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domingo, 28 de agosto de 2011

Prince - "Sign O' the Times" (1987)


"Sinal dos Tempos"



Sou assumidamente do time dos que preferem Prince a Michael Jackson . Já ouvi de alguns que a comparação é sem fundamento e que são coisas diferentes, mas só não enxerga quem não quer que trata-se absolutamente da mesma matéria só que com roupagens diferentes. Ao passo que Michael aproximou muito seu trabalho do grande público, criou uma imagem pública forte e coreografias impressionantes a ponto de ser coroado o Rei do Pop, Prince, muito mais MÚSICO que o ele mas que não dança lá tão bem assim, explorava a cada disco todas as possibilidades que a música negra lhe concedia e fazia isso sozinho (literalmente), enquanto, Michael, admitamos, provavelmente nunca teria deixado de ser apenas o caçula dos Jackson 5 se não fosse o verdadeiro gênio Quincy Jones lhe mostrar os caminhos.
Prince já que aparecera como uma das grandes promessas da música pop no final dos anos 70 vinha evoluindo com seu trabalho e a cada disco mostrava-se mais competente. Já havia nos apresentado o ótimo "1999", o bom "Parade",a consagrada trilha de "Purple Rain" e agora, com "Sign O' the Times" de 1987, parecia que chegava a uma espécie de auge profissional com um disco que explorava a black-music praticamente de cabo a rabo e com todas as possibilidades e técnicas possíveis até então. Prince então concebia o disco, compunha-o todo, arranjava-o, produzia e tocava todos os instrumentos de uma obra que levava sua assinatura integralmente.
A genial faixa-título que abre o disco construída (ou descontruída) a partir de uma base eletrônica e vocal rap é absolutamente moderna e minimalista em sua composição com uma letra inteligente e irônica.
"Housequake", com sua bateria alta e pesada, é um funkão daqueles dignos dos mestres do gênero; e em "The Ballad of Dorothy Parker" Prince desfila um vocal primoroso sobre uma base de percussão eletrônica extremamente bem composta.
A ótima "It", também minimalista, com sua batida invariável e contínua, com teclados e efeitos pontuais, é sexy, luxuriante e... fora de série. "Starfish and Cofee", um gospel simplezinho, é bem música negra americana de rua, daquelas de cantar em grupo na esquina ao lado de um tonel com fogo, sabe? Já "Slow Love" uma balada apaixonante, e uma das minhas preferidas, faz bem o estilo soul-man romântico dos anos 50 com um vocal 'derretido' do baixinho e um recheio muito legal de metais.
Até nas aparentemente simples como "Hot Thing", outro funkão foda, com sua estrutura básica porém cheia de variações e inserções de elementos ou na interessante "Forever in My Life" que é só vocal (e que vocal) sobre uma base rigorosamente repetida, sempre aparece nitidamente a qualidade superior do trabalho.
Pra não dizer que tudo é assim espetacular, músicas como "Play in the Sunshine", "U Got the Look", "Strange Realtionship", "I Could Nevet Take..." não passm de boas canções pop, mas ainda assim cheias de soul, de funk, de rythm'n blues e muito melhores do que a maioria das 'canções pop' que rolam por aí.
Ainda deve-se destacar a crescente "The Cross", talvez a mais rock do disco, com o melhor da guitarra de Prince; a verdadeira 'festa' que é "It's Gonna Be a Beautifull Night", um funk longo carregado e cheio de embalo, tirado de uma gravação ao vivo; e a lentinha adorável "Adore" que faz as honras de despedida do álbum.
Disco pra se ficar boquiaberto da primeira à última. Impecável em cada detalhe. Prince chegara possivelmente a um álbum perfeito. Ele amadurecera, progredira, evoluíra. Era o sinal dos tempos! E eles anunciavam Prince como o verdadeiro gênio da música pop negra americana.

FAIXAS:
01. Sign O’ The Times
02. Play In The Sunshine
03. Housequake
04. The Ballad Of Dorothy Parker
05. It
06. Starfish And Coffee
07. Slow Love
08. Hot Thing
09. Forever In My Life
10. U Got The Look
11. If I Was Your Girlfriend
12. Strange Relationship
13. I Could Never Take The Place Of Your Man
14. The Cross
15. It’s Gonna Be A Beautiful Night
16. Adore


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Baixe e ouça:
Prince Sign O the Times

sábado, 27 de agosto de 2011

Prince furou!



Que feio, Prince!
Certamente deixando
muitos fãs roxos de raiva
E não é que o anãozinho de Minneapolis deu uma de Tim Maia? Furou, deu cano, deu cachorro!
Soube ontem e fiquei extremamente surpreso. Lamentável. Simplesmente acabou com o Festival. Não que não tenha boas atrações, mas convenhamos que um PRINCE, é de outro nível. E o pior de tudo é que não deu nem satisfação alguma sobre o motivo. Muita filhadaputice, hein! Tão em cima da hora e sem explicações.O resultado, certamente será um bocado de decepção por parte dos fãs e um certo prejuízo aos organizadores. Com a desistência, a grande atração passa a ser a americana Macy Gray que agora, mais do que nunca, vai ter que se virar para segurar a peteca.
Prince com essa, cai um pouco no meu conceito no que diz respeito a caráter, mas ainda goza plenamente dele como músico. Um dos grandes gênios da música dos últimos tempos pena que faça dessas.


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O Festival Back2Black acontece na estação Leopoldina, aqui no Rio e hoje tem:


no palco Oi Estação
Oumou Sangaré e Chaka Kahn;

no Palco Grande
(substituindo Prince)
Jorge Benjor;


no Palco Circo
Eduardo Christoph com Diogo Reis, e Badenov;

