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segunda-feira, 6 de junho de 2011

"According to The Rolling Stones: A Banda Conta sua História"



Chega ao Brasil com 8 anos de atraso em relação à edição original, "According to the Rolling Stones: A Banda Conta Sua História", uma coletânea de entrevistas dos próprios integrantes retratando os primeiros 40 anos da banda. Keith, Mick, Ron e Charlie remexeram numas entrevistas dadas em 2002, compilaram, revisaram o material e, em parceria com a empresária Dora Lowenstein, botaram na roda pra galera relatos interessantes, curiosos, impressionantes e tudo mais que se possa esperar dos velhos Stones. Os próprios integrantes trataram, além de organizar os textos, de escolher as fotos que ilustram o trabalho, lançando mão inclusive de seus acervos pessoais.
Não tem como não ter satisfação com isso, hein.

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"According to The Rolling Stones: A Banda Conta sua História"
de Mick Jagger, Keith Richards, Ron Wood, Charlie Watts e Dora Loweisntein
Ed. Cosac Naify
360 páginas
R$119,00


C.R.

domingo, 5 de junho de 2011

cotidianas #84 - Um Elogio


-Com licença, moça – abordou-a cutucando seu ombro.
- Sim...
- Com todo o respeito, – e sou testemunha de que fora com o devido anunciado respeito, uma vez que o personagem desta pequena historieta foi por mim concebido e criado e, junto com seu aspecto nada desprezível, com seu modo de vestir até bem apresentável, com seus modos, bons a julgar-se bons pela abordagem, criei também seu caráter e suas intenções, às quais posso afiançar, não foram vis nem torpes quando, manifestou aquela impressão que pretendia fazer natural e inocente – tem gente que elogia os olhos de outra pessoa, tem gente que elogia o nariz – e neste momento a moça já sorria pressentindo um agrado maior que os que previamente enumerava o moço – mas eu não pude deixar de notar no seu... bumbum, no seu traseiro. A senhorita tem uma bunda muito bonita.
Ela mudou de expressão de gosto: desfez o sorriso num aspecto de quase fúria, arregalou os olhos, expirava aceleradamente pelo nariz e sua face enrubescera inteiramente. Não falou nada naqueles segundos que se seguiram. Apenas, agitada, virava o pescoço procurando alguma coisa à volta, até que avistou.
- Policial, policial! – chamou em voz alta o suficiente para que a escutasse a uma certa distância.
- Que isso, moça, não precisa isso. Foi só um elogio – tentava acalmar a garota enquanto o policial que cuidava do trânsito ali na esquina ia-se dirigindo até onde estavam os dois.
- Pois não.
- Esse tarado me assediou sexualmente.
- Não foi nada disso, seu policial, eu só fiz um elogio pra moça, eu... – e foi bruscamente interrompido pela queixante.
- Ele estava olhando pra minha bunda, ele disse que gostava da minha bunda, que a minha bunda era isso e minha bunda era aquilo. – finalizou a queixa fazendo uma espécie de beicinho de choro.
- E então, malandrão, é assim? Quer dizer que tu fica mexendo com as moças na rua? – inquiriu o guarda num tom desafiador.
- Não foi nada disso seu guarda, eu posso explicar. Posso explicar?
- Te explica, então, ô mané.
- Não foi um assédio, nem uma ousadia, nem uma ofensa, nem tara nem nada, seu guarda. É que... o senhor sabe quando a gente vê uma coisa muito bonita e não consegue deixar de manifestar? Tipo, ‘que pôr-do-sol maravilhoso!’, ‘que filme!’, ‘que golaço!’, sabe? Pois é. Eu só não pude deixar de falar. E tive que falar pra quem merecia o elogio. Pra quem pudesse se orgulhar do que tem. Foi com todo o respeito. Eu inclusive comecei assim, ‘moça, com todo o respeito’, não foi?
Ela meio contrariada, confusa e constrangida respondeu hesitante: -Foi...
- Bom, moça. Eu acho que o rapaz aqui não fez nada de muito sério.
- Como assim? O senhor vai deixar ele ir embora assim. – indignada.
- Não posso prender ninguém por elogiar outra pessoa e além do mais, se a dona me permite, ele tem razão, a moça tem um... uma... é muito bonito mesmo.
- Mas que absurdo! Não dá pra contar nem com a polícia mais. Que abuso. Deixa’ssim, deixa’ssim – e foi saindo desarvorada enquanto o guarda voltada para o sinal rindo e balançando a cabeça negativamente e o rapaz tomava seu rumo e ia seguir a vida.
Ela chegou em casa ainda bufando, abriu a porta nervosamente e bateu para fechar, jogou a bolsa sobre o sofá e entrou apressada no quarto. Parou em frente ao espelho e tirando os brincos ainda sussurrava para si mesma, “Que absurdo, que absurdo!”
Começou a tirar a roupa para tomar um banho e no atabalhoamento da raiva quase caiu na perna da calça. “Absurdo, absurdo!”
Mas agora já começava se acalmar. Afinal, não tinha sido tão sério assim. Por mais inconveniente que tivesse sido, o rapaz não lhe passara a mão, não a chamara de gostosa nem nada vulgar. Só fizera um elogio. Só. Podia ter-lhe elogiado os cabelos, os ombros, os tornozelos e não teria ficado ofendida. Pensando bem exagerara um pouco. “Ai que vergonha”, pensava agora.
- Deixa pra lá. Vou tomar meu banho.
E, só de calcinha, quando já ia sair da frente do espelho e tomar rumo do banheiro, não pôde deixar de deter o olhar na própria bunda. Virou o corpo melhor, girou o pescoço. Até que era graciosa. Não pôde também deixar de soltar um leve sorriso, de vaidade, satisfação provavelmente. Nunca gostara muito da própria bunda.


