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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Deep Purple - "Made in Japan" (1972)

“Ainda adoro o rock n’ roll,
mas, para dizer a verdade,
não costumo ouvir nem mesmo 
as minhas gravações de rock,
pois prefiro uma música com mais substância.
É legal de tocar, mas não de ficar ouvindo.”
Ritchie Blackmore



Quando o assunto é Deep Purple a primeira coisa que me vem à cabeça é o vinil "Made In Japan" de 1972 que eu tive o prazer de escutar aos nove anos. Sim, aos nove! Quando eu não tinha o que fazer, eu e minha amiguinha ficávamos mexendo nos discos do irmão dela. Entre um vinil e outro, escutávamos coisas do tipo Jimi Hendrix, Led Zeppelin, Janis Joplin, Jethro Thull, Rolling Stones, The Police, ACDC e bem de vez em quando rolava uma Xuxa também, afinal éramos crianças. Mas o que predominava era o rock! Foi ai que começou minha paixão por música boa...
E uma das músicas do D.P. que mais me deixou alucinada com a guitarra mais fascinante que já havia escutado até então, foi a maravilhosa 'Strange Kind Of Woman', como um grito de início de Ian Gillan e os riffs e solos de Ritchie Blackmore deslumbrantes. Aliás, no meio dessa música tem um belo duelo de guitarra-vocal com Gillan e Blackmore que ao vivo sempre termina com um extremamente longo, grito estridente de Gillan.
A canção foi originalmente chamada de "Prostitute". Gillan introduziu a música no Deep Purple: "Era sobre um amigo nosso que se relacionou com uma mulher e foi uma história triste. Eles se casaram, e alguns dias depois ela morreu”. Mas o fato é que esta música não é sobre uma mulher, mas sim uma compilação de emoções e decepções, e tal pacote foi nomeado Nancy.
E voltando ao assunto gritos estridentes, não posso deixar de destacar também a maravilhosa 'Child In Time' com os inacreditáveis agudos de Gillan e o solo de Jon Lord nos teclados, aliás, a banda inteira faz uma baita contribuição de solos inexplicáveis nessa música!
Não, eu não vou falar sobre 'Smoke On The Water', essa música nem precisa de comentários né?! É simplesmente o hino da banda!
O álbum que eu escutava, do grito inicial até o grito final e que, nove anos depois, finalmente encontrei em CD esse disco que com certeza marcou minha infância.
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FAIXAS:
1. Highway Star
2. Child In Time
3. Smoke On The Water
4. The Mule
5. Strange Kind Of Woman
6. Lazy
7. Space Truckin'

*em 1998 foi lançada uma edição remasterizada com um disco extra com mais 3 faixas:
1. Black Night
2. Speed King
3. Lucille
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Ouça:
Deep Purple Made In Japan

sábado, 14 de janeiro de 2012

Máquina




Máquina 1

Máquina 2

Máquina 3

Máquina 4

Máquina 5

Máquina 6

Maquina 7
fotos: Cly Reis

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

cotidianas #129 - "Isso é Entretenimento"


Um carro de policia com uma sirene barulhenta
Uma britadeira pneumática rasgando o concreto
Um bebe chorando e o uivo de um vira-lata
O barulho dos freios e as lâmpadas de um poste piscando


Isso é entretenimento


O vidro sendo esmagado e as passadas de uma bota
Um trem elétrico e a destruição de uma cabine telefónica
Os muros pichados e o choro de um gato
Um blackout e bolas sendo chutadas


Isso é entretenimento


Dias rápidos e as segundas-feiras lentas
O mijo descendo com a chuva e as quartas-feiras tristes
Assistir as noticias e não tomar seu chá
Um apartamento frio e a humidade das paredes


Isso é entretenimento


Acorda as 6 da manhã em uma manhã fria
Abrir a janela e respirar poluição
Uma banda amadora ensaiando num terreno próximo
Assistir a televisão pensando no seus feriados


Isso é entretenimento


Acorda de um pesadelo e fumar uns cigarros
Acariciar uma garota e sentir seu perfume amanhecido
Dias quentes de verão e o asfalto preto grudento
Alimentar patos no parque e desejar esta longe da li


Isso e entretenimento


Dois amantes se beijam perto da meia-noite
Dois amantes perdendo a tranquilidade da solidão
Pegar um táxi e viajar de ônibus
Ler os grafites sobre negócios escrito nas cadeiras


Isso e entretenimento


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tradução da letra de "That's Entertainment" do The Jam
autor: Paul Weller


*imagens da capa do disco "Sound Affects" do The Jam

Ouça:
The Jam - "That's Entertainment"

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

João Gilberto - "João Gilberto" (1973)