e no palco Petrobrás
Moreno Veloso com Domenico

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

COTIDIANAS ESPECIAL nº100 - O Galho da Goiabeira


Uma vez ouvi de minha mãe esta história sobre uma amiga dela. Uma vez, não, minto: umas três ou quatro. Mas a primeira foi a que valeu mesmo; as outras apenas reafirmaram e adensaram meu assombro por aquele triste causo da pequena Odete, ocorrido há bastante tempo, lá para fora, bandas do interior, zona rural. E essa estreia foi tão marcante aos meus ouvidos que justifica, no agora, este meu depoimento.
Além de Odete, a outra personagem desse conto é sua arborizada e generosa amiga goiabeira. Não lhe dedicaram nenhum nome. Era apenas “a árvore”, porém parecia assim gostar de ser chamada. Mas amiga é modo de dizer: a árvore era simplesmente a MELHOR amiga de Odete nos tempos de criança, ali pelos seus oito, nove anos. Tão querida que recebia de galhos abertos a ela e a turma toda de irmãos e coleguinhas nos ensolarados e gelados finais de tarde da Campanha. Saíam da aula e tinham rumo certo. Empoleiravam-se com aquela agilidade feliz de criança, e mal se acomodavam nos galhos e já iam sacando as frutas. Comiam que dava gosto de ver em meio àquela gritaria aguda e sorridente de gurizada faceira.
  Acontece que a amiga árvore morava no terreno agramadado ao lado da casa de Odete, onde, por sua vez, morava a mãe de Odete. Pessoa sisuda mas boa, no fundo; criava com responsabilidade os filhos, valorizava para os pequenos o estudo que não teve, mantinha-os sadios e bem apresentados. Mas era sofrida. Carregava no rosto gravada a feição fechada pela infância judiada e pela maturidade castigada. Mãe solteira, quatro filhos, vida simples e difícil, mesa escassa, muita lida pesada. De vez em quando, aplicava alguma surra ou castigo aos filhos. E mãe e filha – esta, muito afeita ao falecido pai – sempre foram afastadas. Coisa de gênio, que não se explica. Às vezes, pareciam até duas desconhecidas. Contudo ainda mãe e filha, sanguínea e inevitavelmente ligadas. E essa distância perdurou nos corações de ambas até a morte da mãe, quando Odete, já adulta, cuidou dela até seus últimos dias, deitada numa cama, velhinha, minguada pela doença, frágil como um graveto ressecado e quebradiço.
  A mãe decididamente não gostava daquela algazarra da meninada. O peito amargo não lhe permitia, por mais que tentasse consigo mesma. Dizia que lhe irritavam os gritos estridentes e as gargalhadas altas da trupezinha, mas, na verdade, o que lhe perturbava a manifestação de alegria. Vira e mexe terminava a comilança de goiabas aos berros, prometendo que um dia iria acabar de vez com aquilo. Ralhava, mandando Odete e os irmãos entrarem para casa e correndo os amiguinhos dali. Saíam de orelha baixa igual a cusco, todos com os focinhos melados da fruta doce.
  Mas o bom coração de criança esquece rápido, e no dia seguinte, como se não tivessem recebido xingão nenhum, a trupe voltava a trepar na paciente amiga. Começavam mais silenciosos, para não fazer alarde, mas logo se empolgavam e recomeçava a festa. Cada um tinha o seu galho, e Odete adorava o seu. Dava-lhe a impressão que estava sendo abraçada de tão gostosa que era aquela sensação. Ali era seu paraíso. Aliás, não só a pequena Odete e seus parceiros adoravam aquilo: a própria árvore parecia comemorar junto, dia após dia carregada de frutos. Eles a limpavam os galhos e, no dia seguinte, lá estava ela, orgulhosa, abarrotada de goiabas por todos os ramos.


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  Aquela tarde estava tão fria e nublada! Mas não chovia. A luz uniforme do céu cobria tudo de cinza. Sem terem recebido reprimenda no dia anterior, a programação era correr para a goiabeira e tomar cada um o seu galho favorito. Aula terminada, lá foi a turminha. Odete, dona da casa, chegou na frente dos outros e lá estava o seu querido galho. No chão. Ele e seus companheiros de copa, todos: no chão. O tronco, igualmente, amassava com sua grossura o gramado graúdo do entorno, só restando um chumaço grudado à terra pela raiz, como se tivesse sido rasgado. Um moço passou por ali e, a pedido da mãe, em troca de farinha e leite fresco, tombou sem muita dificuldade a goiabeira com um facão afiado, galho a galho.       Odete reconheceu o seu, mesmo não estando na altura de sua cabeça onde geralmente se encontrava. Sua forma retorcida, que antes parecia ser animada e sorridente, agora dava a impressão de, mesmo sem movimento, contorcer-se numa agonia grosseira.
  Ninguém falou nada. Todos baixaram os olhinhos molhados, misto de espanto e tristeza, de confusão e medo, de ódio e culpa. Passou pela cabeça de Odete, por um momento, a imagem da amiga sendo golpeada. Pensou na dor que ela sentira a cada baque da fria e enferrujada lâmina, e fechou os olhos com horror.
  Sem se entreolharem, todos engoliram o choro e deram meia-volta, e naquele fim de tarde não teve algazarra, não teve comilança, nem gritos agudos ou boca lambuzada. A janta da noite foi uma sopa, tão quente quanto silenciosa e melancólica.


****


  Odete hoje é avó, mas ainda lhe arrepia pensar naquele episódio. Sentimento esquisito, doído. Desconfortável, no mínimo. Menos por amargura do que por nunca ter compreendido de fato o ato da mãe de lhe arrancar para sempre e com tamanha violência aquela amizade. A dúvida permanece desde aquele remoto passado, mas Odete hoje sabe que tem coisas que a gente se mantém criança para o resto da vida. E de que nem todo tem explicação. Às vezes, as dúvidas não se extinguem e, ironicamente, servem justamente para dar certeza a outras coisas. A Odete, a de que vale a pena ser uma mãe dedicada e uma avó afetuosa, e de que o aconchego que sentia no poleiro daquele galho da infância pode muito bem ser reproduzido de várias outras formas a quem se ama nesta vida.
  Ah! Minha mãe comentou que dona Odete ainda adora goiaba. Encanta-lhe a acidez da casca esverdeada ainda por amadurecer e aquela cremosidade da polpa vermelho-pele. Uma delícia.


Daniel Rodrigues



domingo, 21 de agosto de 2011

cotidianas #99 - "It's the End of the World as We Know It (And I Feel Fine)"


Stravinsky/Debussy/Ravel/Toyama– Concertos OSPA – Teatro Dante Barone – Porto Alegre/RS (16/08/2011)




Nunca tinha visto uma orquestra fazer bis. Pois na noite de 16 de agosto, no Teatro Dante Barone, da Assembleia Legislativa do RS, presenciei isso. Foi no 15° Concerto da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (Ospa) – Temporada 2011, desta vez sob a ótima regência do maestro japonês Kiyotaka Teraoka, oficial da Orquestra Sinfônica de Osaka.
Em junho, já tinha assistido a outro concerto da Ospa, em homenagem Sergei Rachmaninoff. Muito bom. Mas este foi magnífico. A começar pela primeira peça: o balé “Petrouchka”, do genial maestro e compositor russo naturalizado francês Igor Stravinsky (1882-1971), que eu já adorava e tinha a maior vontade de ouvir ao vivo pela primeira vez. E as minhas expectativas foram totalmente atendidas. “Petrouchka” conta a história de um fantoche tradicional russo feito da palha e um saco de serragem como corpo que acaba por tomar vida e ter a capacidade amar. Como a outra grande obra de Stravinsky, o marco “A Sagração da Primavera” (1913), “Petrouchka”, feita entre 1910 e 1911, é absolutamente revolucionária, sendo uma das maiores responsáveis por mudar a cara da música universal no último século.