Cly Reis

O Frango Atirador

quarta-feira, 1 de junho de 2011

The Zombies - "Odessey and Oracle" (1968)


"Não tenhas medo; esta ilha é sempre cheia de sons, ruídos e agradáveis árias, que só deleitam, sem causar-nos dano. Muitas vezes estrondam-me aos ouvidos mil instrumentos de possante bulha; outras vezes são vozes"
trecho de "ATempestade" de Shakespeare,
na contracapa do disco


Banda de dois discos apenas. Em parte por conta de questões internas e muito por motivados por questões de gravadora, o The Zombies acabou lançando seu segundo e derradeiro álbum, o brilhante “Odessey and Oracle” , já sabendo que seria o último, mas foi o que bastou para garantirem seu lugar de destaque na história do rock e especificamente na formação do pop-rock britânico.
O disco com seus toques psicodélicos e climas barrocos, por vezes pode soar meio datado com a marca dos anos 60 por conta de seus excessivos côros de fundo, mas por outro lado, se bem analisados,estes mesmos arranjos vocais mostram-se de impressionante qualidade e sensibilidade, e a sonoridade da banda revela, por sua vez, um sutil refinamento e avanço da musicalidade daquela época em direção a um modelo pop mais contemporâneo.
O grande sucesso da banda, “Time of the Season”, provavelmente a melhor canção pop de todos os tempos, é um claro exemplo disso, com uma composição moderna, que atinge tal grau de sofisticação, que poderia tranquilamente passar por uma gravação atual de qualquer banda do momento, tal sua contemporaneidade.
Destaques também para “Care of Cell 44” que abre brilhantemente o disco, para a doce balada “Rose for Emily”, para a sombria “Beachwod Park”, para a psicodelia 'medieval' de “Butcher's Tale” e para outra daquelas atemporais, a ótima "I Want Her, She Wants Me".
Observar para o curioso nome do álbum originado, na verdade, por um erro de grafia do designer gráfico da época que escreveu odessey e não odyssey. Erro que, ironicamente, acabou consagrado em um dos grandes discos da história.
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 FAIXAS:
  1. "Care of Cell 44" (3:53)
  2. "A Rose for Emily" (2:17)
  3. "Maybe After He's Gone" (2:31)
  4. "Beechwood Park" (2:41)
  5. "Brief Candles" (3:38)
  6. "Hung Up on a Dream" (2:58)
  7. "Changes" (3:16)
  8. "I Want Her, She Wants Me" (2:50)
  9. "This Will be Our Year" (2:07)
  10. "Butcher's Tale (Western Front 1914)" (2:45)
  11. "Friends of Mine" (2:15)
  12. "Time of the Season" (3:31)
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Ouça:
The Zombies Odessey and Oracle



Cly Reis

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Tom Zé - "Estudando o Samba" (1976)



“[Tom Zé] pensou e realizou este disco, onde procurou reunir uma variedade de tipos e de formas rurais e urbanos do samba, dando a cada música a vestimenta que achou mais adequada.”
Elton Medeiros


Nos anos 90, o destino pôs diante de Tom Zé o 'talking head' David Byrne, que o trouxe do ostracismo para uma posição de artista cult e mundialmente reverenciado. Mas o início desta história hoje já conhecida nasceu de uma audição despretensiosa de um dos vários LP’s de MPB que Byrne comprara numa vinda ao Brasil. Dentre aqueles bolachões, um lhe fez a diferença. Foi este que o motivou a procurar saber quem era aquele artista e, em seguida, conhecê-lo e gravá-lo. Este álbum era “Estudando o Samba", de 1976, sem dúvida o melhor trabalho do baiano de Irará.

Metalinguístico, atonal, serialista, revisionista. Todos estes atributos “difíceis” estão certos quando creditados a “Estudando o Samba”. Mas tudo tem pouca importância quando o negócio é simplesmente ouvi-lo. Um deleite! Trata-se de um disco indiscutivelmente conceitual, o que já lhe garante certa aura de complexidade. É, talvez, o grande disco-conceito da música brasileira depois do “Coisas” do Moacir Santos, de 1965 (neste quesito, nem “Tropicália”, de 68, em que Tom Zé participa junto com toda a turma de Caetano, Gil, Gal, Nara e Mutantes, é tanto). Mas, acima de tudo, é delicioso escutar o álbum do início ao fim e curtir músicas como “Tô”, “Hein?” e “Vai”, onde Tom Zé desconstrói o gênero samba para, didaticamente, mostrá-lo de maneira híbrida em suas mais variadas vertentes.

Comecemos pelo fim. Afinal, sou daquela teoria de que todo grande disco tem uma obra-prima de desfecho, de abertura ou as duas coisas juntas. No caso de “Estudando...” a faixa final não é bem um espetáculo, mas, com certeza, original e incomum, por isso o destaque. Intitulada “Índice”, traz na letra de frases fragmentadas e de sentido vago um verdadeiro índice remissivo em que se repassam os títulos de todas as músicas anteriores. Aí o motivo tanto de a letra ser quase silábica, pois todos os títulos (exceto “A Felicidade” e a própria “índice”) são formados por palavras que não passam de quatro letras, quanto, também, do teor fortemente conceitual do disco, visto que a obra se autoreferencia a todo instante.

