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sábado, 31 de dezembro de 2011

cotidianas #125 - "Cortar o Tempo"



Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.


Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.


Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente

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Cortar o Tempo
Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Pix

cotidianas #124 - Ela Está Deixando o Lar


A letra desta música foi inspirada em um fato verídico ocorrido na Inglaterra em 1967, publicado no jornal Daily Mail, de que uma jovem de 17 anos, Melanie Coe, fugiu de casa sem seus pais saberem, desaparecendo.

Ela está deixando o lar

Quarta-feira de manhã, às cinco horas enquanto o dia inicia
Silenciosamente fechando a porta de seu quarto
Deixando um bilhete que espera que dirá por si
Ela desce a escada até a cozinha
segurando seu lenço
Cuidadosamente virando a chave da porta dos fundos
Pisando lá fora ela está livre


Ela
(Nós a demos a maior parte de nossas vidas)
está deixando
(Sacrificamos a maior parte de nossas vidas)
o lar
(Nós a demos tudo que o dinheiro pudesse comprar)
Ela está deixando o lar após viver só
Por tantos anos. (Bye, bye)


O pai ronca enquanto sua esposa
veste seu roupão
Apanha o bilhete que está deixado ali
Em pé sozinha no topo das escadas
Ela se desmancha e clama para o seu marido
Papai, nosso bebê se foi
Porque ela nos trataria de modo impensado?
Como que ela pode fazer isto comigo?


Ela
(Nunca pensamos em nós)
está deixando
(Jamais um pensamento para nós)
o lar
(Nós lutamos com dificuldade para vencer)
Ela está deixando o lar após viver só
Por tantos anos. (Bye, bye)


Sexta-feira de manhã às nove ela está bem longe
Esperando para manter o compromisso que ela firmou
Encontrando um rapaz da indústria automobilística


Ela
(O que foi que fizemos de errado?)
Está se
(Nós não sabíamos que era errado)
Divertindo
(Diversão é a única coisa que dinheiro não consegue comprar)
Algo por dentro que sempre foi renegado
Por tantos anos. (Bye, bye)
Ela esta deixando o lar (bye bye)


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"She's Leaving Home"
Lennon/MacCartney
do álbum "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band"

Ouça:
The Beatles - "She's Leaving Home"

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Coluna dEle #23

E aí, galera! Quanto tempo!
Não tava podendo postar aqui porque, como vocês devem ter observado, o Mundo tá uma loucura e Euzinho é que tenho que tomar conta dessa balbúrdia toda. Às vezes Eu penso 'pra que que Eu fui fundar essa empresa'? Mas até que as coisas deram uma acalmadinha nos últimos tempos, né?
É bom mesmo, porque agora passado o Natal, o aniversário do meu guri, Eu quero estar tranquilinho numa nuvem bem fofinha pro Réveillon.
A propósito de Ano-Novo, geral fica entupindo a Minha caixa de entrada com com pedidos de todo o tipo pra 2012. 'Cês tem que ver, tem cada um!
Bom, dessa vez até vou abrir alguns aqui publicamente, só pra que vocês saibam com que tipo de pedidos os irmãos de vocês aí andam Me enchendo o saco.

Vamos ao primeiro:
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Esse é do Orlando, de 35 anos, de Cityópolis, Rio de Janeiro;

Meu Pai do Céu, eu queria muito em 2012, minha casinha pópria, uns móveizinhos novos, uma geladeira e um carrinho, se for possível...

Peraí, peraí, ô, Orlando. Tu tá Me achando com cara de Avião do Faustão??? Vai à luta, cidadão. Te vira. dá teu jeito. Se tu começar arranjando um emprego já é alguma coisa, não? Vai trabalhar, ora!


Vamos pra outro:
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Esse é da Iolanda, de 26 anos, de Cambota do Sul, RS;

Senhor, eu gostaria muito de emagrecer. Meu Pai, me ajuda por favor a cumprir este objetivo neste ano...

Bom, pra começar seria muito interessante se tu largar essa caixa de bombons, né, sua balofa!
E além do mais, Eu sou quem sou, mas não posso fazer milagre. Tu tá além das Minhas possibilidades.


Próximo:
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Wedston, de 19 anos, de Centro Velho, SP;

Aí, Velho, tipo, na boa, vê se dá uma moral aê pra nóis pegá aquela mina, a Edileine, meu. Assim, ó, bota a mina na minha fita, aê, tá ligado...

Que horror, ô Web..., Wed..., Wedston (nossa, tua mãe tava criativa pra cacete quando te batizou, hein). Mal dá pra entender alguma coisa que tu escreve.
Mas, assim, ó, "mano", provavelmente tu não vais lembrar porque tu ainda não tinha nem nascido, mas antes de descer aí pra Terra, tu Me pediste pra entrar na fila da feiúra e, na boa, que eu Me lembre tu passou por ela umas três vezes. Então, ó, já vou te adiantando que, a não ser que tu jogue muita bola e vá prum clube grande ou vire pagodeiro, pode esquecer a tal da mina.


Vamos em frente:
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Esse é do Rodrigo, de 9 anos, de Sagüí, SP. Ai que bonitinho! Vamos ver que que o garoto quer:
Velho, vai tomar no c*!

Quê isso, menino? Tua mãe não te deu educação?
(vou ter que selecionar melhor isso aqui)


Próximo:
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Essa é da Maria Evangelina, de 53 anos, de Rosário Grande, MT;

Pai nosso que estás no céu, santif...

Ah, tá, tá! Essa Eu já conheço de cor. Tá, tá.


Outra:
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Agora é o Jefferson, de 28 anos, de Bomplanalto, GO;

Pai, eu queria no ano de 2012, ganhar na Mega-Sena...

