Curta no Facebook

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

cotidianas #131 -Super (II)



grafite de Ge Feng


- Moça... Moça... Moça!
Parou num susto a atenta leitura e virou o rosto para o lado com uma sincera expressão de surpresa e estranheza. Como um scanner, seus olhos verdes percorreram duas vezes de cima a baixo aquela figura vestida com elegância casual, alta, de traços bem desenhados e de olhar seguro. Pois deu tempo de perceber, entre uma escaneada e outra (ela era perita nisso), que o olhar daquele rapaz jovem e magro tinha, por detrás dos óculos fundos, um jeito firme e seguro que lhe era estranhamente familiar. Como ela permaneceu em silêncio, mesmo que continuasse olhando-o fixamente, ele prosseguiu:
- Com licença: posso lhe dizer uma coisa importante para mim?
- ... humm? – respondeu mais com as narinas do que com a boca naquele tom de desconfiança e descrédito repelente que usava quase conscientemente em horas de desconforto, mas que, inexplicavelmente, não abalou seu mais novo interlocutor.
- Sabe – disse ele, saindo da posição levemente arqueada de quem pede autorização para entrar em algum lugar, chegando agora centímetros mais perto para que ninguém além dos dois ouvisse o que ia revelar. – Sabe: eu nunca acreditei em Deus. Mas passei a acreditar desde agora a pouco, segundos atrás. Quanto te vi.
Recuou a boca da altura do ouvido dela e ficou em silêncio uns segundos, lançando um olhar firme e grave nos olhos de Ana Cláudia.
- Somente um ser superior para ter criado uma mulher tão linda. – acrescentou já afastado e no mesmo tom de voz suave de quando começou a falar, demarcando o ponto final com um piscar de olhos em câmera lenta. Recolheu o olhar e o carrinho de compras e, despedindo-se só com a cabeça, sério e sereno, sumiu no corredor dos congelados. Desapareceu.
Ainda estática, pasma, pensou: “que maluco!”. Tentou armar um sorriso de indiferença, mas o que saiu foi um de perplexidade. Sentiu-se ridícula com aquele sorrisinho e o desfez logo, pois não havia mais interlocutor à sua frente para exercitar a indiferença. Sentiu-se confusa. Ana Cláudia espichou o pescoço e acreditou ter visto no horizonte aquele rapaz esquisito – e estranhamente atraente por não lhe parecer atraente – entre embalagens coloridas e pessoas concentradas em suas próprias vidas e compras. “Ah, as pessoas!”. Tocou-se de que havia outros no supermercado. Largou ligeiro o xampu dentro do carrinho sem concluir aquela desinteressante leitura do rótulo, jogou os cabelos loiro-acinzentando recém-escovados para trás e seguiu em linha reta, como se seu destino fosse aquele desde a eternidade.
“E se tiverem notado? Será que fiz aquela cara?...”, perguntou-se, já ficando receosa. De fato, a estranha abordagem mexera com ela. Um desconcerto inesperado. Não identificava bem porque, mas confundira sua cabeça, e isso lhe perturbava. Por que aquele tipo meio nerd, nada a ver com uma executiva como ela, inventou de abordá-la assim, tão diretamente, tão inadvertidamente? “O que ele viu em mim? Será a maquiagem, ou o cabelo? Como alguém faz isso tão sério e sem... sem... sem uma brincadeirinha antes, sem tentar lançar um charme? Assim, no seco?!” Franziu a testa, pois de repente lhe passou pela cabeça se aquilo, de fato, tinha sido uma cantada. ”Será?... Nããão! Se estivesse tão interessado assim, ele pelo menos ficaria para ouvir minha resposta – que, claro, seria um ‘obrigada’ educado seguido de um ‘adeus’ dispensador. Afinal, o Luiz Renato não ia gostar nada de ver isso. Mas será que ele realmente ia se importar?... Faz horas que tá desatento comigo, anda grosseiro. Sempre foi grosso. Certo que tá de amante! Mas eu sei me vingar. Ah, isso eu sei! E esse menino não chega nem aos pés da qualidade de homem que eu posso ter. Tipo o Michel. Homem boooom! Humm, o Michel... Ah, se o Luiz Renato sabe... É: não é de hoje que esse casamento tá uma merda. Não fosse essa bendita sociedade! E o Bruninho, que não vive sem ele. E eu também não sei se ia me fechar com outro homem. Com todos os defeitos, o Luiz Renato é como eu: sabe o que quer da vida, e isso é que importa. E não acredita nessas bobagens de romantismo. Muito menos em religião, em Deus. Rá-rá! Hoje em dia, é quase impossível achar homem assim, são tudo uns bobos. Por isso a gente fecha tão bem, eu acho... Nos casamos porque sabemos crescer juntos, sabemos dar valor ao que a gente ganha. A gente sabe fazer dinheiro juntos, coisa rara num casal. A Sílvia sempre nos critica, diz que a gente usa o dinheiro pra se ‘escudar dos sentimentos’, que isso é ‘fuga da realidade’, bla bla bla, bla bla bla, todo aquele papo dela. Mas não temos vergonha de pensar assim, nããão! A gente não acredita nessa balela de que dinheiro não compra felicidade. Isso é mentalidade de quem não sabe ganhar dinheiro, igual a Sílvia e aquele tipo de rapazinho-que-não-tem-onde-cair-morto que ela tá sempre pegando. Dinheiro, se não traz felicidade, meu bem, pelo menos manda o motoboy entregar direitinho na tua porta. Rárárárá! Ai, que horror! Se meu pai me ouve falando isso! Seu Werner é sempre tão sério...”
Porém, aquilo continuava lhe importunando: e se foi uma cantada? A essas alturas, já estava jogando automaticamente os produtos dentro do carrinho, sem ver preço nem direito o que levava. “Por que meter Deus nessas coisas?”, pensava bastante incomodada. Até que se deu conta de que podia topar de novo com ele. Rodou a cabeça meio assustada para ver se aquela alma não reaparecia. (“Teria sido verdade?...”) “É, tomara que nunca mais apareça!”, dizia-se, já mordiscando o crucifixo que levava no pescoço. Quando inseguros, uns mexem nos cabelos, outros roem as unhas ou coçam a cabeça. Ana Cláudia, nessas horas, crava os dentes em Jesus. Ah, se seu Werner a visse fazendo isso! Desde cedo na vida, sua relação com Deus era conturbada. Quando criança, no interior, não entendia porque era obrigada a ir à missa e a rezar naquele altar sombrio e assustador dentro da sua própria casa. “E o suplício que era aquela reza antes de cada refeição?” Umas duas ou três vezes, distraída no restaurante, fez menção, numa naturalidade idiota, de levar o indicador à testa antes da primeira garfada. Deu-se conta no meio do movimento e, constrangida, fingiu uma coçadinha no nariz pontiagudo. Sílvia seguidamente brinca dizendo que a amiga acredita mais em Kotler do que em Deus. Embora o tom de ironia, Ana Cláudia acha graça e não rebate. Pois talvez seja verdade.
“Mas ele pareceu tão seguro quando me disse aquilo... ‘Somente um ser superior para ter criado uma mulher tão linda’”. Gravou. Riu para dentro, deixando escapar para fora um leve sorriso de contentamento nos lábios. “Eu, linda... e aquele olhar. Fixo em mim, sério, quase não piscava. Cruz credo! Me deu até medo! E se esse louco me atacasse?! Nããão. O olhar era de autoridade, de poder, não de má intenção. Me lembrou até o seu Werner... Aquele jeito de quem sabe o que eu estou pensando, de quem sabe...”
Ana Cláudia olhava para o infinito, perdida em seus pensamentos, quando sentiu que algo lhe avisava que, no fim daquele infinito, havia a cara de uma moça. Voltando daquele sono desperto em que se encontrava, a visão de Ana Cláudia foi rapidamente desembaralhando, formando uma imagem nítida. Olhou a moça com uma sincera expressão de espanto de quem só agora se apercebia de que não havia uma máquina registrando suas compras, mas, sim, uma adolescente espinhenta, de maquiagem exagerada sobre as pálpebras e já um tanto impaciente.
- Débito ou crédito, senhora? – entoou a menina, dando a entender que refazia a pergunta.
- ... d... débito. Não! Minto: crédito! Crédito, por favor.
Enfiou a chave, mas não a virou. Com zoom nos olhos, mirou por segundos a sacola de compras que largara no banco do carona e, no silêncio dos vidros blindados, sentiu uma repentina vontade de chorar. “Chorar não é do teu feitio”, lembrou-se do Luiz Renato falando com aquele sorrisinho de pouco-caso e dedicando mais atenção ao copo de uísque. Com certa raiva de si mesma, refez-se e voltou a ser a alta executiva segura e invejada. Antes de dar a partida, olhou de novo para a sacola a seu lado e, sem saber precisar ao certo nem porque aquilo lhe angustiava, teve a clara sensação de que não conseguira comprar alguma coisa.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Morphine - "Cure for Pain" (1993)



