quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Miles Davis - "In a Silent Way" (1969)
"Miles chegou prar mim e disse, 'toque como se você não soubesse como tocar guitarra' (...) Comecei a dedilhar a melodia e quando olhei, Miles estava adorando (...) Fiquei abismado, porque tocávamos apenas uma nota, sol, e ele transformou isso em algo especial."
John McLaughlin, guitarrista
Curiosamente exatamente na chamada fase elétrica da carreira de Miles Davis, o meste nos apresentava um disco 'silencioso'.
"In a Silent Way" de 1969, apesar de inegavelmente apresentar mais elementos rock, um incremento de guitarras e órgãos elétricos, é um disco de uma sutileza e leveza quase inexplicáveis. Um álbum cujos vazios são quase tão importantes quanto os cheios. Onde a sugestão de uma nota, de um acorde, compõe a música de uma maneira quase tão fundamental quanto o próprio instrumento.
Com o estilo e sofisticação característicos de sua obra, Miles nos conduz numa incrível viagem no vácuo acompanhada pelo som de uma magnífica banda cheia de improvisações e de seu trumpete inigualável. Basicamente com apenas duas canções que se repetem sob variações ao longo do disco, o mestre hipnotiza-nos com suas improvisações improváveis, com sua nota fora de hora, com seu trumpete tocado no nada da música ou com a música esperando por uma nota que simplesmente não aparece, mas está lá.
Só mesmo um grande gênio como Miles Davis para nos proporcionar um disco de rock com música límpida, calma e... silenciosa, e “In a Silent Way”, uma daquelas obras únicas e inigualávies na história da música, consegue isso.
Silêncio! Ouçam...
Silêncio! Ouçam...
Shhhh!!!!
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FAIXAS:
1. "Shhh/Peaceful" (Miles Davis) – 18:16"Shhh" – 6:14
"Peaceful" – 5:42
"Shhh" – 6:20
2. "In a Silent Way/It's About That Time" (Joe Zawinul, Miles Davis) – 19:52
"In a Silent Way" (Joe Zawinul) – 4:11
"It's About That Time" (Miles Davis) – 11:27
"In a Silent Way" (Joe Zawinul) – 4:14
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Ouça:
Miles Davis In A Silent Way
Cly Reis
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
Atacama: uma aventura fotográfica, de Felipe Dumont e Thierry Rios, ed. Imprensa Livre (2007)

Em rápida estada em Rio Grande (RS), ganhei do fotógrafo rio-grandino Felipe Dumont um exemplar de seu livro “Atacama: uma aventura fotográfica”, co-assinado por seu amigo e também fotógrafo Thierry Rios. Como o nome sugere, registra fotos da dupla feitas no deserto do Atacama, norte do Chile, conhecido como o mais alto e mais árido do mundo, além dos pequenos povoados dos arredores onde puderam registrar deslumbrantes imagens, algumas de lugares tão inóspitos que parecem não pertencer ao planeta Terra.
A predominância da luz solar, na grande maioria dura, provocando muita sombra e contraste, marca as cerca de 130 fotos escolhidas para figurar na obra. Sem créditos para um ou outro, demonstrando a verdadeira parceria de Felipe e Thierry, mostram, na primeira parte, vários grandes planos da Cordilheira de Sal, onde é possível perceber as incríveis variações cromáticas produzidas por uma região em que o sal petrificado, a neve, o gelo e a água líquida convivem com a claridade da luz natural, criando imagens quase surreais. Tão sobrenaturais quanto são as de El Tatio, onde gêiseres situados sobre uma caldeira vulcânica, em plena Cordilheira dos Andes, jorram água fervente que, em contato com o ar e a temperaturas abaixo de zero, gera vapores que, quando iluminados pelo sol, produzem efeitos interessantíssimos. Quase surreal.
As que mais gostei, no entanto, vêm na segunda metade do livro: as fotos dos povoados áridos, coloridos e fulminados por um sol que parece permanentemente o de meio-dia. É uma região localizada a altitudes de 3 mil a 4 mil metros onde, reza a lenda, não chove a 400 anos. Seu povo, os atacamenhos, é judiado pelo sol implacável, pelo vento arenoso e pelo ar seco. Com muita sensibilidade, a dupla consegue captar lindos lances dessas pessoas cujos primeiros nativos, dizem, datam de 10 mil anos atrás.Variações climáticas abissais (Felipe me relatou que, num dos dias, passaram de -18° para 26° num intervalo de oito horas), natureza incomum, gente hospitaleira e muita, mas muita aridez. “Que força é essa que nos moveu a um lugar tão longínquo e de condições tão difíceis?”, perguntaram-se depois da jornada. Em seu depoimento no livro, Felipe responde a essa questão: “Essa força não é outra senão um grande sentimento de poder. O poder de parar o tempo.” De fato, é o que esse belo livro consegue transmitir àqueles que, como eu, estão confortavelmente aqui embaixo. No planeta Terra.
