Curta no Facebook

segunda-feira, 25 de julho de 2011

"Um Homem Com Uma Câmera", de Dziga Vertov (1929)





O Canal Futura volta e meia nos proporciona deleites cinematográficos inestimáveis, não? Tive a felicidade de assitir ontem, no Cine Conhecimento, ao filme russo de 1929, "Um Homem Com Uma Câmera", uma notável sucessão de imagens do cotidiano filmadas de uma maneira absolutamente artística e poética. O olho de uma câmera mostrando, com arte, o dia de uma cidade: as pesssoas, suas relações, o trabalho, a dor, a alegria, a natureza... Tudo, é claro, ainda em tempos de cinema mudo, sem uma palavra sequer; mas mesmo que pudesse tê-las, para que precisaria?

Esse olho onipresente do cameraman, o próprio realizador, Dziga Vertov, proporciona-nos imagens de incrível beleza plástica, de rara técnica, de extrema felicidade, conseguindo extrair impressionantes sincronias do homem com o mundo industrial, de máquinas com música, do urbano com a arte.
Precursor da linguagem de documentário no cinema e fundamental para uma linguagem como a do videoclipe, tão comum nos dias de hoje. Ousado, técnico com uma fotografia admirável e, mesmo no final da década de 20, com uma montagem de fazer inveja a muitos cineastas dos dias atuais.
Como é que um filme desse ainda não tinha entrado na minha vida? Simplesmente uma das melhores coisas que já vi.




Cly Reis

sábado, 23 de julho de 2011

Morre Amy Winehouse


Amy Winehouse, (1983-2011)
Infelizmente, não precisava ser nenhum adivinho pra saber que isso não ia demorar para acontecer, mas hoje, há poucas horas atrás, a polícia britânica encontrou o corpo de Amy Winehouse em seu flat, em Londres. A polícia não divulgou oficialmente a causa da morte, mas as primeiras informações parecem apontar para uma overdose (bem provável).
Uma pena.
Vai-se cedo, jovem e ainda transbordando talento, uma das maiores cantoras dos últimos tempos e talvez de todos eles.
Mas também, infelizmente, isso é natural nos gênios e esta precocidade da morte, essa rapidez de passagem por este mundo. Talvez seja porque não consigam permanecer muito tempo entre nós mortais.
Foi-se a última grande Diva da música.Uma diva meio marginal, maio avessa a tudo, meio química, meio etílica, meio rock'n roll demais, mas ainda assim, uma Diva.




C.R.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

cotidianas #94 - Um Dia na Vida


Um Dia na Vida
(açúcar, ameixa, biscoito... açúcar, ameixa, biscoito.)
Eu li as notícias de hoje, oh rapaz!
Sobre um sortudo que ganhou na loteria
E embora as notícias fossem um tanto tristes
Bem, não pude deixar de rir
Eu vi a fotografia


Ele arrebentou a cabeça num carro
Não tinha percebido que o semáforo havia mudado
Uma multidão parou e o encarou
Já tinham visto seu rosto em algum lugar
Mas ninguém tinha certeza se não era um Senador.

Eu vi um filme hoje, cara
O exército inglês acabara de vencer a guerra
Uma multidão teve que ir embora
Mas eu tive de olhar
Tendo lido o livro, eu adoraria te excitar!

Acordei, caí da cama
Passei uma escova pela minha cabeça
Desci as escadas e tomei um café,
E olhando para cima, vi que estava atrasado


Achei meu casaco e peguei meu chapéu
Subi no ônibus segundos depois
Subi as escadas e fumei um cigarro
E alguém falou, e eu entrei em um sonho


Eu li as notícias de hoje, rapaz
Quatro mil buracos em Blackburn, Lancashire
E embora os buracos fossem bem pequenos
Eles tiveram que contá-los um a um
Agora sabem quantos buracos são necessários para encher o Albert Hall
Eu adoraria te excitar!

