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sexta-feira, 16 de março de 2012

Cream - "Disraeli Gears" (1967)


"La crème de la crème"


Depois de uma estreia como aquela com o espetacular "Fresh Cream", criou-se toda uma expectativa  acerca do segundo disco do trio formado por Eric Clapton, Jack Bruce e Ginger Baker. E a mega-banda não só não decepcionou, como talvez tenha feito um disco ainda melhor que o primeiro. Se em "Fresh Cream" o baixista-vocalista Jack Bruce havia tomado as iniciativas de composição na maior parte das músicas, sendo inclusive acusado pelos colegas de lançar um single sem a concordância dos demais, neste Clapton que no início servira muito como um catalisador da banda, tomava agora as rédeas da situação e mostrava com quem é que estavam lidando. Clapton, que no primeiro não havia composto (diretamente) nenhuma música e só tinha vocais secundários, em "Disreali Gears" ia pro jogo e botava na roda algumas de suas melhores canções, além de emprestar sua voz a alguns dos grandes clássicos do rock'n roll. "Sunshine of Your Love" é a melhor prova disso, numa composição brilhante, iluminada com a marca inconfundível da guitarra de Clapton, em um dos riffs mais conhecidos da história do rock e fazendo pela primeira vez na banda o vocal principal. O fantástico blues psicodélico "Strange Brew" com ele, Clapton, desta vez dividindo os vocais com Bruce e Baker matando a pau na batera, é outra daquelas de arrepiar; e "Tales of Brave Ulysses" igualmente manda muito bem e não fica para nada trás numa canção forte, imponente e de contornos épicos (uma das minhas favoritas do álbum).
Fora a participação mais efetiva de Eric Clapton em composições, vocais e concepção; e o fato de Ginger Baker, com problemas de bebida, não aparecer tanto nas composições nem exibir performances tão marcantes como antes; a diferença fundamental do primeiro álbum para este é na verdade o fato que "Disraeli Gears" não é tão baseado diretamente em blues como o outro, soando no fim das contas, muito mais psicodélico e experimental do que seu antecessor, o que pode ser notado de forma bem evidente em canções como "World of Pain" balada carregada de wah-wah, "S.W.L.A.B.R" barulhenta de feedbacks de guitarra e com uma batida de rolos constantes de Baker; e na viajante "We're Going Wrong".
Apesar de não ser o foco principal, o blues está presente, sim, e aparece não só já citada "Strange Brew"; um pouco mais sutilmente em "Blue Condition", a única de Baker no disco, uma espécie de blues estilizado; e brilhantemente na maravilhosa "Take It Back", com outro show da guitarra de  Clapton e Bruce destruindo na harmônica. Em "Dance the Night Away" o arranjo vocal e o trabalho dos dois, Bruce e Clapton, cantando juntos é algo que deve ser destacado (demais!); "Outside Woman Blues" retoma as experimentações de blues com energia e peso do trabalho anterior; e o disco encerra com a tradicional "Mother's Lament", uma hitorieta triste interpretada de forma descontrída e teatral.
Adquiri há pouco tempo o LP na Feira do Rio Antigo, popular Feira do Lavradio. Minha fita K7 havia ficado em Porto Alegre. Reposição importante. Um dos discos que quando eu ponho é daqueles que dá um enorme prazer em ouvir. é sempre especial quando passeio com os dedos pelos vinis , chego nele e penso, "Puxa, eu vou ouvir o "Disraeli Gears!".
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FAIXAS:
1."Strange Brew"
2."Sunshine of Your Love"
3."World of Pain"
4."Dance the Night Away"
5."Blue Condition"
6."Tales of Brave Ulysses"
7."S.W.L.A.B.R." (She Was Like A Bearded Rainbow)
8."We're Going Wrong"
9."Outside Woman Blues"
10."Take It Back"
11."Mother's Lament"