por Daniel Rodrigues
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
sábado, 3 de dezembro de 2011
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
"Escuta Só, Do Clássico ao Pop', de Alex Ross
Acabei de ler o "Escuta Só" do jornalista norte-americano Alex Ross e não gostei tanto quanto eu imaginava que gostaria. Em poucos momentos ele realmente traça paralelos e estabelece analogias entre a música clássica e o universo pop- rock, o que supunha eu, fosse a tônica do livro. Até o faz no início do livro com uma interessante progressão cronológica e inter-relações de épocas e estilos, mas depois até pelo fato de ser uma coletânea de matérias, perde um pouco este foco.De bem bacana mesmo o capítulo em que fala da cantora islandesa Björk, atribuindo a ela o devido valor no cenário da música atual; o capítulo sobre o Sonic Youth no qual faz ver que por trás de todo um aparente barulho há um conceito e músicas extremamente bem construídas; a parte toda sobre Mozart e sobre como este gênio sabia agradar populares e eruditos; e também quando demonstra a evolução das linguagens musicais que desembocaram na formação do blues. No mais, é interessante quando fala de uma instalação natural-musical chamada O lugar onde você vai para ouvir, e toda a reverência que presta ao mito Bob Dylan refazendo sua trajetória e analisando letras e composições.
Esperava mais do livro mas está longe de ter sido uma decepção. Vale pela tentativa de desmitificação do 'monstro sagrado' que é a música tida como erudita, e o autor se empenha especialmente em mostrar que, no fim de tudo, tudo é apenas música.
Uma boa leitura, no fim das contas.
Cly Reis
Coluna dEle #22
Fala, galera aí de baixo! Tô chegando!
Tudo belêz?
Comigo tudo numa boa. Tenho que administrar essa coisa toda, mas vai-se levando como se pode. empurrando com a barriga, que aliás tá enorme. A Mulhé ja disse que Eu tenho que emagrecer mas como é que eu vou dispensar aquela lasanha no fim-de-semana, né?
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Por falar em comilança, como é que tão os preparativos pro Natal?
As compras, a ceia, o peru, a rabanada?
Aqui em casa, cês sabem que é aquela coisa: além de Natal é aniversário do Meu guri. Fica um EU nos acuda.
A Patroa já montou árvore, botou enfeitezinho na porta, presépio... Afff! Essas frescuras!
Minha Nosssa Senhora!!!
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Infelizmente esse ano as festas vão cair em final de semana, né?
Merda!
Não vai ter feriadão.
Até pensei em mudar o calendário, já que Eu posso tudo, mas isso ia desorganizar todos os próximos mil anos, e aí quem ia se ferrar era Eu, então melhor deixar assim mesmo. Mas vam'vê se, já que Eu mando nessa merda mesmo, se Eu dou um jeito de fazer um recesso por aqui. ; -)
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Como andou atrasando o Meu 13°, só agora vou poder começar a providenciar as coisas. Não queria deixar tudo pra última hora porque, vocês sabem né, os shoppings ficam uma loucura. Mas não vai ter jeito, vou ter que encarar lojas cheias e aquela coisa toda. Um Inferno!
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A Dona Encrenca quer um desses smart-phones que fazem tudo.
Tem uns desses que são impressionantes mesmo. Fazem coisas que até Eu duvido.
Já o Meu Guri quer um jet-ski. Não sei pra que se ele pode muito bem caminhar sobre a água, mas ele insiste, diz que é mais radical e tudo mais, então, vá lá.
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A propósito de tecnologia, Eu andei trazendo pra cá pra cima o Steve, aquele da Apple e aproveitei e dei uns jobs pra ele no Meu departamento de informática. Só um cara como ele pra organizar essa bagunça. Aproveitei e pedi pra ele inventar alguma coisa pra facilitar a Minha vida.
O cara é bom! Bom mesmo! Inventou um tablet aqui que Eu posso comandar o mundo de onde Eu estiver, na cama, no banheiro, no sofá.
É o iGod.
Pequeno, levinho, fininho, fácil de carregar... Adoro ir percorrendo de um continente pro outro só tocando na tela. O mundo na ponta dos Meus dedos! Um barato! Hehehe!
É, e tem USB, bluetooth, memória o bastante pra guardar todos os arquivos da história da humanidade, uns joguinhos maneiros e o melhor é que tem acesso às redes sociais. Agora fica bem mais fácil de acessar o meu Face.
Foi o presentinho que Eu Me dei de Natal, afinal de contas Eu também sou filho de ... Bom, quer dizer... Não sou filho, Eu sou.. Ah, esquece!
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Pedidos de Natal para: god@voxdei.gov
Fui!
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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
David Bowie - "Aladdin Sane" (1973)
'A Lad Insane'?
'A Land Insane'?
'Love Alladin Vein'?
Não, 'Aladdin Sane' apenas.
Não, 'Aladdin Sane' apenas.
trocadilhos posíveis
idealizados para o nome do álbum
Readquiri ontem, depois de muito tempo apenas com algumas músicas dele numa coletânea 'geralzona', o ótimo "Aladdin Sane" de David Bowie, de 1973.
