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sábado, 8 de outubro de 2011

Crosby, Stills, Nash & Young - "Dèjà Vu" (1970)





Um disco memorável... lembrou?



"'Déjà Vu': expressão francesa que significa, literalmente, já visto.
Termo usado para indicar
um fenômeno de origem neurorítmica
que acontece no cérebro que faz com que tenhamos a impressão
 de já termos visto, presenciado ou experimentado
 uma sensação anteriormente."


Para recordar a origem deste déjà vu, o quarteto surgiu a partir de desmembramentos de bandas de sucesso. David Crosby e Graham Nash tiveram músicas negadas pelos componentes dos grupos que participavam: o The Byrds e o The Hollies, respectivamente. Estes conjuntos, por estarem consolidados perante o público, tinham um apelo nas composições cada vez mais puxando para o pop. Desta insatisfação e desvirtuação artística aliado ao fim do Buffalo Springfield, de Stephen Stills e Neil Young, o resultado foi essa química que culminou num excelente álbum que mistura rock, country, folk e blues: o Dèjà Vu.

Retrocedendo um pouco, em 1969, Crosby, Stills e Nash já haviam lançado um grande disco, com título homônimo. Já nessa ótima fase que entra Young. O quarteto havia realizado diversas apresentações marcantes, tendo como especial a do Woodstock, sendo aclamados pelo público presente como um dos melhores shows do festival.

Além de Déjà Vu, Neil Young só voltou a gravar com seus parceiros (conhecidos pela sigla CSNY) no álbum Looking Forward, de 1999. Segundo Nash, foram 800 horas de estúdio para conceber o Dèjà Vu. Um disco bem dividido nas participações e nas composições. Ou seja, duas músicas para cada um, com a exceção da última, parceira de Stills e Young. Apenas uma é versão da cantora canadense Joni Mitchell. O álbum também conta com as participações Dallas Taylor (bateria e percussão) e Greg Reeves (baixo). A importância dos dois é tão relevante que estão na capa com seus respectivos nomes creditados. Esse registro impressiona pela combinação das quatro vozes, numa sincronia perfeita muitas vezes, e pelas afinações dos violões, bem atípicas.

Já que foi referida a combinação de vocais, um exemplo é Carry on, a primeira faixa. A música é praticamente cantada pelo quarteto CSNY (uma espécie de ópera), com leve destaque para a voz de Nash. Em certa parte, a canção migra para um ritmo oriental, talvez uma influência de Sargent Pepper´s, dos Beatles. Além disso, conta com um baixo bem elaborado de Reeves. Teach your children é um dos grandes hits do álbum, com uma levada extremamente country. A letra também é interessante de se destacar: “Teach your children well, Their father's hell did slowly go by, and feed them on your dreams. The one they picked, the one you'll know by” (Ensine bem suas crianças, porque o inferno dos pais delas vai passando devagar. E alimente o sonho delas, o que elas escolherem, aquele que você ficará sabendo). Essa música tem a contribuição de Jerry Garcia, do Grateful Dead, que toca uma pedal steel guitar (aquela guitarra elétrica “deitada” que se usa um bastão de metal).

Em Almost Cult my hair, Crosby monopoliza o vocal, com um som mais rock. Tem dois solos de guitarra simultâneos, bem característico do The Byrds. Adiante, com muita melancolia e desespero, vem Helpless, primeira contribuição de Neil Young mais destacada. A música é bem ao seu estilo, que consolidou sua exitosa carreira solo.

Como já referido antes neste texto (lembram?), uma música não é de autoria do CSNY e é justamente Woodstook. De certa forma, tem um forte vinculo com o grupo. Isso porque a compositora Joni Mitchell era namorada de Nash durante o período do festival, que intitula a música. Stills apresenta um vocal agressivo, comparado com outras canções do disco, além de uma pegada rock, com guitarras mais estridentes. Já Déjà vu é a mais psicodélica, apesar dos instrumentos convencionais, principalmente os violões. No início, ocorre um erro proposital, com Crosby fazendo a contagem para retomar a canção. Esta começa em ritmo acelerado e logo tem uma grande quebra, para deixar numa atmosfera mais “viajante” a quem escuta. Quem sabe seja uma situação déjà visite, um estranho conhecimento de um novo lugar.

Num momento déjà vécu (já visto) tem Our house com Nash cantando e comandando o piano. De certa forma, recorda algumas composições de Paul McCartney como, Lady Madona, por exemplo, junto com Fixing a hole, de John Lennon, isso de forma mais lenta. É uma balada bem interessante do disco. Em 4+20 a conta fica por responsabilidade de Stills, somente ele e violões. Mas também, não precisaria de mais. É a música mais introspectiva, que basicamente fala da perda de uma mulher, tendo como destino cair “nos abraços do diabo”, isso por causa de pensamentos negativos.

Country girl tem a volta de Young ao vocal principal e é a música mais produzida do disco, que contêm diversos instrumentos de cordas e percussão, além de pianos para deixá-la mais “épica”. Já a faixa Everybody I love you fecha esse registro com aquela já escrita fusão de vozes nunca vista, um jamais vu. Stills solta a voz com os seus graves em alguns momentos. O álbum termina com todo vigor e energia.

Talvez no final deste texto, você já tenha esquecido algumas coisas que escrevi. Mas, no final das contas, esse disco vai ficar muito provavelmente armazenado na memória em longo prazo do seu cérebro. Se algum dia você tiver um ótimo déjà senti musical, pode ter certeza que este álbum pode ter proporcionado este sentimento.

