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quinta-feira, 15 de maio de 2014

O Jogo da Sua Vida #4 - Grêmio 0 x Flamengo 0 (1989)

A Jogada do Zico

Não é de hoje que digo que meu interesse por futebol se restringe ao Sport Club Internacional. Cada vez mais, ao longo dos anos, desde que, guri, fui ao Gigante da Beira-Rio, em meados dos anos 80, assistir a um Inter e Coritiba levado por meu pai e meu irmão, percebo que não gosto propriamente do esporte em si, mas do meu time. Minha impressão é que, nascido em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, como sou, se, por acaso do destino, os irmãos Poppe não tivessem fundado uma agremiação que sustenta, até hoje, o desígnio sincero de “clube do povo”, e isso significasse que restasse apenas o arquirrival como alternativa, não torceria por clube nenhum. Por isso, deve ser estranho para quem está lendo ver no enunciado que, justamente, no jogo que considero o da minha vida o Inter não seja um dos disputantes. E pior: não só não ser jogo do Inter como ser do Grêmio! E um 0 a 0?
Pois essa aparente incoerência tem explicação, inclusive a ausência de gols. O referido jogo, quartas-de-final do Campeonato Brasileiro de 1988-1989, tinha, sim, direta ligação com o Inter. E com a minha vida, ou melhor, com a preservação dela. Grêmio e Flamengo disputavam uma das vagas na semifinal do certame nacional, enquanto o Inter enfrentava o Cruzeiro mirando a mesma finalidade. E o Inter daquele ano, treinado por um jovem técnico chamado Abel Braga, tinha boas chances de avançar. Contávamos com um centroavante goleador, Nílson, um ponta-direita rápido e atrevido, Maurício, o goleiro da Seleção Brasileira, Taffarel, além de um meio campo e uma zaga de qualidade. Depois de uma ótima campanha (1º colocado, com 47 pontos, considerando os dois primeiros turnos), estávamos embalados e chegávamos às quartas confiantes.
Porém, avançar de fase também significava, além do esperado aumento da dificuldade do confronto, a possibilidade de dar um Gre-Nal inédito numa semifinal de Brasileirão. Podíamos topar com o Grêmio logo à frente, e isso era bem provável. Meu irmão e eu havíamos ido a todos os jogos ocorridos no Beira-Rio naquela campanha, fosse na geral, fosse na saudosa “coreia”, ora acompanhados de amigos e parentes, ora somente nós dois. Não perdemos uma partida, e comungávamos da mesma confiança de todos os colorados naquele ano. Entretanto, se para meu irmão assustava a possibilidade de cruzar com o Tricolor na fase seguinte, a mim, mais irresponsável, agradava. Queria a emoção de derrotá-los num confronto inédito e sem precedentes na história.
Aconteceu de o jogo de ida do Inter contra o Cruzeiro ser no Mineirão, em Belo Horizonte, num domingo. Assistiríamos pela TV uma partida que terminou em 0 x 0. Entretanto, no dia anterior, sábado, num fatídico 28 de janeiro de 1989, Porto Alegre receberia outra partida, ou seja, nós dois não ficaríamos sem atração naquele fim de semana, mesmo que não fosse diretamente do nosso time. Era o primeiro enfrentamento da outra chave, o tal Grêmio e Flamengo. Queríamos ver de perto nosso possível adversário, fosse um ou outro. Então decidimos assistir ao jogo no estádio Olímpico. Na torcida do Grêmio.
Isso não foi uma escolha, bom que se diga. Tendo definido em cima do laço de irmos ao jogo, não deu tempo de articularmos a compra de ingressos na seção destinada aos torcedores visitantes, no anel superior. Aliás, seria quase trocar seis por meia dúzia, uma vez que compartilhamos ainda hoje quase da mesma antipatia com relação ao Flamengo a que dedicamos ao Grêmio. Resultado: usando camisetas de cores neutras (dois colorados usarem azul, jamais!), eu e meu irmão, sem nenhum outro colorado corajoso que tenha aceitado nos acompanhar, compramos entradas para a geral do Olímpico e sentamos atrás de uma das goleiras. Rodeados de gremistas. Ali assistimos ao jogo “na nossa”, sem falsas manifestações de exaltação, como se fôssemos torcedores pacatos e concentrados no evento.
Essa junção de fatos fez toda a diferença para este episódio.
O estádio estava inexplicavelmente não-lotado, e eu e meu irmão, sem dizer uma palavra, nos entreolhamos com cumplicidade e espanto crítico como que dizendo: “como esses gremistas conseguem não lotar o próprio estádio num fim de semana e numa quartas-de-final de Brasileiro?”. Assistimos a uma partida morna. Os adversários se equiparavam, o que motivou um jogo de meio campo, com poucas oportunidades para os dois lados. A não ser por uma jogada. Do Zico.
Arthur Antunes Coimbra, o Zico, já era um dos maiores jogadores que a história do futebol havia visto. Craque desde os anos 70, havia comandado seu Flamengo, em 1981, na conquista do título Mundial, e, no ano seguinte, embora derrotado pela Itália, fez parte da inesquecível Seleção Brasileira ao lado de Sócrates, Júnior, Falcão, Éder e outros – para muitos, o melhor selecionado canarinho de todos os tempos. Artilheiro, driblador, armador, exímio cobrador de faltas. Jogador inteligente, rápido e habilidoso, havia quem o apelidasse de “Pelé branco”, alcunha que por si só já fala tudo. Mesmo a desclassificação para a França na Copa do Mundo de 1986, a qual foi um dos principais responsáveis ao perder um pênalti no segundo tempo que selaria a vitória brasileira, não ofuscara a idolatria a Zico. Somava-se a essa mitologia o fato de, um ano antes da Copa do México, um zagueiro chamado Márcio Nunes ter-lhe propositadamente quebrado o joelho esquerdo numa jogada covarde e criminosa. À época, de pré-informatização e de uma medicina esportiva ainda pouco avançada, uma contusão como aquela geralmente tirava um jogador para sempre dos gramados. Zico, no entanto, com persistência, curou-se, ajudou seu Mengo a ganhar o Módulo Verde da Copa União, em 1987 (em cima do Inter!) e, naquele 1989, disputava mais uma vez a temporada nacional.