Ah, tá, engraçadinho! Tu acha mmesmo que se Eu soubesse os números Eu ia te dizer?
Eu ia, era, lá correndo apostar.

Vamos mais um:
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Essa é da Dorotilde, de 31 anos, de Dois Morro, RS


Meu Deus, em 2012 eu não quero nada pra mim. eu só quero Paz para o mundo inteiro.


Hum, Dorotilde, muito bonito teu pedido mas com  aqueles radicais muçulmanos brigando o tempo todo, com os EUA sempre empenhados em vender armas, com a quantidade de traficantes que ainda tem no Rio de Janeiro, com cada maluco suicida que me aparece e tudo mais que existe por aí, acho que vai ser meio difícil atender o teu pedido.
Deixa eu ver o do Jeffeson de novo que eu acho que era mais fácil...

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Por hoje chega de leituras e mails, mas quem quiser enviar pedidos, súplicas, orações, desejos, recadinhos, receitas, encomendas de doces, etc., a gente aqui em cima lê tudo.
Enviar para:
god@voxdei.gov


Valeu?
Fui!
Feliz 2012 pra todo mundo.
(De minha parte, aqui, eu vou fazer o possível pra que seja bom, mas vocês tem que ajudar, né!)

Lynyrd Skynyrd - "Pronounced 'Lĕh-'nérd 'Skin-'nérd" (1973)


"Nós somos (a banda) One Percent, mas vamos mudar nosso nome esta noite. Todos que quiserem que mudemos para Leonard Skinner, aplaudam!"
Ronnie Von Zant
dando então o nome definitivo à banda



Não tem como falar de Lynyrd Skynyrd sem pensar em seu disco de estreia, longo e maravilhoso “Pronounced 'Lĕh-'nérd 'Skin-'nérd”, que trazia “apenas” canções como: "Tuesday's Gone", "Gimme Three Steps", "Simple Man" (na minha opinião, a melhor canção, solo, e bela sequência de acordes) e "Free Bird" que foi lançada como single em novembro de 1974.
"Free Bird" se tornou o segundo hit da banda a chegar ao Top 40 na Billboard Hot 100 no início de 1975. E é usado como música que encerra as performances ao vivo da banda sendo sua maior canção, muitas vezes ultrapassando os 14 minutos de duração quando tocada ao vivo. E também é tema da sangrenta cena final do filme "Rejeitados pelo Diabo", de 2005 dirigido por Rob Zombie.
O solo desta música foi feito pelo guitarrista do Lynyrd Skynyrd, Allen Collins, e é considerado um dos solos mais "destruidores" de todos os tempos, sendo considerado o 3º maior solo de guitarra da história, segundo a revista Rolling Stone. Ao vivo ele usava um vidro de Coricidin como slide (como antes fizera sua confessa influência, Duanne Allman do The Allman Brothers Band).
Pra quem ainda não sabe a origem do nome Lynyrd Skynyrd ai vai o motivo: durante um show, Ronnie Van Zant anunciou a banda com o nome de Leonard Skinner - o instrutor de ginástica dos então estudantes Ronnie, Gary e Bob na Robert Lee High School em Jacksonville que vivia dando suspensão aos garotos por causa dos seus longos cabelos, comportamento que se chocava contra as rígidas normas da escola. Mais tarde as vogais foram substituídas por “y” pelos membros para preservar a identidade do professor.
Não lembro bem quando ouvi pela primeira vez L.S., só sei que até hoje é impossível passar um dia sem ao menos escutar apenas “uma musiquinha”!

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vídeo de "Free Bird", Lynyrd Skynyrd




FAIXAS:
1- I Ain't the One (3:51)
2-Tuesday's Gone (7:32)
3- Gimme Three Steps (4:30)
4- Simple Man (5:57)
5- Things Goin' On (4:57)
6- Mississippi Kid (3:57)
7- Poison Whiskey (3:11)
8- Free Bird (9:08)

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Ouça:
Lynyrd Skynyrd Pronounced 'Lĕh-'nérd 'Skin-'nérd'




por Michele Santos





Michele,  esta aficionada por música, em especial por rock'n roll,
muito me honra em ser a primeira mulher a dar sua contribuição a este blog dividindo conosco todo seu conhecimento e bom gosto musical.
É apaixonada por cães, cursa engenharia civil, tocou violão na extinta banda cover Only Mayer e é gente finíssima da melhor qualidade.
Que esta participação no blog se repita mais vezes, Michele.

Bem-vinda ao time dos ClyBloggers!      

