflito, verificou se dona Eulália já tinha se recolhido. Sim: janela fechada e luz apagada. Passavam alguns minutos das sete, então ela já caíra no sono. A filha, igualmente, não voltaria naquela noite, pois ele teve o cuidado de ligar-lhe mais cedo quando, emocionado, quase deixou escapar um ”adeus”.
A caixa de ferramentas permanecia ao lado da pia, pois estava tudo ali, no lugar certo, como planejou. Arquitetara tudo: primeiro, quando a mulher estivesse de costas, dava-lhe uma pancada forte com o alicate de pressão, pesado o suficiente. Em seguida, enchia-lhe a boca com buchas de estopa para não ouvirem os gritos. Depois usaria os dedos para esgoelá-la e amolecê-la. Por último, cravava no seu olho a chave de fenda mais comprida que tinha. Sabia que ia espirrar muito sangue e que ela iria se debater até desvanecer, sabia disso. Mas tinha visto num filme que, quando se perfura o globo ocular com profundidade em direção ao osso occipital, se atinge o cérebro, e, aí: adeus. Por isso mesmo não tirava o macacão, já ensopado de tanto suor. Aliás, esses pensamentos faziam suas mãos tremerem. Seu corpo todo se tomava ao mesmo tempo de cólera e medo. Chegara, enfim, a hora. Mas, de repente, a mulher se vira pra ele:
- Qué isso, Jair?! Derramou todo o café na mesa que eu acabei de limpá! Imporcalhô tudo! Tu só sabe fazê porcaria, hein? É tão abestalhado que não sabe nem serví mais o teu próprio café?!
Absorto, ele nem notara que a canequinha de metal já se enchera daquele café escuro feito breu.
- Limpa essa imundícia com esse pano de prato. Faz alguma coisa útil – ralhou, entregando-lhe um esfregão úmido.
Ele segurou firme naquele pano com as duas mãos, amarrotando-o, fazendo saltar ainda mais as veias azuladas e já sobressalentes de seus braços pálidos, magros e morrudos. De repente, sua bochecha esquerda começou a tremer involuntariamente. Seu ser inteiro era um misto de inquietação, vergonha, medo e horror. Chegava a enjoar. Não sabia o que sentir. Mesmo jamais tendo sido um homem violento, teria que ter coragem para isso. Vinha matutando há meses: não podia falhar agora. Não podia mais bancar o fraco, como a mulher, a sogra e até os outros lhe diziam. Precisava provar o contrário, mostrar do que o “fraco” era capaz. Provar que era um homem. Mas não conseguia controlar os nervos. Mal articulava um pensamento lógico. Várias imagens, vários sons se misturavam em sua cabeça: o Bóbi latindo, dona Eulália cumprimentando, a mulher e o irmão trepando, o som do pingo da água preta no balde. Uma confusão total. Mas, enfim, tinha que se controlar, pois aquela era a hora: era tudo ou nada. Então, decidido, chamou-a firme e com rispidez:
- Nilza!
Imediatamente ela se voltou e o mirou de cima a baixo com espanto e descrédito, o mesmíssimo olhar desabonador que dedicava ao Bóbi quando pedia comida.
- Qui é, hôme?!... Vâmo: fala!
Ele hesitou, hesitou e disse:
- Ééé... Não. Não é nada, Nilza. Não é nada.
- Iiiih, tu tá é muito isquisito hoje, isso sim. Toma o teu café que eu logo te sirvo a janta e depois tu vai é te deitá. Amanhã é ôtro dia, si Deus quisé.
Sem retrucar, ele baixou a cabeça, esfregou a mão melada de café açucarado no pano de prato e sentou-se infantilmente e quase sem forças à mesinha. Deu um gole do café, que lhe desceu tão amargo que nem parecia já conter açúcar.


segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Exposição "Dalí - A Divina Comédia" - Centro Caixa Cultural - Rio de Janeiro





Visitei no último final de semana, antes que acabasse, a exposição “Dalí – a Divina Comédia” com obras temáticas do artista surrealista ilustrando a obra imortal de Dante Alighieri.
Salvador Dalí, 
mestre do surrealismo
Num conjunto de 100 pinturas, o artista catalão, retratou, na sua visão bem peculiar, cada uma das etapas de “A Divina Comédia”, o “Inferno”, o “Purgatório” e o “Paraíso”, em aquarelas com bicos de pena e xilogravuras no seu traço característico distorcendo a percepção lógica de realidade. E quer obra mais sugestiva que esta para este fim com todos os seus demônios, almas, fogo, o sagrado, o profano, paisagens improváveis e sofrimento?
Combinação perfeita: Dalí / Dante!
Quem quiser conferir tem que correr, assim como eu fiz, pois esta é a última semana.