E ele estava em campo naquele sábado. Além dos jogos pela TV e da Copa de 86 – a primeira a qual me lembro com clareza de assistir e torcer –, já o tinha visto jogar duas vezes ao vivo, ambas contra meu Inter. Gabo-me disso. Uma, em 1987, num 2 x 0 para nós (contra um Flamengo treinado por Telê Santana e que tinha ainda em campo Renato Gaúcho, Zinho, Leonardo, Andrade e Jorginho); e num histórico 3x1, já válido por aquele campeonato, em que, afora os dois gols de Nilson e um de Edu, foi ele, Zico, quem marcou pelo Rubro-Negro. Numa jogada na ponta da grande área, do lado direito, o Galinho cortou o zagueiro para dentro e, na frente da área, enfiou um chute seco e certeiro no ângulo, descontando. Nunca me esqueci da habilidade e velocidade de movimentos e pensamento de Zico naquele lance, que calou por uns instantes todo o estádio, ainda eufórico com o segundo gol do Inter um minuto antes. Eu assistia, coincidentemente, também atrás do gol.
Era onde eu e meu irmão estávamos. Mas não na nossa casa, Beira-Rio, e, sim, no Olímpico em uma tarde nublada em todos os sentidos. Quase o mesmo ângulo. Porém, ao contrário do movimentado confronto do time carioca com o Inter (com quatro gols, três só no primeiro tempo), aquele Grêmio e Flamengo chegava a dar sono. Intervalo, e zero a zero. Na segunda etapa, as equipes voltam a campo com uma tentativa de jogar melhor. Tentativa. Seguia o mesmo marasmo, e já se começava a ouvir reclamações aqui e ali por conta de uma jogada mal concluída, um passe errado, um chute não arriscado. Os torcedores gremistas já perdiam a paciência – e nós, ali, secadores enrustidos, na maior satisfação.
Até que, por volta dos 35 minutos, uma jogada marcaria para sempre a mim, não necessariamente por sua beleza futebolística, mas por outro motivo. Zico, pouco inspirado naquele dia como todos os companheiros, havia mudado seu estilo de jogo depois que voltou das contusões, substituindo seu ímpeto e dribles rápidos pela cadência, toques de primeira e lançamentos. Mas, como diz Jorge Ben naquela música dedicada ao Camisa 10 da Gávea: “quando não está inspirado, ele procura a inspiração”. Afinal, craque é craque, né, meu amigo? De repente, mesmo num dia ruim, pode tirar da cartola uma jogada e mudar o destino. E, além do mais, um Zico com 60% de capacidade equivale a 100% da maioria dos jogadores. Pois, numa surpreendente arrancada da intermediária, Zico, a quem os defensores gremistas não esperavam tal atitude, driblou um e avançou rápido rumo ao gol, carregando a bola, como nos velhos tempos. Havia outros dois adversários à sua frente, e seria difícil supô-los. Pois foi que ele se livrou do primeiro na velocidade e, já chegando na ponta da área, do lado esquerdo, aplicou o mesmo drible curto e ligeiro sobre o zagueiro tal qual havia executado meses antes contra o Inter. Parecia que via a repetição da jogada, porém do lado inverso. Mas dessa vez era contra o Grêmio, então, pensava na minha cabeça de torcedor: Zico tinha a minha permissão para acertar. Ele disparou o chute seco mirando o ângulo do goleiro Mazzaropi.
Ao contrário da primeira ocasião, no entanto, Zico, dessa, não fez o gol. O chute bateu na rede, mas pelo lado de fora. Aquele tradicional: “uhhhh!!” ecoou no estádio. Foi só um susto para a torcida tricolor, que terminou quando a bola foi para fora. Porém, para nós dois, o susto permaneceu. Meu irmão, empolgado com a jogada e com a possibilidade de o Flamengo abrir vantagem contra o Grêmio fora de casa (podendo administrar o jogo no Maracanã no jogo de volta e, assim, eliminar os gaúchos), acompanhou a investida de Zico de pé na arquibancada feito um torcedor flamenguista, mas sem dar bandeira até então. Quando o atacante errou o alvo, porém, ele não conteve a “coloradisse” e, apontando o dedo para o campo, gritou, a plenos pulmões: “Filho da puuuuutaaaa!...” Sim, as reticências colocadas por mim após o xingamento são propositais. Foi exatamente isso que aconteceu naquele momento: reticências. Dando-se conta do que acabara de fazer, ele congelou. E eu junto. A impressão era de que toda a geral havia silenciado para entender aquela reação. Foram segundos intermináveis, que demoraram mais tempo do que aqueles sonolentos 80 minutos de partida até ali. “Como vamos sair dessa?”, pensei incrédulo, olhando-o sentado e boquiaberto com o rabo de olho. Haviam visto que estávamos juntos, e, afora isso, somos bem parecidos de rosto. Não tinha como negar que eu não conhecia aquele cara. Então, se ele apanhasse, eu apanhava também. De toda a geral do Olímpico.
Senti cerca de 30 mil pares de olhos gremistas nos olhando sem entender aquela atitude do meu irmão, todos já armando um ar de fúria de quem está prestes a atacar caso se confirme a suspeita: a de que nós éramos infiltrados. Estávamos prestes a sermos linchados em plena arquibancada. No entanto, por alguma graça enviada pelos deuses colorados, meu irmão teve a espirituosidade que só o instinto de preservação oferece nessas horas e completou aquela desastrosa e obscena fala com um: “Mas coooomo vocês deixam o cara entrar assim na área?!”. A expressão enrubescida de raiva dos gremistas, ao ouvir aquilo, passou em milésimos da confusão para concordância e indignação mútua. Um de nosso lado falou: “É! Isso mesmo: coooomo vocês deixam o cara entrar assim na área?! Mandou bem, cara”, parabenizando meu irmão. Olharam-nos orgulhosos por aquela reação incontida de indignação por amor a seu time, coisa que só um gremista de verdade poderia manifestar... Meu irmão sentou-se novamente com a promessa de não abrir mais a boca até a eternidade e só levantou de novo para irmos embora quando acabou o jogo. Entreolhamo-nos novamente em silêncio, dizendo um para o outro com os olhos: “Ufa! Escapamos dessa!”.
Meu irresponsável desejo se realizara. O Grêmio bateu o Flamengo em pleno Maracanã e o Inter venceu o Cruzeiro no jogo de volta diante da sua torcida. Em 1º de fevereiro, o aguardado e temido Gre-Nal, o do Século (depois de um 0 x 0 no primeiro jogo), aconteceu. Vencemos o Grêmio: 2 x 1, um jogo que ficou marcado na história, o qual também tive a felicidade de presenciar, porém desta dentro do nosso Templo. Perdemos o campeonato para o Bahia na final, mas o melhor já tinha vindo. Afinal, depois de termos passado aquele sufoco em nome da paixão pelo Internacional, nós merecíamos pelo menos essa recompensa.
Agora imaginem o que aconteceria se o Zico tivesse acertado aquele lance...