“Obrigado Palestrina!
É uma linda noite!
É ótimo estar aqui e quero dedicar uma canção super-sexy a todos vocês…”
últimas palavras ditas por Mark Sandman
antes de sofrer um infarto fulminante no palco



Uma formação, no mínimo, curiosa: uma bateria, um sax e um contrabaixo. Sem guitarra. Isso mesmo. E mais: o baixo, funcionado como centro musical,  tendo apenas duas cordas e na maior parte das vezes apresentando afinações um tanto peculiares. Com esta ousadia o Morphine trouxe em “Cure for Pain” de 1993 uma adorável mistura de rock, jazz, country e funk como poucas vezes se viu na hisória do rock.
A primeira faixa de trabalho da banda, a espetacular “Buena” é um jazz-rock alucinado bem pontuado num baixo embrigado e oscilante alternando com rompantes arrasadores do saxofone.
“Thusday” é outra das melhores, parecida com “Buena” até, bem impetuosa e pegada, trazendo um pouco mais de elementos de funk; “Sheila”, mais um destaque, é um pouco mais lenta e com mais ênfase no sax; e “In Spite of Me”, também bem legal, tocada no bandolim é uma das poucas que traz um elemento de corda que não seja o baixo aleijado de Mark Sandman (apenas 3 faixas tem alguma intervenção de guitarras).
Boas também, "Head With Wings" com o sax mandando ver, "Mary Won't You Call My Name?" com uma levada maiscountry; e a embalada "All Wrong" com seu ritmo todo quebrado.
Outro dos casos de um artista de altíssima qualidade e potencial que morreu cedo demais. Certamente o Morphine ainda teria muita coisa interessante para mostrar. Deixaram apenas quatro discos antes que Mark Sandman sofresse um infarto durante um show na cidade de Palestrina, na Itália.
Uma pena. Mas por outro lado, uma sorte que tenha dado tempo de nos deixarem um disco como “Cure for Pain”.
**********************************

FAIXAS:
  1. "Dawna" - 0:44 
  2. "Buena" - 3:19
  3. "I'm Free Now" - 3:24
  4. "All Wrong" - 3:40
  5. "Candy" - 3:14
  6. "A Head With Wings" - 3:39
  7. "In Spite of Me" - 2:34 
  8. "Thursday" - 3:26
  9. "Cure for Pain" - 3:13
  10. "Mary Won't You Call My Name?" - 2:29
  11. "Let's Take a Trip Together" - 2:59 
  12. "Sheila" - 2:49
  13. "Miles Davis' Funeral" - 1:41 

********************************
Ouça:
Morphine Cure for Pain



Cly Reis

Pix

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

cotidianas #130 - "Zerovinteum"


Rio, cidade-desespero
A vida é boa mas só vive quem não tem medo
Olho aberto malandragem não tem dó
Rio de Janeiro, cidade hardcore.
Arrastão na praia não tem problema algum
Chacina de menores é aqui 021
Polícia, cocaína, Comando Vermelho
Sarajevo é brincadeira, aqui é o Rio de Janeiro
Rio de Janeiro, demorô, é agora
Pra se virar tem que aprender na rua
O que não se aprende na escola
Segurança é subjetiva
Melhor ficar com um olho no padre e outro na missa
Situações acontecem sobre um calor inominável
Beleza convive lado a lado com um dia-dia miserável
Mesmo assim, não troco por lugar algum
Já disse: este é o meu lar.
Aqui, 021 "Cuidado pra não se queimar na praia do arrastão"
É...
Rio de Janeiro
"Aqui fazem sua segurança assasinando menor"
É...
Rio de Janeiro
"A cidade é maravilhosa mas se liga, mermão"
É...
Rio de Janeiro
"Então fica de olho aberto malandragem não tem dó"
É...
Rio de Janeiro
É muito fácil falar de coisas tão belas
De frente pro mar mas de costas pra favela
De lá de cima o que se vê é um enorme mar de sangue
Chacinas brutais,uma porrada de gangue
O Pão de Açúcar de lá o diabo amassou
Esse é o Rio e se você não conhece, bacana,
Tome cuidado, as aparências enganam
Aqui a lei do silêncio fala mais alto
Te calam por bem ou vai pro mato
Mas de repente invadem a minha área, todos fardados
Eu tô ficando loco, ou tem alguma coisa errada?
Brincando com a vida do povo, então se liga na parada
Porque hoje ninguém sabe, ninguém viu.
Um dia alguns se cansam e "pow!", guerra civil
Porque como diz o ditado, quando 1 não quer 2 não brigam
Mas já que cê tá pedindo, segura a ira
Porque a cabeça é fria, mas o sangue não é de barata
Esse é o Rio, mermão, o veneno da lata.
How how how faz o Papai Noel
Pow pow pow e nego não vai pro céu
Digo V de veneta, lírica bereta
Black Alien e família, soem as trombetas
Tomando de assalto a cidade que brilha
Mãos ao alto, vamos dançar a quadrilha 288 é formação de quadrilha
Nome:Gustavo Ribeiro, a descrição do elemento
Primeiro é o olho vermelho, na mente, no momento
Como diz o Bispo, eu sou artista, esse é meu lixo
Acesso ao som restrito aos peritos
O dialeto se dito é um perigo, amigo
Para o consumo da alma sem abrigo
O ritmo e a raiva, a raiva e o ritmo
"Cuidado pra não se queimar na praia do arrastão"
É...
Rio de Janeiro
"Aqui fazem sua segurança assasinando menor"
É...
Rio de Janeiro
"A cidade é maravilhosa mas se liga, mermão"
É...
Rio de Janeiro
"Então fica de olho aberto malandragem não tem dó"
É...
Rio de Janeiro

