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domingo, 5 de fevereiro de 2012

cotidianas #134 - "Geni e o Zepelim"




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De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada.
O seu corpo é dos errantes,
Dos cegos, dos retirantes;
É de quem não tem mais nada.
Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina,
Atrás do tanque, no mato.
É a rainha dos detentos,
Das loucas, dos lazarentos,
Dos moleques do internato.
E também vai amiúde
Co'os os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir.
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir:


"Joga pedra na Geni!
Joga pedra na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!"


Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante,
Um enorme zepelim.
Pairou sobre os edifícios,
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim.
A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geléia,
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo: "Mudei de idéia!
Quando vi nesta cidade
Tanto horror e iniqüidade,
Resolvi tudo explodir,
Mas posso evitar o drama
Se aquela formosa dama
Esta noite me servir".


Essa dama era Geni!
Mas não pode ser Geni!
Ela é feita pra apanhar;
Ela é boa de cuspir;
Ela dá pra qualquer um;
Maldita Geni!


Mas de fato, logo ela,
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro.
O guerreiro tão vistoso,
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro.
Acontece que a donzela
(E isso era segredo dela),
Também tinha seus caprichos
E ao deitar com homem tão nobre,
Tão cheirando a brilho e a cobre,
Preferia amar com os bichos.
Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão:
O prefeito de joelhos,
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão.


Vai com ele, vai Geni!
Vai com ele, vai Geni!
Você pode nos salvar!
Você vai nos redimir!
Você dá pra qualquer um!
Bendita Geni!


Foram tantos os pedidos,
Tão sinceros, tão sentidos,
Que ela dominou seu asco.
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco.
Ele fez tanta sujeira,
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado.
Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir,
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir:


"Joga pedra na Geni!
Joga bosta na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!


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"Geni e o Zepelim"
(Chico Buarque)

Ouça:
Chico Buarque - "Geni e o Zepelim"

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Giorgio de Chirico - O Sentimento da Arquitetura - Fundação Iberê Camargo - Porto Alegre (RS)










Archeologi, 1968

Toda vez que observo uma obra de arte que tem um profundo alcance estético e mental me encontro em uma viagem íntima de percepções e, mais recentemente, visitar a exposição do Giorgio de Chirico* me proporcionou esta doce viagem.
O todo é muito bom e composto por uma enxurrada de imagens e inspirações do mundo do Arquiteto/Artista/Arquiteto - a mostra leva o titulo de “O Sentimento da Arquitetura” e, nas obras, o artista permite tal confusão que funde as duas em expressões em cores em meio às ferramentas de trabalho e figuras.
Um desavisado pode achar tudo muito igual, mas de imediato vai se deparar com a tradução plástica das esculturas que saltam aos olhos de tamanha beleza e precisão. Muita precisão! É justamente neste encontro que mora o sentimento da arte, aflora e nos faz pensar, imaginar e, incrédulos, acreditar que “aquilo ali” saiu das mãos de um homem. O mesmo que mostra em várias linguagens a paixão pela profissão, idealizador e sonhador, tão impotente através da grandeza de sua obra e tão singelo também diante de tal grandeza.
"O Retorno de Ulisses"
Foi quando, justamente, que, na simplicidade dos traços, da figura, me deparei com “O Retorno de Ulisses”, óleo sobre tela, pequena comparada às demais. A imagem: traços quase infantis de um homem (Ulisses) quase que à deriva remando seu barco dentro de um quarto, supostamente um dos cômodos da casa do de Chirico é uma obra dentro de várias obras. O que me encantou? Não posso responder com objetividade. Encantou-me o surrealismo simples e preciso que fez com que todas as outras obras se tornassem pequenas aos meus olhos. “O retorno de Ulisses” é uma obra sem preço, somente para os olhos e para o coração. A pintura me valeu sentir de perto um pouco da essência desse greco-italiano.
Vale ressaltar que toda a mostra é bela e que o todo vale a pena ser visto com calma, descendo os andares da Fundação Iberê Camargo, do quarto ao térreo por seus corredores com vista para o Guaíba.



por Valéria Luna


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Serviço:
Datas: De 9 de dezembro a 4 de março de 2012
Curadoria: Maddalena D’Alfonso
Localização: Fundação Iberê Camargo, 2º e 3º andares

* Precursor do surrealismo, Giorgio De Chirico nasceu em 1888, em Vólos, na Grécia. Morou por anos na Itália, onde produziu algumas de suas principais fases, como o de seus cenários arquitetônicos, solitários, irreais e enigmáticos, onde colocava objetos heterogêneos para revelar um mundo onírico e subconsciente, perpassado de inquietações metafísicas. Admirado por Picasso e Appolinaire, Cocteau e Breton, além da pintura produzia também escultura, litografia e desenho. Sua obra é fortemente inspirada na arquitetura, principalmente da iconografia das cidades italianas de Roma, Milão, Florença e Turim, mas também de Nova York e Paris. Morreu em 1978, em Roma.





