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quinta-feira, 16 de julho de 2026

João Bosco - "Benguelê" (1998)





"Um tanto árabe, um tanto mineiro, outro tanto carioca (pelos anos tantos de Rio de Janeiro) e, infalivelmente, cidadão do mundo, João Bosco tece com fios de múltiplas texturas e procedências sua tapeçaria musical. O negro das Minas é quem chega primeiro em dois calangos de tons roseanos. Como se o dizer mineiro e tão próprio de Guimarães pudesse encontrar um análogo musical."
Angela de Almeida
texto de divulgação da espetáculo do Grupo Corpo
Outubro, 1998

Minas Gerais não tem esse nome por acaso. Além da fartura mineral, que se estende por vastidões do território do Estado, sua posição, quase centralizada no mapa brasileiro, e, principalmente, a capacidade que essa enorme carga de pedras tem de irradiar para direções para além de si própria é imensa. Minas Gerais é mais que um espaço físico: ele está dentro de quem a ela pertence. A música mineira é um exemplo claro. Dos diversos talentos nascidos em suas cercanias, todos carregam em si algo comum a quem a essa terra pedregosa pertence. E não adianta sair de Minas, que ela estará sempre imbricada ao ser mineiro. 

Veja-se João Bosco. Ao contrário de Milton Nascimento, um carioca que se “mineirizou”, Bosco é um mineiro que, embora seja quase um “malandro moderno” do Rio de Janeiro, embora tenha assumido o samba rural do Vale do Café carioca, embora tenha assimilado os ritmos da música soul e rock das ruas fluminenses, embora percorra com naturalidade o jazz universal, nunca deixou Minas Gerais sair do seu íntimo. O compositor e cantor que encantou Elis Regina, que criara patrimônios da MPB com Aldir Blanc e que é uma das pedras basais da música brasileira moderna não tinha, contudo, recebido a oportunidade de expressar sua “mineirice” com a devida dimensão. A oportunidade veio de talvez onde ele menos esperasse: da dança, quando, em 1997, a companhia de balé Grupo Corpo, conterrânea, convidou-o para compor a trilha sonora de sua então nova montagem. Quando composta, em paralelo à criação coreográfica, essa trilha/peça se chamaria “Benguelê”.

Estopim para a criação da trilha, a palavra "Benguelê" é a junção da região de Benguela (Angola) com a nostalgia ("saudade" em quimbundo). O suficiente para despertar no talento raro de Bosco toda uma sinfonia brasileira de altíssima musicalidade. Numa exaltação ao passado africano e às suas marcantes e profundas raízes na cultura brasileira, Bosco vai buscar essas raízes e ancestralidade nos recônditos mais profundos de sua alma. E, assim, retorna a Minas. A Minas indígena, negra, ibérica, árabe. Minas que está no Rio de Janeiro e na Paris de Pixinguinha. A Minas que se preserva no canto sincrético-folclórico de Clementina de Jesus. A Minas de ascendência moura. A Minas do sertão roseano em que o “Calango Rosa”, faixa de abertura, se arrasta em busca da vida debaixo do sol.

São 11 temas que, embora em grande parte instrumentais (tendo como músicos acompanhantes uma turma afiada como Osvaldinho do Acordeom, Jacques Morelenbaum, Nico Assumpção, Armando Marçal e Robertinho Silva), também ganham letras ou melismas cheios de musicalidade. Caso da faixa-título, em que, a capela, Bosco emula a voz de sua ídola Clementina, que gravara este tema em 1965, no grupo Rosa de Ouro. O violão virtuoso de Bosco, misto de classicismo e malandragem, aparece, então, para contrapor a anterior, no alegre choro “Benguelô” – que guarda, contudo, traços de samba-de-roda do Recôncavo. A Rainha Quelé e Pixinguinha revém para a colorida “Tarantá”, onde se juntam as duas coisas: o ágil violão de Bosco e a referência ao samba rural profundamente calcado na ancestralidade afro-indígena, a se ver pela inclusão de “Carreiro Bebe” em “Urubu Malandro”, agora transformada em frevo.

Trecho das cenas de “Carreiro Bebe"/"Urubu Malandro"/"Tarantá”

Nesta narrativa musical, que se entrelaça ao balé dos dançarinos do Corpo, Bosco reduz a marcha e traz o chorinho “Pixinguinha 10x0”, onde recria o clássico “1x0”, “Karawan”, na sequência, uma genial instrumental em tons graves e épicos, faz a ponte entre a Arábia e Brasil, evidenciando o quanto os traços da cultura persa se mantém presentes na cultura brasileira (e, antes, de tudo, na mineira). Com muita sabedoria, o violão de Bosco ainda traça paralelos dessa brasilidade com a música universal do russo Igor Stravinsky, que bebia, em 1922, na cultura da África Oriental para compor sua obra-prima “A Sagração da Primavera”. “O Sanfoneiro do Deserto”, outra divina, dá continuidade a essa travessia, agora mais nordestina, mais melancólica, mais gonzaguiana. O bloco instrumental fecha com a não menos linda (e ainda mais melancólica) “Misteriosamente”, em que o violão ensaia uma dança sinfônica com o cello.

 Gonzaga, Stravinsky, Arábia, romantismo, dança... Minas.