Cartilha do glitter rock e um dos melhores álbuns do Camaleão, "Aladdin Sane", o sucessor do clássico "The Rise and the Fall of Ziggy Stardust...", é praticamente uma continuação daquele, sem ser uma repetição ou uma imitação. É sim uma recriação. Por mais que seja bem glam, bem carregado nas guitarras assim como o outro, "Aladdin Sane" tem toda uma personalidade enquanto álbum, uma aura própria e uma melodiosidade toda peculiar.
"Watch the Man" que abre o disco é um exemplo perfeito do glitter característico de Bowie; "Panic in Detroit" e "Cracked Actor" carregam nas guitarras em dois rockões empolgantes; "Time" é uma provocante balada de cabaré interpretada com maestria com aquele jeito Bowie, único, de cantar; e "The Jean Genie", outra das melhores do disco, é um bluesão fantástico e matador.
A faixa que dá nome ao álbum, por sua vez, é uma requintada e ousada composição onde a base chega a estacionar e parar, repetindo-se, para dar espaço a um admirável solo de piano. Piano que também é destaque na faixa final, "Lady Grinning Soul", uma melodia flamenca na qual o som das teclas alvi-negras parece deslizar por sobre a canção, fluindo líquido como se escorresse pelo seu interior.
Bowie apresenta-nos ainda uma cover muito legal de "Let Spend the Night Together" dos Rolling Stones , inclusive com uma inusitada pausa para distorções no finalzinho, o que dá um toque todo particular à versão.
Mais um grande disco deste cara que nunca cansou de nos surpreender. Que praticamente se renova a cada 2 ou 3 discos, sempre estando na vanguarda dos acontecimentos, tendências e costumes. E com este álbum não foi diferente
Bowie sempre atemporal.
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FAIXAS:
1."Watch That Man" 4:25
2."Aladdin Sane (1913-1938-197?)" 5:06
3."Drive-In Saturday" 4:29
4."Panic in Detroit" 4:25
5."Cracked Actor" 2:56
6."Time" 5:09
7."The Prettiest Star" 3:26
8."Let's Spend the Night Together" 3:03
9."The Jean Genie" 4:02
10."Lady Grinning Soul" 3:46
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Ouça:
David Bowie Aladdin Sane
Cly Reis
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
cotidianas #119 - Tocaia
Cansaço...
Não, não poso deixar o sono me vencer. Tenho que estar atento. Falta pouco. Deve faltar pouco, eu acho. Estou aqui, escondido, agachado faz umas quatro horas e nada. E agora essa chuva pra piorar. Mas deve faltar pouco para eles chegarem. E quando chegarem, tenho que estar com o dedo pronto. Rápido. Ágil. Provavelmente só terei uma chance. Ah, e esse frio.
O que foi isso? Um barulho. Devem ser eles. Tenho que estar pronto, tenho que estar atento. Uma luz, vozes... Eles? Não. Alarme falso. Tenho que estar pronto. Assim que eles chegarem, pá! Tenho que sacar rápido, disparar e sair correndo.
E eu aqui, entrincheirado, feito um bicho. Será que tudo isso vale a pena? Tudo isso em nome de que? Fome, sede,... minhas pernas doem. Esquece. Esquece a dor. Esquece o cansaço. Tpa quase. Mantém a calma. Mantém a calma.
Agora, sim. Parecem ser eles. Se aproximam... Sim, são eles. Atenção! (Seja rápido, seja rápido. Seja preciso).
Agora!
Um clique!
Perfeito!
Agora podemos provar que eles tem um caso. Ih, o segurança vem vindo. Correr, correr...
Essa vai pra capa.
Cly Reis
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
domingo, 27 de novembro de 2011
1ª Feira da Fotografia Artística - Galeria e Espaço Cultural La Photo - Porto Alegre- RS
Dos conhecidos, Fredy Vieira, velho parceiro de coberturas jornalísticas e um dos idealizadores do projeto, expôs um dos mais interessantes trabalhos da mostra, como a ótima e comentada foto de David Lynch quando da vinda do cineasta a Porto Alegre, em 2009.
Nilton Santolin foi outro amigo a quem estive lá cumprimentando. Dele, estavam algumas de suas maravilhosas fotos p&b que já tivera o prazer de conhecer na sua exposição própria "Aqui, Ali e Acolá", sobre a qual comentei aqui neste blog em julho. Quem também estava lá era Ivo Gonçalves, mais um companheiro de pautas.
Destaque também para as lindas fotografias de Magdalena Protskof Szabo de closes de superfícies de madeira, criando imagens coloridas e abstratas. Outra que explora muito bem a textura do objeto fotografado é Lou Borghetti na série “A ferro e flor”, como o vistoso quadro de uma porta de ferro enferrujada.
Várias coisas legais. Entre as que mais gostei, uma que evidencia, entre os desbotados prédios do Centro da cidade, uma de minhas maiores admirações da natureza de Porto Alegre: o intenso azul do céu (foto do topo).
Além dos dos citados, participam da mostra: Ana Paula Aprato (co-organizadora), Marcelo G. Ribeiro, Claudio Fachel, Eduardo Seidl, Guerreiro, João Machado, Jorge Aguiar, Kiran León, Leonid Streliaev, Pedro Flores, Regina Peduzzi Protskof, Ricardo Stricher, Roberta Borges, Sandra Genro e Zezé Carneiro.