Se o final do disco é interessante, porém não musicalmente estonteante, o início é. “Mã”, samba modernista repleto de referências aparentemente díspares, é a tradução da obra de Tom Zé (não à toa o próprio artista a regravou com outras letras mais de uma vez depois). Num clima entre a ópera e o ritualístico, mistura batuque de terreiro, canto de trabalho das lavadeiras nordestinas, coro sacro-religioso, ruídos da São Paulo urbana, entrecruzamentos vocais ao modo das vanguardas europeias (Ligeti, Stockhausen) e riff de rock (tocado não na guitarra, mas cavaquinho de samba!). Tudo está ali: tradição e vanguarda, lundu e tropicália, popular e erudito, roça e asfalto; e de uma forma intensa, poderosa. Já tendo criado ótimas músicas até então (o samba concretista “Todos os Olhos”, o sertanejo-pop “Sabor de Burrice” ou o funk-rock “Jimi Renda-se”), “Mã” é, definitivamente, marco da maturidade musical de Tom Zé como músico.

Na sequência, a única do disco que não é de sua autoria: o clássico “A Felicidade”, de Tom e Vinícius. A escolha, claro, não foi à toa: tocada em ritmo de valsa-rancho, Tom Zé canta lindamente em tom baixo acompanhado só de violão, que sincopa o compasso. Ainda, esparsos acordes de baixo e frases de orquestra de metais ao estilo de George Martin ou Rogério Duprat. Através desta economia de elementos, Tom Zé põe a nu a belíssima estrutura melódica original da canção, homenageando não apenas a famosa dupla de autores, mas a bossa nova como um dos gêneros sambísticos. Ainda, para arrematar, depois de um dos últimos “soluços” da síncope, entra uma cozinha de pagode na diagonal do compasso, desconexão rítmica esta que não estraga a música. Pelo contrário: cai tão bem que faz deixar ainda mais clara a percepção de que os criadores da bossa nova muito se inspiraram no que vinha do morro.

Outra que merece todos os elogios é “Toc”, talvez o único samba serial da história! Próximo ao que o maestro francês Pierre Boulez inventou, o serialismo (método de composição que usa séries de notas, ordenando-as e variando suas durações, intensidades e ataques), “Toc” representa, em tese, uma sequência de sons infinitos e contínuos. Só não é assim porque, como um jogo de xadrez, o compositor “joga” com as notas e as séries sonoras, tirando-as, adicionando-as, repetindo-as, deslocando-as, num esquema matemático em que as variáveis são intermináveis. Sem nenhuma percussão, esta “brincadeira” instrumental ainda traz um dos “inventos” de Tom Zé: o agogô no esmeril, uma serra de verdade adaptada como instrumento musical, o que faz deste samba soar mais barulhento do que muito rock pesado.

“Tô” é outra pérola; das minhas preferidas. Parceria com o sambista Elton Medeiros e de letra filosófica, mas pegajosa (“Eu tô te explicando pra te confundir/ Eu tô te confundindo pra te esclarecer/ Tô iluminado pra poder cegar/ Tô ficando cego pra poder guiar”), é um sambão urbano a la Riachão. O disco ainda passa pelo samba brejeiro (“Ui!”), o samba minimalista (“Dói”), o samba-canção (“Só”), o samba-marchinha (“Vai”) e o samba “dor de cotovelo” (“Se”: “Ah, se maldade vendesse na farmácia/ Que bela fortuna você faria”). Tudo de forma revisitada, revisada, irônica e filtrada pelo olhar tropicalista de Tom Zé.

“Estudando o Samba” significa, na história da MPB, um passo adiante na linguagem do gênero não por inventar um novo conceito, mas por montar uma “enciclopédia do samba”, evidenciando, ao decompor a espinha-dorsal dos seus subestilos, as mil e uma possibilidades que ainda poderia vir a ser explorado. E deu certa a experiência em laboratório. Estão aí Towa Tei, Beastie Boys, Sean Lennon, Ed Motta e Fantastic Plastic Machine que não me deixam mentir. Todos adicionaram a seu paradigma de referências o samba, invariavelmente usando-o entre outros estilos. Afinal, foi Tom Zé mesmo quem disse: “estudando [o samba] pra saber ignorar”.

FAIXAS:
1. Mã
2. A Felicidade
3. Toc (Instrumental)
4. Tô
5. Vai
6. Ui!
7. Dói
8. Mãe
9. Hein?
10. Só
11. Se
12. Índice
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Ouça “Estudando o Samba”:
Tom Zé Estudando o Samba
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Além de “Estudando o Samba”, vale ouvir outros três discos super representativos da longa obra de Tom Zé: “Todos os Olhos” (1973), a “mais completa tradução” da São Paulo moderna; “The Hips of Tradition” (1992), o marcante primeiro trabalho gerado após a redescoberta por David Byrne; e a linda trilha do balé “Parabelo” (1997), composta em parceria com José Miguel Wisnik para o Grupo Corpo.