“A Day in the Life”
Lennon/MacCartney

Ouça:
The Beatles  - A Day in the Life

postado por Daniel Rodrigues

cotidianas #93 - A importância de um amigo


Na cola do Dia do amigo aí vai uma piada que exemplifica bem o valor de um amigo.
************************
Um humilde caipira lá do interior foi contemplado em um sorteio com uma viagem num navio 5 estrelas. Além da viagem em si, do conforto, do luxo, a embarcação estaria cheia de VIP's, cantores, atores famosos, etc. Mas como sorte de pobre tem que vir sempre seguida de uma certa desconfiança, o navio do cruzeiro sorteado lá pelas tantas teve problemas e em meio à viagem, na vastidão do Atlântico, afundou.
O caipira conseguiu se salvar e vendo uma mulher se afogando, conseguiu salvá-la também. A muito custo, conseguiu nadar e fazer com que fossem conduzidos pelas ondas até uma pequena ilhota no meio do oceano. Lá descobriu que a ilha estava completamente deserta e descobriu também que salvara, nada mais nada menos que a Jennifer Lopez. Isso mesmo aquela cantora, e atriz que tem uma bunda enorme. O caipira num primeiro momento manteve os bons modos e o respeito, mas com o passar do tempo, o socorro não vindo, com a 'seca' batendo e com aquele mulherão na sua frente, passou a assediar constantemente a  famosa atriz. Em princípio J-Lo resistia, mas não tardou muito, embora seu salvador não fizesse muito o seu tipo, num misto de gratidão pela vida salva, de resignação, de indiferença, ou mesmo de necessidade física, acabou cedendo e satisfazendo os desejos sexuais do capial.
Aquilo, naturalmente, acabou repetindo-se com frequência e cada vez mais, conformada com a situação de ter que viver o resto da vida naquela ilha e por ao menos ter um companheiro, nossa querida e gostosa estrela até mesmo passou a guardar por ele um grande apêgo, poderia-se dizer quase amor, o que, pode-se afirmar seguramente, era correspondido por ele. Sendo assim, já superada toda e qualquer repulsa por parte da atriz, toda noite, todo dia, ou toda hora, era 'ferro-e-ferro'. Era como se cada dia fosse o último. Mas até que o ritmo começou a diminuir. Nosso caipira já não a procurava com tanta frequência e mostrava-se cada vez mais taciturno e sorumbático. Um dia ela, atenciosa e preocupada, resolveu perguntar o que o incomodava:
- Sabe o que é Dona Jennifer: -sempre a chamava de dona mesmo já tendo mantido com ela todo tipo de relações íntimas possíveis - é que lá no interior onde eu morava eu tinha um  amigo, o Nézinho, e a gente conversava de tudo, eu contava minhas coisa pr'ele e ele contava pr'eu e eu é sentindo uma bruta farta dele.
- Mas não basta eu aqui? Nós dois? - perguntava ela, que já tinha aprendido português àquelas alturas, intrigada e uma ponta de comiseração.
- É diferente, Dona Jennifer - dizia ele - Faz farta tê arguém com quem a gente possa trocá uma ideia.
- Mas você pode conversar comigo.
- É diferente... - ia repetindo mas se deteve percebendo algo - Mas oiando bem assim até que a senhora dá os ares do João. Acho que a senhora pode fazer uma coisa que eu pode me ajudá.
Ela logo se animou coma possibilidade de reabilitar a alegria de seu companheiro de ilha, praticamente marido.
- A senhora assim com o cabelo preso, com esse pedaço de terno véio e com esse bigodinho - dizia enquanto desenhava no rosto dela um bigode falso com o carvão da fogueira da noite anterior - fica o Nézinho cuspido e escarrado.
- Agora tá bom? - devidamnte caracterizada - Não vai mais sentir falta do Nézinho?
- Tá quase bão. Ainda farta arguma coisa... - disse ainda claramente insatisfeito.
- Que é? - perguntou ela não escondendo a decepção.
- Dona Jennifer, a senhora podia caminhar lá até aquele coqueiro e vim vindo pra cá, pra mode quê parecê que o João tá vindo assim na minha direção, como se eu tivesse encontrando ele depois de tempo. Pra ficar mais naturar, sabe.
Ela prontamente, disposta a reanimar seu único homem no mundo, foi até a árvore e de lá, com o cabelo preso, seu bigode desenhado e trajada com seu trapo de paletó foi-se dirigindo até ele. Ao chegar bem próximo, ele enfim exclamou alegre:
- Nézinho, meu amigo véio! Quanto tempo! Nézinho, nem sabe quem eu tô comendo...

********************
Moral da história: não adianta de nada comer a Jennifer Lopez se você não tiver um amigo pra contar.

domingo, 17 de julho de 2011

Trio 3-63 – Projeto UniMúsica – Salão de Atos da UFRGS – Porto Alegre -RS (14/07/2011)


Olorum no toró: uma homenagem a Moacir Santos


Moacir Santos (1926-2006)
Tem dias que a chuva parece precipitar além do normal. E o último 14 de julho foi assim – pelo menos em Porto Alegre. Choveu 48 horas sem parar. E não era qualquer chuvinha. Era “chuva que Deus mandava”, incessante, bastante. Mas tanta água vinda do céu foi, para os mais atentos, o prenúncio de algo transcendental que aconteceria na noite deste fatídico e molhado dia. Numa homenagem ao maestro pernambucano Moarcir Santos, um dos maiores gênios da música universal dos últimos tempos, o Trio 3-63, dentro do Projeto UniMúsica 30 anos – tempomúsicapensamento, fez um inesquecível show para cerca de 400 destemidos – e abençoados – espectadores no Salão de Atos da UFRGS.
Trio 3-63: apresentação curta porém marcante

Formado pela flautista Andrea Englert, pelo pianista Paulo Braga e pelo percussionista Marcos Suzano, três feras, o Trio 3-63 destilou um show curto mas emocionante do início ao fim, onde predominou a execução perfeita, unindo técnica e alma, e, claro, a reverência a Moacir Santos, instrumentista, arranjador e compositor, autor de obras-primas da MPB, como o célebre álbum “Coisas”, de 1960, e “Opus 3 nº 1”, de 1979. Moacir, que viveu grande parte de sua vida artística nos Estados Unidos, onde é venerado, foi, ao lado de Tom Jobim  e Hermeto Paschoal, o grande mestre da revolução harmônica da música brasileira moderna. Sua estética tem, com um hibridismo impressionante, toques de jazz e erudito misturados aos ritmos essencialmente brasileiros, bebendo no vasto folclore do nordeste (maracatu, coco, roda, xaxado, cantos religiosos), na tradição dos ritmos afro-brasileiros (lundu, jongo, candomblé, samba, marcha, choro, maxixe) e até caribenhos (rumba, habanera, cuban jazz). Tudo sempre com muito bom gosto e perfeição.
Marcos Suzano, fera da percussão
No show, o Trio 3-63 destilou clássicos como “Coisa nº 1”, “Paraíso” e “Outra Coisa”. Porém, fizeram mais do que isso. A começar pela inteligente incursão a obras de outros compositores influenciados e/ou influenciadores de Moacir Santos, como os “Motivos Nordestinos”, do percussionista e compositor Luiz D’Anunciação, e “A Inúbia do Cabocolinho”, do maestro e pesquisador musical Guerra-Peixe, ex-professor de Moacir nos seus primórdios tempos em Pernambuco. Nesta seara, ainda apresentaram a gostosa “Radamés y Pelé”, de Tom Jobim (homenageado que, por sua vez, homenageava, além do craque da bola, outro craque, este dos sons, Radamés Gnatali, grande influenciador da bossa nova e de Moacir), além de uma composição do próprio Paulo Braga, “Farol”, onde claramente o pianista conjuga todas essas referências.