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

cotidianas #123 - Milagre



Embora acredite em Deus, não sei até que ponto aceite a possibilidade de intervenções divinas diretas sobre os assuntos terrenos. A coisa toda de Jesus transformar água em vinho, de Moisés abrir o mar, de Nossa Senhora parecer para a fulana, então... não me passa mesmo. Mas talvez acredite que em alguns momentos Deus olhe para baixo (isso partindo do preceito vigente de que Ele esteja em algum lugar lá em cima) e resolva, "Eu não poso deixar isso assim", e daí são aqueles momentos em que uma criança é retirada de escombros depois  de 5 dias soterrada, que um paciente dado como morto volta à vida, etc.  E existem outros fatos cotidianos, menores num contexto global que a gente na maior parte das nem toma conhecimento mas que são de alguma forma tão significativas e especiais para quem viveu que poder-se-ia chamar até de pequenos milagres.
Tomo como exemplo um caso que minha mãe conta, da época de sua infância na qual sua família enfrentava grandes privações exatamente na época de Festas de Fim-de-Ano. Meu avô, que não conheci, estava desempregado, passava por sérias dificuldades financeiras e minha avó, dona de casa, se equilibrava como podia para administrar toda uma penca de filhos. Mas naquele Natal a coisa estava pior. Não apareceu dinheiro de lugar algum, as coisas tinham acabado em casa, já não tinham crédito nem cara-de-pau para pedir fiado no comércio vizinho, viam as outras famílias organizando ceias, comprando coisas saborosas e lá, para eles, a perspectiva era que não houvesse nada para aquela noite. Não que o fato de comer alguma coisa na noite de Natal compensasse o fato de possivelmente não ter nada no dia seguinte ou no outro e no outro... mas sempre há uma aura toda especial sobre esta data, uma ideia de confraternização, de reunião de família à mesa só que naquelas circunstâncias não teriam porquê se reunir à mesa.
A escassez gerava perguntas dos filhos menores. Não tinham nada a dizer a não ser que... não tinha comida. A fome começava a chegar e o nervosismo começava a tomar conta do ambiente. Ao pai, sem explicações possíveis naquele momento, restava a irritação, a ira, a cólera. Talvez consigo, com a situação, com o desemprego, com a miséria. Perdia a paciência, se irritava com as perguntas, ralhava com as crianças, gritava com a esposa... Não! Aquilo não era uma noite de Natal. Não, não era. Não uma noite como podia-se desejar: com família reunida, em paz, feliz. àquelas alturas minha mãe, a filha mais velha e mais consciente do que estava acontecendo, se retirou silenciosamente do ambiente, se dirigiu a um canto qualquer e simplesmente rezou. Rezou. Não pediu exatamente por comida. Pediu a Deus apenas para que ficassem em paz, que cessasse aquela gritaria, que tivessem uma Noite de Natal decente. Só queria uma Noite de Natal em paz com a família.
Mal terminara sua secreta oração quando ouviu aquelas batidas na porta. Batidas urgentes pelo jeito. Apressadas. Faltava pouco para a meia-noite. Quem seria?
Eram o vizinho cuja  esposa tinha problemas mentais e que havia tido uma espécie surto. Tinham toda uma ceia preparada mas teriam que levá-la a um hospital imediatamente. Tinha ido ver se queriam ficar com toda a comida uma vez que não poderiam aproveitá-la. Deixaram a comida toda empacotada. Bastante comida. Milagre! Só podia ser!
Foi a dádiva! Não só tiveram uma ceia decente, uma noite de Natal, como a paz voltou a imperar na casa naquele momento. Tiveram um Natal como poucas vezes naquela época.
É lógico que as dificuldades não acabaram ali. Vieram outros dias difíceis. às vezes melhoravam, às vezes voltavam à mesma. Mas aquela noite, talvez atendendo um apelo daquela menininha que tudo o que queria era um pouco de harmonia dentro de casa, o Velho lá de cima deve ter resolvido dar um pouquinho mais que apenas paz. Talvez, um pequeno milagre, talvez...


por Cly Reis

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O Frango Atirador

Ultraje a Rigor - "Nós Vamos Invadir Sua Praia" (1985)

“...'Inútil' foi nossa melhor sacada, quando conseguimos sintetizar tudo que queríamos falar.
Na época todos tínhamos um inimigo comum
que era a ditadura.
Muitas vezes me perguntavam se eu
considerava todo mundo inútil.
Eu dizia que não, que estavam fazendo
o brasileiro de inútil,
mas que também muitas vezes “somos inútil” porque nós temos até hoje uma mentalidade complicada e
muitas vezes penso que nem queremos mudar. "
Roger




