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domingo, 20 de novembro de 2022

cotidianas #780 - O Preto na Camisa Amarela

 




Salve Pelé
Salve Édson
Salve Dico
O atleta do Século

Salve Pelé com P maiúsculo
Salve os 3 erres
Ronaldinho
Ronaldo
e Rivaldo

Salve o Rei do Futebol
Salve o Rei Dadá
Salve o Reizinho da Vila
Salve o Príncipe Etíope

Salve o pé de Pelé
As mãos de Barbosa
As de Dida
Os dedos quebrados de Manga

Salve o negro Pelé
O mestiço Mané
O mulato Romário
E o sarará Ademir que era negro também

Salve o preto
o crioulo
o tição
Salve o carvão

O carvão de onde se extrai o diamante
Sim! O diamante!
Salve Diamante Negro
Salve a joia da Vila
Salve a prata da casa
Salve o nosso ouro

Salve o azul do Sangue do Rei
Salve o amarelo da camisa
o verde dos gramados
Salve o preto da pele

Salve o homem de cor
Salve o preto na camisa amarela



Cly Reis

domingo, 5 de julho de 2026

A Seleção do Gil

 


Não tem ninguém na música brasileira que seja tão identificado com futebol do que Gilberto Gil. Duvida? Então diz aí alguém que torce para vários times ao mesmo tempo como ele. Além do Bahia, seu time, digamos, "natal", Gil tem como característica ter um clube em cada Estado brasileiro. No Rio de Janeiro, é Fluminense; em São Paulo, Santos; no Rio Grande do Sul, veste a camiseta gremista; em Pernambuco, a do Santa Cruz e assim por diante. 

Quando se trata de Seleção Brasileira, então, aí o velho baiano se delicia. Tanto que essa paixão pelo esporte bretão está em várias músicas do cancioneiro gilbertiano. Desde os primeiros anos de carreira até os dias atuais, Gil traz o futebol entremeado à sua faraônica musicalidade. Por isso, com o Brasil avançando de fase na Copa do Mundo, assim como já fizemos com Jorge Benjor e Chico Buarque rodadas atrás, agora é a vez de escalarmos as 11 músicas de Gil, sejam para sua própria voz ou para a de outros artistas, sejam composições de sua autoria ou de outros. Independentemente de quem cante ou compõe, é a arte maior de Gil subindo neste palco de quatro linhas feito de grama. 

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"No tempo que Lessa era goleiro do Bahia
Um goleiro, uma garantia"







1. "Tradição", do álbum "Realce" (1979): Considerada uma das obras-primas de Gil, admirada por colegas como João Bosco e Caetano Veloso, “Tradição”, de “Realce”, de 1979, é uma verdadeira crônica soteropolitana feita de reminiscências do Gil de sua infância. Numa narrativa que lembra Jorge Amado, são contadas, pelo olhar da observadora criança, diversas situações da cidade, como a discriminação racial, o comportamento social e... o futebol, quando Gil refere-se ao arqueiro Walter Lessa, multicampeão pelo seu Bahia entre 1947 a 1950. Já que estamos falando do camisa 1, nada melhor para começar essa lista com o goleiro.

Ouça: Tradição










2. "O Bom Jogador", do álbum "O Viramundo - Ao Vivo" (1972-1998): Música da entressafra do Gil pós-exílio, “O Bom Jogador” fazia parte do repertório que ele levava para os diversos shows que fazia em pequenos teatros no início dos anos 70 após retornar de Londres. Não entrou em nenhum disco na época, vindo a aparecer apenas na caixa com sobras de 1998 e, posteriormente, no registro de show na USP em 1973, lançado nos anos 2000. Na curta letra, uma máxima futebolística: “O bom jogador não engana a geral”.

Ouça: O Bom Jogador



"Viva Pelé do pé preto
Viva Zagallo da cabeça branca"






3. "Abre o Olho", do álbum "Gilberto Gil Ao Vivo" ou "Ao Vivo no Tuca" (1974): Não se trata de uma música necessariamente sobre futebol. Aliás, está mais para uma viagem lisérgica e filosófica de um homem frente a frente consigo mesmo diante do espelho. Mas o refrão não pode ser mais futebolístico - e nem tão emblemático: combinação de talento e "consumição" que deram ao Brasil os títulos mundiais de 1958 e 1970, representadas em Pelé e Zagallo, os quais, segundo Gil, "dão o sentido de contradição e complementaridade yin-yang; um é África, o outro, Europa”.