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FAIXAS:
1 Carry On (Stills) 4:25
2 Teach Your Children (Nash) 2:53
3 Almost Cut My Hair (Crosby) 4:25
4 Helpless (Young) 3:30
5 Woodstock (Mitchell) 3:52
6 Déjà Vu (Crosby) 4:10
7 Our House (Nash) 2:59
8 4 + 20 (Stills) 1:55
9 Country Girl (Young) 5:05
10 Everybody I Love You (Stills, Young) 2:20

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Ouça:

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

ELVIS

The Kinks - Kinks (1964)


"Podem estar certos que
 os Kinks não lançarão nada
a menos que gostem."
Brian Sommerville,
do texto da contracapa do disco de 1964.



Outro daqueles casos dos que não vieram com a mudança.
Meu irmão tinha o "Kinks" (1964) em cassete em Porto Alegre, aí quando vim pro Rio, eu trouxe o que podia mas sem desfalcar muito a discoteca dele. Chegando aqui tive que refazer boa parte da minha coleção e foi uma longa recontrução. Mas como eram muitas coisas que tinha deixado tive que eleger prioridades e nessas o Kinks acabou ficando pra trás. Me contentava em ter "You Really Got Me" no MP3 e era isso... Cara! Onde é que eu tava com a cabeça?
Acabei de readquirí-lo e sua nova audição, depois de alguns anos sem ele, só me fizeram admirá-lo mais ainda. Álbum genial e extremamente influente pro rock contemporâneo.
Além do já mencionado clássico, pesado e sujo, "You Realy Got Me" que dava nome à edição americana do álbum, também são incríveis as versões pra Chuck Berry, "Beautifull Delilah" e "Too Much Monkey Business"; a cover enloquecida de Bo Diddley, "Cadillac"; o gospel cáustico de "Bald Headed Woman"; o blues selvagem "Got Love if You Want It" com aquela bateria alta e uma condução notável da harmônica de Davies; e a ótima "I'm a Lover not a Fighter", a minha predileta depois de "You Really Got Me".
Como foi que eu pude ficar tanto tempo sem esse disco?
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FAIXAS:
1."Beautiful Delilah" – 2:06
2."So Mystifying" – 2:55
3."Just Can't Go to Sleep" – 1:57
4."Long Tall Shorty" – 2:51
5."I Took My Baby Home" – 1:47
6."I'm a Lover Not a Fighter" – 2:05
7."You Really Got Me" – 2:14
8."Cadillac" – 2:44
9."Bald Headed Woman" – 2:42
10."Revenge" – 1:30
11."Too Much Monkey Business" – 2:15
12."I've Been Driving On Bald Mountain" – 2:07
13."Stop Your Sobbing" – 2:05
14."Got Love If You Want It" – 3:45

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Ouça:
The Kinks 1964


vídeo The Kinks - "You Really Got Me"



Cly Reis

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

cotidianas #106 - "O Estrangeiro"



O pintor Paul Gauguin amou a luz na Baía de Guanabara
O compositor Cole Porter adorou as luzes na noite dela
A Baía de Guanabara
O antropólogo Claude Levy-strauss detestou a Baía de Guanabara:
Pareceu-lhe uma boca banguela.
E eu menos a conhecera mais a amara?
Sou cego de tanto vê-la, te tanto tê-la estrela
O que é uma coisa bela?


O amor é cego
Ray Charles é cego
Stevie Wonder é cego
E o albino Hermeto não enxerga mesmo muito bem


Uma baleia, uma telenovela, um alaúde, um trem?
Uma arara?
Mas era ao mesmo tempo bela e banguela a Guanabara
Em que se passara passa passará o raro pesadelo
Que aqui começo a construir sempre buscando o belo e o amaro
Eu não sonhei que a praia de Botafogo era uma esteira rolante deareia brancae de óleo diesel
Sob meus tênis
E o Pão de Açucar menos óbvio possível
À minha frente
Um Pão de Açucar com umas arestas insuspeitadas
À áspera luz laranja contra a quase não luz quase não púrpura
Do branco das areias e das espumas
Que era tudo quanto havia então de aurora


Estão às minhas costas um velho com cabelos nas narinas
E uma menina ainda adolescente e muito linda
Não olho pra trás mas sei de tudo
Cego às avessas, como nos sonhos, vejo o que desejo
Mas eu não desejo ver o terno negro do velho
Nem os dentes quase não púrpura da menina
(pense Seurat e pense impressionista
Essa coisa de luz nos brancos dentes e onda
Mas não pense surrealista que é outra onda)


E ouço as vozes
Os dois me dizem
Num duplo som
Como que sampleados num sinclavier:


"É chegada a hora da reeducação de alguém
Do Pai do Filho do espirito Santo amém
O certo é louco tomar eletrochoque
O certo é saber que o certo é certo
O macho adulto branco sempre no comando
E o resto ao resto, o sexo é o corte, o sexo
Reconhecer o valor necessário do ato hipócrita
Riscar os índios, nada esperar dos pretos"
E eu, menos estrangeiro no lugar que no momento
Sigo mais sozinho caminhando contra o vento
E entendo o centro do que estão dizendo
Aquele cara e aquela:


É um desmascaro
Singelo grito:
"O rei está nu"
Mas eu desperto porque tudo cala frente ao fato de que o rei é mais bonito nú


E eu vou e amo o azul, o púrpura e o amarelo
E entre o meu ir e o do sol, um aro, um elo.
("Some may like a soft brazilian singer
but i've given up all attempts at perfection").