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Jorge Ben - "Camisa 10 da Gávea"


(A meu quase-algoz Clayton)
torcedor do Internacional



terça-feira, 6 de novembro de 2012

cotidianas #187 - O Homem Certo



  Oi, você é o Pestana, não é? perguntou o homem tirando-lhe da distração, logo depois se desculpando pela inconveniência: - Desculpa, mas o meu filho é muito seu fã – disse trazendo para junto de si o garoto que vestia uma camisa com o número 5 às costas - Eu também aliás... – completou ainda, um tanto constrangido pela última observação.
  - Sou eu mesmo – confirmou agastado o homem ali parado diante daquela vitrine no shopping.
  - Você poderia dar um autógrafo pra ele, na camiseta, por favor – agora virando o menino meio de costas de modo a permitir a escrita do ídolo.
  Pouco à vontade, Pestana apanhou a caneta que aquele pai lhe dava, apoiou parte da mão nas costas do garoto e pôs ali sua rubrica quase ilegível na qual só se distinguia o “P” enorme. “P” de Pestana.
  O dono da frente da área. 
  Dizia-se que só atravessava dali para dentro da área grande a quem ele desse autorização e olhe lá. O verdadeiro volante, o cabeça-de-área. Era combatido por muitos velhos puristas do futebol como mais um cabeça-de-bagre, isso sim, mas aquilo não era verdade. Pestana sabia jogar. Tinha uma saída de jogo limpa e fluída. Roubava a bola, olhava em torno e logo vislumbrava o companheiro bem posicionado. Passe certo! Perfeito. E o time saía para o ataque. Se precisasse também sabia conduzir. Levava bem a redonda, com habilidade, destreza, lucidez e alguma velocidade. Qualidades que o próprio Pestana reconhecia em si e por isso mesmo aspirava a meia-armação. Ah, os meia-armadores, os pensadores do jogo cerebrais como Zidane, Carpegianni, Cruyff, Platini, carregadores de bola como Kaká, os de chegada na frente como Zico, ah, e Dom Diego, ah, e Pelé. Sei que dizem que o Rei era quase atacante mas... aquele passe pro Jairzinho contra a Inglaterra e aquele pro Carlos Alberto? Só quem VÊ mesmo o jogo pra fazer aquilo. Sonhava vestir a 10 e ser o maestro de seu time. Conduzi-lo às vitórias nas situações mais complicadas. Não queria fazer o gol, mas com um toque genial deixar o companheiro na cara do gol como quem diz “faz”. Mas não. Até começara como meia na base mas o excesso de jogadores da posição fez com que disputasse posição na frente da área e ali se destacasse. Subiu para os profissionais, ganhou títulos, chegou à Seleção, se consolidou como um dos melhores volantes da história do futebol brasileiro e agora era difícil que lhe dessem aquela oportunidade de ser o mago do meio-campo.
  O menino saiu forçando o pescoço tentando olhar as próprias costas. Não agradeceu mas seu olhar emocionado dizia tudo. Nem precisava. O pai sim, se desmanchou em agradecimentos que o Pestana recebia tentando disfarçar o incômodo.
Saiu do shopping chateado com aquela idolatria estúpida e resolveu ir caminhando, mesmo, para casa, uma vez que não morava muito distante dali, de modo a ir ruminando um pouco aquela situação que lhe desagradava. Estando um final de tarde quente, parou num bar qualquer para comprar um refrigerante e ali, sem ser reconhecido, talvez pelo boné e óculos escuros que usava, ouviu dois homens que discutiam a rodada do final de semana. Um deles dizia:
  - ... ah, mas isso porque o Pestana não deixou o cara nem ciscar na frente dele.
  - Isso é verdade – concordou o outro – É um monstro aquele Pestana! Volante não tem igual – completou ainda.
  - Pra mim é um grosso que só sabe dar pancada – gritou lá de dentro o dono do boteco – Deviam proibir esses volante no futebol...
  Meio emburrado com a última observação, o Pestana resolveu sair dali sem nem acabar de beber o refresco. Ora, “grosso”! Veja só. Era só ter uma chance que mostraria que podia ser um meia. Um meia genial. Com lançamentos de Gérson e assistências de Riquelme. Ia pedir para o técnico para, daquele dia em diante, ser escalado mais à frente, com liberdade para sair e criar jogadas. Podia dar uma colaboração maior do que somente desarmar e aparecer na frente de vez em quando. Sabia que podia.
  Estava decidido, iria falar com o ‘professor’ no dia seguinte.
  E o fez. Falou com o técnico, à parte, no treinamento da manhã seguinte. O comandante não entendia o porquê daquela reivindicação agora. Estavam bem no campeonato, o time estava encaixado, ele, o Pestana, acabava de ser escolhido pelos jornalistas o volante do campeonato e era novamente chamado para a Seleção. Além do mais tinha um ótimo armador no time, igualmente convocado para o selecionado nacional. Por que isso agora? O Pestana argumentava, argumentava, mas não haveria mesmo recurso que convencesse alguém em são juízo a escalar o melhor da sua posição fora dela. Loucura!
  - Deixa estar, Pestana! – dizia o professor - Tu é o melhor ali. Ali, na frente da grande área. Tu é o cão-de-guarda. O adversário já treme só de saber que é o Pestana que tá lá protegendo a defesa. Deixa de besteira e vai jogar o que tu sabe, homem – arrematou dando um tapa carinhoso na cabeça do volante.
  No treino daquela manhã, o Pestana foi melhor do que nunca. Parecia estar em dia de jogo a valer. Deu carrinho, roubou bolas, saiu jogando, avançou com a bola e ainda, depois de um lançamento de mais de 50 metros, no pé do atacante, que o deixou na pinta pra meter pra dentro, saiu olhando pro treinador como quem diz “viu só”. Mas aquele treinamento parecia reservar algo de especial, e o habilidosíssimo meia do time, craque de bola, em uma jogada despretensiosa, à toa, parecia ter torcido o tornozelo. Médico em campo. Todas as atenções nele. Hum... Pela experiência de boleiro aquilo era coisa pra pelo menos um mês. Era a grande chance do Pestana. Depois da sua solicitação aberta e da exuberante exibição técnica no treinamento, habilitava-se claramente para a vaga já na próxima partida, dali há dois dias, até porque o técnico não tinha grandes opções no elenco para a reserva.
  - Eu posso fazer a dele, professor – prontificou-se, confiante, ao final do treino.
  - Vamos ver, vamos ver. Eu vou testar algumas formações – disse o técnico com aquele jeito de raposa velha.
  O velho fez mistério até a última hora e só na concentração anunciou que utilizaria um dos garotos dos juniores para a criação das jogadas. Um garoto que até prometia mas que além de muito ‘verde’ nem se aproximava da qualidade técnica dele, Pestana, mesmo jogando de volante durante todos esses anos. O abatimento do Pestana foi tão visível que o técnico foi ter com ele:
  - Eu não podia te trocar de lugar hoje porque os caras tem um dos melhores ponta-de-lança do campeonato, Pestana. Só tu ali na frente pode parar aquele 10 deles. Tu é o Homem Certo pra isso. Só tu, Pestana. Só tu.
  O Pestana fez que sorriu sem levantar os olhos e deu a entender que estava conformado. Não proferiu palavra durante toda a viagem da concentração para o estádio, nem na palestra do vestiário, nem pediu a palavra na hora dos gritos de ordem e incentivo. Entrou em campo calado e com um olhar fixo no vazio e um leve sorriso no canto da boca.
  Ouviu ainda algum colega gritando, “Vamo lá, Pestana!” Pega ele, pega ele”. Assentiu automaticamente sem nem saber com o que estava concordando e ouviu então o apito do juiz. Começava o jogo. Foi truncado, pegado, marcado, sem grandes jogadas. Foi assim durante quase todo o tempo. Um insistente zero a zero que devia-se muito aos fatos de que, no time do Pestana, a articulação havia ficado a cargo de um garoto que claramente sentia a pressão da responsabilidade, e de que, do outro lado, o adversário não conseguia armar uma jogada sequer, pois sempre deparava-se com um Pestana especialmente inspirado naquela noite.
  O jogo já ia-se encaminhando para o apagar das luzes quando uma bola, numa área morta do campo, ali pela intermediária, espirrou e ficou entre o Pestana e o atacante. Típica bola pra dividida. E dividida, qualquer um sabia que o Pestana não perdia uma. Arrepiava, levantava o que encontrava no caminho e era melhor o adversário sair da frente. Aquela em especial até estava mais para ele, facilmente chegaria antes do outro. Era provável até que o atacante pipocasse e só fizesse de conta que ia na bola. Mas o Pestana pareceu retardar o arranque. Será? O rival sentiu confiança e foi com sede na bola. O Pestana então ameaçou uma entrada mais viril e o atacante adversário, num golpe de instinto, até para se proteger, armou-se de toda uma virilidade que não costumava usar. Ora, sabemos o que acontece quando quem não sabe jogar duro tem que fazê-lo. Acaba por ser desleal. E foi o que aconteceu. O atemorizado avante adversário entrara por cima da bola enquanto, inexplicavelmente o Pestana, na última hora aliviara e entrara frouxo na jogada. O tornozelo virou de uma forma que poucas vezes se viu num campo de futebol. Coisa feia! Apito, falta, expulsão, empurra-empurra, médico em campo e todo aquele alvoroço. O Pestana saía de maca. Mas saía... rindo. Inexplicavelmente saía rindo com o pé praticamente virado ao contrário.
  Sempre que o tempo está para chuva o tornozelo do Pestana dói. Nunca voltou a andar perfeitamente. Na modesta casa em que vive no subúrbio, guarda os troféus, os recortes de jornal, as camisas da Seleção e contempla uma parede forrada de fotos. Pôsters de meias, de armadores, de pontas-de-lança. Zico, Caju, Rivelino, Ronaldinho Gaúcho, Zidane, Messi... Agora volta da cozinha levemente claudicante com a cerveja na mão e posta-se diante da TV para ver o programa de esportes. Nunca deixou de ver as resenhas esportivas mesmo depois que deixara de jogar. Por coincidência estão a falar dele no programa.
  "Pra mim, o melhor volante que eu vi jogar foi o Pestana. E não era desses cabeça-de-bagre, não. Sabia jogar. Sabia passar, conduzir pro ataque, lançar. Tinha bola pra ser meia se quisesse", sentenciava o comentarista.
  Desligou a TV e foi manquitolando para o quarto.
  Pestana faleceu poucos anos depois. Sozinho, com sérias dificuldades financeiras e problemas de alcoolismo. Deixou este mundo de bem com o futebol e mal consigo mesmo.