Confira aí algumas imagens da exposição:






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Exposição “Dali – A Divina Comédia”
No Centro Cultural Caixa
Av. Almirante Barroso, 25, Centro, Rio de Janeiro
até 02 de setembro de 2012
Entrada Franca






por Cly Reis

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Ira! - "Vivendo e Não Aprendendo" (1986)


“O Edgard senta na mesa e diz assim: ‘Olha, não é nada disso, não tem nada dessa história de rebeldia juvenil. Realmente é um preconceito contra a invasão de nordestinos, era o que eu estava pensando na época e foi isso o que eu quis dizer mesmo, eu não agüentava essa coisa de música baiana, de Caetano, de Gil'. Na hora, esse foi mais um dos insights que eu tive. Puta que o pariu, defendi durante anos essa letra, carreguei essa cruz. Agora, naquele dia, eu saí de lá falando assim ‘eu nunca mais canto essa música.’ ”
Nasi, à Revista Trip em 2008
sobre a música “Pobre Paulista”


Um dos melhores discos do rock nacional.
Mais um daquela safra brilhante da metade da década de 80 que inclui o "Dois" do Legião, o "Cabeça Dinossauro" dos Titãs, o "Selvagem?" dos Paralamas, o Capital Inicial com seu disco de mesmo nome, entre outros bons que apareceram por ali.
“Vivendo e não Aprendendo” do Ira! era a afirmação de uma banda que havia aparecido bem no seu primeiro trabalho, “Mudança de Comportamento” de 1985, mas que então ganhava o respeito definitivo de público e crítica. Mais do que isso, era a afirmação Edgar Scandurra como o melhor guitarrista brasileiro dos últimos tempos e com certeza o melhor daquela geração. Músico capaz de riffs agressivos como o da espetacular “Dias de Luta”, melodias ternas como a da melancólica “Quinze Anos”, ou referenciais como em “Envelheço na Cidade”.
Nas composições de Scandurra pela voz de Marcos Valadão, conhecido como Nasi, o Ira! proporcionava com “Vivendo e não Aprendendo”, retratos urbanos recheados de imagens, sentimento coletivo e realidade cotidiana. A confusão da cidade, a violência, as multidões, as paixões e os desencontros na ótima "Vitrine Viva" com sua linha de baixo forte e matadora; a alienação, o dinheiro, a indignação na punkzinha “Nas Ruas”; o preconceito pueril de Edgar Scandurra em “Pobre Paulista (“não quero ver mais essa gente feia / não quero ver mais os ignorantes / só quero ver gente da minha terra / eu quero ver gente do meu sangue”); e o grito coletivo de desemprego, fome poluição de “Gritos na Multidão” são exemplos perfeitos desse desenho musical social proposto pelo Ira!.
No entanto, o grande sucesso do disco, muito devido ao fato de fazer parte da trilha de uma novela, foi “Flores em Você”, canção de letra curta, que nas mãos do produtor Liminha ganhou um belíssimo arranjo de cordas que lhe conferiram toda uma grandiosidade e graça.
O Ira! nunca mais conseguiu produzir um álbum como este. Fez uma coisa boa aqui, outra ali, os integrantes principais, Nasi e Edgar envolveram-se em projetos paralelos interessantes mas o grupo nunca mais foi o mesmo. A obra excessivamente diversificada, atirando em todas as direções, fez com que nunca tivessem conseguido manter uma unidade de estilo ou de intenção e não conquistassem um grande público de fãs como foram os casos de Legião, Titãs, Capital. Talvez se tivessem se fixado um pouco mais em determinada linha, ou principalmente, se tivessem feito coisas próximas a este “Vivendo e Não Aprendendo”, tivessem se consolidado posteriormente e tivessem mantido o interesse do público por seu trabalho. Mas isso não é tudo e o Ira!, por mais que tenha sumido da grande mídia, sempre teve seu público fiel. O que importa é que certamente tratou-se de uma das grandes bandas do cenário nacional e que foi fundamental no alavancamento do rock brasileiro naquela metade de anos 80. Se teve seus erros, teve, mas teve seus acertos também, e que foram muitos.
Enfim... a vida é assim, é vivendo e aprendendo.