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Ouça:
Cream Disraeli Gears



Cly Reis

quinta-feira, 15 de março de 2012

O Frango Atirador

cotidianas #145 - É ele


Aquela, de início, parecia ser uma manhã como qualquer outra. Acordou, escovou os dentes, tomou café, arrumou-se e saiu para trabalhar. Mas tão logo botou o pé na rua percebeu que alguma coisa estranha estava acontecendo. Cumprimentou o vizinho que, não só não lhe respondeu, como saiu voando para dentro de casa como se tivesse visto um monstro. Achou estranho mas pensou que o homem podia estar com algum problema pessoal ou algo do tipo. Continuou andando mas ao longo do caminho até o ponto de ônibus, notou que as pessoas o olhavam de um modo esquisito. Alguns lhe dirigiam olhares raivosos, outros repulsivos, outros pareciam com medo, outros mostravam espanto e, não raro, muitos destes olhares vinham acompanhados de dedos apontados em sua direção, cochichos ou correrias. Às vezes conseguia ouvir um comentário que outro dos que passavam mais perto e o que mais escutava era "É ele".
Na fila do ônibus não foi diferente e teve que aguentar todas aquelas pessoas lhe encarando de viés e cochichando um para o outro "É ele", com o que alguns concordavam, "É ele, sim"; outros duvidavam "Não pode ser ele"; e outros mesmo reforçavam "É ele, sim. Tenho certeza".
A maioria das pessoas optou por sequer entrar no ônibus quando este chegou, mas os que entraram ficaram todos amontoados num canto do ônibus tentando, entre eles, confirmar se era quem estavam pensando, deixando o sujeito sozinho no outro lado. Apesar da separação dos passageiros, o veículo seguia normalmente até que o próprio motorista, assim que percebeu quem conduzia, negou-se a seguir viagem  e abandonou o carro ali mesmo em meio a uma movimentada avenida. Os outros, confirmada a impressão de que aquela era a pessoa que pensavam, apressaram-se em seguir o motorista deixando aquele cidadão sozinho no carro.
Sem opção, mas por sorte já próximo do local de trabalho, seguiu o resto do caminho a pé, e claro, não sem ser fuzilado pelos olhares de todos que por ele passavam e ouvir aquele constante cochicho de "É ele".
Chegou ao prédio onde trabalhava e, na portaria, o seu Zé, porteiro costumeiramente simpático, já o encarou com um olhar incriminador. Dirigiu-se ao elevador, cumprimentou a ascensorista que simplesmente saiu do seu posto, bem como outros dois passageiros que a seguiram e abandonaram a cabine. Não pode deixar de ouvir, às suas costas, dos dois que permaneceram no elevador, a mesma coisa que ouvira desde que acordara, "É ele", "É, sim. É ele, com certeza".
Saltou no andar do escritório onde trabalhava e, assim que pisou no hall, deu seu tradicional "bom dia" geral, como costumava fazer todas as manhãs, o que foi retribuído desta vez com um verdadeiro mar de caras fechadas e olhares inquisidores.
"É ele, mesmo", "É ele" era o que ouvia conforme passava pelas mesas dos colegas, enquanto dirigia-se à sua. Antes de chegar, porém, ao seu posto, foi interceptado pelo chefe:
- Muito bonito, hein! Quem diria, o senhor...
- Mas... - tentou argumentar sabe-se lá o que, mas de qualquer forma, nem teve tempo.
- Eu não quero saber. Ponha-se daqui pra fora - disse o chefe já virando as costas sem dar explicação.
Viu-se completamente confuso, sem norte, sem saber o que se passava. Tentou pedir explicação a um colega sobre o que era aquilo tudo, tentou justificar que só poderia tratar-se de um engano, mas este simplesmente retirou-se quase em disparada para o banheiro. O que era aquilo? O que estavam atribuindo a ele? Sob a mira dos olhares fulminantes dos outros e sem chance de obter ali qualquer explicação, só lhe restava sair dali e voltar para casa.
Tomou o elevador, desta vez vazio na descida, mas ao chegar no térreo encontrou o saguão cheio de gente com aspectos ameaçadores e o seu Zé, o zelador, à frente deles apontando na sua direção: "Olha, eu não falei que era ele?".
Os outros, estranhos, que encontravam-se ali no hall do prédio concordaram  aos gritos "Ééééé!!!", "É ele". Algum gritou "Pega!". Outro, "Mata ele". Aí assustou-se! Agora estava assustado de verdade.
Saiu rompendo, acotovelando a pequena multidão e vencendo-a a muito custo, viu-se na rua, na calçada. Tinha que fugir. Não sabia de que, não sabia porquê mas tinha que fugir daquele povo que agora começava a ficar selvagem. Tinha que encontrar algum lugar onde se sentisse seguro, onde não o acusassem, onde não o odiassem.
Foi caminhando com passo acelerado pensando para onde poderia ir, mas enquanto isso o jornaleiro o apontava, o mendigo o apontava, uma mulher com carrinho de bebê o apontou histérica e pediu socorro, até o cachorro de uma velhinha começou a rosnar pra ele, e então outra pequena multidão começou a se acumular e logo também passou a persegui-lo.
Agora corria. Correu, correu até que viu aquele grupo de perseguidores afastados o bastante. Deu por si e estava próximo ao parque da cidade e, aproveitando a camuflagem natural que ofereciam as plantas, achou por bem embrenhar-se entre os arbustos a fim de despistar a horda. Além do mais, se conseguisse atravessar o parque, a casa de sua mãe não ficava muito distante, do outro lado.
Conseguiu.
Atravessou, seguiu por algumas ruas esgueirando-se, escondendo o rosto como podia, até que viu-se diante do portão da casa de sua mãe. Dirigiu-se apressadamente para a porta e nem lembrando-se que tinha a chave, confuso que estava, tocou a campainha.
A porta abriu-se e o que viu então foi a mãe, ladeada por dois policiais.
- Que vergonha, meu filho! Tu hein...
E dirigindo-se aos dois policiais:
- É ele. Podem levar.

Cly Reis

quarta-feira, 14 de março de 2012

Corpo Leste

'Corpo Leste'
grafite sobre papel-manteiga


cotidianas #144 - Alquímico



alquímico

minha mistura
à tua
cura
"pele 3"
foto: Cly Reis

lava
limpa
remedia
venena
envenena

nosso envolver
atua
alma
magma
larva
quente
borda
transborda

nosso verter
sua
verte
vértice
derrama
saliva
dente
ardente

teu inverter
ter
bálsamo
antídoto
queima
sente
água
aguardente

meu versar
sara
inverte
inerte
alquimia
fortuna
sina
toxina

nossa mistura
ura
versa
poetiza
expressa
ansia
cia
sacia


O Bode Espiatório

terça-feira, 13 de março de 2012

segunda-feira, 12 de março de 2012

cotidianas #143 - Highway Star


- Habilitação e documento do carro, por favor - pediu com o corpo inclinado deixando o rosto à altura do vidro.
O motorista apressou-se em se apalpar e procurar a documentação um tanto atabalhoadamente,  e tendo-a enfim em mãos, passou-a ao policial que aguardava pacientemente.
Este olhou, leu, avaliou alguma coisa, conferiu o rosto do motorista, voltou a olhar para o documento, virou o verso, arqueou as sobrancelhas, fez cara de descontente, balançou levemente a cabeça em sinal negativo e finalmente falou algo:
- Gosta de correr, então, né amigo?
- Queisso, seu guarda...
- O senhor sabia que estava trafegando a 130 quilômetros por hora numa via onde o máximo permitido é 60? - perguntou o guarda batendo com a carteira na palma da mão.
- É mesmo? - indagou verdadeiramente impressionado.
- É. - respondeu seco - O que é que o senhor tem a me dizer sobre isso? - perguntou agora só por perguntar, sem o menor interesse pela resposta injustificável, pela desculpa esfarrapada ou por alguma explicação furada.
- Seu guarda, o senhor pode não acreditar mas eu nem notei que estava tão rápido. É que eu tava aqui dirigindo e tal e daí começou a rolar "Highway Star" no CD e... -suspendeu a empolgação que crescia enquanto falava - Acho que o senhor não ia compreender mesmo - desanimando totalmente da explicação.
- Deep Purple?- quis confirmar o guarda mesmo sabendo perfeitamente que era aquilo mesmo.
- É. - confirmou o infrator, agora entre a confusão e o entusiasmo.
- É, não dá pra deixar de pisar ouvindo "Highway Star". Vai embora, vai. Dessa vez passa mas vê se manera com esse acelerador, hein. Se eu te pegar correndo de novo assim não vai ter Ian Gillan que te salve.
- Obrigado, seu guarda. - disse já ligando o carro e saindo em velocidade moderada.
O guarda ainda ficou algum tempo vendo o veículo se afastar até sumir na auto-estrada. Depois guardou o bloco no bolso e voltou para a viatura e enquanto caminhava até ela fazia com as mãos como se tocasse uma guitarra invisível no ar. "Highway Star".