***************************
"Zerovinteum" - Planet Hemp



20 de janeiro - Dia de São Sebastião
padroeiro do Rio de Janeiro

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Pix

Deep Purple - "Made in Japan" (1972)

“Ainda adoro o rock n’ roll,
mas, para dizer a verdade,
não costumo ouvir nem mesmo 
as minhas gravações de rock,
pois prefiro uma música com mais substância.
É legal de tocar, mas não de ficar ouvindo.”
Ritchie Blackmore



Quando o assunto é Deep Purple a primeira coisa que me vem à cabeça é o vinil "Made In Japan" de 1972 que eu tive o prazer de escutar aos nove anos. Sim, aos nove! Quando eu não tinha o que fazer, eu e minha amiguinha ficávamos mexendo nos discos do irmão dela. Entre um vinil e outro, escutávamos coisas do tipo Jimi Hendrix, Led Zeppelin, Janis Joplin, Jethro Thull, Rolling Stones, The Police, ACDC e bem de vez em quando rolava uma Xuxa também, afinal éramos crianças. Mas o que predominava era o rock! Foi ai que começou minha paixão por música boa...
E uma das músicas do D.P. que mais me deixou alucinada com a guitarra mais fascinante que já havia escutado até então, foi a maravilhosa 'Strange Kind Of Woman', como um grito de início de Ian Gillan e os riffs e solos de Ritchie Blackmore deslumbrantes. Aliás, no meio dessa música tem um belo duelo de guitarra-vocal com Gillan e Blackmore que ao vivo sempre termina com um extremamente longo, grito estridente de Gillan.
A canção foi originalmente chamada de "Prostitute". Gillan introduziu a música no Deep Purple: "Era sobre um amigo nosso que se relacionou com uma mulher e foi uma história triste. Eles se casaram, e alguns dias depois ela morreu”. Mas o fato é que esta música não é sobre uma mulher, mas sim uma compilação de emoções e decepções, e tal pacote foi nomeado Nancy.
E voltando ao assunto gritos estridentes, não posso deixar de destacar também a maravilhosa 'Child In Time' com os inacreditáveis agudos de Gillan e o solo de Jon Lord nos teclados, aliás, a banda inteira faz uma baita contribuição de solos inexplicáveis nessa música!
Não, eu não vou falar sobre 'Smoke On The Water', essa música nem precisa de comentários né?! É simplesmente o hino da banda!
O álbum que eu escutava, do grito inicial até o grito final e que, nove anos depois, finalmente encontrei em CD esse disco que com certeza marcou minha infância.
*********************

FAIXAS:
1. Highway Star
2. Child In Time
3. Smoke On The Water
4. The Mule
5. Strange Kind Of Woman
6. Lazy
7. Space Truckin'

*em 1998 foi lançada uma edição remasterizada com um disco extra com mais 3 faixas:
1. Black Night
2. Speed King
3. Lucille
***********************
Ouça:
Deep Purple Made In Japan

sábado, 14 de janeiro de 2012

Máquina




Máquina 1

Máquina 2

Máquina 3

Máquina 4

Máquina 5

Máquina 6

Maquina 7
fotos: Cly Reis

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

cotidianas #129 - "Isso é Entretenimento"


Um carro de policia com uma sirene barulhenta
Uma britadeira pneumática rasgando o concreto
Um bebe chorando e o uivo de um vira-lata
O barulho dos freios e as lâmpadas de um poste piscando


Isso é entretenimento


O vidro sendo esmagado e as passadas de uma bota
Um trem elétrico e a destruição de uma cabine telefónica
Os muros pichados e o choro de um gato
Um blackout e bolas sendo chutadas


Isso é entretenimento


Dias rápidos e as segundas-feiras lentas
O mijo descendo com a chuva e as quartas-feiras tristes
Assistir as noticias e não tomar seu chá
Um apartamento frio e a humidade das paredes


Isso é entretenimento


Acorda as 6 da manhã em uma manhã fria
Abrir a janela e respirar poluição
Uma banda amadora ensaiando num terreno próximo
Assistir a televisão pensando no seus feriados


Isso é entretenimento


Acorda de um pesadelo e fumar uns cigarros
Acariciar uma garota e sentir seu perfume amanhecido
Dias quentes de verão e o asfalto preto grudento
Alimentar patos no parque e desejar esta longe da li


Isso e entretenimento


Dois amantes se beijam perto da meia-noite
Dois amantes perdendo a tranquilidade da solidão
Pegar um táxi e viajar de ônibus
Ler os grafites sobre negócios escrito nas cadeiras


Isso e entretenimento


*********************************
tradução da letra de "That's Entertainment" do The Jam
autor: Paul Weller


*imagens da capa do disco "Sound Affects" do The Jam

Ouça:
The Jam - "That's Entertainment"

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

João Gilberto - "João Gilberto" (1973)



