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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Ira! - "Vivendo e Não Aprendendo" (1986)


“O Edgard senta na mesa e diz assim: ‘Olha, não é nada disso, não tem nada dessa história de rebeldia juvenil. Realmente é um preconceito contra a invasão de nordestinos, era o que eu estava pensando na época e foi isso o que eu quis dizer mesmo, eu não agüentava essa coisa de música baiana, de Caetano, de Gil'. Na hora, esse foi mais um dos insights que eu tive. Puta que o pariu, defendi durante anos essa letra, carreguei essa cruz. Agora, naquele dia, eu saí de lá falando assim ‘eu nunca mais canto essa música.’ ”
Nasi, à Revista Trip em 2008
sobre a música “Pobre Paulista”


Um dos melhores discos do rock nacional.
Mais um daquela safra brilhante da metade da década de 80 que inclui o "Dois" do Legião, o "Cabeça Dinossauro" dos Titãs, o "Selvagem?" dos Paralamas, o Capital Inicial com seu disco de mesmo nome, entre outros bons que apareceram por ali.
“Vivendo e não Aprendendo” do Ira! era a afirmação de uma banda que havia aparecido bem no seu primeiro trabalho, “Mudança de Comportamento” de 1985, mas que então ganhava o respeito definitivo de público e crítica. Mais do que isso, era a afirmação Edgar Scandurra como o melhor guitarrista brasileiro dos últimos tempos e com certeza o melhor daquela geração. Músico capaz de riffs agressivos como o da espetacular “Dias de Luta”, melodias ternas como a da melancólica “Quinze Anos”, ou referenciais como em “Envelheço na Cidade”.
Nas composições de Scandurra pela voz de Marcos Valadão, conhecido como Nasi, o Ira! proporcionava com “Vivendo e não Aprendendo”, retratos urbanos recheados de imagens, sentimento coletivo e realidade cotidiana. A confusão da cidade, a violência, as multidões, as paixões e os desencontros na ótima "Vitrine Viva" com sua linha de baixo forte e matadora; a alienação, o dinheiro, a indignação na punkzinha “Nas Ruas”; o preconceito pueril de Edgar Scandurra em “Pobre Paulista (“não quero ver mais essa gente feia / não quero ver mais os ignorantes / só quero ver gente da minha terra / eu quero ver gente do meu sangue”); e o grito coletivo de desemprego, fome poluição de “Gritos na Multidão” são exemplos perfeitos desse desenho musical social proposto pelo Ira!.
No entanto, o grande sucesso do disco, muito devido ao fato de fazer parte da trilha de uma novela, foi “Flores em Você”, canção de letra curta, que nas mãos do produtor Liminha ganhou um belíssimo arranjo de cordas que lhe conferiram toda uma grandiosidade e graça.
O Ira! nunca mais conseguiu produzir um álbum como este. Fez uma coisa boa aqui, outra ali, os integrantes principais, Nasi e Edgar envolveram-se em projetos paralelos interessantes mas o grupo nunca mais foi o mesmo. A obra excessivamente diversificada, atirando em todas as direções, fez com que nunca tivessem conseguido manter uma unidade de estilo ou de intenção e não conquistassem um grande público de fãs como foram os casos de Legião, Titãs, Capital. Talvez se tivessem se fixado um pouco mais em determinada linha, ou principalmente, se tivessem feito coisas próximas a este “Vivendo e Não Aprendendo”, tivessem se consolidado posteriormente e tivessem mantido o interesse do público por seu trabalho. Mas isso não é tudo e o Ira!, por mais que tenha sumido da grande mídia, sempre teve seu público fiel. O que importa é que certamente tratou-se de uma das grandes bandas do cenário nacional e que foi fundamental no alavancamento do rock brasileiro naquela metade de anos 80. Se teve seus erros, teve, mas teve seus acertos também, e que foram muitos.
Enfim... a vida é assim, é vivendo e aprendendo.

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FAIXAS:

01.  Envelheço Na Cidade 3:17
02. Casa De Papel 3:36
03. Dias De Luta 4:26
04. Tanto Quanto Eu 2:50
05. Vitrine Viva 2:20
06. Flores Em Você 1:54
07. Quinze Anos (Vivendo E Não Aprendendo) 2:40
08. Nas Ruas 4:17
09. Gritos Na Multidão 3:08
10. Pobre Paulista 4:57


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Ouça:

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Tumor









"Tumor" - Reis, Cly
76x49 (chapa de alumínio, arame, pregos, plástico-bolha e tinta acrílica)

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

cotidianas #175 - Entalpia



100 miligramas
nem telefonema
uma injeção de ânimo
ou de Coca-Cola na veia

Sem telegrama
cirrose ou enfizema
uma oversose de aspirinas
Êxtase em minha consciência

Não há mais herois
Então quero minha heroína
Aonde está
Vem pra perto de mim
Mulher Maravilha-de-Jardim

Eu estou no éden
eu Estou no éter

Sou viciado em uma droga X
aminoácidos pra poder dormir
É o fim da picada
É o fim da picada
Viciado em N substancias
preciso de enzimas
Singapura
Anestesia

Eu entrei numas
Eu estou noutra
Mas só não consigo criar
Anti-corpos-teus


Cly Reis

sábado, 18 de agosto de 2012

Massive Attack - Mezzanine (1998)