Cly Reis

Red Hot Chilli Peppers - "Blood Sugar Sex Magik" (1991)


"They're Red Hot"
Robert Johnson


Eles pintaram como uma interessante surpresa ali pela metade do anos 80 com sua mistura rock-funk-rap. Não que aquilo fosse uma absoluta novidade, mas o som daqueles malucos do Red Hot Chilli Peppers trazia um pouco mais de malícia, de tempero, de pimenta. Mas tinha outro diferencial em relação a outras bandas que tentassem fazer aquele tipo de som: um baixista habilidosíssimo de formação no hard-rock e punk, mas de influências jazzísticas notórias.
Os primeiros discos da banda causaram boa impressão, prometiam mas não pareciam tirar o máximo que eles podiam dar, em "Mother's Milk" de 1989 já mostravam um som mais encorpado, mas foi em "Blood Sugar Sex Magik" de 1991, seu 5° trabalho que os Red Hot Chilli Peppers, com a ajuda do mestre de estúdio, Rick Rubin, conseguiram lapidar seu som e produzir uma das obras-primas dos anos 90.
O funk dos caras estava calibrado, as composiçõe mais ousadas e seguras, as tentativas iam na mosca e Flea, o homem do baixo, estava, especialmente, endiabrado.
"The Power of Equality" vem à frente já para comprovar tudo isso: com uma linha de baixo swingada, a guitarra preenchendo os espaços e o vaocal rappeado de Kieds, abre o disco em grande estilo.
"If You Have to Ask" tem um refrão totalmente Funkadelik, num funk à antiga com uma guitarra novamente muito bacana. Aliás, mesmo sem grandes arroubos, com um estilo discreto, jogando mais pro time do que em nome da glória pessoal, o guitarrista John Frusciante mata a pau em várias como na gostosa "Apache Rose Peacock", na embalda "Funky Monks" e na selvagem "Greeting Song".
Com uma evidente ão do produtor, "Breaking the Girl", uma das grandes dos disco, é ousada em sua concepção com suas influências indianas, instrumentação com flautas e com ênfase no trabalho de bateria e percussão.
Não há como não destacar "Give It Away", o grande hit do álbum. Um funkaço alucinado com um a guitarra retinindo, uma incrível linha de baixo sinuosa e escorregadia, e um dos refrões mais bacanas e originais da história do rock.
Na sequência já vem outra das minhas preferidas onde uma batida marcada e pesada seguida de um riff com wah-wah apresentam "Blood Sugar Sex Magik" que tem outra interpretação marcante de Anthony Kieds, quase sussurrando nos versos e expplodindo em vigor nos refrões.
E tem a ótima "Suck My Kiss", forte ,aressiva e pesada; "The Righteous and the Wicked " com outro baixão mataror de Flea; a superlegal "Naked in the Rain"; e a boa "My Lovely Man" que homenageia o ex-guitarrista falecido Hillel Slovak.
A rotação só baixa mesmo no disco com "I Could Have Lied" e "Under the Bridge", uma balada sobre drogas com um coral apoteótico no final. "Sir Psycho Sexy" poderia tranquilamente ter a honra de fechar o disco  pela grandiosidade que vai assumindo ao longo de sua extensão de mais de 8 minutos, mas a tarefa fica bem nas mãos de "They're Red Hot", cover de Robert Johnson aceleradíssima e ensandecida, que faz jus aos adjetivos que carregam no nome: Eles são relamente quentes!
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FAIXAS:
1. "The Power of Equality" 4:03
2. "If You Have to Ask" 3:37
3. "Breaking the Girl" 4:55
4. "Funky Monks" 5:23
5. "Suck My Kiss" 3:37
6. "I Could Have Lied" 4:04
7. "Mellowship Slinky in B Major" 4:00
8. "The Righteous and the Wicked" 4:08
9. "Give It Away" 4:43
10. "Blood Sugar Sex Magik" 4:31
11. "Under the Bridge" 4:24
12. "Naked in the Rain" 4:26
13. "Apache Rose Peacock" 4:43
14. "The Greeting Song" 3:14
15. "My Lovely Man" 4:39
16. "Sir Psycho Sexy" 8:17
17. "They're Red Hot (Robert Johnson)" 1:11

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Ouça:
Red Hot Chilli Peppers Blood Sugar Sex Magik





sábado, 10 de março de 2012

Morrissey _ Fundição Progresso - Rio de Janeiro (09/03/2012)