 A peça de Stravinsky inova em estrutura rítmica, orquestração, timbrística, forma, harmonia, uso de dissonâncias. Uma obra complexa e moderníssima que valoriza, particularmente, a percussão acima da harmonia e da melodia, algo nunca visto antes na música erudita. Influenciou largamente trilhas para cinema, a se perceber, por exemplo, uma clara referência em dois históricos temas: a do hitchcockiano “Psicose”, “hino” do suspense composto por Bernard Herrmann, com seus gritos agudos de violino, e a de “Tubarão”, de John Williams para o thriller de Spielberg, com aquela inesquecível levada minimalista de cellos em duas notas, repetem trechos de “Petrouchka” de forma quase idêntica.

Kiyotaka Teraoka regeu com brilhantismo
as peças de Stravisky, Ravel e Debussy
e ainda proporcionou um
emocionante e surpreendente bis.
O balé também tem várias parecenças com a música pop. As quatro partes que compõem a obra são coladas umas às outras, imprimindo uma unidade incrível à música como um todo, mesmo com tantas variações. Esse expediente foi utilizado com inteligência, por exemplo, pelos Beatles no clássico e influente disco "Sgt. Peppers". Outro detalhe muito similar à música pop é a forma como essas partes se interligam: uma sequência de bombo, forte e contínua, igual aos rolos de bateria que o rock instituiu.
Na segunda parte do concerto, seguiram a bela “Petite Suite”, do impressionista Claude Debussy (1862-1918), e “Pavanne pour un Enfante Défunte”, de Maurice Ravel (1875-1937), que, mais do que a de Debussy para com sua grande obra (“Prélude à L’Apres-Mid d’un Faune”), nem chega perto da genialidade de seu “Bolero”, esta, sim, um verdadeiro patrimônio da humanidade.

Maestro Yuzo Toyama:
lenda viva em seu país.
Mas a surpresa guardava-se para o final. Lembram-se que havia mencionado que nunca tinha visto uma orquestra tocar um bis? Pois a incrível “Rhapsody for Orchestra”, do maestro e compositor japonês Yuzo Toyama (ao qual eu dei graças a Deus por passar a conhecer) foi o que motivou. Nascido em 1931, Toyama é vivo, idolatrado em seu país e, mesmo a idade avançada, ainda se apresenta regendo por aí. “Rhapsody...”, sua obra mais celebrada, de 1960, me transportou para dentro dos filmes clássicos de Korosawa como “Os 7 Samurais” e “Yojimbo”. A abertura, só com percussão, adaptando a musicalidade típica do Japão feudal, é um desbunde. Rico em harmonia e construção melódica, o intenso e curto número de Toyama (pouco mais de 7 minutos) ainda desfecha incrivelmente. Depois de um breve silêncio (um “Ma”, na terminologia da música tradicional japonesa), um dos percussionistas retoma-a maravilhosamente percutindo duas bachi, pás de madeira adornadas que produzem um som fino e estridente. Dali para um final triunfante, aplaudido de pé por uns bons cinco minutos pelo bom público presente. E o bis veio exatamente a partir da repetição deste último trecho, para entusiasmo geral.
O maestro Teraoka, claramente afeito à obra do conterrâneo, colocou o coração na batuta e regeu com emoção extra, o que contagiou orquestra e plateia. Satisfeito, voltei louco para rever um bom Kurosawa e conhecer mais a obra do agora admirado Toyama.
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Rhapsody for Orchestra




sábado, 20 de agosto de 2011

Cream - "The Fresh Cream" (1966)


"Doce e saboroso rock and roll"
Jack Bruce
para a Mellody Maker
em 1966


Se tem uma banda para a qual os termos superbanda ou power-trio se aplicam perfeitamente é o Cream. A formação era 'só', Jack Bruce, Ginger Baker e Eric Clapton . Quer mais? Baker era baterista conceituado e líder do Graham Bond Organisation, banda da qual Jack Bruce, baixista de formação jazz, fazia parte eventualmente, dividindo-se também entre outros projetos. Clapton, que já era Deus, conhecia o baixista dos Bluebreakers e do Powerhouse e convidado por Baker a formar um novo grupo, impôs a convocação de Bruce como condição. A indicação mostrou-se um grande acerto e um grande erro ao mesmo tempo: se por um lado formavam um timaço quase sem precedentes de qualidade, conceituação e técnica, por outro, levava confusão para dentro do grupo, uma vez que Bruce e  Baker, já desde o GBO tinham frequentes desentendimentos sérios, isso sem falar nas drogas e bebidas de Baker e na indisciplina e vaidades do problemático baixista.
Mas como se diz no futebol, o que importa é o que os jogadores faz dentro das quatro linhas e, no estúdio, em "Fresh Cream", seu disco de estreia, a nata do rock and roll mandou ver! Além de estraçalhar com seu baixão potente e apurado, Bruce compôs a maioria das musicas, à exceção dos covers de blues, que ocupam praticamente toda a segunda metade do álbum, e das duas compostas por Baker, "Sweet Wine" em parceria com a esposa de Bruce, e a espetacular "Toad" com seu incrível solo de bateria.
Dos blues, "Rollin' and Trumblin'" de Muddy Waters, "Spoonfull" de Willie Dixon e "Four Until Late" de Robert Johnson formam uma espécie de santíssima-trindade no disco com versões recriadas cheias de energia, além de "I'm So Glad" do blueseiro Skip James, para a qual o Cream deu provavelmente a versão definitiva. Tem ainda o blues de autoria desconhecida, "Cat's Squirrel", que nas mãos da banda ficou bem percussionado e cheio de peso, com destaque especial para a harmônica venenosa de Jack Bruce.
Das composições da banda, sou louco por N.S.U. que inicia com aquela bateria alta meio indígena e logo divide as honras com um baixo pesado e uma levada constante e agressiva de Clapton prenunciando tendências de estilos mais pesados; "Sweet Wine" que repete o barulho também enquadra-se nessa linha das influentes para o metal e afins; "Sleepy Time Time", um blues choroso, embora creditado a Bruce e à esposa Janet, é bem a cara de Clapton e traz toda a técnica do Deus da Guitarra; e a lenta "Dreaming", talvez a 'menos boa', se é que se pode dizer isso, é uma adorável balada num ritmo quase valseado.
Mas a grande música do álbum na minha opinião é mesmo "I Feell Free", um rock-jazz-blues totalmente psicodéleico marcado por uma percussão acelerada carregada nos pratos, com uma condução bem swingada do baixo e um solo notável de Clapton acompanhando os vocais na segunda parte. Fantástica!
Enaltecendo assim as composições de Bruce e o desempenho de Baker, pode parecer que a grande estrela do grupo, Eric Clapton, teria um papel menor na banda. Absolutamente. Pelo contrário. Além de funcionar quase como um líder discreto, com sua segurança técnica e moral, era também uma espécie de fiel-da balança no relacionamento Baker/Bruce e dava algum equilíbrio à banda sobremaneira nos seus primeiros momentos (enquanto ainda era possível). Mas no mais importante, no tocante à parte musical especificamente, sempre que exigido, quando chamado na responsa não deixava pedra sobre pedra proporcionado invariavelmente shows à parte. Isso sem falar que toda a parte de repertorização de pesquisa e resgate do blues passava por ele com as escolhas dos clássicos dos seus mestres inspiradores e as propostas de releituras dos mesmos.
Mas como sabemos, grandes estrelas, grandes gênios juntos não dão certo por muito tempo e o Cream teve um carreira bem breve; com eventuais retornos, é verdade, mas já sem o mesmo valor da fase inicial. Ainda fariam a obra-prima "Disraeli Gears" um ano depois de "Fresh Cream" mas isso, com certeza, é assunto para outro ÁLBUNS FUNDAMENTAIS.
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FAIXAS:
1. "I Feel Free" (Jack Bruce, Pete Brown) 2:53
2. "N.S.U. (Non-Specific Urethritis)" (Jack Bruce) 2:43
3. "Sleepy Time Time" (Jack Bruce, Janet Godfrey) 4:20
4. "Dreaming" (Jack Bruce) 1:58
5. "Sweet Wine" (Ginger Baker, Janet Godfrey) 3:17
6. "Spoonful" (Willie Dixon) 6:30
7. "Cat's Squirrel" (tradicional americana) 3:03
8. "Four Until Late" (Robert Johnson) 2:07
9. "Rollin' and Tumblin" (McKinley Morganfield) 4:42
10. "I'm So Glad" (Skip James) 3:57
11. "Toad" (Ginger Baker) 5:11