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"O Estrangeiro"
Caetano Veloso




sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Sonic Youth - "Daydream Nation" (1989)


"Depois daquilo,
eu sabia que precisava ser música.
Voltamos para casa
sem darmos um pio, assustadíssimos."
Kim Gordon contando sobre
um show do Suicide que assistiu
e que a incentivou a ter uma banda 



Não há como se falar em música alternativa sem falar do Sonic Youth. Eles são praticamente sinônimo e síntese do termo. Eles não 'invetaram a roda', não criaram aquelas sinfonias de ruídos que já se ouvia com Hendrix, Velvet, Kinks, Sonics, Stooges, mas deram a estes elementos sua assinaratura e hoje em dia, sempre que se ouve aquelas guitarras insistentes, estáticas, aquelas barreiras sonoras densas, intransponíveis se associa logo a Sonic Youth.
Mesmo com uma discografia bem consistente na qual pode-se destacar vários álbuns, “Daydream Nation” de 1989 destaca-se e pode ser apontado como a obra-prima da banda. Seu punk rock é encorpado, suas melodias transitam entre o belo e o corrosivo, os vocais, principalmente os de Kim Gordon, seduzem ao mesmo tempo que cospem fogo, e suas guitarras explodem em passagens de tempo e transições longas e caóticas.
“Teen Age Riot “ abre o disco com acordes suaves e adoráveis mas logo ganha corpo adquirindo uma pegada mais consistente sem deixar de ser jovial; “Candle”, outra excelente, também passeia no limite do belo e do furioso. A destruidora “'Cross the Breeze” é a melhor do disco partindo de uma introdução lenta e leve que acelera abrupatamente transformando-se num hardcore violento, impiedoso e sensacional. "Kissability" é sexy; "Rain King" é retumbante; "Eric's Trip" é outra das melhores do disco e da banda; e “Trilogy” que encerra a obra traz em cada uma de suas partes, “The Wonder”, "Hyperstation” e “Eliminator Jr” características diferentes mas que harmonica e desarmonicamente compõe, por fim, uma perfeita unidade.
Disco indispensável de uma das bandas mais importante e influentes dos últimos tempos.
Sinônimo de alternativo!
Sonic Youth=Underground.
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FAIXAS:
  1. "Teen Age Riot" (letra/vocal Moore, Gordon na introdução) – 6:57
  2. "Silver Rocket" (letra/vocal Moore) – 3:47
  3. "The Sprawl" (letra/vocal Gordon) – 7:42
  4. "'Cross the Breeze" (letra/vocal Gordon) – 7:00
  5. "Eric's Trip" (letra/vocal Ranaldo) – 3:48
  6. "Total Trash" (letra/vocal Moore) – 7:33
  7. "Hey Joni" (letra/vocal Ranaldo) – 4:23
  8. "Providence" (vocal Mike Watt) – 2:41
  9. "Candle" (letra/vocal Moore) – 4:58
  10. "Rain King" (letra/vocal Ranaldo) – 4:39
  11. "Kissability" (letra/vocal Gordon) – 3:08
  12. Trilogy: – 14:02
a) "The Wonder" (letra/vocal Moore) – 4:15
b) "Hyperstation" (letra/vocal Moore) – 7:13
z) "Eliminator Jr." (letra/vocal Gordon) – 2:37

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Ouça:
Sonic Youth Daydream Nation



Cly Reis

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Dossiê ÁLBUNS FUNDAMENTAIS


Agora, dobrando a esquina das 100 edições, cabe uma pequena retrospectiva da seção que começou basicamente como destaques pessoais com comentários breves sobre, na maioria das vezes, CD's que eu levava no carro indo para o trabalho, mas que pela própria frequencia de visitação, troca de ideias, comentários, sugestões, etc., acabou ganhando uma certa importância dentro do blog. Dividindo as principais atenções dos amigos e visitantes com o perverso Frango Atirador, os ÁLBUNS FUNDAMENTAIS passaram a exigir deste blogueiro uma maior responsabilidade de informação, mais pesquisa e (uma tentativa de) maior qualidade dos textos. O formato se aperfeiçoou, as resenhas ficaram mais incrementadas com vídeos, downloads e letras, e participações especialíssimas de amigos abrilhataram as análises. Tive neste período o privilégio das participações do meu primo-parceiro-irmão-hermenêutico Lúcio Agacê; do antenadíssimo, porém tímido enquanto colunista, José Júnior; do brilhante e profundo conhecedor de rock Eduardo Wolff; e do meu irmão, Daniel Rodrigues, com seu ecletismo e seus textos sempre apaixonados e competentíssimos.
Virando a página destes primeiros cem álbuns, dentro de uma linha de coerência, o ClyBlog procurou mirar em todos os segmentos possíveis, sem preconceitos e tentando não cometer nenhuma grande injustiça, sem deixar contudo, de ser extremamente pessoal, independente e descomprometido nas escolhas. Na maioria das vezes é na emoção mesmo, tipo, 'puxa, tenho que falar sobre esse disco', mas às vezes vem a razão e aí se tenta equilibrar estilos, décadas, tenta-se não repetir muito os mesmos, não puxar muito pros xodós, e coisas do tipo.
A propósito de repetir, nestes primeiros cem, apenas Rolling Stones, The Beatles, PIL, Miles Davis, Bob Dylan, Jorge Ben e David Bowie fizeram dobradinhas e até agora, ninguém botou três fundamentais na roda Quem será o primeiro?
No que diz respeito às décadas, o placar de destaques é o seguinte:
  • 2 dos anos 30, "Carmina Burana" e Robert Johnson, sendo que este último só saiu em 1990; 
  • 2 dos anos 50, (Elvis e Miles Davis) ;
  • 19 dos anos 60;
  • 31 dos anos 70;
  • 25 dos anos 80;  
  • 17 dos anos 90;
  • 3 dos anos 2000;
  • + um especial com uma lista de melhores de todos os tempos

Talvez a de 60, tida como a grande década do rock pudesse ter mais representantes; talvez devêssemos ter mais dos anos 50, a década do surgimento do rock; talvez os anos 40 merecessem unzinho que fosse; talvez devesse olhar mais para o nosso novo século... Bom, nada é perfeito. Mas também nada está descartado. Aos poucos justiças vão sendo feitas, importâncias vão sendo dadas e assim por diante. Vamos em frentre, postando e ver o que acontece.
Prontos para mais cenzinho então?