Há uma estrela que nunca se apaga

Eu já havia visto Morrissey ao vivo na turnê anterior que fizera no Brasil, em Porto Alegre. Naquela ocasião foi um grande show.
Até por isso estava meio relaxado quanto ao que iria ver. Tipo: se não fosse lá tão legal, tão bom, pelo tempo ter passado pra ele (e pra todo mundo), pela idade, por algum eventual problema coma voz, porblema técnico, de som, desestímulo pessoal ou da banda, etc., eu já estaria no lucro por tê-lo visto uma vez em ótima performance; mas se tivesse a sorte de ver outra grande apresentação, ah, aí então eu estaria realizado.
Mas felizmente eu, e todos os fãs, admiradores e curiosos que estavam na Lapa, nesta última noite de sábado, fomos contemplados!
Senhores, Morrissey foi impecável!
Amigos, ele está em plena forma. Provavelmente, até, melhor de palco do que fora no passado. É verdade que não tem aquela vitalidade de outros tempos para ficar saracoteando de um lado para o outro do palco, chicoteando o fio do microfone, rebolando com flores no bolso traseiro, mas, assim como um grande jogador de futebol que quando vê que a idade está chegando passa a não correr mais o campo todo, Morrissey agora joga nos atalhos do campo. Faz o certo, faz simples mas com extrema competência.
Bem resguardado por uma banda de jovens vigorosos (sarados e descamisados, a propósito), praticamente a mesma banda de seu último álbum "Years of Refusal", Morrissey dominou completamente o palco e a plateia com interpretações admiráveis e potencial vocal ainda intacto.
Após uma pequena série de vídeos cinquentistas e sessentistas, com rapazes topetudos e moças de cabelos volumosos, a cortina que servia de tela de projeção subiu e por trás dela apareceu Morrissey e sua banda tascando pra começar a ótima "The First of the Gang to Die" que já incendiou a galera. Seguiu com algumas menos interessantes para meu gosto como "You Have Killed Me" e "When Last I Spoke to Carol" que apesar de não ser das minhas favoritas, tenho que admitir que ficou demais no show, com aquele climaço espanhol, seu violão flamenco poderoso, e contando até mesmo com o trumpete da original, tocado ao vivo.
A coisa ia com seu repertório de carreira solo até que sou surpreendido com "Still Ill" dos  Smiths . Putaquepariu! Me faltou o ar! Grande execução da banda, grande performance de  Morrissey , grande participação da galara. A emoção começava a aumentar.
"Everyday is Like Sunday", uma das mais aguardadas também teve participação bacana do público; "Speedway" foi uma das grandes do show, bem barulhenta e distorcida com aquelas guitarras que parecem motosserras mas com a paradinha, que existe na versão original, meio longa demais no show. "I Will See You in Far-Off Places", uma das minhas preferidas manteve sua intensidade e força; "Ouija Board, Ouija Board", outra que eu adoro foi legal, mas abreviada sem a última parte da letra; "You're the One for Me, Fatty" tratou de agitar o público; e a linda "Let Me Kiss You", foi simplesmente emocionante, com mias uma daquelas interpretações fantásticas e envolventes do cantor.
Ao contrário do show anterior dele que eu havia assistido, onde tocara algumas poucas de sua ex-banda, desta vez  Morrissey  caprichou no repertório  smithiano  e mandou várias. Atirou uma "Meat is Murder" comovente,  não sem antes dar uma alfinetada no príncipe Harry que, por acaso, também se encontrava no Rio naquele dia, surpreendeu com "Please, Please, Please, Let Me Get What I Want" brilhantemente executada pela banda; e quase pôs abaixo o local com "There's a Light That Never Goes Out". Particularmente, ME 'sacaneou', cantando "I Know It's Over" que às vezes eu já evito ouvir no CD pra não chorar e aí o cara vem lá de Manchester e me canta essa ali, na minha frente. Bom, tenho que dizer que fiquei vendo o palco embaçado durante toda a música. Mas o pior nem foi isso, lá pelas tantas começa aquela base  de guitarra com efeito, meio trêmula, repetida... Não... Não pode ser. 'How Soon Is Now?"!!! Era ela mesmo. Nossa! Mal tinha me recuperado e já estava em lágrimas de novo. Que frescura, né? Eu sei, eu sei. Mas foi impossível resistir.
Com esta acabaram a primeira parte, voltando apenas para "One Day Goodbye Will Be Farewell", que frustrou um pouco da expectativa de um gran finale com algo como "Suedehead", "Irish Blood, English Heart" ou "That's  How People Grow Up", mas pensando bem, valeu pelo recado. Talvez aquele adeuzinho não tenha sido ainda a despedida mesmo. Tomara. Volte sempre que quiser.


Cly Reis

sexta-feira, 9 de março de 2012

Morrissey - Fundição Progresso (pré-show)




Chegada à Fundição.

Ingresso na mão
21:48 -Grande expectativa. Galera ansiosa. Acabo de pegar o ingresso da compra on-line. Agora é tomar aquela ceva pra refrescar e aliviar a expectativa, e depois entrar.
Mas ainda tá cedo.


Cly Reis

terça-feira, 6 de março de 2012

Kraftwerk - "Trans-Europe Express" (1977)




"Os fundamentos da moderna música eletrônica dançante estão todos neste disco."



“Ah, mas já tem um Kraftwerk nos AF, não viste ? é o "Radio-Activity"!” Vi sim, criatura, mas aonde é que tá escrito que cada artista só pode ter um Álbum Fundamental, hein ? Bom, devo dizer que meu primeiro contato com esta obra foi através de uma fita que não sei quem me emprestou e no final das contas não cheguei a escutar. Tempos depois resolvi comprar no setor de discos das lojas Renner, ali no centro de Porto Alegre, subsolo. Cheguei em casa e coloquei o LP para tocar. E é um disco bárbaro de somente 7 faixas ! Como todo álbum fundamental tem começo, meio e fim e cada música cumpre essa função magistralmente.  Este disco é o resultado de 5 álbuns anteriores, e pode-se notar escutando-os (que comprei todos depois desse) que a base das idéias já estavam contidas lá, mas lhes faltavam recursos técnicos e tecnológicos para chegar ao ponto que chegaram nesse disco. Os fundamentos da moderna música eletrônica dançante, sequenciadores, batidas, climas estão todos ai nesse disco de 77. Inicia com “Europe Endless”, que serve como cartão-de-visitas do disco. Esta música lança os fundamentos de toda uma geração que iria despontar como astros pop 10 anos depois. Tem um “linha de baixo” marcante e pontilhada por sequenciadores e uma bateria eletrônica que vão dando o clima de viagem que marca todo o disco. Em seguida vem “Hall of Mirrors” a música da Starsax “o calçado da geração jeans” como era conhecida a música no Rio Grande do Sul, pois era a trilha sonora de um comercial de sapatos para o público jovem na década de 80. É uma música bem mais lenta que a anterior mas que possui um clima muito bem elaborado e que se for possível deve ser escutada com fones de ouvido pra sentires os efeitos passeando pela tua cabeça. E o lado A do disco termina com “Showroom Dummies” que é uma música bem estranha, que se pode considerar o primeiro “reggae eletrônico” do mundo, por falta de definição melhor. Vira-se o disco e começa o lado B com “Trans-Europe Express” que com sua batida hipnótica e teclados que de vez em quando marcam climas um tanto sinistros, mas ótimos e uma voz que repete Trans-Europe Express e vai narrando por onde esse trem já teria passado. E esta música já emenda na “Metal On Metal” que essa sim, mãe de todos os sons que nos anos 90 viriam se chamar de industriais etc e tal. Toda pessoa que já foi a uma indústria percebeu que as máquinas possuem um ritmo de trabalho e um som e é isto que essa música faz, reproduz o ritmo industrial pela música. Para mim é a música mais linda deste disco. Depois dessa faixa bem marcada, vem um exercício musical eletro-clássico chamado “Franz Schubert”, muito interessante e que serve de ponte para a musica final do disco (ou vinheta) que é a “Endless Endless”. Termina o disco e eu me levanto e aplaudo de pé !