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Ouça:
Cream The Fresh Cream


Cly Reis

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Textura









fotos: Reis, Cly

Chico Buarque - "Chico" (2011)

"Meu tempo é curto, o tempo dela sobra
Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora."
trecho de "Essa Pequena"


Fui cheio de dedos ouvir o novo CD de Chico Buarque emprestado pela minha irmã que é mais louca que eu pela música do cara. Estranho foi que esta fãzoca me advertira que o disco não era ‘lá essas coisas’, meio fraco e coisa e tal, só que para ela colocar alguma restrição a um trabalho dele, olha..., era realmente de recear pelo pior. Como agravante, de minha parte já considero há algum tempo que, atualmente, Chico Buarque de Hollanda está mais para um ótimo escritor que faz música do que propriamente para um grande músico, o que tornava minha muito provável minha concordância com o conceito da fã em questão, dona do CD.
Peguei então para escutar descompromissadamente, meio assim, durante o café da manhã; e talvez por não esperar muito, a cada faixa que se seguia se me apresentava uma positiva surpresa. O disco não era tão mal quanto ela tinha pintado. Não, não! De fato é um bom disco. Passa a falsa impressão de ser ‘fraco’ por ser mais lento, ter um andamento mais cadenciado que de costume mas definitivamente para ruim não serve. O problema é que, também, o parâmetro de comparação de Chico Buarque é a própria obra de Chico Buarque, especialmente até a metade dos anos 80, e aí é covardia com ele mesmo cobrarmos sempre um “Almanaque”, um “Chico Buarque (1984), e coisas do tipo. Não é sempre que se faz discos assim.
Mas “Chico” (2011) é sim um bom disco. Ao longo das faixas a gente vai gostando, vai percebendo detalhes, méritos, qualidades e virtudes. “Querido Diário” que abre o CD e que funcionou como uma espécie de faixa-promocional, lançada previamente na internet, não é nada mais que simpática e dá a falsa impressão de que não teremos nada muito melhor pela frente ; “Rubato”, que a segue, é uma marchinha inusitada que causa uma certa estranheza pelo sutil descompasso de melodia e voz numa estruturação ousada de Chico com o parceiro João Helder.
Claramente sob efeito dos encantos de uma jovem, que minha irmã me informou ser a nova musa do compositor ds olhos verdes, Chico deixa transparecer em algumas faixas essa inspiração, mais evidentemente em “Essa pequena”, onde de alguma forma fala das diferenças deles dentro desta relação com idades tão distantes; mas também dá ‘letrinhas’ do assunto na ótima “Tipo um Baião”, ("Não sei para que outra história de amor a essa hora...") a melhor do disco na minha opinião, e na gostosa “Se eu soubesse” uma adorável valsinha que parece algo meio como a visão dela da coisa ("Ah, se eu pudesse não caía na tua conversa mole, outra vez/ Não dava mole à tua pessoa (...)/ Mas acontece que eu sorri para ti / E aí, larari, lairiri, por aí").
Se o Chico compositor está sempre rondando o Chico escritor, o inverso também vale e em faixas como na muito legal “Barafunda” toda a verve romancista com o traço característico dos seus livros está lá, com uma grande ‘confusão’ de memória que embaralha fatos, lugares e pessoas. Em “Nina” pode notar-se traços ou ideias não aproveitadas do seu romance "Budapeste" e em “Sinhá” alguma coisa talvez descartada ou resultante da concepção de  "Leite Derramado".
Merecem também destaque o samba composto com Ivan Lins, já conhecido a voz de Diogo Nogueira, “Sou eu”, que lembra de certa forma sua antiga “Deixa a Menina”; e a retomada da parceria com João Bosco, que já havia feito com ele a ótima "Mano a Mano" , na já referida, “Sinhá”, um comovente e triste samba de senzala que encerra o disco.
Não é o "Construção" , é verdade, não é um “Paratodos”, tá bem, mas não é em nada desprezível o novo trabalho musical deste grande escultor das palavras. Até que dá para dar um crédito para este escritor aí que andou se aventurando a gravar um CD. Tem futuro, tem futuro o garoto.
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Ouça:
Chico Buarque - "Chico" (2011)