Mencionou-se, em algum momento, o termo “travessia”, né? Pois é exatamente isso que o autor de “O Bêbado e o Equilibrista” percorre não em uma, mas em três impressionantes temas em que conta com a marcante voz baixo cantante de Sandro Assunção. A primeira, em parceria com Wally Salomão e Antônio Cícero, faz remeter ao desterro dos retirantes nordestinos rumo ao Sul do País, bem como a travessia interoceânica dos árabes, que atravessaram o Saara para, séculos depois, caírem no sertão brasileiro. Impossível não lembrar da performance dos dançarinos na peça, cujo movimento contínuo dos corpos em fila sincroniza-se em duas dimensões, na frente e no fundo do palco. Ainda mais arábica, a segunda parte tem o canto do próprio Bosco, que volta às raízes como se se tornasse um sultão. Na terceira, é a vez de as vozes de Bosco e Sandro dialogarem com a cuíca de mestre Marçal. Pois é: foi também dessas misturas de Minas que saiu o samba...

Como Minas faz fronteira não só com o Rio, mas também com a Bahia, reaparece, então, o Nordeste no afoxé “O Mêdo”, onde resgata o tema “João Balaio”, do disco “Cabeça De Nego” (1986). Esta, animada, serve para criar o ambiente ideal para a derradeira faixa do disco e último número coreográfico da peça. E Bosco o faz com a autoridade mulata de um mineiro adaptando um canto afro-cubano do séc. XIX, o “Canto da Wemba”. Misto de spiritual e música de trabalho de negros escravizados, novamente somente com as vozes como no início, na música “Banguelê”, ele junta esses dois universos afrodiaspóricos: América do Sul e América Central, Brasil e Caribe. Mas essas vozes, em determinado momento, dão vez somente a do autor, que puxa novamente seu mágico violão para engendrar um samba hipnótico. Junto dele, a percussão afro-brasileira de Marçal. No canto, melismas que refletem uma exaltação iorubá. Para encerrar, sob o ritmo frenético da dança afro-mineira, juntam-se vozes do próprio Bosco de antes e daquele agora. De sempre.

Zé Miguel Wisnik, contumaz contribuidor de trilhas para o Grupo Corpo, exalta a iniciativa da companhia de convidar a música brasileira a compor peças diferentes daquilo que seus compositores estariam fazendo normalmente. Com Bosco, esse movimento de tirar-lhe do lugar de conforto foi tão exitoso, que surpreendeu ao próprio artista. Talvez, nem ele, esse mestre que acaba de completar 80 anos, soubesse que sua Minas Gerais, que hoje faz aniversário, restava-lhe tão geral no coração. Uma Minas que lhe chamou para dançar os sons do Brasil, os sons do mundo. Bosco diz: “Bebguelê”, mas, como o conterrâneo Guimarães Rosa, quer com isso dizer também: "Minas em mim: Minas comigo. Minas".

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FAIXAS:
1. "Calanga Rosa" - 3:01
2. "Benguelê" (Pixinguinha/ João da Bahiana) - 2:01 
3. "Benguelô" (João Bosco/Francisco Bosco) - 3:14
4. "Tarantá" (Domínio Público)/"Urubu Malandro" (Pixinguinha) - 7:20
5. "Pixinguinha 10x0" - 3:34
6. "Karawan" - 3:43
7. "O Sanfoneiro Do Deserto" - 3:08
8. "Misteriosamente" - 2:59
9. "A Travessia": 
Parte I (João Bosco/ Waly Salomão/Antônio Cícero) - 2:14
Parte II - 3:12
Parte III - 7:49
10. "O Mêdo" (João Bosco/Francisco Bosco) - 3:59
11. "Canto Da Wemba" (Canto Afro-cubano do Séc. XIX)/"Gagabirô" - 5:30
Todas as composições de autoria de Joao Bosco, exceto indicadas

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OUÇA:


Daniel Rodrigues



cotidianas #901 - "De Frente pro Crime"

 


Tá lá o corpo estendido no chão
Em vez de rosto, uma foto de um gol
Em vez de reza, uma praga de alguém
E um silêncio servindo de amém

O bar mais perto depressa lotou
Malandro junto com trabalhador
Um homem subiu na mesa do bar
E fez discurso pra vereador

Veio o camelô vender!
Anel, cordão, perfume barato
Baiana pra fazer
Pastel e um bom churrasco de gato

Quatro horas da manhã
Baixou o santo na porta bandeira
E a moçada resolveu
Parar, e então

Tá lá o corpo estendido no chão
Em vez de rosto uma foto de um gol
Em vez de reza uma praga de alguém
E um silêncio servindo de amém

Sem pressa, foi cada um pro seu lado
Pensando numa mulher ou no time
Olhei o corpo no chão e fechei
Minha janela de frente pro crime

Veio o camelô vender!
Anel, cordão, perfume barato
Baiana pra fazer
Pastel e um bom churrasco de gato

Quatro horas da manhã
Baixou o santo na porta bandeira
E a moçada resolveu
Parar, e então

Tá lá o corpo
Estendido no chão

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"De Frente pro Crime"
João Bosco/Aldir Blanc

Ouça: De Frente pro Crime

quinta-feira, 27 de abril de 2023

Elis Regina - "Falso Brilhante" (1976)

 




Ábuns Fundamentais ClyBlog - Elis Regina - Falso Brilhante
"Você não sente, não vê mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo
Que uma nova mudança em breve vai acontecer
O que há algum tempo era novo, jovem
Hoje é antigo
E precisamos todos rejuvenescer"
da letra de "Velha Roupa Colorida"



Acho que ninguém em perfeito juízo discorda de que Elis Regina foi uma das melhores, senão a maior cantora brasileira de todos os tempos. Logicamente, em pleno gozo de minha sanidade, me junto a esse coro quase unânime entre os apreciadores de música neste país. Embora admire seu repertório, é uma artista da qual não domino informações sobre sua obra. Talvez pelo fato de que alguns de seus clássicos  apareçam em maus de um formato, em mais de um álbum, com parceiros diferentes, etc. Tem "Águas de Março", com Tom, sem Tom, ao vivo, no estúdio, alegre, emburrada..; tem "Tiro ao Álvaro", com Adoniram, sem Adoniram, no disco solo, dando risada no do programa de TV; tem "Bêbado e a Equilibrista", bêbada, sóbria, equilibrada, caindo... e nisso, ainda que idolatrando a cada uma dessas versões, cada interpretação, eu sempre tão interessado em datas, set-lists, álbuns,  etc., nunca me esforcei em saber onde se localizavam essas músicas na discografia de Elis Regina.