Valéria Luna é Relações Públicas formada pela ESURP – Escola Superior de Relações Públicas de Pernambuco. Teve seu exercício profissional pautado na Produção Executiva de Moda durante quase 10 anos de atuação no mercado do Nordeste, onde coordenou a Feira de Componentes Têxteis – COMTEX, por seis anos e, em 2008, criou a Rede ModaMercado – Rede de Profissionais de Moda, voltada para o agenciamento de profissionais em todo o país para a execução de ações de informação, como palestras, workshops e consultorias. Através da rede, realizou produção executiva de marcas e estilistas, ainda, eventos de moda pelo país.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Morrissey - "Viva Hate" (1988)


"Sempre uma voz interior me sussurra: 
'permaneça puro' "
Morrissey,
sobre compor as próprias melodias



O fim do The Smiths, em 1987, uma das bandas mais cultuadas, amadas, idolatradas de todos os tempos, foi traumática para os fãs. Houve muito choro, inconformidade e há registros até mesmo de suicídios. Porém o anúncio quase imediato de que seu vocalista Stephen Morrissey seguiria em carreira solo dava um alento aos seguidores, mas não sem, ao mesmo tempo, despertar uma certa desconfiança quanto ao que poderia ele, Morrissey, letrista precioso de recursos ricos e variados na língua inglesa, oferecer ao público sem poder contar com sua metade musical, o excelente guitarrista Johnny Marr, compositor de todas as melodias da banda.
Para felicidade geral, o que se viu com "Viva Hate" de 1988 foi um álbum que poderia tranquilamente ter integrado a discografia dos Smiths. Contudo não tenta soar como mera imitação ou continuidade. "Viva Hate" tem personalidade e esta é resplandescente de luz própria. Tendo chamado o engenheiro de som dos últimos dois álbuns da ex-banda, Stephen Street, para a produção, Morrissey ousava mas não se afastava muito das próprias propostas e com Street compondo as melodias e optando por linhas melódicas e compositivas semelhantes às de Marr, mantinha uma identidade forte com seu público fiel.
"Alsatian Cousin", a primeira do disco, já se encarregava de mostrar que, por mais que depois viessem a aparecer coisas que nos remetessem a uma certa banda de Manchester, não se tratava de um novo disco dos Smiths . Sobre uma linha de baixo fankeada e agressiva e com a guitarra solando praticamente o tempo inteiro, Morrissey destila uma letra sobre traição, ressentida e cheia de ciúme e rancor numa das melhores faixas do álbum, abrindo o trabalho em grande estilo. Esta literalmente emenda com a segunda, "Little Man, What Now?", outra que mostra que a dupla dos Stephens, Morrissey e Street, não estavam pra brincadeira. Morrissey com um vocal frio, quase recitativo, apresenta-nos um ex-astro de TV relegado ao esquecimento, tendo como esteira sonora uma levada acústica à mexicana, à flamenco, com ares de western, e com uma batida sintetizada alta e repetitiva. Espetacular!
A faixa que segue foi um dos hits do álbum: "Everyday is Like Sunday" é uma das mais belas composições do disco, uma letra absolutamente sensível como de costume em se tratando de Morrissey, e uma grande felicidade de produção conferindo-lhe por uma lado uma aura melancólica, mas ao mesmo tempo uma ar todo grandioso.
"Bengali in Platforms" talvez seja a mais indesmentivelmente smithiana uma vez que é uma sobra da banda e fora descartada para ser o lado-B do single "Stop Me If You Think You've Heard This One Before".  e embora tenha recebido um tratamento diferente para o trabalho solo, não consegue apagar a origem. É uma Belíssima canção com uma melodia leve, doce, gostosa para os ouvidos porém com uma letra que, nestas ondas nacionalistas europeias dos últimos tempos, é passível de repente de alguma interpretação um tanto forçada. Mas...
"Angel, Angel, Down We Go Together" é uma das mais belas do disco com um arranjo de cordas magnífico e grandioso. Morrissey tem provavelmente uma de suas melhores interpretações cantando uma súplica pela desistência de um suicídio, de uma maneira absolutamente emocionante preciso a cada nota, a cada palavra, a cada verso.
Ouvindo a tal voz: "Permaneça puro"
"Late Night, Maudlin Street" é outro dos pontos altos do álbum: um épico de quase 8 minutos repleto de lembranças e nostalgia. no entanto, o grande hit do álbum, da carreira solo do cantor e um dos maiores sucessos das últimas décadas, é "Suedehead", uma canção pop preciosa com uma melodia simples e contagiante, letra intimista e um refrão fácil e 'pegajoso', numa daquelas canções que não fariam demérito algum a Johnny Marr se tivesse sido composta por ele.
"Break Up the Family" é embalada e ritmada com sua percussão eletrônica muito interessante e bem proposta; "The Ordinary Boys" tem um piano marcante, uma bel´ssima linha de baixo e mais uma interpretação espetacular de Moz sobretudo no final da canção; "I Don't Mind If You Forget Me" é uma daquelas letras características de Morrissey em que o cantor desdenha de um amor se desfazendo em pedaços, num rockzinho agitado bem simpático, com guitarras estridentes zunindo praticamente o tempo todo, ao fundo, como abelhas enlouquecidas.
"Dial-a-Cliché", uma balada leve sobre o crescer e ouvir (ou não) o que os outros palpitam, encaminha o final do disco de maneira competente e segura; chegando então ao final com "Margareth on Guillotine", balda semiacústica que repete "Bigmouth Strikes Again" dos Smiths, porém desta vez não se limitando a sugerir apenas uma boas porradas na então primeira-ministra inglesa e sim desta vez, indo mais longe, e exigindo mesmo o pescoço de Mrs. Tatcher. Termina com um belíssimo solo de bandolim interrompido abruptamente pela queda da lâmina da guilhotina, provavelmente separando a cabeça do corpo da ex-Dama de Ferro do Reino Unido.
Por mais que não se queira fazer comparações com a carreira de Morrissey com os Smiths, elas são inevitáveis até pelo hiato muito curto entre um projeto e o outro. menso de uma não depois da separação ele já nos aparecia com essa pérola. Já que inevitável, então, analisando assim, comparativamente, o trabalho solo do vocalista não ficava devendo muito à maioria dos trabalhos da banda, ainda mais se formos nos fixar no último trabalho do grupo, " 'Strangeways' Here We Come", onde a banda já estava desgastada e o resultado final acabara deixando um pouco a desejar.
Infelizmente os trabalhos seguintes de Morrissey não estiveram à altura desta brilhante estreia solo.  Com exceções talvez ao simpático "Kill Uncle", ao coeso "Your Arsenal", ao bom "Vauxhall and I",  Morrissey nunca voltou a nos brindar com um disco como "Viva Hate". As excessivas trocas de produtores, de gravadoras, de parceiros de composição, a instabilidade de formatos de lançamento dos trabalhos (ora compilações, ora sobras, ora coletâneas com sobras, ora poucos álbuns de estúdio) fizeram com que o artista não conseguisse consolidar uma trajetória uniforme. No mais das vezes, letras brilhantes, inspiradíssimas, inteligentes, emocionantes sustentavam melodias pobres, fracas, sem poder algum, de parceiros que invariavelmente mostraram-se insuficientes para acompanhar o talento de Morrissey, constantemente apontado como um dos maiores letristas de todos os tempos.
Bom, talvez quando a voz interior que sussurra no ouvido do nosso caro inglês pare de lhe cobrar sua pureza de letrista possamos enfim saber como seria se o próprio resolvesse mostrar-nos quais seriam as melodias ideais para acompanhar cada uma de suas palavras, cada um de seus versos. Quero crer que seria melhor do que o que temos ouvido com ele ultimamente.
Enquanto isso resta-nos penas ouvir o "Viva Hate", o melhor que Morrissey conseguiu obter sem Johnny Marrao seu lado.
Mas por que limitar-se a este álbum? Mesmo o resto não sendo lá tão bom assim, por que não ouvir todo o resto também? O "Bona Drag", o "Ringleader...", um "Years of Refusal", um "Southpaw Grammar"... Ah, afinal de todo modo é Morrissey!
E, faça o que fizer, compondo ao lado de quem quer que seja, agora ou daqui a vinte anos, nós adoramos Morrissey.
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Morrissey volta a se apresentar no Brasil em março de 2012. As três datas previstas inicialmente são:
 7/3 - Porto Alegre - Pepsi On Stage
9/3 - Rio de Janeiro - Fundicão Progresso
11/3 - São Paulo - Espaço das Américas