Cly Reis

terça-feira, 16 de agosto de 2011

cotidianas #98 - Maneira de Pensar


Na sala de aula, a professora de matemática pergunta ao Joãozinho:
- Joãozinho, tem três passarinhos num galho de uma árvore. Um homem pega na sua espingarda e mata um. Quantos ficam?
- Nenhum, professora, responde ele.
- Como Joãozinho? Pense bem... Existem 3 passarinhos, e o homem mata um. Quantos sobram?
- Nenhum professora. O homem erra o tiro, os passarinhos se assustam e conseguem fugir. Não sobra nenhum no galho, 'fessora.
- Não, Joãozinho, é só um exercício de matemática. Restam dois passarinhos. Sua resposta não foi correta mas eu gostei muito da sua maneira de pensar.
Aí o Joãozinho diz:
- Professora, eu também tenho uma perguntinha pra senhora: num banco de uma praça tem três mulheres sentadas, uma solteira, uma casada e uma noiva, cada uma com um sorvete. Uma lambe, outra morde e a outra chupa. Qual delas é solteira?
A professora, que por acaso era solteira, muito constrangida e vermelha, pensa um pouco e responde:
- Ahn... Bom,... é a que chupa?
- Não, professora. A solteira é a que NÃO usa aliança, mas eu gostei da sua maneira de pensar...

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sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Pearl Jam - "Ten" (1991)

“Eu tenho problemas com as coisas boas que escrevem sobre o Pearl Jam. Aliás, eu tenho problemas com tudo... Gostaria de nunca ter aparecido na MTV, cara. Me sinto um bobo tendo de falar sobre a banda o tempo todo.
Eddie Vedder


Discaço, frequentemente envolvido em uma desnecessária disputa com o "Nevermind" do Nirvana, que além de não levar a nada, invariavelmente tende a fazer-se tentar depreciar um em nome do outro. Particularmente prefiro o "Nevermind" por considerá-lo fundamental num contexto muito mais abrangente, mas o que não invalida em nada minha grande admiração por este disco que é, inegavelmente, junto com a obra-prima de Kurt, o grande expoente da geração Seattle além de um dos mais importantes dos anos 90 e desde seu lançamento, já um dos importantes da história do rock.
"Ten" , disco de estreia do Pearl Jam, apresentava-nos uma banda forte, com ímpeto, peso, energia, e  agressividade, porém ao mesmo tempo melódica e sensível, com composições bem constituídas e interpretações poderosas e envolventes de Eddie Vedder, seu vocalista e letrista, um tipo extremamente carismático e cativante, apesar de sua personalidade difícil e instável.
No disco, após a breve prelúdio quase instrumental (pois tem algum murmúrios ao fundo) uma linha de baixo bem grave e sinuosa introduz à violenta "Once" que com sua letra forte e vocal furioso começa a dizer a que veio o álbum. "Even Flow" que a segue, é outra pedrada com sua levada pesada e poderosa; "Alive" o grande sucesso da banda, traz um riff inicial envolvente e melodioso, um refrão marcante interpretado de maneira extraordinária por Vedder e um empolgante solo final . "Black", de início lento, de um desenvolvimento crescente, é outra em que Vedder usa todo seu talento vocal e acaba por trazer-nos outra interpretação memorável culminando num final emocionante. Outra das boas do disco, "Jeremy" , é mais uma paulada, igualmente impactante tanto em música quanto em letra, totalmente oportuna nos dias de hoje quando se fala tanto em bullying.
A balada "Oceans" alivia sonoramente e apresenta uma canção lenta de característica quase acústica; "Deep" é fodona; a boa "Garden" também é um destaque e a longa "Release" com seu andar arrastado e denso encerra a obra trazendo no rastro a repetição da vinheta inicial, "Master/Slave", que fecha o disco da mesma forma que abriu: lenta e sombriamente.
Uma vez vi o Pearl Jam ao vivo só porque não tinha nada melhor para fazer. Porto Alegre tinha naquele momento um vazio de shows bons e quando pintou o Pearl Jam por lá achei que seia um bom programa. Na época nem curtia muito o som dos caras, conhecia "Alive" e "Even Flow" acahva legal mas... era isso. Mas depois daquela apresentação inesquecível passei a respeitar muito mais a banda e admirar o som dos caras. Grande banda e um dos maiores shows de rock que já fui na vida.

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FAIXAS:
1. "Once" 3:51
2. "Even Flow" 4:53
3. "Alive" 5:40
4. "Why Go" 3:19
5. "Black" 5:44
6. "Jeremy" 5:18
7. "Oceans" 2:41
8. "Porch" 3:30
9. "Garden" 4:59
10. "Deep" 4:18
11. "Release" 9:05

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Ouça:
Pearl Jam Ten


Cly Reis

terça-feira, 9 de agosto de 2011

cotidianas #97 - Garota Medrosa



Garota medrosa
Até onde vão as intenções dele?
Ou ele sequer possui alguma?
Ela diz: "Ele nunca realmente olhou para mim
Eu lhe dei cada oportunidade
No quarto embaixo das escadas
Ele sentou e ficou olhando
No quarto embaixo das escadas
Ele sentou e ficou olhando
Eu nunca cometerei este erro de novo"
(Eu nunca cometerei este erro de novo
Eu nunca cometerei este erro de novo)


Garoto medroso
A prudência nunca compensa
E tudo o que ela quer custa dinheiro
"Mas ela nem mesmo GOSTA de mim!
E eu sei porque ela me disse isso
No quarto embaixo da escada
Ela sentou e ficou olhando
No quarto embaixo da escada
Ela sentou e ficou olhando
Eu nunca cometerei este erro
de novo."

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trad. de "Girl Afraid" 
The Smiths
(Morrissey/Marr)

Ouça:
The Smiths - "Girl Afraid"

“Filhos de João - O admirável mundo novo baiano”, de Henrique Dantas (2011)