Ouça “Todos os Olhos”:
Todos os Olhos

Ouça “The Hips of Tradition”:
The Hips of Tradition

Ouça “Parabelo”:
Parabelo

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por Daniel Rodrigues

domingo, 29 de maio de 2011

"Pedaços de um Caderno Manchado de Vinho", de Charles Bukowski (2010) - L&PM



"Estilo significa guerrear sem escudo.
Estilo significa não ter frente de batalha.
Estilo significa a mais absoluta naturalidade.
Estilo significa um homem sozinho com um bilhão de homesn em volta."
Charles Bukowski


Passei ontem pelas últimas páginas de "Pedaços de um Caderno Manchado de Vinho" de Charles Bucowski, uma coletânea de textos variados e de origens diversas de um dos mais controvertidos escritores dos últimos tempos e um dos melhores a meu juízo. Apesar de admirador do estilo e da obra do autor, tenho que admitir que este livro em especial não enquadra-se entre os melhores de sua bibliografia, até mesmo por este caráter variado das procedências que faz com que o mesmo perca algum sentido de unidade. Com resenhas para jornais, artigos para revistas, crônicas, contos, críticas literárias e escritos perdidos nunca publicados até então, o livro de certa forma percorre a carreira do escritor e acompanha sua evolução. Nem tudo tem lá muita qualidade. A escrita do Velho Safado mostra-se por vezes ainda um tanto incipiente, um tanto sem rumo, sem alvo certo, onde em alguns casos até a velha e característica verborragia incontida e impiedosa não consegue atender nem aos próprios princípios literários.


Porém mesmo com alguns defeitos nesta coletânea, Buk consegue ser melhor do que a maioria dos escritores contemporâneos e que as coisas que se lê hoje em dia. Seu texto tem energia, tem vigor, tem forma, tem objetivo, fúria, mesmo quando simplesmente põe linhas aparentemente desordenadas e sai atacando tudo no escuro.

Falando assim pode parecer que "Pedaços de um Cadernos Manchado de Vinho" é só um amontoado de escritos fora de propósito, o que em absoluto seria verdade: O livro traz preciosas apreciações literárias sobre Hemingway, Pound e Artaud; ensaios sobre conceitos pessoais de escrita e estilo; e contos admiráveis com as marcas registradas do velho beberrão.

Algumas das muitas "Notas de um Velho Safado" que aparecem neste livro, nome da antiga coluna publicada em revistas ao longo de sua carreira, são rigorosamente imperdíveis, outras bem dispensáveis; sua "Antologia de Artaud" é simplesmente magnífica; o bom conto "Malhação" tem toda a boa e velha sujeira e putaria de Bucowski; já o ótimo "20 Tanques para Kasseldown" traz uma admirável sutileza, uma aura de mistério e um tom sombrio e pessimista. Também deve-se destacar outros contos de ficção como o curioso "Como tudo começou" e o emocionante "Eu conheço o Mestre", além do espetacular "O Outro", um misto de romance policial, espionagem e sobrenatural que (tomara que Buk não esteja lendo isso no outro mundo mas), lembra o "Horla" de Maupassant. Os ensaios literários também merecem menção, sobretudo dois deles, o notável "Sobre a matemática da respiração e do estilo" e o lindíssimo "Treinamento Básico", um apaixonado manifesto que fecha o livro com tudo o que um leitor pode querer ler da essência de um escritor.

Se formos comparar com outras obras de Charles Bukowksi, como o livro de contos "Crônicas de um Amor Louco", as reflexões filosóficas de "O Capitão Saiu para o Almoço e os Marinheiros Tomaram Conta do Navio", ou o excelente romance policial "Pulp", certamante este aqui fica lá para trás, mas vale sempre pelo jeito turrão e 'mal-humorado', vale pela escrita, pelo jeito autêntico de escrever, vale pela visão da vida sob um ponto de vista mais cru e mundano, vale pelo humor, pelo sarcasmo,... e se não vale por tudo isso, vale ao menos pela curiosidade. Para os fãs, como eu, um prato cheio.



Cly Reis

Rock'n Roll Show


"Rock'n Roll Show - REIS, Cly
grafite sobre sulfite



terça-feira, 24 de maio de 2011

Andy Warhol 16mm - Caixa Cultural - Rio de Janeiro










Começou hoje e vai até o dia 5 de junho no centro cultural da Caixa, aqui no Rio, uma mostra da obra cinematográfica de Andy Warhol em 16mm, exibida no formato original. Entre experimentações, curtas, documentários, filmes conceito e até um 'semi-pornô', por assim dizer ("I, a Man"), pode-se destacar uma apresentação dos seus afilhados do Velvet Underground em Boston e seu famoso filme "Chelsea Gilrs", que inclusive será exibido com projeção dupla (dois projetores na mesma sala), conforme sua concepção original.
Confira abaixo toda a programação:




TERÇA, 24
15H SLEEP (5 HORAS 21 MIN)

QUARTA, 25
17H CAMP (66 MIN)
18H30 MY HUSTLER (66 MIN)
20H THE LIFE OF JUANITA CASTRO (66 MIN)

QUINTA, 26 (PROJEÇÕES DUPLAS)
15H LUPE (37 MIN)
16H OUTER AND INNER SPACE (33 MIN)
17H30 THE CHELSEA GIRLS (3 HORAS 30 MIN)

SEXTA, 27
15H SCREEN TEST #1 (66 MIN)
16H30 HEDY (66 MIN)
18H30 KISS (48MIN) - SESSÃO COM MÚSICA AO VIVO
20H MARIO BANANA #1 (4 MIN) + COUCH (52 MIN) - SESSÃO COM MÚSICA AO VIVO

SÁBADO, 28
16H ROLO 26 DOS SCREEN TESTS (40 MIN)
17H ROLO 25 DOS SCREEN TESTS (40 MIN)
18H I, A MAN (95 MIN)
20H SALVADOR DALÍ (22 MIN) + THE VELVET UNDERGROUND IN BOSTON (34 MIN)

DOMINGO, 29
14H SCREEN TEST #2 (66 MIN)
15H30 BLOW JOB (36 MIN) + EAT (35 MIN)
17H THE NUDE RESTAURANT (100 MIN)
19H MY HUSTLER (66 MIN)