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FAIXAS:

01.  Envelheço Na Cidade 3:17
02. Casa De Papel 3:36
03. Dias De Luta 4:26
04. Tanto Quanto Eu 2:50
05. Vitrine Viva 2:20
06. Flores Em Você 1:54
07. Quinze Anos (Vivendo E Não Aprendendo) 2:40
08. Nas Ruas 4:17
09. Gritos Na Multidão 3:08
10. Pobre Paulista 4:57


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Ouça:

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Tumor









"Tumor" - Reis, Cly
76x49 (chapa de alumínio, arame, pregos, plástico-bolha e tinta acrílica)

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

cotidianas #175 - Entalpia



100 miligramas
nem telefonema
uma injeção de ânimo
ou de Coca-Cola na veia

Sem telegrama
cirrose ou enfizema
uma oversose de aspirinas
Êxtase em minha consciência

Não há mais herois
Então quero minha heroína
Aonde está
Vem pra perto de mim
Mulher Maravilha-de-Jardim

Eu estou no éden
eu Estou no éter

Sou viciado em uma droga X
aminoácidos pra poder dormir
É o fim da picada
É o fim da picada
Viciado em N substancias
preciso de enzimas
Singapura
Anestesia

Eu entrei numas
Eu estou noutra
Mas só não consigo criar
Anti-corpos-teus


Cly Reis

sábado, 18 de agosto de 2012

Massive Attack - Mezzanine (1998)




"O Massive Attack nunca foi uma banda convencional."
Robert Del Naja



Conheci o Massive Attack com o clipe de “Teardrop” na MTV. Fã que sou de Cocteau Twins, fiquei fascinado com aquela combinação da voz angelical de Liz Fraser com a batida eletrônica sutil e a melodia delicada da canção. Descobrindo que a música fazia parte do álbum “Mezzanine”, tratei de comprá-lo o quanto antes. Para minha agradável surpresa, ouvindo o álbum, chegava então à conclusão que a excelente “Teardrop” não era a melhor coisa que aquele disco tinha. A começar por “Angel”, que abre o disco, com seu ar misterioso, atmosfera árabe, vocal meio sussurrado, iniciando suavemente até incendiar-se com uma furiosa e estrepitosa guitarra que dá corpo à canção da metade para o final.
O disco todo é meio que mergulhado em climas orientais arábicos e a ótima “Innertia Creeps” com sua percussão bacanérrima e a faixa-título do álbum, “Mezzanine”, repetem esta característica de forma bem marcante. Mas o disco é um festival de estilos, influências e colagens e dentro disso, cores reggae aparecem sutilmente combinadas ao vocal hip-hop de “Risingson”; mais fortes no baixo grave de “Dissolved Girl”, e mais evidentes na condução da ótima “Man Next Door”, que conta com samples de The Cure e Led Zeppelin; já “Exchange”, esta com trecho sampleado de Isaac Hayes, é um adorável cool jazz charmoso com a marca da sofisticação sonora do grupo.
Liz Fraser volta a aparecer em duas faixas, “Black Milk”, canção lenta em que divide os vocais com um dos vocalistas do Massive, Rober Del Naja; e na excelente “Group Four” uma espécie de pesadelo crescente, intensa, forte, de vocal envolvente e enfeitiçante de tirar o fôlego. Para recuperá-lo, antes de encerrar o disco, “(Exchange”) retorna só para dar aquele último gostinho e aquela relaxada final para terminar com uma sensação gostosa.
Um ótimo disco de uma banda que sempre fez discos no mínimo interessantes mas sofria constantemente com problemas internos. Na época do “Mezzanine’ conta inclusive que os integrantes mal se falavam. Pode? Nem mesmo sei como é que um grupo que brigava tanto conseguiu produzir pérolas como foram especialmente o ótimo "Blue Lines" e este, também excelente, “Mezzanine”.

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FAIXAS:
  1. "Angel" - 6:18
  2. "Risingson" - 4:58
  3. "Teardrop" - 5:29
  4. "Inertia Creeps" - 5:56
  5. "Exchange" - 4:11
  6. "Dissolved Girl" - 6:07
  7. "Man Next Door" - 5:55
  8. "Black Milk" - 6:20
  9. "Mezzanine" - 5:54
  10. "Group Four" - 8:13
  11. "(Exchange)" - 4:08


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 Ouça:

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

cotidianas #174 - Dentro (II)




"Voz e Fera" - Rodrigues, Daniel
grafite sobre sulfite com manipulação digital, 18x 16cm
Calou no peito
porque pegou no fundo
o dito não grato
que ao ouvido arde.