"O Massive Attack nunca foi uma banda convencional."
Robert Del Naja



Conheci o Massive Attack com o clipe de “Teardrop” na MTV. Fã que sou de Cocteau Twins, fiquei fascinado com aquela combinação da voz angelical de Liz Fraser com a batida eletrônica sutil e a melodia delicada da canção. Descobrindo que a música fazia parte do álbum “Mezzanine”, tratei de comprá-lo o quanto antes. Para minha agradável surpresa, ouvindo o álbum, chegava então à conclusão que a excelente “Teardrop” não era a melhor coisa que aquele disco tinha. A começar por “Angel”, que abre o disco, com seu ar misterioso, atmosfera árabe, vocal meio sussurrado, iniciando suavemente até incendiar-se com uma furiosa e estrepitosa guitarra que dá corpo à canção da metade para o final.
O disco todo é meio que mergulhado em climas orientais arábicos e a ótima “Innertia Creeps” com sua percussão bacanérrima e a faixa-título do álbum, “Mezzanine”, repetem esta característica de forma bem marcante. Mas o disco é um festival de estilos, influências e colagens e dentro disso, cores reggae aparecem sutilmente combinadas ao vocal hip-hop de “Risingson”; mais fortes no baixo grave de “Dissolved Girl”, e mais evidentes na condução da ótima “Man Next Door”, que conta com samples de The Cure e Led Zeppelin; já “Exchange”, esta com trecho sampleado de Isaac Hayes, é um adorável cool jazz charmoso com a marca da sofisticação sonora do grupo.
Liz Fraser volta a aparecer em duas faixas, “Black Milk”, canção lenta em que divide os vocais com um dos vocalistas do Massive, Rober Del Naja; e na excelente “Group Four” uma espécie de pesadelo crescente, intensa, forte, de vocal envolvente e enfeitiçante de tirar o fôlego. Para recuperá-lo, antes de encerrar o disco, “(Exchange”) retorna só para dar aquele último gostinho e aquela relaxada final para terminar com uma sensação gostosa.
Um ótimo disco de uma banda que sempre fez discos no mínimo interessantes mas sofria constantemente com problemas internos. Na época do “Mezzanine’ conta inclusive que os integrantes mal se falavam. Pode? Nem mesmo sei como é que um grupo que brigava tanto conseguiu produzir pérolas como foram especialmente o ótimo "Blue Lines" e este, também excelente, “Mezzanine”.

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FAIXAS:
  1. "Angel" - 6:18
  2. "Risingson" - 4:58
  3. "Teardrop" - 5:29
  4. "Inertia Creeps" - 5:56
  5. "Exchange" - 4:11
  6. "Dissolved Girl" - 6:07
  7. "Man Next Door" - 5:55
  8. "Black Milk" - 6:20
  9. "Mezzanine" - 5:54
  10. "Group Four" - 8:13
  11. "(Exchange)" - 4:08


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 Ouça:

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

cotidianas #174 - Dentro (II)




"Voz e Fera" - Rodrigues, Daniel
grafite sobre sulfite com manipulação digital, 18x 16cm
Calou no peito
porque pegou no fundo
o dito não grato
que ao ouvido arde.

Vocifera e emudece
Acomoda na introspecção
Acolhe mas desespera
Quase contrito
e vai parar no mar dos olhos
semicerrados de água salgada

Agridoce gosto
sorriso sem dente
amarelo como vermelho-sangue.

Cala no peito calado, vivo
pois que grita mudo na boca.


quinta-feira, 16 de agosto de 2012

"Maus - A História de um Sobrevivente", de Art Spiegelman - Cia. das Letras (2005)


Acabei de ler ontem a consagrada HQ agraciada ineditamente com um Prêmio Pulitzer, a excelente “Maus”, do jornalista e ilustrador Art Spiegelman, e comprovo que realmente ele justifica a condição de um dos maiores e mais importantes trabalhos em quadrinhos já publicados.
Spiegelman, filho de um judeu sobrevivente da segunda guerra, conta a saga do pai em esconderijos sub-humanos, vivendo de migalhas de comida, sob mira de metralhadoras e entre campos de concentração, misturando isso ao próprio processo de criação, à sua condição psicológica em relação à mãe, ao irmão que não conheceu, à própria obra e ao estado do pai, velho, ferido, esclerosado e cheio de reminiscências do Holocausto, que lhe relata toda essa dolorida história entre ranzinices e mesquinharias.
Poderia até passar por mais uma obra em quadrinhos qualquer não fossem alguns detalhes importantíssimos: a amarração perfeita, coerente e precisa da narrativa, o caráter documental de uma história verídica contada com implacável detalhamento e colocada de maneira absolutamente crua e chocante; a qualidade gráfica de Spiegelman e o retrato traçado por ele, desenhando os judeus como ratos, os alemães como gatos, americanos como cães, franceses como sapos, poloneses como porcos, assumindo assim já na concepção da obra um caráter crítico e pessoal, até bem discutível enquanto comparação étnica, mas inegavelmente dotado de admirável originalidade artística.
Publicado originalmente em duas partes, em 1986 e 1991, e lançado em versão integral no Brasil em 2005, "Maus" é a prova definitiva que as HQ's, assim como filmes, livros, entrevistas, etc. podem ser, sim, documentos históricos sérios e altamente qualificados e confiáveis. Certamente já se viu grandes filmes sobre Segunda Guerra Mundial, já se viu fotos marcantes, já se leu admiráveis ensaios e ralatos, mas nunca (ou poucas vezes) até então alguém havia feito uma obra em quadrinhos sobre o assunto com tamanha força, contundência, credibilidade e varacidade.
Obra de Art.