TERÇA, 31
13H EMPIRE (8 HORAS 5 MIN)

QUARTA, 1
16H SALVADOR DALI (22 MIN) + THE VELVET UNDERGROUND IN BOSTON (34 MIN)
17H30 LONESOME COWBOYS (109 MIN)
20H BLOW JOB (36 MIN) + EAT (35 MIN)

QUINTA, 2
16H30 I, A MAN (95 MIN)
18H30 MARIO BANANA #1 (4 MIN) + COUCH (52 MIN)
20H KISS (48 MIN)

SEXTA, 3
16H THE NUDE RESTAURANT (100 MIN)
18H SCREEN TEST #2 (66 MIN)
19H30 LONESOME COWBOYS (109 MIN)

SÁBADO, 4 (PROJEÇÕES DUPLAS)
15H30 OUTER AND INNER SPACE (33 MIN)
16H30 LUPE (36 MIN)
17H30 THE CHELSEA GIRLS (3 HORAS 30 MIN)

DOMINGO, 5
14H SCREEN TEST #1 (66 MIN)
15H30 HEDY (66 MIN)
17H THE LIFE OF JUANITA CASTRO (66 MIN)
18H30 CAMP (66 MIN)

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Andy Warhol 16mm
Local: Centro Caixa Cultural - Rio de Janeiro
Rua Almirante Barroso, 25 - junto ao Lg. da Carioca - Centro
mais informações no site do evento:
http://www.andywarhol16mm.com.br/

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Festival de Cannes 2011 - Vencedores



Depois de muita exibição de glamour, estreias, flashes e polêmicas chega ao fim a edição 2011 de um dos mais importantes festivais de cinema do mundo, o Festival Internacional de cinema de Cannes.
O júri, presidido por Robert De Niro, depois de decretar a indesejabilidade da presença do suposto nazista Lars Von Trier, acabou premiando com o prêmio principal, a cobiçada Palma de Ouro, a produção norte-americana "A Árvore da Vida" de Terrence Melick ("Além da Linha Vermelha"); já o prêmio do Júri foi para o francês "Polisse" de Maiween Le Besc e a direção para Nicolas Winding Refn, pela produção americana "Drive". A Palma de ator foi para Jean Dujardin e a de atriz para Kirsten Dunst pelo polêmico "Melancolia", que aliás deveu grande parte do alvoroço ao seu redor às declarações infelizes de seu diretor, mais do que o brilho do próprio filme, pelo visto. Veja abaixo todos os vencedores da premiação francesa:

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  • Palma de Ouro: "A árvore da vida", de Terrence Malick (EUA)
  • Atriz: Kirsten Dunst, por "Melancolia
  • (Dinamarca/Suécia/França/Alemanha)
  • Ator: Jean Dujardin, por "The artist" (França)
  • Diretor: Nicolas Winding Refn, por "Drive" (EUA)
  • Roteiro: "Footnote", de Joseph Cedar (Israel)
  • Grande prêmio: empate entre "O garoto de bicicleta" (Bélgica/França), de Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne, e "Once upon a time in anatolia" (Turquia), de Nuri Bilge Ceylan
  • Curta-metragem: "Cross country" (Inglaterra), de Marina Vroda
  • Prêmio Câmera de Ouro (para diretor estreante): "Las acacias" (Argentina/Espanha), de Pablo Giorgelli
  • Prêmio de Júri: "Polisse", de Maiwenn Le Besc (França)


C.R.

The Jimi Hendrix Experience - "Are You Experienced" (1967)


"Quero fazer com minha guitarra
 o que Little Richard faz com sua voz."
Jimi Hendrix


Enraizado no blues mas com um pé no soul e no jazz, e já abrindo portas para o metal, “Are You Experienced” de 1967 do The Jimy Hendrix Experience é uma daqueles discos indispensáveis em qualquer coleção que se preze. O mestre da guitarra e para muitos o maior guitarrista de todos os tempos, sob a retaguarda competente de Noel Redding no baixo e Mitch Mitchel na bateria, reinventava o jeito de tocar aquele instrumento e concebia um dos maiores discos de todos os tempos e certamente um marco na história da música.
Como o próprio nome faz supor, o experimentalismo rola solto, especialmente em “Love or Confusion” e na magnífica faixa-título com sua clássica base invertida. A psicodelia é uma das marcas registradas da obra e fica bem salientada na tranquila e viajante “May This Be Love”, no entremeado de bateria e guitarra de “I Don’t Live Today” ou na ótima “Third Stone From the Sun”. O blues, alicerce da música do guitarrista, se faz presente de forma bem explícita em “Red House” e mais sutilmente em músicas como a sensual “Foxy Lady” que não é nada menos que um grande blues, forte, potente, distorcido e pesado.
E tem mais: “Can You See Me” é um rockão embalado fantástico; “Manic Depression” soa bem jazzística com sua adorável linha de baixo; “Remember” é uma adorável balada; e "Fire" é simplesmente incendiária.
O disco na época por interesses comerciais saiu em edições consideravelmente diferentes nos EUA e na Grã-Bretanha, o que acarretou em capas diferentes para as duas versões. No entanto, a concepção e edição originais eram as da versão inglesa, que tem lá suas vantagens, como “Can You See Me” e “Red House”, por exemplo; e desvantagens como as ausências de “Purple Haze” e “Hey Joe” que só aparecem na versão americana. Agora, vamos combinar que ambas são igualmente fantásticas. O que resta é ter as duas.
Básico.
Definitivo.
Álbum simplesmente fundamental!
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FAIXAS:
edição britânica
1. "Foxy Lady" - 3:19
2. "Manic Depression" - 3:42
3. "Red House" - 3:42
4. "Can You See Me" - 2:33
5. "Love Or Confusion" - 3:11
6. "I Don't Live Today" - 3:55
7. "May This Be Love" - 3:11
8. "Fire" - 2:43
9. "Third Stone From The Sun" - 6:44
10. "Remember" - 2:48
11. "Are You Experienced?" - 4:14