Só que de uns tempos pra cá, vinha observando a constante referência a um álbum específico e ele, então,  passou a me chamar atenção. "Falso Brilhante" era destacado em sites como um dos melhores discos de Elis, aparecia em listas de melhores discos brasileiros, era mencionado como influência por algum músico da minha preferência, era amplamente reverenciado aqui e acolá, e aí que fui atrás de mais informações sobre o tal disco.

Era o disco de "Fascinação", um dos maiores clássicos do repertório da cantora, numa interpretação inesquecível de uma delicadeza precisa e emocionante. Mas também era o disco de "Como Nossos Pais", o rock de Belchior que tentava dar uma sacudida numa juventude estagnada, e que Elis interpretava com uma força e uma intensidade absurdas. Inigualáveis! Sim era Elis cantando rock! E não era o único: "Velha Roupa Colorida", também  de Belchior, e também sobre atitude, era outra canção carregada de rock'roll e que, igualmente Elis depositava garra, potência, vibração, chegando a rasgar a voz, dando tudo de si, num dos melhores momentos do álbum. Mas há  outros pontos altos: "Gracias a la Vida", de Violeta Parra parece carregar a força da resistência da mulher latina contra os regimes autoritários que prevaleciam aqui e no Chile, terra da autora. Bem como "Los Hermanos", do argentino Atahualpa Yupanqui, uma espécie de convocação à união em nome da mais bela "irmã", a liberdade.

E tem ainda três de João Bosco com Aldir Blanc, "Um por todos", "Jardins de Infância" e "O Cavaleiro e os Moinhos", sempre com a sonoridade rica e aquele tom ácido característico da dupla; e pra fechar ainda, uma versão de arrepiar de "Tatuagem" de Chico Buarque, numa releitura ímpar, na interpretação de Elis.

Alguns afirmam que "Falso Brilhante" seria o disco em Elis que cantava rock, e se formos parar para analisar, não está muito longe da verdade: as duas de Belchior, logo de saída; "Quero", muito Beatles; a releituras de Bosco e Blanc, pungentes e carregadas nas guitarras; e mesmo as duas versões dos hermanos, andinos e platenses, que exploram, combinam e incorporam as alternativas e possibilidades de outros ritmos e nacionalidades, como tão bem costuma fazer o rock'n roll.

Se "Falso Brilhante" é o disco rock de Elis, acho que, possivelmente, deva ser por isso que gosto tanto dele. O brilho verdadeiro de uma estrela. Um diamante cuidadosamente lapidado. Uma verdadeira joia musical.

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FAIXAS:

1. Como Nossos Pais (Belchior)
2. Velha Roupa Colorida (Belchior)
3. Los Hermanos (Atahualpa Yupanqui)
4. Um Por Todos (João Bosco/Aldir Blanc)
5. Fascinação (Fermo Dante Marchetti, Maurice de Féraudy. Versão: Armando Louzada)
6. Jardins De Infância (João Bosco/Aldir Blanc)
7. Quero (Thomas Roth)
8. Gracias A La Vida (Violeta Parra)
9. O Cavaleiro E Os Moinhos (João Bosco/Aldir Blanc)
10. Tatuagem (Chico Buarque)

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Ouça:

Eis Regina - Falso Brilhante (1976)


por Cly Reis

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

Seleção Brasileira - 11 discos nacionais que têm a cara do nosso futebol


A relação do futebol com a música, no Brasil, é algo muito especial e particular. A ginga, o ritmo, a malandragem, a criatividade, a poesia, são compartilhadas por ambos e é como se um se utilizasse das virtudes do outro. Seja pela constituição do povo, pela formação cultural, pela configuração social, por questões comportamentais, por tudo isso, o jogo de bola, popular, democrático, que se pode praticar na rua, num pátio, num terreno qualquer, com qualquer coisa que seja ligeiramente arredondado, é ligado intimamente à musicalidade do brasileiro que pode ser colocada em prática em qualquer lugar ou esfera social, numa mesa, numa lata, numa caixinha de fósforo, no morro numa roda de amigos, ou numa garagem com três caras, duas guitarras e uma bateria.

Nessa época de Copa, pensando nessa íntima ligação, selecionamos alguns discos que tem tudo a ver com esse laço. Quando artistas de música colocaram o futebol de forma significativa dentro de suas obras.

É lógico que teríamos muitos, inúmeros exemplos e possibilidades, aqui, mas ilustramos esse caso de amor futebol & música com 11 discos que têm a cara do futebol. Onze!!! Um para cada posição.

Uma verdadeira Seleção Brasileira.