Ouça: Abre o Olho











4. "Samba Rubro-Negro (O Mais Querido)", com Germano Mathias, do álbum "Antologia do Samba-Choro" (1979)
: Prova de que Gil gosta mesmo é de futebol e não dá bola para rivalidades clubísticas é que ele também exalta seus adversários, caso de “Corintiá”, que ele grava, em 2010, mesmo sendo, em São Paulo, santista. A mesma coisa acontece com o rival de seu Fluminense no Rio, o Flamengo, para o qual ele grava, no seu desconhecido e raro disco “Antologia do Samba-Choro”, feito em parceria com o cantor e compositor paulistano Germano Mathias em 1978, “Samba Rubro-negro (O Mais Querido)”, de autoria de Wilson Batista e Jorge de Castro.

Ouça: Samba Rubro-Negro



"Magos da bola na Cidade Luz
Fazem milagres, transmutações
Dores e horrores que a vida produz
São transformados no balé da bola
Suor e sangue no balé da bola
Crime e castigo no balé da bola"




5. "Balé da Bola (Copa 98)", do single "Balé da Bola - Copa 98" (1998): Quando Gil inventa de compor sambas-enredo sempre sai coisa muito boa. Foi assim com “De Bob Marley a Bob Dylan, Um Samba-Provocação” e “Quilombo, O Eldorado Negro”. Para a Copa do Mundo de 1998, na França, o jornal O Globo contratou-o para compor um tema, que se tornaria na prática o tema daquela fatídica Copa em que o Brasil foi vice-campeão. Mas a música é uma maravilha, de alto poder poético e embalada ao ritmo de uma escola de samba. Só o olhar dele para ter tamanha arguição de ver que “Quando a seleção marcar um gol” serão séculos e mais séculos de nossa história, e que o mesmo vem desde os tupis e passa pela China, Grécia ou na França medieval. É muito craque!

Ouça: Balé da Bola










6. "Trinca de Ases", com Nando Reis e Gal Costa, do álbum "Gil, Nando & Gal - Trinca de Ases - Multishow Ao Vivo" (2018): Composta por Gil especialmente para o projeto deste nome em que ele divide "as quatro linhas" com Gal Costa e Nando Reis, a música faz analogias com o “estilo de jogo” de cada um. Ele, mais maduro, faz um jogo seguro e paciente. Nando, mais jovem, é “impetuoso e viril”. Já a “moça”, por sua vez, “corre livre”. Afinal, quem tem Gal no time tem que passar mesmo a bola pra ela e deixá-la fazer o gol. 

Ouça: Trinca de Ases



"Moleque saci
Saci-pererê
Um gol de Pelé
Que é pra gente ver"





7. "Saci Pererê", com Banda Black Rio, do álbum "Saci Pererê" (1980)
: Assim como "Meio de Campo", é dessas pérolas escritas por Gil para outros artistas, e que casualmente também trata de futebol. Neste caso, a música foi encomendada para a Banda Black Rio, grupo que Gil homenageara em “Refavela” (1977). Para o terceiro e último disco da Black Rio com a formação clássica, o baiano compõe esse reggae, que se tornaria nada menos que a faixa-título e no qual faz referência a um talentoso e intrépido moleque negro brasileiro que, embora perneta, joga muito melhor do que vários “pernas-de-pau” com os dois membros inferiores. Dê-se a camisa 7 pra esse atrevido atacante.

Ouça: Saci Pererê











8. "Meio de Campo", com Elis Regina, do álbum "Elis" (1973)
: Impossível haver combinação melhor: a maestria da composição de um dos maiores compositores da MPB feita para a voz da maior cantora do Brasil. Elis Regina eterniza este samba cheio de suingue, que desafia a Ditadura ao falar em forma de carta endereçada ao polêmico Afonsinho, um dos mais politizados e engajados jogadores do futebol brasileiro dos anos 70. Gil admite na letra que não é “Pelé nem nada”, e que, se muito for, é “um Tostão”. Se Chico Buarque é nosso Pelé na música, não é nenhum demérito a Gil ser um Tostão, não!

Ouça: Meio de Campo









9. "Balé de Berlim", do single "Balé de Berlim" (2006): O Brasil pode não ter ganhado em 1998, mas que a ideia de Gil compor tema da Copa deu certo, ah! Isso deu. Tanto que o baiano foi chamado novamente para a mesma empreitada, só que então para a Copa do Mundo de 2006, na Alemanha. “Balé de Berlim” repete melodia e o clima de samba com letra atualizada para a ocasião e, desta vez, Gil convoca para fazer tabelinha com ele Zeca Pagodinho. Se, assim como na França, a música de Gil não deu a sorte que a Seleção precisava, ficou para a eternidade, ao menos, mais um belo tema dele sobre futebol.