edição americana
1. "Purple Haze" - 2:51
2. "Manic Depression" - 3:42
3. "Hey Joe" (Billy Roberts) - 3:30
4. "Love Or Confusion" - 3:11
5. "May This Be Love" - 3:11
6. "I Don't Live Today" - 3:55
7. "The Wind Cries Mary" - 3:20
8. "Fire" - 2:43
9. "Third Stone From The Sun" - 6:44
10. "Foxy Lady" - 3:19
11. "Are You Experienced?" - 4:16

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Ouça:
Jimi Hendrix Experience Are You Experienced



Cly Reis

segunda-feira, 16 de maio de 2011

My Bloody Valentine - "Loveless" (1991)


O Disco Que Eu Levaria Para Uma Ilha Deserta

"Muitos dos samples eram de feedbacks. Nós aprendemos que do feedback da guitarra, com muita distorção, que você pode fazer qualquer instrumento, qualquer um que você possa imaginar."
Kevin Shields



- Não interessa, só pode escolher um.
- Só um? Uns dez que seja. Pra ter mais variedade, mais opções...
- Só um.
- Então...então..., vai o "Loveless" do My Bloody Valentine.
Este hipotético diálogo não seria muito diferente do real se, algum dia por alguma circunstância qualquer, um incêndio, uma enchente, um terremoto, um roubo, uma divisão de bens, um exílio, fosse obrigado ter que apenas escolher UM álbum na minha discoteca para levar comigo para qualquer lugar, para uma ilha deserta, por exemplo. Não que seja o melhor CD que tenho, se fosse por isso o por exemplo "Let It Bleed" estaria à frente; não que seja a banda que mais gosto, se prevalecesse este critério provavelmente Cure e Smiths teriam prioridade, mas o "Loveless" é um daqueles discos que poderia-se chamar um xodó. Mas não um xodó injustificável, daqueles que a gente sabe que é ruim, não contraria o fato, mas morre abraçado com ele, por qualquer motivo que... só Deus sabe. Não, é um álbum absolutamente prazeroso de se ouvir, com seu harmonioso e cativante ruído que constrói a todo tempo inusitadas sinfonias. Além do mais, este disco do My Bloody Valentine é um dos melhores, mais significativos e influentes das últimas décadas e a banda é uma das mais cultuadas e respeitadas no universo underground mesmo com uma discografia rigorosamente pequena.
Com inegáveis influências do noise-rock, caracteristico de bandas como Sonic Youth, por exemplo, do gótico dos '80 e de bandas como Jesus and Mary Chain , o MBV conseguiu em apenas dois álbuns incorporar novas características a estes estilos, praticamente reinventando-os, conferindo-lhe então uma assinatura própria de tal forma original que tornam o som da banda absolutamente peculiar e inconfundível.
"Loveless" o segundo álbum da banda é avanço em relação ao bom "Isn't Anything", seu trabalho de estreia, agregando às distorções, aos efeitos, aos ruídos e à criatividade do cérebro da banda, Kevin Shields, mais vocais femininos de Belinda Butcher, arranjos mais melodiosos e muito mais ousadia nas experimentações.
"Only Shalow", a primeira do disco, é daquelas coisas que a gente mal acredita que esteja ouvindo algo daquele tipo: depois de uma introdução com uma tempestade de guitarras e distorções, que poderia fazer supor algo enérgico, violento, inaudível; tudo desemboca numa canção cantada suave e melodiosamente por uma doce voz feminina, até voltar, a cada 'refrão', a maravilhosas e improváveis explosões sonoras .
"Loomer", que a segue é cheia, concentrada e suavemente barulhenta; "Touched", a terceira, é uma pequena sinfonia 'desafinada' com a rotação alterada que provoca algum descons(c)erto de sentidos no ouvinte. Uma mistura de sensações de belo e bizarro, de harmônico e desrítmico, de clássico e contemporâneo.
A segue a fantástica "To Here Knows When", lindíssima a seu modo; uma cortina sonora que vai se dissipando aos poucos até ficar praticamente dissolvida, restando ao final apenas uma tênue conexão que ainda possa identificá-la em meio à névoa sonora que se transforma.
"When You Sleep" é outra grandiosa, com outro inusitado e indefinível riff conseguido por Kevin Shields em suas muitas experimentações de estúdio.
 A lindíssima "I Only Said" já introduz com uma emocionante 'explosão estrelar' que conduz a uma base fantástica que de certa forma, cheia de guitarras, efeitos, samples e tudo mais, lembra uma orquestra de violinos, e os violinos de Kevin Shields são suas guitarras, suas distorções, seus efeitos.
"Come in Alone" é forte, completa e funciona como um catalisador de elementos; "Sometimes" é doce e agradável; "Blown a Wish" apenas compõe bem; "What You Want" é acelerada, empolgante e numa passagem mágica, quase que vacilante, introduz às baterias sampleadas da fantástica "Soon", uma joia cheia de efeitos de marcação, ruídos de fundo e incríveis guitarras que sobrevoam uma base ritmada e carregada de peso e beleza, tudo isso sob a maviosa voz de Belinda Butcher que quase desaparece em meio ao barulho. Num final absolutamente emocionante e épico, "Soon" atinge um clímax sonoro, um êxtase instrumental até praticamente se apagar, se desvanecer, com uma guitarra ao fundo ainda tentando sobreviver  ao final inevitável. Um encerramento digno de um disco como este!
Um dos meus preferidos da discoteca, um dos meus xodós da coleção, um dos discos mais cultuados, um dos melhores discos dos anos 90 e um dos grandes da história do rock. Por todas estas razões, pelas sensações que causa, por toda essa estranha beleza, "Loveless" passaria à frente de discos mais completos, mais perfeitos, mais clássicos, mais geniais talvez e seria o disco que eu, se por uma inevitável e cruel escolha tivesse que optar, levaria para uma ilha deserta.
Mas aí penso no meu "Trans-Europe Express", no meu "Gil e Jorge", no meu "Aftermath" e lembro que felizmente, trata-se apenas de um exemplo, de uma hipótese absurda e totalmente improvável, e posso ir curtindo todos os outros também.
Ufa!

