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domingo, 29 de janeiro de 2012

Organismo











Organismo I

Organismo II

Organismo III

Organismo IV

Organismo V

Organismo VI

Organismo VII
Organismo VIII

fotos: Cly Reis

Morrissey no Brasil em 2012


Confirmado: Ele Estará Entre Nós
Depois de muita especulação e expectativa sobre datas no Brasil, número de apresentações e possíveis locais, Morrissey, ex-vocalista dos The Smiths confirma três shows em terras brasileiras para março, sendo uma delas aqui no Rio (Uhuuuuu!!!)
Tenho que admitir que como já o vi ao vivo, não me mexeria para outros estado para assistir a outro show dele, mas como vai passar por essas bandas, por aqui, a menos de meia-hora da minha casa, bom..., não tem como não ir. "Tamo lá"!
Morrissey é um daqueles casos raro de popularidade, respeitabilidade e idolatria. Mesmo depois de quase 25 anos do fim da banda que encabeçava, uma das mais adoradas dos últimos tempos no universo do rock, e com uma carreira solo bastante irregular qualitativamente falando, com trabalhos bastante medíocres à exceção de 2  ou 3 álbuns, é um fenômeno que continua emocionando os fãs, vendendo relativamente bem para os padrões da indústria fonográfica atual (mesmo brigando contra o sistema das gravadoras e não parando em nenhuma), mobilizando devotos no mundo inteiro e ainda sendo digno da menção de 'maior inglês vivo', por exemplo, como atribuiu o jornal inglês The Guardian.
Exagero? Talvez não.
Em minha passagem por Londres pude ratificar o respeito que o público e a imprensa tem com este artista. É como uma onipresença: mesmo quando não está com álbum na praça, gravando ou em turnê, o mínimo espirro dele tem que ser registrado. Sempre há uma referência, uma entrevista uma nota no jornal nem que seja pra dizer que ele está com dor de garganta (e houve mesmo uma notícia assim quando estive lá). Algo do tipo, 'não esqueçamos que Morrissey está entre nós'.
Podem ter certeza que nós não esquecemos. E, em março, amigos, é a nossa vez de tê-lo novamente entre nós. Desta vez aqui no Brasil. Novamente.
Preparem as carteiras e aguardem os preços de ingresso e locais de venda. Por enquanto, o que temos são apenas as datas e locais dos shows. Confiram aí:


7/3 - Porto Alegre - Pepsi On Stage
9/3 - Rio de Janeiro - Fundicão Progresso
11/3 - São Paulo - Espaço das Américas



C.R.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Pix

cotidianas #132 - Noite de Silêncio


-Tide... – insistia ela com voz de reclamação e cansaço.
E a resposta dele era apenas um grunhido que mal sugeria que estivesse ouvindo.
- Hmf... – respondia ele sem sequer abrir os olhos.
- Tide, cê tá roncando de novo – reclamava num tom copioso.
- Ãrrã... hnf... – e continuava dormindo.
Desde que casaram sempre fora aquela coisa. Já se iam 42 anos de casados e nunca tinha tido uma noite de silêncio. Acabava dormindo porque precisava, pela necessidade, pelo cansaço não raro com o ronco do Aristides se intrometendo nos seus melhores sonhos; ou só lá pelas 6 da manhã quando ele já estava pra acordar.
- Tide... - E dava-lhe um cutucão, um bundaço, uma cotovelada. O Aristides até parava por 10, 30 segundos, um minuto no máximo, mas logo recomeçava aquele troar infernal que volta e meia acordava até o próprio roncolho, que assustado abria os olhos abobalhado até perceber o que o havia despertado. Então voltava a dormir meio encabulado e, naquele curto espaço de tempo entre a vergonha e o novo sono, percebia o porquê da mulher tanto reclamar com ele. Mas logo caía no sono pesado de novo e o martírio da dona Cleide recomeçava.
Em determinado momento das madrugadas, ela resignada, levantava, ia até a cozinha, tomava um copo de água ou de leite e voltava para tentar pegar no sono. E naquela noite não foi diferente; depois de alguns cutucões, empurrões e trombadas, Dona Cleide, desistente de qualquer recurso, levantou, calçou os chinelos foi até a cozinha mas daquela vez não abriu a torneira e não foi à geladeira. Girou a chave da porta e sumiu no pátio por alguns minutos. No fundo do sonho do Aristides pareciam se misturar às vozes das pessoas, o latido de um cão mas que estranhamente parara abruptamente. Ainda bem! O sonho era tão bom. Era recebido num jantar de luxo por uma bela mulher que lhe indicava o lugar onde deveria sentar. A mesa era farta, um jantar suntuoso, pessoas bonitas e animadas, e o sonho continuava com tratamentos de nobre e outras regalias.
Então Dona Cleide surgiu no quarto e parou ao lado da cama com o machado da lenha na mão. Parecia hipnotizada. Não piscava. Só mirava o Aristides, ali, roncando que nem um porco. O primeiro golpe foi nas costelas, o Aristides urrou de dor e mal teve tempo de olhar e ver que Dona Cleide lhe golpeava mecanica e desordenadamente porque os golpes seguintes já atingiam pontos vitais. Pescoço, cabeça, peito, peito, peito, cabeça... E foram muitos. Descontrolados e raivosos.
Dona Cleide só parou de bater quando o braço lhe ficou dormente, talvez um minuto, um minuto e meio depois. Ofegante apenas olhava para a cama. Apenas olhava fixo. Mas era como se não estivesse vendo nada. Olhos num vazio.
Então, depois de um longo suspiro, soltou o machado apenas deixando-o escorregar ao lado do corpo e, ignorando o sangue que empapava os lençóis e a massa moída sobre o colchão deitou para dormir sem sequer se dar ao trabalho de afastar alguns dedos que ficaram ali sobre o travesseiro. Deitava exausta. Finalmente teria uma noite de silêncio.