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FAIXAS:
1. "Europe Endless" (9:35)
2. "The Hall of Mirrors" (7:50)
3. "Showroom Dummies" (6:10)
4. "Trans-Europe Express" (6:52)
5. "Metal on Metal" (6:44)
6. "Franz Schubert" (4:25)
7. "Endless Endless" (0:55)

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Ouça:
Kraftwerk Trans-Europe Express



segunda-feira, 5 de março de 2012

Os Causo de Dois Morro - O doismorrês


Um curiosamento bem normar entre as pessoa que num conhecia Dois Morro antes das minha mui útel informação, é sobre o ideoma que se fala lá, até porcausadequê Dois Morro é um dos berço da civilização.
Que ideoma se fala em Dois Morro?
Se fala o doismorrês! Lógico!
O doismorrês veio incrusives antes do latim, se tu queres saber.
Na verdade veio depois. Porque o causo foi o seguinte: o Sargento, que era o guaipeca do compadre Onório, num parava de latí, num tinha Deus que fizesse aquele bicho endemoniado calá a boca.
Foi que daí saiu o compadre Onório de dentro da casa, podre de bêbo. Mas podre, podre meso, podre pramaidimetro e xingou o coitado do bicho até não poder mais. Só que tava tão borracho que falava dum jeito nóis nem entendia uma palavra do que o Cristão dizia. Aí que a piazada, achando graça, começô a imitar o falamento dele, e de tanto brincá com aquilo, acabaro costumando e quando viu, tava todo mundo em Dois Morro falando daquele jeito que o Onório tinha inventado. Ficô tipo, como se diz, um dialético. Primero se chamou-se onorífico, porcaus'que foi inventado pelo Onório, mas dispois como quem falava era só as gente de Dois Morro, ficou chamando-se doismorrês. Linguajar esse que predececeu, inscruzive o latim e foi a orige da língua brasilêra.
Aí que a gente diz que depois do latim... do cachorro, veio o doismorrês, que foi o linguamento do compadre xingando o anemar.
E daí surgiu os outro falamento de língua do resto do planeta, umas fala estranha, umas coisa esquisita, mas importante meso pra Héstória da humanidade foi a invenção do doismorrês.
Entendêro?

postado por Chico Lorotta

domingo, 4 de março de 2012

cotidianas #199 - A Mancha Amarela


André cruzou a avenida movimentada de onde trabalha, enfiando-se entre os carros como fazia junto a outros vários pedestres todos os dias a ponto de nem preocupar-se mais com o perigo de não respeitar a faixa – era mais fácil chegar a seu destino assim. Podia pegar uma condução no ponto logo ali, na esquina, sem precisar cruzar a via, mas, horário de verão, costuma empreender a esta época uma caminhada de uns 15 minutos até sua casa, bairro logo ao lado. Carteira com menos relatórios que o normal, sapatos de couro curtido que já podia considerar confortáveis, temperatura amena, economia de dinheiro, maneira de evitar o trajeto alongado do ônibus, desculpa ecologicamente correta, nada melhor para fazer, ninguém a se reportar; tudo contribuía. Então, banalmente, foi.

Ao chegar à calçada oposta, percebeu uma mancha de tinta sobre as pedras portuguesas do calçamento a qual nunca tinha reparado. Amarela. Estranhou (afinal, trabalhava ali há sonolentos 6 anos e nunca tinha sequer batido o olho...). Mas seguiu em marcha. Ficou com a interrogação daquela imagem: espatifada, como que resultante de um tubo cheio de tinta emborcado. Intencional? Sem querer? Deixou “pra lá”, afinal, podia ser que estivesse ali até a mais tempo que ele, e ele é que nunca tivesse percebido, quem sabe, por sempre alcançar um trecho da calçada além da mancha – talvez, meio metro adiante, o suficiente para, tendo em vista seu olhar acostumado a apontar para uma direção só, jamais ter notado. “Sei lá”, disse a si mesmo.

Nem bem completou esse raciocínio desaproveitável e avistou, vindo em sua direção, um senhor falando ao celular. O aparelho, totalmente lambuzado da mesma tinta amarela, porém fresca de recém-derramada, escorria pelos dedos, chegando-lhe até a boca. Alguns pingos entravam lábio adentro, outros trilhavam em direção ao punho do paletó. De um amarelo cítrico, oleoso, brilhoso, pendendo levemente para o esverdeado. Aquela mesma tonalidade do chão. No entanto, viu que o homem mantinha a conversa normalmente, e André pôde até escutar que se tratava de um diálogo com a esposa, pois conseguiu ouvi-lo dizer quando passava: “não, mulher, o cartório pediu mais uma pepelada...”. Admirou-se daquilo... mas não se conturbou, afinal tinha mais o que fazer: chegar em casa. E seguiu a passo moderado, naquela nenhuma solenidade.
Mais adiante, no seu trajeto insosso de tão corriqueiro, um jovem cantava uma garota, ambos de pé em frente ao (provavelmente) prédio dela. Na calça dele, à altura da panturrilha, a tinta, já seca, tingia uma das pernas, formando uma incompreensível imagem abstrata que contrastava com o jeans de estilo moderninho. Ela parecia estar “na dele”, pois sorria e mexia no cabelo enquanto o rapaz macaqueava-se à sua frente, dança da sedução caricatamente sincera. A mancha, incompatível àquela cena, não parecia afetar em nada o cortejo. Ao som de uma gargalhadinha dela, André virou a cabeça e, na mesma quadra, viu uma senhora idosa passeando com um poodle, bem faceiro, tanto que a tinta amarela que pingava de sua boca, no lugar da saliva, não lhe tirava a satisfação de estar na rua com sua dona naquele fim de tarde nem com o provável gosto azedo que produzia. Irracional (decerto, por isso), o cão nem percebia, assim como a dona que, talvez pela velhice, talvez pela mesma irracionalidade, também não.