FAIXAS:
1."Only Shallow" (Butcher, Shields) - 4:17
2."Loomer" (Butcher, Shields) - 2:38
3."Touched" ( Colm Ó Cíosóig ) – 0:56
4."To Here Knows When" (Butcher, Shields) - 5:31
5."When You Sleep" - 4:11
6."I Only Said" – 5:34
7."Come in Alone" – 3:58
8."Sometimes" – 5:19
9."Blown a Wish" (Butcher, Shields) - 3:36
10."What You Want" - 5:33
11."Soon" – 6:58



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Baixe e ouça:
My Bloody Valentine Loveless

sexta-feira, 13 de maio de 2011

cotidianas #81 - Nostálgico Blues Subterrâneo


Johnny está no porão
Misturando medicamentos
Eu estou no pavimento
Pensando no governo
O cara de sobretudo
De distintivo, ferrado
Diz que está com um nó na garganta
Quer pagar para se livrar
Olhe garoto
Foi algo que você fez
Deus sabe como
Mas você está fazendo de novo
Melhor você tropeçar parque abaixo
Procurando por um novo amigo
O homem de chapéu de guaxinim
Com a grande caneta
Quer onze notas de dólar
Você só tem dez


Maggie vem ao pé da frota
Cara cheia de fuligem preta
Falando que o calor pôs
Ervas na cama, mas
O telefone está desligado, mesmo assim
Maggie diz o que muitos dizem
Precisa atacar no começo de maio
Ordens do departamento
Olhe garoto
Não importa o que diz
Ande na ponta dos dedos
Não ande com deslocados
Melhor se manter afastado destes
Do que se meter em bizarrices
Mantenha o nariz limpo
Observe as roupas da moda
Você não precisa do homem do tempo
Para saber de que lado o vento sopra


Fique doente, fique bem
Arrume uma tatuagem legal
Balance o pinto, é difícil falar
Se alguém vai vender
Vá atrás, seja barrado
Volte, escreva em Braille
Seja preso, salte a cerca
Entre para o exército, se falhar
Olhe garoto
Você vai arrasar
Mas usuários, trapaceiros
Completos perdedores
Rodeiam os teatros
Garota na piscina
Procurando um novo otário
Não siga líderes
Observe os medidores dos parquímetros


Ah nasça, fique calmo
Calças curtas, romance, aprenda a dançar
Vista-se, seja abençoado
Tente ter sucesso
Agrade-a, agrade-o, compre presentes
Não roube, não furte
Vinte anos de escola
E eles o colocam no turno diurno
Olhe garoto
Eles mantêm isso escondido
Melhor pular num bueiro
Acenda para si uma vela
Não use sandálias
Tente evitar escândalos
Não queira ser um vagabundo
Melhor mascar chiclete
O barril de bebida não funciona
Pois os vândalos levaram a alavanca
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"Subterranean Homesick Blues"
Bob Dylan

cotidianas #82 - "13 de Maio"





Dia 13 de maio em Santo Amaro
Na Praça do Mercado
Os pretos celebravam
(Talvez hoje inda o façam)
O fim da escravidão
Da escravidão
O fim da escravidão


Tanta pindoba!
Lembro do aluá
Lembro da maniçoba
Foguetes no ar


Pra saudar Isabel
Ô Isabé
Pra saudar Isabé

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"13 de Maio"
Caetan Veloso

Ouça:
Caetano Veloso - '13 de Maio'