Dá uma olhada aí:

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"A perfeição é uma meta
defendida pelo goleiro"
da música "Meio de Campo"

Gilberto Gil - "Cidade de Salvador" (1973): Embora tenha feito o tema brasileiro para a Copa do Mundo de 1998, Gilberto Gil não é exatamente um cara de referências tão constantes ao futebol em sua discografia. Tem, lá, o Hino do Bahia, em 1969, no disco ao vivo com Caetano, tem "Abra o Olho", do disco Ao Vivo de 1974, que faz menções a Pelé e Zagallo, mas, em sua obra, o álbum mais relevante nesse sentido e que mais traz referências ao esporte das massas do Brasil, é "Cidade de Salvador", de 1984. Nele temos a faixa "Meio de Campo", que reverenciava o, então jogador, Afonsinho, do Botafogo, jogador atuante, engajado, um dos pioneiros na luta pelo direito ao passe-livre, além da luta própria liberdade pessoal, uma vez que seu clube, na época, o Botafogo, exigia que ele tirasse a barba e cortasse o cabelo comprido, ao que o mesmo resistiu, exigindo a rescisão de contrato.

Como se não bastasse uma música tão relevante sobre um personagem tão simbólico do futebol brasileiro, o álbum ainda trazia a faixa "Tradição", belíssima crônica cotidiana, que, embora não fosse uma música sobre futebol, também citava o jogo, mencionando Lessa, um lendário goleiro do Bahia nos anos 50, segundo a letra, "um goleiro, uma garantia".






João Bosco - "Galos de Briga" (1976): A dupla João Bosco e Aldir Blanc, quando se trata de música com futebol, é que nem Pelé e Garrincha, Romário e Bebeto, Careca e Maradona. Eram craques! Sintonia perfeita. Embora muitas vezes na discografia de Bosco possamos encontrar referências ao futebol, como nas clássicas "Linha de Passse" e "De Frente pro Crime", em "Galos de Briga"; disco combativo, lançado em 1976, meio à ditadura militar, podemos encontrar dois exemplares dessa tabelinha entrosada: "Incompatibilidade de Gênios" e "Gol Anulado", duas brigas de casal repletas de elementos futebolísticos (e duplas interpretações a respeito da ditadura). Na primeira, o homem reclama que a mulher, zangada, ranzinza, sequer quer permitir que ele escute no rádio o jogo do Flamengo ("Dotô/ Jogava o Flamengo, eu queria escutar / Chegou / Mudou de estação, começou a cantar ..."); na outra, um marido descobre por um grito de gol que a esposa, que julgava tão perfeita e exemplar em tudo, não torcia, na verdade, pelo seu mesmo time, o Vasco da Gama ("Quando você gritou mengo /No segundo gol do Zico / Tirei sem pensar o cinto / E bati até cansar / Três anos vivendo juntos / E eu sempre disse contente / Minha preta é uma rainha / Porque não teme o batente / Se garante na cozinha / E ainda é Vasco doente (...)", e compara a sensação da frustração à de um gol anulado ("Eu aprendi que a alegria /De quem está apaixonado / É como a falsa euforia / De um gol anulado").

Blanc e Bosco tem mais um monte de futebolices em sua discografia, mas "Galos de Briga", é um dos trabalhos que melhor simboliza bem esse entrosamento.





Neguinho da Beija-Flor - "É melhor sorrir" (1982): Quando uma música tem o poder de ser adaptada para todos os grandes times de uma cidade e ser cantada por cada uma de suas torcidas num estádio lotado, essa música tem lugar garantido entre as mais significativas do futebol. "O Campeão", conhecida também por "Meu Time", de Neguinho da Beija-Flor, integrante do álbum "É Melhor Sorrir", celebra um dia de futebol, desde a preparação, a espera, a ansiedade, até o momento mágico de torcer e vibrar pelo time do coração dentro do estádio. "Domingo, eu vou ao Maracanã / Vou torcer pro time que sou fã / Vou levar foguetes e bandeira / Não vai ser de brincadeira / Ele vai ser campeão / Não quero cadeira numerada / Vou ficar na arquibancada / Prá sentir mais emoção / Porque meu time bota pra ferver / E o nome dele são vocês que vão dizer / Ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô..........", e aí completa com o nome do seu time. Quem já ouviu isso no Maracanã, só trocando o nome do time no refrão, não tem como não se arrepiar.

O restante das faixas do disco não tem ligação com futebol, mas com uma dessas, que foi oficializada como hino do estádio, que serve para quatro dos maiores clubes do país, normalmente é entoado por milhares de vozes no maior templo do futebol mundial, há motivos mais que suficientes para incluir "É Melhor Sorrir" entre os álbuns importantes na relação música-futebol.





"A defesa é segura
e tem rojão"
da música "Um a Um"

Jackson do Pandeiro - "Jackson do Pandeiro" (1955): Uma das músicas mais marcantes na qual o futebol figura com protagonismo é a clássica "Um a Um", de Jackson do Pandeiro. A letra discorre sobre todas as posições de um time, setores do campo, situações de jogo, xinga o juiz, e exalta entusiasticamente as qualidades e virtudes do time do coração ("O meu clube tem time de primeira / Sua linha atacante é artilheira / A linha média é tal qual uma barreira / O center-forward corre bem na dianteira / A defesa é segura e tem rojão / E o goleiro é igual um paredão (...)  / Mas rapaz uma coisa dessa também tá demais / O juiz ladrão, rapaz! / Eu vi com esses dois olhos que a terra há de comer / Quando ele pegou o rapaz pelo calção / O rapaz ficou sem calção!..."). E, mais atual do que nunca, não aceitando derrota ou empate em hipótese alguma, ainda adverte:  "Se o meu time perder vai ter zum zum zum". E não é assim sempre ainda hoje?