E no resto do trajeto, ainda, mais daquela estranheza: um grupo de meninas, emanando tesão, aos gritinhos, jogava uma ridiculamente mal jogada partida de vôlei, em que a bola voava de um lado para o outro respingado a tinta, que cuspia pingos nos cabelos delas (nem se importavam!). Um mendigo, na sarjeta, embuchava-se com um pedaço de pão velho emplastrado daquilo. Também, um casal de orientais vinha no tradicional passo rápido e sincronizado dos orientais. Mãos dadas, empapadas, grudadas pelo viscoso amarelo-lima.

Aquilo tudo era muito estranho, de fato, e, embora não chegasse a incomodar, embaraçava sua cabeça um pouco. Não conseguia ligar uma situação à outra. Não fazia sentido... Porém, quase em casa, nem precisava mais pensar. Era chegar e apagar a memória do dia, como se acostumara, dormentemente, a proceder um dia após o outro: ao bater a porta do apartamento, o “para trás” morria.

Enfim, chegou. Depois de trocar cumprimentos de forma consensualmente banal com o zelador – que molhava as folhagens com tinta amarela a jatos de mangueira –, subiu pelo elevador, puxou a chave e: lar doce lar. Foi direto à cozinha. Na geladeira, abriu-lhe a porta e, ao destampar a panela guardada do dia de ontem, enxergou a porção restante do macarrão com frango coberta por uma espessa camada de tinta amarela. As horas de refrigeração já faziam com que, plástica, a tinta revestisse sua comida, formando um bloco compacto e gelado. André enojou-se de tal jeito que fechou a porta e foi direto para a sala zapear os canais da tevê. Sentou-se no sofá meio de lado, tal como caiu, de alça da carteira sobre o ombro, os tais sapatos semiconfortáveis calçados, calça ainda cintada; só a gravata ligeiramente afrouxada no gogó. Adormeceu rápido de uma exaustão que nem sabia que tinha, sem dar tempo de prestar atenção em nada na televisão. Na tela, a âncora da BBC noticiava em inglês na sua postura fria e inabalável que a crise no Oriente Médio mais uma vez afetara as bolsas de todo o mundo, enquanto a tinta amarela cobria totalmente uma das lentes de seus óculos, escorrendo lenta e em camadas até formar pingos graúdos, que salpicavam aos poucos o balcão, começando a formar ali uma poça.


de Daniel Rodrigues

sábado, 3 de março de 2012

Neyde Zis e Tim Maia - "Neyde & Tim" - (1974)