Mas o trio guardaria ainda outras duas surpresas. Primeiro que, a certa altura, o trio passou a quinteto. Primeiramente, com a entrada no palco do multi-instrumentista Lui Coimbra, que tocou violão e cantou a suave e brejeira “A Santinha lá da Serra”, parceria de Moarcir com o poeta Vinícius de Moraes. Depois, ao cello, Lui acompanhou a banda em outra novidade do show: “The beautiful life” e “Love Go Down”, canções inéditas no Brasil resgatadas por Andrea no acervo de Moacir nos EUA.
Ao final do show, junta-se aos integrantes o cantor e percussionista Carlos Negreiros, negro alto, tipo etíope, todo de branco como que uma entidade da umbanda. Com seu bongô e sua bela voz grave, mas de refinado alcance dos agudos, cantou com os quatro “Coisa nº 8 - Navegação”, de charmosa melodia e letra poética (“Depois de tanto palmilhar/ Desvios e bifurcações/ Da proa desta embarcação/ Consigo interpretar, enfim/ A carta de navegação/ Que o mar traçou dentro de mim”), proporcionando o momento mais emocionante do show. Foi também Negreiros quem creditou a Olorum, senhor da criação e dos céus, o milagre de estarmos ali, mesmo com o toró que o próprio orixá fazia cair lá fora. Só podia ser uma mensagem divina, pois fomos, de fato, abençoados nesta noite. Por Olorum e por Moacir Santos, cuja poderosa alma estava lá também, encharcando-se de alegria e beleza como nós todos.



sábado, 16 de julho de 2011

R.E.M. - "Reckoning" (1984)

O Disco da Vida e da Morte

"Michael ouve a melodia e então escreve uma letra ou acha alguma que se encaixa. Elas são incrivelmente pessoais, coisas que aconteceram com ele, por isso, às vezes as pessoas não conseguem decifrá-las."
Mike Mills


Certa vez estava em um ônibus, passando sobre um viaduto e ouvindo o “Reckoning” do REM no walkman. Por um instante aquele som me preencheu de tal maneira, me elevou de tal modo que cheguei a dispensar minha vida por um breve momento. Disse silenciosamente, “Deus, se tu quiseres, podes fazer esse ônibus despencar deste viaduto agora mesmo, porque ter vivido até aqui e morrer ouvindo algo assim terá me bastado”. Aguardei por um momento, ouvindo a música, atento a um possível impacto na mureta e um salto no vazio, mas logo abri os olhos e vi que o ônibus já havia descido do viaduto e, ainda que houvesse chance de uma colisão logo ali a diante, parecia que Ele ignorara minha ‘permissão’. O Velho lá por sua vez deve ter dito, “larga de bobagem, menino, que ainda te reservei muita coisa. Vai, vai...”. E tudo seguiu em frente até hoje.
Colocando assim pode parecer que o “Reckoning” seja a coisa mais maravilhosa do mundo, o álbum definitivo, a obra suprema, mas não... Não é isso. É que ele consegue na sua simplicidade, na sua sutil beleza, na sua pureza, na sua, até, crueza, soar tão gostosamente, tão suficiente e tão indispensável que chega a parecer algo assim como um papo com o melhor amigo, um vento na cara, um doce saboroso, um beijo de carinho, um sono numa manhã de sábado.
Do tempo que o REM era mais bruto, mais simples, mais alternativo, mais autêntico, “Reckoning” é feito só de jóias: "Harborcoat", a primeira, é um college rock cheio de ska bem gostoso e embalado e já de cara uma das minhas prediletas ; a adorável melodia de "7 Chinese Brothers" é encantadora; a lindíssima "So. Central Rain (I'm Sorry") antecipa momentos que veríamos depois mais lapídados em "Green" e "Out of Time"; "Pretty Persuasion", talvez seja a mais pop do disco, mas o que não representa, em absoluto, um defeito; “Time After Time”, que vem em seguida com seus ares árabes-orientais, é simplesmente apaixonate; "Second Guessing" tem uma levada embalada e empolgante; a belíssima "Camera" vem nos explorando, nos ganhado, nos conquistando com seu ritmo lento até nos arrebatar de vez com a emoção e envolvimento da interpretação de Stipe; e outra das grandes do álbum, (Don't Go Back To) Rockville, é bem country, bem folk e totalmente raiz americana, aliás uma das marcas do disco, no geral.
Outro daqueles pra se ter em LP: originalmente as músicas foram distribuídas em lado direito e lado esquerdo e isso, certamente, dentro dos quebra-cabeças de letras, momentos e sonoridades montados por Michael Stipe ao longo do disco, tem também seu significado.
Felizmente Deus sequer levou em consideração minha autorização besta de criança. Se tivesse acabado ali não teria criado um blog, não visto meu time Campeão do Mundo, não teria conhecido minha esposa, não veria agora minha filha que está a caminho, entre outras tantas coisas boas (e ruins) que aconteceram desde lá. Mas mesmo assim, sem qualquer motivo efetivamente palpável ou justo, até hoje, quando pego o “Reckoning” pra ouvir não consigo deixar de pensar nele como O Disco da Vida e da Morte.
**************************
FAIXAS:

  • Lado 1 - Esquerdo


  1. "Harborcoat" – 3:54
  2. "7 Chinese Bros." – 4:18
  3. "So. Central Rain (I'm Sorry)" – 3:15
  4. "Pretty Persuasion" – 3:50
  5. "Time After Time (AnnElise)" – 3:31



  • Lado 2 – Direito


  1. "Second Guessing" – 2:51
  2. "Letter Never Sent" – 2:59
  3. "Camera" – 5:52
  4. "(Don't Go Back To) Rockville" – 4:32
  5. "Little America" – 2:58

*****************************
Ouça:
R.E.M. Reckoning




Cly Reis

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Depeche Mode - "Violator" (1990)



"Deixe-me te mostrar o mundo em meus olhos"
da música "World in my Eyes"