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1ª Feira da Fotografia Artística de Porto Alegre
Até 4 de dezembro
Local: La Photo – Galeria e Espaço Cultural (Endereço: Travessa da Paz, 44 - Brique da Redenção – Porto Alegre)
Horário de visitação: das 11h às 19h
| David Lynch pela lente de Fredy Vieira |
![]() |
Prestigiando o trabalho do amigo Nilton Santolin
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As cores de Magdalena Szabo
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| Trabalho de Lou Borghetti |
![]() |
| "Água 1" de Eduardo Seidl |
Daniel Rodrigues
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
The Glove - "Blue Sunshine" (1983)
"Foi um ataque real sobre os sentidos, quando estávamos fazendo o álbum.
Estávamos praticamente saindo do estúdio às seis da manhã... assistindo todos aqueles filmes mentais e em seguida indo dormir e tendo sonhos realmente dementes...
Deus, nós devemos ter visto uns 600 filmes naquela época.
Devem ter sido todas aquelas pós-imagens que surgiram nas canções."
Estávamos praticamente saindo do estúdio às seis da manhã... assistindo todos aqueles filmes mentais e em seguida indo dormir e tendo sonhos realmente dementes...
Deus, nós devemos ter visto uns 600 filmes naquela época.
Devem ter sido todas aquelas pós-imagens que surgiram nas canções."
Robert Smith
Numa época em que tinha grandes dificuldades financeiras para comprar LP's e, no mais das vezes, o máximo que conseguia era pagar para gravar em K7 muitas coisas que gostava, com grande esforço consegui adquirir o "Blue Sunshine" do The Glove. Um exemplar bonito, uma edição japonesa bem legal que, não precisaria nem dizer mas passou a ser o xodó dos meus vinis. Mas não tinha esse carinho todo apenas por ter sido caro, ser importado, ou por ter sido suado; o disco era muito bom mesmo!
Em recesso com suas respectivas bandas, Robert Smith do The Cure e Steven Severin dos Banshees da cantora Siouxsie Sioux, resolveram dar um tempo com seus times titulares e juntaram-se num projeto paralelo para criar o The Glove, banda que contava ainda com a bailarina e performer Jeanette Landray nos vocais, e com o baterista Andy Anderson que futuramente viria a tocar no Cure também, além de músicos de cordas convidados. A brincadeira durou apenas um disco mas, talvez pela liberdade de poderem atuar sem o peso dos nomes consagrados de seus grupos, produziram um trabalho diferenciado em relação aos próprios produtos originais, sem abandonar contudo o clima sombrio e soturno característico de ambas as bandas.
“Blue Sunshine” é uma viagem etílica alucinógena demente por um mundo fantástico de cidades coloridas, personagens absurdos, crimes brutais, perversões e sonhos. Regados a drogas e álcool, a dupla mergulhada em filmes B, terror trash, quadrinhos e ficção científica produziu uma série de atmosferas sonoras repletas de imagens e cores fascinantes, amarradas quase que continuamente por sons de trechos de filmes que ficam ao fundo ligando uma faixa à outra.
O Homem-Cassino, o Homem-Guarda-Chuva, são heróis e vilões improváveis no mundo miniatura da adorável “Looking-Glass Girl”, uma canção leve pontuada por uma linha de cordas apaixonante. “Sex-Eye-Make-Up” traz um clima pesado, tenso, misterioso, com uma atmosfera sonora densa, uma narração sombria de Landry ao vocal, e solos arrasadores e desconcertantes de Robert Smith com uma guitarra rascante, destorcidísima e ruidosa. Em “Like na Animal”, a primeira do disco, quem se destaca, por sua vez, é Steve Severin com uma linha de baixo precisa, contínua e uniforme deslizando sobre a música como se estivesse solando o tempo inteiro.
![]() |
Robert Smith: "Não me lmebro muito bem do que rolou.
Estávamos muito bêbados o tempo inteiro."
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O disco tem duas instrumentais, “A Blues in a Drag”, uma elegia melancólica com o teclado dobrado e ecoado; e a derradeira do álbum, a excepcional “Relax”, uma viagem psicodélica alucinante cheia de efeitos, sintetizadores e samples de vozes em japonês desfilando sobre uma base de guitarra à espanhola e uma linha de teclado característica de filmes de ficção científica, numa trip que mais se aproxima, na verdade, de uma espécie de pesadelo sonoro.
Em parte pouco conhecido, em parte subestimado, “Blue Sunshine” do Glove, é, no entanto, um dos grandes discos dos anos 80 e, particularmente, um dos melhores que conheço num âmbito mais geral.
Não tenho mais o vinil japonês que mencionei no início, o meu é o CD simplezinho, que até tem três faixas extra, mas e só. Soube que há algum tempo atrás saiu uma super-ediçao de luxo com um CD extra com as versões demo cantadas por Robert Smith. Talvez adquira uma hora dessas. De qualquer forma, o meu, mesmo sendo só o basiquinho continua sendo um dos maiores xodós da discoteca. Daqueles que se tem respeito, sabe? Daqueles que não se ouve sempre. Que, se for para ouvir sem dar atenção, melhor pegar outra coisa. Aqueles dos quais não se desperdiça uma audição em vão. E quando se pega para ouvir é aquela coisa superior: "Vou ouvir o 'Blue Sunshine'".