Frequentemente ouço questionarem porquê Roger Rocha Moreira, vocalista, guitarrista e letrista do Ultraje a Rigor, não ultiliza melhor seu Q.I. superior a 140 , um dos maiores entre famosos no Brasil... Olha, acho que, a seu modo, ele faz bom uso dele. E tenho certeza que o utilizou bastante bem, pelo menos, para conceber um dos grandes discos da história do rock nacional, o ótimo "Nós Vamos Invadir Sua Praia" de 1985.
"Nós Vamos Invadir sua Praia" é um discaço de rock'n roll apoiado em letras inteligentíssimas que abordam temas como comportamento, adolescência, diferenças
sociais, relacionamentos, mainstream, política, com malícia e bom-humor sem precedentes no rock nacional.
"Ciúme" e Zoraide" representam o melhor do rock ultrajeano em duas canções que vão direto nas relações entre casais e todas as suas chatices e particularidades; a maliciosa "Marylou" é um country-rock estilizado e exagerado com menções um tanto picantes a certos bichinhos 'safados' da fazenda. "Jesse Go", que o guitarrista Maurício certa vez disse que serviria para o Paulo Ricardo do RPM, ataca com ironia os ídolos fabricados da indústria musical e o estrelismo que os acomete depois da fama; e a ótima "Eu Me Amo" é um genial exercício psicanalítico sobre descoberta de si próprio e autovalorização, na que deve ser provavelmente a única auto-canção de amor da história da música.
"Inútil", com sua concordância propositalmente errada e provavelmente com o riff mais bacana já feito no rock brasileiro, ao contrário do que sempre se disse por aí, não desvaloriza o brasileiro, mas sim, pelo contrário, reafirma a capacidade deste país de fazer tudo tão bem ou melhor que qualquer outro, e à sua maneira, irônicos e escrachados, questionam os motivos pelos quais, mesmo com tanto potencial, tudo o que via-se, naquele Brasil bem menos desenvolvido e promissor do que hoje dos anos 80, eram constantes insucessos e impedimentos nos mais diversos segmentos. "Mim Quer Tocar", outra genial e uma exceção no que diz respeito à ênfase rock'n roll do disco, é um reggae 'preguiçoso' que brinca com a visão estrangeira em relação ao Brasil que supunha muitas vezes ser um país ainda habitado por um bando de índios e selvagens, mas alfineta também a própria auto-depreciação que o povo acabou assumindo em relação ao próprio país.
"Rebelde Sem Causa" talvez a melhor composição do disco, é um surf rock com cores new-wave, com um excente trabalho de guitarra de Roger e uma letra genial na qual um jovem relata o quanto sua vida  é 'chata' pelo excesso de atenção, carinho, bens materiais e tudo o que poderia desejar, numa sutil crítica comportamental (que se estende ao social) a todo mundo que se queixa da vida de barriga cheia. Extremamente atual se formos pensar em bad-boys que queimam índios, chutam negros, agridem prostitutas e homossexuais; filhinhos-de-papai que saem atropelando todo mundo com seus carrões e ficam impunes; babacas que provocam brigas em festas, etc., e cuja grande alegação muitas vezes é que têm problemas psicológicos, não tiveram atenção dos pais, ou que são 'traumatizadinhos'. Ora, veja!
A faixa que dá nome ao disco por sua vez não tem maiores ambições intelectuais e se contém algum recado implícito é apenas o de "Cuidado, nós estamos chegando e não tem como escapar". E não teve mesmo: "Nós Vamos Invadir Sua Praia" não demorou a invadir nas rádios e conquistar o público com seu ritmo contagiante, seu astral muito pra cima, e provavelmentee também, pela identificação das situações bem farofeiras de praia colocadas na letra. A faixa é uma verdadeira festa com participações de Lobão, Ritchie, Selvagem Big Abreu e Léo Jaime se revezando na ordem dos versos do refrão ou soltando pequenos improvisos como o famosa pergunta do Lobão, "cadê a minha farofinha, Roger?" dita lá pelas tantas durante a música como várias outras gracinhas dos outros convidados e integrantes da banda. Provavelmente devia estar uma grande bagunça no estúdio.
A mais fraca do disco é com certeza a faixa "Se Você Sabia" um rockzinho interessante musicalmente e que até tem um solo legal no refrão do baterista Leospa, mas que no fim das contas se revela excessivamente pueril com sua letrinha primária e juvenil sobre o 'drama' de um rapaz que descobre que a namoradinha está grávida.
Para fechar, uma faixa gravada ao vivo extamente para contar com a participação do público que nos shows respondia ao refrão de "Independente Futebol Clube" com uma efusiva saudação. Aquilo tinha que ser registrado em disco. E foi. E ficou um barato. Um rock'n roll gostoso com uma letra aparentemente tola, mas que na verdade não era nada mais nada menos do que uma manifestação de respeito à individualidade. Roger lançava aquele "Nós somos livres, Independente Futebol Clube" e a galera respondia com um entusiasmado "Êêêêêêê!!!
A propósito de show, recentemente a banda voltou a ser comentada depois de ter sido impedida de continuar seu show no Festival SWU pelo pessoal da produção do Peter Gabriel. A galera ficou do lado do Ultraje no incidente e provou que ainda tem a turma do Roger em alta conta e que a banda ainda é uma das mais queridas do país mesmo passados 26 anos desde seu clássico álbum de estreia. Muita dessa solidariedade deve-se também, em parte, à visibilidade que voltaram a ter por conta participação num talk-show na TV. Aí até quem nunca sequer ouviu o "Nós Vamos Invadir Sua Praia" ou alguma coisa da banda na vida, mas que curte o programa acabou apoiando os caras e lembrando que existe (ou existiu) um 'rock nacional'.
Roger com certeza não é o maior gênio da história da música, não é um Dylan escrevendo, não é um McCarteney compondo. Longe disso! Aliás muitas vezes passa por paspalhão. Mas se de alguma coisa lhe serviu ter um Q.I. tão alto como se comenta, ele aplicou a inteligência que o tal índice possa ter-lhe proporcionado para produzir um dos melhores da música nacional de todos os tempos. Álbum que com "Cabeça Dinossauro" dos Titãs, "Selvagem?" dos Paralamas,  "Revoluções por Minuto" do RPM, e o "Dois" da Legião Urbana, completa o quinteto fundamental de grandes álbuns brasileiros dos anos 80.
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A reedição em CD saiu ainda com uns extras, como a censurada "Ricota", a hilária "Hino dos Cafajestes", uma versão marchinha para "Marylou" e versões originais de "Mim quer Tocar", com a letra um pouco diferente, e de"Inútil", bem mais crua e um pouco mais arrastada.
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FAIXAS:
01. Nós Vamos Invadir Sua Praia
02. Rebelde Sem Causa
03. Mim Quer Tocar
04. Zoraide
05. Ciúme
06. Inútil
07. Marylou
08. Jesse Go
09. Eu Me Amo
10. Se Você Sabia
11. Independente Futebol Clube


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Ouça:
Ultraje a Rigor Nós Vamos Invadir Sua Praia




Cly Reis

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Helmet - "Meantime" (1992)

A CALIBRADA MÁQUINA DE PRODUZIR BARULHO


“Riffs de fusão zeppelinesca com uma precisão pós-hardcore veemente, intensificados por acordes densos e linhas fora de compasso baseadas na formação de jazz formal de (Page) Hamilton.”
Definição do estilo da banda no site oficial do Helmet