Cly Reis

terça-feira, 14 de agosto de 2012

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Os Causo de Dois Morro - As Olimpíada de Dois Morro




'Cês fico falando muito dessa tar de Olimpida de Lontra, Londra, Londre, sei lá eu como é o nome, mas ninguém nunca que se alembra que de começo, os premero jogos olimpinico fôro em Dois Morro.
Ééééé!!!
Teve os dos grego, que foi bem antes, mas mesmo naquele tempo, os maior vencedor já ero os doismorrense.
Mas os jogo das era-modérnica começaro lá pelos ido 1685, maizomeno. Dois Morro naquela época era a maior potença mundiar e o Comitê Limpico foi lá perguntá pro Coroner Ormenegirdo se podia de realizá os Jogo Olímpico na terra dele. Ele disse que podia mas só se fosse as competição que ele quisesse. Nada disso de marchatlética com home se arrebolando, ginástecartística com macho de colã, nem sarto ornamentar sincronizado que essas coisa são coisa de fresco. Os organizador num gostaro muito mas concordaro, afinar de conta naqueles tempo tudo o que o mundo queria era assistir a uma Olim Piada em Dois Morro e eles não querío desapontá os telespectador do nundo intêro.
Pois entonce que se assucedeu-se os Jogo.
A festa de iniciamento foi uma lindeza: foi no estádio do Doismorrense e tinha mais de 400 mil pessoa lá pra vê. Teve chôu forcrórico de Dois Morro, chôu de ranchêra, teve uma criôla lá, uma tar de Neyde Zys que cantô umas música esquisita e uns roquêro maluco uns tar de Os Cabeça que fôro convidado a se retirá do parco pois num tavo agradando. Depois entrou as comitiva dos país: da Pérsia, de Esparta, da Babilônia, da Mesopotâmia, da Alsácia, da Indochina, de Atrântida, de tudo que era país importante. Dispois o púbrico formava uns desenho com uns pedaço de papér colorido que cada um levantava, como tava todo mundo bêbado, uns não fazío junto, cada um levantava na hora errada, ôtros pegava o papér de ôtra cor,...Ih! Ficô um horror.
Até que lá pelas tanta, fartô luz no estádio. Aí que juntaro um monte de galho seco na parte de cima do telhado da arquibancada pra mode fazê uma foguêra ali e alumiá todo o campo, nisso o coroné mandou vir lá da fazenda dele um peão com uma tora acesa na mão pra acendê a tar da foguêra. Antonce que o empregado dele, o tar do João Baratona veio correndo com a o pau aceso na mão (num bom sentido, é craro). Quando ele entrô no estádio foi aquela empolgação! Aí ele subiu pelas arquibancada, subiu no telhado, enconstô o lume nos galho e acendeu a foguêra. Ninguém nunca que ia imaginá que aquilo ia sê tão importante  e que ia virá a tradição de leva a tocha e acendê a pira olímpica. Ah, e ficou conhecida como PIRA porcausdequê depois daquilo, com tanta correria pra acendê o fogo, o João Baratona ficou pirado e foi internado num manicômico; e a corrida dele, que foi de maizomens uns 42 quilômetro, ficô conhecida como maratona por conta de um amigo fanho que ele tinha que quando contava o causo o pessoar entendia maratona e não baratona.
Mas nas prova Dois Morro foi imbatíver: ganhou 140 medalhas de ôro, 45 de prata, 23 de bronze, 12 de zinco, 5 de cobre e 2 de níquer. Nos 100 metro raso batero o recorde com 8 segundo, 56 centésimo, 43 milésimo, 92 ésimo e 22 pentelionésimo. Foi só botá uma garrafa de pinga na linha de chegada que o Tinoco Ventania correu como um corisco pra chega lá e pegá ela. Já nos 100 metro fundo, ninguém venceu porque todos os competidor morrero afogado. Por falá em água, na nadação o Geraldo Tainha ganhô fácer na prova de uma vorta na sanga, na de duas vorta e vorta com revezamento; no salto ornamental sobre a sanga o Tião Pança levô a melhó com uma entrada de barriga que jogo água na pratéia intêra, já que em Dois Morro o critério pra vencê era espaia mais água possíver. Na vela, a Dona Eunice foi destaque riscando o fósforo, acendendo a vela, levando pro quarto do fio e apagando pra ele dormir em menos de 3 minuto. Já na catarrada a distância que ganho foi o Chico Roncoio. Primêro pigarreô, depois respiro, puxou lá do fundo da caixa e largô aquele catarro amarelo, bonito, lustroso, quase chegando no esverdeado. Adistnaça? 6m40cm. Ôtro recorde!
Ganhemo em praticamente tudo: bolita, pauzinho, bocha, jogo do osso, carrinho de lomba, truco. Um chôu dos desportista Doismorrense.
Aí vocês do Brasir ficom se contentando com 15 medalhinha... Fazê o quê? Atreta bão mesmo ero os de Dois Morro.
Mas ninguém valoriza. Hojendia ninguém mais lembra. Êta povinho sem memória.