“Melhor do que o silêncio, só João.”
Caetano Veloso



"João Gilberto", de 1973, não é tão importante quanto “Getz/Gilberto” (1964), obra-prima e definitiva difusora da bossa nova para o mundo; não sustenta a idolatria e o pioneirismo de “Chega de Saudade” (1958), precursor de todo o movimento e referência a TODOS os artistas de MPB a partir de então; nem é tão clássico quanto “Amoroso” (1977), cujo repertório escolhido a dedo traz orquestrações que se harmonizam à voz e ao violão com assombroso requinte. Mas “João Gilberto” é, certamente, o mais João Gilberto dos João Gilberto. Mínimo, detalhista, preciso, econômico, delicado. Perfeito.
De fato, é difícil apontar apenas um disco de João como fundamental. Sua obra é um verdadeiro evangelho de toda a música popular brasileira moderna. E isso se reafirma a cada esporádica gravação que faz. Seu estilo revisita toda a tradição do samba, de Nazareth ao batuque do morro. Moderno e tradicional ao mesmo tempo, o modo de cantar de João passeia com naturalidade de Orlando Silva a Chet Baker, passando por Mário Reis, Carlos Gardel, Vicente Celestino, Cartola, Bola de Nieve e Elizeth Cardoso num lance. Isso tudo aliado a uma técnica inovadora de tocar e, mais do que isso, de estruturar a melodia.
Até o advento da bossa nova, as notas dissonantes nunca haviam sido empregadas em música popular em nenhum lugar do mundo com tamanha exatidão e consciência e em sintonia perfeita (mesmo quando “fora” do compasso, coisa comum em João) como as que consegue extrair de seu violão. Toda essa gama de referências poderia muito bem virar uma salada sonora ininteligível; mas nas mãos e no gogó dele se cristalizaram no mínimo, no volume baixo e apenas audível, no controle absoluto da voz e dos silêncios. Num acorde tão bem elaborado e executado que vale por uma escola de samba inteira.
O que dizer, então, do álbum? Para começar, nada mais, nada menos, talvez a mais bela gravação da mais bela música já composta nesses pagos tupiniquins: “Águas de Março”, de  Tom Jobim .
Já está ali a tônica do disco: voz e violão perfeitamente modulados – a ponto de se escutar os trastes do violão, a respiração e a umidade da língua – acompanhados de uma econômica percussão. Nada mais (e precisa?). A harmonia feita sobre esta melodia indefectível é de uma beleza tamanha que chega a me fugir à compreensão. Faz-me lembrar o que o fã incondicional Caetano Veloso  diz sobre o ídolo: “ninguém consegue mudar tanto mudando tão pouco”. É, de fato, complexo e mínimo como um traçado de Niemeyer, como uma remoinhante de Van Gogh, como um solo de  Miles Davis .
Na sequência, “Undiú”, das raras composições do próprio João e uma de suas mais inspiradas. Trata-se de um samba-de-roda meio baião Gonzaga, meio valsa minimalista, meio canto de pescadores a la Caymmi, em que João articula, com uma afinação incrível, alguns fonemas sem sentido sintático, mas repletos de sentido melódico. Em seguida, o baiano verte outro clássico da MPB. Ou melhor: o reelabora. “Na Baixa do Sapateiro”, de Ary Barroso, vira uma peça instrumental tão bem arranjada e executada que sua partitura poderia muito bem servir como o 13º Estudo para Violão de Villa-Lobos.
Em “Avarandado” e “Eu Vim da Bahia”, dos então “novos baianos” Caetano Veloso e Gilberto Gil , respectivamente, o “velho baiano” tem a coragem de gravar os amigos conterrâneos recém retornados do exílio – ou seja, ainda sob vigília pelo governo militar. Mas João nem quis saber. E as duas músicas são lindas: “Avarandado”, brejeira e apaixonada, e “Eu vim...”, aquele samba radiante e colorido cheio de África-Brasil por todas as notas como só Gil sabe fazer.
Entre as que mais escuto estão “Falsa Baiana” e “Eu Quero um Samba”, tomadas de “requebros e maneiras”, de um swing pleno e natural. Aí vem “Valsa” ou “Bebel” ou “Como São Lindos os Youguis”, outra de autoria de João composta para a filha, a hoje mundialmente conhecida Bebel Gilberto, à época com 6 anos. É uma bela “valsa de ninar”, sem letra, só cantarolada. Imagino que os “Youguis” do subtítulo deviam fazer muito sentido para aquela criança (tanto que os considerava “lindos”). Mas que privilégio ser ninada com uma maravilha dessas, hein? Só podia virar cantora.
A triste “É Preciso Perdoar” e o divertido samba-crônica “Izaura”, a única em que divide os vocais – o que o fez muito bem com Miúcha, mãe de Bebel e então esposa –, fecham este disco inigualável dentro da música brasileira por sua simplicidade e coesão. Seria ridículo dizer que aqui João Gilberto atinge a maturidade musical, pois se trata de um artista que já nasceu maduro. Mas faz sentido pensar que, nesses idos, início dos 70, a bossa nova teve tempo de ser criada, exportada e assimilada por tropicalistas e outrem, a ponto de suas notas dissonantes se integrarem ao som dos imbecis. Tom, Vinícius e ele já haviam entrado para a história pela criação de um estilo musical tão rico que somente meia dúzia de jazzistas, roqueiros e eruditos da vanguarda conseguiram tal feito no século XX. Então, era hora de pegar o banquinho, o violão, aquele amor e 10 canções selecionadas com primor como João sempre soube fazer. Tudo isso para quê? Para ensinar ao mundo como se ouve o silêncio.

****************************

FAIXAS:
1 - "Águas de Março" (Tom Jobim) – 5:23
2 - "Undiú" (João Gilberto) – 6:37
3 - "Na Baixa do Sapateiro" (Ary Barroso) – 4:43
4 - "Avarandado" (Caetano Veloso) – 4:29
5 - "Falsa Baiana" (Geraldo Pereira) – 3:45
6 - "Eu Quero um Samba" (Janet de Almeida, Haroldo Barbosa) – 4:46
7 - "Eu Vim da Bahia" (Gilberto Gil) – 5:52
8 - "Valsa (Como são Lindos os Youguis)" (João Gilberto) – 3:19
9 - "É Preciso Perdoar" (Alcivando Luz, Carlos Coqueijo) – 5:08
10 - "Izaura" (Roberto Roberti, Herivelto Martins) – 5:28

*************************
Ouça:
João Gilberto 1973



terça-feira, 10 de janeiro de 2012

cotidianas #128 - MacGol


   " É assim mesmo. Mas por que Macbeth treme do que vê?
Manas, ele desvaria; infundamos-lhe alegria,
revelando de nossa arte a mais sedutora parte.
No ar porei muitos encantos. Enchendo-o de sons e cantos,
enquanto vós a rodada deixareis bem acabada,
para que este rei potente conosco fique contente."
Bruxa -
ato IV, cena I de Macbeth,
de W. Shakespeare