Vocifera e emudece
Acomoda na introspecção
Acolhe mas desespera
Quase contrito
e vai parar no mar dos olhos
semicerrados de água salgada

Agridoce gosto
sorriso sem dente
amarelo como vermelho-sangue.

Cala no peito calado, vivo
pois que grita mudo na boca.


quinta-feira, 16 de agosto de 2012

"Maus - A História de um Sobrevivente", de Art Spiegelman - Cia. das Letras (2005)


Acabei de ler ontem a consagrada HQ agraciada ineditamente com um Prêmio Pulitzer, a excelente “Maus”, do jornalista e ilustrador Art Spiegelman, e comprovo que realmente ele justifica a condição de um dos maiores e mais importantes trabalhos em quadrinhos já publicados.
Spiegelman, filho de um judeu sobrevivente da segunda guerra, conta a saga do pai em esconderijos sub-humanos, vivendo de migalhas de comida, sob mira de metralhadoras e entre campos de concentração, misturando isso ao próprio processo de criação, à sua condição psicológica em relação à mãe, ao irmão que não conheceu, à própria obra e ao estado do pai, velho, ferido, esclerosado e cheio de reminiscências do Holocausto, que lhe relata toda essa dolorida história entre ranzinices e mesquinharias.
Poderia até passar por mais uma obra em quadrinhos qualquer não fossem alguns detalhes importantíssimos: a amarração perfeita, coerente e precisa da narrativa, o caráter documental de uma história verídica contada com implacável detalhamento e colocada de maneira absolutamente crua e chocante; a qualidade gráfica de Spiegelman e o retrato traçado por ele, desenhando os judeus como ratos, os alemães como gatos, americanos como cães, franceses como sapos, poloneses como porcos, assumindo assim já na concepção da obra um caráter crítico e pessoal, até bem discutível enquanto comparação étnica, mas inegavelmente dotado de admirável originalidade artística.
Publicado originalmente em duas partes, em 1986 e 1991, e lançado em versão integral no Brasil em 2005, "Maus" é a prova definitiva que as HQ's, assim como filmes, livros, entrevistas, etc. podem ser, sim, documentos históricos sérios e altamente qualificados e confiáveis. Certamente já se viu grandes filmes sobre Segunda Guerra Mundial, já se viu fotos marcantes, já se leu admiráveis ensaios e ralatos, mas nunca (ou poucas vezes) até então alguém havia feito uma obra em quadrinhos sobre o assunto com tamanha força, contundência, credibilidade e varacidade.
Obra de Art.



Cly Reis

terça-feira, 14 de agosto de 2012

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Os Causo de Dois Morro - As Olimpíada de Dois Morro