C.R.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

O Frango Atirador

Primal Scream - "Screamadelica 20th Anniversary Tour" - Circo Voador - Rio de Janeiro (23/09/2011)




Nesta última sexta-feira acontecu a primeira noite de apresentações do Rock in Rio.
...
...
...
Bom, e dai?
Azar de quem foi à tal Cidade do Rock e não estava na Lapa, como eu, delirando com o show da turnê de aniversário de 20 anos do álbum "Screamadelica" do Primal Scream.
Que Rock in Rio que nada! O verdadeiro rock no Rio de Janeiro estava acontecendo lá no Circo Voador. E se toda a cidade estava mobilizada para assistir às rihanas e cláudiasleittes da vida, ali na Lapa, um pequeno grupo de fieis assistia a um show histórico, que diga-se de passagem, foi, com louvor, proporcionado por eles mesmos, que num esforço incomum fizeram trazer ao Rio uma atração que estava praticamente descartada para cá.
Talvez (e provavelmente) em retribuição a este esforço do público para vê-los, o que se viu no palco foi uma banda vibrante e pilhada, com Bobby Gillespie absolutamente simpático e empenhado.
Fugindo um pouco à regra deste tipo de show comemorativo de álbum, não tocaram as músicas exatamente na ordem do disco, deixando para o final seus grandes clássicos, "Loaded" e "Come Together", com execuções memoráveis, para êxtase geral e catarse coletiva.
Um barato também "Higher Than the Sun" numa versão psicodelíssima e esticaaaaada pra caramba, e para o vocal poderoso da negrona que simplesmente detonou na dançante e empogante "Don't Fight It, Feel It". Ponto negativo, a meu ver foi a ausência no set-list de "Shine Like Stars", a última do álbum que acabou não sendo tocada, e num show com este tipo de proposta, entendo que não devesse ficar nenhuma de fora. Mas isso foi mero detalhe. Diante de todo o resto isso foi ferimento leve.
Showzaço.
Showzaço!
Showzaço!!!
Daqueles pra entrar pra minha história. Tipo, "eu vi o Primal Scream tocar o "Screamadelica!".
(entra imediatamente para a lista dos grandes shows que tive o prazer de assistir)
Que Rock in Rio que nada!
Em lugar nenhum eu poderia estar melhor do que ali, na Lapa, no Circo, diante do Primal Scream naquela noite.


Toda a psicodelia do Primal Scream no palco.


Bobby Gillespie comandando a festa.

Loucura total!


Um show para guardar na memória.


Cly Reis

sábado, 24 de setembro de 2011

Exposição 'Queremos Miles!' - CCBB- Rio de Janeiro (18/09/2011)











capa de "Tutu",  álbum da
popularização definitivada obra de Miles
Aproveitando bem minha estada no Rio, pude conferir no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB RJ), em companhia de meu irmão e editor deste blog, a ótima exposição “Queremos Miles”, sobre a vida e obra do músico de jazz norte-americano Miles Davis (1926-1991). A mostra, que vai somente até 28 de setembro, recupera (quase) toda a biografia do talvez maior gênio do jazz mundial em todos os tempos, um verdadeiro escultor de sons e revolucionário da música do século XX ao lado de alguns outros poucos como Stockhausen, Tom JobimStravinsky Beatles.
Miles ainda menino
Organizada pela Cité de la Musique de Paris, a exposição – cujo título em português, embora a tradução literal, perde em significado, uma vez que o original, “We Want Miles”, faz menção também ao nome de um disco de Miles Davis –, resgata de forma cronológica a biografia deste influente artista que, disco após disco, antecipava e inventava novas tendências, novos estilos, revolucionando a arte moderna e influenciado gerações. O recorte pega desde o seu nascimento, na sulista de St. Louis, trazendo fotos dele quando pequeno com sua família, até o período final de sua carreira, demarcado por sua última obra-prima dentre as várias que produziu em quase 50 anos de vida artística: o álbum “Tutu”, de 1986, marco da criação do hoje popularizado jazz lounge. Da fase inicial, estão o encontro com Charlie Parker e Dizzie Gillespie, o “nascimento do cool”, em 1948, e os admiráveis títulos pelo selo Prestige nos anos 50, para o qual gravou seis obras-primas com o quinteto que incluía nomes como John Coltrane, Red Garland e Sonny Rollins.
Os instrumentos da banda dos anos 70
Multimeios, a abrangente mostra contém um rico acervo de aproximadamente 300 itens entre fotografias raras, capas de LP's, vídeos de apresentações em TV e shows, roupas e vários instrumentos utilizados por ele e por suas célebres bandas, além de partituras, documentos de registro de gravações em estúdio, quadros (belíssimos!) pintados pelo próprio Miles e até o manuscrito original do texto do pianista Bill Evans da contracapa do clássico álbum “Kind of Blue”, de 1959, o disco de jazz mais vendido da história e considerado por muitos insuperável no gênero. E, claro, muita música! Em cada canto, em cada ilha que se entrava pode-se escutar algumas das maravilhas de Miles. Às vezes, nem percebia que me apressava em ver determinada coisa, atraído pelo som de uma “All Blues”, “Pharaoh's Dance” ou “Nuit sur les Champs-Élysées“.
Painel com o estilo Miles dos anos 80
A personalidade camaleônica de Miles Davis, que nunca teve medo de mudar e progredir ao longo dos anos fica evidente, principalmente no aspecto visual: os finíssimos trajes bem cortados que vestia nos anos 40 e 50, transformariam-se, nos 60 e 70, na estética psicodélica da juventude. Igualmente, a bem elaborada curadoria de Vincent Bessières soube destacar muito bem os pontos impostantes da obra de Miles, como a fascinante trilha sonora do filme “Ascensor para o Cadafalso”, de 1957, a parceria com o pianista e maestro Gil Evans, que gerou os históricos “Miles Ahead” e “Porgy and Bess” (1957 e 59, respectivamente), ou as salas especiais dos discos clássicos: "Kind of Blue", sobre o qual comentei aqui neste blog tempo atrás; “In a Silent Way” e “Bitches Brew”, ambos de 1969 e marcos do jazz fusion; "A Tribute to Jack Johnson" (1971), a memorável trilha para o documentário sobre o boxeador a quem Miles tanto admirava; e “On the Corner”, de 1972, quando Miles introduziu de vez o som do funk que vinha dos guetos americanos em sua música.
A única falha, por assim dizer, é a não inclusão do seu último disco, o póstumo “Doo-Bop”, de 1991. Sei que os puristas torcem a cara para este trabalho por sua mistura de hip-hop com jazz, o que aparentemente motivou a organização da mostra a não referi-lo – evidenciando a menor importância a que geralmente lhe atribuem. Eu, particularmente, gosto bastante deste disco não só por sua qualidade musical como por sua importância dentro da música pop diante do que se faria a partir de então no mundo do entretenimento. Quando os norte-americanos do Us3 surgiram com aquele seu jazz-rap em 1993, embora tenha gostado da banda, não segui o estardalhaço em torno do grupo como sendo algo revolucionário justamente por já ter escutado tudo aquilo em “Doo-Bop”. A justificativa dos críticos é a de que os produtores que finalizaram “Doo-Bop” o teriam feito sem a qualidade que Miles imprimiria se estivesse vivo. Sinceramente, acredito que, se o músico tivesse morrido depois da feitura do álbum, o conteúdo seria praticamente o mesmo e muitos dos detratores certamente o louvariam hoje (talvez até mais do que o disco merecesse). Preconceito ou não, falta de critério ou não, o fato é que, até por seu caráter póstumo, considero este momento importante na biografia do artista, por isso a falta dentro da exposição. Mas, entre tantos acertos que “Queremos Miles” traz, isso é o de menos. Mais fácil eu pegar meu “Doo-Bop” e me deliciar sozinho em casa.