“Melhor do que o silêncio, só João.”
Caetano Veloso



"João Gilberto", de 1973, não é tão importante quanto “Getz/Gilberto” (1964), obra-prima e definitiva difusora da bossa nova para o mundo; não sustenta a idolatria e o pioneirismo de “Chega de Saudade” (1958), precursor de todo o movimento e referência a TODOS os artistas de MPB a partir de então; nem é tão clássico quanto “Amoroso” (1977), cujo repertório escolhido a dedo traz orquestrações que se harmonizam à voz e ao violão com assombroso requinte. Mas “João Gilberto” é, certamente, o mais João Gilberto dos João Gilberto. Mínimo, detalhista, preciso, econômico, delicado. Perfeito.
De fato, é difícil apontar apenas um disco de João como fundamental. Sua obra é um verdadeiro evangelho de toda a música popular brasileira moderna. E isso se reafirma a cada esporádica gravação que faz. Seu estilo revisita toda a tradição do samba, de Nazareth ao batuque do morro. Moderno e tradicional ao mesmo tempo, o modo de cantar de João passeia com naturalidade de Orlando Silva a Chet Baker, passando por Mário Reis, Carlos Gardel, Vicente Celestino, Cartola, Bola de Nieve e Elizeth Cardoso num lance. Isso tudo aliado a uma técnica inovadora de tocar e, mais do que isso, de estruturar a melodia.
Até o advento da bossa nova, as notas dissonantes nunca haviam sido empregadas em música popular em nenhum lugar do mundo com tamanha exatidão e consciência e em sintonia perfeita (mesmo quando “fora” do compasso, coisa comum em João) como as que consegue extrair de seu violão. Toda essa gama de referências poderia muito bem virar uma salada sonora ininteligível; mas nas mãos e no gogó dele se cristalizaram no mínimo, no volume baixo e apenas audível, no controle absoluto da voz e dos silêncios. Num acorde tão bem elaborado e executado que vale por uma escola de samba inteira.
O que dizer, então, do álbum? Para começar, nada mais, nada menos, talvez a mais bela gravação da mais bela música já composta nesses pagos tupiniquins: “Águas de Março”, de  Tom Jobim .
Já está ali a tônica do disco: voz e violão perfeitamente modulados – a ponto de se escutar os trastes do violão, a respiração e a umidade da língua – acompanhados de uma econômica percussão. Nada mais (e precisa?). A harmonia feita sobre esta melodia indefectível é de uma beleza tamanha que chega a me fugir à compreensão. Faz-me lembrar o que o fã incondicional Caetano Veloso  diz sobre o ídolo: “ninguém consegue mudar tanto mudando tão pouco”. É, de fato, complexo e mínimo como um traçado de Niemeyer, como uma remoinhante de Van Gogh, como um solo de  Miles Davis .
Na sequência, “Undiú”, das raras composições do próprio João e uma de suas mais inspiradas. Trata-se de um samba-de-roda meio baião Gonzaga, meio valsa minimalista, meio canto de pescadores a la Caymmi, em que João articula, com uma afinação incrível, alguns fonemas sem sentido sintático, mas repletos de sentido melódico. Em seguida, o baiano verte outro clássico da MPB. Ou melhor: o reelabora. “Na Baixa do Sapateiro”, de Ary Barroso, vira uma peça instrumental tão bem arranjada e executada que sua partitura poderia muito bem servir como o 13º Estudo para Violão de Villa-Lobos.
Em “Avarandado” e “Eu Vim da Bahia”, dos então “novos baianos” Caetano Veloso e Gilberto Gil , respectivamente, o “velho baiano” tem a coragem de gravar os amigos conterrâneos recém retornados do exílio – ou seja, ainda sob vigília pelo governo militar. Mas João nem quis saber. E as duas músicas são lindas: “Avarandado”, brejeira e apaixonada, e “Eu vim...”, aquele samba radiante e colorido cheio de África-Brasil por todas as notas como só Gil sabe fazer.
Entre as que mais escuto estão “Falsa Baiana” e “Eu Quero um Samba”, tomadas de “requebros e maneiras”, de um swing pleno e natural. Aí vem “Valsa” ou “Bebel” ou “Como São Lindos os Youguis”, outra de autoria de João composta para a filha, a hoje mundialmente conhecida Bebel Gilberto, à época com 6 anos. É uma bela “valsa de ninar”, sem letra, só cantarolada. Imagino que os “Youguis” do subtítulo deviam fazer muito sentido para aquela criança (tanto que os considerava “lindos”). Mas que privilégio ser ninada com uma maravilha dessas, hein? Só podia virar cantora.
A triste “É Preciso Perdoar” e o divertido samba-crônica “Izaura”, a única em que divide os vocais – o que o fez muito bem com Miúcha, mãe de Bebel e então esposa –, fecham este disco inigualável dentro da música brasileira por sua simplicidade e coesão. Seria ridículo dizer que aqui João Gilberto atinge a maturidade musical, pois se trata de um artista que já nasceu maduro. Mas faz sentido pensar que, nesses idos, início dos 70, a bossa nova teve tempo de ser criada, exportada e assimilada por tropicalistas e outrem, a ponto de suas notas dissonantes se integrarem ao som dos imbecis. Tom, Vinícius e ele já haviam entrado para a história pela criação de um estilo musical tão rico que somente meia dúzia de jazzistas, roqueiros e eruditos da vanguarda conseguiram tal feito no século XX. Então, era hora de pegar o banquinho, o violão, aquele amor e 10 canções selecionadas com primor como João sempre soube fazer. Tudo isso para quê? Para ensinar ao mundo como se ouve o silêncio.

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FAIXAS:
1 - "Águas de Março" (Tom Jobim) – 5:23
2 - "Undiú" (João Gilberto) – 6:37
3 - "Na Baixa do Sapateiro" (Ary Barroso) – 4:43
4 - "Avarandado" (Caetano Veloso) – 4:29
5 - "Falsa Baiana" (Geraldo Pereira) – 3:45
6 - "Eu Quero um Samba" (Janet de Almeida, Haroldo Barbosa) – 4:46
7 - "Eu Vim da Bahia" (Gilberto Gil) – 5:52
8 - "Valsa (Como são Lindos os Youguis)" (João Gilberto) – 3:19
9 - "É Preciso Perdoar" (Alcivando Luz, Carlos Coqueijo) – 5:08
10 - "Izaura" (Roberto Roberti, Herivelto Martins) – 5:28

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Ouça:
João Gilberto 1973



terça-feira, 10 de janeiro de 2012

cotidianas #128 - MacGol


   " É assim mesmo. Mas por que Macbeth treme do que vê?
Manas, ele desvaria; infundamos-lhe alegria,
revelando de nossa arte a mais sedutora parte.
No ar porei muitos encantos. Enchendo-o de sons e cantos,
enquanto vós a rodada deixareis bem acabada,
para que este rei potente conosco fique contente."
Bruxa -
ato IV, cena I de Macbeth,
de W. Shakespeare