Desembarcaram no aeroporto ainda eufóricos pela grande vitória fora de casa.
    Havia sido um chocolate!
    Tinham passado por cima do adversário e ele, Maicon, um reserva havia sido o grande destaque com três gols. Estava ansioso para dividir com a mulher a alegria do feito. Ela que sempre lhe dizia que ele merecia mais, que já devia ser titular àquelas alturas, certamente estava satisfeita com o que ele fizera. Com certeza vira o jogo na TV.
    Agora a caminho do táxi, ele e o colega, amigo e vizinho Waldemar, zagueiro veterano e experiente, conversavam animadamente sobre o campeonato, quando uma velhinha pedinte, provavelmente cega a julgar-se pela branquidão das íris, sentada no meio fio da área de desembarque , os interrompeu:
   - Ehe, Maicon, novo dono da camisa 9 e logo logo o grande craque do Metrópolis, hehehe! – riu-se sozinha.
   - Como é que é? - se deteve, interrompendo o passo.
   - E tu – disse agora se apontando para o Waldemar, sem levantar a cabeça – Filho de Soberano é Príncipe. Hihihi! O guri vai ser grande. O maior! Hehehe...
    Referia-se ao Waldemar daquela maneira porque assim era conhecido o zagueiro do Metrópolis: O Soberano da Grande Área e pelo visto aquela adivinha via um futuro promissor para seu filho que ainda jogava nos juvenis.
Não tiveram tempo de pedir maiores explicações. Um táxi encostou e o motorista já se encarregava de guardar-lhes as bagagens no porta-malas.
    Embarcaram mas permaneceram por um momento um tanto atônitos pelas previsões da anciã. Seus estados de transe só foram quebrados pela entrevista que por caso, ouviam exatamente naquele momento no rádio do táxi, na qual o técnico de seu time, recém desembarcado no aeroporto, anunciava aos repórteres que Maicon seria o novo dono da camisa 9 já a partir do próximo jogo.
    Se entreolharam estupefatos!
    Mas se a velha dissera a verdade então em breve não só seria titular como também seria o grande craque do time. E o Waldemar? O filho seria então o grande ídolo do clube? Seria uma maravilha uma vez que nunca passara de um zagueiro limitado, imponente mas limitado, e de qualquer foram, já estava mesmo em fim de carreira. Que orgulho sentia pelo filho embora não houvesse do que se orgulhar efetivamente ainda. Tudo que havia era apenas uma predição de uma velha cega na calçada do aeroporto.
    Assim que chegaram ao condomínio onde eram vizinhos, cada um foi para sua casa e Maicon, mais que depressa foi levar à mulher a boa notícia. Era o que ela esperava. Sabia que o marido merecia. Sabia que merecia muito mais. Craque do time? Isso traria um salário maior, convocação para a Seleção, contratos publicitários, propostas do exterior... Mas como seria possível? O craque do time indubitavelmente era o Duca. O Duca era titular da Seleção Brasileira e pretendido por inúmeros clubes europeus. Só se... E se tirassem o Duca do caminho. Quem sabe ele não poderia ‘aceitar’ uma destas propostas do exterior. Tinha o mesmo empresário do Maicon, era só uma questão de convencê-lo a vender o craque imediatamente. Mas como faria? Bom, tinha seus meios e o Maicon não precisava saber como ela tinha conseguido...
    E foi o que aconteceu. Deram-se mais uns 3 jogos, o Duca parecia desinteressado, coma cabeça em outro lugar até que foi anunciada sua para um time da Espanha. Foi uma grande frustração para a torcida. Quem poderia substituir o craque agora. Por mais que o Maicon continuasse fazendo seus gols e tivesse sido naturalmente elevado à condição de grande ídolo, nem de perto exibia a mesma qualidade técnica do meia-armador vendido para o estrangeiro. A grande vantagem do clube era que na categoria de base um jovem talento vinha-se destacando era o Wellington, filho do veterano zagueiro Waldemar. Em sub-15, 16,19, 20, simplesmente arrasava. Estava muito à frente do pessoal da sua categoria e logo teria que ser integrado ao profissional. Já chamava-no o Pequeno Príncipe, em alusão ao título de nobreza atribuído ao pai. O Maicon não tinha nem se dado conta disso, mas sua ambiciosa esposa, sim. Se a velha estivesse certa, e já havia acertado antes, aquele menino seria o maior ídolo do clube e por certo faria com que a torcida relegasse seu marido a uma condição inferior e passasse exclusivamente a adorar aquele fedelho. A idolatria era o de menos, o problema era que aquilo certamente acarretaria contratos inferiores, perda de patrocínios, de prestígio no próprio clube. Conhecia alguns garotos da base, podia convencer algum zagueirinho daqueles a dar um fim à carreira do prodígio. Uma entrada criminosa no joelho? Um carrinho por trás... Adorava aquele termo, ‘por trás’. Sim, qualquer um daqueles garotos pernas-de-pau ficaria feliz em fazer-lhe aquele favorzinho em troca de alguns momentos... mais íntimos, digamos assim.
    A notícia da lesão do Wellington caiu como uma bomba no clube. E num rachão! Ainda se fosse em jogo valendo. O Rodrigão, zagueiro de 18 anos que dera-lhe a entrada imprudente fora até a público desculpar-se, ‘coisas do acaso’, ‘futebol é jogo de choque’, ‘lamentava por ter feito aquilo com um colega’, até chorara na TV. A grande promessa do clube, no entanto, estava de molho por pelo menos 3 meses. Muito menos tempo do que, quem vira o garoto se retorcendo de dor no campo suplementar, podia imaginar. Sem o Duca, vendido, e sem a perspectiva do Pequeno Príncipe, o Metrópolis teria que continuar dependendo dos gols do Maicon. Mas graças a Deus ele estava em grande fase e os gols não cessavam. A bola às vezes mordia-lhe, era sofrível, ele a tratava mal, mas no fim das contas, na hora de empurrar pras redes, sempre era ele quem estava lá.
    O velho Waldemar que conhecedor como era do ofício de zagueiro, tinha certeza que aquilo tinha sido de propósito. Muito já fizera pra tirar adversários de campo. Tinha uma leve desconfiança mas não queria dar crédito a ela.
   O campeonato seguiu, não foram campeões, tinham arrancado muito atrás mas graças aos gols do centroavante conquistaram a chance de disputar a Libertadores. No ano que viria, sim. Maicon, o MacGol, como chamava a torcida, teria que ser decisivo para conquistarem a América. O Waldemar apesar da desconfiança, optou por calar-se, até porque no clube, àquelas alturas, o Maicon era como um deus e, desgostoso com aquilo tudo como estava, preferiu retirar-se dos gramados no final da temporada a ficar travando uma batalha interna. A recuperação do filho, no entanto, surpreendia o departamento médico e o garoto logo voltaria a trabalhar com bola, contudo, seria melhor emprestá-lo para outro clube pelo menos por um semestre para ver como retornaria de todo aquele tempo parado e para que fosse ganhando ritmo de jogo. Foi emprestado ao Guarí time pequeno mas que excepcionalmente conseguira aquela vaga inédita para o torneio continental. Dependendo da recuperação, poderia te vir a enfrentar o próprio clube em outra fase da competição.
    A torcida por sua vez já esperava ansiosa pela volta do craquezinho depois do empréstimo e, mesmo à distância, no modesto Guarí, o garoto recebia o carinho do torcedor que já o considerava o novo Duca. Maicon começou a ficar preocupado com aquela idolatria. O garoto nem sequer jogava no seu time e era amado daquela maneira. Podia vir a ser adversário até na competição mas parecia que a torcida ignorava isso ou.. talvez nem se importassem. Imagina quando voltasse ao clube. Como garantiria sua condição maioral no clube? E os contratos, e o prestígio, e os patrocinadores? Tolas preocupações uma vez que numa atividade como o futebol há espaço para mais de um ídolo na mesma casa, mas provavelmente por conta de sua ignorância, de sua origem humilde, sua formação, temia que o que por ele fora conquistado, lhe fosse tirado da mesma forma.Por isso tinha que se certificar de que uma possível volta do guri não o relegaria a um segundo plano, terceiro talvez, a um ocaso prematuro... Mas o que poderia garantir-lhe? A velha! Sim a velha do aeroporto. Deveria estar lá ainda, maltrapilha mendigando perto da fila do táxi. Iria vê-la. Nem trocou de roupa. Saiu como estava mesmo. Pegou o carro e rumou para o aeroporto. Chegando lá não se enganara, encontrara a velha exatamente onde imaginava: na fila do táxi, com os olhos esbranquiçados fixos no chão, o que não a impediu de reconhecê-lo antes que se aproximasse ou ao menos abrisse a boca.