Banda frequentemente subestimada por ser, equivocadamante, incluída num rol de grupos oitentistas de synth e technopop que simplesmente ligavam as 'máquinas' e deixavam as coisas acontecer, o Depeche Mode, indubitavelemente se distanciava desta turma por virtudes notórias e superiores sobretudo no que dissesse respeito às composições. Com um tecladista e compositor altamente qualificado, diferenciado e criativo, Martin L. Gore; um vocalista de interpretações sensíveis e precisas, com um vocal grave e bem empostado, Dave Grahan; com letras intimistas, profundas e inteligentes; e composições muitíssimo elaboradas, bem estruturadas e sofisticadas; fazia um pop eletrônico que trazia em seu rastro ainda ares do pós-punk e influências muito vivas do chamado gótico do início dos anos 80.
"Violator" de 1990, o oitavo trabalho da banda, é um daqueles discos, literalmente, de marcar época, servindo como referência na sua linguagem, na sua proposição e no contexto musical e artístico daquela transição de décadas.
O disco foi muito bem recebido pelo público e emplacou uma série de hits, entre eles "World in My Eyes" um pop sombrio impecável que abre o disco; a ótima "Enjoy the Silence" mais embalada e gostosa de dançar; "Policy of Truth", composição interessantíssima e igualmente excelente; e "Personal Jesus", com sua base-riff marcante, buscada sutilmente do country, simplesmente uma das grandes músicas da história, sendo multi-reverenciada por diversos artistas, tendo inclusive regravações bem bacanas de Marilyn Manson e Johhny Cash.
Das menos conhecidas, a lenta e viajante "Sweetest Perfection" é uma picada na veia; "Clean", mesmo pesada, densa, tenta ser uma luz na escuridão; e a belíssima "Blue Dress", que lembra um pouco as composições western de Enio Morricone é uma das minhas favoritas.
Depeche Mode, provavelmente junto com o New Order e algumas outras poucas 'boas almas' do techno synth ou similares naqueles idos anos 80, representaram a prova de que podia haver vida inteligente no pop e que era possível fazer música eletrônica de qualidade, e "Violator" é inegavelmente um dos grandes símbolos disso.
********************************
FAIXAS:
1."World in My Eyes"
2."Sweetest Perfection"
3."Personal Jesus"
4."Halo"
5."Waiting for the Night"
6."Enjoy the Silence"
7."Policy of Truth"
8."Blue Dress"
9."Clean"

********************
Ouça:
Depeche Mode Violator


Cly Reis

terça-feira, 12 de julho de 2011

Prince no Brasil



Fãs do anãozinho de Minneapolis, preparem as carteiras, porque o cara vem aí: Prince, depois de 20 anos volta ao Brasil para única apresentação no festival Back2Black que acontecerá de 26 a 28 de agosto no Rio de Janeiro na Estação Leopoldina. Mesmo sendo Prince inegavelmente a grande atração o restante do festival deve ser bem bacana, uma vez que tem em seu cast a boa Macy Gray e a clássica Chaca Kahn, além da 'ilustre' presença de... Aloe Black (???).
Mas apesar de curtir muito o Prince acho que não vou vê-lo ao vivo. Às vezes tenho um pouco dessas coisas: tem artista que é pra curtir em CD, LP e tal, e tem artistas que é pra se ver ao vivo. Acho que prefiro ficar ouvindo meus disquinhos do Prince. Posso me arrepender depois mas acredito que seja decisão tomada mesmo.



C.R.

"I'm a Cliché - Ecos da Estética Punk" - CCBB - Rio de Janeiro












Patty Smith fotografada pelo marido,
Robert Mapplethrope, um dos
fotógrafos mais emblemáticos do
movimento.
Contracapa do clássico
"Nevermind The Bollocks..."
dos Sex Pistols: colagens
ao estilo carta de sequestro
Indo do espontâneo ao fabricado; do original ao consequente; do autêntico ao fake, a exposição "I'm a Cliché" que abriu hoje no CCBB aqui no Rio, mostra um pouco da cara, da estética, do modelo, do comportamento do movimento punk, viajando através de fotos, posters, capas de disco e outros elementos visuais daquela cultura, ou anticultura, ou contracultura que se manifestava no final dos anos 70 e que deixou 'irreparáveis danos' e heranças para as gerações seguintes.

 Grande pedida!
Vou lá conferir nos próximos dias.


**************

O Centro Cultural Banco do Brasil
fica na Rua Primeiro de Março, 66, Centro
e a exposição fica lá de
12 de julho a 02 de outubro
sempre de Terça a Domingo
das 9h às 21h
com Entrada Franca





segunda-feira, 11 de julho de 2011

O Frango Atirador (Atirador???)

Reestabelecendo a verdade histórica 4

cotidianas #90 - "Rotina"


Amanheceu eu já acordei
Eu escovo os meus dentes
Eu estou OK.
Água fria no meio da cara
Corta o bode e você não para
Na rua eu compro um jornal
Dou uma olhada quando fecha o sinal
Impostos, taxas, um horror
Morreu o candidato a governador
E pra você
O que?
Não, não pare
O que ?

"Cidade", Souza, Aldir Mendes de
(óleo sobre tela)
Trabalho sempre com decência
Pra melhorar a minha aparência
Aperta o nó da minha gravata
Mas eu estou chegando na hora exata
Odeio relógio de ponto
As paranóias depois eu conto
Alô, Senhor!
Muito bom dia!
Desde ontem a gente não se via.
E pra você
O que?
Não, não pare
O que ?

Agora pode descansar
Tem uma hora para almoçar
É melhor um café lá da esquina
Do que a comida desta cantina
A tarde passa devagar
Aqui na cela do oitavo andar
Todos com cara de doente
Quando termina o expediente
E pra você
O que?
Não, não pare
O que ?

O que nós temos pra diversão
Guardas, freiras, mendigos no chão
Não deu certo peça divórcio
Ou compre um carro pelo consórcio
Meter a mão no dinheiro é crime
Quando não se joga no outro time
Trabalhe sempre como um jumento
Mês que vem talvez saia aumento
E pra você
O que?
Não, não pare
O que ?