Desembarcaram no aeroporto ainda eufóricos pela grande vitória fora de casa.
    Havia sido um chocolate!
    Tinham passado por cima do adversário e ele, Maicon, um reserva havia sido o grande destaque com três gols. Estava ansioso para dividir com a mulher a alegria do feito. Ela que sempre lhe dizia que ele merecia mais, que já devia ser titular àquelas alturas, certamente estava satisfeita com o que ele fizera. Com certeza vira o jogo na TV.
    Agora a caminho do táxi, ele e o colega, amigo e vizinho Waldemar, zagueiro veterano e experiente, conversavam animadamente sobre o campeonato, quando uma velhinha pedinte, provavelmente cega a julgar-se pela branquidão das íris, sentada no meio fio da área de desembarque , os interrompeu:
   - Ehe, Maicon, novo dono da camisa 9 e logo logo o grande craque do Metrópolis, hehehe! – riu-se sozinha.
   - Como é que é? - se deteve, interrompendo o passo.
   - E tu – disse agora se apontando para o Waldemar, sem levantar a cabeça – Filho de Soberano é Príncipe. Hihihi! O guri vai ser grande. O maior! Hehehe...
    Referia-se ao Waldemar daquela maneira porque assim era conhecido o zagueiro do Metrópolis: O Soberano da Grande Área e pelo visto aquela adivinha via um futuro promissor para seu filho que ainda jogava nos juvenis.
Não tiveram tempo de pedir maiores explicações. Um táxi encostou e o motorista já se encarregava de guardar-lhes as bagagens no porta-malas.
    Embarcaram mas permaneceram por um momento um tanto atônitos pelas previsões da anciã. Seus estados de transe só foram quebrados pela entrevista que por caso, ouviam exatamente naquele momento no rádio do táxi, na qual o técnico de seu time, recém desembarcado no aeroporto, anunciava aos repórteres que Maicon seria o novo dono da camisa 9 já a partir do próximo jogo.
    Se entreolharam estupefatos!
    Mas se a velha dissera a verdade então em breve não só seria titular como também seria o grande craque do time. E o Waldemar? O filho seria então o grande ídolo do clube? Seria uma maravilha uma vez que nunca passara de um zagueiro limitado, imponente mas limitado, e de qualquer foram, já estava mesmo em fim de carreira. Que orgulho sentia pelo filho embora não houvesse do que se orgulhar efetivamente ainda. Tudo que havia era apenas uma predição de uma velha cega na calçada do aeroporto.
    Assim que chegaram ao condomínio onde eram vizinhos, cada um foi para sua casa e Maicon, mais que depressa foi levar à mulher a boa notícia. Era o que ela esperava. Sabia que o marido merecia. Sabia que merecia muito mais. Craque do time? Isso traria um salário maior, convocação para a Seleção, contratos publicitários, propostas do exterior... Mas como seria possível? O craque do time indubitavelmente era o Duca. O Duca era titular da Seleção Brasileira e pretendido por inúmeros clubes europeus. Só se... E se tirassem o Duca do caminho. Quem sabe ele não poderia ‘aceitar’ uma destas propostas do exterior. Tinha o mesmo empresário do Maicon, era só uma questão de convencê-lo a vender o craque imediatamente. Mas como faria? Bom, tinha seus meios e o Maicon não precisava saber como ela tinha conseguido...
    E foi o que aconteceu. Deram-se mais uns 3 jogos, o Duca parecia desinteressado, coma cabeça em outro lugar até que foi anunciada sua para um time da Espanha. Foi uma grande frustração para a torcida. Quem poderia substituir o craque agora. Por mais que o Maicon continuasse fazendo seus gols e tivesse sido naturalmente elevado à condição de grande ídolo, nem de perto exibia a mesma qualidade técnica do meia-armador vendido para o estrangeiro. A grande vantagem do clube era que na categoria de base um jovem talento vinha-se destacando era o Wellington, filho do veterano zagueiro Waldemar. Em sub-15, 16,19, 20, simplesmente arrasava. Estava muito à frente do pessoal da sua categoria e logo teria que ser integrado ao profissional. Já chamava-no o Pequeno Príncipe, em alusão ao título de nobreza atribuído ao pai. O Maicon não tinha nem se dado conta disso, mas sua ambiciosa esposa, sim. Se a velha estivesse certa, e já havia acertado antes, aquele menino seria o maior ídolo do clube e por certo faria com que a torcida relegasse seu marido a uma condição inferior e passasse exclusivamente a adorar aquele fedelho. A idolatria era o de menos, o problema era que aquilo certamente acarretaria contratos inferiores, perda de patrocínios, de prestígio no próprio clube. Conhecia alguns garotos da base, podia convencer algum zagueirinho daqueles a dar um fim à carreira do prodígio. Uma entrada criminosa no joelho? Um carrinho por trás... Adorava aquele termo, ‘por trás’. Sim, qualquer um daqueles garotos pernas-de-pau ficaria feliz em fazer-lhe aquele favorzinho em troca de alguns momentos... mais íntimos, digamos assim.
    A notícia da lesão do Wellington caiu como uma bomba no clube. E num rachão! Ainda se fosse em jogo valendo. O Rodrigão, zagueiro de 18 anos que dera-lhe a entrada imprudente fora até a público desculpar-se, ‘coisas do acaso’, ‘futebol é jogo de choque’, ‘lamentava por ter feito aquilo com um colega’, até chorara na TV. A grande promessa do clube, no entanto, estava de molho por pelo menos 3 meses. Muito menos tempo do que, quem vira o garoto se retorcendo de dor no campo suplementar, podia imaginar. Sem o Duca, vendido, e sem a perspectiva do Pequeno Príncipe, o Metrópolis teria que continuar dependendo dos gols do Maicon. Mas graças a Deus ele estava em grande fase e os gols não cessavam. A bola às vezes mordia-lhe, era sofrível, ele a tratava mal, mas no fim das contas, na hora de empurrar pras redes, sempre era ele quem estava lá.
    O velho Waldemar que conhecedor como era do ofício de zagueiro, tinha certeza que aquilo tinha sido de propósito. Muito já fizera pra tirar adversários de campo. Tinha uma leve desconfiança mas não queria dar crédito a ela.
   O campeonato seguiu, não foram campeões, tinham arrancado muito atrás mas graças aos gols do centroavante conquistaram a chance de disputar a Libertadores. No ano que viria, sim. Maicon, o MacGol, como chamava a torcida, teria que ser decisivo para conquistarem a América. O Waldemar apesar da desconfiança, optou por calar-se, até porque no clube, àquelas alturas, o Maicon era como um deus e, desgostoso com aquilo tudo como estava, preferiu retirar-se dos gramados no final da temporada a ficar travando uma batalha interna. A recuperação do filho, no entanto, surpreendia o departamento médico e o garoto logo voltaria a trabalhar com bola, contudo, seria melhor emprestá-lo para outro clube pelo menos por um semestre para ver como retornaria de todo aquele tempo parado e para que fosse ganhando ritmo de jogo. Foi emprestado ao Guarí time pequeno mas que excepcionalmente conseguira aquela vaga inédita para o torneio continental. Dependendo da recuperação, poderia te vir a enfrentar o próprio clube em outra fase da competição.
    A torcida por sua vez já esperava ansiosa pela volta do craquezinho depois do empréstimo e, mesmo à distância, no modesto Guarí, o garoto recebia o carinho do torcedor que já o considerava o novo Duca. Maicon começou a ficar preocupado com aquela idolatria. O garoto nem sequer jogava no seu time e era amado daquela maneira. Podia vir a ser adversário até na competição mas parecia que a torcida ignorava isso ou.. talvez nem se importassem. Imagina quando voltasse ao clube. Como garantiria sua condição maioral no clube? E os contratos, e o prestígio, e os patrocinadores? Tolas preocupações uma vez que numa atividade como o futebol há espaço para mais de um ídolo na mesma casa, mas provavelmente por conta de sua ignorância, de sua origem humilde, sua formação, temia que o que por ele fora conquistado, lhe fosse tirado da mesma forma.Por isso tinha que se certificar de que uma possível volta do guri não o relegaria a um segundo plano, terceiro talvez, a um ocaso prematuro... Mas o que poderia garantir-lhe? A velha! Sim a velha do aeroporto. Deveria estar lá ainda, maltrapilha mendigando perto da fila do táxi. Iria vê-la. Nem trocou de roupa. Saiu como estava mesmo. Pegou o carro e rumou para o aeroporto. Chegando lá não se enganara, encontrara a velha exatamente onde imaginava: na fila do táxi, com os olhos esbranquiçados fixos no chão, o que não a impediu de reconhecê-lo antes que se aproximasse ou ao menos abrisse a boca.