postado por Chico Lorotta

domingo, 12 de agosto de 2012

cotidianas #173 - Dia dos Pais - "Pai"



Pretendo ter dois lindos filhos
Uma menina e um robusto menino
Botar eles na escola desde o princípio
Mandar às favas os vizinhos
(À noite ouvem nossos ruídos
O que eles ganham eles põem no cofre
Um filho uma árvore e um livro
Herança de gente muito pobre)

E terminar todas as fábulas
Quando eu sair da chaminé
Depois montar na bicicleta
Esperar que eles criem calos nos pés

(À noite ouvem nossos ruídos
Uma vida despojada de sentido)
E assim nós vamos indo
Minha pequena mulher vai dirigindo
E assim nós vamos indo
Meu filho segue torcendo comigo
E assim nós vamos indo

Meus filhos foram me chamar
Um avião estava preso nos fios
Meus filhos foram me chamar


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letra da música "Pai"
da banda Fellini


Ouça:
Fellini - "Pai"

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Jerry Lee Lewis - "Live at Star Club, Hamburg" (1964)




“Não é um álbum,
é uma cena de crime”
revista Rolling Stone



E quem disse que piano não é instrumento pra rock’n roll? Se alguém acreditava que não, Jerry Lee Lewis tratou de provar não apenas que era mas também o quanto poderia ser infernal com ele. Infernal literalmente! A ponto de incendiar o próprio instrumento no palco, muito antes de Hendrix fazer uma fogueirinha com sua guitarra.
Daqueles artistas tipicamente rock’n roll. Sob todos os aspectos: na postura frenética no palco, nas atitudes inconseqüentes, na rebeldia incontrolável e na conturbada vida pessoal, tendo se casado com a própria prima, na época menor de idade, num dos maiores escândalos daquele tempo.
Este artista explosivo, temperamental, doido, genial mostra toda sua força e vitalidade no registro ao vivo “Live at Star Club, Hamburg” onde extrapola todos os limites da performance ao vivo, levando as canções a extremos da interpretação.
Em canções como “Mean Woman Blues”, simplesmente ensandecida; “High School Confidential” onde praticamente ‘agride’ o piano; na selvagem “Hound Dog”; e nas clássicas “Long Tall Sally” e “Good Golly Miss Molly” aceleradas, rasgadas e gritadas, ele justifica plenamente a alcunha de "Matador" e destroi tudo.
Ainda dá uma leitura charmosíssima para "Money" (gravada por Beatles, Sonics e outros tantos), esmerilha no bluesão "Matchbox" e tira um pouco da chorosidade de "Your Cheatin' Heart" de Hank Williams conferindo-lhe um ar um pouco mais cínico.
Outro daqueles grandes álbuns ao vivo da história, e este com a marca de uma das maiores lendas do rock’n roll.
Killer! Killer!
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FAIXAS:

  1. "Mean Woman Blues" (Claude Demetrius) 4:01 
  2. "High School Confidential" (Hargrave, Lewis) 2:25 
  3. "Money (That's What I Want)" (Janie Bradford, Berry Gordy) 4:35 
  4. "Matchbox" (Carl Perkins) 2:46 
  5. "What'd I Say, Part 1" (Ray Charles) 2:18 
  6. "What'd I Say, Part 2" 3:08 
  7. "Great Balls of Fire" (Otis Blackwell, Jack Hammer) 1:48 
  8. "Good Golly, Miss Molly" (Bumps Blackwell, John Marascalco) 2:19 
  9. "Lewis' Boogie" (Lewis) 1:55 
  10. "Your Cheatin' Heart" (Hank Williams) 3:03 
  11. "Hound Dog" (Jerry Leiber, Mike Stoller) 2:28 
  12. "Long Tall Sally" (Enotris Johnson, Little Richard) 1:52 
  13. "Whole Lotta Shakin' Goin' On" (Sunny David, Dave Williams) 4:24

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Ouça:

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Caetano Veloso - "Qualquer Coisa" (1975)




“Ô, guri, aonde tu vai com esse disco?”