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FAIXAS:
  1. "Alsatian Cousin"
  2. "Little Man, What Now?"
  3. "Everyday Is Like Sunday"
  4. "Bengali in Platforms"
  5. "Angel, Angel Down We Go Together"
  6. "Late Night, Maudlin Street"
  7. "Suedehead"
  8. "Break Up the Family"
  9. "The Ordinary Boys"
  10. "I Don't Mind If You Forget Me"
  11. "Dial-a-Cliché"
  12. "Margaret on the Guillotine"

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Ouça:
Morrissey Viva Hate

Cly Reis

Berinjela Beligerante

domingo, 29 de janeiro de 2012

Organismo











Organismo I

Organismo II

Organismo III

Organismo IV

Organismo V

Organismo VI

Organismo VII
Organismo VIII

fotos: Cly Reis

Morrissey no Brasil em 2012


Confirmado: Ele Estará Entre Nós
Depois de muita especulação e expectativa sobre datas no Brasil, número de apresentações e possíveis locais, Morrissey, ex-vocalista dos The Smiths confirma três shows em terras brasileiras para março, sendo uma delas aqui no Rio (Uhuuuuu!!!)
Tenho que admitir que como já o vi ao vivo, não me mexeria para outros estado para assistir a outro show dele, mas como vai passar por essas bandas, por aqui, a menos de meia-hora da minha casa, bom..., não tem como não ir. "Tamo lá"!
Morrissey é um daqueles casos raro de popularidade, respeitabilidade e idolatria. Mesmo depois de quase 25 anos do fim da banda que encabeçava, uma das mais adoradas dos últimos tempos no universo do rock, e com uma carreira solo bastante irregular qualitativamente falando, com trabalhos bastante medíocres à exceção de 2  ou 3 álbuns, é um fenômeno que continua emocionando os fãs, vendendo relativamente bem para os padrões da indústria fonográfica atual (mesmo brigando contra o sistema das gravadoras e não parando em nenhuma), mobilizando devotos no mundo inteiro e ainda sendo digno da menção de 'maior inglês vivo', por exemplo, como atribuiu o jornal inglês The Guardian.
Exagero? Talvez não.
Em minha passagem por Londres pude ratificar o respeito que o público e a imprensa tem com este artista. É como uma onipresença: mesmo quando não está com álbum na praça, gravando ou em turnê, o mínimo espirro dele tem que ser registrado. Sempre há uma referência, uma entrevista uma nota no jornal nem que seja pra dizer que ele está com dor de garganta (e houve mesmo uma notícia assim quando estive lá). Algo do tipo, 'não esqueçamos que Morrissey está entre nós'.
Podem ter certeza que nós não esquecemos. E, em março, amigos, é a nossa vez de tê-lo novamente entre nós. Desta vez aqui no Brasil. Novamente.
Preparem as carteiras e aguardem os preços de ingresso e locais de venda. Por enquanto, o que temos são apenas as datas e locais dos shows. Confiram aí:


7/3 - Porto Alegre - Pepsi On Stage
9/3 - Rio de Janeiro - Fundicão Progresso
11/3 - São Paulo - Espaço das Américas