   - Ah, lá vem o Dono da Camisa 9. O capitão do time. O Grande ídolo do Metrópolis! Salve o MacGol!!! Hehehehe!
   - Velha, tu disse as coisas certas: que eu ia ser titular, ídolo da torcida e tudo mais. Mas tu também falou que o filho do Waldemar ia ser O Maior. Ele tá fora. Tá em outro time e mesmo assim parece que gostam mais dele do que...
   - Te acalma, te acalma. Tu é o grande MacGol, o maior jogador do clube, o mais alto salário e blábláblá... Só vai deixar de ser no dia que concreto virar ouro.
   - Então, não tem chance! – suspirou aliviado – Ninguém pode me derrubar...
    Mas a velha interrompeu:
   - Até pode, mas só se for homem nascido de bicho.Tu já viu? Tu conhece algum?
  - Nã... Não... Acho que não. – disse hesitando um pouco.
  - Agora vai, vai... E põe um dinheirinho aí – disse estendendo uma lata de goiabada com uma meia dúzia de moedas. – Vai, MacGol. Senhor da Pequena Área, hehehehe!
    Ele depositou uma nota generosa e foi-se embora ainda remoendo o assunto. “Homem nascido de bicho”. Aquilo era impossível. E ‘o dia que concreto virar ouro’. Isso é um absurdo. Concreto jamais poderia virar ouro. Podia ficar tranqüilo. E foi para casa ainda com uma ponta de preocupação na cabeça, mas que foi desaparecendo e transformando-se em confiança durante o caminho pra casa.
    Dentro de campo tudo continuava correndo bem. Avançavam às 4as. De final da Libertadores e ele MacGol continuava sendo decisivo. Mas fora de campo as coisas começavam a ficar um tanto conturbadas. O zagueiro do juvenil que tirara Wellington dos gramados, meio bêbado demais numa festa, dera com a língua nos dentes, com detalhes inclusive do modo como fora convencido. A conversa vazou para a imprensa e logo foi para os jornais em forma de boato. É lógico que o garoto, o Rodrigão desmentiu publicamente, mas aí a aura de desconfiança com o MacGol já era perceptível. A torcida se dividia em opiniões: Uns achavam impossível alguém mandar fazer uma coisa daquelas com um colega de profissão, ainda mais um menino, outros, que aliás eram a maioria, estavam solidários com o Pequeno Príncipe e consideravam a atitude do goleador imperdoável.
    Para piorar o guri estava fazendo chover no modestíssimo Guarí! Praticamente sozinho levara a fraca equipe às semifinais de uma Libertadores da América e enfrentaria exatamente o clube do coração, o clube no qual fora criado e ao qual ainda pertencia por contrato.
   O dilema do torcedor ficara maior ainda: era a chance de chegar finalmente a uma final de Copa Libertadores, mas ao mesmo tempo a jóia do clube estaria do outro lado fazendo as habituais mágicas que costumava aprontar. O certo seria prestigiar o garoto, aplaudi-lo, mas não abandonar o próprio clube de maneira alguma. Sorte que tinham o MacGol, que vinha guardando todas desde o início do campeonato.
Mas na semana do jogo a balança pendeu definitivamente para o lado do jovem craque quando o ex-empresário, aquele que vendera o craque Duca para a Europa, insatisfeito por ter sido destituído do cargo pela ambiciosa esposa do artilheiro, também tratou de dar detalhes sobre os motivos que levaram o ex-camisa 10 a sair do clube. A situação ficou péssima para a esposa dentro de casa e para os dois dentro do clube. Sirleni era olhada com desprezo pelas outras, era alvo da ira de dirigentes e de piadinhas dos jogadores de todas as categorias. Em casa, Maicon humilhado pedia-lhe explicações de como pudera fazer uma coisa daquelas com ele, ao que ela respondeu que não havia feito COM ele e sim POR ele. Não adiantaram as explicações e as justificativas. Furioso a mandou embora, botou pra fora, bateu a porta jogou as coisas pela janela e gritando dali a mandou dormir debaixo da ponte. Um prato cheio para a s fofocas dos vizinho e para imprensa que confirmava então, até mesmo o caso do Rodrigão. Agora era notícia. Que péssimo clima para uma semana de decisão.
    Mas salvo todos os problemas, o nariz torcido da diretoria, do técnico, dos colegas, sabia que na podiam prescindir dele. Ele era o MacGol, o que caísse na área para ele era rede. E mais do que nunca estava cheio de confiança. Sabia que aquilo tudo iria passar. Não deixaria de ser o ídolo maior do clube, com certeza escreveria o nome na história, um dia teria estátua, seria nome do estádio, provavelmente viria até mesmo a ser presidente. Jamais concreto viraria ouro.
    Mas a determinação da torcida em torcer para o time sem deixar de demonstrar solidariedade ao garoto prata-da-casa tinha que ser simbolizada de alguma maneira e para isso as organizadas combinaram de usar coroas de papelão revestidas com papel dourado no dia do jogo. Todos deveriam pô-las nas suas cabeças quando as equipes entrassem em campo. E foi o que aconteceu. As equipes entraram juntas e o que se viu foi aquele estádio praticamente todo dourado. Era como se o concreto da arquibancada tivesse virado ouro.
Maicon não acreditava no que via. De repente toda sua confiança começava a se esvair. Mas não seria substituído, ninguém seria como ele no clube, afinal nenhum homem nascera de um animal.
    Enquanto sua cabeça girava em inúmeras inquietações o placar eletrônico dava as escalações dos times. O goleiro, o lateral-direito... Naquele dia o lateral do Guarí estava suspenso e jogaria um outro, por acaso de mesmo nome do seu rival. Se não bastasse um Wellington o atormentando, ainda teria que agüentar outro em campo. Mas meteria dois ou três gols e logo a torcida esqueceria o pirralho. E seguia o placar: o volante, o meia-direita, o meia-esquerda, ele: Wellington Lobo. Anunciaram-lhe o sobrenome para diferenciar do outro. E era um Lobo, um bicho, um animal. Nascera de um... bicho. Suas pernas bambearam, mas já era o momento de dar início ao jogo. O árbitro já apitara e ele continuava ali atônito olhando para o placar sem acreditar.
   - Maicon, rola a bola. O homem já apitou. – chamou-lhe o colega tirando-lhe parcialmente do transe.
    Tocou levemente na bola, o suficiente para fazê-la sair do lugar. E o jogo começara.
    A atuação do MacGol foi ridícula. Provavelmente nunca nenhum jogador de futebol fizera uma partida tão sofrível. Não acertou nenhum passe. Rigorosamente nenhum. Parecia totalmente desconcentrado. Teve a chance de ouro quando o Paulinho driblou o goleiro perto da linha de fundo e não tendo mais ângulo para chutar rolou para ele, sozinho, quase sobre a linha e ele, inexplicavelmente, meio que tropeçando, se enrolando com as pernas, chutando o chão e arrancando um naco de grama bateu fraquinho pelo lado do gol. Foi retirado imediatamente pelo técnico debaixo da maior vaia já direcionada a um só jogador num estádio de futebol.
    Do outro lado, Wellington, o Pequeno Príncipe, mostrava porque era a maior jóia do futebol brasileiro. Fazia miséria! Era impossível marcá-lo. Era chapéu, janelinha, toque de letra, empilhava uns três ou quatro na marcação fácil e chegava na cara do gol quase sempre em condição de concluir e em atos heróicos derradeiros, um zagueiro se jogava contra a bola, o goleiro fazia um milagre ou ela saía por capricho.
    A torcida conformada que aquele jogo já estava perdido mesmo, passou a apenas assistir às obras de arte do garoto, que acabou o jogo classificado e simplesmente ovacionado pela torcida que era adversária, mas que no fim das contas era a sua torcida.
    Quanto ao Maicon, depois de todas as acusações da semana, do escândalo com a esposa, do prejuízo que causara ao próprio clube tirando o garoto do time naquela temporada, somado à atuação bisonha, queriam literalmente a sua cabeça. Se tivesse feito aquele gol naquele momento do jogo talvez tivessem alguma chance mas depois, foi um passeio do adversário. Show do guri!
    Substituído que foi, aproveitou para sair de fininho antes do fim do jogo. Não apareceu mais no clube. Não foi mais visto por um bom tempo até que se soube que atuava em um time da quarta divisão do estado. A esposa soube-se que passara a dormir debaixo do viaduto, virara mendiga, enlouquecera e não falava coisa com coisa. Foi encontrada morta alguns meses depois.
    No Metrópolis, o Pequeno Príncipe é hoje o maestro do time, o grande Camisa 10, o centro técnico, a referência. O orgulho do seu Waldemar Lobo. É titular da Seleção fazendo dupla com o Duca no meio-campo. Reina absoluto!