***************************
"Rotina"
(Hummel, Mullen, Nova)

Ouça:

domingo, 10 de julho de 2011

Derek and the Dominos - "Layla and Other Assorted Love Songs" (1970)


Uma grande paixão de Clapton: um grande clássico


"Layla,
você me pôs de joelhos,
Layla"


O nome deste disco "Layla and Other Assorted Love Songs" , do Derek and The Dominos, mostra que a música-chave “Layla” é o indicativo da sua importância para esta obra. Uma mulher foi a responsável para que este registro felizmente fosse lançado: a modelo Pattie Boyd. Essa é a famosa história da paixão de Eric Clapton - que iniciou os Dominos em 1970 - pela esposa de um dos seus maiores amigos, George Harrison. Nessa época, o bluesman britânico estava exagerando nas drogas e nas bebidas. Isso aliado a esta grande decepção amorosa não-correspondida. O álbum foi totalmente dedicado a ela.
Essa obsessão por Pattie fez com que Clapton colocasse muito coração, alma e talento neste disco. No final dos anos 1960, a recém havia saído do Blind Faith, um supergrupo formado depois do término do Cream. E pasmem, após esse fato, o já então “Deus da Guitarra” foi ser músico de apoio da banda Delaney, Bonnie and Friends.
Enquanto tocava no grupo de Delaney Bramlett, Clapton foi produzido pelo próprio e gravou seu primeiro álbum solo, com título homônimo. Até então, ainda começava a soltar mais a sua voz, como também nas composições de letras. No Cream, suas participações nos vocais ainda eram tímidas.
Após o fim da Delaney, Bonnie and Friends, Clapton recrutou os mesmos músicos que faziam parte da banda. O entrosamento já estava “na ponta dos cascos”. Dessa forma que Bobby Whitlock (piano e teclados), Jim Gordon (bateria) e Carl Radle (baixo) formaram o Dominos, com apenas um disco. Também há de se destacar a ilustre participação do guitarrista Duane Allman, da The Allman Brothers Band.
Sobre os músicos, o pianista Bobby Whitlock apresenta uma grande voz, como se fosse um cantor negro vindo direto do Mississipi. Mas, se for ver em fotos e vídeos, é apenas um baixinho com feições indígenas. Whitlock divide muito bem os vocais em algumas canções, além de contribuir nas composições. Já na “cozinha do grupo”, Gordon e Radle pulsam numa sincronia só. Na autobiografia de Clapton, são qualificados por ele como um dos melhores músicos com quem já tocou.
A origem do nome da banda é curiosa e inusitada. Era para ter sido Del And The Dominos, pois Del era um dos apelidos de Clapton, também conhecido como Slowhand. Mas, na primeira apresentação, o locutor pronunciou em alto e bom tom como Derek And The Dominos. Dessa forma, o nome acabou emplacando.
Quanto às músicas, como na maioria das canções de blues, o sofrimento é a marca desse registro. As dores relacionadas ao amor platônico de Clapton lhe permitiram escrever letras inspiradas e, de certa forma, nostálgicas e desesperadas. Um exemplo é o trecho de “Bell Bottom Blues”, uma das grandes baladas deste disco. “Do you want to see me crawl across the floor to you? Do you want to hear me beg you to take me back?” (Você quer me ver rastejando pelo chão por você? Você quer me ouvir implorando pra você me aceitar de volta?). Realmente, estava cegamente apaixonado por Pattie. O que, anos mais tarde, conseguiria conquistá-la e se casar. Porém, como nem tudo são flores, acabou se divorciando da sua ex-amada.
A acústica “I Am Yours” poderia ser colocada perfeitamente no Acústico MTV de Clapton, que foi lançado após mais de 20 anos deste disco do Dominos e soaria igualmente contemporâneo. Nessa música não poderia ser diferente, mais frases de nostalgia: “However distant you may be, there blows no wind but wafts your scent to me” (Por mais distante que você possa estar, nenhum vento sopra, mas traz seu perfume até mim).
Por ser um disco sobre paixão não-correspondida, isso não significa que sejam músicas românticas ou para baixo. “Anyday” é uma delas, a qual o tecladista Bobby Whitlock mostra seu vozeirão. Já em “Keep On Growing”, a levada musical é bem swingada entre guitarra e baixo, dando mais “agito” ao disco. Em ritmo quase de rock, destaques para “Tell the Truth” e, logo na sequência, “Why Does Love Got To Be So Sad?”, com sonoridade pulsante e solos de guitarra no melhor estilo do Slowhand.
O álbum possui ótimas versões do blues como “Key To The Highway” - outra excelente balada -, “It's Too Late” - uma letra que alinha bem o sofrimento de não ter a “Misses Boyd” por perto - e “Little Wing”, de Jimi Hendrix - que faz lembrar a sonoridade dos tempos do Cream.
Para fechar os comentários, vem ela, Pattie, ou melhor, “Layla”. A origem da composição vem da lenda de Laila e Majnun do poeta persa Nizami, no século XII. A história é a saga de dois jovens e um amor proibido. Esta música, um grande hit e confundida como da carreira solo de Clapton, foi a “garota dos olhos” para concepção destas outras canções de amor. O interessante é que, na segunda parte de “Layla” (a instrumental), Whitlock toca o piano de forma melancólica, parecendo ter captado o sentimento de esperança e agonia que Clapton tinha por sua amada.
Em resumo da ópera, é um disco de se apaixonar, como se fosse por uma encantadora modelo loira de olhos azuis. E, muito provável, você não vai parar de desejar e pensar nela, nesta obra musical. Literalmente “you've got me on my knees”, como é referido em “Layla”.

FAIXAS:
"I Looked Away" (Clapton, Whitlock) – 3:05
"Bell Bottom Blues" (Clapton) – 5:02
"Keep On Growing" (Clapton, Whitlock) – 6:21
"Nobody Knows You When You're Down And Out" (Cox) – 4:57
"I Am Yours" (Clapton, Nezami) – 3:34
"Anyday" (Clapton, Whitlock) – 6:35
"Key To The Highway" (Segar, Broonzy) – 9:40
"Tell the Truth" (Clapton, Whitlock) – 6:39
"Why Does Love Got To Be So Sad?" (Clapton, Whitlock) – 4:41
"Have You Ever Loved A Woman" (Myles) – 6:52
"Little Wing" (Hendrix) – 5:33
"It's Too Late" (Willis) – 3:47
"Layla" (Clapton, Gordon) – 7:04
"Thorn Tree In The Garden" (Whitlock) – 2:53
******************************
Ouça:
Derek and the Dominos Layla and Other Assorted Love Songs


sábado, 9 de julho de 2011

Grand Funk Railroad - "E Pluribus Funk" (1971)