'Cês fico falando muito dessa tar de Olimpida de Lontra, Londra, Londre, sei lá eu como é o nome, mas ninguém nunca que se alembra que de começo, os premero jogos olimpinico fôro em Dois Morro.
Ééééé!!!
Teve os dos grego, que foi bem antes, mas mesmo naquele tempo, os maior vencedor já ero os doismorrense.
Mas os jogo das era-modérnica começaro lá pelos ido 1685, maizomeno. Dois Morro naquela época era a maior potença mundiar e o Comitê Limpico foi lá perguntá pro Coroner Ormenegirdo se podia de realizá os Jogo Olímpico na terra dele. Ele disse que podia mas só se fosse as competição que ele quisesse. Nada disso de marchatlética com home se arrebolando, ginástecartística com macho de colã, nem sarto ornamentar sincronizado que essas coisa são coisa de fresco. Os organizador num gostaro muito mas concordaro, afinar de conta naqueles tempo tudo o que o mundo queria era assistir a uma Olim Piada em Dois Morro e eles não querío desapontá os telespectador do nundo intêro.
Pois entonce que se assucedeu-se os Jogo.
A festa de iniciamento foi uma lindeza: foi no estádio do Doismorrense e tinha mais de 400 mil pessoa lá pra vê. Teve chôu forcrórico de Dois Morro, chôu de ranchêra, teve uma criôla lá, uma tar de Neyde Zys que cantô umas música esquisita e uns roquêro maluco uns tar de Os Cabeça que fôro convidado a se retirá do parco pois num tavo agradando. Depois entrou as comitiva dos país: da Pérsia, de Esparta, da Babilônia, da Mesopotâmia, da Alsácia, da Indochina, de Atrântida, de tudo que era país importante. Dispois o púbrico formava uns desenho com uns pedaço de papér colorido que cada um levantava, como tava todo mundo bêbado, uns não fazío junto, cada um levantava na hora errada, ôtros pegava o papér de ôtra cor,...Ih! Ficô um horror.
Até que lá pelas tanta, fartô luz no estádio. Aí que juntaro um monte de galho seco na parte de cima do telhado da arquibancada pra mode fazê uma foguêra ali e alumiá todo o campo, nisso o coroné mandou vir lá da fazenda dele um peão com uma tora acesa na mão pra acendê a tar da foguêra. Antonce que o empregado dele, o tar do João Baratona veio correndo com a o pau aceso na mão (num bom sentido, é craro). Quando ele entrô no estádio foi aquela empolgação! Aí ele subiu pelas arquibancada, subiu no telhado, enconstô o lume nos galho e acendeu a foguêra. Ninguém nunca que ia imaginá que aquilo ia sê tão importante  e que ia virá a tradição de leva a tocha e acendê a pira olímpica. Ah, e ficou conhecida como PIRA porcausdequê depois daquilo, com tanta correria pra acendê o fogo, o João Baratona ficou pirado e foi internado num manicômico; e a corrida dele, que foi de maizomens uns 42 quilômetro, ficô conhecida como maratona por conta de um amigo fanho que ele tinha que quando contava o causo o pessoar entendia maratona e não baratona.
Mas nas prova Dois Morro foi imbatíver: ganhou 140 medalhas de ôro, 45 de prata, 23 de bronze, 12 de zinco, 5 de cobre e 2 de níquer. Nos 100 metro raso batero o recorde com 8 segundo, 56 centésimo, 43 milésimo, 92 ésimo e 22 pentelionésimo. Foi só botá uma garrafa de pinga na linha de chegada que o Tinoco Ventania correu como um corisco pra chega lá e pegá ela. Já nos 100 metro fundo, ninguém venceu porque todos os competidor morrero afogado. Por falá em água, na nadação o Geraldo Tainha ganhô fácer na prova de uma vorta na sanga, na de duas vorta e vorta com revezamento; no salto ornamental sobre a sanga o Tião Pança levô a melhó com uma entrada de barriga que jogo água na pratéia intêra, já que em Dois Morro o critério pra vencê era espaia mais água possíver. Na vela, a Dona Eunice foi destaque riscando o fósforo, acendendo a vela, levando pro quarto do fio e apagando pra ele dormir em menos de 3 minuto. Já na catarrada a distância que ganho foi o Chico Roncoio. Primêro pigarreô, depois respiro, puxou lá do fundo da caixa e largô aquele catarro amarelo, bonito, lustroso, quase chegando no esverdeado. Adistnaça? 6m40cm. Ôtro recorde!
Ganhemo em praticamente tudo: bolita, pauzinho, bocha, jogo do osso, carrinho de lomba, truco. Um chôu dos desportista Doismorrense.
Aí vocês do Brasir ficom se contentando com 15 medalhinha... Fazê o quê? Atreta bão mesmo ero os de Dois Morro.
Mas ninguém valoriza. Hojendia ninguém mais lembra. Êta povinho sem memória.


postado por Chico Lorotta

domingo, 12 de agosto de 2012

cotidianas #173 - Dia dos Pais - "Pai"



Pretendo ter dois lindos filhos
Uma menina e um robusto menino
Botar eles na escola desde o princípio
Mandar às favas os vizinhos
(À noite ouvem nossos ruídos
O que eles ganham eles põem no cofre
Um filho uma árvore e um livro
Herança de gente muito pobre)

E terminar todas as fábulas
Quando eu sair da chaminé
Depois montar na bicicleta
Esperar que eles criem calos nos pés

(À noite ouvem nossos ruídos
Uma vida despojada de sentido)
E assim nós vamos indo
Minha pequena mulher vai dirigindo
E assim nós vamos indo
Meu filho segue torcendo comigo
E assim nós vamos indo

Meus filhos foram me chamar
Um avião estava preso nos fios
Meus filhos foram me chamar


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letra da música "Pai"
da banda Fellini


Ouça:
Fellini - "Pai"