de Cly Reis
baseado no conto "Um Homem Célebre"
de Machado de Assis






sexta-feira, 16 de julho de 2010

Fazendo turismo na cidade onde vivo





MARACANÃ - Rio de Janeiro (10/07/2010)

Por incrível que pareça, mesmo morando no Rio há seis anos e já tendo visto um bocado de jogos no Maracanã, nunca havia feito a tour do estádio. Sábado passado, aproveitando a visita de meu irmão à capital fluminense, banquei de guia e ao mesmo tempo turista no legendário palco da Copa de 50.
com a marca de Falcão, na Calçada da Fama
Para amantes do futebol como eu, é uma coisa mágica estar ali entre as pegadas dos maiores nomes do futebol brasileiro e mundial na Calçada da Fama, localizado logo no início do passeio. É como se estivéssemos entre os mestres, como se, com os pés gravados ali, suas energias estivessem presentes; cada jogada, cada drible, cada gol: Garrincha, Zico, Beckenbauer, Pelé, Ghiggia, Ronaldo; todos ali. Encontrei até os ídolos do meu time, o Internacional, os inesquecíveis, Figueroa, Falcão (que fiz questão de tirar foto junto às pegadas) e Carpeggiane que também brilhou no Rio defendendo as cores do Flamengo.
Já no interior do estádio um grande hall traz imagens de momentos inesquecíveis vividos naquele palco, desde os títulos e decisões dos quatro grandes da capital, passando por momentos históricos como o Gol 1000 do Rei, até a momentos como shows de Sinatra , Madonna e Stones.
O Rei comemorando o milésimo gol.
Subindo, lá nas cadeiras, se tem a visão ampla do estádio e todo seu porte na visão do torcedor; e descendo dali, indo aos vestiários, a mesma sensação mas do ponto de vista de quem faz o espetáculo, do nível do gramado, como uma pequena mostra do que deve ser estar ali, dentro do campo, jogando; jogando bola.
Agora, não sei por quê, desde a primeira vez que fui ao Maracanã, a imagem que tenho na cabeça olhando para o campo é a do Ghiggia invadindo pela direita em velocidade e chutando rasteiro no canto entre a trave e o goleiro Barbosa. Queira ou não queira, esta é minha imagem definitiva do estádio e que, provavelmente não se apagará nem com um título em 2014.
Ah, e a propósito, tenho uma camisa retrô do Ghiggia do gol de 50.


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'turistando' no gramado
Detalhe: Realmente o Maracanã, por mais simbólico e legendário que seja, precisa, sim, de reformas e modernizações consideráveis para encarar um mundial e ser o principal palco como se pretende.
Está velho, ultrapassado e fora dos padrões atuais de conforto, acessibilidade e instalações.
Mãos à obra!
A Copa tá logo ali.








Cly Reis

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

"Muito Prazer", de Jorge Furtado (2026)


Parece um contrassenso, mas fui tenso assistir "Muito Prazer", o novo longa de Jorge Furtado. Não por repelir prazer, não entendam mal. Mas, sim, por, no fundo, desejar não me decepcionar com Furtado. Cabeça genial do cinema gaúcho e nacional, criador de algumas das obras-primas do nosso cinema dos últimos 40 anos como “Ilha das Flores” e “O Homem que Copiava”, o cineasta e roteirista vinha apresentando, infelizmente, um considerável declínio em suas últimas realizações. Não que realizadores de longa data sejam impedidos de altos e baixos, até porque manter o mesmo nível por muito tempo é improvável. Mas, infalivelmente, espera-se que se mantenha a consideração por quem se admira.

Ocorre que, no entanto, a amostra recente de Furtado, tanto em cinema quanto em TV, vinha sendo errática e longe de seus melhores momentos. O por vezes monótono “Virgínia & Adelaide” (2023), codirigido por ele e Yasmin Thayná, o roteiro de “Grande Sertão” (2024), desastroso filme de Guel Arraes, ou o desengraçado humorístico televisivo “Tô Nessa” (2025), com Regina Casé, formam um conjunto de trabalhos que não condiziam com aquele criador sagaz de “Comédia da Vida Privada”, dos roteiros de “Lisbela e o Prisioneiro”, de comédias deliciosas e inteligentes como “Saneamento Básico - O Filme” ou “Meu Tio Matou um Cara”, para ficar nas comédias a título de comparação com “Muito Prazer”. Parecia que aquela veia criativa e inteligente havia esmorecido, tornado-se pouco eficiente, que as marcas de seu cinema se transformaram em clichês. Que o Furtado de antes, sabe-se lá o motivo, havia ido embora.

Mas a grandes artistas sempre se deve dar novas chances. Será que “Muito Prazer” traria o que seu título prometia? Filme iniciado e eis o primeiro diálogo entre os personagens de Daniel de Oliveira (Rubem) e de Luiza Arraes (Grace): fraco. Muito fraco. Sem conexão dos tempos de fala dos atores, soluções semânticas forçadas, encenação superficial... Ih! Deu a impressão de se estar assistindo a um daqueles especiais de comédia da Casa de Cinema de Porto Alegre para a Globo, só que sem brilho. Aquele receio antes de entrar no cinema, então, reapareceu: será que se confirmaram minhas tristes suspeitas sobre Furtado?

Mas a deusa Hedonê olharia por mim e não me deixaria sair frustrado. Logo o filme engrenou: os diálogos passaram a funcionar, as atuações ganharam densidade e o roteiro começou a fluir. Na história, Rubem, após descobrir que herdou de seu tio um motel desativado, encontra no local Grace, uma ex-funcionária que vive lá clandestinamente. Determinados a reabrir o motel, eles, juntamente com a amiga Nalva (Samantha Jones), confabulam um plano inusitado: vender na internet vídeos feitos por câmeras escondidas nos quartos dos clientes. Ao serem descobertos, eles têm agora que provar que os vídeos são falsos.

O intrépido trio Rubem, Grace e Nalva: pornografia sem apelação

É muito interessante como Furtado consegue construir um filme sobre pornografia sem ser superficial e não recair nem para a explicitação, de um lado, e nem para o pudico, de outro. Num mundo hedonista em que sexo e dinheiro continuam dando as cartas, é bastante auspicioso uma obra que trate sobre estes dois temas de uma maneira saudável.