Chico Buarque - Chico Buarque (1984): Chico Buarque, apaixonado por futebol, volta e meio tem alguma coisa relacionada ao esporte mais popular do mundo em seus discos. Um detalhezinho aqui outro ali, um verso, uma metáfora, uma referência... Poderia citar um monte delas aqui, mas escolhemos a música "Pelas Tabelas", do álbum "Chico Buarque", de 1984, por reunir uma série de elementos interessantes como o Maracanã, a torcida, a tabelinha e uma multidão na rua de verde e amarelo que naquele momento, poderia ser pela Seleção ou pelas manifestações pró-diretas, mas que nos últimos tempos se transformou numa imagem de terror de fanáticos conservadores fascistas. Saudades do tempo em que sair na rua de verde e amarelo era só para comemorar vitórias da Seleção ou reivindicar direitos democráticos.

"(...) Quando vi um bocado de gente descendo as favelas/ Achei que era o povo que vinha pedir / A cabeça do homem que olhava as favelas / Minha cabeça rolando no Maracanã / Quando vi a galera aplaudindo de pé as tabelas /Jurei que era ela que vinha chegando / Com minha cabeça já numa baixela / Claro que ninguém se toca com minha aflição / Quando vi todo mundo na rua de blusa amarela / Pensei que era ela puxando um cordão".





Engenheiros do Hawaii - "Várias Variáveis" (1991): Os Engenheiros do Hawaii, banda da capital gaúcha, sempre demonstrou estreita ligação com o futebol. Volta e meia usavam em suas letras expressões referentes ao jogo ("jogam bombas em Nova Iorque / jogam bombas em Moscou / como se jogassem beijos pra torcida / depois de marcar um gol" - "Beijos Pra Torcida" 1986); subiam ao palco, não raro, com camisetas de seus clubes do coração, Gessinger, gremista fanático, coma do Tricolor, é claro; e tinham, até mesmo, em uma de suas músicas, "Anoiteceu em Porto Alegre", uma narração de rádio do gol do título mundial do Grêmio, de 1983. No entanto "Várias Variáveis", de 1991, que não continha especificamente nenhuma música com qualquer menção ao esporte, destaca-se pela capa, que o justifica em estar nessa lista. Nela, entre várias engrenagens, símbolo adotado pelo grupo como marca, preenchidas com ícones pop, símbolos, imagens geográficas, históricas, comerciais, encontramos os escudos dos dois grandes clubes do Rio Grande do Sul, InternacionalGrêmio. Uma capa que dimensiona bem a importância do futebol e a paixão dos gaúchos por seus clubes situando-os entre as coisas mais importantes entre tantos elementos como ideologias, religiões, comportamento, economia, coisas que fazem mexer as engrenagens do mundo. Afinal, como dizem, o futebol é a coisa desimportante mais importante do mundo. Não é mesmo?





Novos Baianos - "Novos Baianos F.C. (1973): O que era aquilo? Uma banda? Uma família? Uma comunidade? Um time de futebol? Tudo isso! Os Novos Baianos meio que inauguraram um novo conceito de grupo musical: moravam juntos, todos colaboravam em tarefas, faziam música e, apaixonados por futebol, batiam uma bolinha. Para isso, montaram dois campos de futebol no sítio onde a banda vivia, na zona leste do Rio, onde, entre uma gravação e outra, jogavam aquela pelada, ou ao contrário, entre uma partidinha e outra, rolava algum som. Um desses momentos de descontração e atividade paralela é captado na capa do disco "Novos Baianos F.C.", de 1973, com a banda "rolando um caroço" no seu campinho em Jacarepaguá. Além do registro da foto, e da extensão (Futebol Clube) não deixa dúvidas quanto à paixão daquela turma pelo jogo de bola, o disco ainda traz a faixa "Só se não for brasileiro nessa hora", que exalta a pelada, o jeito moleque, o gosto por correr atrás da bola: "Que a vida que há no menino atrás da bola / Pára carro, para tudo / Quando já não há tempo / Para apito, para grito / E o menino deixa a vida pela bola / Só se não for brasileiro nessa hora".

"Novos Baianos F.C", de certa forma, resume o espírito do grupo. Um time. Uma equipe entrosada, quase um Carrossel Holandês onde todos se revezavam e executavam mais de uma tarefa dentro de campo. Futebol total. Ou seria música total? 





Pixinguinha - "Som Pixinguinha" (1971) - Uma das primeiras composições alusivas ao futebol foi "1x0" do mestre Pixinguinha. Gravada no final dos anos 1920, a canção instrumental, homenageava o grande feito da conquista do Campeonato Sul-Americano de 1919, numa partida contra o Uruguai, vencida arduamente, depois de duas prorrogações, pelo placar mínimo, 1x0, gol do ídolo da época, Arthur Friedenreich. 

A música até ganhou letra nos anos 1990, do músico Nelson Ângelo, que a regravou então, cantada, em parceria com Chico Buarque, mas nem precisava: instrumentalmente ela, com seu ritmo, fluidez, construção, já consegue transmitir a dinâmica de um jogo, a ginga, a expectativa do torcedor, a movimentação dentro de campo..., tudo!

A canção foi gravada, originalmente, nos anos 1920, saiu em compactos posteriores, em algumas coletâneas, mas o registro que destacamos aqui é o álbum "Som Pixinguinha", de 1971, o último disco gravado pelo mestre do choro, que viria a ser reeditado, anos depois, no Projeto Pixinguinha, rebatizado como "São Pixinguinha". Nada mais justo. Só coisas divinas. Amém, Pixinguinha! Amém!