Cly Reis

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Gal Costa - "Recanto" (2012)

Canto. Cantar. Recanto. Recantar

Caetano Veloso lança seu melhor disco desde os anos 70. Ops! Ato falho. Desculpem: não foi ele, e sim a também baiana, também tropicalista, também cantora Gal Costa com o CD “Recanto”, certamente seu melhor trabalho desde “Cantar”, de 1974. Porém, meu engano não foi à toa: assim como o mencionado LP dos anos 70, marcante obra do tropicalismo a qual Caetano dirigira e dera o norte de todo o trabalho, este novo projeto repete a fórmula engendrada pela dupla: Gal pondo seu belo canto a serviço de uma ideia coesa e verdadeira e Caetano com a batuta, produzindo e concebendo.
As semelhanças vão além do formato, uma vez que, a princípio, o colorido e tropical “Cantar” – cujo repertório inclui, entre outros compositores, quatro canções de Caetano –, parece não ter nada a ver com o obscuro e ruidoso “Recanto”, totalmente construído com novas composições do “mano Caetano”. “Recanto Escuro” (assista ao vídeo abaixo), sua mais nova obra-prima – que entra para o time de “Sampa”, “Gema” e “Trilhos Urbanos” – abre o disco dando o tom soturno e introspectivo que perfará boa parte do restante do disco. Uma melodia quase invariável, bela e triste, sem refrão. Seca. Letra de reflexão, de lamento, como que ecoada de um recanto escuro de onde saem confissões vasculhadas na alma tanto dele quanto dela. Mas o que poderia ser feito só ao violão e voz, ganha, no arranjo eletrônico texturado de Kassin, uma cara de peça da vanguarda erudita, um Stockhausen, um Xenakis, um Varèse. Absolutamente genial!
O tom de vanguarda, ora com ares de Velvet Underground, ora Brian Eno, ora Silver Apples, perpassa todo o disco, dando-lhe um caráter moderno e duro, que responde ao estilo introspectivo da maioria de suas faixas, como o rock “Cara do Mundo”, a bossa-modernista “Autotune Auterótico” e a genial eletro-monofonia “Neguinho”, um 9 Inch Nails menos pesado mas tão corrosivo quanto que remete também ao krautrock de Neu! e Faust. Clima sujo que encaixa totalmente com a letra, mordaz e ferina. Caetano solta o verbo com sentenças como: “Neguinho compra 3 TVs de plasma, um carro GPS e acha que é feliz”, ou ainda: “Neguinho quer justiça e harmonia para se possível todo mundo. mas a neurose de neguinho vem e estraga tudo”. No rim.
Belas também a bossa com pitadas eletrônicas, “Mansidão”, a mais “Gal” de todas, e “Segunda”, um xote só ao cello e prato de cozinha, totalmente acústico. Mas outra surpreendente é “Miami Maculelê”, um funk carioca estilizado na qual o ouvido apurado de Caetano consegue extrair uma das coisas que sempre me chamaram atenção neste estilo dito vulgar e pobre musicalmente, que é a intenção de abrasileirar o ritmo estrangeiro. O funk carioca não é só a batida funkeada do rap, pois contém, no repique da batida, uma pitada de samba, o que, nessa salada toda, acaba por remeter aos sons e danças africanos e indígenas da raiz brasileira, uma embolada, um coco, um batuque, um... maculelê.
As referências ao período heróico da MPB não ficam só em Gal, mas em Caetano e na Tropicália como um todo. E é aí que se dão as semelhanças entre o histórico “Cantar” e o atual “Recanto”. Se antes Rogério Duprat ou Guilherme Araújo eram os maestros que davam corpo aos arranjos , agora é o jovem Kassim que destila seus computadores para cumprir esta função. Outra autoreferência está em “Tudo Dói”, que dialoga com “Lindoneia”, do Tropicália 1 (1967) ao transmitir o mesmo sentimento de depressão de uma mulher solitária (não sem querer, “Lindoneia” também tinha sido dada a uma intérprete cantar, Nara Leão).
Venho notando certo furor quanto a este Caetano rocker e tecnológico, que, desta vez, não se concretizaram em críticas, mas em elogios. Um pouco porque, com Gal interpretando tão bem, obviamente, os méritos são muito dela. Porém, novamente parece que Caetano nada de novo contra a corrente, pois os que elogiaram não parecem saber por que o fazem, uma vez que estranham algo que não é de hoje, basta ter um pouquinho de interesse – ou coragem. A parceria com Kassin, por exemplo, vem desde o pouco comentado “Eu não peço desculpa”, dele e de Jorge Mautner (2002). A veia experimental e vanguardista, igualmente, vem desde o concretista “Araçá Azul” (1972) e está claramente em músicas como a parafraseada “Doideca” (brincadeira com o termo “dodeca-fonia”), do CD “Livro” (1997), ou no “Rap Popcreto”, do Tropicália 2 (1993).
O fato é que gostei por demais de “Recanto”. Outro dia, em conversa com outro colaborador deste blog, meu primo Lúcio Agacê, ele me ponderou algo com certa razão. Para ele, o fato de a “finada” Gal voltar dando um salto tão grande diante daquilo que vinha conseguindo produzir se deve exclusivamente a Caetano, alguém que, além de um amigo generoso, é um cara que está sempre se renovando. Concordo se comparado com a fraca Gal que veio degringolado nos anos 80 e se instaurou na mediocridade nos 90. Mas tropicalista é tropicalista. Se compararmos àqueles primeiros idos dela, “Gal” (1969), “Fa-Tal” (1971), “Índia” (1973) e, principalmente, “Cantar”, seu ápice, a musicalidade não está muito diferente. Mais avançada em certos aspectos, menos explosiva do que antes, mais high-tech em texturas; porém a Gal de “Recanto” recupera a Gal daquela época - mesmo com 40 anos de atraso.
Num ano de um ótimo Chico Buarque novo, de um surpreendente Criolo e de um elogiado Lenine, 2012 começa também com uma nova Gal recantando-se. Antes tarde do que nunca.