Cly Reis

Dido - "No Angel" (1999)


”E agora a nossa cama está tão fria, sinto minhas mãos vazias. Não tem ninguém para abraçar. E eu posso dormir com quem eu quiser, mas não é a mesma coisa”.
"All You Want", Dido Armstrong



Penso que um álbum pode sair hoje e já ser fundamental, desde que tenha qualidade
 para tal. E penso que este é o caso deste disco de estréia da Dido, "No Angel" . Não que tenha sido lançado ontem, afinal o disco é de 1999 e já tem bons 13 anos e é uma pérola pop pouco conhecida.
Dido neste disco, com a ajuda de sue irmão Rollo (que era do Faithles), conseguiu fazer uma popularização de uma levada inglesa que tem como representente máximo o Portishead, uma batida forte com poucos instrumentos pontuando as músicas.
“Ah, mas a música conhecida era uma da novela O Clone”. Tá e daí, aliás as trilhas sonoras de novela tem um papel muito importante na música no Brasil, visto que não temos a cultura do single, mas isso é outro papo, voltemos ao disco.
O disco começa com a “Here With Me” com uns efeitos que lembram vagamente a trilha do Blade Runner e começa bem, com ela cantando límpido, suave e depois com uma levada bem marcada no violãozinho e um teclado imponente e oitentista que carrega a música nas costas. Aliás, a letra já dá a tônica da dor de cotovelo que é esse disco “I won´t sleep, i can´t breathe until you´re resting here with me”.
É um disco eletrônico / acústico como aponta esta segunda faixa chamada “Hunter”. Aliás tem alguns grandes discos que são gravados com poucos instrumentos, como o da Madonna “American Life” e o do Michael Jackson “Black or White”. Segue o disco com “Don't Think of Me” que é uma música de transição, daquelas que são boas mas nada demais. E agora vem a “música da novela” que é a “My Lover´s Gone” que na época foi muito tocada nas rádios e segue na temática dor de cotovelo “my lover´s gone, his boots no longer by my door”.
Em seguida vem uma a melhor do disco que é “All You Want”, começa devagarzinho com ela cantando, violãozinho, percussão, bateria, baixo e durante a música a moça “abre o pulmão” e mostra seu potencial de cantora. Acho maravilhosa esta parte da letra “All you want is right here in this room, all you want. And all you need is sitting here with you, all you want”. Riquinha, bem lindinha e desesperada...
“Thank you” foi sampleada pelo Eminem para o refrão de sua música “Stan” que despertou a curiosidade de muitas pessoas a saber quem era aquela cantora. As 3 próximas canções. “Honestly On”, “Slide” e “Isobel” (nada a ver com aquela da Björk) são para baixar a rotação do disco, e aumentar a circulação venosa “Se é que você me entende” já disse o glorioso Thunderbird.
Volta para a temática dor de cotovelo com “I'm No Angel” que é baseada em violão e percussão. E o disco finalmente termina com “My Life” em uma levada que poderia estar naquele disco do Depeche Mode, o “Songs of Faith and Devotion”, voz, percussão e teclado terminam bem este disco que não tem grandes momentos, mas tem uma boa ordem de músicas, tem começo, meio e fim.dentro de uma temática coerente que é a de amores complicados.