Uma das coisas que sempre apreciei no jazz é não somente aqueles solos magníficos, mas, tanto mais, a criatividade na invenção das bases e a execução do chorus, momento em que todos os instrumentistas tocam juntos o “riff” com uma perfeição tamanha que parece sair de uma máquina sonora. Acham que me enganei de estar falando de jazz ao invés do rock pesado do Helmet? Não, não estou equivocado. Talhados no jazz, os músicos do Helmet são o melhor exemplo do quanto o estilo mais americano de todos influenciou até o rock alternativo. Um dos melhores resultados desta alquimia está em “Meantime”, segundo disco de carreira do grupo e auge da maturidade musical do líder, cantor, guitarrista e compositor Page Hamilton.
“Meantime” é um dos grandes discos de rock pesado dos anos 90 – ali, ali com “Chaos AD” do Sepultura e o “disco preto” do Metallica – e do qual guardo a lembrança de ter sido um dos primeiros CD’s comprados por mim e meu irmão logo que este tipo de mídia começou a ser comercializada no Brasil. Além disso, foi o disco que me fez conhecer a banda, depois de vê-los na MTV e surpreender-me com aquele som furioso e, ao mesmo tempo, original e precioso como uma calibrada máquina de produzir barulho. Tal um chorus de jazz. Trata-se de um trabalho que sintetizou os estilos de rock pesado, dando uma roupagem híbrida e toda pessoal às características de massa sonora em volume alto.
Assim, heavy metal, hardcore, punk rock, surf music, grind core, pós-punk; tudo é filtrado pelo som do Helmet. Neles, ouve-se de Led Zeppelin a Exploited, de Trashman a Ratos de Porão, de Ministry a Television. Antes, já tinha escutado o Prong, banda nesta linha, mas na qual faltava alguma coisa que eu não identificava ao certo. Essa “coisa” era exatamente aquilo que o Helmet fez em “Meantime”. Variações rítmicas, transições pouco óbvias entre as várias partes, dissonâncias, afinações e sonoridades bem definidas. Tudo num som seco e direto, que não dá descanso aos ouvidos do início a fim. O feito obteve êxito: “Meantime” foi indicado ao Grammy, levou disco de ouro e botou pilha para que muita banda alternativa se formasse.
“In the Meantime” abre os trabalhos dizendo a que veio. Na introdução, todos os instrumentos entram juntos estourando a caixa, num extenso rolo e em escala ascendente, até dar lugar à bateria funkeada do ótimo John Stanier e a base roncada e “torta”, que quebra a linha de tempo 2 e 2 com um tempo a mais. Além disso, a voz de Hamilton, outro fator peculiar no Helmet, não é, mesmo quando esbravejada, um arroto de trash metal, em que não se entende nada do que se está cantando, nem doce e entoada como um pop suave. Assim como o som da banda, o estilo vocal dele acha um meio termo sutilmente interessante.
“Give It” contrasta o vocal melodioso com o tema bem heavy. O compasso arrastado sofre um pequeno “atraso” da bateria, que sincopa a música entre os urros de guitarra. Também “quebrada”, num esquisito tempo 6x6, “Turned Out” é composta de várias partes que se encaixam em perfeita harmonia. “Ironhead”, outra incrível, tem uma levada acelerada, principalmente durante o solo, onde vira um hardcore pogueado.
Em “Better”, das minhas preferidas, o vocal mais raivoso de Hamilton no álbum dá a falsa impressão de estar fora de sincronia com o instrumental, este, um simples e engenhoso jogo de quatro acordes que se repetem no segundo tempo, mas inversamente. Porém, o ponto alto é justamente o maior sucesso comercial do Helmet: a matadora “Unsung”. Lembrando “California Über Alles” do Dead Kennedy's na introdução, é composta num maluco 1-2-3/ 1-2-3/ 1-2-3 / 1-2-3-4-5-6-7-8-9. Consegue ser pegada e melodiosa ao mesmo tempo. Na base, os ataques de baixo-guitarra entre um breve silêncio e outro, finalizados por um soco da bateria, parecem choques elétricos estridentes que se ligam e desligam de um barulhento aparelho com defeito. “Role Motel”, com uma levada funk da bateria, simétrica como um relógio, fecha o disco sob um mar de distorções, no mesmo espírito que começou.
Como disse noutro post deste blog, quando estive no show da banda , o som do Helmet é simplesmente um rock bem feito: enfurecido, de guitarras distorcidas, bateria pulsante e baixo rosnando, porém sempre inteligente e bem composto, até complexo às vezes, mas sem cair no virtuosismo apelativo. Dá a impressão de que veio por ordem na casa do hard rock, tão combalido entre poucas coisas boas e um monte de porcaria. Parecido, em termos, com coisas de jazz moderno: um Mahavishnu Orchestra, John McLaughlin, VSOP ou uma Carla Bley. Entretanto, acima de tudo, “Meantime”, prestes a completar 20 anos de lançamento, é e continua sendo exemplo de rock ‘n’ roll bem feito. Puto. Potente. Empolgante.

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FAIXAS:
1. "In the Meantime" – 3:08
2. "Ironhead" – 3:22
3. "Give It" – 4:17
4. "Unsung" – 3:57
5. "Turned Out" – 4:14
6. "He Feels Bad" – 4:03
7. "Better" – 3:10
8. "You Borrowed" – 3:45
9. "FBLA II" – 3:22
10. "Role Model" – 3:35

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Ouça:
Helmet Meantime



quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O Frango Atirador

cotidianas #122 - 'Hoje"


Ouvi noticias de muito longe batendo na minha porta
Eu vi os garfos, eu vi as facas em cima da mesa posta
Pra que mensagens e telegramas se você chega e some
Tenho dinheiro e CPF mas não me lembro o meu nome


Não há mais festa nem carnaval
Acho que eu fui enganado
Me diga as horas, eu vou embora
Hoje eu tô atrasado