Grand Funk a todo vapor

"Vamos lá todos, nós vamos nos divertir."
Mark Farner



O nome do Grand Funk Railroad tem como inspiração a estrada de ferro Grand Trunk Western, localizada na cidade de Flint, nos Estados Unidos. Lugar aonde surgiu a banda. É a partir deste ponto de partida, que começamos uma viagem chamada “E Pluribus Funk” . Com Mark Farner (vocal, guitarra, teclado e harmonica), Don Brewer (bateria e vocal) e Mel Schacher (baixo), essa rota transita pelo ano de 1971. O Grand Funk fazia aquela bela mescla entre rock e o puro funk americano. Nesta época, o grupo estava a toda e com um enorme sucesso na terra do Tio Sam. Para se ter uma noção, um dos grandes feitos foi bater os Beatles, com a lotação completa, no clássico Shea Stadium, de Nova Iorque. Ao todo, 12 mil pessoas compraram ingressos em apenas 72 horas.
O embarque de 'E Pluribus Funk' inicia com Farner anunciando aos “passageiros” a seguinte frase: “come on everybody, we're gonna have a good time” (vamos lá todos, nós vamos nos divertir). Realmente, esta viagem terá uma excelente trilha sonora de fundo. Nesta canção, a "Footstompin' Music”, há uma ótima troca de teclados para as guitarras. Em boa parte do som, o baixo e a bateria mantém nos trilhos a canção, com as aparições pontuais das harmonias de Farner.
Na próxima estação vem a letra mais politizada do disco, a "People, Let's Stop the War", tendo frases como: “from fighting in a war, that causes big men to get rich” (lutando em uma guerra, que faz com que grandes homens fiquem ricos). Além da argumentação política, Farner usa, em todo o riff, o wah wah em sua guitarra, bem característico e marca registrada em alguns sons do Grand Funk. Outra peculiaridade do grupo é a divisão entre os vocais, com Farner e Brewer cantando juntos “o fim dessa guerra”.
Já a parada seguinte se chama "Upsetter". Aliás, essa é uma que vale a pena calibrar o “bass” das caixas do alto falante, como em outras várias músicas do disco. As linhas de baixo de Schacher são muito bem elaboradas e presentes, cooperando, em muito, na harmonia. Nessa música, o solo fica por conta da harmônica de Farner, contribuindo para soar como um blues tradicional.
"I Come Tumblin'" inicia com um breve do solo de Farner. No entanto, o destaque fica também logo no início da música, mais especificamente na bateria de Don Brewer. A sensação sonora é de um comboio ferroviário ou de uma manada de rinocerontes chegando em sua direção. Após esse atropelamento, acontece uma breve caída para novamente a bateria atropelar tudo. Esses fatos acontecem em vários momentos da música. No encerramento, Schacher sola no baixo, tendo o “comboio” de Brewer de acompanhamento.
Para queimar mais o caldeirão dessa locomotiva, o baterista Don Brewer canta, com sua voz grave e agressiva, em "Save the Land". Essa é a sua única participação como vocal principal deste álbum.
Com um solo de guitarra ao estilo blues vem "No Lies". Nessa canção, como diferencial, foram gravadas duas guitarras. Além disso, mais mensagens são dadas aos “passageiros”. Um dos trechos refere: “we don't need no leader, to tell us just what's wrong” (nós não precisamos de nenhum líder para nos dizer exatamente o que está errado).
No desembarque, "Loneliness" encerra o 'E Pluribus Funk'. No começo, a expectativa é de uma balada, mas, na realidade, essa é a música mais elaborada do disco. O produtor e empresário, Terry Knight, mostrou maior trabalho nessa execução. Para isso, contratou o maquinista, ou melhor, o arranjador Tom Baker para botar mais lenha na locomotiva. Com uma grande orquestração - composta de instrumentos de sopros e arranjos de cordas -, Mark Farner solta a voz mais uma vez e sustenta, por diversas vezes, seus agudos. A orquestra se alinha muito bem com o power trio. O fim apoteótico tem um coral de vozes cantando sobre a solidão, por mais contraditório que isso possa soar.
Para quem não teve a oportunidade de escutar, vale a pena comprar um ticket dessa viagem. Esse passeio musical é diversão pura para os adoradores de rock. Com certeza, as escalas dessa trip farão com que você as queira repetir por diversas vezes.
****************************
FAIXAS:
1."Footstompin' Music" - 3:48
2."People, Let's Stop the War" - 5:12
3."Upsetter" - 4:27
4."I Come Tumblin'" - 5:38
5."Save the Land" - 4:14
6."No Lies" - 3:57
7."Loneliness" - 8:47

*********************
Ouça:
Grand Funk Railroad E Pluribus Funk



sexta-feira, 8 de julho de 2011

cotidianas #89 - "Jhony"


Jhony é menino
Embora cresça sem saber
Que seu destino é jogar bola
E fazer gol
Jhony cresce
"Meninos Jogando Futebol", Volpi, Alfredo
(baixo-esmalte sobre azulejo, 15x15cm)
Mas aqui não desaparece

Na sua mente uma vontade de jogar um futebol

Futebol

Jhony é bacana
Menino vivo não sem engana
Mete as "cabeça" e passa à rente
Faz o vestibular


Jhony estuda
Se forma hoje é doutor
Mas só pensa em futebol
Futebol


Jhony não desisti
Perde o jogo fica triste
Sente vontade de jogar
E de participar
E decide
Tirar a camisa do cabide
Põe a chutereira e o calção
E partiu prum futebol
Futebol

**********
letra da música "Jhony"

de Tim Maia




postado por Daniel Rodrigues

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Erasmo Carlos - "Carlos, Erasmo..." (1971)

"A música impediu que eu fosse para o crime"
Erasmo Carlos



Depois de protagonizar junto com Roberto Carlos o estouro da Jovem Guarda, tornando-se um dos artistas de maior popularidade do Brasil, Erasmo, no final dos anos 60, viu-se numa encruzilhada. Roberto, ídolo de multidões, guinara sua carreira para um exitoso e popular estilo misto de bolero, balada e MPB, mais “adulto” que o iê-iê-iê e adequado a uma classe média de um economicamente milagroso país ditatorial. Erasmo, obviamente, não podia ocupar o mesmo lugar que o parceiro. O negócio seria seguir outro caminho. Então, fez uma escolha: dar vazão à sua mente criativa e “alternativa”. O marco inicial e auge desta fase é o brilhante disco “Carlos, Erasmo...” , de 1971. Em clima de reunião musical com os amigos, ele se liberta da pecha de coadjuvante e realiza um álbum “cariocamente” descolado e, ao mesmo tempo, psicodélico, onde se vale do samba, rock, música cubana, soul e baião – não necessariamente nesta ordem.
A começar pelo título, ratificando de qual dos “Carlos” se está falando, o disco é a afirmação da indenidade de Erasmo como artista. E isso se percebe como conceito em todas as faixas, deixando a sua marca em todas elas. Tal como no seu trabalho anterior (“Erasmo Carlos & os Tremendões, 1970), Erasmo gravara uma música de Caetano Veloso; mas desta vez, ao invés de somente interpretar, como bem fizera com a bossa nova “Saudosismo”, Erasmo reinventa a canção do baiano. Encomendada por ele a Caetano, à época ainda no exílio em Londres, “De Noite na Cama” é uma verdadeira ode a esta nova fase do Tremendão: como numa festa com muitas vozes ao fundo e com participação de toda a galera da banda no coro (entre eles os ex-Mutantes Dinho Leme e Liminha), a faixa que abre o disco traz um maravilhoso berimbau acompanhando o baixo (engenhosa ideia que o RPM repetiria 17 anos depois em “A Estratégia do Caos”, do álbum “Os 4 Coiotes”), uma guitarra afiada na base e uma cuíca chorando por toda a melodia. Um show! Misturando samba, soul, rock e baião, Erasmo celebra o Tropicalismo de Caetano e Gil e demarca sua entrada no segundo momento deste movimento, influência que confirmaria nos seus álbuns seguintes daquela década.
O disco traz lindas parcerias com Roberto: a swingada “É Preciso Dar um Jeito Meu Amigo”, a “viajante” “Sodoma e Gomorra” e a rumba “chapada” “Maria Juana” – na qual a dupla, muito antes do Planet Hemp popularizar a verdinha, capciosamente proclamava: “Eu quero Maria Joana”. Outra incrível dos dois é “Mundo Deserto”, um funk no melhor estilo Motown e de ótima letra em que Erasmo solta o gogó, mostrando toda sua influência da black music americana.
O disco traz ainda outras duas pérolas. Uma delas é outra versão de muita criatividade, desta vez prestando vivas a outro amigo tropicalista, Jorge Ben, na genial “Agora Ninguém Chora Mais”. Nesta, Erasmo convoca os parceiros Golden Boys, Fevers, MPB4 e a banda de apoio para cantarem junto com ele, formando uma capa sonora densa e de rara beleza. Com arranjo do maestro-maluco Rogério Duprat, a música de Ben vira um funk sincopado com efeitos psicodélicos, como ruídos “espaciais” e um impressionante solo de sino (!). A guitarra pesada, lembrando Funkadelic, sai dos dedos de outro artista referência do Tropicalismo, o “inglês brasileiro” Lenny Gordin. O resultado é uma obra-prima, que consegue ser melhor que a original. E, como se não bastasse, uma jogadinha genial: o coro, após cantar toda a primeira parte, se duplica na segunda, só que invertendo as estrofes, fazendo com que dois coros se sobreponham, reencontrando-se no final no verso: “Chora maaaaaais...”, o que provoca um efeito impressionante. Simples, mas de pura criatividade. Com poucos recursos (a hoje precária mesa de 16 canais dos estúdios da Phillips), Erasmo alcança nesta música um resultado tão moderno que é de fazer um Beck corar de vergonha.
Quase tão legal quanto, “Dois Animais na Selva Suja da Rua”, de Taiguara, além da letra reflexiva e poética (“Por isso somos iguais/ Nós somos dois animais que se animam/ que se amigam...”), tem a base marcada por notas fortes de piano e um instrumental intenso, chegando ao ápice no refrão, quando todos os elementos se adensam, inclusive a linda orquestração de cordas do maestro Chiquinho de Moraes.
Cult, “Carlos, Erasmo...”, 31º entre os 100 melhores discos da MPB pela Rolling Stone, é seguramente mais vanguardista e contemporâneo do que muita coisa que se faz hoje dentro e fora do Brasil. Ao se comemorar os 50 anos de carreira de Erasmo Carlos, uma justa homenagem a um dos grandes artistas brasileiros vivos.
****************************

FAIXAS:

  1. "De noite na cama"
  2. "Masculino, feminino"
  3. "É preciso dar um jeito, meu amigo"
  4. "Dois animais na selva suja da rua"
  5. "Agora ninguém chora mais"
  6. "Sodoma e Gomorra"
  7. "Mundo deserto"
  8. "Não te quero santa"
  9. "Ciça, Cecília"
  10. "Em busca das canções perdidas nº 2"
  11. "26 anos de vida normal"
  12. "Maria Joana"

*****************************
Ouça:
Erasmo Carlos - Carlos, Erasmo...
-------------------------------------
Altamente recomendáveis também os discos “Sonhos e Memórias: 1941-1972” (1972), que traz clássicos como “Mané João” e “Mundo Cão” (da trilha do filme “Os Machões”, pelo qual Erasmo foi premiado como Melhor Ator no Festival de Cinema de Brasília), e o excelente “Banda dos Contentes” (1976), disco que marcou época pelo enorme sucesso da faixa de abertura, "Filho Único", da trilha de uma novela da Globo, e que conta também com uma das melhores canções de Gilberto Gil, feita especialmente para Erasmo: “Queremos Saber” (regravada por Cássia Eller no seu Acústico MTV).