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Queremos Miles
Até 28 de Setembro
Local: Térreo e 1º andar | CCBB RJ
Horário: Terça a domingo, das 9h às 21h


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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Philip Glass e Tim Fain- Teatro Municipal - Rio de Janeiro (15/09/2011)




Terminou no último dia 19 a série de recitais para piano e violino que o maestro e compositor norte-americano Philip Glass fez no Brasil neste mês de setembro nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Porto Alegre. Na companhia de minha mãe – que até pouco tempo não o conhecia, mas é uma boa curiosa –, pude conferir a apresentação carioca, em pleno Teatro Municipal. Um luxo e um prazer a todos que puderam admirar um pouco da vasta e incomparável obra deste que é um dos maiores gênios vivos da música moderna, uma alma revolucionária e transformadora.
O fato de se restringir a apenas dois instrumentos não tirou a graça em nenhum momento da apresentação. Muito pelo contrário. Acostumado a compor para grandes orquestras ou mesmo conjuntos de câmara, Glass, inventivo compositor e exímio pianista, é também autor de magníficas obras solo, e foi este o recheio do que pôde ser apreciado pelo público. Estavam lá, só em piano e/ou violino, suas marcas: os acordes repetidos, as estruturas minimalistas, as melodias circulares, as variações tonais escritas com perfeição. A música de Glass flerta com o rock, com a música eletrônica, com a simplicidade saudável do pop, mas sempre com o pé firme no clássico. Ou seja: uma música completa para os nossos tempos. Para que outros instrumentos, né?
Com repertório todo de sua autoria, ele e o violinista norte-americano Tim Fain presentearam, em pouco mais de uma hora e meia, a numerosa plateia com dez números, começando pela inédita e “Três Estudos para Piano”, cujo primeiro movimento é simplesmente espetacular. Seguiu-se a longa e variante “Partita para violino solo”, escrita por Glass especialmente para as mãos hábeis e de pura sensibilidade de Fain. Depois do intervalo, vieram “Metamorphosis”, para piano, e a brilhante “Music from The Screens”, para piano e violino. A primeira parte, “The Orchard”, toda em contraponto, remete direto às fugas de Bach, porém com cores que modernizam o barroco. “France” e “The French Lieutenant” completaram esta que foi das mais aplaudidas da noite.
Glass e seu piano magistral
A seguir, ouviu-se “Pendulum”, também para piano e violino, em que o músico parece ter criado uma trilha poética para o conto de Poe: um pêndulo que se sucede em movimentos contínuos, de um lado para o outro, em sons com intervalos regulares, trazendo novamente a sensação de espiral característica de sua maneira de compor.
Show terminado, minutos de aplausos. Mas viria mais. No bis, Glass anunciou em português (aliás, como fizera sempre que falava ao microfone, lendo ou não) duas de suas obras-primas: “Opening/Closing”, da célebre série das “Glassworks”, gravadas por ele em 1981. Fui com grande expectativa para que tocasse essa. E ele tocou. Uma peça onde lirismo romântico e modernismo estão incrivelmente bem casados. Depois desta, podia até ir embora que já me dava por satisfeito. Mas aí Fain sacou seu violino e mandou ver a hipnótica e cáustica “Knee 4”, da “ópera-punk” "Einstein on the Beach" um dos ÁLBUNS FUNDAMENTAIS deste blog. Mesmo sem as vozes do coral, e tocando apenas uma parte da original, o violinista finalizou o recital em alto estilo com esta peça de difícil execução e requerente de muita técnica e velocidade.
Agora não precisava mais nada. Piano, violino e a magistral música de Philip Glass, além da beleza redentora do Municipal e a calorosa companhia de minha mãe. Noite de gala.



cotidianas #105 - "Só Tetele"



Tetele
Fon
Nei
Práticon
Tar que se
Tua ore
Lhatapegandofo
Go
Eu
Pen
Sando
Envo
Se...