vídeo de "Recanto Escuro", Gal Costa



Ouça o disco:
Gal Costa Recanto

Pix

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Guns'n Roses - Appetite for Destruction (1987)




A capa original censurada nos Estados Unidos
e abaixo a alternativa que a substituiu.
“Bem-vinda à selva,
nós temos diversões e jogos.
Nós temos tudo o que você quiser, querida,
nós sabemos os nomes.
Nós somos as pessoas
que podem encontrar
tudo o que você precisar.
Se você tiver o dinheiro, querida,
nós temos sua doença
Welcome to the Jungle.



Confesso que a primeira vez que escutei Guns não sabia o que era esse som. Perguntei para um amigo meu sobre uma música do Rush, visto que ele é especialista nessa banda e não encontramos a canção, que era "Sweet Child O´Mine" e estava numa trilha sonora de novela “O Sexo dos Anjos”
Este disco possui uma das melhores músicas “cartão de visita” do rock que é “Welcome to the Jungle”, aquela que abre o disco e apresenta para o ouvinte qual é a o clima que tu vais escutar. Assim de cabeça me lembro de outras músicas “cartão de visitas”, I Saw Her Standing There no primeiro disco dos Beatles, o Smell Like Teen Spirit do Nirvana no "Nevermind", o War Pigs do Sabbath, O Led III com o Immigrant Song e ai por diante.
Mas como bem disse o Cap. Nascimento “Eu vou... retomar o raciocínio”. Pois bem, o "Appetite for Destruction" mantém uma média de canções muito boas, e encontrou um nicho muito pequeno de mercado que ficava espremido entre os rocks poseur americanos de Poison, Skid Rows e Cinderellas da vida, o rock do The Cult, Led Zeppelin e de bandas de bebedeiras como o Creedence,Thin Lizzy e AC/DC. Na interseção dessas 3 esferas musicais (bonito isso) localizou-se o Guns com este disco.
Bons tempoe de um disco com começo, meio e fim, com músicas que preparam umas às outras. Por exemplo, depois do clássico “Welcome to the Jungle”, vêm 3 músicas boas, que preparam para a maravilhosa “Mr. Brownstone”, que levanta a bola para a “Paradise City” com o seu indefectível apito de início do ferro sonoro.
Depois de uma aliviada com “My Michelle”, a rotação aumenta bastante com “Think About You” e prepara para a “Rushiana” (não sei de onde eu achava parecido com Rush essa música, mas enfim) “Sweet Child O´ Mine”, hit radiofônico que os tornou conhecidos mundialmente, é o “Satisfaction” do Guns. “You´re Crazy” tem uma certa pitada de punk em sua parte inicial, uma quebra com um temperinho blues e segue rápida de novo.
Quase terminando o disco vem uma das minhas preferidas de todas as músicas do Guns que é “Anything Goes” com sua batida de bateria invertida e é uma música bem construída que dá uma derrapada e tu pensa, “Isso não vai engrenar...” mas é como aquele carro V8 que tu acelera e ele te avisa, “Tô derrapando mas tô tranquilo...”.
O disco termina com um clima de “quero ver como vai ser o próximo disco deles” com a mais elaborada “Rocket Queen”.
Resumindo. "Welcome to the Jungle", "It´s so Easy", "Mr. Brownstone", "Paradise City", "Anything Goes". Discaço que merece ser ouvido dentro de um Muscle Car, um Mustang, um Dodge, um Mavericão V8 daqueles que fazem 4 km por litro. A propósito, alguém ai aceita troca de algum desses carros por um Civic?
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FAIXAS:
1. "Welcome to the Jungle"
2. "It's So Easy"
3. "Nightrain"
4. "Out Ta Get Me"
5. "Mr. Brownstone"
6. "Paradise City”
7. "My Michelle"
8. "Think About You"
9. "Sweet Child o' Mine"
10. "You're Crazy"
11. "Anything Goes"
12. "Rocket Queen"


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Ouça:
Guns'n' Roses Appetite fo Destuction



terça-feira, 24 de janeiro de 2012

cotidianas #131 -Super (II)



grafite de Ge Feng


- Moça... Moça... Moça!
Parou num susto a atenta leitura e virou o rosto para o lado com uma sincera expressão de surpresa e estranheza. Como um scanner, seus olhos verdes percorreram duas vezes de cima a baixo aquela figura vestida com elegância casual, alta, de traços bem desenhados e de olhar seguro. Pois deu tempo de perceber, entre uma escaneada e outra (ela era perita nisso), que o olhar daquele rapaz jovem e magro tinha, por detrás dos óculos fundos, um jeito firme e seguro que lhe era estranhamente familiar. Como ela permaneceu em silêncio, mesmo que continuasse olhando-o fixamente, ele prosseguiu:
- Com licença: posso lhe dizer uma coisa importante para mim?
- ... humm? – respondeu mais com as narinas do que com a boca naquele tom de desconfiança e descrédito repelente que usava quase conscientemente em horas de desconforto, mas que, inexplicavelmente, não abalou seu mais novo interlocutor.
- Sabe – disse ele, saindo da posição levemente arqueada de quem pede autorização para entrar em algum lugar, chegando agora centímetros mais perto para que ninguém além dos dois ouvisse o que ia revelar. – Sabe: eu nunca acreditei em Deus. Mas passei a acreditar desde agora a pouco, segundos atrás. Quanto te vi.
Recuou a boca da altura do ouvido dela e ficou em silêncio uns segundos, lançando um olhar firme e grave nos olhos de Ana Cláudia.
- Somente um ser superior para ter criado uma mulher tão linda. – acrescentou já afastado e no mesmo tom de voz suave de quando começou a falar, demarcando o ponto final com um piscar de olhos em câmera lenta. Recolheu o olhar e o carrinho de compras e, despedindo-se só com a cabeça, sério e sereno, sumiu no corredor dos congelados. Desapareceu.
Ainda estática, pasma, pensou: “que maluco!”. Tentou armar um sorriso de indiferença, mas o que saiu foi um de perplexidade. Sentiu-se ridícula com aquele sorrisinho e o desfez logo, pois não havia mais interlocutor à sua frente para exercitar a indiferença. Sentiu-se confusa. Ana Cláudia espichou o pescoço e acreditou ter visto no horizonte aquele rapaz esquisito – e estranhamente atraente por não lhe parecer atraente – entre embalagens coloridas e pessoas concentradas em suas próprias vidas e compras. “Ah, as pessoas!”. Tocou-se de que havia outros no supermercado. Largou ligeiro o xampu dentro do carrinho sem concluir aquela desinteressante leitura do rótulo, jogou os cabelos loiro-acinzentando recém-escovados para trás e seguiu em linha reta, como se seu destino fosse aquele desde a eternidade.
“E se tiverem notado? Será que fiz aquela cara?...”, perguntou-se, já ficando receosa. De fato, a estranha abordagem mexera com ela. Um desconcerto inesperado. Não identificava bem porque, mas confundira sua cabeça, e isso lhe perturbava. Por que aquele tipo meio nerd, nada a ver com uma executiva como ela, inventou de abordá-la assim, tão diretamente, tão inadvertidamente? “O que ele viu em mim? Será a maquiagem, ou o cabelo? Como alguém faz isso tão sério e sem... sem... sem uma brincadeirinha antes, sem tentar lançar um charme? Assim, no seco?!” Franziu a testa, pois de repente lhe passou pela cabeça se aquilo, de fato, tinha sido uma cantada. ”Será?... Nããão! Se estivesse tão interessado assim, ele pelo menos ficaria para ouvir minha resposta – que, claro, seria um ‘obrigada’ educado seguido de um ‘adeus’ dispensador. Afinal, o Luiz Renato não ia gostar nada de ver isso. Mas será que ele realmente ia se importar?... Faz horas que tá desatento comigo, anda grosseiro. Sempre foi grosso. Certo que tá de amante! Mas eu sei me vingar. Ah, isso eu sei! E esse menino não chega nem aos pés da qualidade de homem que eu posso ter. Tipo o Michel. Homem boooom! Humm, o Michel... Ah, se o Luiz Renato sabe... É: não é de hoje que esse casamento tá uma merda. Não fosse essa bendita sociedade! E o Bruninho, que não vive sem ele. E eu também não sei se ia me fechar com outro homem. Com todos os defeitos, o Luiz Renato é como eu: sabe o que quer da vida, e isso é que importa. E não acredita nessas bobagens de romantismo. Muito menos em religião, em Deus. Rá-rá! Hoje em dia, é quase impossível achar homem assim, são tudo uns bobos. Por isso a gente fecha tão bem, eu acho... Nos casamos porque sabemos crescer juntos, sabemos dar valor ao que a gente ganha. A gente sabe fazer dinheiro juntos, coisa rara num casal. A Sílvia sempre nos critica, diz que a gente usa o dinheiro pra se ‘escudar dos sentimentos’, que isso é ‘fuga da realidade’, bla bla bla, bla bla bla, todo aquele papo dela. Mas não temos vergonha de pensar assim, nããão! A gente não acredita nessa balela de que dinheiro não compra felicidade. Isso é mentalidade de quem não sabe ganhar dinheiro, igual a Sílvia e aquele tipo de rapazinho-que-não-tem-onde-cair-morto que ela tá sempre pegando. Dinheiro, se não traz felicidade, meu bem, pelo menos manda o motoboy entregar direitinho na tua porta. Rárárárá! Ai, que horror! Se meu pai me ouve falando isso! Seu Werner é sempre tão sério...”
Porém, aquilo continuava lhe importunando: e se foi uma cantada? A essas alturas, já estava jogando automaticamente os produtos dentro do carrinho, sem ver preço nem direito o que levava. “Por que meter Deus nessas coisas?”, pensava bastante incomodada. Até que se deu conta de que podia topar de novo com ele. Rodou a cabeça meio assustada para ver se aquela alma não reaparecia. (“Teria sido verdade?...”) “É, tomara que nunca mais apareça!”, dizia-se, já mordiscando o crucifixo que levava no pescoço. Quando inseguros, uns mexem nos cabelos, outros roem as unhas ou coçam a cabeça. Ana Cláudia, nessas horas, crava os dentes em Jesus. Ah, se seu Werner a visse fazendo isso! Desde cedo na vida, sua relação com Deus era conturbada. Quando criança, no interior, não entendia porque era obrigada a ir à missa e a rezar naquele altar sombrio e assustador dentro da sua própria casa. “E o suplício que era aquela reza antes de cada refeição?” Umas duas ou três vezes, distraída no restaurante, fez menção, numa naturalidade idiota, de levar o indicador à testa antes da primeira garfada. Deu-se conta no meio do movimento e, constrangida, fingiu uma coçadinha no nariz pontiagudo. Sílvia seguidamente brinca dizendo que a amiga acredita mais em Kotler do que em Deus. Embora o tom de ironia, Ana Cláudia acha graça e não rebate. Pois talvez seja verdade.
“Mas ele pareceu tão seguro quando me disse aquilo... ‘Somente um ser superior para ter criado uma mulher tão linda’”. Gravou. Riu para dentro, deixando escapar para fora um leve sorriso de contentamento nos lábios. “Eu, linda... e aquele olhar. Fixo em mim, sério, quase não piscava. Cruz credo! Me deu até medo! E se esse louco me atacasse?! Nããão. O olhar era de autoridade, de poder, não de má intenção. Me lembrou até o seu Werner... Aquele jeito de quem sabe o que eu estou pensando, de quem sabe...”
Ana Cláudia olhava para o infinito, perdida em seus pensamentos, quando sentiu que algo lhe avisava que, no fim daquele infinito, havia a cara de uma moça. Voltando daquele sono desperto em que se encontrava, a visão de Ana Cláudia foi rapidamente desembaralhando, formando uma imagem nítida. Olhou a moça com uma sincera expressão de espanto de quem só agora se apercebia de que não havia uma máquina registrando suas compras, mas, sim, uma adolescente espinhenta, de maquiagem exagerada sobre as pálpebras e já um tanto impaciente.
- Débito ou crédito, senhora? – entoou a menina, dando a entender que refazia a pergunta.
- ... d... débito. Não! Minto: crédito! Crédito, por favor.
Enfiou a chave, mas não a virou. Com zoom nos olhos, mirou por segundos a sacola de compras que largara no banco do carona e, no silêncio dos vidros blindados, sentiu uma repentina vontade de chorar. “Chorar não é do teu feitio”, lembrou-se do Luiz Renato falando com aquele sorrisinho de pouco-caso e dedicando mais atenção ao copo de uísque. Com certa raiva de si mesma, refez-se e voltou a ser a alta executiva segura e invejada. Antes de dar a partida, olhou de novo para a sacola a seu lado e, sem saber precisar ao certo nem porque aquilo lhe angustiava, teve a clara sensação de que não conseguira comprar alguma coisa.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Morphine - "Cure for Pain" (1993)



“Obrigado Palestrina!
É uma linda noite!
É ótimo estar aqui e quero dedicar uma canção super-sexy a todos vocês…”
últimas palavras ditas por Mark Sandman
antes de sofrer um infarto fulminante no palco



Uma formação, no mínimo, curiosa: uma bateria, um sax e um contrabaixo. Sem guitarra. Isso mesmo. E mais: o baixo, funcionado como centro musical,  tendo apenas duas cordas e na maior parte das vezes apresentando afinações um tanto peculiares. Com esta ousadia o Morphine trouxe em “Cure for Pain” de 1993 uma adorável mistura de rock, jazz, country e funk como poucas vezes se viu na hisória do rock.
A primeira faixa de trabalho da banda, a espetacular “Buena” é um jazz-rock alucinado bem pontuado num baixo embrigado e oscilante alternando com rompantes arrasadores do saxofone.
“Thusday” é outra das melhores, parecida com “Buena” até, bem impetuosa e pegada, trazendo um pouco mais de elementos de funk; “Sheila”, mais um destaque, é um pouco mais lenta e com mais ênfase no sax; e “In Spite of Me”, também bem legal, tocada no bandolim é uma das poucas que traz um elemento de corda que não seja o baixo aleijado de Mark Sandman (apenas 3 faixas tem alguma intervenção de guitarras).
Boas também, "Head With Wings" com o sax mandando ver, "Mary Won't You Call My Name?" com uma levada maiscountry; e a embalada "All Wrong" com seu ritmo todo quebrado.
Outro dos casos de um artista de altíssima qualidade e potencial que morreu cedo demais. Certamente o Morphine ainda teria muita coisa interessante para mostrar. Deixaram apenas quatro discos antes que Mark Sandman sofresse um infarto durante um show na cidade de Palestrina, na Itália.
Uma pena. Mas por outro lado, uma sorte que tenha dado tempo de nos deixarem um disco como “Cure for Pain”.
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FAIXAS:
  1. "Dawna" - 0:44 
  2. "Buena" - 3:19
  3. "I'm Free Now" - 3:24
  4. "All Wrong" - 3:40
  5. "Candy" - 3:14
  6. "A Head With Wings" - 3:39
  7. "In Spite of Me" - 2:34 
  8. "Thursday" - 3:26
  9. "Cure for Pain" - 3:13
  10. "Mary Won't You Call My Name?" - 2:29
  11. "Let's Take a Trip Together" - 2:59 
  12. "Sheila" - 2:49
  13. "Miles Davis' Funeral" - 1:41 

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Ouça:
Morphine Cure for Pain



Cly Reis

Pix

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

cotidianas #130 - "Zerovinteum"


Rio, cidade-desespero
A vida é boa mas só vive quem não tem medo
Olho aberto malandragem não tem dó
Rio de Janeiro, cidade hardcore.
Arrastão na praia não tem problema algum
Chacina de menores é aqui 021
Polícia, cocaína, Comando Vermelho
Sarajevo é brincadeira, aqui é o Rio de Janeiro
Rio de Janeiro, demorô, é agora
Pra se virar tem que aprender na rua
O que não se aprende na escola
Segurança é subjetiva
Melhor ficar com um olho no padre e outro na missa
Situações acontecem sobre um calor inominável
Beleza convive lado a lado com um dia-dia miserável
Mesmo assim, não troco por lugar algum
Já disse: este é o meu lar.
Aqui, 021 "Cuidado pra não se queimar na praia do arrastão"
É...
Rio de Janeiro
"Aqui fazem sua segurança assasinando menor"
É...
Rio de Janeiro
"A cidade é maravilhosa mas se liga, mermão"
É...
Rio de Janeiro
"Então fica de olho aberto malandragem não tem dó"
É...
Rio de Janeiro
É muito fácil falar de coisas tão belas
De frente pro mar mas de costas pra favela
De lá de cima o que se vê é um enorme mar de sangue
Chacinas brutais,uma porrada de gangue
O Pão de Açúcar de lá o diabo amassou
Esse é o Rio e se você não conhece, bacana,
Tome cuidado, as aparências enganam
Aqui a lei do silêncio fala mais alto
Te calam por bem ou vai pro mato
Mas de repente invadem a minha área, todos fardados
Eu tô ficando loco, ou tem alguma coisa errada?
Brincando com a vida do povo, então se liga na parada
Porque hoje ninguém sabe, ninguém viu.
Um dia alguns se cansam e "pow!", guerra civil
Porque como diz o ditado, quando 1 não quer 2 não brigam
Mas já que cê tá pedindo, segura a ira
Porque a cabeça é fria, mas o sangue não é de barata
Esse é o Rio, mermão, o veneno da lata.
How how how faz o Papai Noel
Pow pow pow e nego não vai pro céu
Digo V de veneta, lírica bereta
Black Alien e família, soem as trombetas
Tomando de assalto a cidade que brilha
Mãos ao alto, vamos dançar a quadrilha 288 é formação de quadrilha
Nome:Gustavo Ribeiro, a descrição do elemento
Primeiro é o olho vermelho, na mente, no momento
Como diz o Bispo, eu sou artista, esse é meu lixo
Acesso ao som restrito aos peritos
O dialeto se dito é um perigo, amigo
Para o consumo da alma sem abrigo
O ritmo e a raiva, a raiva e o ritmo
"Cuidado pra não se queimar na praia do arrastão"
É...
Rio de Janeiro
"Aqui fazem sua segurança assasinando menor"
É...
Rio de Janeiro
"A cidade é maravilhosa mas se liga, mermão"
É...
Rio de Janeiro
"Então fica de olho aberto malandragem não tem dó"
É...
Rio de Janeiro

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"Zerovinteum" - Planet Hemp



20 de janeiro - Dia de São Sebastião
padroeiro do Rio de Janeiro

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Pix

Deep Purple - "Made in Japan" (1972)

“Ainda adoro o rock n’ roll,
mas, para dizer a verdade,
não costumo ouvir nem mesmo 
as minhas gravações de rock,
pois prefiro uma música com mais substância.
É legal de tocar, mas não de ficar ouvindo.”
Ritchie Blackmore



Quando o assunto é Deep Purple a primeira coisa que me vem à cabeça é o vinil "Made In Japan" de 1972 que eu tive o prazer de escutar aos nove anos. Sim, aos nove! Quando eu não tinha o que fazer, eu e minha amiguinha ficávamos mexendo nos discos do irmão dela. Entre um vinil e outro, escutávamos coisas do tipo Jimi Hendrix, Led Zeppelin, Janis Joplin, Jethro Thull, Rolling Stones, The Police, ACDC e bem de vez em quando rolava uma Xuxa também, afinal éramos crianças. Mas o que predominava era o rock! Foi ai que começou minha paixão por música boa...
E uma das músicas do D.P. que mais me deixou alucinada com a guitarra mais fascinante que já havia escutado até então, foi a maravilhosa 'Strange Kind Of Woman', como um grito de início de Ian Gillan e os riffs e solos de Ritchie Blackmore deslumbrantes. Aliás, no meio dessa música tem um belo duelo de guitarra-vocal com Gillan e Blackmore que ao vivo sempre termina com um extremamente longo, grito estridente de Gillan.
A canção foi originalmente chamada de "Prostitute". Gillan introduziu a música no Deep Purple: "Era sobre um amigo nosso que se relacionou com uma mulher e foi uma história triste. Eles se casaram, e alguns dias depois ela morreu”. Mas o fato é que esta música não é sobre uma mulher, mas sim uma compilação de emoções e decepções, e tal pacote foi nomeado Nancy.
E voltando ao assunto gritos estridentes, não posso deixar de destacar também a maravilhosa 'Child In Time' com os inacreditáveis agudos de Gillan e o solo de Jon Lord nos teclados, aliás, a banda inteira faz uma baita contribuição de solos inexplicáveis nessa música!
Não, eu não vou falar sobre 'Smoke On The Water', essa música nem precisa de comentários né?! É simplesmente o hino da banda!
O álbum que eu escutava, do grito inicial até o grito final e que, nove anos depois, finalmente encontrei em CD esse disco que com certeza marcou minha infância.
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FAIXAS:
1. Highway Star
2. Child In Time
3. Smoke On The Water
4. The Mule
5. Strange Kind Of Woman
6. Lazy
7. Space Truckin'

*em 1998 foi lançada uma edição remasterizada com um disco extra com mais 3 faixas:
1. Black Night
2. Speed King
3. Lucille
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Ouça:
Deep Purple Made In Japan

sábado, 14 de janeiro de 2012

Máquina




Máquina 1

Máquina 2

Máquina 3

Máquina 4

Máquina 5

Máquina 6

Maquina 7
fotos: Cly Reis

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

cotidianas #129 - "Isso é Entretenimento"


Um carro de policia com uma sirene barulhenta
Uma britadeira pneumática rasgando o concreto
Um bebe chorando e o uivo de um vira-lata
O barulho dos freios e as lâmpadas de um poste piscando


Isso é entretenimento


O vidro sendo esmagado e as passadas de uma bota
Um trem elétrico e a destruição de uma cabine telefónica
Os muros pichados e o choro de um gato
Um blackout e bolas sendo chutadas


Isso é entretenimento


Dias rápidos e as segundas-feiras lentas
O mijo descendo com a chuva e as quartas-feiras tristes
Assistir as noticias e não tomar seu chá
Um apartamento frio e a humidade das paredes


Isso é entretenimento


Acorda as 6 da manhã em uma manhã fria
Abrir a janela e respirar poluição
Uma banda amadora ensaiando num terreno próximo
Assistir a televisão pensando no seus feriados


Isso é entretenimento


Acorda de um pesadelo e fumar uns cigarros
Acariciar uma garota e sentir seu perfume amanhecido
Dias quentes de verão e o asfalto preto grudento
Alimentar patos no parque e desejar esta longe da li


Isso e entretenimento


Dois amantes se beijam perto da meia-noite
Dois amantes perdendo a tranquilidade da solidão
Pegar um táxi e viajar de ônibus
Ler os grafites sobre negócios escrito nas cadeiras


Isso e entretenimento


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tradução da letra de "That's Entertainment" do The Jam
autor: Paul Weller


*imagens da capa do disco "Sound Affects" do The Jam

Ouça:
The Jam - "That's Entertainment"

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

João Gilberto - "João Gilberto" (1973)



“Melhor do que o silêncio, só João.”
Caetano Veloso



"João Gilberto", de 1973, não é tão importante quanto “Getz/Gilberto” (1964), obra-prima e definitiva difusora da bossa nova para o mundo; não sustenta a idolatria e o pioneirismo de “Chega de Saudade” (1958), precursor de todo o movimento e referência a TODOS os artistas de MPB a partir de então; nem é tão clássico quanto “Amoroso” (1977), cujo repertório escolhido a dedo traz orquestrações que se harmonizam à voz e ao violão com assombroso requinte. Mas “João Gilberto” é, certamente, o mais João Gilberto dos João Gilberto. Mínimo, detalhista, preciso, econômico, delicado. Perfeito.
De fato, é difícil apontar apenas um disco de João como fundamental. Sua obra é um verdadeiro evangelho de toda a música popular brasileira moderna. E isso se reafirma a cada esporádica gravação que faz. Seu estilo revisita toda a tradição do samba, de Nazareth ao batuque do morro. Moderno e tradicional ao mesmo tempo, o modo de cantar de João passeia com naturalidade de Orlando Silva a Chet Baker, passando por Mário Reis, Carlos Gardel, Vicente Celestino, Cartola, Bola de Nieve e Elizeth Cardoso num lance. Isso tudo aliado a uma técnica inovadora de tocar e, mais do que isso, de estruturar a melodia.
Até o advento da bossa nova, as notas dissonantes nunca haviam sido empregadas em música popular em nenhum lugar do mundo com tamanha exatidão e consciência e em sintonia perfeita (mesmo quando “fora” do compasso, coisa comum em João) como as que consegue extrair de seu violão. Toda essa gama de referências poderia muito bem virar uma salada sonora ininteligível; mas nas mãos e no gogó dele se cristalizaram no mínimo, no volume baixo e apenas audível, no controle absoluto da voz e dos silêncios. Num acorde tão bem elaborado e executado que vale por uma escola de samba inteira.
O que dizer, então, do álbum? Para começar, nada mais, nada menos, talvez a mais bela gravação da mais bela música já composta nesses pagos tupiniquins: “Águas de Março”, de  Tom Jobim .
Já está ali a tônica do disco: voz e violão perfeitamente modulados – a ponto de se escutar os trastes do violão, a respiração e a umidade da língua – acompanhados de uma econômica percussão. Nada mais (e precisa?). A harmonia feita sobre esta melodia indefectível é de uma beleza tamanha que chega a me fugir à compreensão. Faz-me lembrar o que o fã incondicional Caetano Veloso  diz sobre o ídolo: “ninguém consegue mudar tanto mudando tão pouco”. É, de fato, complexo e mínimo como um traçado de Niemeyer, como uma remoinhante de Van Gogh, como um solo de  Miles Davis .
Na sequência, “Undiú”, das raras composições do próprio João e uma de suas mais inspiradas. Trata-se de um samba-de-roda meio baião Gonzaga, meio valsa minimalista, meio canto de pescadores a la Caymmi, em que João articula, com uma afinação incrível, alguns fonemas sem sentido sintático, mas repletos de sentido melódico. Em seguida, o baiano verte outro clássico da MPB. Ou melhor: o reelabora. “Na Baixa do Sapateiro”, de Ary Barroso, vira uma peça instrumental tão bem arranjada e executada que sua partitura poderia muito bem servir como o 13º Estudo para Violão de Villa-Lobos.
Em “Avarandado” e “Eu Vim da Bahia”, dos então “novos baianos” Caetano Veloso e Gilberto Gil , respectivamente, o “velho baiano” tem a coragem de gravar os amigos conterrâneos recém retornados do exílio – ou seja, ainda sob vigília pelo governo militar. Mas João nem quis saber. E as duas músicas são lindas: “Avarandado”, brejeira e apaixonada, e “Eu vim...”, aquele samba radiante e colorido cheio de África-Brasil por todas as notas como só Gil sabe fazer.
Entre as que mais escuto estão “Falsa Baiana” e “Eu Quero um Samba”, tomadas de “requebros e maneiras”, de um swing pleno e natural. Aí vem “Valsa” ou “Bebel” ou “Como São Lindos os Youguis”, outra de autoria de João composta para a filha, a hoje mundialmente conhecida Bebel Gilberto, à época com 6 anos. É uma bela “valsa de ninar”, sem letra, só cantarolada. Imagino que os “Youguis” do subtítulo deviam fazer muito sentido para aquela criança (tanto que os considerava “lindos”). Mas que privilégio ser ninada com uma maravilha dessas, hein? Só podia virar cantora.
A triste “É Preciso Perdoar” e o divertido samba-crônica “Izaura”, a única em que divide os vocais – o que o fez muito bem com Miúcha, mãe de Bebel e então esposa –, fecham este disco inigualável dentro da música brasileira por sua simplicidade e coesão. Seria ridículo dizer que aqui João Gilberto atinge a maturidade musical, pois se trata de um artista que já nasceu maduro. Mas faz sentido pensar que, nesses idos, início dos 70, a bossa nova teve tempo de ser criada, exportada e assimilada por tropicalistas e outrem, a ponto de suas notas dissonantes se integrarem ao som dos imbecis. Tom, Vinícius e ele já haviam entrado para a história pela criação de um estilo musical tão rico que somente meia dúzia de jazzistas, roqueiros e eruditos da vanguarda conseguiram tal feito no século XX. Então, era hora de pegar o banquinho, o violão, aquele amor e 10 canções selecionadas com primor como João sempre soube fazer. Tudo isso para quê? Para ensinar ao mundo como se ouve o silêncio.

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FAIXAS:
1 - "Águas de Março" (Tom Jobim) – 5:23
2 - "Undiú" (João Gilberto) – 6:37
3 - "Na Baixa do Sapateiro" (Ary Barroso) – 4:43
4 - "Avarandado" (Caetano Veloso) – 4:29
5 - "Falsa Baiana" (Geraldo Pereira) – 3:45
6 - "Eu Quero um Samba" (Janet de Almeida, Haroldo Barbosa) – 4:46
7 - "Eu Vim da Bahia" (Gilberto Gil) – 5:52
8 - "Valsa (Como são Lindos os Youguis)" (João Gilberto) – 3:19
9 - "É Preciso Perdoar" (Alcivando Luz, Carlos Coqueijo) – 5:08
10 - "Izaura" (Roberto Roberti, Herivelto Martins) – 5:28

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Ouça:
João Gilberto 1973