Ouça também:
Sonhos e Memórias
Banda dos Contentes

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O Frango Atirador

Reestabelecendo a verdade histórica - 3

cotidianas #88 - Me mata (ou uma piada contada de uma maneira muito dramática)

A família estranhou a demora do casal em sair do quarto pela manhã.
Está certo que havia sido a noite de núpcias, que podiam estar querendo se estender nos prazeres de primeira noite, mas aquilo ali já era demais. Já passava de duas da tarde e nada de saírem do quarto. Tinham viagem de lua-de-mel ainda naquela tarde, tinham perdido toda a noção? A mãe da moça resolveu então, embora constrangida, bater na porta do quarto:
- Ademir, Maria Alice, vocês não vão almoçar? Já são duas da tarde. Vocês não viajam hoje mais tarde? Então, ta na hora dos pombinhos acordarem – pronunciou esta última frase simulando um tom malicioso e descontraído.
Mas nada de resposta. Nenhum sinal de movimento lá dentro. Dona Dalva começo a ficar preocupada:
- Maria Alice, Maria Alice, tu ta passando bem? Ademir, aconteceu alguma coisa?
E nada de resposta.
Bateu um repentino desespero na mãe da recém-casada. Pressentindo alguma coisa ruim começou a chamar todo mundo da casa:
- Betinho, Josué, acode aqui, aconteceu alguma coisa. Eles não respondem, não se mexem, não falam nada...
Logo apareceram os dois, um surgido de cada canto da casa, e, assustados também, trataram de repetir a ação de Dona Dalva de bater na porta, só que agora com mais força, veemência e preocupação. Não tendo resposta, Seu Betinho, o pai da noiva e Josué, o irmão, não precisaram trocar uma palavra, entenderam-se pelo olhar e puseram-se os dois a trombar na porta. Bastaram duas batidas com os ombros para que a porta se abrisse e se deparassem então aquele quadro aterrorizante: Ademir, ainda de fraque, estava sentado na beira da cama com a cabeça pendida entre as mãos completamente impassível e Maria Alice jazia deitada ao lado da cama com a cabeça totalmente ensanguentada, rasgada, aberta.
O quarto foi tomado por pânico, gritos histéricos, choro, tudo ao mesmo tempo. A mãe, Dona Dalva, estava inconsolável, o irmão tentava acalmá-la, o pai chorava estático ainda ao pé da porta que acabara de arrombar. Não entendia porque aquele rapaz que sempre lhe parecera tão amoroso, carinhoso, atencioso com a filha faria uma barbaridade daquelas. Sempre lhe pareceram tão felizes, tão feitos um pro outro . Ele sempre prometia a ela fazer tudo o que ela quisesse, tudo o que ela pedisse.
Num esforço maior que sua capacidade, num esforço incomum, Seu Betinho conseguiu aproximar-se da cama onde parou à frente do imóvel Ademir:
- Por que? Por que, meu filho?
Ademir levantou a cabeça e só então mostrou seus olhos inchados e vermelhos, e mirando o velho como que pedindo perdão, respondeu:
- Eu sempre disse que nunca ia negar nada pra ela. Ela foi tão suplicante...
- O que você fez? O que você fez? – inquiriu o velho, agora com veemência e desespero.
- Ela disse “me mata com aquela coisa de mijar, me mata”, daí eu peguei aquilo e bati, bati, bati na cabeça dela. – e apontava para um velho urinol de ferro, branco aloucado que repousava solitário, com a borda ainda suja de sangue, no canto do quarto. Aquela havia sido a arma do crime.

***************************

domingo, 3 de julho de 2011

The Doors - "The Doors" (1967)


"Jim [Morrison] era um xamã."
Ray Manzarek


Em 3 de julho de 1971 morria em Paris, Jim Morrison. Hoje faz 40 anos da morte deste que foi o líder de uma das mais importantes e influentes bandas de rock de todos os tempos. Infelizmente, Morrison faz parte daquele talentoso ‘time’ dos que foram embora cedo demais, junto com Janis, HendrixKurt e outros; mas que, diga-se de passagem, fizeram por onde ter passagens tão breves por este mundo. Morrison era antes de mais nada um poeta, um poeta alucinado, um homem com gritos de liberdade e inconformismo presos na garganta, e que tendo a oportunidade, convidado por um colega de curso de cinema, o talentosíssimo tecladista Ray Manzarek, transformou seus versos ácidos em música e complementados por Robby Krieger e John Densmore, compunham os The Doors. Mas este simples poeta e jovem rebelde revelava-se mais que isso quando as coisas começaram a andar de verdade: era um cantor com recursos, um letrista provocativo, um símbolo sexual, um líder com presença de palco e um dos frontman mais marcantes e emblemáticos que o mundo do rock já viu.
O disco de estreia dos The Doors, “The Doors” de 1971, é simplesmente um dos maiores debuts em álbum de uma banda. Abre com a fantástica “Break on Through” com sua levada meio rumba e seu embalo sensual; traz a ótima e hipnótica “Soul Kitchen”; a versão muito peculiar e cheia de personalidade de “Alabama Song”; uma interpretação notável de Morrison em “The Chrstal Ship”; o grande sucesso, a sensual “Light My Fire” com o show à parte dos teclados de Manzarek (que a porpósito, é o toque do meu celular); e fechando o álbum a polêmica, impactante, sexy, chocante, genial e quilométrica “The End”, uma sinfonia de melancolia, dor, morte e incesto.
Típico caso de banda fundamental, na verdadeira acepção da palavra. Com uma obra bastante pequena, uma carreira curta, deixaram álbuns extremamente significativos, conseguiram mexer com o sistema (TV, moda, costumes, comportamento), mudar conceitos, influenciar mais de meio mundo e futuras gerações de bandas. “The Doors”, 1971: ÁLBUM FUNDAMENTAL!


FAIXAS:
"Break on Through (To the Other Side)" – 2:29
"Soul Kitchen" – 3:35
"The Crystal Ship" – 2:34
"Twentieth Century Fox" – 2:33
"Alabama Song (Whisky Bar)" (Bertolt Brecht, Kurt Weill) – 3:20
"Light My Fire" – 7:06
"Back Door Man" (Willie Dixon) – 3:34
"I Looked at You" – 2:22
"End of the Night" – 2:52
"Take It As It Comes" – 2:23
"The End" – 11:41

*todas as faixas, Densmore, Krieger, Manzareck, Morrison,
exceto as indicadas

*********************



Ouça:
The Doors 1967


Cly Reis