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música "Só Tetele"
Os Mulheres Negras

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Os Causo de Dois Morro - Roque in Dois Morro



Tá se falando muito desse ter de Rock in Rio mas, é que esse pessoar de hoje tem memória curta e não se alembra que o maior evento desses que já teve foi o Roque em Dois Morro. Aquilo sim é que foi festivar!
Foi-se no sítio do compadre Jesuíno. Ele emprestô uma parte da pastage prumas gurizada dessas que gostava dessas música barulhenta fazê lá os tar de show.
As gente da cidade de começo fêiz poco caso da festança porque o negócio deles mesmo era fandangada, mas aos poco fôro se costumando co’a ideia, fôro ficando curioso e no fim das conta quando foi de tê os espetáclo, tava todo a indiada e todo o chinaredo lá. Foi cousa linda de se vê. Devia tê, só no pátio do compadre Jesuíno, uns vinte milhão de pessoa. Gente até adonde as vista arcançava. Isso sem sem fala nos bicho. O que tinha de besta, viado, vaca e galinha era uma grandeza. Os da fazenda do seu Jesuíno, é craro!
Se presentaro no festivar uns pessoarzinho meio esquisito, uns estrangero lá das estranja dos Iuésssei, uns gringo que falavo enrolado e podio até tá chingando nóis, mas como nóis num entendia nada, só dancemo e pulemo.
Tinha uns lá que era os Metálico, que ero o pessoar que trabalhava na siderúrgica e que resorvero montá um grupo, mas era um troço mui barulhento; tinha a Neide GaGa  que era uma véia que levava esse pelido porcausdeque já tava  tão esclerosada que já tava té usando umas rôpa mutcho da esquisita ; tinha os Hot Dog Xis e Pepsi que era a turma lancheria da esquina que se ajuntou também pra fazer um som; o Feijans‘n Arrozes que era o pessoar que fazia as colheta dos grão;  o Barrão Vermelho que era o pessoar da plantação de beterraba; uma tar de Carla Leitte que trabaiava nas ordenha; a Ri-Ana que nas verdade só se achamava-se Ana, mas como que ria mutcho, o pessoar começô a chma´ela assim; tinha tamém o Ramiro Cai, um rapaz que tava sempre tomando uns tombo, e mais um bocado de gente. Mutcha gente boa.
Sei que o festivar foi um sucesso. Mutcho, secsso, mutcha droga e mutcho roquenrrou! Depois um empresário quis fazê ôtro lá e pediu de novo o sítio do compadre, mas o véio Jesuíno não ia querê aquela rapaziada fazendo senvergonhice e usando tóchico na fazenda dele de novo. Aí acabô que não teve ôtro festivar. Só sei que o empresariador esse, levô o evento pra cidade do Rio de Janêro e virô o tar de Rock in Rio, mas que não chega nem perto do de Dois Morro.
Antes já tinho tentado fazê um ôtro mas um mar-entendido acabô por impossibilitá o evento: foi que um empresariante interessado chegou pro dono da venda, o seu Valério, que tava disposto a botá dinheiro, e falô pra ele bem assim: “a gente podia fazer um festival de rock, podia fazer aqui o Woodstock”, aí o seu Valério, o comerciante respondeu, “o do estoque acabou. Não vai dá pra fazê” e o moço que queria fazer o festivar, desistiu, fêiz em ôtro lugar. Acho que foi lá pras banda dos Estadozunido.
Pra vê como são as coisa...
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Tem uma ôtra versão que diz que na verdade o Roque em Dois Morro foi um dia que o Roque Santêro, o Roque Júnior, o Roque SantaCruz e o Roque do pograma Sílvio Santos visitaro a cidade. Mas vai se sabê. É difícer acreditá em tudo o que esse pessoar fala por aí.

postado por Chico Lorotta

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Exposição "I'm A Cliché" - CCBB - Rio de Janeiro (18/09/2011)





Estive ontem, finalmente, na exposição "I'm a Cliché - Ecos da Estética do Punk" no CCBB, aqui no Rio, um retrato da estética do punk, na companhia do meu irmão, colaborador, jornalista e blogueiro, Daniel Rodrigues, que é tão amarradão no assunto quanto eu.
Muito legal a exposição!
Melhor do que eu imaginava.
da série "Rimbaud em
Nova York"
Destaque principalmente para os trabalhos dos fotógrafos Bruce Conner e David Wojnarowicz que me impressionaram muito positivamente, especialmente este último com a série "Rimbaud em Nova York".
No restante, muito legais os espaços do Velvet Underground com projeções de pequenos filmes do padrinho Andy Wahrol e a sala dos Sex Pistols com toda aquela identidade visual inconfundível dos puplilos de Malcolm McLaren.
entrada da exposição:
passeando entre LP's
Bacana também a entrada da exposição com um pórtico por onde se passa e se vê, ali, nas paredes capas de discos marcantes do movimento, enquanto os alto falantes tocam exemplares clássicos de punk-rock como Kennedy's, Television, New York Dolls e outros. Enquanto instalação de exposição, era até meio tosca pra falar a verdade, mas é sempre um barato passear entre as capas dos discos que nos marcaram e empolgam ao som daquela trilha sonora.
Entre Sid e Johnny
na sala dos Pistols
Punks, roqueiros e simpatizantes, apressem-se. A exposição só fica até 02 de outubro.