Assisti neste fim de semana a “Filhos de João - O admirável mundo novo baiano", de Henrique Dantas, um divertido documentário sobre os Novos Baianos, a grande banda de MPB dos anos 70. Revolucionários, os Novos Baianos – leia-se Moraes Moreira, Pepeu Gomes, Dadi, Paulinho Boca de Cantor e toda uma enorme trupe que formava a banda – foi responsável pela manutenção do movimento tropicalista no Brasil pós-AI5 e pela revalorização dos elementos tradicionais da música brasileira, mesclando-os com muita propriedade e qualidade ao rock de Hendrix , Stones , Beatles , Janis e outros.
Para mim, adorador de música brasileira e da banda, ver um filme como este é um deleite. E fiquei extremamente feliz quando percebi já no título uma afinidade de pensamento, uma vez que há alguns meses escrevi para este blog uma resenha sobre o melhor disco dos Novos Baianos, “Acabou Chorare”, de 1971. Intitulada "Lá Vem o Brasil Bater à Minha Porta" , abordei justamente a relação da banda com o “velho baiano” João Gilberto e o episódio em que ele, numa aparição tão inesperada quanto mágica no apartamento dos músicos no Rio, levou àquele grupo de hippies “os requebros e maneiras” do samba, ensinando-lhes a batida de violão da bossa nova e abrindo a cabeça da galera para os ritmos brasileiros, tornando-se pai espiritual da galera. Impressionou tanto que Moraes, por exemplo, chegou a cogitar de não tocar nunca mais depois daquilo! A narrativa do filme, bem estruturada, ressalta com assertividade este ponto, mostrando como os Novos Baianos passaram a introduzir o toque afro-brasileiro no seu estilo por indicação de João, mudando para sempre o modo de fazer rock e de fazer música popular no Brasil e no mundo.
Há revelações interessantes, como a de que o nome artístico Baby Consuelo foi atribuído a então Bernadete Dinorah inspirado no de uma personagem prostituta do filme “udigrudi” brasileiro “Caveira My Friend” (de Álvaro Guimarães, 1970). Também, a ideia da música “Acabou Chorare” – primeira bossa nova composta por aqueles jovens roqueiros e talvez a composição mais linda do grupo –, que surgiu das histórias que João Gilberto contava sobre sua pequena filhinha, a hoje cantora mundialmente conhecida Bebel Gilberto. E se quem escuta a música já se emociona (eu, em pleno cinema, me peguei às lágrimas), imagina o sentimento do autor! E foi isso que Moraes confessou: de tão impactado pela beleza e emoção de ter feito aquela canção, passou quatro dias sem dormir, tocando repetidas vezes a obra-prima que acabara de criar.

Baby, Galvão, Moraes e Paulinho,
o núvleo da banda
Ponto negativo é a não-participação de Baby. Corrigindo: é Baby do Brasil, hoje evangélica, quem não participa, pois se negou a gravar entrevistas. Mas a Baby Consuelo, ah, essa estava lá! Magrinha e extrovertida, ela aparece em filmes da época como no documentário para a TV alemã, realizado na metade dos anos 70, em que canta, radiante, “A Menina Dança”. Uma doçura. João Gilberto é outro que não aparece – a não ser numa imagem fotográfica. Mas é citado por quase todos os entrevistados: Dadi, Tom Zé, Rogério Duarte, Moraes, Galvão, Pepeu e outros. Sua figura é tão essencial na história dos Novos Baianos que sua aparição é até dispensável. Mais do que isso: a não-aparição de João, se não proposital, acaba adensando ainda mais a aura mística que ele tem para com todos da MPB moderna, e o filme capta super bem essa reverência.
“Filhos de João” é mais um bom registro documental tal como vem se fazendo no Brasil nos últimos 10 anos, período em que o cinema nacional avançou muito neste formato, resgatando momentos e personagens importantes como a Velha Guarda da Portela, Dzi-Croquettes, Paulinho da Viola, Oscar Niemeyer, jornal Sol, Wilson Simonal e vários outros. Agora, é a vez de saudar os Novos Baianos, no “passado, presente, particípio”, como diz naquela letra.


sábado, 6 de agosto de 2011

cotidianas #96 - TRAGO A PESSOA AMADA EM TRÊS DIAS



TRAGO A PESSOA AMADA EM TRÊS DIAS, dizia o anúncio. Quando viu aquele cartaz colado num poste, não teve dúvidas do que deveria fazer. Desesperada como estava, visitaria o místico do anúncio e traria de volta seu amado que algum mal entendido do destino tratara de lhe tirar. Seguiu até o endereço, entrou, foi atendida por uma velha magra e baixa com uma voz esganiçada que lhe ouviu, fez orações, jogou cartas e búzios, e por fim anunciou que seria um trabalho difícil pois alguém também teria feito uma amarração forte para tirá-lo dela. Seria necessário pipoca, cachaça, champagne, galinha e até um bode para sacrifício a fim de garantir o resultado. A moça não dispunha de grandes recursos mas faria um esforço para cumprir o objetivo. A mãe-de-santo prometera: 3 dias. Era garantido. Foi para casa esperançosa de que nos dias seguintes o amado voltaria. Não voltou. Nem em três, nem em 5, nem em um mês, mesmo com um despacho caprichado, com novas visitas e reforços nos trabalhos. Mas o tempo, que é dos unguentos o melhor, tratou de fazê-la superar, ir esquecendo e por fim conhecer um outro rapaz também interessante com quem vem saindo ultimamente. Eu soube que o ex andou ligando. Demonstrava algum arrependimento, tentava uma reconciliação, uma nova chance. Ela tratou de convencê-lo que no fim das contas a separação havia sido boa para ambos.
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TRAGO A PESSOA AMADA EM TRÊS DIAS, dizia o anúncio. Quando viu aquele cartaz colado num muro, hesitou um pouco afinal este tipo de recurso ia contra seus princípios religiosos e de mais a mais, nem acreditava muito nessas coisas. Mas desesperada como estava, tentaria até aquilo. Visitaria o mago do anúncio e traria de volta seu amado que algum mal entendido do destino tratara de lhe tirar. Seguiu até o endereço, entrou, foi atendida por uma velha gorda e baixa com uma voz maviosa que lhe ouviu, fez orações, jogou búzios e cartas, e por fim sentenciou que seria um trabalho difícil pois alguém também teria feito uma amarração braba para tirá-lo dela. Seria necessário cachaça, champagne, pipoca, galinha e até um bode para sacrifício a fim de garantir o resultado. A moça, determinada, disse que dinheiro não era problema e que a feiticeira poderia dispor do que precisasse desde que o rapaz voltasse para seus braços. A pitonisa prometera: 3 dias. Era garantido. Foi para casa cheia de dúvidas se aquele teria sido um recurso correto mas o que importava àquelas alturas era cumprir seu objetivo: que ele voltasse. E voltou. Certo, exato, em três dias. Disse que pensara melhor, que sempre a amara e que nunca poderia viver sem ela e coisa e tal. Ela, no seu interior ria-se de satisfação: o trabalho dera certo, o trabalho dera certo! Mas o trabalho nunca fora feito. A charlatã usava agora o dinheiro que seria destinado para a compra de um bode, em provisões para sua casa. Comprara farinha, um frango congelado, pipoca para o netinho e até uma espumante, por quê não?
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TRAGO A PESSOA AMADA EM TRÊS DIAS, dizia o anúncio. Quando viu aquele cartaz nos classificados do jornal pensou que aquilo era o que precisava. Seria sua chance de ter aquele ser tão desejado. Visitaria a feiticeira do anúncio e roubaria daquelazinha o homem que, afinal de contas, deveria ser seu mas que o destino por algum motivo lhe negava. Seguiu até o endereço, entrou, foi atendida por uma velha alta e magra de voz rouca que ouviu-lhe, fez orações, jogou cartas e búzios, e por fim anunciou que seria um trabalho difícil pois ele já estava amarrado a uma pessoa. Seria necessário pipoca, cachaça, champagne, galinha e até um bode para sacrifício a fim de garantir o resultado. A moça, determinada, mesmo não sendo abastada estava disposta a bancar o que fosse e garantiu que iria às últimas consequências para ter o rapaz em seus braços. A mística prometera: 3 dias. Era garantido. Foi para casa confiante que nos dias seguintes finalmente ele bateria à sua porta e praticamente imploraria pelo seu amor. Não deu certo. Mesmo com o empenho da mãe-de-santo e frequentes reforços nos trabalhos, seu querido continuava feliz da vida com aquela desqualificada. Ai, que ódio! Mas o tempo, que é dos remédios o melhor, tratou de fazê-la esquecer, deixar pra lá, reconhecer que aquilo tudo não havia sido mais que um capricho e por fim, no tocar da vida, conhecer outros rapazes interessantes. No fundo, lamentava mais o dinheiro investido do que o fracasso do intento. Como havia sido boba, essas coisas de magias não funcionam.
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TRAGO A PESSOA AMADA EM TRÊS DIAS, dizia o anúncio...