Pra que escolas e faculdades não há nada pra aprender?
Eu já não vejo, eu já não penso, já não consigo escrever
Sou faixa preta, toco guitarra, um dia vou pular de asa
Durmo de dia, trabalho à noite, nem sei se volto pra casa


Não há mais festa, nem carnaval
Acho que eu fui enganado
me diga as horas, eu vou embora
Hoje eu tô atrasado


Olho pro trânsito, olho o sinal, tá tudo engarrafado
Videos cassetes, computadores, e outros codificados
Tem uma loira que tá afim, a ruiva diz que me ama
A nega quer, eu já nem sei quem eu levo pra cama


Não há mais festas, nem carnaval
Acho que eu fui enganado
Me diga as horas, eu vou embora
Hoje eu tô atrasado


Tô abafado, me dá licença, vê se sai da minha frente
Tenho miopia, sou hipotenso, meu pé tá sempre dormente,
Amsterdam via Paris, acho que é nesse que eu vou
Mudei o corte do meu cabelo, já nem sei como eu sou


Não há mais festas, nem carnaval
Acho que eu fui enganado
me diga as horas, eu vou me embora
Hoje eu tô atrasado
Atrasado quem? Eu?

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letra da música "Hoje"
da banda Camisa de Vênus
(Karl Hummel e Marcelo Nova)

Ouça:
Camisa de Vênus - "Hoje"


segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

The Troggs - "From Nowhere" (1966)


Trogg: abreviação chula em inglês para
"troglodita".


Nos anos 60, muitos jovens, motivados pelo boom Beatles / Stones, montaram seu próprio conjunto para fazer versões de standards do blues e inventar canções próprias. Algumas alcançaram status e sucesso, como Yardbirds, Monkees e Byrds. Mas tinha a turma mais obscura em meio a toda aquela luminosidade estelar. Uma galera que, com pouca grana tanto para comprar bons instrumentos quanto para vestir os caros terninhos mods, juntava-se para ensaiar na garagem da casa de algum dos integrantes (provavelmente, quando os pais iam ao cinema) e, com muita vontade de tocar e criar, produzia alguns dos melhores sons que o rock já ouviu. É o caso do The Troggs, banda britânica que, com seu álbum de estreia, “From Nowhere”, influenciou, em música e postura, do punk ao metal.
Formada por Reg Presley (vocais), Chris Britton (guitarra), Pete Staples (baixo) e Ronnie Bond (bateria), a banda saiu da pacata cidade sulista de Andover para gravar seus primeiros compactos pelas mãos do empresário Larry Page, o mesmo do The Kinks. E não foi coincidência, afinal, tanto um grupo quanto outro fazia a linha rebelde, uma resposta às carinhas de bons moços dos Fab Four. A afronta já começava pelos nomes: um, selvagem e irreverente (The Troggs: “Os Trogloditas”); o outro, insinuante e debochado (The Kinks: “Os Pervertidos”). Faziam, além disso, um rock sujo, guitarrado, de bases simples e compasso acelerado. Quase punk.
Assim são, em “From Nowhere”, as versões de “Ride Your Pony”, “Jaguar and Thunderbird” e do clássico pré-punk “Louie Louie” – que, para uma garage band que se prestasse, não podia faltar! O vocalista, nascido Reginald Ball, autor da maioria do repertório e um grande blueser, pegou emprestado o sobrenome de Elvis com merecimento. É ele que dá o tom criativo de cada faixa, apresentando um cardápio variado do melhor blues-rock. São dele as melhores, como “Our Love Will Still Be There”, marcada no baixo e com frases de guitarra superdistorcida, “Lost Girl”, intensa e bruta, e “I Just Sing”, de ritmo tribal e um moog psicodélico na medida certa.
Entre blues quentes (“Evil”, "The Yella In Me") e boas baladas para conquistar as gatinhas (When I’m With You”), o Troggs manda ver na incrível “Your Love”, com uma bateria impressionantemente possante (algo raríssimo para os limitados recursos técnicos dos estúdios da época) e um matador riff de guitarra de apenas quatro notas. Estava ali uma fórmula diferente do rock de então, mais tosco, mais direto, mais agressivo. Quase punk.
“From Nowere” traz, porém, duas joias. A primeira delas é a marcante faixa de abertura: “Wild Thing”, versão para a música de Chip Taylor que virou a tradução do espírito rebelde e rocker da banda (“Wild thing/ You make my heart sing”). Maior sucesso comercial do grupo, abre com um acorde alto e distorcido de guitarra que se esvanece feito uma serpentina, mostrando de cara que eles não vinham pra brincadeira. Combinação de notas simples e um ritmo forte e marcado que já prenunciava o rock pogueado dos punks. Daquelas de ouvir balançando a cabeça. Detalhe interessante é o inventivo solo de flauta doce, que lhe dá um interessante exotismo medieval.
A outra grande do disco é mais uma de Presley: “From Home”. Se a música “Peaches en Regalia”, do Frank Zappa, foi capaz de, sozinha, motivar a criação de uma das duas mais importantes bandas de hard rock de todos os tempos, o Deep Purple, esse petardo do Troggs foi responsável por originar, nada mais, nada menos, do que a outra grande banda do rock pesado mundial: o Black Sabbath. Com o mesmo clima ritualístico de “Lost Girl”, mas adicionando agora um vocal rasgado e guitarras BEM distorcidas flutuando sobre tudo (igual ao que o heavy metal usaria largamente anos depois), “From Home”, confessadamente inspiração para a formação do Sabbath, traz aquela atmosfera macabra do som feito por Ozzy Osbourne e Cia. – e isso quatro anos antes de lançarem seu primeiro LP!
Se o Black Sabbath bebeu na fonte do Troggs, o que dizer, então, de StoogesDr. Feelgood, Modern Lovers? Junto com outras importantes bandas de garagem da época, como The Sonics, The Seeds e The Chocolate Watch Band, eles deram, com seu rock visceral, como que vindo das cavernas, as bases para aquilo que explodiria em Nova York e Londres nos anos 70 com o movimento punk, influenciando toda uma geração. Ah, se não fosse esses abençoados trogloditas!...