C.R.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Pix

cotidianas #132 - Noite de Silêncio


-Tide... – insistia ela com voz de reclamação e cansaço.
E a resposta dele era apenas um grunhido que mal sugeria que estivesse ouvindo.
- Hmf... – respondia ele sem sequer abrir os olhos.
- Tide, cê tá roncando de novo – reclamava num tom copioso.
- Ãrrã... hnf... – e continuava dormindo.
Desde que casaram sempre fora aquela coisa. Já se iam 42 anos de casados e nunca tinha tido uma noite de silêncio. Acabava dormindo porque precisava, pela necessidade, pelo cansaço não raro com o ronco do Aristides se intrometendo nos seus melhores sonhos; ou só lá pelas 6 da manhã quando ele já estava pra acordar.
- Tide... - E dava-lhe um cutucão, um bundaço, uma cotovelada. O Aristides até parava por 10, 30 segundos, um minuto no máximo, mas logo recomeçava aquele troar infernal que volta e meia acordava até o próprio roncolho, que assustado abria os olhos abobalhado até perceber o que o havia despertado. Então voltava a dormir meio encabulado e, naquele curto espaço de tempo entre a vergonha e o novo sono, percebia o porquê da mulher tanto reclamar com ele. Mas logo caía no sono pesado de novo e o martírio da dona Cleide recomeçava.
Em determinado momento das madrugadas, ela resignada, levantava, ia até a cozinha, tomava um copo de água ou de leite e voltava para tentar pegar no sono. E naquela noite não foi diferente; depois de alguns cutucões, empurrões e trombadas, Dona Cleide, desistente de qualquer recurso, levantou, calçou os chinelos foi até a cozinha mas daquela vez não abriu a torneira e não foi à geladeira. Girou a chave da porta e sumiu no pátio por alguns minutos. No fundo do sonho do Aristides pareciam se misturar às vozes das pessoas, o latido de um cão mas que estranhamente parara abruptamente. Ainda bem! O sonho era tão bom. Era recebido num jantar de luxo por uma bela mulher que lhe indicava o lugar onde deveria sentar. A mesa era farta, um jantar suntuoso, pessoas bonitas e animadas, e o sonho continuava com tratamentos de nobre e outras regalias.
Então Dona Cleide surgiu no quarto e parou ao lado da cama com o machado da lenha na mão. Parecia hipnotizada. Não piscava. Só mirava o Aristides, ali, roncando que nem um porco. O primeiro golpe foi nas costelas, o Aristides urrou de dor e mal teve tempo de olhar e ver que Dona Cleide lhe golpeava mecanica e desordenadamente porque os golpes seguintes já atingiam pontos vitais. Pescoço, cabeça, peito, peito, peito, cabeça... E foram muitos. Descontrolados e raivosos.
Dona Cleide só parou de bater quando o braço lhe ficou dormente, talvez um minuto, um minuto e meio depois. Ofegante apenas olhava para a cama. Apenas olhava fixo. Mas era como se não estivesse vendo nada. Olhos num vazio.
Então, depois de um longo suspiro, soltou o machado apenas deixando-o escorregar ao lado do corpo e, ignorando o sangue que empapava os lençóis e a massa moída sobre o colchão deitou para dormir sem sequer se dar ao trabalho de afastar alguns dedos que ficaram ali sobre o travesseiro. Deitava exausta. Finalmente teria uma noite de silêncio.

Cly Reis

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Gal Costa - "Recanto" (2012)