Cly Reis

Madonna - "True Blue" (1986)


“A mais bacana Rainha da Ferveção"...
"Uma combinação escandalosa de Orfãzinha Annie, Margaret Thatcher e Mae West”…
“Narcisista, rebelde, cômica....a Deusa dos Anos Noventa...”
trechos de matérias da imprensa
no encarte
da coletânea "The Immaculate Collection"



"True Blue" de 1986, representa um marco e a primeira virada na carreira de Madonna Veronica Louise Ciccone. A partir dele, a "material girl" de roupinhas sensuais, temas pueris e vocais de menina, dava lugar a uma mulher e a uma artista que sabia o que queria e onde pretendia chegar. Começava a dar rumos e um sentido artístico real e relevante à sua carreira que desde o início tivera sucesso mas que carecia de ser tomada à sério pelo público. Não que tivesse abandonado a sensualidade, a ironia, nem o apêlo pop, mas a partir de "True Blue", notava-se pela primeira vez uma certa ousadia, uma pretensão musical, intenções,  e objetivos.
Avalizada pelo sucesso comercial de seus discos anteriores, Madonna passava a escrever suas letras e compor parte delas, co-produzindo inclusive o disco e dando sua cara ao trabalho. O resultado é um disco diferenciado no âmbito vigente do pop daquele momento. "Papa Don't Preach" que abre o disco já dá mostras disso com uma introdução imponente de cordas que desemboca numa canção bem estruturada apoiada numa letra segura e madura que trata sobre aborto e gravidez precoce. Aborto? Mas isso lá é tema que se aborde numa canção para fácil consumo? Era Madonna causando polêmica e novo, mas agora não apenas por causa da lingerie. Era o início de uma rotina de afrontas aos padrões que se repetiriam e fariam uma de suas principais marcas.
"La Isla Bonita" com seu ritmo latino cheio de percussões e balanço, com partes da letra cantada em espanhol; e a pouco convencional balada confessional, "Live To Tell", longa, funkeada e com um improvável intervalo, atestam ainda mais essa diferenciação de qualidade e de estrutura do álbum em relação a seus 'similares', marcante sobremaneira pela variedade de alternativas, pelas temáticas pouco usuais, pela instrumentação qualificada com um bom time que inclui o brasileiro Paulinho da Costa na percussão, e pela cuidadosa produção.
Outra das boas do disco, a dançante e alegre "Open Your Heart", é apenas uma canção pop convencional, mas inegavelmente muito legal e um dos clássicos da rainha; a canção que dá nome ao disco,"True Blue", faz retornar um pouco aos discos anteriores com um pop juvenil, bastante simplório, porém extremamente gostoso e simpático. A boa e embalada "White Heat" vem com referências cinematográficas interessantes como o diálogo sampleado do filme "Fúria Sanguinária" que abre a música; a dedicatória da mesma a James Cagney que fizera parte do filme; além de trazer na letra o famoso bordão do personagem Dirty Harry de Clint Eastwood, o clássico "make my day" . Tem ainda a boa "Where's the Party", a frenética "Jimmy, Jimmy" e a otimista "Love Makes the World Go Round" para fechar este belo disco.
Sei que muitos torcem o nariz para a Madonna colocando-a no mesmo barco de umas outras tantas que na verdade só balançam a bunda e correm atrás e tentam imitá-la, mas a verdade é que a loira tem uma produção musical bem mais consistente, interessante e ousada que as imitações. Madonna sempre, desde o "True Blue", está um passo à frente e sempre incorporando novos elementos, ainda que às vezes sutilmente, à música pop. Ouço com frequência que Madonna não sabe cantar, que as músicas são fracas e biririborobó... Mas o curioso é que aceita-se tão facilmente artistas do metal, do punk, etc., que não cantam nada, mas para os quais se ressalta com ênfase atitude como grande mérito; bandas que não produzem mais que três acordes ou composições minimalistas de mestres tidas como geniais, a quem  a simplicidade, a força, o impacto, são celebrados como grandes virtudes, e no entanto as mesmos predicados sejam minimizados ou ignorados nesta artista extremamente relevante para a música e para o comportamento do final do século XX.
A verdade é que em se tratando de atitude, impacto, enfrentamento, polêmica, pouca gente foi mais 'punk' que Madonna nos últimos tempos. É verdade que se utiliza da mídia e da posição conquistada para expôr suas ideias, estética, conceitos e tudo mais; mas não deixa de ser até mesmo a grande ironia disso tudo, utilizar-se destes meios e ao mesmo tempo miná-los e colocá-los à prova. Coisa de artista diferenciado, coisa de uma mulher à frente de seu tempo. Gostem ou não gostem, parece que não há como negar que Madonna já pode ser considerada uma das maiores personalidades da história e uma das grandes mulheres do nosso tempo.