   - Ah, lá vem o Dono da Camisa 9. O capitão do time. O Grande ídolo do Metrópolis! Salve o MacGol!!! Hehehehe!
   - Velha, tu disse as coisas certas: que eu ia ser titular, ídolo da torcida e tudo mais. Mas tu também falou que o filho do Waldemar ia ser O Maior. Ele tá fora. Tá em outro time e mesmo assim parece que gostam mais dele do que...
   - Te acalma, te acalma. Tu é o grande MacGol, o maior jogador do clube, o mais alto salário e blábláblá... Só vai deixar de ser no dia que concreto virar ouro.
   - Então, não tem chance! – suspirou aliviado – Ninguém pode me derrubar...
    Mas a velha interrompeu:
   - Até pode, mas só se for homem nascido de bicho.Tu já viu? Tu conhece algum?
  - Nã... Não... Acho que não. – disse hesitando um pouco.
  - Agora vai, vai... E põe um dinheirinho aí – disse estendendo uma lata de goiabada com uma meia dúzia de moedas. – Vai, MacGol. Senhor da Pequena Área, hehehehe!
    Ele depositou uma nota generosa e foi-se embora ainda remoendo o assunto. “Homem nascido de bicho”. Aquilo era impossível. E ‘o dia que concreto virar ouro’. Isso é um absurdo. Concreto jamais poderia virar ouro. Podia ficar tranqüilo. E foi para casa ainda com uma ponta de preocupação na cabeça, mas que foi desaparecendo e transformando-se em confiança durante o caminho pra casa.
    Dentro de campo tudo continuava correndo bem. Avançavam às 4as. De final da Libertadores e ele MacGol continuava sendo decisivo. Mas fora de campo as coisas começavam a ficar um tanto conturbadas. O zagueiro do juvenil que tirara Wellington dos gramados, meio bêbado demais numa festa, dera com a língua nos dentes, com detalhes inclusive do modo como fora convencido. A conversa vazou para a imprensa e logo foi para os jornais em forma de boato. É lógico que o garoto, o Rodrigão desmentiu publicamente, mas aí a aura de desconfiança com o MacGol já era perceptível. A torcida se dividia em opiniões: Uns achavam impossível alguém mandar fazer uma coisa daquelas com um colega de profissão, ainda mais um menino, outros, que aliás eram a maioria, estavam solidários com o Pequeno Príncipe e consideravam a atitude do goleador imperdoável.
    Para piorar o guri estava fazendo chover no modestíssimo Guarí! Praticamente sozinho levara a fraca equipe às semifinais de uma Libertadores da América e enfrentaria exatamente o clube do coração, o clube no qual fora criado e ao qual ainda pertencia por contrato.
   O dilema do torcedor ficara maior ainda: era a chance de chegar finalmente a uma final de Copa Libertadores, mas ao mesmo tempo a jóia do clube estaria do outro lado fazendo as habituais mágicas que costumava aprontar. O certo seria prestigiar o garoto, aplaudi-lo, mas não abandonar o próprio clube de maneira alguma. Sorte que tinham o MacGol, que vinha guardando todas desde o início do campeonato.
Mas na semana do jogo a balança pendeu definitivamente para o lado do jovem craque quando o ex-empresário, aquele que vendera o craque Duca para a Europa, insatisfeito por ter sido destituído do cargo pela ambiciosa esposa do artilheiro, também tratou de dar detalhes sobre os motivos que levaram o ex-camisa 10 a sair do clube. A situação ficou péssima para a esposa dentro de casa e para os dois dentro do clube. Sirleni era olhada com desprezo pelas outras, era alvo da ira de dirigentes e de piadinhas dos jogadores de todas as categorias. Em casa, Maicon humilhado pedia-lhe explicações de como pudera fazer uma coisa daquelas com ele, ao que ela respondeu que não havia feito COM ele e sim POR ele. Não adiantaram as explicações e as justificativas. Furioso a mandou embora, botou pra fora, bateu a porta jogou as coisas pela janela e gritando dali a mandou dormir debaixo da ponte. Um prato cheio para a s fofocas dos vizinho e para imprensa que confirmava então, até mesmo o caso do Rodrigão. Agora era notícia. Que péssimo clima para uma semana de decisão.
    Mas salvo todos os problemas, o nariz torcido da diretoria, do técnico, dos colegas, sabia que na podiam prescindir dele. Ele era o MacGol, o que caísse na área para ele era rede. E mais do que nunca estava cheio de confiança. Sabia que aquilo tudo iria passar. Não deixaria de ser o ídolo maior do clube, com certeza escreveria o nome na história, um dia teria estátua, seria nome do estádio, provavelmente viria até mesmo a ser presidente. Jamais concreto viraria ouro.
    Mas a determinação da torcida em torcer para o time sem deixar de demonstrar solidariedade ao garoto prata-da-casa tinha que ser simbolizada de alguma maneira e para isso as organizadas combinaram de usar coroas de papelão revestidas com papel dourado no dia do jogo. Todos deveriam pô-las nas suas cabeças quando as equipes entrassem em campo. E foi o que aconteceu. As equipes entraram juntas e o que se viu foi aquele estádio praticamente todo dourado. Era como se o concreto da arquibancada tivesse virado ouro.
Maicon não acreditava no que via. De repente toda sua confiança começava a se esvair. Mas não seria substituído, ninguém seria como ele no clube, afinal nenhum homem nascera de um animal.
    Enquanto sua cabeça girava em inúmeras inquietações o placar eletrônico dava as escalações dos times. O goleiro, o lateral-direito... Naquele dia o lateral do Guarí estava suspenso e jogaria um outro, por acaso de mesmo nome do seu rival. Se não bastasse um Wellington o atormentando, ainda teria que agüentar outro em campo. Mas meteria dois ou três gols e logo a torcida esqueceria o pirralho. E seguia o placar: o volante, o meia-direita, o meia-esquerda, ele: Wellington Lobo. Anunciaram-lhe o sobrenome para diferenciar do outro. E era um Lobo, um bicho, um animal. Nascera de um... bicho. Suas pernas bambearam, mas já era o momento de dar início ao jogo. O árbitro já apitara e ele continuava ali atônito olhando para o placar sem acreditar.
   - Maicon, rola a bola. O homem já apitou. – chamou-lhe o colega tirando-lhe parcialmente do transe.
    Tocou levemente na bola, o suficiente para fazê-la sair do lugar. E o jogo começara.
    A atuação do MacGol foi ridícula. Provavelmente nunca nenhum jogador de futebol fizera uma partida tão sofrível. Não acertou nenhum passe. Rigorosamente nenhum. Parecia totalmente desconcentrado. Teve a chance de ouro quando o Paulinho driblou o goleiro perto da linha de fundo e não tendo mais ângulo para chutar rolou para ele, sozinho, quase sobre a linha e ele, inexplicavelmente, meio que tropeçando, se enrolando com as pernas, chutando o chão e arrancando um naco de grama bateu fraquinho pelo lado do gol. Foi retirado imediatamente pelo técnico debaixo da maior vaia já direcionada a um só jogador num estádio de futebol.
    Do outro lado, Wellington, o Pequeno Príncipe, mostrava porque era a maior jóia do futebol brasileiro. Fazia miséria! Era impossível marcá-lo. Era chapéu, janelinha, toque de letra, empilhava uns três ou quatro na marcação fácil e chegava na cara do gol quase sempre em condição de concluir e em atos heróicos derradeiros, um zagueiro se jogava contra a bola, o goleiro fazia um milagre ou ela saía por capricho.
    A torcida conformada que aquele jogo já estava perdido mesmo, passou a apenas assistir às obras de arte do garoto, que acabou o jogo classificado e simplesmente ovacionado pela torcida que era adversária, mas que no fim das contas era a sua torcida.
    Quanto ao Maicon, depois de todas as acusações da semana, do escândalo com a esposa, do prejuízo que causara ao próprio clube tirando o garoto do time naquela temporada, somado à atuação bisonha, queriam literalmente a sua cabeça. Se tivesse feito aquele gol naquele momento do jogo talvez tivessem alguma chance mas depois, foi um passeio do adversário. Show do guri!
    Substituído que foi, aproveitou para sair de fininho antes do fim do jogo. Não apareceu mais no clube. Não foi mais visto por um bom tempo até que se soube que atuava em um time da quarta divisão do estado. A esposa soube-se que passara a dormir debaixo do viaduto, virara mendiga, enlouquecera e não falava coisa com coisa. Foi encontrada morta alguns meses depois.
    No Metrópolis, o Pequeno Príncipe é hoje o maestro do time, o grande Camisa 10, o centro técnico, a referência. O orgulho do seu Waldemar Lobo. É titular da Seleção fazendo dupla com o Duca no meio-campo. Reina absoluto!