O disco “Qualquer Coisa”, de Caetano Veloso, sempre me encantou. Tanto que me fez cometer um fora que, na minha adolescência, foi motivo de um engraçado episódio, do qual achei por bem contar como uma homenagem aos 70 anos desse grande artista de nosso tempo completos neste 7 de agosto. Ali pelos 13, 14, eu já era amante e consumidor inveterado de música. Curioso, ia atrás de coisas novas e velhas, que me empolgavam em descobrir. Era um mundo novo que se abria diante de mim. Desses, um universo dos que mais me encantava era a MPB, a música produzida no meu próprio país a qual eu já começava a suspeitar naqueles idos que dava de 10 a 0 na maioria do que se produzia no estrangeiro – o que não demorei muito a me certificar. Nessa busca voraz por conhecer as coisas, uma das práticas que mantinha era a de ir ao Centro de Porto Alegre vasculhar as lojas de discos de vinil. Como a grana da mesada não era muita, não dava pra comprar tudo que eu queria. Então, a solução era abrir os encartes, admirar as capas dos bolachões, ler as fichas técnicas e, o melhor de tudo, escutar. Pois uma das alternativas que as lojas davam era que o próprio cliente escolhesse alguns LP’s e os ouvisse em toca-discos privativos com fones de ouvido, daqueles grandes e de ótima qualidade.
 Numa dessas ocasiões, na antiga loja Pop Som, na Galeria Chaves, estava eu escutando e desvendando os discos de Caetano Veloso, arrebatado com aquela sonoridade, com aquela voz, com aquela musicalidade que me surpreendia a cada volver do prato. Um dos que escutei naquela tarde foi “Qualquer Coisa”. Desde a capa a pop art de Rogério Duarte até as músicas, tudo me encantava. Escutei faixa por faixa. Depois guardei de novo o disco no plástico interno, admirei novamente a capa e, sem ter como comprá-lo naquele momento, saí dali um tanto desolado mas ainda tomado de emoção. Já cruzando a porta de saída, ouvi uma voz feminina ralhar comigo: “Ô, guri, aonde tu vai com esse disco?” Absorto naqueles sons que ouvira, eu estava saindo da loja com o disco debaixo do braço sem perceber. A vendedora, obviamente pensou que eu fosse roubá-lo, e eu, na ingenuidade desarmada da mocidade, entreguei o volume sem me defender. Imaginem eu argumentando naquela época: “Eu não queria roubar: foi que eu fiquei encantado com a música!” Era inimaginável. Que vergonha que me deu!
 Mas antes do constrangimento eu me deliciei ouvindo o disco. Com arranjos super bem elaborados, pensados por Caetano com apoio ora do craque Perinho Albuqerque, ora do mestre João Donato, “Qualquer Coisa” me espantava naquela audição pela coesão aliada a um repertório quase improvável, que misturava  Beatles ,  Jorge Ben , composições próprias de Caê, Chico e Chabuca Granda. Tudo junto e muito bem misturado. O assombro iniciava de cara com a voz e violão de Caetano entrando direto, sem me deixar respirar, no clássico que abre e dá título ao disco: uma bossa-nova sensual meio portenha, meio nordestina, meio cubana. Literalmente, qualquer coisa! A letra, verborrágica e de sentido vago, servia para formar versos impactantes e musicalmente sonoros – tão marcantes que são sempre cantados pelo público inteiro nos shows: “Esse papo já tá qualquer coisa/  Você já tá pra lá de Marrakesh”.
 Em seguida, continuando a verborragia e a sensualidade, “Da Maior Importância”, cuja letra, cheia de anacolutos, expele tesão por todos os lados, pois narra uma tentativa desesperada de autoconvencimento de não transar com uma amiga (“Teria sido na praia/ Medo/ Vai ser um erro.”). O clima mantinha-se sexy, mas agora nos versos boêmios de Chico Buarque  na linda versão para “Samba e Amor”, com aqueles silêncios capciosos entre um verso e outro. A esta altura, eu já percebia que o lado A do LP era todo neste clima, pois as próximas eram “Madrugada e Amor” e, depois, uma das melhores do disco e de toda a obra deste baiano: “A Tua Presença Morena”. Letra moderninsta, é marcada por anáforas, que, com sua proposital repetição no início dos versos, reforçam a ideia de admiração e amplitude que Caetano devota à sua musa tropical. Nessa, ele cria versos de um lirismo impressionante como: “A tua presença coagula o jorro da noite sangrenta”, ou “A tua presença se espalha no campo derrubando as cercas.” “Drume Negrinha”, só ao piano de Donato, fechava o lado A do LP num tom leve e malicioso: “Drume Negrinha, que eu te transo uma nova caminha”.
 Aí vinha o lado B. Virei o disco. O que eu encontraria ali? Continuaria naquele clima “fogoso”? Soltei a agulha. Logo percebi que aquilo tomava outro rumo, pois abria com uma versão para “Jorge de Capadócia”, que talvez seja tão clássica quanto a de Jorge Ben. Com arranjo mais acústico que a eletrificada original, não perdia, contudo, o tom épico e ritualístico da composição, que conclama tanto com São Jorge quanto Ogum. Excelente. Em seguida, outra surpresa. Aliás, tripla surpresa: três versões para canções dos The Beatles: “Eleanor Rigby”, magnífico samba lento só ao violão e percussão, com um tempo marcado e cadenciado, além de contar com um show de vocal; “For no One”, sem dúvida a melhor delas em que Caetano, com extremo lirismo, traduz a melancólica peça de Lennon e MacCartney para uma bossa suingada que remetia novamente à sensualidade do lado A; e “Lady Madonna”, na qual faz o inverso: tira todo o gás da esfuziante original dos rapazes de Liverpool e fica quase que só com a melodia. “Qualquer Coisa” tem ainda “La Flor de la Canela” e “Nicinha”, uma curta e doce homenagem à irmã que faz Caetano voltar a Santo Amaro, onde nasceu, numa volta à origem. Final do disco, ruídos da agulha no final da faixa.
Caetano completando 70 anos
neste dia 7 de agosto
 Se na época aquela gafe na loja de discos me traumatizou – a ponto de, por anos, não contar a ninguém –, hoje o relembro com carinho e entendimento. Afinal, “Qualquer Coisa” é realmente de tirar qualquer um do chão. Álbum de conceito, é a primeira parte de um duo de discos que se completaria com “Joia”, de um ano depois. Também é a afirmação do ex-exilado artista, que, já consagrado, havia voltado ao Brasil abaixo de pedrada quando do lançamento do concretista e malcompreendido “Araçá Azul” (1972), um dos maiores fracassos de venda da história da indústria fonográfica brasileira. “Qualquer Coisa”, bem aceito por gregos e troianos, vinha assentar a posição que Caetano Veloso sempre fez jus em ocupar: o de um dos maiores gênios da música ainda vivos, um artista dono de uma obra não só descomunal como permanentemente criativa e criadora. Por isso, neste 7 de agosto, comemoro as sete décadas de mano Caetano reouvindo “Qualquer Coisa”. Mas não pensem que ouvirei qualquer coisa do “Qualquer coisa”. Não! Ouvirei o meu LP, curtindo faixa a faixa com o encarte debaixo do braço.