Igualmente, há elementos bem próprios do cinema de Furtado, os quais ajudam nessa abordagem. A edição ágil, as falas combinadas e a exploração do cenário como configurador do espaço-tempo são algumas delas. A principal, no entanto, é a ludicidade típica do cinema do cineasta gaúcho. É este espaço do lúdico que sustenta, inclusive, outra característica sua, que é a incidência da metalinguagem. Como em “Real Beleza”, que traz o tema da subjetividade da formação da imagem, mas, principalmente, em “Saneamento Básico”, há presente a figura do cineasta. Se em “Saneamento” era Zico, personagem de Lázaro Ramos, quem representava a figura de gente como Furtado, em “Muito Prazer” o alter-ego desse alguém amador que brinca de fazer cinema realiza-se na nerd Nalva.

A trama, com suas idas e vindas, com o escalonamento das mirabolantes ideias “comerciais” do trio, é em muitos momentos hilária e traz aquela sensação a que tanto eu e muitos espectadores estão acostumados: a de como é confortante ver um filme de Jorge Furtado. A quem tive a felicidade de reencontrar. Não é, necessariamente, um de seus melhores trabalhos, mas foi como se eu pudesse, novamente, tal como faço mentalmente há cerca de quatro décadas, estender-lhe a mão em parabéns e cumprimento: “Muito prazer, Jorge Furtado. Que bom reencontrá-lo”.

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trailer de "Muito Prazer"


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Daniel Rodrigues

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Se Jogadores de Futebol Gravassem Discos







O ClyBlog já de muito versa sobre música e sobre futebol, não raro os dois juntos e misturados. A ver pelas competições entre bandas, como a Copa The Cure, a Copa Legião Urbana e a Copa Beatles – esta, em suas fases finais neste momento –, mas também por conta de crônicas, contos, ÁLBUNS FUNDAMENTAIS e até poesias, vários deles debaixo do guarda-chuva ClyBola, seção motivada pelo clima de Copa do Mundo no Brasil.

Pois eis que, nesta mesma vibe, o designer inglês James Campbell Taylor também captou tal sinergia entre bola e ritmo e inventou brilhantes capas de discos como se jogadores emblemáticos da história do futebol fossem também cantores – afinal, o “palco” desses artistas da bola eram os gramados. E que trabalho criativo! Sem recorrer a obviedades, mas também salientando particularidades dos jogadores como apelidos, comportamento dentro de campo e marcos de suas carreiras, Taylor (torcedor do Leicester City) casou essa naturalidade de cada atleta às tendências gráficas de seu país no tempo em que jogavam. Para isso, baseou-se, principalmente, no conceito visual de selos e gravadoras como Capitol, Parlophone, Verve, Columbia e Sire para atingir esse objetivo.

E Taylor marcou um golaço. Além de ricos detalhes como autógrafos rabiscados, o desgaste do papelão da capa do vinil e a saliência provocada pela pressão exercida pela gramatura do disco dentro do envelope, a concepção para cada um ficou redondinha como um chute certeiro. Destaque para as do Ronaldo Fenômeno e do Roberto Baggio que, não bastasse o esmero de comporem uma arte minimalista usando as clássicas combinações entre cores e caracteres, tal como faz a Blue Note, ainda escreve abaixo os clubes onde cada um jogou, igual à nominata dos músicos participantes daquela gravação que o selo sempre usa. Outras geniais: a do craque alemão Franz Beckenbauer no álbum “Der Kaiser” ao estilo dos LP’s de música clássica da Deustsche Grammophon; a do irlandês Georges Best, super mod anos 60; ou a do inglês David Beckham, que (afora o bem sacado título: “Spice Boy”) brinca com o design pop-mainstream da Mercury nos anos 90.

Veja as 24 artes, que fazem dar até vontade de escutar os discos. Fica a pergunta no ar: será que além do talento com os pés eles também mandariam bem no gogó?

Arthur Antunes Coimbra - "Zico"
A&M Records

Roberto Baggio - "Il Divino Codino"
Blue Note

David Beckham - "Spice Boy"
Mercury Records

Bob Charlton - "War Kid"
Decca

Emilio Butragueño - "El Buitre"
Warner

Eusébio da Silva Ferreira - "Pantera Negra"
Verve

Franz Beckenbauer - "Der Kaiser"
Gramophon

George Best - "Best! The Fifth Beatle"
Parlophone

Gerd Müller - "Der Bomber"
iR

Gianni Rivera - "Golden Boy"
RCA Victor

Jairzinho - "Furacão da Copa"
TAMLA

Johan Cruyff - "Totaal Voetbal"
Philips

Lineker and Gascoine - "Have a Word With Him"
Factory

Diego Armando Maradona - "El Pibe de Oro"
Atlantic

Mario Kempes - "El Matador"
Capitol

Michel Platini - "Le Roi"
Epic

Paolo Rossi & Marco Tardelli - "Eroi di Madrid"
RCA

Edson Arantes do Nascimento - "O Rei Pelé"
Capitol Records

Roger Milla - "Dance Party"
Island Records

Ronaldo Luís Nazário de Lima - "O Fenômeno"
Blue Note

Doutor Sócrates - "Calcanhar de Ouro"
Sire Records

Carlos Valderrama - "El Pibe"
Columbia

Marco Van Basten - "De Hollandse Zwan"
Polygram

Zinedine Zidane - "Zizou"
EMI








sexta-feira, 13 de junho de 2014

Jorge Ben - "África Brasil" (1976)


"O Jorge [Ben] é o cara que eu conheço
que consegue colocar mais
palavras num mesmo verso."
Jô Soares