"O centroavante, o mais importante
Que emocionante, é uma partida de futebol"
da música "Uma partida de futebol"

Skank - "Samba Poconé" (1996): Logo depois que o Brasil ganhou a Copa do Mundo de 1994, o futebol voltou a virar mania nacional. Literalmente, virou moda. As camisetas de clubes, antes restritas às peladas e aos estádios, naquele momento tomavam as ruas. Embora vários artistas manifestassem esse momento, nenhuma banda soube traduzir tão bem esse momento como o Skank. Além dos integrantes se apresentarem, não raro, com camisetas de seus clubes do coração, os grandes de Minas Gerais, Cruzeiro e Atlético, talvez tenham feito a mais empolgante e entusiástica música daquele período e uma das mais marcantes da história da música braseira, sobre futebol. "É Uma Partida de Futebol" transmitia, com rara felicidade às emoções de dentro e fora de campo, com expectativa do jogo, lances de perigo, reação da torcida, tudo com muita alegria e ritmo ("Bola na trave não altera o placar / Bola na área sem ninguém pra cabecear / Bola na rede pra fazer o gol / Quem não sonhou em ser um jogador de futebol? / A bandeira no estádio é um estandarte / A flâmula pendurada na parede do quarto / O distintivo na camisa do uniforme / Que coisa linda é uma partida de futebol (...)"). Sem dúvida, um marco na histórica relação bola-microfone, tão estreita na música brasileira.





"É camisa dez da Seleção
laiá, laiá, laiá!"
da música "Camisa 10

Luiz Américo - "Camisa 10" (1974): É o típico exemplo de artista de uma música só. Luiz Américo gravou a música "Camisa 10" para a Copa do Mundo de 1974, lamentando a ausência de Pelé, que se despedira da Seleção depois da Copa do México em 1970, e questionando as escolhas do técnico Zagallo, campeão na Copa anterior, mas de escolhas bastante duvidosas para o Mundial seguinte. A letra, inteligente, cheia de boas sacadas e trocadilhos com os nomes dos jogadores ("Desculpe seu Zagalo/ Puseram uma palhinha na sua fogueira / E se não fosse a força desse tal Pereira / Comiam um frango assado lá na jaula do leão / Mas não tem nada não!"), acabaria por confirmar os temores dos autores, Hélio Matheus e Luís Vagner, de um time confuso, mal convocado e mal escalado que não convenceu em nenhum momento e acabou eliminado de maneira impiedosa pela Laranja Mecânica de Johan Cruyff.

Lançada em um álbum sem outras alusões a futebol, "Camisa 10", além de ser, com certeza, a maior cornetada musical da discografia nacional, talvez seja a canção mais marcante da tabelinha música-futebol no Brasil.





Jorge Ben - "Ben" (1972)Jorge Benjor, talvez seja o músico com mais referências ao futebol em sua obra. Volta e meia tem! Tem menção a clube, exaltação a craque de verdade, para craque inventado, música por posição, para infração dentro de campo, pra negociação entre clubes... Tem de tudo. "África Brasil" , disco já destacado aqui no ClyBlog, nos nossos ÁLBUNS FUNDAMENTAIS, provavelmente seja o álbum que mais contém referências ao esporte, com uma música cuja letra conta o desejo de um de seus filhos em querer ser jogador de futebol ("Meus filhos, meu tesouro"), uma para o craque Zico ("Camisa 10 da Gávea), e uma para um fictício meia-atacante africano de futebol encantador, "Umbabaraúma, Ponta de Lança Africano". No entanto, a canção de Jorge Benjor mais marcante sobre futebol, é, sem dúvida, uma das mais lembradas no quesito em toda a música brasileira, está no disco "Ben", de 1972. "Fio Maravilha" descreve, quase com a precisão de um locutor esportivo, o lance mágico do atacante Fio, do Flamengo, dos anos 70, em que ele faz, segundo o autor "uma jogada celestial". Jorge Benjor, exímio construtor de imagens musicais, soma à narração do lance, a reação da torcida e o grito de reverencia e agradecimento da massa para o craque, num dos refrões mais populares da música brasileira, "Fio Maravilha / Nós gostamos de você /Fio Maravilha / Fazmais um pr'a gente ver".

Curiosamente, anos depois, Fio acabou processando Jorge Benjor pela utilização de seu nome sem autorização. O próprio Fio desistiu do processo sem sentido até porque, antes da música ele não era ninguém e, pelo contrário, era conhecido, exatamente, por perder muitos gols. Simplesmente, um hino do futebol brasileiro!



por Cly Reis

sexta-feira, 14 de maio de 2021

Aquisições porto-alegrenses

Quem me acompanha nas redes sociais vê que vira e mexe estou escutando alguma coisa “na vitrola”. Embora tenha uma boa coleção, sabe como é, né? Colecionador de discos está sempre de olho em outros para comprar. Não é comum eu ir aos sebos de Porto Alegre (ainda mais agora na pandemia), até por causa dos horários comerciais, durante os quais geralmente estou ocupado, e porque, afinal, acaba sendo mais um gasto. Mas quando surgem boas oportunidades, é impossível resistir. Pois dias atrás, vi uma postagem do antenado e generoso amigo Juarez Fonseca sobre um amigo seu que estaria, em suas palavras, “se desfazendo de sua coleção de discos de vinil. Tem Chico, Caetano, Gil, Milton, Elis, Mercedes Sosa, Jaime Roos, Jimi Hendrix, muita coisa de jazz e raridades da música gaúcha. Uma mina de ouro.” E Juarez arremata o post alertando: “todas as capas estão reproduzidas no Facebook.”