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FAIXAS:
1."Here With Me" – 04:14
2."Hunter" – 03:57
3."Don't Think of Me" – 04:32
4."My Lover's Gone" – 04:27
5."All You Want" – 03:53
6."Thank You" – 03:37
7."Honestly OK" – 04:37
8."Slide" – 04:53
9."Isobel" – 03:54
10."I'm No Angel" – 03:55
11."My Life" – 03:09

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vídeo de "All You Want", Dido


Ouça:

domingo, 8 de janeiro de 2012

Pix

Os Causo de Dois Morro- O causo do Carzeduardo


Si alembrei agora de contá um causo que se assucedeu-se lá em Dois Morro.
Um causo feio.
Coisa de infidelização.
De traimento de muié.
Causo de guampa, mesmo!
Foi o famoso causo do Carzeduardo.
Pois foi que o Carzeduardo, home simpres, graduado nas lavora da vida, trabaiadô, casô com a Infingênia, moça pura, de famía. Festança ingual Dois Morro nunca mais viu...
A moça? Era virgi (pelo menos no signo), daquelas que o pai, Nhô Venceslau não dexava relá os óio antes de trocá as aliança.
Despois do casório, ali pelos 8 meis e umas semana nasceu o primogênito. Todo mundo falava no tar de primogênito, que Infingênia sismô que o nome do pobre ia sê... Primo Gênito Soares de Souza Santos.
E assim foi o início do amor de Carzeduardo e Infingênia. Bonito!
Mas os ano passaro, os fio viero e cada ano a famía ia ficando mais grande. Infringênia sem tê mais muito gosto por Carzeduardo, si interessô-se, pelo vizinho, home forte de peito cabiludo, O Arcide.
O Arcide, bem que já dava umas oiada pra Infingênia sempre que sentava na escada da casa pra corta as unha dos pé. Coisa que fazia religiosamente a cada mêis.
Foi, que foi, que foi, que Infingênia acabô sismando com o tar Arcide, e se inventô de traí o pobre do Carzeduardo, que só sabia trabaiá nessa vida e já num comprarecia na lavoura dela fazia horas.
Chegô um momento que Dois Morro intêro tava sabendo. só o tapado do Carzeduardo que não. Mas um dia, um amigo de Carzeduardo, o Cecílio, já cansado di tanta da senvergonhera se inventô de alertá o amigo.
O amigo se aprochegô pro Carzeduardo e falô:
- Carzeduardo, tua muié tá te traino co'Arcide.
- 'Magina! Ela num trai eu não. Tu tá inganado.
- Carzeduardo, Toda vêiz que tu sai pra trabaiá, o Arcide vai pra tua casa e Ó... mete o espeto nela.
- Duvido! Ele num teria corage.
- Mai teve! Pode cunferi.
Brabo com o que o amigo andava pensando da muié dele e disposto a comprová a pureza da prenda, o Carzeduardo sescondeu dentro do ropêro e ficou olhando pela fresta da porta pra vê si era verdade. E comprovando o que o amigo dizeu, não demorô muito pra vê a Infigênia levando o Arcide pa dentro do quarto pra começa as sacanage.
Ele nem esperô até o finar da safadeza. Saiu, foi pra rua e por acaso encontrô com o amigo, aquele mesmo que tinha le dado o serviço. O Cecílio então quis sabê o que tinha aconticido.
E então, com os óio pregado no chão de tanta vergonha, o Carzeduardo contô:
- Foi terrive di vê! - falô quase chorando (QUASE, porque home doismorrense num chora)
E continuô:
- Ele jogô ela na cama, tirô a brusa...e os peito caiu. Tirô a carcinha...e a barriga e a bunda dispencaro...Tirô as meia...e apariceu aquelas varizaiada toda, as perna tudo cabiluda... E eu dentro do ropêro, cas mão na rcara, só pensava "Ai...qui vergonha que tô do Arcide!".
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Coitado do Carzedurado!
Mas essa coiza são assim, mesmo.
Afinar, guampa é que nem consórcio, né? Mais cedo ou mais tarde tu é agraciado com o 'prêmio'.


postado por Chico Lorotta

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Fotos da Minha "Casa"