vídeo de "A Tua Presença Morena", Caetano Veloso

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FAIXAS:

1. Qualquer coisa (Caetano Veloso)
2. Da maior importância (Caetano Veloso)
3. Samba e amor (Chico Buarque)
4. Madrugada e amor (José Messias)
5. A tua presença morena (Caetano Veloso)
6. Drume Negrinha (Drume negrita) (Ernesto Grenet)
7. Jorge de Capadócia (Jorge Ben)
8. Eleanor Rigby (McCarney, Lennon)
9. For No One (McCartney, Lennon)
10. Lady Madonna (McCartney, Lennon)
11. La flor de la canela (Chabuca Granda)
12. Nicinha (Caetano Veloso)



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Ouça

Monstro do Pântano




"Monstro do Pântano"- Reis, Cly
óleo, acrílica, areia e barbante sobre madeira

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Italian Genius Now – Santander Cultural – Porto Alegre



A famosa Vespa, idealizada por Corradino D'Ascanio.
Ícone do design italiano
Italian Genius Now é a exposição em cartaz no Santander Cultural até o dia 12 de agosto. A mostra é realizada em parceria com a Unisinos, Brinna e Melissa e reúne 90 obras de 49 artistas e designers, que exibem um relevante panorama da produção do design italiano dos últimos 60 anos.

A curadoria fica a cargo de Marco Bazzini, graduado pela Faculdade de Letras e Filosofia de Bolonha, no curso de Disciplinas das Artes Musicais. A mostra apresenta objetos de alto valor estético ricos em funcionalidade e modernidade, entre os quais documentos, fotografias e materiais editoriais.

O projeto faz parte das celebrações do Momento Itália-Brasil e se apresenta como uma parceria com o Centro de Arte Contemporânea Luigi Pecci. O circuito é imperdível e reforça a riqueza da imagem artística do Made in Italy, presente na produção das artes que tanto influenciou o mundo e continua a nos surpreender.
'Casa A.N.A.S gonfiabile' de UFO - Lapo Binazzi

'Home Sweet Home' de Paolo Canevari

'Transformabili' de Moreno Ferrari

'Fossili Moderni' de Massimiliano Adami

'Poltrona Proust' de Alessandro Mendini

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 Para visitação:
Santander Cultural Porto Alegre
Rua Sete de setembro, 1028 - Centro Histórico. Porto Alegre/RS.
Tel. 
51 3287.5500

De terça a sábado, das 10h às 19h
Domingos e feriados, das 13h às 19h


terça-feira, 31 de julho de 2012

Stevie Wonder - "Innervisions" (1973)



Ou isso é uma visão em minha mente?
verso da canção “Visions”