Canto. Cantar. Recanto. Recantar

Caetano Veloso lança seu melhor disco desde os anos 70. Ops! Ato falho. Desculpem: não foi ele, e sim a também baiana, também tropicalista, também cantora Gal Costa com o CD “Recanto”, certamente seu melhor trabalho desde “Cantar”, de 1974. Porém, meu engano não foi à toa: assim como o mencionado LP dos anos 70, marcante obra do tropicalismo a qual Caetano dirigira e dera o norte de todo o trabalho, este novo projeto repete a fórmula engendrada pela dupla: Gal pondo seu belo canto a serviço de uma ideia coesa e verdadeira e Caetano com a batuta, produzindo e concebendo.
As semelhanças vão além do formato, uma vez que, a princípio, o colorido e tropical “Cantar” – cujo repertório inclui, entre outros compositores, quatro canções de Caetano –, parece não ter nada a ver com o obscuro e ruidoso “Recanto”, totalmente construído com novas composições do “mano Caetano”. “Recanto Escuro” (assista ao vídeo abaixo), sua mais nova obra-prima – que entra para o time de “Sampa”, “Gema” e “Trilhos Urbanos” – abre o disco dando o tom soturno e introspectivo que perfará boa parte do restante do disco. Uma melodia quase invariável, bela e triste, sem refrão. Seca. Letra de reflexão, de lamento, como que ecoada de um recanto escuro de onde saem confissões vasculhadas na alma tanto dele quanto dela. Mas o que poderia ser feito só ao violão e voz, ganha, no arranjo eletrônico texturado de Kassin, uma cara de peça da vanguarda erudita, um Stockhausen, um Xenakis, um Varèse. Absolutamente genial!
O tom de vanguarda, ora com ares de Velvet Underground, ora Brian Eno, ora Silver Apples, perpassa todo o disco, dando-lhe um caráter moderno e duro, que responde ao estilo introspectivo da maioria de suas faixas, como o rock “Cara do Mundo”, a bossa-modernista “Autotune Auterótico” e a genial eletro-monofonia “Neguinho”, um 9 Inch Nails menos pesado mas tão corrosivo quanto que remete também ao krautrock de Neu! e Faust. Clima sujo que encaixa totalmente com a letra, mordaz e ferina. Caetano solta o verbo com sentenças como: “Neguinho compra 3 TVs de plasma, um carro GPS e acha que é feliz”, ou ainda: “Neguinho quer justiça e harmonia para se possível todo mundo. mas a neurose de neguinho vem e estraga tudo”. No rim.
Belas também a bossa com pitadas eletrônicas, “Mansidão”, a mais “Gal” de todas, e “Segunda”, um xote só ao cello e prato de cozinha, totalmente acústico. Mas outra surpreendente é “Miami Maculelê”, um funk carioca estilizado na qual o ouvido apurado de Caetano consegue extrair uma das coisas que sempre me chamaram atenção neste estilo dito vulgar e pobre musicalmente, que é a intenção de abrasileirar o ritmo estrangeiro. O funk carioca não é só a batida funkeada do rap, pois contém, no repique da batida, uma pitada de samba, o que, nessa salada toda, acaba por remeter aos sons e danças africanos e indígenas da raiz brasileira, uma embolada, um coco, um batuque, um... maculelê.
As referências ao período heróico da MPB não ficam só em Gal, mas em Caetano e na Tropicália como um todo. E é aí que se dão as semelhanças entre o histórico “Cantar” e o atual “Recanto”. Se antes Rogério Duprat ou Guilherme Araújo eram os maestros que davam corpo aos arranjos , agora é o jovem Kassim que destila seus computadores para cumprir esta função. Outra autoreferência está em “Tudo Dói”, que dialoga com “Lindoneia”, do Tropicália 1 (1967) ao transmitir o mesmo sentimento de depressão de uma mulher solitária (não sem querer, “Lindoneia” também tinha sido dada a uma intérprete cantar, Nara Leão).
Venho notando certo furor quanto a este Caetano rocker e tecnológico, que, desta vez, não se concretizaram em críticas, mas em elogios. Um pouco porque, com Gal interpretando tão bem, obviamente, os méritos são muito dela. Porém, novamente parece que Caetano nada de novo contra a corrente, pois os que elogiaram não parecem saber por que o fazem, uma vez que estranham algo que não é de hoje, basta ter um pouquinho de interesse – ou coragem. A parceria com Kassin, por exemplo, vem desde o pouco comentado “Eu não peço desculpa”, dele e de Jorge Mautner (2002). A veia experimental e vanguardista, igualmente, vem desde o concretista “Araçá Azul” (1972) e está claramente em músicas como a parafraseada “Doideca” (brincadeira com o termo “dodeca-fonia”), do CD “Livro” (1997), ou no “Rap Popcreto”, do Tropicália 2 (1993).
O fato é que gostei por demais de “Recanto”. Outro dia, em conversa com outro colaborador deste blog, meu primo Lúcio Agacê, ele me ponderou algo com certa razão. Para ele, o fato de a “finada” Gal voltar dando um salto tão grande diante daquilo que vinha conseguindo produzir se deve exclusivamente a Caetano, alguém que, além de um amigo generoso, é um cara que está sempre se renovando. Concordo se comparado com a fraca Gal que veio degringolado nos anos 80 e se instaurou na mediocridade nos 90. Mas tropicalista é tropicalista. Se compararmos àqueles primeiros idos dela, “Gal” (1969), “Fa-Tal” (1971), “Índia” (1973) e, principalmente, “Cantar”, seu ápice, a musicalidade não está muito diferente. Mais avançada em certos aspectos, menos explosiva do que antes, mais high-tech em texturas; porém a Gal de “Recanto” recupera a Gal daquela época - mesmo com 40 anos de atraso.
Num ano de um ótimo Chico Buarque novo, de um surpreendente Criolo e de um elogiado Lenine, 2012 começa também com uma nova Gal recantando-se. Antes tarde do que nunca.

vídeo de "Recanto Escuro", Gal Costa



Ouça o disco:
Gal Costa Recanto

Pix

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Guns'n Roses - Appetite for Destruction (1987)




A capa original censurada nos Estados Unidos
e abaixo a alternativa que a substituiu.
“Bem-vinda à selva,
nós temos diversões e jogos.
Nós temos tudo o que você quiser, querida,
nós sabemos os nomes.
Nós somos as pessoas
que podem encontrar
tudo o que você precisar.
Se você tiver o dinheiro, querida,
nós temos sua doença
Welcome to the Jungle.