Cly Reis

Dido - "No Angel" (1999)


”E agora a nossa cama está tão fria, sinto minhas mãos vazias. Não tem ninguém para abraçar. E eu posso dormir com quem eu quiser, mas não é a mesma coisa”.
"All You Want", Dido Armstrong



Penso que um álbum pode sair hoje e já ser fundamental, desde que tenha qualidade
 para tal. E penso que este é o caso deste disco de estréia da Dido, "No Angel" . Não que tenha sido lançado ontem, afinal o disco é de 1999 e já tem bons 13 anos e é uma pérola pop pouco conhecida.
Dido neste disco, com a ajuda de sue irmão Rollo (que era do Faithles), conseguiu fazer uma popularização de uma levada inglesa que tem como representente máximo o Portishead, uma batida forte com poucos instrumentos pontuando as músicas.
“Ah, mas a música conhecida era uma da novela O Clone”. Tá e daí, aliás as trilhas sonoras de novela tem um papel muito importante na música no Brasil, visto que não temos a cultura do single, mas isso é outro papo, voltemos ao disco.
O disco começa com a “Here With Me” com uns efeitos que lembram vagamente a trilha do Blade Runner e começa bem, com ela cantando límpido, suave e depois com uma levada bem marcada no violãozinho e um teclado imponente e oitentista que carrega a música nas costas. Aliás, a letra já dá a tônica da dor de cotovelo que é esse disco “I won´t sleep, i can´t breathe until you´re resting here with me”.
É um disco eletrônico / acústico como aponta esta segunda faixa chamada “Hunter”. Aliás tem alguns grandes discos que são gravados com poucos instrumentos, como o da Madonna “American Life” e o do Michael Jackson “Black or White”. Segue o disco com “Don't Think of Me” que é uma música de transição, daquelas que são boas mas nada demais. E agora vem a “música da novela” que é a “My Lover´s Gone” que na época foi muito tocada nas rádios e segue na temática dor de cotovelo “my lover´s gone, his boots no longer by my door”.
Em seguida vem uma a melhor do disco que é “All You Want”, começa devagarzinho com ela cantando, violãozinho, percussão, bateria, baixo e durante a música a moça “abre o pulmão” e mostra seu potencial de cantora. Acho maravilhosa esta parte da letra “All you want is right here in this room, all you want. And all you need is sitting here with you, all you want”. Riquinha, bem lindinha e desesperada...
“Thank you” foi sampleada pelo Eminem para o refrão de sua música “Stan” que despertou a curiosidade de muitas pessoas a saber quem era aquela cantora. As 3 próximas canções. “Honestly On”, “Slide” e “Isobel” (nada a ver com aquela da Björk) são para baixar a rotação do disco, e aumentar a circulação venosa “Se é que você me entende” já disse o glorioso Thunderbird.
Volta para a temática dor de cotovelo com “I'm No Angel” que é baseada em violão e percussão. E o disco finalmente termina com “My Life” em uma levada que poderia estar naquele disco do Depeche Mode, o “Songs of Faith and Devotion”, voz, percussão e teclado terminam bem este disco que não tem grandes momentos, mas tem uma boa ordem de músicas, tem começo, meio e fim.dentro de uma temática coerente que é a de amores complicados.