Tudo aconteceu numa escaldante e misteriosa madrugada carioca no estúdio Somil, em Botafogo. A data é imprecisa. Ninguém sabe ao certo; só se tem uma vaga lembrança de que foi num final de semana de fevereiro de 1974. Os técnicos do som Ary e Célio, depois de uma sessão com Belchior, que gravava seu primeiro disco, organizavam as últimas coisas antes de fecharem tudo e irem embora. Mas eis que, no final da noite, imbica enviesado na frente do estúdio o famoso Fusca 71 roxo e verde de  Neyde Zis . E quem ao volante a acompanhava? Ele:  Tim Maia . Os dois, “maleixos” de uísque e sabe-se lá do que mais, já desceram cantando em dueto “Brother”, o gospel maravilhoso do mano  Jorge Ben . Com seu barítono inconfundível, ele reforçava o agudo nos versos: “Prepare one more happy way for my Lord” como se tivesse tomado pelo espírito de um cantor de igreja norte-americano. Ela, por sua vez, usava seu timbre rouco capaz de atingir agudos impressionantes, destilando uma segunda voz cheia de swing e emoção. E quando chegava na parte: “Jesus Christ is my Lord, Jesus Christ is my friend” era um verdadeiro desbunde: os dois, em uníssono. De arrepiar. Soul music na mais pura acepção.
Ary e Célio se entreolharam, ao mesmo tempo com admiração por presenciarem aquele belo dueto, mas também segurando a gargalhada por acharem engraçadíssimo ver aqueles dois abraçados cambaleando com uma garrafa que passava de mão em mão. Mas o que não previam era que, naquela noite,  Neyde Zis  e  Tim Maia  não tinham enchido o saco para ficarem com as chaves do estúdio à toa. E o que os técnicos jamais imaginariam, depois de darem as costas e “lavarem as mãos”, era que, por exemplo, aquela versão de “Brother” que ouviram entre soluços embriagados seria, horas depois, registrada numa performance perfeita, com espontaneidade e técnica, desfechando a mais obscura e inspirada jam session já documentada na MPB: o clássico álbum “Neyde & Tim”.
O disco é o ápice da carreira da “Diva Black”, “A menina mulher da pele preta”, como a apelidara  Jorge Ben , que a homenageara com a música que dá título ao primeiro álbum dela, de 1969. Depois de várias participações em trabalhos de parceiros – leia-se Cassiano, Tony Tornado, Hyldon e Bebeto, ou seja, só a nata da soul music brasileira –, ela, influenciada pela guinada pós-tropicalista do amigo  Erasmo Carlos  e do próprio Ben, grava o já muito bem comentado neste blog por Eduardo Wolff"Dó-Ré-Mi-Fa-Sol-Lá-Zis" , considerado por Oberdan a principal influência da Banda Black Rio e o melhor disco brasileiro dos anos 70. E não só ele a idolatrava. Até artistas internacionais louvavam Neyde Zis, como declarou Isaac Hayes, em entrevista de 1997 a BBC, quando perguntado qual a melhor cantora black de todos os tempos: Aretha Franklin ou Billie Holiday. Negando ser nenhuma das duas, ele respondeu com seu vozeirão de Chef: “The best black woman singer lives in Brazil. She’s called Neyde Zis.”
“Neyde & Tim” não tem comparação, e pode ser considerado um capítulo à parte na carreira tanto dela quanto na do “Síndico”. A sessão foi quase ininterrupta, tudo ao vivo, apenas uma paradinha e outra para emborcar um gole de uísque, fumar unzinho e comer um pouco de goiabada – coisa que Tim sempre carregava consigo para a sobremesa. O disco abre com uma obra-prima composta por  Gilberto Gil  no exílio em Londres: “Nêga”, que não coincidentemente fez parte do repertório de uma outra jam que jamais existiria não fosse “Neyde & Tim”: o disco “Gil & Jorge Xangô Ogum”, confessa homenagem de Gil e do Babulina à dupla. Nessa versão, mais cadenciada e romântica que a original, o vocal fica por conta de Neyde, que carrega na sensualidade. Tim, responsável por toda a cozinha, entrecorta a linha melódica soltando versos que pareciam ter sido escritos por Gil para Neyde: “The tropical nêga” ou “This nêga is my”.
Hayes: "Neyde Zis é a melhor
cantora negra de todos os tempos."
“Zismaia”, na sequência, é um funk sincopado cujo título traz controvérsias. Primeiro, o significado mais evidente: a simbiose musical que havia entre os dois. Porém há quem credite esse título a uma tentativa de Tim, já totalmente bêbado, em pronunciar a palavra “desmaia” num momento em que Neyde teve um rápido apagão (alcoólico, claro). As más línguas dizem que, acabada a garrafa de uísque, os dois passaram a entornar uma caninha que encontraram escondida na cozinha. O que, de certa forma, explica a existência de outra faixa, “Kaxassa”, uma das oito compostas com tamanha fluidez por Tim só naquela madrugada. (Essa segunda versão até que é bem verossímil considerando a situação.)
Sabe-se lá como, mas o Paulo Ricardo, o Rubens e o Serginho Trombone, que na época tocavam tanto na banda de um quanto de outro, apareceram por lá e gravaram a guitarra, o baixo e os sopros, enquanto Tim cuidava da bateria, do violão e de uma caxeta que trouxeram de um show em Niterói ocorrido horas antes. Neyde só se incumbia de emprestar sua voz. E era o que bastava. No máximo, um chocalho ou uns acordes de violão. Foi com essa formação que gravaram “Psychoblack”, um funk lisérgico de dar inveja a qualquer Parliament-Funkadelic; “Farofa”, baião eletrificado com uma bateria pesada cheio de groove; e “Retorno”, um samba-rock que captou o momento em que Tim reclamava do técnico de som que era... humm, ele mesmo. Todos – àquela altura já envoltos na fumaceira que tomava todo o estúdio –, caíram na gargalhada, e a música ficou uma das mais espontâneas do disco.
Ao todo são apenas 10 faixas de várias que a dupla tocou até as 7 da manhã do dia seguinte. Pelo menos foi isso que veio parar na mão do produtor Mariozinho Rocha, que finalizou a mixagem. Os LP’s impressos na época hoje são raridade, e valem uma fortuna no mercado alternativo. Sabe-se de colecionador no Japão que não vende seu exemplar nem por dez castelos de Osaka. Mas agora esta versão remasterizada com capricho no Abbey Road pode fazer com que mais pessoas possam dar o devido valor a uma das obras mais importantes da nossa música e, enfim, fazer justiça a uma artista infelizmente esquecida neste Brasil sem memória. Salve o “Gênio” Tim, claro, mas, acima de tudo, salve a “Musa” Neyde Zis!
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O impacto da noite de orgia musical e lisérgica foi tanto que, logo depois desta fatídica madrugada, Tim caiu em uma forte abstenção e a uma crise existencial que lhe levou a ler um tal de livro chamado “Universo em Desencanto”. O resto da história todos sabem no que deu.
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Poucos sabem, mas “Acenda o Farol”, gravada por Tim em 1978 no disco “Tim Maia Disco Club”, foi criada naquela noite. Quando os dois tiveram a delirante ideia de se dirigir ao estúdio da Somil, ambos vinham juntos de Niterói no tal fusquinha, que aprontou de furar um pneu no caminho. Tim, puto com o ocorrido, ao invés de ralhar, inventou uma música. Enquanto trocava o estepe lá fora, gritava para Neyde lá dentro do carro: “Pneu furou/ Acenda o farol/ Acenda o farol...”. A música foi gravada para “Neyde & Tim”, mas, infelizmente, perderam o único take porque puseram outra por cima (coisa de gente grogue). Tim só foi redescobrir a música anos mais tarde porque a encontrou escrita num papel amarrotado no bolso de uma calça que tinha usado apenas uma vez, ou seja, na histórica noite da gravação de “Neyde &  Tim”.
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FAIXAS:
1. Nêga (Gilberto Gil)
2. Zismaia (Neyde e Tim)
3. Ogulabuiê (tradicional: ponto de umbanda)
4. Batuque (Neyde e Tim)
5. Farofa (Tim Maia)
6. Psychoblack (Tim Maia)
7. Kaxassa (Tim Maia)
8. Som (Ari, Célio e Tim Maia)
9. Retorno (Tim Maia)
10. Brother (Jorge Ben)


Mutantes - "Os Mutantes" (1968)