Quando vi  Paul McCartney ao vivo chorei praticamente do início ao fim do show. Eu já previa que isso ia ocorrer, tendo em vista meu sentimento por sua obra, tão formativa quanto vital para a história da arte moderna – e até porque o podia fazer sem constrangimento, já que todo o estádio fazia igual a mim. Porém quando assisti pela TV Stevie Wonder no Rock in Rio 2011 eu não esperava que o mesmo acontecesse. E aconteceu... via satélite. Chorei música atrás de música, tanto nas lentas quanto nas agitadas – o que virou motivo de chacota entre os amigos. Mesmo já tendo boa parte da discografia dele há muito tempo, essa reação me surpreendeu, pois eu mesmo não tinha noção do quanto a obra mágica deste gênio (e isso eu já sabia) tinha tanto a ver comigo e que estava tão impregnada em minha alma. Mas se todas as músicas me tocavam, parei para pensar naquela hora, entre soluços e uma felicidade imbecil, com qual disco eu mais me identificava, uma vez que gosto de todos. A resposta veio como numa visão: “Innervisions”.
A escolha só podia ser de cunho emocional, pois TODA a discografia de Stevie Wonder dos anos 70 até o início dos 80 é fundamental. Assim como o lindo  "Talking Book"  (1972), já resenhado aqui, o exuberante “Songs in the Key of Life” (1976) ou a magnífica trilha sonora “Journey Through the  Secret Life of Plants” (1979), “Innervisions” é item obrigatório na prateleira de qualquer diletante. Um marco da black music considerado pelos críticos um dos melhores da música pop de todos os tempos. Mas o que para mim o diferencia e lhe dá um significado ainda maior é a relação estreita com universo onírico e figurativo de um artista que, cego desde a infância, é capaz de produzir uma arte absolutamente fulgurante, cristalina, repleta de verdade e sentimentos genuínos. Sua música vai no fundo do fundo do fundo.
“Innervisions” é o auge criativo de Stevie Wonder. A estas alturas, 1973, ele já não era mais o Little Stevie de quando surgira, aos 16 anos, como um prodígio; mas, sim, o consagrado Stevie Wonder, sucessor de uma linhagem que vem de Sam Cooke, Solomon Burke, Ray Charles, James Brown e que vai parar nos criativíssimos artistas negros da gravadora Motown como ele. Compositor nato, multi-instrumentista e dono de uma voz potente e deliciosa, capaz de ir de uma escala à outra sem esforço, Stevie já era nesta época um artista planetário que vendia milhões de discos. Mas, mais do que isso, “Innervisions”, Grammy de Melhor Álbum do Ano em 1974, é o resultado de um autoacolhimento pessoal, de um sentimento muito íntimo e definitivo de reconhecimento dele mesmo enquanto portador de uma deficiência. Não é à toa que a obra se refere justamente ao sentido que ele não possui: a visão (e será que não possui mesmo?...). Ali Stevie está pleno de si, fazendo com que o problema da falta de visão não seja um problema, mas, pelo contrário, um canal sensitivo que o fez se tornar alguém tão sensível que suas percepções se afinam a tal ponto de não precisar mais enxergar. Prova maior disso é que ele compõe, toca, canta, arranja e produz todo o disco. Até (pasmem!) a capa é concebida por ele: um desenho bastante simbólico em que a energia produzida por seus olhos ganha a atmosfera e a amplidão.
E as músicas, o que dizer? Somente nove faixas, perfeitas em tudo: melodia, harmonia, execução, arranjo, canto, edição de áudio. Clássicos do cancioneiro norte-americano e mundial, marcos do que de mais sofisticado e criativo se fez em música pop no século XX. O álbum abre mandando ver com “Too High”, um funk-jazz fusion cheio de um suingue tão contagiante que isso chega a exalar por sua voz e por todos os sons que emanam. Moderníssima em sonoridade e texturas, é tudo o que músicos cool de hoje gostariam de fazer mas não conseguem atingir. “Too fine”!
Se o clima começa animado e dançante, “Visions”, uma melancólica balada tocada em guitarra base, baixo acústico e guitarra-ponto entra delicada mas dizendo a que veio. De arrepiar. Cantada com extremo lirismo, sua letra fala de igualdade entre os homens e de um princípio natural capaz de promover paz para todos. A lei nunca foi aprovada/ Mas de alguma forma todos os homens sentem que estão verdadeiramente livres finalmente/ Será que realmente fomos tão longe no espaço e no tempo/ Ou isso é uma visão em minha mente?”.
Não seria exagero se Stevie quisesse acabar o disco já na segunda faixa, que é daquelas canções definitivas. Mas o bom é que não acaba!, e na sequência vêm o arrebatador tema-denúncia “Living for the City”, show de vocais e sintetizadores que aborda a opressão aos negros, e “Golden Lady”, um soul romântico e suingado tão belo que chega a reluzir. Sempre colando uma faixa à outra – como é característico de seus discos –, o astral leve de “Golden Lady” dá lugar ao funkão pesado de “Higher Ground”, tão rock em concepção que não precisou muito para que o Red Hot Chilli Peppers  a regravasse anos depois com mais distorção mas sem grande alteração no arranjo. Os versos: People keep on learnin'/ Soldiers keep on warrin'” (“As pessoas continuam aprendendo/ Os soldados continuam lutando”), viraram clássicos. Incrível, incrível.
Outra de deixar de o queixo caído é “Jesus Children of America”, soul cantado em escala decrescente, mas que, do meio para o fim, aumenta um tom, o que faz Stevie soltar, em várias vozes sobrepostas, seu afinado e cintilante falsete. O clima cai novamente, agora para uma suíte romântica ao piano de fazer qualquer casal brigado reatar: “All in Love is Fair”, típica balada Motown, com sua levada carregada de sentimento e um refrão que explode em emoção. Nessa Stevie dá uma verdadeira aula de canto. De chorar, ainda mais no fim em que bateria, voz e piano dão os suspiros finais.
Mas  se Stevie é hábil nas lentas, também possui o mesmo talento para fazer mexer o esqueleto. “Don’t  You Worry ‘bout a Thing”, que vem logo em seguida, é uma rumba marcada no piano e nos chocalhos que faz enxugar as lágrimas e levantar o astral de novo. Usada mais de uma vez no cinema, como na comédia “Hitch” (a cena do passeio de Jet-ski pelo rio Hudson de Nova Iorque), é daquelas músicas tão alegres que remetem diretamente ao colorido alegórico da cultura africana, influência sempre tão presente e hibridizada na obra de Stevie. O disco encerra na atmosfera melódica e gostosa de “He’s Misstra Know-it-all”, com seus bongôs acompanhando a bateria e o piano num andamento suave e suingado que, ao final, vai sumindo devagarzinho enquanto Stevie improvisa nos vocais.
Essas cores e esse brilho estavam no palco quando vi Stevie pela TV no Rock in Rio. Aos 70 anos, toda aquela verdade e prazer de produzir uma arte pura e elevada podia ainda ser percebida. Não tinha como não ficar tocado. Reouvi “Innervisions” dias depois do show, ainda sob efeito da apresentação. Mas não chorei mais, pois me dei conta de definitivamente se tratar de um dos artistas mais importantes para a minha vida. Ele, que eu já sabia ser um dos maiores de todos os tempos, como Mozart, Ravel , Coltrane , Chico  e o próprio MacCartney. Pode colocá-lo tranquilamente nesta fila, que aqui pra mim o altar dele já está reservado.