********************************

FAIXAS:
1."Here With Me" – 04:14
2."Hunter" – 03:57
3."Don't Think of Me" – 04:32
4."My Lover's Gone" – 04:27
5."All You Want" – 03:53
6."Thank You" – 03:37
7."Honestly OK" – 04:37
8."Slide" – 04:53
9."Isobel" – 03:54
10."I'm No Angel" – 03:55
11."My Life" – 03:09

*************************
vídeo de "All You Want", Dido


Ouça:

domingo, 8 de janeiro de 2012

Pix

Os Causo de Dois Morro- O causo do Carzeduardo


Si alembrei agora de contá um causo que se assucedeu-se lá em Dois Morro.
Um causo feio.
Coisa de infidelização.
De traimento de muié.
Causo de guampa, mesmo!
Foi o famoso causo do Carzeduardo.
Pois foi que o Carzeduardo, home simpres, graduado nas lavora da vida, trabaiadô, casô com a Infingênia, moça pura, de famía. Festança ingual Dois Morro nunca mais viu...
A moça? Era virgi (pelo menos no signo), daquelas que o pai, Nhô Venceslau não dexava relá os óio antes de trocá as aliança.
Despois do casório, ali pelos 8 meis e umas semana nasceu o primogênito. Todo mundo falava no tar de primogênito, que Infingênia sismô que o nome do pobre ia sê... Primo Gênito Soares de Souza Santos.
E assim foi o início do amor de Carzeduardo e Infingênia. Bonito!
Mas os ano passaro, os fio viero e cada ano a famía ia ficando mais grande. Infringênia sem tê mais muito gosto por Carzeduardo, si interessô-se, pelo vizinho, home forte de peito cabiludo, O Arcide.
O Arcide, bem que já dava umas oiada pra Infingênia sempre que sentava na escada da casa pra corta as unha dos pé. Coisa que fazia religiosamente a cada mêis.
Foi, que foi, que foi, que Infingênia acabô sismando com o tar Arcide, e se inventô de traí o pobre do Carzeduardo, que só sabia trabaiá nessa vida e já num comprarecia na lavoura dela fazia horas.
Chegô um momento que Dois Morro intêro tava sabendo. só o tapado do Carzeduardo que não. Mas um dia, um amigo de Carzeduardo, o Cecílio, já cansado di tanta da senvergonhera se inventô de alertá o amigo.
O amigo se aprochegô pro Carzeduardo e falô:
- Carzeduardo, tua muié tá te traino co'Arcide.
- 'Magina! Ela num trai eu não. Tu tá inganado.
- Carzeduardo, Toda vêiz que tu sai pra trabaiá, o Arcide vai pra tua casa e Ó... mete o espeto nela.
- Duvido! Ele num teria corage.
- Mai teve! Pode cunferi.
Brabo com o que o amigo andava pensando da muié dele e disposto a comprová a pureza da prenda, o Carzeduardo sescondeu dentro do ropêro e ficou olhando pela fresta da porta pra vê si era verdade. E comprovando o que o amigo dizeu, não demorô muito pra vê a Infigênia levando o Arcide pa dentro do quarto pra começa as sacanage.
Ele nem esperô até o finar da safadeza. Saiu, foi pra rua e por acaso encontrô com o amigo, aquele mesmo que tinha le dado o serviço. O Cecílio então quis sabê o que tinha aconticido.
E então, com os óio pregado no chão de tanta vergonha, o Carzeduardo contô:
- Foi terrive di vê! - falô quase chorando (QUASE, porque home doismorrense num chora)
E continuô:
- Ele jogô ela na cama, tirô a brusa...e os peito caiu. Tirô a carcinha...e a barriga e a bunda dispencaro...Tirô as meia...e apariceu aquelas varizaiada toda, as perna tudo cabiluda... E eu dentro do ropêro, cas mão na rcara, só pensava "Ai...qui vergonha que tô do Arcide!".
***********************
Coitado do Carzedurado!
Mas essa coiza são assim, mesmo.
Afinar, guampa é que nem consórcio, né? Mais cedo ou mais tarde tu é agraciado com o 'prêmio'.


postado por Chico Lorotta

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Fotos da Minha "Casa"





"Espaçonave Barroca"






por Daniel Rodrigues



Vasculhando meus alfarrábios, deparei-me com fotos produzidas por mim, provavelmente em 2001, na Casa de Cultura Mário Quintana, um dos principais centros culturais de Porto Alegre, que, mesmo com o advento de novos espaços de cultura nos últimos tempos na cidade, não perdeu em charme nem importância. Foi anunciado recentemente, inclusive, que o espaço será totalmente revitalizado, com previsão de conclusão em março de 2014.
CCMQ fundamental na minha formação intelectual e com a qual mantenho uma relação especial desde a infância. Guardo-lhe ótimas lembranças. Das talvez centenas de filmes assistidos, entre eles “Apocalipse Now Redux” do Coppola, “Acossado” do Godard e “Verdes Anos” do Gerbase e do Giba. Lá conheci o cinema de alguns diretores que hoje admiro como Eric Rhomer, Yasujiro Ozu e Max Ophuls. Casa de exposições maravilhosas, como a das fotos panorâmicas do cineasta Win Wenders, em 1999, feitas no deserto de Paris (Texas!), e a recente do fotógrafo-artista Gui Bourdin , que tive o prazer de presenciar este ano. Os bate-papos com personalidades, como o em comemoração aos 40 anos do Tropicalismo, em 1998, com  Tom Zé, Capinam e Luiz Tatit. E shows! Aquele inesquecível de Jards Macalé cantando só Noel Rosa, em 2001, por exemplo, foi lá! Os vários encontros com amigos... ih, CCMQ de muitas histórias.
Não recordava deste meu trabalho fotográfico, feito para uma das cadeiras da faculdade de Jornalismo, e surpreendi-me positivamente com o resultado quando revi, pois me considero limitado tecnicamente para fotografia. Mas sempre acreditei no meu olho, e acho que foi isso que (reforçado pela necessidade de tirar uma boa nota) me impulsionou a produzir boas imagens deste cartão-postal da capital dos gaúchos. Devem alguma coisa em técnica às de um profissional, sei; mas que lhes há poesia, há. Confiram:

"Stalker"

"A Alma" ou "Um passa, outro para"

"Tango do Passaredo"

"Jazida"

"Olhos e Boca" ou "A CCMQ me olhando"