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FAIXAS:
01 Like An Animal
02 Looking Glass Girl
03 Sexy-Eye-Make-Up
04 Mr. Alphabet Says
05 A Blues In Drag
06 Punish Me With Kisses
07 This Green City
08 Orgy
09 Perfect Murder
10 Relax
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Ouça:
The Glove Blue Sunshine
Cly Reis
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
cotidianas #118 - Amando Sobre os Jornais
Amando noites afora
Fazendo a cama sobre os jornais
Um pouco jogados fora
Um pouco sábios demais
Esparramados no mundo
Molhamos o mundo com delícias
As nossas peles retintas
De notícias
Amando noites a fio
Tramando coisas sobre os jornais
Fazendo entornar um rio
E arder os canaviais
Das páginas flageladas
Sorrimos, mãos dadas e, inocentes
Lavamos os nossos sexos
Nas enchentes
Amando noites a fundo
Tendo jornais como cobertor
Podendo abalar o mundo
No embalo do nosso amor
No ardor de tantos abraços
Caíram palácios
Ruiu um império
Os nossos olhos vidrados
De mistério
*******************
"Amando Sobre os Jornais"
(Chico Buarque)
Ouça:
Maria Bethânia - "Amando Sobre os Jornais"
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
"A Rede Social", de David Fincher (2010)
......
Não, né...
Muito pouca coisa pra tanto estardalhaço.
Filmezinho comum. Não chega a ser ruim, mas comum. Muito trabalho para mostrar o que um 'babaca' (e o termo não é meu, é do filme) é capaz quando está descornado. O que o nosso 'babaca' em questão tem de especial, no caso é que ele é um nerd com alto potencial e é capaz de criar uma rede social, um outro babaca talvez escrevesse um livro, se alistasse pras tropas do Iraque ou retalhasse a namorada. E em todos estes casos isso dá um filme? Pode dar, uns com mais entusiasmo, outros com menos interesse: no caso do babaca do Iraque, pode dar um Rambo da vida, no outro, o hipotético estripador de namoradas, um bom filme de serial-killer, mas neste caso, com um blogueiro universitário, ficou um filme bem desinteressante. E o problema foi esse: por mais que o diretor tenha achado interessante o tema; tenha lá suas virtudes na abordagem e na adptação do roteiro; tenha seus méritos em ter dado dinâmica a uma história insossa, no fim a gente praticamente se apanha dizendo "tá, e daí?". Muito esforço só pra mostrar que... O que mesmo? Que por mais que se esteja praticamente abraçando o mundo pode-se, no fundo, estar muito sozinho? Era isso? Ora!
Gosto muito do David Fincher mas acho que ele está começando a se levar a sério demais. "Zodíaco", "Benjamin Button", este aí agora. Sinto falta do Fincher mais visceral de "Seven", mais visual como nos clipes da Madonna que dirigia; mais estético como em "Alien 3", que mesmo atorado pela produtora que modificou para ficar mais comercial deixa transparecer suas qualidades; ou mais violento e vigoroso como em "Clube da Luta", no qual porvavelmente tenha conseguido exatamente o que parece vir procurando ultimamente, que é ao mesmo tempo ser impactante e inquietante, sendo agresivo mas fazendo-nos pensar sobre o mundo e as pessoa à nossa volta.
Cly Reis
Led Zeppelin - "Led Zeppelin" (1969)
"Eu desejava que o Zeppelin fosse um casamento de blues, hard rock e música acústica coberto por refrões pesados, uma combinação que nunca tinha sido feita antes. Um monte de luz e sombra na música."
Jimmy Page
Que baita disco de estreia!
Depois do esfacelamanto dos Yardbirds, o guitarrista Jimmy Page saiu à cata de parceiros para sua nova empreitada e convocando um timaço - o baixista competentíssimo John Paul Jones, o monstro na batera John Bohan e o carismático vocalista Robert Plant de um poderio vocal estupendo - formava uma das maiores bandas da história do rock.
Com uma fórmula que englobava hard-rock, psicodelismo, country, folk e blues, incrementada pelo misticismo feiticeiro de Jimmy Page, o Led Zeppelin escrevia a partir de então uma das páginas mais importantes da história do rock com um disco impecável, "Led Zeppelin"de 1969 (também conhecido como "Led Zeppelin I"), que pelo peso, pelos timbres, pelas distorções, pelos solos, pela linguagem proposta, teria alta influência e começava inspirar aquilo que viria a ser o heavy-metal.
Seu primeiro disco traz o excelente rockão "Good Times, Bad Times" com a condução segura e precisa do baixo de Jones; o blues singular, com a marca ácida e experimentalista da banda, "Dazed and Confused"; e a elétrica "Communication Breakdown"; além de dois covers matadores do bluesman americano Willie Dixon e da ótima balada "Babe I'm Gonna Leave You" cheia de variações de intensidade e rompantes de peso, contando um show à parte do vocal de Robert Plant.