"Os Mutantes são demais!"
Caetano Veloso, em 1968


Surgidos em meio ao movimento Tropicalista do final dos anos 60, o trio paulistano Arnaldo Baptista, Sérgio Dias e Rita Lee, os Mutantes, inspirados pelos Beatles traziam à música brasileira uma proposta absolutamente original e inovadora, agregando à psicodelia desta raiz rock, ritmos regionais brasileiros e incorporando toda a linha de pensamento e ação daquele movimento artístico no que dizia respeito à quebra de regras, padrões, formatos e paradigmas.
Em seu disco de estreia de 1968, “Os Mutantes”, a banda levava ao extremo seus preceitos: em um trabalho brilhante desfaziam a estrutura das canções, teatralizavam a música, desvirtuavam gêneros e misturavam linguagens artísticas.
“Panis et Circenses” a faixa que abre o disco, com sua letra surreal e arranjos 'aloprados' do maestro Renato Duprat, é um exemplo claro deste rompimento de estrutura mudando de forma várias vezes ao longo de sua duração, incorporando ruídos, elementos publicitários, sinais sonoros, até acabar abruptamente interrompendo a encenação de um jantar em família.
“A Minha Menina” que vem na sequência, de autoria de Jorge Ben, traz uma introdução com o próprio mandando todo mundo tossir e ainda sua colaboração na própria música com aquele violão ímpar cheio de ritmo, numa batucada-rock com a guitarra de Sérgio Dias bem alta, aguda e destacada.
Quem ouve “Adeus Maria Fulô”, um retrato crítico e cru da vida no sertão nordestino e da fuga pra cidade grande, num primeiro momento pode-se deixar enganar pela instrumentação percussiva e pela condução de cuíca, mas logo vai perceber tratar-se na verdade de um falso-samba regionalista nesta canção que, talvez, na sua essência seja a mais rock de todo o disco.
Outro destaque é “Bat Macumba”, de Caetano e Gil. Bem ritmada e embalada com uma guitarra estridente solando o tempo todo, é daquelas canções cuja letra genial, cheia de simbologias, fonologias, ícones e chaves é tão significativamente formal que é possível lê-la e perceber sua estrutura concretista visual mesmo musicada e acompanhar sua composição e decomposição.
Batmacumba iêiê batmacumbaoba
Batmacumba iêiê batmacumbao
Batmacumba iêiê batmacum
Batmacumba iêiê batmacum
Batmacumba iêiê batman
Batmacumba iêiê bat
Batmacumba iêiê ba
Batmacumba iêiê
Batmacumba iê
Batmacumba
Batmacum
Batman
Bat
Ba
Bat
Batman
Batmacum
Batmacumba
Batmacumba iê
Batmacumba iêiê
Batmacumba iêiê ba
Batmacumba iêiê bat
Batmacumba iêiê batman
Batmacumba iêiê batmacum
Batmacumba iêiê batmacumba
Batmacumba iêiê batmacumbao
Batmacumba iêiê batmacumbaoba
A divertida (mas séria) “O Senhor F” é quase teatro mambembe; “Le Premier Bonheur du Jour” com sua letra em francês seria charmosa com o vocal sensual de Rita se não fossem as fungadas ao fim de cada verso; “O Relógio” é extremamente bem construída no seu experimentalismo bem ao estilo "Sgt. Peppers"; e a versão de “Baby”  (outra de Caetano) com sua guitarra rasgada, é cantada de maneira irreverente, quase debochada, por Arnaldo Baptista. No mais, temos a excelente “Trem Fantasma”, a experimental e psicodélica “O Relógio”; o jazz "Tempo no Tempo"; e a finalização com a instrumental de linhas orientais “Ave, Gengis Kahn”.
Disco fundamental para o rock brasileiro, para a música popular brasileira como um todo e por que não para um cenário mais amplo, a observar-se a recente descoberta e surpresa de artistas internacionais com o som dos Mutantes. Sua presença já se fazia obrigatória nesta seção fazia algum tempo. Demorou, mas finalmente ei-lo aqui. Carimbo de qualidade ÁLBUM FUNDAMENTAL do ClyBlog.
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FAIXAS:
1. "Panis et Circenses" (Caetano Veloso, Gilberto Gil) 3:38
2. "A Minha Menina" (Jorge Ben) 4:42
3. "O Relógio" (Arnaldo Baptista, Rita Lee, Sérgio Dias) 3:30
4. "Adeus Maria Fulô" (Humberto Teixeira, Sivuca) 3:04
5. "Baby" (Caetano Veloso) 3:01
6. "Senhor F" (Arnaldo Baptista, Rita Lee, Sérgio Dias) 2:33
7. "Bat Macumba" (Caetano Veloso, Gilberto Gil) 3:10
8. "Le Premier Bonheur du Jour" (Frank Gerald, Jean Renard) 3:36
9. "Trem Fantasma" (Arnaldo Baptista, Caetano Veloso, Rita Lee, Sérgio Dias) 3:16
10. "Tempo no Tempo (Once Was a Time I Thought)" (John Philips - Versão: Arnaldo Baptista, Rita Lee, Sérgio Dias) 1:47
11. "Ave Gengis Khan" (Arnaldo Baptista, Rita Lee, Sérgio Dias) 3:48

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Ouça:
Os Mutantes 1968


Cly Reis

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

cotidianas #142 - "Porque é Proibido Pisar na Grama"


Acordei com uma vontade de saber como eu ia
E como ia meu mundo
Descobri que além de ser um anjo eu tenho cinco inimigos
Preciso de uma casa para minha velhice
Porém preciso de dinheiro pra fazer investimentos
Preciso às vezes ser durão
Pois eu sou muito sentimental meu amor
Preciso falar com alguém que precise de alguém
Prá falar também
Preciso mandar um cartão postal para o exterior
Prá meu amigo Big Joney
Preciso falar com aquela menina de rosa
Pois preciso de inspiração
Preciso ver uma vitória do meu time
Se for possível vê-lo campeão
Preciso ter fé em Deus
E me cuidar e olhar minha família
Preciso de carinho, pois eu quero ser compreendido
Preciso saber que dia e hora ela passa por aqui
E se ela ainda gosta de mim


Preciso saber urgentemente
Porque é proibido pisar na grama

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Jorge Ben
(do álbum “Negro é Lindo”, de 1971)


vídeo de "Porque é proibido pisar na grama" de Jorge Ben
Ouça:
Jorge Ben - "Porque é proibido pisar na grama"


postado por Daniel Rodrigues

A volta de Jorge BEN

Soube apenas a poucos dias e gostaria de compartilhar com os amigos que como eu não tivessem a informação ainda, que Jorge Benjor deve regravar seu místico e clássico álbum "A Tábua de Esmeralda"  na íntegra este ano em comemoração aos 38 anos da obra. Recém iniciado em obras de alquimia e interessado em assuntos astrológicos, Jorge, naquele 1974, coloria seu álbum de citações, referências, ou mesmo letras inteiras sobre estes temas, embalados por seu singular violão e com o acréscimo de arranjos precisos e belíssimos.
Jorge avisou que pretende chamar para a regravação o máximo possível de pessoas que trabalharam com ele na  composição original, com exceção aos falecidos, por motivos óbvios, mas que o fato de ser nostálgico não fará com algumas canções tenham releituras bem diferentes das versões originais, até por uma questão de época, de recursos tecnológicos, de estúdio ou mesmo por uma nova visão da canção distanciada da época de seu lançamento.
Parece que o Jorge Benjor que vem cantando "A Banda do Zé Pretinho" há mais de trinta anos e que de vez em quando cria um refrãozinho pegajoso só pra levantar a galera nos shows, vai sair de cena um pouquinho e   dar espaço para o velho Jorge Ben, aquele da pegada se violão, do swing, do verdadeiro samba-rock. (Seria tão bom se o Jorge Ben ficasse de vez)
Aguardemos o que vai sair disso. Tenho boas expectativas.
Salve Jorge!




C.R.