Não deu outra: com tamanha propaganda, fui conferir. O amigo era Raul Boeira, músico, compositor e violonista de Porto Alegre com mais de 50 anos de estrada. E realmente: centenas de ótimos títulos em LPs e todos visivelmente bem cuidados por Raul, que me confessou posteriormente em troca de mensagens fazer cerca de 10 anos que não mais tinha toca-discos e que não havia “razão para esse som todo ficar aprisionado aqui no armário”. Não demorou muito para eu saber que outros dois colecionadores como eu, os também amigos Marcello Campos e Lucio Brancato, já estavam empenhados em alforriar tamanha qualidade musical. Diante do desprendimento e simpatia de Raul – e, claro, do meu desejo – adquiri sete unidades da encarcerada discoteca, os quais descrevo aqui brevemente um a um. Alguns já foram parar direto na vitrola:


“Do Romance ao Galope Nordestino”,
 Quinteto Armorial (1974)

Um dos fenômenos mais originais da história da moderna música brasileira, o Quinteto Armorial representa mais do que música, mas um conceito de brasilidade. Com a benção de Ariano Suassuna, líder intelectual do movimento Armorial, que buscava criar bases brasileiras para todas as formas de arte - entra as quais, a música - a banda que lançou o hoje famoso Antonio Nóbrega, em seu primeiro disco, traz sua sonoridade sui generis que alia clássico medieval e barroco aos sons formativos do Nordeste. E o que é essa capa de Gilvan Samico?! Uma obra-prima por dentro e por fora.



“Nice Guys”,
Art Ensemble of Chicago (1979)
A banda de Lester Bowie, Malachi Favors Maghostut, Joseph Jarman, Roscoe Mitchell e Don Moye num de seus mais celebrados discos. Os inventores do pós-jazz passeiam pelo bop, avant garde, blues, fusion, reggae e art music em sua musicalidade intergaláctica. “É possivelmente o mais representativo álbum da banda, uma vitrine variada que ilustra muito do que eles fazem de melhor”. Isso não sou eu quem digo, mas a Down Beat. Destaque para “Já”, "Folkus" e "Dreaming of the Master" . E a arte caprichada da capa e contra! Impecável como qualquer produto ECM. 



“Lilás”,
Djavan (1984)
Já totalmente inserido no mercado norte-americano, Djavan lançava em grande estilo, com produção gringa caprichada, um de seus discos de maior sucesso lá e aqui no Brasil. Embora tenha recebido certas críticas pelo excesso de elementos eletrônicos à época, o disco, sexto do artista, praticamente repete o antecessor “Luz”, pois é daqueles álbuns de carreira que parecem coletânea: a faixa-título, “Íris”, “Esquinas” e “Infinito” integram o repertório, por exemplo. Suingue, complexidade harmônica, arranjos ricos, vocais grandiosos. Um luxo.




“Jogos de Dança”,
Edu Lobo (1983)
Imagino que quando convidaram Edu Lobo - que já havia coescrito com Chico Buarque para o Balé Guaíra o clássico "O Grande Circo Místico" dois anos antes - uma nova trilha para dança somente instrumental ele, afeito muito mais à música do que ao canto, vibrou com a oportunidade. O resultado é um dos melhores discos da discografia do autor de "Disparada", que antecipa em pelo menos 10 anos o conceito de trilhas que o Grupo Corpo adotaria: artistas nobres da MPB compondo para balé trabalhos especiais e que vão além dos palcos: são música para se ouvir dançando ou parado.




“Tempo Presente”,
 Edu Lobo (1880)
Outro lindo disco de Edu Lobo que consagra sua década mais produtiva, os anos 70. Junto com “Missa Breve”, “Limite das Águas” e “Camaleão”, forma a quadra de álbuns em que o legítimo filho musical de Tom Jobim passeia pelos variados estilos, da bossa nova ao baião, do jazz ao clássico. Parcerias principalmente com Cacaso e Joyce, primor de arranjos, produção caprichada de Sérgio de Carvalho. Edu, assim, em plena fase criativa é ouro em pó.





“Bandalhismo”,
João Bosco (1980)
Dos discos de Boscão da fase com Aldir Blanc que não tinha. Além da arte sempre magistral de Elifas Andreato, que aproveita cortes e dobraduras diferentes, “Bandalhismo” é mais um documento da resistência à ditadura militar e a opressão social que o Brasil vivia como os vários que a dupla compôs nessa época. Abre com a sarcástica “Profissionalismo é Isso Aí”, mas também guarda joias como “Siri Recheado e o Cacete” e “Sai Azar”, que também são deste repertório.





“Atlantis”,
Wayne Shorter (1985)
Único da leva de compras que não tenho conhecimento de como é. Disco dos anos 80 de um dos imortais do jazz, que nunca decepciona. O que se sabe de antemão é que traz ritmos brasileiros e funk em várias faixas em arranjos muito bem elaborados. São 11 músicos em estúdio contando com Shorter revezando numa instrumentação entre o elétrico e o acústico. Boas expectativas.







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+ 2

Além dos LPs que adquiri, generosamente ganhei do próprio Raul Boeira em CD dois de seus discos: “Raul Boeira: Volume 1”, de 2009, e “Cada Qual com Seu Espanto”, dele e de Márcia Barbosa, de 2016. Assim como o Shorter, ainda não tive tempo de soltá-los na vitrola, mas não demorará.