Um dos melhores discos de estreia da história do rock, aliás não só um dos melhores de estreia como um dos melhores sob todos os aspectos. Um dos mais importantes e influnetes com certeza. Sem sombra de dúvida, ÁLBUM FUNDAMENTAL.
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FAIXAS:
1. "Good Times Bad Times" (Bonham/Jones/Page)
2. "Babe I'm Gonna Leave You" (Page/Plant/Anne Bredon)
3. "You Shook Me" (Dixon/J. B. Lenoir)
4. "Dazed and Confused" Page (Page)
5. "Your Time Is Gonna Come" (Jones/Page)
6. "Black Mountain Side" (Page)
7. "Communication Breakdown" (Bonham/Jones/Page)
8. "I Can't Quit You Baby" (Dixon)
9. "How Many More Times" (Bonham/Jones/Page)
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Ouça:
Led Zeppelin 1969
Cly Reis
terça-feira, 22 de novembro de 2011
Os Causo de Dois Morro - A Crise na Grécia
Teve uma ôtra vêiz, há mutcho tempo atrás, que a tar da Gréça teve com uns probrema de finança que nem que agora. Aí que como naquela época a maior potença mundiar era Dois Morro, antonce que resorvero de vim pedi dinhêro por Coroné Agripino Roncoso. Veio o presidente deles na época, um tar de Péricles. Trôxe co'ele uma comitiva: veio o ministro das economia um tar de Pitágora que sabia fazê umas conta esquisita; o ministro da curtura um tar de Tony Platão que ixcrusive tocava num grupo de rocque; o ministro dos esporte, o tar de Sócrates, um ex-jogador que gostava de entorná uma 'mardita' que não era brincadêra; e o tar de Ésquilo que na verdade era só um bichinho de estimação da delegação.
Sei que o fulano esse o Pitágoras veio cheio de cárculo, cheio de conta, mostrô uns teorema, tudo pra justificá o tamanho do empréstimo que eles querío do Coroné.
O Coroné queria umas garantia, né. Vai emprestá dinhêro presses gringo e depois eles num devorve. Eles dissero que num tinho como dá garantia, que o Coroné 'creditasse na palavra deles e coisa e lousa. Aí que o Coroné Agripino se alevantou-se e falou pros greciano, entonce:
- Os senhor sabe quantas cabeça de profiteróle eu tenho na minha fazenda? Os senhor sabe quantos hectár de presunto eu planto aqui? Pr'ocêis vim me pedir essa fortuna e num deixá nada da garantia.
O tar do Sócrates já meio, mais pra lá do que pra cá, entonce respondeu co'aquela frase que ficou conhecida, "Eu só sei que nada sei", falô meio grogue.
E o coroné continuô:
- Eu não quero sabê quem é essa tar de Hipotenusa, se o senhor tem 2 ou 3 cateto e se eles são quadrado ou redondo. Não vão levá um centavo dessa fazenda e pode í se arretirando.
O tar de Péricles ainda tentou argumentá arguma cousa:
- Mas, Doutor Coronel...
- Não tem mais nem menos. - interrompeu o Coroné já exartado. E arrematô levando a mão ao revórve- Eu tô falando grego por acaso?
Foi o que bastô.
A comitiva gregária botô o rabinho no meio das perna e vortaro lá pr'aquela cidade cheia de TV a cabo, a tar da cidade de Antenas.
O que se viu-se foi a premêra crise econômica na Gréssa. foi tão sério que o tar Sócrates se suicidô-se com um veneno de nome estranho; Sófocles morreu soflocado; o povo só tinha peloponesos pra comê; e as obra púbrica ficaro tudo parada desde entonce. Os anfiteatro, o Partenon, por exempro, as obra ficaro sem terminá 'té hoje. A cidade tá parecendo uma ruína.
Sei que o fulano esse o Pitágoras veio cheio de cárculo, cheio de conta, mostrô uns teorema, tudo pra justificá o tamanho do empréstimo que eles querío do Coroné.
O Coroné queria umas garantia, né. Vai emprestá dinhêro presses gringo e depois eles num devorve. Eles dissero que num tinho como dá garantia, que o Coroné 'creditasse na palavra deles e coisa e lousa. Aí que o Coroné Agripino se alevantou-se e falou pros greciano, entonce:
- Os senhor sabe quantas cabeça de profiteróle eu tenho na minha fazenda? Os senhor sabe quantos hectár de presunto eu planto aqui? Pr'ocêis vim me pedir essa fortuna e num deixá nada da garantia.
O tar do Sócrates já meio, mais pra lá do que pra cá, entonce respondeu co'aquela frase que ficou conhecida, "Eu só sei que nada sei", falô meio grogue.
E o coroné continuô:
- Eu não quero sabê quem é essa tar de Hipotenusa, se o senhor tem 2 ou 3 cateto e se eles são quadrado ou redondo. Não vão levá um centavo dessa fazenda e pode í se arretirando.
O tar de Péricles ainda tentou argumentá arguma cousa:
- Mas, Doutor Coronel...
- Não tem mais nem menos. - interrompeu o Coroné já exartado. E arrematô levando a mão ao revórve- Eu tô falando grego por acaso?