FAIXAS:
1. Papa Don`t Preach
2. Open Your Heart
3. White Heat
4. Live to Teel
5. Where`s The Party
6. True Blue
7. La Isla Bonita
8. Jimmy Jimmy
9. Love Makes The World Go Round

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Ouça:
Madonna True Blue


Cly Reis

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Helmet - Beco - Porto Alegre - RS (30/07/2011)




Em 1994, por algum abobadice da qual não me recordo, não fui a Capão da Canoa, cidade próxima a Porto Alegre, para o festival de música M2000 Summer Concert, que, apresentava como atrações um monte de babas como Deborah Blando, Robin S. e otras coisas do gênero, mas que curiosamente trazia também o alternativo Helmet, a melhor banda de rock pesado surgida nos anos 90 e a qual eu já adorava àquela época. Perdi e nunca me perdoei por isso. Até que, passados 17 anos daquele descuido, o Helmet volta ao sul, agora exatamente em Porto Alegre, para uma única apresentação no pub Beco. Não podia deixar escapar dessa vez. Juntamente com o povo que lotava o local, pude conferir o grande show que o grupo apresentou, tocando clássicos do seu repertório.

O Helmet parecia estar curtindo o show. A galera agradece!
O show abriu com uma das clássicas: “Wilma’s Rainbow”, cantada com emoção por todos no marcante refrão: “Wathershed we comes/ You’re flush with fever/ The richest junk dealer". Já nesta, a banda, liderada pelo excelente compositor e guitarrista Page Hamilton, mostra a perfeição na execução das complexas linhas melódicas, característica própria da banda. Isso, claro, aliado a muita pegada, flertando direto com o hardcore e o heavy metal, não sendo, apesar de tudo, nenhum dos dois. Aliás, esta é uma marca do Helmet: é simplesmente um belíssimo rock, enfurecido, de guitarras distorcidas, bateria pulsante e baixo que rosna, mas sempre inteligente e bem composto, mas sem apelar para o virtuosismo masturbatório. Isso se pôde perceber nas excelentes “Vacccination”, com sua criativa variação de 3 e 6 tempos, “Milquetoast”, muito festejada pelo público, e “Give It”, com seu tempo “atrasado” de bateria que sincopa a música entre um urro de guitarra e outro.

Galera ainda meio comportada.
Bem à esq., na parte inferior, um pedaço da minha cabeleira,
antes de me juntar à roda do pogo.
Como cheguei já com a casa cheia, posicionei-me, antes do show, pelo meio da pista; mas a intenção era, quando começasse, cair na roda punk. Rolaram as primeiras músicas, e os que estavam logo à minha frente só assistiam parados. Fazer o quê? Direito deles, né? Mas quando a banda tocou a furiosa “Turned Out”, com seu vocal raivoso e sua estrutura toda “quebrada”, não pude resistir: saí abrindo passagem a socos e pontapés para misturar-me à saudavelmente ensandecida galera que pogueava. A glória! E ali fiquei até o fim. Vieram na sequência a emputecida “Ironhead”, “Role Motel” (das minhas preferidas) e “Better”, todas do célebre álbum “Meantime”, de 1992.
Os simpáticos integrantes mostraram o tempo todo estarem se divertindo, agradecendo, inclusive, várias vezes a presença do público. Mas o ponto alto foi, de fato, “Unsung”, maior hit da banda, quando a plateia toda cantou junto. No bis, três músicas, fechando com nada mais, nada menos que “Just Another Victim”, da trilha sonora do filme “Judgment Night” que, na original, é tocada junto com os rappers do House of Pain. Mas como só tinha Helmet no palco, a segunda metade da música, quando entraria a parte do rap, teve uma ótima solução: emendaram-na com “In the Meantime”, a joia que abre o disco mais conhecido da banda.
Já na rua, com os ouvidos zunindo e a canela doída por causa de um chute, ao invés de pegar um táxi, preferi sair caminhando, curtindo aquela sensação gloriosa pelo show que acabara de acontecer. A cada música que me lembrava, bengueava sozinho pela noite porto-alegrense. Voltei para casa com o sentimento de que, agora, estou perdoado por mim mesmo.


segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Motörhead -"Ace of Spades" (1980)

"Motörhead é heavy metal no únco sentido significativo do termo. Todo o resto é apenas faz-de-conta"
Gary Bushell,
jornalista da revista Sounds



Conheci o Motörhead através do Sepultura, com a clássica regravação de "Orgasmatron", depois fui ouvindo uma coisa aqui outra ali e sempre gostando do que ouvia mas nunca tomando vergonha na cara para ter alguma coisa dos caras. Ouvia a boa "Hellraiser" da trilha da terceira sequência da franquia, a versão deles pra "Enter Sandman" do Metallica , e há pouco tempo um colega do trabalho me trouxe uns arquivos pra gravar no MP3 e me apresentou uma versão ao vivo de "Ace of Spades". Nossa! Aquilo me enlouqueceu. Era o que eu precisava pra tomar uma atitude. Tinha lido a respeito no "1001 Discos para Ouvir Antes de Morrer" , havia ficado curioso, mas agora conhecendo-a eu tinha que ter aquilo em casa. Dia desses numa loja dessas de CD's usados me deparo com o dito álbum, "Ace of Spades", novinho, na embalagem, por 20 pratas. Putz! "Só se for agora!".
Ouvi no dia seguinte no carro indo para o trabalho...
Cara... Quase derreti os alto-falantes.
O carro chegou em casa fumaçando.
O Motörhead que tem a fama de ser a banda mais barulhenta e mais rápida do mundo, justifica areputação com um incesante e imponente troar de guitarras, ritmos incontrolavelmente acelerados e levadas verdadeiramente alucinantes, tudo isso conduzido pela voz rouca e cavernosa do deus Lemmy Kilmister.
"Shoot You In the Back" com sua levada galopante é um tiro à queima-roupa; a rápida "Bite the Bullet" chega e põe tudo abaixo; "Love me Like a Reptile" é simlesmente arrasadora; "The Hammer", uma das melhores, é uma marretada hardcore; e a faixa-título, "Ace of Spades" tem possivelmente o riff mais destruidor, matador, detonante já produzido por um ser humano. Humano? Mas quem disse que Lemmy é humano?
Disco foda!
Referência do metal e indubitavelmente, álbum fundamental.
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FAIXAS:
1.. "Ace of Spades" – 2:49
2.. "Love Me Like a Reptile" – 3:23
3.. "Shoot You in the Back" – 2:39
4.. "Live to Win" – 3:37
5.. "Fast and Loose" – 3:23
6.. "(We Are) The Road Crew" – 3:12
7.. "Fire Fire" – 2:44
8.. "Jailbait" – 3:33
9.. "Dance" – 2:38
10.. "Bite the Bullet" – 1:38
11.. "The Chase Is Better Than the Catch" – 4:18
12.. "The Hammer" – 2:48

todas as faixas: Clarke, Kilmister, Taylor

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Ouça:
Motörhead - Ace of Spades



Cly Reis

Berinjela Beligerante