Ouça: Balé de Berlim


"Alô, torcida do Flamengo
Aquele abraço!"






10. "Aquele Abraço", do álbum "Gilberto Gil" (1969): Gil estava com um pé no aeroporto rumo ao exílio forçado na Inglaterra por causa do Governo Militar, mas não sem antes deixar seu manifesto. E, claro, um manifesto com a sua cara: poético, resistente e em forma de samba de breque. O clássico "Aquele Abraço", além de tudo, põe o futebol no contexto político-social do País, chamando para sua celebração de resistência a "torcida do Flamengo", o que significa, como a própria expressão se popularizou, convocar o "todo o povo brasileiro". Música nota 10, merece a camisa 10!

Ouça: Aquele Abraço









11. "Campeão dos Campeões", com Os Doces Bárbaros, do álbum "Doces Bárbaros Bahia" (2000): A partir de um projeto encabeçado por J. Veloso, um dos irmãos de Caetano e Maria Bethânia, os Doces Bárbaros (que inclui, obviamente, ainda Gal e Gil) se reuniram para gravar um disco com versões de hinos e música em homenagem ao Sport Club Bahia. A Gil coube esse reggae de autoria de Zé Pretinho, Raquel e Bezerra da Silva – que, embora super ligado à malandragem carioca, era, na verdade, baiano. Quanto a Gil, este sim, não há dúvidas: por mais que vista a camiseta de outros clubes, na verdade, ele é mesmo "Baêah"!

Ouça: Campeão dos Campeões


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Daniel Rodrigues

terça-feira, 29 de novembro de 2016

"Quando é Dia de Futebol", de Carlos Drummond de Andrade - Ed. Companhia das Letras (2014)



"Quando é Dia de Futebol", reunião de crônicas, poemas e cartas de Carlos Drummond de Andrade que tem o futebol como pano de fundo é meramente interessante. Com textos que atravessam o período de nove Copas do Mundo, começando na de 1954 na Suiça e culminando na do México em 1986, o poeta mineiro muito sutil e poeticamente vai montando uma linha de tempo político-social-antropológica do Brasil enquanto versa, muito descompromissadamente, sobre o esporte que é paixão nacional. E é essa paixão e a maneira como ela se manifesta no íntimo do brasileiro que o escritor consegue captar com rara sensibilidade. Drummond não era um grande entendedor de futebol, muito pelo contrário, fato que  mesmo humildemente admite comparando-se com outros cronistas como João Saldanha e Sérgio Cabral Sênior, ("Tenho que (...) fingir uma competência que nunca tive  e ir na retaguarda do Sandro, do Novais, do Saldanha do Cabral e outros cobras, deitando sabença especializada..."), mas talvez exatamente por essa "ignorância" técnica das especificidades do esporte dentro das quatro linhas e das particularidades de seus bastidores é que sua visão de leigo aficionado torne-se tão pura e válida. É curioso observar o crescimento do valor do futebol dentro do conceito e admiração de Drummond, uma vez que num primeiro momento vê com muita estranheza a demasiada atenção e importância que as pessoas dão a uma partida de futebol ("Não posso atinar bem como uma bola, jogada à distância, alcance tanta repercussão no centro de Minas") passando ao longo do tempo a fazer parte da massa fanática de torcedores sequiosos por mais um título para a Seleção Canarinho como na "oração" pedindo ao Velho lá de cima a posse definitiva da Jules Rimet, "Meu coração agora tá no México batendo pelos músculos de Gérson, unha de Tostão, a ronha de Pelé (...)/ Dê um jeito, meu velho, e faça com que essa taça/ com milagre ou sem ele nos pertença/ para sempre, assim seja... Do contrário/ ficará a nação melancônica/tão roubada em seu sonho e ardor/ que nem sei como feche a minha crônica".
Os poemas, de um modo geral, salvo algum que outro, não são dos mais inspirados de sua careira literária, beirando em determinados momentos à puerilidade, e muitos dos escritos pela brevidade ou pela ingenuidade futebolística são mesmo de valor discutível, mas devo admitir que os textos sobre Pelé e Garrincha são lindos bem como o da eliminação para a Itália na Copa de 82.
Compilação válida pela apresentação organizada e criteriosa desta outra faceta menos conhecida do grande escritor brasileiro, por essa sensível percepção do efeito que este jogo exerce sobre as pessoas,  mas no fim das contas nada que acrescente qualitativamente a tudo que já era conhecido e apreciado do grande mestre de Itabira. Craque ele era mas neste em "Quando É Dia De Futebol" não dá pra dizer que tenha sido um Pelé.