Foi o que bastô.
A comitiva gregária botô o rabinho no meio das perna e vortaro lá pr'aquela cidade cheia de TV a cabo, a tar da cidade de Antenas.
O que se viu-se foi a premêra crise econômica na Gréssa. foi tão sério que o tar Sócrates se suicidô-se com um veneno de nome estranho; Sófocles morreu soflocado; o povo só tinha peloponesos pra comê; e as obra púbrica ficaro tudo parada desde entonce. Os anfiteatro, o Partenon, por exempro, as obra ficaro sem terminá 'té hoje. A cidade tá parecendo uma ruína.
postado por Chico Lorotta
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cotidianas #117 - Daniéis
Eram dias de pavor. Ou pelo menos de desagrado. Toda vez que se anunciava ou, pior ainda, éramos surpreendidos com a não-anunciada visita da tia Terezinha esse pavor batia. Não por causa da tia Terezinha, mas pelo “o que” a acompanhava, sempre, como um rabicho: seu filho, ou seja, meu primo.
Aquele conotativo “ah, não!” era sempre manifestado quando o guri apontava na frente de casa, o que significava um real motivo para esconder os brinquedos – mesmo os não muito valiosos – e o iogurte da frigidér, claro.
Mas eu devia aceitar, afinal, era meu primo. Adotado, não tinha o meu sangue (minha mãe, estudada em Direito, ajudou a tia Terezinha a cometer a adoção...). Mas... tá! Pertencia à família, é como se fosse dela. Só que ele era um chato! Pequeno, inocente, mais criança do que eu, inconveniente, meio aloprado. Um chato. E pior: um chato meu primo. E pior 2: um chato meu primo e meu xará! Pois é: a cria se chamava Daniel também – teria sido uma imposição “coruja” de minha mãe feita à pobre tia com a condição de que, se esta tivesse a coragem de adotar um chato, pelo menos lhe pusesse um nome empiricamente nobre?...
Estava dado o conflito. O Daniel (eu) era criança. Aninhos mais velho do que o Daniel (ele), diferença que me dava, mesmo sendo igualmente um piá, mais direitos. Ora essa! E o Daniel (ele) vinha ao mundo indiscriminadamente, sem a minha permissão tanto para integrar a ilustre genealogia dos Rodrigues quanto, muito menos, ter a petulância de copiar meu “provado e comprovado” nome. O Daniel (ele) se metera na verdadeira cova dos leões, onde o leão Daniel (eu!) era o mais faminto.
Pra fermentar ainda mais meu desprezo pelo pirralho, certa vez, numa festinha de família, entre as crianças estava lá meu adversário, com aquele seu caráter mais-criança do que eu nas fuças. Minha mãe (começo a julgá-la como a grande culpada pelo crime), a certa altura da festa, ao observá-lo com candura, comentou: “Olha, Daniel (eu...), ele até parece um homenzinho!” Aquela frase me apunhalou. Mas nem por isso perdi a pose! Dono de mim, respondi num reflexo que o Daniel (ele) até podia parecer mais velho, mas que o tal era igual à antiga propaganda da Denorex: “parece, mas não é”. Ela caiu na gargalhada, e eu consegui disfarçar, inteligentemente (como talvez ainda o faça...), meu ciúme.
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Indo para o Centro, ali, pela Tristeza, adentrou ao ônibus Renascença o tal Daniel. Ele. Grande, adulto, maior do que eu, cortês, meio comedido. Conversamos rápida e alegremente no calor dos bancos de trás. Casado, mostrou-me a foto da filha (bela menina; não recordo o nome). Estava lá eu, admirado com ele e tentando esconder a surpresa, indo em direção ao Centro e rememorando, adultamente (?), aquela inveja subconsciente.
Despedimo-nos como primos.
Não vou abrir inquérito contra minha mãe, quanto menos a tia Terezinha, mas contra o Daniel. O Daniel eu. O Daniel chato meu que eu, infantilmente, projetei no Daniel outrora chato, porém vulnerável e simplesmente infantil como qualquer criança, ele. O chato era e talvez seja eu. Pelo menos foi o que eu suspeitei ao reviver aquela crise de identidade ali, bem próximo do Bom Fim, entre a Redenção e o ponto final desta linha.
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
Stevie Wonder - "Talking Book" (1972)
"Aqui está a minha música.
É tudo o que eu tenho a dizer sobre como me sinto."
Stevie Wonder
Esse é um best seller se formos comparar a discos de rithym and blues, como também de outros ritmos. Stevie Wonder, autor desta obra chamada Talking Book, escreveu linhas musicais excelentes. Como narrador-personagem, apre senta neste álbum páginas contendo versos e poesias das mais ricas. São enredos que abordam amores, desilusões, protestos e superstição. O gênero é o romance, composto por um disco completo, com tempo, espaço e personagens bem definidos de caráter verossímil.
Sobre a performance de Wonder, se fosse um dicionário a palavra “talento” poderia ser um sinônimo associado a ele. Stevie toca “simplesmente” sete instrumentos, com três faixas do álbum as quais tem somente a presença dele. Fora a produção, que também tem a sua autoria. Basta lembrar que o nosso protagonista tinha 22 anos nesta época.