"Espaçonave Barroca"






por Daniel Rodrigues



Vasculhando meus alfarrábios, deparei-me com fotos produzidas por mim, provavelmente em 2001, na Casa de Cultura Mário Quintana, um dos principais centros culturais de Porto Alegre, que, mesmo com o advento de novos espaços de cultura nos últimos tempos na cidade, não perdeu em charme nem importância. Foi anunciado recentemente, inclusive, que o espaço será totalmente revitalizado, com previsão de conclusão em março de 2014.
CCMQ fundamental na minha formação intelectual e com a qual mantenho uma relação especial desde a infância. Guardo-lhe ótimas lembranças. Das talvez centenas de filmes assistidos, entre eles “Apocalipse Now Redux” do Coppola, “Acossado” do Godard e “Verdes Anos” do Gerbase e do Giba. Lá conheci o cinema de alguns diretores que hoje admiro como Eric Rhomer, Yasujiro Ozu e Max Ophuls. Casa de exposições maravilhosas, como a das fotos panorâmicas do cineasta Win Wenders, em 1999, feitas no deserto de Paris (Texas!), e a recente do fotógrafo-artista Gui Bourdin , que tive o prazer de presenciar este ano. Os bate-papos com personalidades, como o em comemoração aos 40 anos do Tropicalismo, em 1998, com  Tom Zé, Capinam e Luiz Tatit. E shows! Aquele inesquecível de Jards Macalé cantando só Noel Rosa, em 2001, por exemplo, foi lá! Os vários encontros com amigos... ih, CCMQ de muitas histórias.
Não recordava deste meu trabalho fotográfico, feito para uma das cadeiras da faculdade de Jornalismo, e surpreendi-me positivamente com o resultado quando revi, pois me considero limitado tecnicamente para fotografia. Mas sempre acreditei no meu olho, e acho que foi isso que (reforçado pela necessidade de tirar uma boa nota) me impulsionou a produzir boas imagens deste cartão-postal da capital dos gaúchos. Devem alguma coisa em técnica às de um profissional, sei; mas que lhes há poesia, há. Confiram:

"Stalker"

"A Alma" ou "Um passa, outro para"

"Tango do Passaredo"

"Jazida"

"Olhos e Boca" ou "A CCMQ me olhando"


quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

cotidianas #126 - Primeiro do Ano


Sentaram na areia depois dos abraços, dos brindes, dos votos de ano novo, ainda um pouco disfarçadamente emocionados.
- O que tu pediu?
- Ãhn? - respondeu voltando de onde seus pensamentos andavam vagando.
- De Ano Novo. - insistiu ele explicando a pergunta - Ali, pros pulinhos nas ondas?
Eram amigos de longa data. Amigos o bastante para que ele se desse o direito naturalmente de bisbilhotar sobre os pensamentos dela. Poder-se-ia dizer que ele era o melhor amigo que tinha. Com as outras garotas sempre tinha o ingrediente da competição, da inveja, da falsidade mas com ele sentia-se totalmente segura para falar o que bem entendesse. Por conta dessa cumplicidade é que dias antes manifestara-lhe a intenção de um ano novo diferente. Cansara de se submeter às grosserias do namorado autoritário, ciumento, machista e egoísta e uma semana antes do reveillón, noticiava ao amigo o rompimento.
Por isso estavam ali, juntos, agora pouco depois da meia noite naquela praia diante do mar. Ela e o amigo. O melhor amigo. Para quem não tinha frescuras ou segredos. Só que agora, de repente sentia-se um pouco embaraçada em responder à pergunta.
- Eu? - fazendo-se de desentendida.
- É, tu mesma! Tá vendo mais alguém aqui - brincou fingindo irritação.
- Eu tô vendo um montão de gente aqui! - e gargalharam juntos.
Cessado o riso, ela continuou, agora demonstrando uma certa ansiedade:
- Ah, um dos pedidos foi aquela coisa toda de paz e biriri-bororó, né; o outro foi aquela coisa de saúde e patati-patatá - e riram juntos - E ou último foi... Eu pedi pra voltar com o Marcos. Eu sei que ele não vale nada mas eu sou louca por aquele cara.
Assim que acabou a última frase uma lágrima silenciosa escorreu pelo rosto em meio ao barulho do foguetório na beira do mar, mas à que ela logo apressou-se em enxugar com os punhos. E esforçando-se para retomar um tom alegre, respirou fundo e recompôs-se:
- Mas não quero estragar a tua noite de Ano Novo, - disse ainda fungando - Mas e tu? O que tu pediu de Ano Novo?
- Mas eu nem pulei ondinha, nem nada. - esquivou-se.
- Ah, mas a gente sempre pede alguma coisa. - insistiu ela agora já sorrindo verdadeiramente.
Agora foi a vez dele ficar sem jeito. E ela só não percebeu o rubor de sua face por causa da intensidade do reflexo dos fogos avermelhados. Mas respondeu timidamente sem tirar os olhos fixos da areia:
- Ah, um dos pedidos foi aquela coisa toda de paz e biriri-bororó - e riu-se da imitação da manifestação da amiga - o outro foi aquela coisa toda de paz - ao que ela completou junto - 'patati-patatá' -caindo ambos na risada.
- E o outro? - quis saber a garota.
- Não teve outro.
- Ah, fala.
- Não teve mesmo. Foram só dois... eu acho - disse, finalmente tirando os olhos do chão e mirando fixamente os olhos da amiga. Foi um breve momento de silêncio entre os dois, em que ficaram se encarando até que ele finalmente desviou o olhar e o direcionou para o céu:
- Olha lá que tri aqueles fogos! - chamou atenção apontando.
- Onde? - empertigou-se, curiosa.
E voltando a cabeça na direção dos fogos, suas cores explosões e formas diferentes, não pode ver os olhos do amigo, marejados, vazios, apenas com o reflexo dos fogos que explodiam desenhando um coração.



Cly Reis

O Frango Atirador

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

The Rolling Stones - "Some Girls" (1978)


"Não que eu seja um grande fã de punk, mas a energia deles e o fato que você notava que outra geração estava ultrapassando você eram como um chute no traseiro. Era hora de ir direto ao básico e não ficar brincando com vozes femininas glamurosas, metais e coisas assim."
Mick Jagger