Confesso que a primeira vez que escutei Guns não sabia o que era esse som. Perguntei para um amigo meu sobre uma música do Rush, visto que ele é especialista nessa banda e não encontramos a canção, que era "Sweet Child O´Mine" e estava numa trilha sonora de novela “O Sexo dos Anjos”
Este disco possui uma das melhores músicas “cartão de visita” do rock que é “Welcome to the Jungle”, aquela que abre o disco e apresenta para o ouvinte qual é a o clima que tu vais escutar. Assim de cabeça me lembro de outras músicas “cartão de visitas”, I Saw Her Standing There no primeiro disco dos Beatles, o Smell Like Teen Spirit do Nirvana no "Nevermind", o War Pigs do Sabbath, O Led III com o Immigrant Song e ai por diante.
Mas como bem disse o Cap. Nascimento “Eu vou... retomar o raciocínio”. Pois bem, o "Appetite for Destruction" mantém uma média de canções muito boas, e encontrou um nicho muito pequeno de mercado que ficava espremido entre os rocks poseur americanos de Poison, Skid Rows e Cinderellas da vida, o rock do The Cult, Led Zeppelin e de bandas de bebedeiras como o Creedence,Thin Lizzy e AC/DC. Na interseção dessas 3 esferas musicais (bonito isso) localizou-se o Guns com este disco.
Bons tempoe de um disco com começo, meio e fim, com músicas que preparam umas às outras. Por exemplo, depois do clássico “Welcome to the Jungle”, vêm 3 músicas boas, que preparam para a maravilhosa “Mr. Brownstone”, que levanta a bola para a “Paradise City” com o seu indefectível apito de início do ferro sonoro.
Depois de uma aliviada com “My Michelle”, a rotação aumenta bastante com “Think About You” e prepara para a “Rushiana” (não sei de onde eu achava parecido com Rush essa música, mas enfim) “Sweet Child O´ Mine”, hit radiofônico que os tornou conhecidos mundialmente, é o “Satisfaction” do Guns. “You´re Crazy” tem uma certa pitada de punk em sua parte inicial, uma quebra com um temperinho blues e segue rápida de novo.
Quase terminando o disco vem uma das minhas preferidas de todas as músicas do Guns que é “Anything Goes” com sua batida de bateria invertida e é uma música bem construída que dá uma derrapada e tu pensa, “Isso não vai engrenar...” mas é como aquele carro V8 que tu acelera e ele te avisa, “Tô derrapando mas tô tranquilo...”.
O disco termina com um clima de “quero ver como vai ser o próximo disco deles” com a mais elaborada “Rocket Queen”.
Resumindo. "Welcome to the Jungle", "It´s so Easy", "Mr. Brownstone", "Paradise City", "Anything Goes". Discaço que merece ser ouvido dentro de um Muscle Car, um Mustang, um Dodge, um Mavericão V8 daqueles que fazem 4 km por litro. A propósito, alguém ai aceita troca de algum desses carros por um Civic?
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FAIXAS:
1. "Welcome to the Jungle"
2. "It's So Easy"
3. "Nightrain"
4. "Out Ta Get Me"
5. "Mr. Brownstone"
6. "Paradise City”
7. "My Michelle"
8. "Think About You"
9. "Sweet Child o' Mine"
10. "You're Crazy"
11. "Anything Goes"
12. "Rocket Queen"


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Ouça:
Guns'n' Roses Appetite fo Destuction



terça-feira, 24 de janeiro de 2012

cotidianas #131 -Super (II)