Em meio desta semântica de estudos de sons, interessante destacar o T.O.N.T.O. synthesizer (um gigante sitentizador com a dimensão de uma sala) e o Moog bass (com tamanho mais modesto, porém de sons graves poderosos). Detalhe: todo este registro não tem baixo.
A primeira página de Talking Book abre com You Are the Sunshine of My Life. É uma levada com muita influência da bossa nova. Na abertura do disco, tem dois vocalistas: um masculino (Jim Gilstrap) e outro feminino (Lani Groves). Eles iniciam esta obra para que Wonder solte o seu vozeirão e barbarize no restante do álbum. Esses “figurantes” vão aparecer no decorrer deste disco. Já em Maybe Your Baby consta a presença do personagem Ray Parker Jr., tocando guitarra. Só para frisar, esse músico ficou conhecido por fazer a trilha sonora do filme The Ghostbusters (Os Caças-Fantasmas). O guitarrista fez uma contribuição tímida, mas competente nesta faixa, com solos puxando para o blues.
Virando a folha vem You and I (We Can Conquer the World), uma música simples, porém uma formidável balada com uma impressionante sustentação de voz de Wonder. Um piano “limpo” fazendo a base da canção, acompanhado de sons de um sintetizador. Já, curiosamente, Tuesday Heartbreak possui um começo rítmico bem parecido de Maybe Your Baby. É no estilo funk americano dos mais tradicionais, com direito a muitos efeitos nos teclados. Comparando novamente com a segunda faixa do disco, que tem uma guitarra verdadeira, nesta quarta música possui uma distorção do sintetizador sumula um wah wah, compensando a presença real desse instrumento de cinco cordas.
Com ar mais misterioso, You've Got It Bad Girl tem um ritmo latino (com uma percussão para contribuir para isso), com toques de jazz. Wonder toca a bateria com batidas bem mais “quebradas”, isso comparando com as outras músicas do álbum. Na sequência, é o momento ápice: Superstition - grande hit da sua carreira, que dispensa muitas apresentações. O que espanta são os coadjuvantes nessa canção, responsáveis pelos instrumentos de sopro. Com apenas Trevor Laurence, no saxofone, e Steve Madaio, no trompete, a sensação é que temos uma orquestra tocando. E lógico, pontos para o produtor Stevie Wonder para que isso ocorresse.
Esse manuscrito sonoro segue com Big Brother, a letra mais política e uma das melhores do disco. Um dos trechos vale a pena replicar: Your name is I'll see ya. I'll change if you vote me in as the pres. The President of your soul. I live in the ghetto. You just come to visit me 'round election time (Seu nome é “Nos vemos”. Eu irei mudar se você votar em mim para presidente. O presidente da sua alma. Eu moro no gueto. Você só vem me visitar nos tempos de eleição). Na canção, Wonder toca uma harmônica - com breves solos - em meio à música, enriquecendo-a. Além disso, chama a atenção a percussão com ritmo africano.
Liricamente, Blame It on the Sun é repleta de perguntas dentro da canção. Stevie acha muitas culpas, porém acredita numa resposta dizendo: "but, my heart blames it on me". Essa faixa ganhou uma cover de Phil Collins em seu disco Going Back, de 2010. Em Looking for Another Pure Love, Wonder chama outro guitarrista para contribuir de forma mais talentosa neste enredo. Jeff Beck (ex-Yardbirds) faz a sua especialidade: solos precisos de blues. Devido a isso, sua participação na música chega ao status de co-protagonista.
Liricamente, Blame It on the Sun é repleta de perguntas dentro da canção. Stevie acha muitas culpas, porém acredita numa resposta dizendo: "but, my heart blames it on me". Essa faixa ganhou uma cover de Phil Collins em seu disco Going Back, de 2010. Em Looking for Another Pure Love, Wonder chama outro guitarrista para contribuir de forma mais talentosa neste enredo. Jeff Beck (ex-Yardbirds) faz a sua especialidade: solos precisos de blues. Devido a isso, sua participação na música chega ao status de co-protagonista.
No capítulo final, I Believe (When I Fall in Love It Will Be Forever) entra no clima de grand finale com letra e cadência refletivas e depressivas, relatando sobre o amor. No entanto, como toda a boa história tem que acabar bem, finaliza num embalo de festa, com Wonder falando que, desta vez, o amor é verdadeiro.
Encerrando essa narrativa, deixe esse álbum bem posicionado na sua biblioteca musical. Um disco de cabeceira. Ao som de You Are The Sunshine Of My Life fica a pedida dessa “leitura musical” e faça-a em alto e bom tom!
Fim.
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FAIXAS:
- You Are The Sunshine Of My Life
- Maybe Your Baby
- You And I (We Can Conquer The World)
- Tuesday Heartbreak
- You've Got It Bad Girl
- Superstition
- Big Brother
- Blame It On The Sun
- Lookin For Another Pure Love
- I Believe (When I Fall In Love It Will Be Forever)
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Ouça:
por Eduardo Wolff
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