Pra começar bem 2012, que tal um Stones nos  FUNDAMENTAIS ?
Hum! Nada melhor. Ainda mais no ano em que a banda completa meio século de existência.
Saiu recentemente uma reedição bacanérrima do álbum "Some Girls" de 1978, com disco original na íntegra mais um disco extra com material inédito. "Some Girls" é dos meus prediletos da banda ainda que seja seja um Stones-tardio, e devemos admitir, que quanto mais recente, menor a qualidade do trabalho dos velhinhos, infelizmente. Mas não é o caso deste. Em meio à onda punk do final dos '70 e às tendências disco-music que estavam em alta, Jagger e cia. não ficavam indiferentes ao que acontecia no mundo musical e injetavam doses de energia e embalo ao seu som.
Coisas como "Lies", "Respectable", "Shattered" e "When the Whip Comes Down" tem toda uma pegada mais pesada, mais forte e mais crua até, entendendo a sonoridade da época, de um som mais sujo, mais básico, sem contudo fazer concessões excessivas que viessem a descaracterizar seu som. Por sua vez, a clássica "I Miss You" é um excelente exemplo de levada disco aplicada ao rock-blues característico do grupo numa composição primorosa que de tão sofisticada adquiriu um caráter naturalmente atemporal.
Destaques também para a ótima regravação de "Just My Imagination" dos Tempatations, permanecendo uma balada porém ganhando mais guitarras; para os vocal principal de Richards em "Before They Make Me Run"; para o excelente trabalho de guitarras de "Beast of Burden"; para o lamento country "Far Away Eyes" e para a que empresta nome ao disco, "Some Girls", com aquele ar debochado do vocal de Jagger descrevendo as mais variadas garotas, seus tipos e manias.
O CD extra desta nova edição especial também não fica atrás e seria certamente um bom álbum de carreira, com destaques especiais para o rock-caipira "Claudine", "When You're Gone" de Ron Wood e para o bluesaço "Keep Up Blues". E daí, ouvindo extras como estes, o que dá pra concluir é que a exemplo das 'sobras' do outro álbum clássico, "Exile on Main Street", que também teve um relançamento de luxo, o que é 'resto' de uma banda como os RS ainda é bem melhor do que muito material que um monte de bandinhas por aí que suam pra conseguir fazer num disquinho que no fim das contas sai bem mais-ou-menos.
Ah, e só pra não deixar passar: a capa e toda arte do álbum são um grande barato. Melhor no LP, com a capa vazada e os rostos dos integrantes da banda, do encarte, preenchendo os vãos das formas femininas da capa. Mas não deixa de ser muito legal a parte gráfica nesta edição também, sobretudo pelo encarte mais completo e detalhado.
Bom, particularmente devo dizer que, agora tendo adquirido este duplo em CD, tenho os dois formatos, sendo que o LP é um original de 1978.
Aham...
(Não me levem a mal)

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FAIXAS:
1. "Miss You" 4:48
2. "When the Whip Comes Down" 4:20
3. "Imagination"* (Norman Whitfield / Barrett Strong) 4:38
4. "Some Girls" 4:36
5. "Lies" 3:11
6. "Far Away Eyes" 4:24
7. "Respectable" 3:06
8. "Before They Make Me Run" 3:25
9. "Beast of Burden" 4:25
10. "Shattered" 3:48

Faixas adicionais - CD Bônus reedição 2011:
1. "Claudine" 3:42
2. "So Young" 3:18
3. "Do You Think I Really Care?" 4:22
4. "When You’re Gone"* (Ronnie Wood) 3:51
5. "No Spare Parts" 4:30
6. "Don’t Be a Stranger" 4:06
7. "We Had It All"* (Troy Seals/Donnie Fritts) 2:54
8. "Tallahassee Lassie"* (Bob Crewe/Frank C. Slay Jr./Frederick A. Picariello) 2:37
9. "I Love You Too Much" 3:10
10. "Keep Up Blues" 4:20
11. "You Win Again"* (Hank Williams) 3:00
12. "Petrol Blues" 1:35
todas as faixas Jagger/Richards, exceto as indicadas*
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Ouça:
The Rolling Stones Some Girls



Cly Reis

Zupi - Art Magazine, Ed. #Pixel Show SP











Dia desses li uma  matéria  escrita por meu amigo fotógrafo  Nilton Santolin  onde este destacava, com seu olho artístico e perspicaz, belos grafites produzidos em algumas ruas de Porto Alegre. Pois que veio cair em minha mão, trazido de Recife por minha antenada amiga pernambucana Valéria Luna, este exemplar da revista Zupi – Art Magazine #Pixel Show SP, a qual não conhecia e me fascinei.
A publicação destaca artistas plásticos urbanos da melhor qualidade e de várias nacionalidades, como Filipinas, Colômbia, Estados Unidos, Holanda, Taiwan e Brasil, de onde se veem alguns dos trabalhos que mais me agradaram. Um deles é do gaúcho de Santiago Indio San, dono de uma arte expressionista e surrealista a qual salta aos olhos por tamanha pungência e expressividade.
O grafite do paulista Akeni, que ilustra a capa da edição, perpassa no seu pichado de alma pueril, típico do grafite urbano, forte influência do cubismo. Também grafiteiro, o paranaense Anjo mostra uma arte, assim como a maioria desses artistas, inspirada nos quadrinhos, porém adicionando sensualidade e cores muito pessoais.
Mas se se falar em grafite, não há como não referenciar o paulistano Rafael Ferrari. Formado em música e conhecedor da pintura, Ferrari é capaz de produzir um grafite quase pictórico dado o hiper-realismo do seu traço. O que dizer de sua séria baseada em closes de jazzistas, como Charles Mingus, Dizzie Gillespie e  John Coltrane? Impressionante.
 Destaque também para as criativas intervenções do holandês Florentijn Hofman e as ótimas fotografias de Márcio Scavone, que coloca ícones da cultura pop em situações ao mesmo tempo curiosas e plásticas, extraindo arte justamente da captação precisa destes momentos sui generis. É o que faz com personalidades como Renato Aragão, João Ubaldo Ribeiro, João Gordo, Pelé, entre outros. "Eu só consigo ver através das lentes, por isso sou fotógrafo, para ver como as coisas são", explica o fotógrafo.
Vale dar uma conferida também no site da revista, onde, além de conhecer mais a Zupi ou adquirir este ou números anteriores, se podem encontrar outras maravilhosas produções artísticas: www.zupi.com.br.

O surrealismo nas imagens
de Santiago  Indio San

O grafite cheio de  sensualidade
do paranaense Anjo

As bochechas infladas de Dizzie Gillespie
pela mão de Rafael Ferrari

Florentijn Hoffman e imagens do cotidiano
captadas com olho artístico

João Ubaldo Ribeiro...

... e Renato Aragão

descontraidamente  na lente de Márcio Scavone


por Daniel Rodrigues

sábado, 31 de dezembro de 2011

cotidianas #125 - "Cortar o Tempo"



Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.


Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.


Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente

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Cortar o Tempo
Carlos Drummond de Andrade