Daniel Rodrigues

terça-feira, 6 de abril de 2021

Jorge Benjor - Largo Glênio Peres - Porto Alegre / RS (out.1997)

 



Salve simpatia! O band-leader Jorge Benjor
anima a festa por onde quer que passe.
(foto do Heineken Concerts -1998)
"Pletora de alegria
Um show de Jorge Benjor
Dentro de nós
É muito, é grande,
É total."
trecho da música "Fora da Ordem", 
de Caetano Veloso



Caetano Veloso tem total razão em comparar um show de Jorge Benjor a um abundância, a um excesso, um fenômeno tão incontido dentro do corpo, que o deixe quase a ponto de explodir de alegria. Um show de Jorge Benjor é um apogeu de alto-astral. Tive a oportunidade de vê-lo ao vivo num evento promovido pela Prefeitura de Porto Alegre, em 1997, numa época em que a administração municipal daquela cidade, ali pelos anos 90 até início dos anos 2000, além de todas as atribuições naturais que concernem a uma prefeitura, como infra-estrutura, segurança, manutenção, etc., zelava também pelo enriquecimento, estímulo e abastecimento cultural de seus cidadãos, promovendo feiras, exposições, concursos e espetáculos musicais gratuitos, como foi o caso deste de Jorge Benjor.

O Largo Glênio Peres, 
lugar onde aconteciam diversas
manifestaões políticas e culturais.
Shows aconteciam em várias partes da cidade, como no Anfiteatro Pôr do Sol, na Usina do Gasômetro, no Parque da Redenção, mas um dos lugares mais tradicionais e por onde também desfilaram nomes como Gilberto Gil, Nei Lisboa, João Bosco, era o Largo Glênio Peres, um grande espaço aberto pavimentado, localizado ao lado do histórico Mercado Público de Porto Alegre. E foi lá que tive a oportunidade de presenciar aquela festa da música e da alegria. Jorge Benjor é um cara que não deixa o ritmo cair, segura a galera lá no alto o tempo todo, sempre na maior empolgação e, com um termo que ele mesmo gosta de usar, na maior simpatia. Era hit em cima de hit, "Mas que Nada", "Cadê Tereza", "Charles Anjo 45", "W Brasil", e a galera não parando de dançar e cantar e sabendo as letra de cor... Modéstia dele quando ele diz que pode não  ser um band-leader pois poucos comandam um palco como ele. Ele puxa um coro, e ele chama nas palmas, comanda a banda e anima uma festa como ninguém. E a coisa pega fogo mesmo quando ele engata aquele medley, já tradicional, com "Taj Mahal", "Fio Maravilha" e "País Tropical". Aí não tem quem fique parado.
Comecei a gostar mesmo de Jorge Benjor depois daquele show e, a partir dali, ele nunca mais saiu da minha vida, ganhando, por sinal, lugar privilegiado na minha galeria de preferidos dentro do rol música brasileira.
Como já diria Caetano, prenhe de razão: um show de Jorge Benjor "é muito, é grande, é total".
O verdadeiro Jorge Maravilha! 



Cly Reis

sábado, 7 de abril de 2018

João Bosco - Teatro do Bourbon Country - Porto Alegre/RS (05/04/2018)



João Bosco se reinventou. Cantor e compositor egresso de um dos períodos mais férteis da MPB - os anos 70 -, João vem modificando seu estilo, sua maneira de cantar e suas composições. Isso ficou muito evidente na noite de quinta-feira no Teatro do Bourbon Country onde um público pequeno pode testemunhar esta transformação. A metamorfose do artista vem acontecendo ao longo dos anos mas se cristalizou com esta formação de guitarra (Ricardo Silveira), baixo e bateria (os gaúchos Guto Wirtii e Kiko Freitas respectivamente). Passeando pelo repertório do novo disco “Mano Que Zuera”, João foi enxertando trechos de clássicos de sua carreira como “Tiro de Misericórdia” e “O Ronco da Cuíca”, brincando com a música de Milton Nascimento (“Clube da Esquina Nº2” e “Lilia”) e de Tom Jobim (“Fotografia”) e apresentando novas parcerias com o filho Francisco Bosco (“Quantos Rios”) e Arnaldo Antunes (“Ultra Leve”).

O interessante é que a mudança está na interpretação. João é um caso único na MPB de hoje. Um artista com faixa própria e que não tem medo de rearranjar suas próprias músicas e de dar espaço generoso aos seus asseclas musicais. Ricardo Silveira é uma fábrica de timbres e climas. Já Guto Wirtii – que teve a primazia de abrir o show com um solo de baixo elétrico – segura a onda do violão magnífico de João e da bateria exuberante de Kiko Freitas. Este merece uma menção especial. Poucas vezes se viu um músico tão completo nos palcos gaúchos. Kiko faz o acompanhamento, sola e emula uma escola de samba num kit de bateria simples. Seus 20 anos de parceria com João se fazem sentir no espetáculo. A simbiose é completa. Meu amigo Norberto Flach – de quem “roubei” a foto que ilustra esta resenha – disse que se sentiu vendo um show de jazz. Eu diria mais: um espetáculo de MPBL, Música Popular Brasileira Livre. Pena que pouca gente viu.



por Paulo Moreira

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Música da Cabeça - Programa #41


O que se faz numa semana em que se comemoram os nascimentos de várias figuras importantes para a música pop, como David Bowie e Elvis Presley? A gente celebra com música, claro! É o que vamos fazer no programa de hoje, às 21h, pela Rádio Elétrica. Do samba-fado de Jorge Mautner ao samba-enredo de João Bosco; do punk-rock de Patti Smith ao pop-rock do Skank. E A gente também repercute o emocionante discurso de Oprah Winfrey na festa do Globo de Ouro no “Música de Fato” e um "Sete-List" que revela a impressionante força de "Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band", dos Beatles, 50 anos depois de seu lançamento. Coisa pra caramba, hein? Ouve lá, então. Produção e apresentação: Daniel Rodrigues.