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FAIXAS:
1. "Wild Thing" (Taylor) - 2:34
2. "The Yella In Me" (Presley) - 2:38
3. "I Just Sing" (Presley) - 2:09
4. "Hi Hi Hazel" (Martin/Coulter) - 2:43
5. "Lost Girl" (Presley) - 2:31
6. "The Jaguar And The Thunderbird" (Berry) - 2:01
7. "Your Love" (Page/Julien) - 1:52
8. "Our Love Will Still Be There" (Presley) - 3:08
9. "Jingle Jangle" (Presley) - 2:26
10. "When I'm With You" (Presley) - 2:23
11. "From Home" (Presley) - 2:20
12. "Louie Louie" (Berry) - 3:01
13. "The Kitty Cat Song" (Roach/Spendel) - 2:11
14. "Ride Your Pony" (Neville) - 2:24
15. "Evil" (Singleton) - 3:13
16. "With A Girl Like You" (Presley) - 2:05*
17. "I Want You" (Page/Frechter) - 2:13*
18. "I Can't Control Myself" (Presley) - 3:03*
19. "Gonna Make You" (Page/Frechter) - 2:46*
20. "As I Ride By" (Bond) - 2:02*
    * Faixas bônus
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Ouça:
The Troggs From Nowhere



quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

cotidianas #121 - Alguém Chorando




"Alguém Chorando"
esferográfica sobre folha de bloco de papel
(sem data)

Miles Davis - "In a Silent Way" (1969)



"Miles chegou prar mim e disse, 'toque como se você não soubesse como tocar guitarra' (...) Comecei a dedilhar a melodia e quando olhei, Miles estava adorando (...) Fiquei abismado, porque tocávamos apenas uma nota, sol, e ele transformou isso em algo especial."
John McLaughlin, guitarrista




Curiosamente exatamente na chamada fase elétrica da carreira de Miles Davis, o meste nos apresentava um disco 'silencioso'.
"In a Silent Way" de 1969, apesar de inegavelmente apresentar mais elementos rock, um incremento de guitarras e órgãos elétricos, é um disco de uma sutileza e leveza quase inexplicáveis. Um álbum cujos vazios são quase tão importantes quanto os cheios. Onde a sugestão de uma nota, de um acorde, compõe a música de uma maneira quase tão fundamental quanto o próprio instrumento.
Com o estilo e sofisticação característicos de sua obra, Miles nos conduz numa incrível viagem no vácuo acompanhada pelo som de uma magnífica banda cheia de improvisações e de seu trumpete inigualável. Basicamente com apenas duas canções que se repetem sob variações ao longo do disco, o mestre hipnotiza-nos com suas improvisações improváveis, com sua nota fora de hora, com seu trumpete tocado no nada da música ou com a música esperando por uma nota que simplesmente não aparece, mas está lá.
Só mesmo um grande gênio como Miles Davis para nos proporcionar um disco de rock com música límpida, calma e... silenciosa, e “In a Silent Way”, uma daquelas obras únicas e inigualávies na história da música, consegue isso.
Silêncio! Ouçam...
Shhhh!!!!
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FAIXAS:
1. "Shhh/Peaceful" (Miles Davis) – 18:16
 "Shhh" – 6:14
"Peaceful" – 5:42
"Shhh" – 6:20

2. "In a Silent Way/It's About That Time" (Joe Zawinul, Miles Davis) – 19:52
"In a Silent Way" (Joe Zawinul) – 4:11
"It's About That Time" (Miles Davis) – 11:27
"In a Silent Way" (Joe Zawinul) – 4:14

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Ouça:
Miles Davis In A Silent Way


Cly Reis

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Atacama: uma aventura fotográfica, de Felipe Dumont e Thierry Rios, ed. Imprensa Livre (2007)





Em rápida estada em Rio Grande (RS), ganhei do fotógrafo rio-grandino Felipe Dumont um exemplar de seu livro “Atacama: uma aventura fotográfica”, co-assinado por seu amigo e também fotógrafo Thierry Rios. Como o nome sugere, registra fotos da dupla feitas no deserto do Atacama, norte do Chile, conhecido como o mais alto e mais árido do mundo, além dos pequenos povoados dos arredores onde puderam registrar deslumbrantes imagens, algumas de lugares tão inóspitos que parecem não pertencer ao planeta Terra.

A predominância da luz solar, na grande maioria dura, provocando muita sombra e contraste, marca as cerca de 130 fotos escolhidas para figurar na obra. Sem créditos para um ou outro, demonstrando a verdadeira parceria de Felipe e Thierry, mostram, na primeira parte, vários grandes planos da Cordilheira de Sal, onde é possível perceber as incríveis variações cromáticas produzidas por uma região em que o sal petrificado, a neve, o gelo e a água líquida convivem com a claridade da luz natural, criando imagens quase surreais. Tão sobrenaturais quanto são as de El Tatio, onde gêiseres situados sobre uma caldeira vulcânica, em plena Cordilheira dos Andes, jorram água fervente que, em contato com o ar e a temperaturas abaixo de zero, gera vapores que, quando iluminados pelo sol, produzem efeitos interessantíssimos. Quase surreal.
As que mais gostei, no entanto, vêm na segunda metade do livro: as fotos dos povoados áridos, coloridos e fulminados por um sol que parece permanentemente o de meio-dia. É uma região localizada a altitudes de 3 mil a 4 mil metros onde, reza a lenda, não chove a 400 anos. Seu povo, os atacamenhos, é judiado pelo sol implacável, pelo vento arenoso e pelo ar seco. Com muita sensibilidade, a dupla consegue captar lindos lances dessas pessoas cujos primeiros nativos, dizem, datam de 10 mil anos atrás.