grafite de Ge Feng


- Moça... Moça... Moça!
Parou num susto a atenta leitura e virou o rosto para o lado com uma sincera expressão de surpresa e estranheza. Como um scanner, seus olhos verdes percorreram duas vezes de cima a baixo aquela figura vestida com elegância casual, alta, de traços bem desenhados e de olhar seguro. Pois deu tempo de perceber, entre uma escaneada e outra (ela era perita nisso), que o olhar daquele rapaz jovem e magro tinha, por detrás dos óculos fundos, um jeito firme e seguro que lhe era estranhamente familiar. Como ela permaneceu em silêncio, mesmo que continuasse olhando-o fixamente, ele prosseguiu:
- Com licença: posso lhe dizer uma coisa importante para mim?
- ... humm? – respondeu mais com as narinas do que com a boca naquele tom de desconfiança e descrédito repelente que usava quase conscientemente em horas de desconforto, mas que, inexplicavelmente, não abalou seu mais novo interlocutor.
- Sabe – disse ele, saindo da posição levemente arqueada de quem pede autorização para entrar em algum lugar, chegando agora centímetros mais perto para que ninguém além dos dois ouvisse o que ia revelar. – Sabe: eu nunca acreditei em Deus. Mas passei a acreditar desde agora a pouco, segundos atrás. Quanto te vi.
Recuou a boca da altura do ouvido dela e ficou em silêncio uns segundos, lançando um olhar firme e grave nos olhos de Ana Cláudia.
- Somente um ser superior para ter criado uma mulher tão linda. – acrescentou já afastado e no mesmo tom de voz suave de quando começou a falar, demarcando o ponto final com um piscar de olhos em câmera lenta. Recolheu o olhar e o carrinho de compras e, despedindo-se só com a cabeça, sério e sereno, sumiu no corredor dos congelados. Desapareceu.
Ainda estática, pasma, pensou: “que maluco!”. Tentou armar um sorriso de indiferença, mas o que saiu foi um de perplexidade. Sentiu-se ridícula com aquele sorrisinho e o desfez logo, pois não havia mais interlocutor à sua frente para exercitar a indiferença. Sentiu-se confusa. Ana Cláudia espichou o pescoço e acreditou ter visto no horizonte aquele rapaz esquisito – e estranhamente atraente por não lhe parecer atraente – entre embalagens coloridas e pessoas concentradas em suas próprias vidas e compras. “Ah, as pessoas!”. Tocou-se de que havia outros no supermercado. Largou ligeiro o xampu dentro do carrinho sem concluir aquela desinteressante leitura do rótulo, jogou os cabelos loiro-acinzentando recém-escovados para trás e seguiu em linha reta, como se seu destino fosse aquele desde a eternidade.
“E se tiverem notado? Será que fiz aquela cara?...”, perguntou-se, já ficando receosa. De fato, a estranha abordagem mexera com ela. Um desconcerto inesperado. Não identificava bem porque, mas confundira sua cabeça, e isso lhe perturbava. Por que aquele tipo meio nerd, nada a ver com uma executiva como ela, inventou de abordá-la assim, tão diretamente, tão inadvertidamente? “O que ele viu em mim? Será a maquiagem, ou o cabelo? Como alguém faz isso tão sério e sem... sem... sem uma brincadeirinha antes, sem tentar lançar um charme? Assim, no seco?!” Franziu a testa, pois de repente lhe passou pela cabeça se aquilo, de fato, tinha sido uma cantada. ”Será?... Nããão! Se estivesse tão interessado assim, ele pelo menos ficaria para ouvir minha resposta – que, claro, seria um ‘obrigada’ educado seguido de um ‘adeus’ dispensador. Afinal, o Luiz Renato não ia gostar nada de ver isso. Mas será que ele realmente ia se importar?... Faz horas que tá desatento comigo, anda grosseiro. Sempre foi grosso. Certo que tá de amante! Mas eu sei me vingar. Ah, isso eu sei! E esse menino não chega nem aos pés da qualidade de homem que eu posso ter. Tipo o Michel. Homem boooom! Humm, o Michel... Ah, se o Luiz Renato sabe... É: não é de hoje que esse casamento tá uma merda. Não fosse essa bendita sociedade! E o Bruninho, que não vive sem ele. E eu também não sei se ia me fechar com outro homem. Com todos os defeitos, o Luiz Renato é como eu: sabe o que quer da vida, e isso é que importa. E não acredita nessas bobagens de romantismo. Muito menos em religião, em Deus. Rá-rá! Hoje em dia, é quase impossível achar homem assim, são tudo uns bobos. Por isso a gente fecha tão bem, eu acho... Nos casamos porque sabemos crescer juntos, sabemos dar valor ao que a gente ganha. A gente sabe fazer dinheiro juntos, coisa rara num casal. A Sílvia sempre nos critica, diz que a gente usa o dinheiro pra se ‘escudar dos sentimentos’, que isso é ‘fuga da realidade’, bla bla bla, bla bla bla, todo aquele papo dela. Mas não temos vergonha de pensar assim, nããão! A gente não acredita nessa balela de que dinheiro não compra felicidade. Isso é mentalidade de quem não sabe ganhar dinheiro, igual a Sílvia e aquele tipo de rapazinho-que-não-tem-onde-cair-morto que ela tá sempre pegando. Dinheiro, se não traz felicidade, meu bem, pelo menos manda o motoboy entregar direitinho na tua porta. Rárárárá! Ai, que horror! Se meu pai me ouve falando isso! Seu Werner é sempre tão sério...”
Porém, aquilo continuava lhe importunando: e se foi uma cantada? A essas alturas, já estava jogando automaticamente os produtos dentro do carrinho, sem ver preço nem direito o que levava. “Por que meter Deus nessas coisas?”, pensava bastante incomodada. Até que se deu conta de que podia topar de novo com ele. Rodou a cabeça meio assustada para ver se aquela alma não reaparecia. (“Teria sido verdade?...”) “É, tomara que nunca mais apareça!”, dizia-se, já mordiscando o crucifixo que levava no pescoço. Quando inseguros, uns mexem nos cabelos, outros roem as unhas ou coçam a cabeça. Ana Cláudia, nessas horas, crava os dentes em Jesus. Ah, se seu Werner a visse fazendo isso! Desde cedo na vida, sua relação com Deus era conturbada. Quando criança, no interior, não entendia porque era obrigada a ir à missa e a rezar naquele altar sombrio e assustador dentro da sua própria casa. “E o suplício que era aquela reza antes de cada refeição?” Umas duas ou três vezes, distraída no restaurante, fez menção, numa naturalidade idiota, de levar o indicador à testa antes da primeira garfada. Deu-se conta no meio do movimento e, constrangida, fingiu uma coçadinha no nariz pontiagudo. Sílvia seguidamente brinca dizendo que a amiga acredita mais em Kotler do que em Deus. Embora o tom de ironia, Ana Cláudia acha graça e não rebate. Pois talvez seja verdade.
“Mas ele pareceu tão seguro quando me disse aquilo... ‘Somente um ser superior para ter criado uma mulher tão linda’”. Gravou. Riu para dentro, deixando escapar para fora um leve sorriso de contentamento nos lábios. “Eu, linda... e aquele olhar. Fixo em mim, sério, quase não piscava. Cruz credo! Me deu até medo! E se esse louco me atacasse?! Nããão. O olhar era de autoridade, de poder, não de má intenção. Me lembrou até o seu Werner... Aquele jeito de quem sabe o que eu estou pensando, de quem sabe...”
Ana Cláudia olhava para o infinito, perdida em seus pensamentos, quando sentiu que algo lhe avisava que, no fim daquele infinito, havia a cara de uma moça. Voltando daquele sono desperto em que se encontrava, a visão de Ana Cláudia foi rapidamente desembaralhando, formando uma imagem nítida. Olhou a moça com uma sincera expressão de espanto de quem só agora se apercebia de que não havia uma máquina registrando suas compras, mas, sim, uma adolescente espinhenta, de maquiagem exagerada sobre as pálpebras e já um tanto impaciente.
- Débito ou crédito, senhora? – entoou a menina, dando a entender que refazia a pergunta.
- ... d... débito. Não! Minto: crédito! Crédito, por favor.
Enfiou a chave, mas não a virou. Com zoom nos olhos, mirou por segundos a sacola de compras que largara no banco do carona e, no silêncio dos vidros blindados, sentiu uma repentina vontade de chorar. “Chorar não é do teu feitio”, lembrou-se do Luiz Renato falando com aquele sorrisinho de pouco-caso e dedicando mais atenção ao copo de uísque. Com certa raiva de si mesma, refez-se e voltou a ser a alta executiva segura e invejada. Antes de dar a partida, olhou de novo para a sacola a seu lado e, sem saber precisar ao certo nem porque aquilo lhe angustiava, teve a clara sensação de que não conseguira comprar alguma coisa.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Morphine - "Cure for Pain" (1993)



“Obrigado Palestrina!
É uma linda noite!
É ótimo estar aqui e quero dedicar uma canção super-sexy a todos vocês…”
últimas palavras ditas por Mark Sandman
antes de sofrer um infarto fulminante no palco