Cly Reis

quarta-feira, 24 de junho de 2026

A Seleção do Chico


Existem muitos Chico Buarque. O malandro, a mulher, o político, o literato, a criança, o amante, o cronista. Todos eles, de alguma maneira, podem ser vistos em outros compositores da música brasileira. Mas um desses Chico que poucos conseguem reproduzir é o boleiro. Fluminense roxo, além de meia-armador e cartola do seu próprio time, o Politheama, Chico, do alto de seus 82 anos, viu muitas Copas do Mundo e muitos jogadores da Seleção Brasileira, entre estes, suas principais admirações dentro de campo: Pelé e Mané Garrincha. Nada melhor, portanto, que recorrer à obra de Chico neste momento de Copa.

Além do maior de todos os tempos e o gênio das pernas tortas, o futebol aparece no cancioneiro buarqueano recorrentemente. Assim, nós reunimos – tal qual fizemos para com Jorge Benjor na primeira rodada da Copa do Mundo EUA/México/Canadá – 11 delas neste dia da terceira partida da Seleção Canarinho. As referências ao futebol são as mais diversas, de uma zoação a um amigo flamenguista à simples menção ao jogo de bola.

Independentemente de como se aborda, o certo é que, na obra magistral de Chico Buarque, estamos falando sempre de grandes músicas. Dia de partida da Seleção na Copa? Eis, então, a Seleção do Chico! 

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"Para estufar esse filó
Como eu sonhei
Se eu fosse o Rei"



1. "O Futebol", do álbum "Chico Buarque" (1989)Já que o tema é o esporte mais popular do mundo, nada melhor do que começar uma lista de 11 músicas de Chico sobre o tema com uma que se chama, justamente, “O Futebol”. Poucas vezes – ou talvez nenhuma – um compositor conseguiu traduzir com tamanha poética a dinâmica e a alma do futebol. A música faz curva como a própria bola, e a letra se integra a uma partida imaginária e onírica. Futebol-arte é isso aqui.

Ouça: O Futebol









2. "Barafunda", do álbum "Chico" (2011): Sabe quando a memória falha, mas aquilo que se quer lembrar está na ponta da língua? Aquele nome, aquela palavra, aquela memória que quase vêm à mente, mas em seguida escapa de novo, e a cabeça fica naquele ciclo interminável. No delicioso samba “Barafunda”, além de trazer essa letologia, Chico ainda integra-a ao universo do futebol de forma brilhante. Afinal, quem nunca se esqueceu exatamente como foi aquele lance? Será que aquele gol foi do Pelé... ou foi do Mané...?

Ouça: Barafunda



"Zanza na sarjeta
Fatura uma besteira
E tem as pernas tortas
E se chama Mané"


3. "Pivete", do álbum "Chico Buarque" ou "Disco da Samambaia" (1978)Essa é daquelas em que mais de um Chico aparece. Embora prevaleçam o cronista e o crítico social, o boleiro não deixa de marcar presença. A música, parceria com Francis Hime de 1978 e regravada em 1992, em "Paratodos", relata a vida marginal de trombadinhas nas ruas do Rio de Janeiro. Entre um assalto, um subemprego e uma esmola, as crianças desprezadas pela sociedade vivem para sobreviver sem nenhuma perspectiva de futuro. Quem sabe, se não tivessem oportunidade, não teríamos ali um Pelé ou um Garrincha?

Ouça: Pivete





4. "Pelas Tabelas", do álbum "Chico Buarque" (1984)O cara deve ter aprontado uma boa pra mulher dele, hein! Tanto que, em todo lugar que vai, ele a enxerga lá, pronta para pegá-lo e decapitá-lo (ou coisa pior...). E mais: só ele que sabe dessa situação. “Claro que ninguém se toca com minha aflição”, confessa o desgraçado. Seja da favela, nas janelas ou nas ruas, ele sabe que sua hora vai chegar. Já está até vendo sua “cabeça rolando no Maracanã” feito bola depois de ser degolado pela esposa.

Ouça: Pelas Tabelas



“Quem que te mandou tomar conhaque
Com o tíquete que te dei pro leite
Quieta, que eu quero ouvir Flamengo e River Plate”


5. "Biscate", do álbum "Paratodos" (1993)Outra que relata de forma divertida a relação marido/mulher e, claro, tendo o futebol no meio, é “Biscate”. Duo dele com a saudosa Gal Costa, é feita justamente para duas vozes, uma masculina e outra feminina, reproduzindo 0 conflituoso mas ao mesmo tempo apaixonado relacionamento deste casal típico de classe média carioca. Ciumentos, marrentos, vaidosos, inseguros, implicantes mas, no fundo, amantes. E ele, Chico, que nem flamenguista é, larga uma rima preciosa que combina "leite" com "River Plate".