Variações climáticas abissais (Felipe me relatou que, num dos dias, passaram de -18° para 26° num intervalo de oito horas), natureza incomum, gente hospitaleira e muita, mas muita aridez. “Que força é essa que nos moveu a um lugar tão longínquo e de condições tão difíceis?”, perguntaram-se depois da jornada. Em seu depoimento no livro, Felipe responde a essa questão: “Essa força não é outra senão um grande sentimento de poder. O poder de parar o tempo.” De fato, é o que esse belo livro consegue transmitir àqueles que, como eu, estão confortavelmente aqui embaixo. No planeta Terra.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

"Escuta Só, Do Clássico ao Pop', de Alex Ross




Acabei de ler o "Escuta Só" do jornalista norte-americano Alex Ross e não gostei tanto quanto eu imaginava que gostaria. Em poucos momentos ele realmente traça paralelos e estabelece analogias entre a música clássica e o universo pop- rock, o que supunha eu, fosse a tônica do livro. Até o faz no início do livro com uma interessante progressão cronológica e inter-relações de épocas e estilos, mas depois até pelo fato de ser uma coletânea de matérias, perde um pouco este foco.
De bem bacana mesmo o capítulo em que fala da cantora islandesa Björk, atribuindo a ela o devido valor no cenário da música atual; o capítulo sobre o Sonic Youth no qual faz ver que por trás de todo um aparente barulho há um conceito e músicas extremamente bem construídas; a parte toda sobre Mozart e sobre como este gênio sabia agradar populares e eruditos; e também quando demonstra a evolução das linguagens musicais que desembocaram na formação do blues. No mais, é interessante quando fala de uma instalação natural-musical chamada O lugar onde você vai para ouvir, e toda a reverência que presta ao mito Bob Dylan refazendo sua trajetória e analisando letras e composições.
Esperava mais do livro mas está longe de ter sido uma decepção. Vale pela tentativa de desmitificação do 'monstro sagrado' que é a música tida como erudita, e o autor se empenha especialmente em mostrar que, no fim de tudo, tudo é apenas música.
Uma boa leitura, no fim das contas.



Cly Reis

Coluna dEle #22


Fala, galera aí de baixo! Tô chegando!
Tudo belêz?
Comigo tudo numa boa. Tenho que administrar essa coisa toda, mas vai-se levando como se pode. empurrando com a barriga, que aliás tá enorme. A Mulhé ja disse que Eu tenho que emagrecer mas como é que eu vou dispensar aquela lasanha no fim-de-semana, né?

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Por falar em comilança, como é que tão os preparativos pro Natal?
As compras, a ceia, o peru, a rabanada?
Aqui em casa, cês sabem que é aquela coisa: além de Natal é aniversário do Meu guri. Fica um EU nos acuda.
A Patroa já montou árvore, botou enfeitezinho na porta, presépio... Afff! Essas frescuras!
Minha Nosssa Senhora!!!

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Infelizmente esse ano as festas vão cair em final de semana, né?
Merda!
Não vai ter feriadão.
Até pensei em mudar o calendário, já que Eu posso tudo, mas isso ia desorganizar todos os próximos mil anos, e aí quem ia se ferrar era Eu, então melhor deixar assim mesmo. Mas vam'vê se, já que Eu mando nessa merda mesmo, se Eu dou um jeito de fazer um recesso por aqui.  ; -)

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Como andou atrasando o Meu 13°, só agora vou poder começar a providenciar as coisas. Não queria deixar tudo pra última hora porque, vocês sabem né, os shoppings ficam uma loucura. Mas não vai ter jeito, vou ter que encarar lojas cheias e aquela coisa toda. Um Inferno! 

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A Dona Encrenca quer um desses smart-phones que fazem tudo.
Tem uns desses que são impressionantes mesmo. Fazem coisas que até Eu duvido.
Já o Meu Guri quer um jet-ski. Não sei pra que se ele pode muito bem caminhar sobre a água, mas ele insiste, diz que é mais radical e tudo mais, então, vá lá.

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A propósito de tecnologia, Eu andei trazendo pra cá pra cima o Steve, aquele da Apple e aproveitei e dei uns jobs pra ele no Meu departamento de informática. Só um cara como ele pra organizar essa bagunça. Aproveitei e pedi pra ele inventar alguma coisa pra facilitar a Minha vida.
O cara é bom! Bom mesmo! Inventou um tablet aqui que Eu posso comandar o mundo de onde Eu estiver, na cama, no banheiro, no sofá.
É o iGod.
Pequeno, levinho, fininho, fácil de carregar... Adoro ir percorrendo de um continente pro outro só tocando na tela. O mundo na ponta dos Meus dedos! Um barato! Hehehe!
É, e tem USB, bluetooth, memória o bastante pra guardar todos os arquivos da história da humanidade, uns joguinhos maneiros e o melhor é que tem acesso às redes sociais. Agora fica bem mais fácil de acessar o meu Face.
Foi o presentinho que Eu Me dei de Natal, afinal de contas Eu também sou filho de ... Bom, quer dizer... Não sou filho, Eu sou.. Ah, esquece!

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Pedidos de Natal para: god@voxdei.gov

Fui!



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