Uma formação, no mínimo, curiosa: uma bateria, um sax e um contrabaixo. Sem guitarra. Isso mesmo. E mais: o baixo, funcionado como centro musical,  tendo apenas duas cordas e na maior parte das vezes apresentando afinações um tanto peculiares. Com esta ousadia o Morphine trouxe em “Cure for Pain” de 1993 uma adorável mistura de rock, jazz, country e funk como poucas vezes se viu na hisória do rock.
A primeira faixa de trabalho da banda, a espetacular “Buena” é um jazz-rock alucinado bem pontuado num baixo embrigado e oscilante alternando com rompantes arrasadores do saxofone.
“Thusday” é outra das melhores, parecida com “Buena” até, bem impetuosa e pegada, trazendo um pouco mais de elementos de funk; “Sheila”, mais um destaque, é um pouco mais lenta e com mais ênfase no sax; e “In Spite of Me”, também bem legal, tocada no bandolim é uma das poucas que traz um elemento de corda que não seja o baixo aleijado de Mark Sandman (apenas 3 faixas tem alguma intervenção de guitarras).
Boas também, "Head With Wings" com o sax mandando ver, "Mary Won't You Call My Name?" com uma levada maiscountry; e a embalada "All Wrong" com seu ritmo todo quebrado.
Outro dos casos de um artista de altíssima qualidade e potencial que morreu cedo demais. Certamente o Morphine ainda teria muita coisa interessante para mostrar. Deixaram apenas quatro discos antes que Mark Sandman sofresse um infarto durante um show na cidade de Palestrina, na Itália.
Uma pena. Mas por outro lado, uma sorte que tenha dado tempo de nos deixarem um disco como “Cure for Pain”.
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FAIXAS:
  1. "Dawna" - 0:44 
  2. "Buena" - 3:19
  3. "I'm Free Now" - 3:24
  4. "All Wrong" - 3:40
  5. "Candy" - 3:14
  6. "A Head With Wings" - 3:39
  7. "In Spite of Me" - 2:34 
  8. "Thursday" - 3:26
  9. "Cure for Pain" - 3:13
  10. "Mary Won't You Call My Name?" - 2:29
  11. "Let's Take a Trip Together" - 2:59 
  12. "Sheila" - 2:49
  13. "Miles Davis' Funeral" - 1:41 

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Ouça:
Morphine Cure for Pain



Cly Reis

Pix

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

cotidianas #130 - "Zerovinteum"


Rio, cidade-desespero
A vida é boa mas só vive quem não tem medo
Olho aberto malandragem não tem dó
Rio de Janeiro, cidade hardcore.
Arrastão na praia não tem problema algum
Chacina de menores é aqui 021
Polícia, cocaína, Comando Vermelho
Sarajevo é brincadeira, aqui é o Rio de Janeiro
Rio de Janeiro, demorô, é agora
Pra se virar tem que aprender na rua
O que não se aprende na escola
Segurança é subjetiva
Melhor ficar com um olho no padre e outro na missa
Situações acontecem sobre um calor inominável
Beleza convive lado a lado com um dia-dia miserável
Mesmo assim, não troco por lugar algum
Já disse: este é o meu lar.
Aqui, 021 "Cuidado pra não se queimar na praia do arrastão"
É...
Rio de Janeiro
"Aqui fazem sua segurança assasinando menor"
É...
Rio de Janeiro
"A cidade é maravilhosa mas se liga, mermão"
É...
Rio de Janeiro
"Então fica de olho aberto malandragem não tem dó"
É...
Rio de Janeiro
É muito fácil falar de coisas tão belas
De frente pro mar mas de costas pra favela
De lá de cima o que se vê é um enorme mar de sangue
Chacinas brutais,uma porrada de gangue
O Pão de Açúcar de lá o diabo amassou
Esse é o Rio e se você não conhece, bacana,
Tome cuidado, as aparências enganam
Aqui a lei do silêncio fala mais alto
Te calam por bem ou vai pro mato
Mas de repente invadem a minha área, todos fardados
Eu tô ficando loco, ou tem alguma coisa errada?
Brincando com a vida do povo, então se liga na parada
Porque hoje ninguém sabe, ninguém viu.
Um dia alguns se cansam e "pow!", guerra civil
Porque como diz o ditado, quando 1 não quer 2 não brigam
Mas já que cê tá pedindo, segura a ira
Porque a cabeça é fria, mas o sangue não é de barata
Esse é o Rio, mermão, o veneno da lata.
How how how faz o Papai Noel
Pow pow pow e nego não vai pro céu
Digo V de veneta, lírica bereta
Black Alien e família, soem as trombetas
Tomando de assalto a cidade que brilha
Mãos ao alto, vamos dançar a quadrilha 288 é formação de quadrilha
Nome:Gustavo Ribeiro, a descrição do elemento
Primeiro é o olho vermelho, na mente, no momento
Como diz o Bispo, eu sou artista, esse é meu lixo
Acesso ao som restrito aos peritos
O dialeto se dito é um perigo, amigo
Para o consumo da alma sem abrigo
O ritmo e a raiva, a raiva e o ritmo
"Cuidado pra não se queimar na praia do arrastão"
É...
Rio de Janeiro
"Aqui fazem sua segurança assasinando menor"
É...
Rio de Janeiro
"A cidade é maravilhosa mas se liga, mermão"
É...
Rio de Janeiro
"Então fica de olho aberto malandragem não tem dó"
É...
Rio de Janeiro

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"Zerovinteum" - Planet Hemp



20 de janeiro - Dia de São Sebastião
padroeiro do Rio de Janeiro