sexta-feira, 6 de maio de 2011

cotidianas #80 - A Festa da Turma


Todo ano, sem falta, reencontravam-se para a festa da turma. Às vezes faltava um, outra hora faltava outro, mas via de regra, os de fé sempre acabavam comparecendo. Era assim desde o final da faculdade, desde o ano seguinte quando o Dé resolveu chamar a galera para um churrasco pra não deixar morrer a amizade. Boa iniciativa que a turma acolheu.
Agora doze anos depois do primeiro encontro a coisa continuava no mesmo clima: muita amizade, muita palhaçada, muita zoeira e muita cerveja. É lógico que a situação tinha mudado um pouco: alguns tinham casado, outros já tinham casado e separado, outros já tinham filho, outros não puderam ir à festinha porque era o dia que podiam visitar o filho, outros não podiam ir porque tinham sido transferidos no trabalho para o Acre, um outro lá já tinha morrido, outro tinha deixado a bebida, outro não podia comer açúcar, etc. , mas driblando as dificuldades, adaptando-se às situações, revezando um aqui outro ali de uma no pro outro, continuavam se vendo e sempre na maior camaradagem.
Numa festa dessas a Gislaine aparece com uma foto:
- Olhem só o que eu achei dentro de um livro...
- Cara! É do tempo da faculdade!
- Olha só, é a gente na praia aquela vez da excursão!
- Que barato! - atalhou o Lélio
- Que horror! - rebateu a Cris - Olha os cabelos. E a gente ainda achava isso bonito na época.
E todos riram.
- E os maiôs, gente... O que dizer desses maiôs? - suspirou a Gladys num tom de desapontamento.
E todos riram de novo.
- Isso sem falar nas sungas - hahahaha - Olha a sunga do Carlos. Olha o Beto, parece uma saracura - e novas risadas entusiasmadas.
- E quem é esse aqui? Magrelo de cabelo comprido? E essa sunguinha...
A Gislaine reconheceu:
- É o Pereira.
- Pereira! É tu, Pereira? - que a essas alturas vendo que iam acabar o reconhecendo, foi ficando pra trás do amontoado de gente que tentava ver a foto.
- Pereira, mas tu era muito magro, Pereira. E que sunguinha ridícula! A pior das nossas, hein! A minha tá feia - admitiu o Beto - mas a tua é o 'ó do borogodó'.
E mais risadas.
- Ah, eu vou ter que scanear pra botar no Orkut, na nossa comunidade.
- Isso, isso. - empolgou-se a Cecília.
- Manda pra mim.
- Vou por no meu Face.
Todos gostaram da ideia. Todos menos um: o Pereira.
- Não, não, não quero minha foto assim na internet.
- Ah, deixa de bobagem, Pereira. Que que tem?
- Não, não, me dá isso aqui - dizia enquanto tentava pegar a foto da mão da Gislaine que se esquivava pra tentar impedi-lo.
- Ai, para, Pereira. Que saco! Vou guardar isso aqui. - disse guardando na bolsa - Depois eu vejo o que que eu faço.
Depois daquilo o Pereira, costumeiramente muito falante, alegre, brincalhão, ficou estranhamente quieto o restante da noite. Foi embora mais cedo do que de costume saindo com ar meio sorumbático e despedindo-se de todos à distância com um mero aceno de mão.
Na festa do ano seguinte o Pereira não apareceu. A turma não estranhou muito porque faltas eventuais aconteciam, e volta e meia eram surpridas por uma agradável surpresa, como a do Arthur que viera do Acre para ver a mãe e aproveitara para comparecer à festa, mas a ausência do Pereira se repetiu no ano seguinte, e no outro, e no outro...
O Pereira nunca mais foi visto por ninguém da turma, aliás nunca mais fora visto por niguém, e ninguém sabia ao certo do seu paradeiro tampouco se o sumiço tinha a ver com a 'ameaça' de exibição da foto. A tal foto, por sua vez, nunca foi scaneada nem colocada em redes sociais. A Gislaine colocou dentro de um livro e nunca mais lembrou onde estava.

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quinta-feira, 5 de maio de 2011

Silver Apples - "Silver Apples" (1968)


"Oscilações, oscilações,
 Eletrônicas evocações
dos sons da realidade."
da letra de "Oscillations"





Bem como o Kraftwerk, referência em música eletrônica, a dupla americana Silver Apples foi uma das grandes responsáveis pelo desenvolvimento do gênero; não com a mesma qualidade dos alemães, que surgiram depois mas atingiram resultados mais expressivos, mas ainda assim com muita relevância no cenário musical de um modo geral. Muito doidos, psicodélicos, criativos e experimentais, os Silver Apples, ao mesmo tempo que prenunciavam uma série de estilos dentro da prórpia música eletrônica, ajudavam também, de certa forma com suas repetições, timbres, vocais e minimalismo, na formação do punk rock que explodiria dali a alguns anos,
“Silver Apples” , seu álbum de estreia, de 1968, é o que merce atenão especial. Seu som ainda soa cru e pouco trabalhado, se formos comparar com o que o Kraftwerk conseguiria fazer pouco tempo depois; pode soar até meio repetitivo e pouco criativo para os mais exigentes, mas exatamente por isso mesmo torna-se extremamente interessante e mais valoroso no seu contexto, conseguindo com criatividade atingir uma sonoridade bem rock, mesmo sem o instrumental característico, uma vez que a dupla Danny Taylor e Simeon III, utilizava-se basicamente de uma bateria (acústica) e uma espécie de sintetizador primário que chamavam de oscilador eletrônico.
Destaques para a excelente “Oscillations” que abre o disco, síntese de tudo o que a banda se propunha num misto perfeito de experimentação, psicodelia, concretismo e atitude musical; para o que a segue: “Seagreen Serenades”; para a boa “Velvet Cave” com sua beteria pesada e forte; para os tons árabes de “Whirly-Bird”; e para a tribal “Dancing Gods”.
Criativo e inovador, um pouco estranho, é verdade, mas absolutamente fundamental.
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FAIXAS:
1. "Oscillations" (Danny Taylor, Stanley Warren) - 2:48
2. "Seagreen Serenades" (Simeon, Warren) - 2:55
3. "Lovefingers" (Simeon, Warren) - 4:11
4. "Program" (Simeon, Warren) - 4:07
5. "Velvet Cave" (Simeon, Warren) - 3:30
6. "Whirly-Bird" (Simeon, Warren) - 2:41
7. "Dust" (Simeon, Warren) - 3:40
8. "Dancing Gods" (cerimonial dos índios Navajos) - 5:57
9. "Misty Mountain" (Eileen Lewellen, Simeon) - 3:26

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Ouça:
Silver Apples 1968


Cly Reis