Se a expressão samba-rock pode ser atribuída à música de um artista, esse cara com certeza é Jorge Ben. Agora, se tem um disco para o qual esta mesma expressão possa ser aplicada com perfeição, esse álbum é o "África Brasil". Neste disco de 1976, Jorge Ben com a ajuda de uma banda de peso, cheia de suíngue, embalo, com músicos de diversas procedências e influências, trocava o violão pela guitarra elétrica e conjugava magistralmente os elementos básicos destes dois estilos, enriquecendo-os ainda com outros como funk, soul e jazz, obtendo um resultado absolutamente inigualável. Pode-se dizer que "África Brasil" é mais ou menos como Bob Dylan 'abandonado' as canções folk e pegando a guitarra... Só que aqui sem as vaias.
Com eletricidade, potência, ímpeto e pegada, "O Ponta de Lança Africano (Umbabarauma)", que dá as boas-vindas no disco, é o sonho de qualquer banda que tenha tentado dotar seu rock de embalo. Com um riff contagiante e pungente, um baixo envolvente e uma cozinha que mescla funk, samba e batidas afro, a música que fala de um atacante carismático e goleador, a quem torcida saíra de casa somente para ver jogar, talvez seja o melhor exemplo dessa sonoridade pretendida e obtida por Jorge Ben neste álbum.
"Hermes Trismegisto Escreveu", uma das referências e amarração com o disco "A Tábua de Esmeralda" é uma incrível soul music da melhor qualidade onde reaparecem os interesses do cantor por assuntos místicos; já demonstrados em outros trabalhos; o futebol por sua vez, também volta a aparecer em "Meus Filhos, Meu Tesouro", batucada, carregada de brasilidade e ritmo, é interessantemente cantada à rock por Jorge Ben, chegando a rasgar a voz em determinados momentos, numa descontraída declaração de amor aos filhos. As boas "O Filósofo" e "O Plebeu" mantém a tradição do sambalanço de letras quase ingênuas características do cantor; e o clássico "Taj Mahal" ganha uma versão mais elétrica, mais guitarrada, mas interessantemente, cheia de cuícas.
"Xica da Silva", que serviu de trilha sonora para o filme homônimo, narra, em um samba manemolente e sensual, a história de uma negra que ascendeu à aristocracia brasileira graças a um caso com um nobre português na época do Império, bem naquele estilo característico de letra de Jorge Ben, de versos extensos com o máximo de palavras possíveis como observou muito bem certa vez o apresentador Jô Soares numa entrevista com o diretor do filme, Cacá Diegues.
Em "A História de Jorge", o cantor faz aquela tradicional auto-referência ("Jorge de Capadócia", "Jorge Well") dotando desta vez o personagem de mesmo nome que ele com o poder de voar; em "Camisa 10 da Gávea", Jorge Ben expressa mais uma vez sua paixão pelo futebol manifestando dessa vez sua admiração pelo ainda jovem craque rubro-negro, Zico, num samba-jazz cadenciado com mais um trabalho admirável do baixista Dadi, o Leãozinho da música de Caetano Veloso, ex-Novos Baianos e que viria a tocar em bandas como A Cor do Som e Barão Vermelho.
O Babulina faz a também costumeira homenagem a seu santo de devoção e igualmente xará, São Jorge, no rock-jazz-samba frenético e acelerado "O Cavaleiro do Cavalo Imaculado"; e fecha o disco com a faixa que lhe empresta o nome, "África Brasil", que na verdade não seria mais que uma versão da música "Zumbi", do álbum "A Tábua de Esmeralda", em outra referência-laço com aquele disco clássico, se não fosse sua agressividade rock, gritada e rasgada, a ponto de me lembrar "California Über Alles" dos Dead Kennedy's.
 "África Brasil" foi o responsável pela retomada da minha coleção de LP's uma vez que há uns 3 anos atrás, numa exposição sobre vinil, no CCBB resolvi comprar a reedição em bolachão deste clássico que havia acabado de sair (cara $$$), antes mesmo de comprar um novo toca-discos. Mas agora tenho ambos, o LP e o toca-discos. Bom,... e na verdade tenho o CD também.
Por muitos, "África Brasil" chega a ser apontado como o melhor disco nacional de todos os tempos e embora não seja o meu, entendo a preferência e não considero nenhum absurdo. Com certeza é um dos grandes álbuns da discografia nacional e mais uma obra-prima da fase mais criativa de Jorge Ben.
Salve Jorge!
Salve a África!
Salve "África Brasil"!
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FAIXAS:
01 – Ponta de Lança Africano (Umbabarauma)
02 – Hermes Trismegisto Escreveu
03 – O Filósofo
04 – Meus Filhos, Meu Tesouro
05 – O Plebeu
06 – Taj Mahal
07 – Xica da Silva
08 – A História de Jorge
09 – Camisa 10 da Gávea
10 – Cavaleiro do Cavalo Imaculado
11 – Africa Brasil (Zumbi)


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Ouça:


Cly Reis

quarta-feira, 9 de junho de 2010

cotidianas #29

Fico impressionado com jogadores que vão bater uma falta, que seja, e jogam a bola lá na arquibancada.
Que horror!
Fico pensando "eles só fazem isso da vida", "eles só tem que treinar pra chutar bem". É inadmissível!
Lembro que quando garoto, eu e  mais alguns amigos, ficávamos chutando em gol a tarde inteira. Horas. Como se estivéssemos batendo falta num jogo mesmo. Às vezes imitando o posicionamento, o modo de partir pra bola de determinados batedores. O Éder, o Zico, o Dinamite. Chegamos a um ponto tal de precisão que só valia gol se fosse lá na forquilha, no ângulo, mais precisamente, onde a coruja dorme. Só se batesse no travessão em cima e dentro do gol embaixo, atrás da linha, como o gol do Valdomiro contra o Corinthinas em 76. Gol de "dois-de-blum" como se chama às vezes, ou de "paulistão" como também é conhecido.
Como todo moleque, no início da "carreira de peladas" alimentava aquela fantasia de ser jogador de futebol. O primeiro avante que vi jogar tinha sido o Geraldão que fez 5 gols em dois GreNais seguidos e eu fiquei fã do cara. Mas logo, logo, por conta da minha comprovada deficiência técnica, acabei me desestimulando da idéia de ser um craque dos gramados e tive que me conformar em jogar apenas no time que eu mesmo fundei no meu bairro. Nunca joguei grande coisa, é verdade, mas a precisão conseguida em horas e horas de "treino" me garantiu a possibilidade de durante um bom tempo jogar de centroavante no meu time com algum êxito até, e não apenas por ser o dono dele. Por mais que fosse um jogador limitado, se caísse pra mim, em condições de chutar, era "caixa" e acabei sendo goleador do time por várias temporadas. Aí que, hoje, vendo por exemplo, um jogador como o Washington, do São Paulo, ex-Flu, ex-Inter, ex-Grêmio, que só jogou em times grandes e não sabe dominar uma bola, eu vejo que até dava pra insistir.
E agora eu vejo os jogadores, numa Copa do Mundo, em gramados que são verdadeiros tapetes, em condições ideias de temperatura e pressão me reclamar da tal da Jabulani, a bola oficial da competição. Tão de brincadeira, né! Nem parece que a vida inteira jogaram com verdadeiros "caroços" num saibro duro, ou com uma bola de borracha nos paralelepípedos da rua, ou com a bola furada mesmo só pro jogo não acabar.
A gente usava a bola até o fim. Até o último gomo soltar. E nem por isso deixava de guardar lá na gaveta, lá onde a coruja dorme. De dois-de-blum.
O que tão fazendo já é armar a desculpa pr'aquele chute que vai lááá no placar eletrônico. Aquele tipo de jogada que dá a deixa pro narrador dar a pausa pros comercias sem nem se dar ao trabalho de narrar a jogada bisonha que acaba de ver, dizendo apenas "Globo e você, tudo a ver" ou "Bandeirantes, o canal do esporte".

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

Seleção Brasileira - 11 discos nacionais que têm a cara do nosso futebol


A relação do futebol com a música, no Brasil, é algo muito especial e particular. A ginga, o ritmo, a malandragem, a criatividade, a poesia, são compartilhadas por ambos e é como se um se utilizasse das virtudes do outro. Seja pela constituição do povo, pela formação cultural, pela configuração social, por questões comportamentais, por tudo isso, o jogo de bola, popular, democrático, que se pode praticar na rua, num pátio, num terreno qualquer, com qualquer coisa que seja ligeiramente arredondado, é ligado intimamente à musicalidade do brasileiro que pode ser colocada em prática em qualquer lugar ou esfera social, numa mesa, numa lata, numa caixinha de fósforo, no morro numa roda de amigos, ou numa garagem com três caras, duas guitarras e uma bateria.

Nessa época de Copa, pensando nessa íntima ligação, selecionamos alguns discos que tem tudo a ver com esse laço. Quando artistas de música colocaram o futebol de forma significativa dentro de suas obras.

É lógico que teríamos muitos, inúmeros exemplos e possibilidades, aqui, mas ilustramos esse caso de amor futebol & música com 11 discos que têm a cara do futebol. Onze!!! Um para cada posição.

Uma verdadeira Seleção Brasileira.

Dá uma olhada aí:

*****




"A perfeição é uma meta
defendida pelo goleiro"
da música "Meio de Campo"

Gilberto Gil - "Cidade de Salvador" (1973): Embora tenha feito o tema brasileiro para a Copa do Mundo de 1998, Gilberto Gil não é exatamente um cara de referências tão constantes ao futebol em sua discografia. Tem, lá, o Hino do Bahia, em 1969, no disco ao vivo com Caetano, tem "Abra o Olho", do disco Ao Vivo de 1974, que faz menções a Pelé e Zagallo, mas, em sua obra, o álbum mais relevante nesse sentido e que mais traz referências ao esporte das massas do Brasil, é "Cidade de Salvador", de 1984. Nele temos a faixa "Meio de Campo", que reverenciava o, então jogador, Afonsinho, do Botafogo, jogador atuante, engajado, um dos pioneiros na luta pelo direito ao passe-livre, além da luta própria liberdade pessoal, uma vez que seu clube, na época, o Botafogo, exigia que ele tirasse a barba e cortasse o cabelo comprido, ao que o mesmo resistiu, exigindo a rescisão de contrato.