sábado, 17 de setembro de 2011

cotidianas #104 - O Barroso


Éramos os renegados.
Éramos aqueles que não serviam para os melhores times do bairro ou do colégio, então resolvemos nos juntarmos e fazermos nosso próprio time. De início sem uniforme mesmo. Sem nome. Somente um bando de desprezados juntos. Éramos aqueles com pouca habilidade, pouco trato, dribles parcos e criatividade mínima. Embora dotados de muito interesse e muita paixão pela bola, não havíamos sido contemplados com a benção de seu manejo. Eu um avante tosco; o Cabelo um zagueiro baixo e porra-louca; o Alembér que tinha um bom chute mas não muito mais que isso; o Carlos Henrique rápido mas sem cérebro; o Éderson, um pouco mais habilidoso mas insuficiente; e aí por diante.
Deve-se, contudo, fazer justiça ao nosso goleiro, o Tairone, frequentemente solicitado e pretendido pelos melhores times do bairro e para os torneios mais importantes. Havia treinado no Inter até, mas embora não fosse exatamente baixo, sua estatura mediana não favorecia a pretensões profissionais. Assim, ficava atendendo a diversos timezinhos pelas redondezas. Mas apesar de tanto prestígio e procura, colocando como critério maior a amizade, a camaradagem, a curtição, o Tairone seguia conosco; ao lado dos perdedores. E nosso time começava com ele, que invariavelmente evitava vexames maiores contra o time do Leléco, para o qual sempre perdíamos. O Leléco jogava nas categorias de base do Internacional mas volta e meia, quando não tinha compromisso com o clube, se prestava a juntar-se ao pessoal da Saldanha da Gama para nos humilhar. Os demais não eram lá tudo isso: tinha o Ronaldo que era goleador, o Mad que achava que jogava mais do que realmente jogava e tinha esse apelido por ser a cara do Alfred Newmann da revista MAD; tinha o Testa que até jogava bola mas que sempre queria dar um lençol em qualquer jogada, e alguns outros certamente mais hábeis que nós, mas que sem o ‘craque’ semiprofissional, o Leléco, até seriam possivelmente batíveis.
Mas todo domingo de manhã quando nos encontrávamos no campinho do colégio Caldas Júnior, onde passávamos por um buraco na cerca para jogar, embora enchêssemos-nos de expectativa de que daquela vez o Leléco estaria doente, viajando com a delegação dos juniores do Inter, indisposto, ou qualquer coisa assim, e seria então desta vez mais fácil vencê-los, lá vinha ele com seu andar de boleiro, meio de lado, insolente. Resultado: mais uma goleada. Estávamos convencidos que só um alguma coisa fora do comum, uma nevasca, um furacão, um fenômeno natural poderia nos fazer ganhar a primeira.
Então que numa daquelas manhãs de jogo, no inverno gaúcho, chegamos a ficar em dúvida se deveríamos ou não comparecer ao nosso compromisso dominical, tal era a intensidade da chuva e o frio que fazia. Domingo 8h da manhã, sair de baixo do cobertor pra levar outro ‘arrodião’? A resposta foi 'sim'! A fome falava mais alto.
Chegamos no campinho de terra do colégio e além do frio que era maior do que imaginávamos, as gotas de chuva batiam na pele como pedras, grossas e geladas, mas já que estávamos ali, o melhor que se podia fazer àquelas alturas era rolar o caroço pra se esquentar. As condições adversas nos davam a esperança que alguns deles tivessem desanimado e preferido ficar debaixo dos cobertores e chegassem bem desfalcados, mas para nossa decepção, assim como nós, não tinham resistido ao chamado da bola e todos, inclusive o Leléco, tinham tomado coragem e resolvido ir jogar bola naquele domingo tempestuoso.
Mas naquele dia não adiantou Leléco nem telecotéco. Parecia que a chuva derramava-se sobre nós como uma espécie de mágica e naquela lama toda, era como se nos transformávamos em gigantes. Não chagava a fazer o milagre de nos fazer jogar como Zicos, Sócrates ou Falcões mas nos imbuía de uma coragem e uma raça que até então não conhecíamos em nós mesmos e que surpreendia até o adversário deixando-os um tanto atônitos.
Assim, de forma surpreendente e heroica os gols foram se sucedendo: de cabeça, de falta, com a bola parando na poça, com falha do goleiro, um gol meu de carrinho no lamaçal da pequena área, um dos Henrique driblando meio time, e por fim, um golaço do Alembér do meio da rua, no ângulo. 7x4! Tínhamos vencido! Tínhamos vencido!
A nossa vitória fora tão impressionante pela entrega, pela luta, que o Testa, um dos bons do time deles, provavelmente impressionado pela força coletiva, a partir daquele dia preferiu os mais fracos porém mais apaixonados, do que aquele outro bando de futeboleiros pedantes. O Leléco ainda saiu de campo nos tentando nos zombar, “ganharam uma, hein!”, mas não estávamos nem aí. Sabíamos que a partir daquele momento éramos um time.
Naquela época rolava uma propagando do Conhaque Dreher que duvidava que um jóquei conseguisse ganhar com um cavalo pangaré. O cara olhava para o cavalo e dizia pro jóquei, “quero ver ganhar com esse, Barroso” e no final da propaganda, provavelmente por ter tomado o tal conhaque, o jóquei, o Barroso ria por último. Nós, também desacreditados, tínhamos vencido com nosso pangaré. E naquele barro, então!!! Aí foi inevitável: brincávamos com nossa própria desgraça e triunfo: Éramos o Barroso.
O nome foi mesmo mais folclórico e acabou que durou pouco. Logo achamos a necessidade de ter um nome um pouco mais respeitável, nos levamos mais a sério, nos estruturamos a partir dali, compramos camisetas, tivemos dificuldades de nos firmar com um bando de ruindades, agregamos mais qualidade com o tempo e o Barroso acabou-se transformando na temível Juventus, um time de bairro extremamente competitivo e vencedor como nunca poderia-se imaginar ao ver naquele domingo chuvoso de junho ou julho, aquele bando de guris perebas correndo atrás de uma bola no meio do barro.
Ao voltar pra casa naquela manhã, imundo e enlameado, entrei pela cozinha pra não molhar a casa toda, e enquanto minha avó ralhava comigo pelo estado em que chegava, ouvia no rádio dela que aquela manhã havia sido a mais fria do inverno e uma das mais frias dos últimos tempos na cidade com sensação térmica de 4 ° negativos. Nossa! Não havia sido à toa que tínhamos ganho naquele dia. Não tinha sido uma nevasca, é verdade, nem um furacão tampouco, mas aquele pequeno dilúvio e todo aquele frio naquela manhã de Porto Alegre, não tinha lá sido uma coisa muito comum.