Ouça: Biscate





6. "Feijoada Completa", do álbum "Chico Buarque" ou "Disco da Samambaia" (1978): Obviamente que é uma cena fictícia, mas chega a dar para vê-la: Chico com a galera da MPB-4, João Nogueira, Paulo César Caju, Bob Marley e outros amigos chegando suados em casa depois de uma pelada do Politheama e pondo a então esposa Marieta Severo pra cozinhar praquele batalhão todo. Caipirinha, cerveja estupidamente gelada, aperitivo, tudo rolando ali mesmo, no chão, e uma feijoada com tudo que se tem direito no fogo. 

Ouça: Feijoada Completa



"Pintei de branco o teu preto
Ficando completo
O jogo de cor
Virei-lhe o listrado do peito
E nasceu desse jeito
Uma outra tricolor”


7. "Ilmo. sr. Cyro Monteiro ou Receita pra Virar Casaca de Neném", do álbum "Chico Buarque de Hollanda nº 4" (1970)O sambista Cyro Monteiro era flamenguista fanático, Tanto que, quando nasceu a primeira filha de Chico e Marieta Severo, Sílvia, ele teve a cara de pau de enviar de presente para o bebê uma camisa rubro-negra para Roma, na Itália, onde a menina nasceu durante o exílio de Chico, só pra zoar com o amigo tricolor. Chico, bem humorado e irônico, respondeu à altura compondo este samba. Cyro foi "tirar uma" e deu nisso: levou uma bola no contrapé.








8. "Jogo de Bola
", do álbum "Caravanas" (2017)De novo, vários Chico fazendo tabelinha. O romântico e o sambista criam uma analogia direta com o jogo nas quatro linhas. Composição do último disco do artista, “Caravanas”, de 2017, em que ele capricha na qualidade letrística para falar de um amor perdido. “Outrora, quando em priscas eras/ Um puskás eras/ A fera das feras da esfera, mas agora/ Há que aplaudir o toque/ O tique-taque, o pique, o breque, o lance.” Olha o que ele fez!

Ouça: Jogo de Bola




“Ai, que saudades que eu tenho
Duma travessura
Um futebol de rua"

9. "Doze Anos", do álbum "Ópera do Malandro" (1978)Essa é bem de boleiro, que cresceu jogando bola na rua e nos campinhos na Zona Sul do Rio. Escrita para o mega-musical “Ópera do Malandro”, de 1978, foi interpretada no palco pelos atores Otávio Augusto (Max Overseas) e Tony Ferreira (Chaves), mas, no disco, tem nada menos que o próprio Chico em duo com Moreira da Silva. O intrépido Kid Moringueira, malandro à moda antiga, arranca gargalhadas de Chico neste samba-de-breque saboroso.

Ouça: Doze Anos






10. "Hino do Politheama", do DVD "Chico Buarque - O Futebol" (2006)No seu documentário sobre futebol, Chico fala da lenda de seu time, o Politheama, nunca ter perdido uma partida. Essa fama foi parar no hino do clube, escrito, claro, pelo próprio atleta, presidente e principal símbolo: “Politheama, Politheama/ O povo clama por você/ Politheama, Politheama/ Cultiva a fama de não perder”. Segundo Chico, em 2006, eram 2600 jogos oficiais disputados - principalmente, no Centro Recreativo Vinicius de Moraes - e nenhuma derrota. Apenas alguns empates.






“Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock 'n' roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol"

11. "Meu Caro Amigo", do álbum "Meus Caros Amigos" (1976)Reza a lenda que “Meu Caro Amigo” foi escrita, como se diz na gíria do futebol, aos 45 do segundo tempo, quando as gravações já estavam chegando ao fim e faltava ainda uma música para fechar o disco. No improviso, como um craque que tem muito recurso, Chico puxou uma caneta, que em poucos minutos trouxe a letra deste chorinho de parceria com Francis. A história era fictícia, mas muito pertinente: uma carta a um amigo exilado – tal como ele, Chico, e família estiveram anos antes por causa da Ditadura – querendo saber notícias do Brasil. Neste contexto, o futebol aparece com certa tristeza, mas também como resistência. O cronista e o boleiro jogando no mesmo time. 



Daniel Rodrigues