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FAIXAS:

1. "Too High"  Stevie Wonder 4:36
2. "Visions"  Wonder 5:23
3. "Living For The City"  Wonder 7:23
4. "Golden Lady"  Wonder 4:58
5. "Higher Ground"  Wonder 3:43
6. "Jesus Children Of America"  Wonder 4:10
7. "All In Love Is Fair"  Wonder 3:42
8. "Don't You Worry 'bout a Thing"  Wonder 4:45
9. "He's Misstra Know-It-All"  Wonder 5:35


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Ouça:
Stevie Wonder Innervisions



segunda-feira, 30 de julho de 2012

Johnny Cash - "American IV - The Man Comes Around" (2003)



"Nenhuma canção está segura comigo"
Johnny Cash


Depois da fama, dos dramas, do auto-exílio, do ostracismo e de sua redescoberta, aos 70 anos de idade, Johnny Cash conseguia se reinventar e recriar uma série de canções populares, conferindo-lhes de tal modo, nova vida e personalidade a ponto de soarem melhores que as originais ou fazer parecerem suas. Muito disso deveu-se ao olho perspicaz, ao ouvido afiado e às mãos habilidosas na mesa de som de Rick Rubin, produtor consagrado que entrou em estúdio com o Homem de Preto, sugeriu músicas para o repertório e deixou que o velho cantor country-rock colocasse sua alma naquelas canções, naquele que era o quarto disco da série que Cash gravara pela American Records, trazendo-o de novo à evidência depois de algum tempo renegado pelas gravadores.
Em “American IV – The Man Comes Around”, Cash, acompanhado de seu violão, com sua voz quase macabra, gravava Sting, Hank Williams, Beatles e coisas mais improváveis como Depeche Mode e Nine Inch Nails. O resultado é um disco incrível, impecável, emocionante. Uma das melhores coisas feitas nos últimos 30 anos.
“The Man Comes Around”, a música que abre o disco, abre também o "Madrugada dos Mortos" e não poderia ser mais apropriada para um filme como aquele, uma vez que, aliada à voz sinistra do cantor, a letra é absolutamente apocalíptica prevendo um trágico fim dos tempos.
Johnny Cash consegue melhorar consideravelmente a insossa “Bridge Over Trouble Water” de Simon e Garfunkel, conferindo-lhe mais sentimento, num belíssimo dueto com PJ Harvey; dá a “versão definitiva” para a balada assassina “I Hung My Head” de Sting, como reconhece o próprio autor; e ‘apropria-se’ de “In My Life” dos Beatles como se nunca tivesse existido uma versão original. Além disso, com a ajuda de Rubin, faz a leitura correta de “Personal Jesus” do Depeche Mode descortinando exatamente todo a raiz country já existente originalmente nela, proporcionando outra versão matadora.
Revitaliza velhas canções suas como “Give My love To Rose”, “Tear Stained Letter” e dá arranjos pessoais e especiais a canções tradicionais americanas como “Sam Hall” e Danny Boy”, dotando-as de novas personalidades com sua interpretação singular.
Mas o grande momento do disco e a chave de ouro para o fim de uma carreira e de uma vida é a versão de “Hurt” do Nine Inch Nails. Nela Cash põe toda a emoção de uma vida. Parece colocar ali todas as amarguras, as perdas as tristezas, tamanha força da interpretação. Ex-dependente, Cash canta a letra de Trent Reznor sobre o vício em drogas com uma sinceridade comovente numa versão que é tão definitiva a ponto de o próprio autor reconhecer que a música deixou de ser dele.
 “Americans IV” foi o último disco de Johnny Cash, que felizmente, apesar de toda uma vida turbulenta de altos e baixos pessoais e profissionais, teve em seu último momento ainda mais um grande disco e o devido reconhecimento a seu talento e importância no universo artístico.
O trabalho com o produtor Rick Rubin, que de certa forma, trouxe Johnny Cash de volta ao mundo, aparece e é muito bem retratado na história em quadrinhos "Johnny Cash, uma Biografia", de Reinhard Kleist, excelente registro da carreira do cantor, ilustrando toda a vida do artista com um roteiro muito bem amarrado e um trabalho gráfico de primeira qualidade. Assim como o disco, vale a pena ter.

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FAIXAS:
01.The Man Comes Around [J.Cash] 4:26
02.Hurt [T.Reznor] 3:38
03.Give My Love To Rose [J.Cash] 3:28
04.Bridge Over Troubled Water [P.Simon] 3:55
05.I Hung My Head [Sting] 3:53
06.First Time Ever I Saw Your Face [MacColl] 3:52
07.Personal Jesus [M.Gore] 3:20
08.In My Life [Lennon/McCartney] 2:57
09.Sam Hall [trad.arr.J.Cash] 2:40
10.Danny Boy [trad.arr.J.Cash]3:19
11.Desperado [Frey/Henley] 3:13
12.I'm So Lonesome I Could Cry [Williams] 3:03
13.Tear Stained Letter [J.Cash] 3:41
14.Streets Of Laredo [trad.arr.J.Cash] 3:33
15.We'll Meet Again [Charles/Parker] 2:58

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vídeo de "Hurt", Johnny Cash

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Ouça: