Me apropriei de um monte de formas vocais deles [os negros] e das linhas melódicas também
- ouvidas, ou mal ouvidas,
ou deturpadas, das canções de blues.
Assim, "I Wanna be Your Dog"
provavelmente é resultado da minha má interpretação
de "Baby Please Don't Go".
Iggy Pop
No embalo do lançamento do material raro dos Stooges, o duplo "Dirty Power", é bom não deixar passar o ensejo sem falar de um álbum verdadeiramente fundamental na história do rock. Estou falando do primeiro do “The Stooges", de 1969, e que leva o mesmo nome da banda que, aliás, proporcionou o aparecimento de Iggy Pop para o mundo do rock.
Disco importantíssimo para a formação do punk e para as gerações seguintes do rock dali para a frente. Com sua sonoridade crua, suja e barulhenta contribuiu grandemente para a identidade sonora daquele momento. Bandas como Velvet Underground, Doors, Television, artistas como David Bowie já vinham trilhando um caminho que levaria ao que se caracterizou depois como o punk rock, mas parece que com os Stooges o passo final da evolução do conceito tinha finalmente acontecido. Provas desta linhagem são os fatos, por exemplo de Iggy ter se estimulado a ter uma banda depois de ter visto um show do Doors, de John Cale ex-integrante do Velvet ter produzido o primeiro disco dos Stooges ou mesmo de Bowie ter sido parceiro e produtor de Iggy depois em carreira solo. Os Stooges traziam o minimalismo, a sujeira, a agressividade que faltava para que a coisa tomasse forma e a partir dali o caminho estava pavimentado para nomes como Ramones, e Sex Pistols aparecerem alguns anos depois.
Mas falando propriamente do disco, o negócio já começa detonando com a grande “1969”, um daqueles clássicos eternos do rock; na seqüência, sem sair de cima, já vem outra das fantásticas, “I Wanna Be Your Dog”, básica, ‘burra’, simples e matadora. Quatro acordes incansavelemente repetidos o tempo inteiro e um piano insistente ao fundo numa nota só. Cru e genial. “No Fun”, que viria a ser gravada depois pelos Pistols, é outra das grandes do disco, igualmente com uma concepção simplérrima e acordes muito básicos; destaque também para “Not Right” e para a excelente “Little Doll” que passa a régua e fecha a conta.
Na época o disco foi praticamente ignorado, vendeu mal até por conta dos problemas que teve antes do lançamento quando já concluído teve que voltar para a mesa de mixagem uma vez que a gravadora desaprovou o resultado da produção de John Cale atrasando o lançamento e então já saindo com um certo descrédito e desconfiança. Como muitas grandes obras, este álbum acabou só sendo reconhecido alguns anos depois de seu lançamento e só então se percebeu o quanto ele havia sido realmente ousado e pioneiro.
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Não sei se já estava sendo divulgado e eu que estava desinformado mas só agora fiquei sabendo do Chemical Music Festival que vai acontecer em abril em Itu, São Paulo, com os Chemical Brothers como principal atração. Eu que já perdi de ver os caras em duas oportunidades, desta vez não vou deixar escapar.
E parece que veio de presente pra mim, pois vai acontecer um dia após meu aniversário, dia 30 de abril.
Outras atraçoes serão os brazucas Life is a Loop, Gui Borato, Leo Janeiro e The Twelves, o uruguaio Gustavo Bravetti e o sueco Christian Smith. Mas o que importa mesmo é ver e ouvir os Bródi que lançaram no ano passado seu último álbum, "Further" e recentemente compuseram a trilha do filme "Hanna"
Bom, agora é providenciar o ingresso que em abril tem Chemical Brothers ao vivo.
Grande expectativa!
CHEMICAL MUSIC FESTIVAL Dia 30 de abril, a partir das 22 horas Local: Arena Maeda, Itu, SãoPaulo Acesso pelo km 78 da Rod. Castelo Branco, sentido interior A apenas 30 minutos de Alphaville.
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Ingressos:
PISTA
Lote promocional R$75,00 - até 9 de abril ou enquanto durar o lote* 2º Lote R$95,00 - até 29 de abril ou enquanto durar o lote* 3º Lote R$115,00 - após o dia 30 de abril e enquanto durar o lote*
PISTA PREMIUM
Lote promocional R$145,00 – até 9 de abril ou enquanto durar o lote* 2° Lote R$185,00- até 29 de abril ou enquanto durar o lote* 3° Lote R$215,00 - após o dia 30 de abril e enquanto durar o lote*
venda aqui no Rio de Janeiro:
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D esde aquela noite percebeu que as coisas não seriam tão simples quanto tinham lhe parecido antes. Para satisfazer seu mais novo hábito não poderia simplesmente vestir-se, virar as costas e ir embora. Não, aquilo sempre exigiria alguma medida mais séria. Só que agora que tinha gostado e sabia que ia querer fazer aquilo de novo.
Tudo começou com uma raspadinha de dentes, com um mordiscada no traseiro do rapaz. Adorava bundas, bundas masculinas, as admirava, as desejava, verdadeiramente as cobiçava. Não como a maioria das mulheres com aquela admiração pouco palpável, ou melhor, até palpável porém pouco objetiva. Sim, porque há de se admitir que a fixação do homem pelo traseiro do sexo oposto tem a objetividade da posição, do domínio, do instinto, da voluptosidade da mulher, e de uma eventual e afortunada penetração por trás, ao passo que a da mulher costumeiramente é mais visual, mais contemplativa e, se tanto, se limita no mais das vezes, a não ser em casos mais extremos de taras, sadomasoquismos ou fetiches específicos, a beliscões, tapinhas, circustanciais lambidas e para as mais ousadas ou íntimas, leves dentadinhas às vezes. Mas ela era diferente. Esta tinha a motivação daquele objeto e normalmente ansiava por um contato mais forte: uma enterrada de unhas nas carnes suculentas, um dedo mais abusado, uma inversão do cachorrinho mesmo sem ter pênis. Ah, se tivesse pênis de vez em quando! O que não faria com aquele macho, ali, de quatro... Não era insatisfeita com sua condição de fêmea. Adorava ser mulher, adorava ser penetrada, possuída pela frente e por trás, como fosse. Submetida conforme sua vontade, é claro, mas a mera perspectiva de proveito prático daquela posição a seduzia. Suas tentativas de ousadias com dedos quase sempre eram repelidas, salvo raras exceções; tapinhas costumavam ser bem entendidos e correspondidos, tirando uma vez que um desses aí interpretou mal, achou que ela gostava de apanhar, abusou um pouco da força o que a obrigou a chamar por socorro, que por sorte veio logo antes que ele conseguisse lhe aplicar outro soco; mas via de regra sua postura propositiva não era muito bem encarada e costumava intimidar alguns parceiros e até mesmo afastar namorados. Por isso ultimamente resolvera maneirar. Limitava-se mesmo aos beliscos e leves abocanhadas até ver em que terreno estava pisando. Foi assim com o rapaz que conhecera naquela noite. Danceteria-beijos-mãos-carro-motel e lá estavam os dois nus começando aquele ritual preliminar longo e molhado. Mamilos-nucas-coxas-barrigas-costas e ela consegue deixá-lo deitado de bruços na cama. De joelhos na cama, leva a cabeça até a altura da bunda do rapaz, abre lentamente a boca soltando um bafo quente e ameaçador que ele não vê, só sente o quente da respiração. Dá então uma raspadinha com os dentes de baixo para cima e uma mordiscada de leve na parte mais rechonchuda daquela bela bunda, à que ele parece reagir com um arrepio. Sem levantar muito a cabeça, ofegante como uma onça, com um aspecto selvagem e mirando o rosto dele pelo espelho, ela então anuncia: - Hoje eu vou comer a sua bunda! Ele sem se abalar, sem abrir os olhos, acha graça da exclamação de desejo tipicamente masculina. Ri da piada. Mas a risada é interrompida por um assustador grito de dor. Salta para o lado levando a mão à nádega esquerda. Olha atônito para a mão: sangue! - Tu é maluca? Tu é maluca? Eu vou te matar, sua vaca! Eu vou te matar! - e em meio à fúria, ainda consegue ficar surpreso ao perceber que ela, inacreditavelmente, está mastigando com prazer e satisfação. Mastigando um pedaço dele. Um naco da sua bunda! - Sua desgraçada! Ó o que tu fez comigo? – e grita, grita mais alto enquanto ela acaba de engolir o pedaço que tirara daquele corpo delicioso. Ela, com a cara praticamente toda suja de sangue, continua olhando para ele com um olhar fixo, parado, felino e ameaçador, como quem já sabe que depois de um ato como este não poderá simplesmente vestir-se virar as costas e ir embora. Então sai da cama, abaixa-se tranquilamente, pega um pé do seu scarpin preto, dá dois passos em direção a ele, que diante daquele avanço ameaçador vê trocar sua fúria matadora de segundos atrás pelo acuamento tal qual o de uma criança indefesa, e crava-lhe o salto do sapato entre o pescoço e o ombro. Ele fica indeciso por um instante entre tentar estender os braços até ela para tentar agarrá-la, ou atender ao sangue que jorra abundante e impiedosamente. Opta, por fim, pela segunda alternativa mas sem efeito. É muito sangue. Perde sangue demais e em pouco tempo lhe faltam totalmente as forças e se esvai o último fio de vida.
Ela então respira fundo, pensa com calma, planeja: aquilo ali é um motel, centenas de pessoas vão lá por dia, se fossem procurar digitais, encontrariam milhares; na boate, no escuro passariam por mais um casal qualquer na noite, na saída não chamariam mais atenção que quaisquer outros; na entrada do motel provavelmente a moça prestara mais atenção ao motorista do que nela. Com sorte não teria chamado muita atenção em nenhuma destas situações. Tratou de recolher qualquer coisa que a identificasse, que pudesse comprometê-la e agora só restava sair dali.
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“HOMEM MORTO EM MOTEL COM MUTILAÇÕES"; ou
“SEXO E BRUTALIDADE EM MOTEL DA CAPITAL”; e ainda,
“HOMEM ENCONTRADO MORTO EM MOTEL SEM PEDAÇO DA NÁDEGA”.
Eram as manchetes principais das páginas policiais dos jornais no dia seguinte. Tudo vago. Em nenhum deles alguma menção mais objetiva à acompanhante. Um dizia “moça bem apresentável”, outro, “mulher não identificada”, outro “garota de programa”, sempre com informações desencontradas quanto ao tipo físico. Parecia que safara-se. O leão-de-chácara da boate dizia ter visto uma morena saindo com o rapaz, a moça da portaria do motel vira uma loira no banco do carona; o flanelinha dizia que era meio coroa; um amigo do rapaz afirmava que não tinha mais de 25; o barman da boate dizia que era bem alta, uma transeunte da madrugada teria visto uma baixinha. A que poderia ser a melhor testemunha, a garçonete do motel que fora chamada no quarto para limpar alguma coisa não conseguira ver ninguém porque a mulher, ou quem quer que fosse, provavelmente estava atrás da porta uma vez que assim que entrara no quarto com a vassoura e o balde, fora golpeada na cabeça e só lembrava de ter acordado horas depois nua. Tinha também um mendigo que a teria visto abandonar um avental e um gorro na rua, estava muito bêbado para se dar crédito para qualquer coisa que dissesse. Bingo! Estava limpa.
Agora aliviada pela impunidade praticamente garantida daquele ato terrível, finalmente conseguia saborear as sensações da noite anterior. O tamanho da sua ousadia, do seu atrevimento, a excitação que aquilo causara. E aquela mordida, daquele jeito, nunca tinha ido tão longe, uma dentadinha vá lá mas cravou-lhe os dentes, tirara um pedaço, e o pior, tinha gostado daquele ato. E a carne, o sangue... E o sabor? Até que não era ruim. Não, não, era bom mesmo. Tinha gostado e sabia que ia querer fazer aquilo de novo.
Sucedeu que começaram a ser encontrados corpos de homens em lugares variados; motéis, casas de praia, de campo, apartamentos, barracos, terrenos baldios; todos eles com um traço em comum: a ausência de pedaço substancioso de nádega. Peritos garantiam que tinham sido arrancados por dentes. Dentes humanos!
A polícia começava a ter pistas daquela curiosa serial-killer e o cerco contra ela se fechava, afinal de contas não era uma profissional, nunca sonhara em ser uma assassina em série - as circunstâncias a fizeram assim - e desta maneira, neófita na prática criminosa cada vez mais cometia erros, deixava traços e tornava-se então uma presa possível e cada vez mais próxima da justiça. Mas não estava exatamente preocupada com isso. Sabia que mais cedo ou mais tarde seria apanhada mas enquanto isso aproveitava o máximo para desenvolver sua tara que agora agregara este caráter assassino.
As autoridades policiais tinham pistas quentes de possíveis locais que frequentava: shopping centers, barzinhos, museus, etc. Tinham a informação de que naquela noite possivelmente estivesse naquela boate badalada da zona sul. Havia pelo menos três detetives à paisana atentos circulando pela boate. Um deles se aproxima do balcão e pergunta ao barman por uma descrição de uma moça, mais ou menos 27 anos, altura média, olhos castanhos, bonita...
- Passa um monte dessas por aqui toda noite, cara! Como é que eu vou saber!
O policial então, meio desapontado, afasta-se do bar e dirige-se ao banheiro meio conformado. Vai dar uma mijada pra planejar uma melhor maneira de encontrar a canibal filha-da-puta.
Enquanto ele se afasta, uma moça bonita de cabelos e olhos castanhos, não muito alta, aproxima-se do bar e dirige-se a um rapaz que está ali parado sozinho tomando uma cerveja:
O site da revista Rolling Stone publicou os melhores álbuns dos anos 90 segundo seus leitores. Boa lista. Alguns bateriam com a minha. Discordo de ter dois Smashing Pumpkins, por exemplo, de incluir o, para mim, ruim "Achtung Baby", o tal Jeff Bucley que não existe, mas no todo é bem pertinente. De incontestável mesmo só a quase unanimidade "Nevermind" do Nirvana que normalemente vai aparecer em primeiro em qualquer lista que se faça daquela década.
Confiram aí a lista dos leitores da Rolling Stone:
4. U2 - "Achtung Baby" 5. Oasis - "(What's the Story) Morning Glory 6. The Smashing Pumpkins - "Siamese Dream" 7. Metallica - "Metallica" ou "Black Album" 8. Jeff Bucley - "Grace" 9. The Smashing Pumpkins - "Mellon Collie and The Infinite Sadness" 10. Guns'n Roses -"Use Tour Illusion I e II"
"Estávamos encurralados numa sufocante imagem de uma banda de motoqueiros machões".
John Kay
O álbum "Steppenwolf" de 1968, da banda de mesmo nome, não é um disco brilhante, fora do comum, excepcional. É um disco bom. Inegavelemente bom. Traz um rock carregado, psicodélico, cheio de influências de blues, country e folk, querendo já ganhar peso, e que se tem algum grande mérito é o de ter antecipado algumas tendências que se aplicariam ao metal futuramente.
Pode-se destacar a ótima "Sookie Sookie" que abre o disco; a versão bacana do blues "Hookie Cochie Man" de Wilie Dixon numa releitura bem interessante; a balada melancólica "Desperation", outra das melhores do ábum; e "The Ostrich" que o encerra num blues bem pegado.
"Sem Destino", road-movie de Dennis Hooper de 1969
Estas canções de destaque, a aceleração do blues, o peso colocado nele e o fato de ter sido influente para a formação de um dos subgêneros mais adorados do rock já seriam o suficiente para enaltecê-lo, mas o que faz desta obra realmente especial e importantíssima na história do rock é o fato de trazer em si um dos maiores clássicos de todos os tempos: "Born to Be Wild", a quinta faixa, é um verdadeiro hino do rock. Uma canção que ganhou dimensões além do âmbito musical para se tornar praticamente um símbolo de liberdade. Muito graças à sua ligação com o filme "Sem Destino" (Easy Rider) , do qual foi tema musical, e que exprimia exatamente esta aspiração de mundo livre, indo ao encontro da cultura hippie em alta na época. Esta associação com o filme, na qual dois motoqueiros cruzam os Estados Unidos soltos na vida, também faz com que a canção tenha se transformado num a espécie de hino dos motociclistas e por extensão quase sempre ligada a velocidade e de motores. O clássico "Born to Be Wild" tem ainda o mérito de ter mencionado o termo 'heavy metal' pela primeira vez, em seu segundo verso, o que viria praticamente a batizar o gênero a partir de então. Se não fosse por qualquer outro motivo, só por conter "Born to Be Wild", este álbum com certeza tem que ser considerado fundamental. ******************************
FAIXAS: 1. Sookie Sookie 2. Everybody's Next One 3. Berry Rides Again 4. Hoochie Coochie Man 5. Born To Be Wild 6. Your Wall's Too High 7. Desperation 8. The Pusher 9. A Girl I Knew 10. Take What You Need 11. The Ostrich ************************* Ouça: Steppenwolf 1968
O som conhecido como metal industrial, por misturar elementos de metal e hardcore com os de música eletrônica, incluindo samples, bases pré-gravadas e ruídos cotidianos da vida moderna, salvo raras exceções era extremamente barulhento e pouco técnico tirando o prazer ou a apreciação de uma audição, ou às vezes, ao contrário, mostrava-se excessivamente mecânico porém pouco pesado, pedindo mais contundência sonora, mais agrassividade. Mas "Broken" , um EP, dos Nine Inch Nails, de 1991, aparecia como um dos poucos que conseguiam encontrar o meio-termo exato do gênero, e com uma mistura perfeita e planejada de barulho, tecnologia e qualidade produzia então uma das melhores obras da categoria.
A própria banda, na pessoa de seu membro-único, Trent Reznor, multi-instrumentista de formação clássica, recém ganhador do Oscar de trilha original por "A Rede Social", havia se aventurado pela floresta de sintetizadores e máquinas em "Pretty Hate Machine", seu álbum de estreia com um resultado bem interessante porém, para mim, carente de 'pegada'. O disco até tinha peso nas entrelinhas, nas letras, nas interpretações vocais, nas batidas altas e aceleradas mas faltava vida, faltavam guitarras, e foi isto principalmente que ele colocou no segundo trabalho; e como o próprio Sr. NIN definiu na época era 'um disco baseado em guitarras'.
Senhores, e elas explodem!
A introdução crescente da vinheta de abertura, 'Pinion", desemboca direto na demolidora "Wish", uma bomba, um petardo destruidor com uma tempestade de guitarras que vem em resposta aos vocais desesperadores de Reznor, até terminar repentinamente com o ouvinte já provavelmente sem ar. Mas a pausa é curta pra se recuperar e "Last" já chega de sola com uma guitarra alta e pesadíssima. A segue a instrumental sufocante "Help Me I'm in Hell", menos pesada mas não menos impressionante com sua atmosfera densa lembrando uma abertura de filme de terror.
"Happyness in Slavery" que vem a seguir, então, quebra tudo de vez! Entra arrebentando um vocal gritado, um 'confronto' de sintetizadores que introduzem para uma base bem eletrônica que lembra muito o disco anterior, mas aqui soando muito mais poderosa ajudada por um eventual baixo distorcidaço que aumenta ainda mais o caos. A música é pesada, a letra a pesada e o vídeo é tão pesado que sua execução pública foi totalmente proibida. Nele, o artista performático, Bob Flanagam aparece se despindo e prende a si próprio numa máquina de torturas que perfura, corta, dilacera seu corpo enquanto seu rosto vai mesclando sensações de dor e prazer. E não é mais ou menos esta a ideia do disco? "Broken" é um misto de deleite musical com uma constante estupefação pela intensidade sonora. Ao mesmo tempo que fica evidente toda a criatividade, técnica e qualidade de Trent Reznor, ele faz questão de nos 'incomodar' com sua estrondosa barulheira.
Depois de "Happyness..." ter deixado quase que apenas destroços, ainda sobra alguma coisa pra "Gave Up" vir com um ritmo alucinado bem hardcore para encerrar a obra.
Não?
Ôpa!
Surpresa! O CD ainda corre silenciosamente até a faixa 98 para nos apresentar mais duas faixas: "Physical", cover interessante de Adam Ant, bem cadenciada mas com bom peso; e "Suck", versão bem eletrônica com levada bem quebrada para a música do Pig Face, banda do excelente batarista Martin Atkins, ex- PIL, que a propósito, empresta sua qualidade, fúria e técnica à excelente "Wish" e à acelerada "Gave Up".
A linguagem de "Broken" daria rumo ao, também, ótimo trabalho posterior, "The Downward Spiral", que é assunto pra outra hora, mas por si só, este EP representa um dos marcos do gênero industrial, um dos divisores de águas da estilo e um dos melhores discos dos anos 90.
Pela evolução sonora da proposta do próprio Nine Inch Nails e pelo resultado alcançado até mesmo no âmbito geral da categoria metal-industrial na qual é importantíssimo, "Broken", mesmo sendo um EP não podia ficar de fora aqui dos Álbuns Fundamentais.
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FAIXAS: 1."Pinion" – 1:02 2."Wish" – 3:46 3."Last" – 4:44 4."Help Me I Am in Hell" – 1:56 5."Happiness in Slavery" – 5:21 6."Gave Up" – 4:08 . . . 98."Physical" (Adam Ant) – 5:29 * 99."Suck" (Martin Atkins, Paul Barker, Trent Reznor, Bill Rieflin) – 5:07 *
todas as músicas compostas por Trent Reznor, exceto as indicadas todas as músicas tocadas integralmente por Trent Reznor, exceto faixas 2 e 6 com bateria de Martin Atkins e Cris Vrenna *não estão listadas na relação original do EP ***********************
Ouça: Nine Inch Nails Broken
Saiu há pouco por aí um material bem legal dos Stooges, banda precursora do punk, responsável sobremaneira pelo surgimento do lendário Iggy Pop para o cenário musical, lá pelos idos de 1969.
Trata-se de "Dirty Power", CD duplo reunindo demos, matariais 'perdidos', renegados, versões alternativas, remixagens, etc. contando inclusive com faixas inéditas desprezadas pela CBS depois do fracasso comercial de "Raw Power" e da demissão da banda.
As novas mixagens são de músicas da carreira solo de Iggy, dos discos "Lust for Life" e "The Idiot" e valem mesmo pela curiosidade já que, na minha opinião não acrescentam às brilhantes produções originais de David Bowie.
Lançamento bem bacana com registros raros e interessantíssimos. Legal para fãs de carteirinha ou mesmo para curiosos que tenham interesse em conhecer uma das bandas mais importantes e influentes da história do rock.
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FAIXAS: • Volume 1 1. Tight Pants 2. Scene Of The Crime 3. I´m Sick Of You 4. I Got A Right 5. Gimme Some Skin 6. Cock In My Pocket 7. Rubber Legs 8. Head On 9. Wild Love 10. Open Up And Bleed 11. Till The End Of The Night 12. Jesus Loves The Stooges
• Volume 2 1. Search And Destroy 2. Gimme Danger 3. Raw Power 4. Death Trip 5. I Need Somebody 6. I Wanna Be Your Dog (fast Version) 7. Lust For Life 8. The Passenger 9. China Girl 10. Dum Dum Boys 11. Baby 12. Sister Midnight
Há Uma Luz Que Nunca Se Apaga Me leva para sair esta noite Onde tenha música e gente jovem e viva Dirigindo no teu carro Eu nunca mais quero ir para casa Porque eu não tenho mais uma casa
Me leva para sair esta noite Porque quero ver gente E eu quero ver luzes Dirigindo no teu carro Oh, por favor não me deixa em casa Porque esta não é minha casa Esta é a casa deles E eu não sou mais bem-vindo
E se um ônibus de dois andares Batesse em nós Morrer ao teu lado Que jeito divino de morrer E se um caminhão de dez toneladas Nos matasse a ambos Morrer ao teu lado Bom, o prazer e o privilégio seriam meus
Me leva para sair esta noite Ai, me leve para qualquer lugar Eu não me importo, não me importo E num túnel escuro Eu pensei "Meu Deus, minha chance finalmente chegou" Mas então um medo estranho me tomou E eu simplesmente não pude pedir
Me leva para sair esta noite Me leva para qualquer lugar Eu não ligo, eu não ligo, eu não ligo Simplesmente dirigindo no seu carro Eu nunca mais quero ir para casa Porque não tenho mais uma casa Oh, eu não tenho mais
Há uma luz que nunca se apaga Há uma luz que nunca se apaga...
*************************** trad. de "There's a Light that Never Goes Out"~ (Morrissey/Marr)
"Aquele que tem entendimento, calcule o número da besta; porque é um número do homem, e o seu número é seiscentos e sessenta e seis"
Apocalipse (12:12) e (13:18).
Particularmente, devo admitir, que não sou um grande fã do Iron Maiden. Prefiro antes os que foram fundamentais para que eles existissem, como Led, Purple e Sabbath, e os que não existiriam se não fossem eles, como Metallica, Sepultura, Anthrax, etc., mas não há como não reconhecer que trata-se de uma das bandas mais importantes da história do rock e decisiva na consolidação de um gênero do qual eles são praticamente sinônimo: o heavy-metal.
Às vésperas de um retorno ao Brasil para uma nova série de apresentações, agora em março, aproveito para incluir aqui nos A.F. um disco frequentemente apontado pelos fãs, senão efetivamente como o melhor, mas como um dos mais importantes e significativos na carreira da banda e na formação do metal: "The Number of the Beast" de 1982, além do grande sucesso comercial optido na época e de crítica desde lá, é o primeiro com Bruce Dickinson nos vocais e por isso, já, um marco. Cantor que enfrentou uma certa resistência logo de início ao substituir o carismático porém barra-pesada Paul Di'Anno, Dickinson não apenas consquistou o respeito dos fãs como acabou por tornar-se um ídolo e um símbolo da banda, imprimindo com personalidade sua característica vocal que se tornaria marcante e singular.
Mas voltando ao disco, destaques para a faixa-título, particularmente minha favorita e centro de polêmica em torno de um suposto satanismo, a ótima "The Number of the Beast"; e para a clássica "Run to the Hills" com sua levada galopante acelerada e incansável.
Clássico do metal! Clássico do rock!
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Se Dickinson se tornou um dos símbolos da banda e seu tipo de interpretação uma marca, outro dos elementos que se tornaria ao longo do tempo uma assinatura seria o mascote Eddie. É impossível falar de Iron Maiden sem mencionar Eddie The Head. O caveirão que aparece desde o início nas capas dos álbuns constitui uma espécie de identidade visual do grupo, basta ver aquela caveirinha e sabemos que ali tem Iron Maiden. No início era penas uma cabeça, ao longo do tempo ganhou corpo, assumiu várias formas e nos últimos tempos 'participa' inclusive dos shows na forma de bonecos gigantes.
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FAIXAS:
"Invaders" (Harris) 3:22
"Children of the Damned" (Harris) 4:33
"The Prisoner" (Harris/Smith) 6:00
"22 Acacia Avenue" (Harris/Smith) 6:34
"The Number of the Beast" (Harris) 4:49
"Run to the Hills" (Harris) 3:50
"Gangland" (Smith/Burr) 3:47
"Total Eclipse" (Harris/Murray/Burr) 4:28*
"Hallowed Be Thy Name" (Harris) 7:10
* o disco saiu originalmente com 8 faixas e "Total Eclipse" só foi incluída em edições posteriores.
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Integrantes em 1982
Bruce Dickinson - vocal Steve Harris - baixo Dave Murray - guitarra Adrian Smith - guitarra Clive Burr - bateria ****************** Ouça: Iron Maiden The Number of The Beast
“Um heavy-samba que misturava os mestres da MPB com os sons internacionais resultou num dos melhores discos da história da música pop nacional.”
Nelson Motta
Era só um grupo de hippies doidões que, na utopia de viver em uma comunidade de “paz e amor”, saiu em bando da Bahia para se socar em um sítio em Vargem Grande, no Rio de Janeiro, estado onde a indústria fonográfica de fato acontecia naquele início de anos 70. Almejavam ganhar a vida tendo como inspiração seus ídolos do rock: Jimi Hendrix, Janis Joplin, Beatles, Mama’s & The Papa’s e por aí vai.
Num Brasil tricampeão de futebol e em plena ditadura de AI-5, os “heróis da resistência” e também baianos Gilberto Gil e Caetano Veloso recém voltavam do exílio em Londres. Os festivais, sufocados, já não tinham a mesma efervescência político-cultural. Nas rádios, o predomínio do pop mezzo-caipira mezzo-brega mezzo-romântica (ou seja: para tentar agradar a todo mundo) da dupla Antonio Carlos & Jocafi não desagradava aos militares, e isso era o que importava. O movimento hippie, assim como qualquer outra manifestação artística e cultural, não tinha a menor voz naquele cenário (a ver a repressão ao tropicalismo). Ou seja: aquela turma estava fadada a cair no esquecimento.
Até que um dia, ainda morando na cidade, aparece na porta do apartamento da galera um senhor sério de terno e gravata. Era a “cana”? O cheiro do baseado tinha incomodado tanto assim os vizinhos? Depois de muito se amontoarem para espiar pelo olho-mágico, perceberam de quem se tratava: era simplesmente o Brasil que lhes batia à porta. Ah! O outro nome do Brasil é João Gilberto, caso não saibam. E a turma de ripongos – formada por Baby Consuelo (vocal, percussão), Paulinho Boca de Cantor (vocal, percussão), Pepeu Gomes (guitarra, violão solo, craviola, arranjos), Dadi (baixo), Jorginho (bateria, bongô, cavaquinho), Baixinho (percussão e baixo), Bolacha (bongô) e liderada por Moraes Moreira (vocal, violão base, arranjos) e Luiz Galvão (composições) – era a banda Novos Baianos.
Formado ainda em Salvador, em 1968, os Novos Baianos lançariam um ano depois seu disco de estreia, “Ferro na Boneca” que, embora o relativo sucesso comercial, não podia ser repetido para um segundo trabalho. A fórmula roqueira já não condizia com o que a mídia e nem os próprios músicos ansiavam. Eram talentosíssimos: Moraes e Galvão, criativos compositores; Pepeu, o primeiro virtuose da guitarra brasileiro; Baby, uma intérprete irreverente e moderna; Dadi, um baixista de mão cheia. Mas sentiam que precisavam de sangue novo.
Foi então que, naquela aparição divina, o “velho baiano” trouxe-lhes o dendê que faltava na receita. A bossa nova, que o João Gilberto ajudara a cunhar em 1958 com Tom Jobim e Vinícius de Moraes, além de modernizar o samba, diminuindo seu compasso e adicionando toques do cool jazz americano, tinha impregnada na sua estrutura melódica e harmônica toda a tradição do samba, do maxixe aos standards da Rádio Nacional. Quer dizer: o exemplo da bossa de João Gilberto vai além da música: é o reconhecimento de um Brasil etiologicamente desenvolvido enquanto força artística. E os Novos Baianos captaram isso. Com o talento e experiência que tinham, em 1972, eles entraram no estúdio da Som Livre sob o comando de Eustáquio Sena para criar o disco que hoje é um dos mais importantes da música popular brasileira: “Acabou Chorare”.
A veia brasileira já diz a que veio de cara, abrindo o disco com “Brasil Pandeiro” numa versão histórica do samba de Assis Valente (composição de 1940, imortalizada na voz de Carmen Miranda) incluída no repertório por indicação de João Gilberto. Ali já estava tudo pelo o que a banda passou a ser reconhecida a partir de então: a fusão incrivelmente harmoniosa e orgânica do regional e do universal, onde tudo é samba ao mesmo tempo em que é rock, que é baião, que é frevo, que é pop. E com rebeldia, bom humor e pegada!
Em seguida, talvez grande obra-prima dos Novos Baianos enquanto conjunto: “Preta Pretinha”. Uma balada de mais de seis minutos que inicia apenas com voz e violões brejeiros, e que vem num crescendo aonde os outros elementos da banda vão sendo adicionados aos poucos até um final emocionante em que todos brilham. Aliás, esta é uma das características do disco: ser extremamente bem executado, a ver a bela instrumental "Um Bilhete Pra Didi", de pura técnica e inúmeras referências melódicas que vão de Hendrix a Jacob do Bandolim.
Há "Mistério do Planeta", "A Menina Dança" e “Tinindo Trincando”, canções pop com levada de MPB e um trabalho de guitarra excepcional de Pepeu Gomes. Mas é mesmo a raiz afro-brasileira que dá o tom: em "Swing de Campo Grande" (“Minha carne é de carnaval/ Meu coração é igual”) e “Besta é Tu” a galera chama no pé! Esta última, claramente surgida de um momento de discussão que acabou dando samba.
A ligação com as raízes do Brasil, que João Gilberto tão bem traduziu na bossa nova na sua inaugural batida de violão e seu modo econômico mas completo de cantar, entraram na música dos Novos Baianos de forma consistente e definitiva. Mas não com exageros. E esta releitura inteligente do moderno e do antigo fez com que “Acabou Chorare” se alinhasse ao tropicalismo, tão carente de um novo gás naquele instante. “Nós vimos o tropicalismo de Gil e Caetano e acreditamos que era possível criar algo novo”, disse Galvão certa vez.
O fato é que esta obra abriu portas para que bandas como Paralamas do Sucesso, Pato Fu, Rappa e Skank tenham hoje terreno para misturar o pop que vem de fora com ritmos brasileiros sem que se lhes torçam a cara por isso. Com justiça, “Acabou Chorare” é considerado discoteca básica essencial, tanto que consta como primeiríssimo da lista dos 100 discos fundamentais da música brasileira pela revista Rolling Stone.
Mas falta falar ainda da verdadeira pérola do disco: a faixa-título. Se em “Preta Pretinha” o talento de todos é chamado em cena, na faixa “Acabou Chorare” são apenas os violões de Moraes e Pepeu que brilham. E isso basta. Bossa nova total, esta delicada canção de ninar, além da linda melodia (e o rico solo de Pepeu ao final), traz na letra uma novidade na música brasileira enquanto estilo. Antes mesmo de grandes obras musicais para crianças como “A Arca de Noé” de Vinícius ou “Os Saltimbancos” de Chico Buarque, ela versa palavras do imaginário lúdico infantil com uma pureza e inocência que suscitam imagens incomuns e até surreais. Neologismos, palavras que se encadeiam pela sonoridade, frases “sem sentido”. Afinal, quem não há de se emocionar com os singelos versos que dizem que a abelhinha “Faz zunzum e mel”, ou que ela “Tomou meu coração e sentou/ Na minha mão”?
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“Acabou Chorare” têm como “musa” a filha de João Gilberto, a hoje internacionalmente conhecida Bebel Gilberto, com 6 anos na época. A coisa toda surgiu do convívio dos dois com a banda. O título, algo como “parou o choro”, era dito por Bebel e vem da confusão que ela fazia entre os idiomas português, espanhol e inglês por conta dos períodos de residência no México e EUA, além do Brasil.
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Foi João Gilberto também quem, um dia, sentado na rua ao lado de Moraes e Galvão, ao ver uma linda mulata passar caminhando com “seus requebros e maneiras”, disse aos dois a frase que inspirou a música Moraes, gravada em 1979: “olha lá, gente: lá vem o Brasil descendo a ladeira!”
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FAIXAS: 1. "Brasil Pandeiro" (Assis Valente) 2. "Preta Pretinha" (Luiz Galvão / Moraes Moreira) 3. "Tinindo Trincando" (L. Galvão / M. Moreira) 4. "Swing de Campo Grande" (Paulinho Boca de Cantor / L. Galvão / M. Moreira) 5. "Acabou Chorare" (L. Galvão / M. Moreira) 6. "Mistério do Planeta" (L. Galvão / M. Moreira) 7. "A Menina Dança" (L. Galvão / M. Moreira) 8. "Besta é Tu" (L. Galvão / Pepeu Gomes / M. Moreira) 9. "Um Bilhete Pra Didi" (Jorginho Gomes) 10. "Preta Pretinha (reprise)" (L. Galvão / M. Moreira)
Começou com o jornal que forrava o armário. Lia uma manchete, uma notinha, às vezes se impressionava com uma notícia de anteontem, se surpreendia com uma informação da semana passada e, ali, no banheiro enquanto cumpria aquela necessidade fisiológica, atualizava sua desatualização.
Uma cagada! Ah, só um homem sabe o quanto é importante uma boa cagada, pensava ele. Pra uma mulher era só uma necessidade, de preferência dispensável; era entrar ali fazer e sair. Pra um homem não: aquilo era praticamente um evento. Era um momento de concentração, de serenidade, de introspecção até, de tranquilidade. Era o seu momento, pensava enquanto lia uma bula qualquer sentado no vaso.
Visto que normalmente permanecia pelo menos uns 15 minutos ali, na casinha-de-força, achou por bem aproveitar melhor aquele tempo desperdiçado e, sempre antes de entrar, pegava na sala uma revista. No mais das vezes lia coisas sem interesse: atriz casou com empresário, apresentadora espera segundo filho, dicas para fazer sua parceira ir às nuvens, e coisas do tipo, mas como aquilo o distraía resolveu colocar um pequeno revisteiro ali no banheiro. Mas em pouco tempo encheu-se daquele monte de futilidades das revistas e resolveu tornar sua estada, costumeiramente longa no banheiro, ainda mais proveitosa e passou a carregar livros. No início levava os de contos ou poesias, uma vez que um conto ou poesia equivaliam em tempo a, mais ou menos, uma cagada, e assim, conseguia terminar a leitura. Porém logo encorajou-se e passou, mesmo, a romances. De início os curtos, assim de umas 100 páginas no máximo, que poderia ler em umas duas sentadas. Isso quando não se empolgava com a leitura e prolongava o processo até terminar a curta obra.
Em nome da conclusão de partes, depois de capítulos, depois das obras, começou então a permanecer demasiado no quarto-de-banho, o que que por sua vez já começava a incomodar à mulher que para qualquer coisa tinha que ir chamá-lo naquele lugar.
Contudo, ele sentia-se cada vez mais à vontade lá. Quieto, tranquilo, arriscaria dizer, até mesmo feliz, por quê não? Chegava em frente à estante de livros, percorria com os olhos, escolhia um que não tivesse lido, dirigia-se ao banheiro, entrava, fechava a porta, baixava as calças, sentava-se na privada, deixava-se ir na leitura enquanto dava aquele barro. Na maioria das vezes acabava de fazer o troço há muito, mas permanecia lá até acabar a leitura. Nem percebia o tempo passar.
Certo dia a esposa o vira passar por ela com "Os Irmãos Karamazov" debaixo do braço. Dirigiu-se ao banheiro, entrou e antes de fechar a porta ainda gritou, "amor, tô no banheiro, se me ligarem diz que eu retorno depois", e ela percebeu que não poderia contar com ele pra nada naquela manhã. Aliás não conseguia contar com ele para quase mais nada! Estava sempre socado naquele lugar maldito. Não entendia aquilo.
Mas não engane-se quem pensa que não podia contar com o marido nem para abastecer a casa. Quanto a ganhar a vida, sempre trabalhara em casa mesmo como consultor financeiro e tinha seu escritório em casa, mesmo antes de adquirir aquele hábito. O que mudou com a nova mania foi que começou a levar o laptop para o WC também e, nos últimos tempos, já emendava leituras ao trabalho.
Como que já estivesse consagrado o costume, mandou fazer uma espécie de escrivaninha com rodinhas para apoiar o computador portátil. Hoje praticamente só sai daquele banheiro pra jantar (quando sai). As vezes aproveita a própria escrivaninha móvel e come nela mesmo.
Paralelamente ao trabalho, vem desenvolvendo o projeto de um livro sobre o dinheiro através dos tempos na literatura. Não para de escrever. Só às vezes, nos intervalos, para ler um daqueles muitos livros que estão ali no chão. Uma pilha de clássicos ao lado do vaso sanitário.
Ziriguidum-terecoteco! Ziriguidum-ziriguidum-terecoteco! Aí, galera, é carnaval e Eu já tô no clima. Já estamos todos sob o reinado de Momo, portanto não Me encham o saco por estes dias porque Eu não tenho responsabilidade nenhuma pelo que acontecer até quarta-feira. É tudo com ele. ****************** Por falar em governo, os ditadores tão caindo que nem moscas ali pelo oriente-médio, hein! Já caiu o 'faraó' Mubarak, querem a cabeça do da Tunísia, do seu Bahrein, agora querem o tal do Kadaffi... Se a moda pega do povo derrubar quem tá a muito tempo no poder, é bom Eu me cuidar. Se bem que Eu não sou exatamente um ditador (ou sou?). Só gosto que tudo seja exatamente como eu quero e não largo esse trono aqui de jeito nenhum. ****************** E sobre 'majestades', o tal do Imperador não toma jeito, mesmo! Dirige bêbado, falta a treino, não se apresenta... Eu já disse que dei todas as chances pro cara. O pior é que quando esses caras são pequenos ficam lá rezando, pedindo pra sair da favela, ser alguém na vida, ter dinheiro e blablablá, aí o Trouxa aqui consegue isso pro cidadão e o fulano só Me faz merda na vida. Pô, aê, cansei. Dá teu jeito agora. ***************** Ainda sobre futebol, fiquei sabendo que o Fenômeno parou. Putz! Esse Eu fiz jogar pra cacete. Pra esse e o pro Baixinho Eu dei o 'dom da grande área'. Se bem que o Romário andou dizendo, uma época aí, que os outros até podiam ser Reis do Rio mas que Deus só existia um. Quero crer que não estivesse se referindo a ele mesmo. ***************** Aliás, o Romário Eu soube também que está em carreira parlamentar, é verdade? Mas vocês, hein! Depois vem me 'chorar as pitanga' que no congresso só tem ladrão, que não votam tal projeto, que não aprovam isso ou aquilo, que não tem quórum... Também, vocês elegem cada um! E esse nem é o pior: Eu soube também que vocês elegeram o Tiririca. Tão de brincadeira. Quando Me falaram Eu não acreditei. Acho que Eu mesmo vou parar o mundo pra Eu descer. ***************** Não é só isso que Me faz querer descer do Meu Mundo, eu soube também que a Sandy tá fazendo uma campanha sensual, aí, pr'uma cerveja. Tipo, uma devassa e tal, né? É sério? 'Cês devem tá de pilha pra cima de Mim! Eu boto tanta mulher gostosa no mundo, umas verdadeira potranca exalando sexo pelos poros e os caras Me põe a Sandy como devassa? A loirinha piranha aquela que fez no ano passado tava melhor. Não tem lá muita carne mas (a Patroa que não me leia) até que dá pra dar uns 'tirinhos'. Mas essa garota, a outra metade do Júnior, é tão devassa quanto um pacote de bolacha, um pneu velho, um lápis... Hmmm! Acho que tô ficando excitado. ***************** A propósito de coisas fora do lugar, acho que vocês querem Me deixar louco: a Dona Encrenca aqui tava vendo a novela esses dias e eu vi que o Lázaro Ramos tá de galã da novela. Como é que é? Devem estar de sacanagem comigo! Cara, talento Eu dei muito pr'aquele cara - até acima da média, por sinal -, mas eu lembro que quando foi pra passar na fila da beleza, aqui em cima, antes de nascer, ele tava com tanta pressa e nem quis entrar. Pra vocês verem... ****************** E ainda sobre TV, Eu fiquei impressionado de saber que vocês aí tão assitindo a mais um Big Brother! Se Eu que tenho o recurso de ficar vendo vocês aqui o tempo inteiro já não aguento isso, não sei como é que vocês suportam 11 edições daquele troço. E uns pagam pay-per-view pra isso! Mas... gosto é gosto. A culpa é Minha. Eu que fiz vocês assim. ****************** Bom, vou meter o pé. Cair fora. Ralar peito. Como Eu sei que o tal do Momo só quer o governo provisório pra folia, dos assuntos sérios quem tem que cuidar sou Eu. Fui, então. *****************
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