Como se não bastasse uma música tão relevante sobre um personagem tão simbólico do futebol brasileiro, o álbum ainda trazia a faixa "Tradição", belíssima crônica cotidiana, que, embora não fosse uma música sobre futebol, também citava o jogo, mencionando Lessa, um lendário goleiro do Bahia nos anos 50, segundo a letra, "um goleiro, uma garantia".






João Bosco - "Galos de Briga" (1976): A dupla João Bosco e Aldir Blanc, quando se trata de música com futebol, é que nem Pelé e Garrincha, Romário e Bebeto, Careca e Maradona. Eram craques! Sintonia perfeita. Embora muitas vezes na discografia de Bosco possamos encontrar referências ao futebol, como nas clássicas "Linha de Passse" e "De Frente pro Crime", em "Galos de Briga"; disco combativo, lançado em 1976, meio à ditadura militar, podemos encontrar dois exemplares dessa tabelinha entrosada: "Incompatibilidade de Gênios" e "Gol Anulado", duas brigas de casal repletas de elementos futebolísticos (e duplas interpretações a respeito da ditadura). Na primeira, o homem reclama que a mulher, zangada, ranzinza, sequer quer permitir que ele escute no rádio o jogo do Flamengo ("Dotô/ Jogava o Flamengo, eu queria escutar / Chegou / Mudou de estação, começou a cantar ..."); na outra, um marido descobre por um grito de gol que a esposa, que julgava tão perfeita e exemplar em tudo, não torcia, na verdade, pelo seu mesmo time, o Vasco da Gama ("Quando você gritou mengo /No segundo gol do Zico / Tirei sem pensar o cinto / E bati até cansar / Três anos vivendo juntos / E eu sempre disse contente / Minha preta é uma rainha / Porque não teme o batente / Se garante na cozinha / E ainda é Vasco doente (...)", e compara a sensação da frustração à de um gol anulado ("Eu aprendi que a alegria /De quem está apaixonado / É como a falsa euforia / De um gol anulado").

Blanc e Bosco tem mais um monte de futebolices em sua discografia, mas "Galos de Briga", é um dos trabalhos que melhor simboliza bem esse entrosamento.





Neguinho da Beija-Flor - "É melhor sorrir" (1982): Quando uma música tem o poder de ser adaptada para todos os grandes times de uma cidade e ser cantada por cada uma de suas torcidas num estádio lotado, essa música tem lugar garantido entre as mais significativas do futebol. "O Campeão", conhecida também por "Meu Time", de Neguinho da Beija-Flor, integrante do álbum "É Melhor Sorrir", celebra um dia de futebol, desde a preparação, a espera, a ansiedade, até o momento mágico de torcer e vibrar pelo time do coração dentro do estádio. "Domingo, eu vou ao Maracanã / Vou torcer pro time que sou fã / Vou levar foguetes e bandeira / Não vai ser de brincadeira / Ele vai ser campeão / Não quero cadeira numerada / Vou ficar na arquibancada / Prá sentir mais emoção / Porque meu time bota pra ferver / E o nome dele são vocês que vão dizer / Ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô..........", e aí completa com o nome do seu time. Quem já ouviu isso no Maracanã, só trocando o nome do time no refrão, não tem como não se arrepiar.

O restante das faixas do disco não tem ligação com futebol, mas com uma dessas, que foi oficializada como hino do estádio, que serve para quatro dos maiores clubes do país, normalmente é entoado por milhares de vozes no maior templo do futebol mundial, há motivos mais que suficientes para incluir "É Melhor Sorrir" entre os álbuns importantes na relação música-futebol.





"A defesa é segura
e tem rojão"
da música "Um a Um"

Jackson do Pandeiro - "Jackson do Pandeiro" (1955): Uma das músicas mais marcantes na qual o futebol figura com protagonismo é a clássica "Um a Um", de Jackson do Pandeiro. A letra discorre sobre todas as posições de um time, setores do campo, situações de jogo, xinga o juiz, e exalta entusiasticamente as qualidades e virtudes do time do coração ("O meu clube tem time de primeira / Sua linha atacante é artilheira / A linha média é tal qual uma barreira / O center-forward corre bem na dianteira / A defesa é segura e tem rojão / E o goleiro é igual um paredão (...)  / Mas rapaz uma coisa dessa também tá demais / O juiz ladrão, rapaz! / Eu vi com esses dois olhos que a terra há de comer / Quando ele pegou o rapaz pelo calção / O rapaz ficou sem calção!..."). E, mais atual do que nunca, não aceitando derrota ou empate em hipótese alguma, ainda adverte:  "Se o meu time perder vai ter zum zum zum". E não é assim sempre ainda hoje?





Chico Buarque - Chico Buarque (1984): Chico Buarque, apaixonado por futebol, volta e meio tem alguma coisa relacionada ao esporte mais popular do mundo em seus discos. Um detalhezinho aqui outro ali, um verso, uma metáfora, uma referência... Poderia citar um monte delas aqui, mas escolhemos a música "Pelas Tabelas", do álbum "Chico Buarque", de 1984, por reunir uma série de elementos interessantes como o Maracanã, a torcida, a tabelinha e uma multidão na rua de verde e amarelo que naquele momento, poderia ser pela Seleção ou pelas manifestações pró-diretas, mas que nos últimos tempos se transformou numa imagem de terror de fanáticos conservadores fascistas. Saudades do tempo em que sair na rua de verde e amarelo era só para comemorar vitórias da Seleção ou reivindicar direitos democráticos.

"(...) Quando vi um bocado de gente descendo as favelas/ Achei que era o povo que vinha pedir / A cabeça do homem que olhava as favelas / Minha cabeça rolando no Maracanã / Quando vi a galera aplaudindo de pé as tabelas /Jurei que era ela que vinha chegando / Com minha cabeça já numa baixela / Claro que ninguém se toca com minha aflição / Quando vi todo mundo na rua de blusa amarela / Pensei que era ela puxando um cordão".





Engenheiros do Hawaii - "Várias Variáveis" (1991): Os Engenheiros do Hawaii, banda da capital gaúcha, sempre demonstrou estreita ligação com o futebol. Volta e meia usavam em suas letras expressões referentes ao jogo ("jogam bombas em Nova Iorque / jogam bombas em Moscou / como se jogassem beijos pra torcida / depois de marcar um gol" - "Beijos Pra Torcida" 1986); subiam ao palco, não raro, com camisetas de seus clubes do coração, Gessinger, gremista fanático, coma do Tricolor, é claro; e tinham, até mesmo, em uma de suas músicas, "Anoiteceu em Porto Alegre", uma narração de rádio do gol do título mundial do Grêmio, de 1983. No entanto "Várias Variáveis", de 1991, que não continha especificamente nenhuma música com qualquer menção ao esporte, destaca-se pela capa, que o justifica em estar nessa lista. Nela, entre várias engrenagens, símbolo adotado pelo grupo como marca, preenchidas com ícones pop, símbolos, imagens geográficas, históricas, comerciais, encontramos os escudos dos dois grandes clubes do Rio Grande do Sul, Internacional e Grêmio. Uma capa que dimensiona bem a importância do futebol e a paixão dos gaúchos por seus clubes situando-os entre as coisas mais importantes entre tantos elementos como ideologias, religiões, comportamento, economia, coisas que fazem mexer as engrenagens do mundo. Afinal, como dizem, o futebol é a coisa desimportante mais importante do mundo. Não é mesmo?





Novos Baianos - "Novos Baianos F.C. (1973): O que era aquilo? Uma banda? Uma família? Uma comunidade? Um time de futebol? Tudo isso! Os Novos Baianos meio que inauguraram um novo conceito de grupo musical: moravam juntos, todos colaboravam em tarefas, faziam música e, apaixonados por futebol, batiam uma bolinha. Para isso, montaram dois campos de futebol no sítio onde a banda vivia, na zona leste do Rio, onde, entre uma gravação e outra, jogavam aquela pelada, ou ao contrário, entre uma partidinha e outra, rolava algum som. Um desses momentos de descontração e atividade paralela é captado na capa do disco "Novos Baianos F.C.", de 1973, com a banda "rolando um caroço" no seu campinho em Jacarepaguá. Além do registro da foto, e da extensão (Futebol Clube) não deixa dúvidas quanto à paixão daquela turma pelo jogo de bola, o disco ainda traz a faixa "Só se não for brasileiro nessa hora", que exalta a pelada, o jeito moleque, o gosto por correr atrás da bola: "Que a vida que há no menino atrás da bola / Pára carro, para tudo / Quando já não há tempo / Para apito, para grito / E o menino deixa a vida pela bola / Só se não for brasileiro nessa hora".

"Novos Baianos F.C", de certa forma, resume o espírito do grupo. Um time. Uma equipe entrosada, quase um Carrossel Holandês onde todos se revezavam e executavam mais de uma tarefa dentro de campo. Futebol total. Ou seria música total? 





Pixinguinha - "Som Pixinguinha" (1971) - Uma das primeiras composições alusivas ao futebol foi "1x0" do mestre Pixinguinha. Gravada no final dos anos 1920, a canção instrumental, homenageava o grande feito da conquista do Campeonato Sul-Americano de 1919, numa partida contra o Uruguai, vencida arduamente, depois de duas prorrogações, pelo placar mínimo, 1x0, gol do ídolo da época, Arthur Friedenreich. 

A música até ganhou letra nos anos 1990, do músico Nelson Ângelo, que a regravou então, cantada, em parceria com Chico Buarque, mas nem precisava: instrumentalmente ela, com seu ritmo, fluidez, construção, já consegue transmitir a dinâmica de um jogo, a ginga, a expectativa do torcedor, a movimentação dentro de campo..., tudo!

A canção foi gravada, originalmente, nos anos 1920, saiu em compactos posteriores, em algumas coletâneas, mas o registro que destacamos aqui é o álbum "Som Pixinguinha", de 1971, o último disco gravado pelo mestre do choro, que viria a ser reeditado, anos depois, no Projeto Pixinguinha, rebatizado como "São Pixinguinha". Nada mais justo. Só coisas divinas. Amém, Pixinguinha! Amém!






"O centroavante, o mais importante
Que emocionante, é uma partida de futebol"
da música "Uma partida de futebol"

Skank - "Samba Poconé" (1996): Logo depois que o Brasil ganhou a Copa do Mundo de 1994, o futebol voltou a virar mania nacional. Literalmente, virou moda. As camisetas de clubes, antes restritas às peladas e aos estádios, naquele momento tomavam as ruas. Embora vários artistas manifestassem esse momento, nenhuma banda soube traduzir tão bem esse momento como o Skank. Além dos integrantes se apresentarem, não raro, com camisetas de seus clubes do coração, os grandes de Minas Gerais, Cruzeiro e Atlético, talvez tenham feito a mais empolgante e entusiástica música daquele período e uma das mais marcantes da história da música braseira, sobre futebol. "É Uma Partida de Futebol" transmitia, com rara felicidade às emoções de dentro e fora de campo, com expectativa do jogo, lances de perigo, reação da torcida, tudo com muita alegria e ritmo ("Bola na trave não altera o placar / Bola na área sem ninguém pra cabecear / Bola na rede pra fazer o gol / Quem não sonhou em ser um jogador de futebol? / A bandeira no estádio é um estandarte / A flâmula pendurada na parede do quarto / O distintivo na camisa do uniforme / Que coisa linda é uma partida de futebol (...)"). Sem dúvida, um marco na histórica relação bola-microfone, tão estreita na música brasileira.





"É camisa dez da Seleção
laiá, laiá, laiá!"
da música "Camisa 10

Luiz Américo - "Camisa 10" (1974): É o típico exemplo de artista de uma música só. Luiz Américo gravou a música "Camisa 10" para a Copa do Mundo de 1974, lamentando a ausência de Pelé, que se despedira da Seleção depois da Copa do México em 1970, e questionando as escolhas do técnico Zagallo, campeão na Copa anterior, mas de escolhas bastante duvidosas para o Mundial seguinte. A letra, inteligente, cheia de boas sacadas e trocadilhos com os nomes dos jogadores ("Desculpe seu Zagalo/ Puseram uma palhinha na sua fogueira / E se não fosse a força desse tal Pereira / Comiam um frango assado lá na jaula do leão / Mas não tem nada não!"), acabaria por confirmar os temores dos autores, Hélio Matheus e Luís Vagner, de um time confuso, mal convocado e mal escalado que não convenceu em nenhum momento e acabou eliminado de maneira impiedosa pela Laranja Mecânica de Johan Cruyff.

Lançada em um álbum sem outras alusões a futebol, "Camisa 10", além de ser, com certeza, a maior cornetada musical da discografia nacional, talvez seja a canção mais marcante da tabelinha música-futebol no Brasil.





Jorge Ben - "Ben" (1972): Jorge Benjor, talvez seja o músico com mais referências ao futebol em sua obra. Volta e meia tem! Tem menção a clube, exaltação a craque de verdade, para craque inventado, música por posição, para infração dentro de campo, pra negociação entre clubes... Tem de tudo. "África Brasil" , disco já destacado aqui no ClyBlog, nos nossos ÁLBUNS FUNDAMENTAIS, provavelmente seja o álbum que mais contém referências ao esporte, com uma música cuja letra conta o desejo de um de seus filhos em querer ser jogador de futebol ("Meus filhos, meu tesouro"), uma para o craque Zico ("Camisa 10 da Gávea), e uma para um fictício meia-atacante africano de futebol encantador, "Umbabaraúma, Ponta de Lança Africano". No entanto, a canção de Jorge Benjor mais marcante sobre futebol, é, sem dúvida, uma das mais lembradas no quesito em toda a música brasileira, está no disco "Ben", de 1972. "Fio Maravilha" descreve, quase com a precisão de um locutor esportivo, o lance mágico do atacante Fio, do Flamengo, dos anos 70, em que ele faz, segundo o autor "uma jogada celestial". Jorge Benjor, exímio construtor de imagens musicais, soma à narração do lance, a reação da torcida e o grito de reverencia e agradecimento da massa para o craque, num dos refrões mais populares da música brasileira, "Fio Maravilha / Nós gostamos de você /Fio Maravilha / Fazmais um pr'a gente ver".

Curiosamente, anos depois, Fio acabou processando Jorge Benjor pela utilização de seu nome sem autorização. O próprio Fio desistiu do processo sem sentido até porque, antes da música ele não era ninguém e, pelo contrário, era conhecido, exatamente, por perder muitos gols. Simplesmente, um hino do futebol brasileiro!



por Cly Reis