Cly Reis

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

"Escuta Só - do Clássico ao Pop", de Alex Ross, ed. Companhia das Letras (2011)



"Eu sempre quis falar de música clássica como se fosse popular
e de música popular como se fosse clássica."
Alex Ross


Tão logo soube que sairia, já me aprontei para comprar o livro "Escuta Só - Do Clássico ao Pop", do jornalista Alex Ross, e agora finalmente o adquiri. Meu acentuado interesse dá-se muito pelo fato que, pelo que sei e conheço deste crítico, sua abordagem nesta obra aproxima-se muito de uma visão que eu já expunha aqui no blog algumas vezes, quanto à relação da música contemporânea com oque se considera um música erudita ou de nível superior.
Alex Ross, assim como eu, antes de mais nada, entende que música é música simplesmente e que os rótulos ou nomenclaturas, em grande parte dos casos são inadequados, sobremaneira o do gênero tido como 'clássico', e que na verdade, só o afasta do público em geral e tenta colocá-la num pedestal mais alto do que precisaria estar. E tudo isso, quando na verdade tudo na música não passa de uma evolução, transformação de conceitos, épocas, ideias que fazem desembocar em outras formas de manifestação,novas técnicas, linguagens muitas vezes tão válidas e qualificadas quanto estas elitizadas porém subestimadas por serem punk, funk, pop, etc.
Embora não precise de respaldo para escrever qualquer coisa que afirme aqui, fico feliz em ver num crítico e jornalista conceituado e criterioso, um pouco desta proximidade de conceito a respeito da música. Apenas para citar como exemplos, aqui mesmo já foi mencionada a formação erudita de Trent Raznor dos Nine Inch Nails, e que no entanto, não o impede de produzir algumas das canções mais furiosas dos últimos tempos; a veia clássica do Kraftwerk que faz deles, para mim, os herdeiros legítimos de toda a tradição musical alemã de Brahms, Bach, Schubert; as sinfonias ruidosas do My Bloody Valentine; a breve analogia entre "TV II" do Ministry com "Eggo Sum Abbas" da obra "Carmina Burana" e a própria inclusão desta obra de Carl Orff  nos ÁLBUNS FUNDAMENTAIS do ClyBlog, salientando toda a característica pop da obra, valendo-me inclusive de um comentário do próprio Ross na introdução.
Comecei agora a leitura. Nem sei se ele toca exatamente nestes pontos, nem qual exatamente o foco de abordagem, mas a mera semelhança de pensamentos e o fato de falar de música de forma tão abrangente já me faz ter todo o interesse neste trabalho.
À leitura!



Cly Reis

Coleção Folha Grandes Arquitetos





Aos colegas arquitetos e outros possíveis interessados, para quem não sabe ainda, a Folha de São Paulo lançou, desde a última semana uma coleção interessantíssima com livros sobre 18 grandes nomes da arquitetura mundial com suas respectivas biografias, obras significativas, croquis, plantas, dados técnicos e curiosidades. A Coleção Grandes Arquitetos sai todo o final de semana e já teve no primeiro número Frank Lloyd Wright, levando de quebra, na primeira semana, o segundo, de Renzo Piano, sendo que esta dobradinha só se deu nesta abertura de coleção e os demais exemplares serão vendidos individualmente. Virão por aí ainda mestres como Mies Van der Rohe, Le Corbusier, Gaudí e muitos outros. Particularmente senti falta de Richard Meyer na coleção, mas, enfim..., não se pode ter tudo; e de todo modo muitas vezes essas coisas de coleções coletivas e similares passam por questões como de direitos de imagem, autorais, editoriais e etc. que talvez seja o caso.
Os livros podem ser adquiridos em qualquer banca de revistas e custam R$16,90. Quem perdeu o primeiro número, com certeza, se se apressar, ainda pode encontrar esta semana nas bancas. E fiquem ligados porque no próximo número tem o mestre brasileiro Oscar Niemeyer.




Confira abaixo todos os números da publicação:


  1. Frank Lloyd Wright
  2. Renzo Piano
  3. Oscar Niemeyer
  4. Antoni Gaudí
  5. Le Corbusier
  6. Santiago Calatrava
  7. Norman Foster
  8. Jean Nouvel
  9. Tadao Ando
  10. Steven Holl
  11. Dominique Perrault
  12. Mies Van Der Rohe
  13. Zaha Hadid
  14. Rafael Moneo
  15. Álvaro Siza
  16. Alvar Aalto
  17. David Chipperfield
  18. Kango Kuma